sábado, 14 de dezembro de 2019

Colectânea Número 1 (1994)

por Paulo Neto

Quando se fala das colectâneas da série "Número 1" que entre 1991 e 1996 reuniam os grandes hits da época e vendiam-se que nem pãezinhos quentes, vem a memória a figura do Fido Dido, a famosa mascote da 7Up, que ilustrou alguns dos volumes da série. Mas no volume editado por ocasião do Natal de 1994, foi outro lendário e simpático boneco que adornou a capa.



O Natal de 1994 foi marcante para mim pois foi quando recebi uma aparelhagem com CD que eu andava a pedir há meses aos meus pais. Era uma aparelhagem da Grundig (eu teria preferido da Sony, mas a cavalo dado não se olha o dente!) com leitor de CD, cassete e rádio que foi parar à nossa sala nessa véspera de Natal. Durante a aquisição da aparelhagem no Entroncamento (na mesma loja onde ele tinha comprado o nosso videogravador cinco anos antes) o meu pai também me deu dinheiro para comprar um CD para levar e optei pelo volume 27 da série britânica de compilações "Now That's What I Call Music", cujos tomos importados encontravam-se à venda em Portugal antes e ainda alguns anos depois da criação da série NOW portuguesa, que eu algum tempo já namorava na loja da Fotocor em Torres Novas. Uns dias depois, com algum do dinheiro que tinha recebido nesse Natal, comprei também este volume da série "Número 1", desta feita editado pela BMG com o apoio de outras editoras, e que tinha na capa o Sonic, a famosa mascote da SEGA! Foi a única vez que o célebre ouriço azul adornou um tomo dessa série de compilações.
Eram vinte e quatro as faixas incluídas neste volume (doze em cada CD) e vamos agora analisá-las por ordem do alinhamento (links para o YouTube nos negritos):     

CD1
1. Youssou N'Dour & Neneh Cherry "7 Seconds": Começamos com aquela que é sem dúvida de uma das canções marcantes do ano de 1994, o sumptuoso dueto entre o senegalês Youssou N'Dour e cantora de origem sueca Neneh Cherry. Na altura, ele era um dos artistas africanos mais celebrados internacionalmente, tendo por exemplo colaborado com Peter Gabriel, ela desde 1988 somava hits como "Buffalo Stance", "Manchild", "Buddy X" e uma inovadora versão de "I've Got You Under My Skin". O título refere-se ao tempo que um recém-nascido leva a aperceber-se dos problemas do mundo. Cantado em inglês, francês e wolof, um idioma da África Ocidental, "7 Seconds" foi número 1 durante 16 semanas em França, tendo também chegado ao lugar cimeiro em Finlândia, Islândia, Itália e Suíça além de ter ganho o prémio de Melhor Canção nos primeiros prémios MTV Europe. Infelizmente, a versão incluída neste CD não inclui o belíssimo solo de violino. O David Martins já falou aqui sobre esta canção, que faz parte das suas memórias do seu trabalho de Verão numa oficina de automóveis. Em 2012, Youssou N'Dour tentou candidatar-se à Presidência do Senegal, mas acabou como Ministro do Turismo, cargo que ocupou durante um ano. Neneh Cherry continua no activo embora longe do sucesso que conheceu nos anos 80 e 90, mas a sua filha mais nova Mabel é uma das cantoras pop do momento. 
2. Aerosmith "Crazy": Após mais de vinte anos no activo e após muitos altos e baixos, os Aerosmith gozavam então o auge da carreira com o álbum "Get A Grip" de 1993. O último single "Crazy" tornou-se uma das suas baladas mais emblemáticas e o videoclip ficou famoso por reunir as actrizes Alicia Silverstone (que tinha aparecido em dois videoclips anteriores da banda "Cryin'" e "Amazing") e Liv Tyler, filha do vocalista Steven Tyler, quando ambas ainda eram adolescentes, no papel de duas colegiais em fuga.
3. Roxette "Crash! Boom! Bang!": Recentemente tivemos a triste notícia da morte de Marie Fredriksson, a voz feminina dos Roxette, sem dúvida um dos mais bem-sucedidos grupos suecos pós-ABBA. Embora igualmente poderosa nos temas mais roqueiros, sem dúvida que a voz de Marie era mais emblemática nas baladas do grupo, como "It Must Have Been Love", "Spending My Time", "Listen To Your Heart" e esta, que dava título ao então novo álbum dos Roxette, que também incluía hits como "Sleeping In My Car" e "Vulnerable".
4. Crash Test Dummies "Mmm Mmm Mmm": Assim de repente, parece impossível que uma canção com um título impronunciável e que falava sobre crianças que ficaram grisalhas durante um acidente, com manchas por todo o corpo ou que assistem a uma inexplicável desbunda numa igreja, tenha sido um êxito internacional. Mas foi o que aconteceu em 1994 com este tema da banda canadiana Crash Test Dummies. "Mmm Mmm Mmm" ajudou às vendas do álbum "God Shuffled His Feet" (incluindo em Portugal) mas este permaneceria como o único momento mainstream da banda. Após algumas pausas para projectos solos e afins, a formação original da banda reuniu-se em 2017 e em 2018, fizeram uma digressão pelo Canadá e Estados Unidos para celebrar os 25 anos do seu mais famoso álbum.
5. Bryan Ferry "Your Painted Smile": Um dos homens mais estilosos do rock, quer à frente dos Roxy Music quer na carreira a solo, o inglês Bryan Ferry editou em 1994 o seu primeiro álbum em sete anos, intitulado "Mamouna" (não, não era sobre a Patrícia), para o qual colaboraram vários do seus colegas dos Roxy Music, incluindo Brian Eno. Este foi o primeiro single, com influências da "trip hop".
6. Eros Ramazzotti "A Mezza Via": Embora desde muito cedo a sua carreira tenha tido repercussões fora do seu país, foi com o álbum de 1993 "Tutte Storie" que o italiano Eros Ramazzotti se afirmou como uma estrela internacional. Portugal foi sem dúvida um dos países onde o álbum foi campeão de vendas, tendo passado mais de um ano no top 30 nacional (embora apenas uma em n.º 1) e canções como "Cose Della Vita" e "Un Altra Té" tocavam incessantemente nas rádios nacionais. Este foi o quinto single, "A Mezza Via". 
7. Peter Gabriel "Solsbury Hill": "Solsbury Hill" foi o primeiro single a solo de Peter Gabriel em 1977 após deixar os Genesis um ano antes e segundo consta, é sobre um momento de reflexão que Gabriel no dito lugar teve sobre recomeçar a vida e a carreira. A versão incluída nesta compilação é a do álbum ao vivo "Secret World Live", editado nesse ano de 1994 e gravado ao longo de dois concertos em Modena, Itália. Entretanto "Solsbury Hill" tem sido usado em várias séries, anúncios e trailers de filmes como "Vanilla Sky" e "À Procura de Dory". No YouTube existe uma trailer satírica do filme "The Shining" que edita o filme como se fosse uma comédia familiar ao som de "Solsbury Hill". 
8. The BC-52's "(Meet) The Flintstones": Falando em filmes, um dos maiores êxitos de bilheteira foi a adaptação da famosa série animada "Os Flintstones" em personagens de carne, osso e pedra com John Goodman, Elizabeth Perkins, Rick Moranis e Rosie O'Donnell a darem vida a Fred, Wilma, Barney e Betty. O filme marcou também a última participação cinematográfica de Elizabeth Taylor. Os The B'52's - para a ocasião renomeados The BC-52's - versionaram o famoso tema da série e também apareceram no filme.
9. Rolling Stones "Love Is Strong": Mais de trinta anos depois, Mick Jagger e companhia continuavam a rolar e em 1994 lançaram o seu 20.º álbum "Voodoo Lounge", o primeiro após a saída do baixista Bill Wymann. Este "Love Is Strong" foi o single de apresentação e ficou marcado pelo videoclip, realizado por David Fincher e que venceria um Grammy, onde os Stones e uma dúzia de modelos em tamanho gigante vagueavam por Nova Iorque.
10. Seal "Prayer For The Dying": Três anos depois do seu álbum de estreia, o inglês Sealhenry Samuel, conhecido apenas como Seal, estava de volta aos discos. Mas se o segundo álbum tinha o mesmo título do primeiro ("Seal", também designado como "Seal II" para evitar confusões), o cantor apareceu com um look renovado, rapando os dreadlocks que eram até então a sua imagem. Este "Prayer For The Dying" foi o primeiro single. O segundo foi "Kiss From A Rose" que na sua edição inicial passou algo despercebido mas no ano seguinte viria a fazer grande sucesso após a sua inclusão na banda sonora do filme "Batman Para Sempre". 
11. Everything But The Girl "Rollercoaster": Há mais de uma década que Ben Watt e Tracey Thorne produziam belos opus de sophisti-pop, sempre com grandes elogios da crítica mas apenas com ocasional sucesso comercial, como por exemplo na sua versão de 1988 de "I Don't Want To Talk About It". O álbum "Amplified Heart" marcava o regresso aos discos após Watt ter sobrevivido após ter sofrido de uma rara e grave doença (Síndrome de Churg-Strass) e o primeiro single foi este "Rollercoaster". Porém seria o segundo que daria à banda o maior sucesso da sua carreira, através de um remistura dançável: uma tal canção sobre sentir saudades de alguém como os desertos sentem falta da chuva. Os Everything But The Girl podem estar "divorciados" musicalmente desde 2000, cada um evoluindo musicalmente em carreiras separadas, mas na vida pessoal, Ben e Tracey continuam juntos, tendo três filhos e sendo casados oficialmente desde 2008. 
12. Madredeus "Vem (Além de Toda A Solidão)": 1994 foi o ano da consagração dos Madredeus. Apesar da saída do membro fundador Rodrigo Leão, que no ano anterior tinha iniciado a sua carreira a solo, o álbum "O Espírito da Paz" foi o álbum com que a banda conheceu o sucesso tanto em Portugal como além-fronteiras. Quando o álbum atingiu o primeiro lugar do top nacional, o interesse do público na discografia anterior tornou-os na primeira banda, portuguesa ou estrangeira, a terem quatro álbuns no top 30 nacional. E no ano seguinte, "O Espírito da Paz" tornou-se o primeiro disco de uma banda portuguesa a ser nº 1 em Espanha. O sucesso estendeu-se a outros países e levou os Madredeus numa tournée mundial onde o resto do mundo foi descobrindo a belíssima voz de Teresa Salgueiro. Voz essa que soa divina no single de apresentação "Vem (Além De Toda A Solidão)", incluindo neste CD. Teresa Salgueiro deixou os Madredeus em 2007, enveredando por uma carreira a solo. Desde então, Pedro Ayres Magalhães tem esporadicamente recuperado o projecto dos Madredeus com uma alinhamento rotativo de vocalistas e músicos. 

CD2
1. Whigfield "Another Day": Impossível não falar de 1994 sem falar de Whigfield que pôs toda a gente a dançar ao som de "Saturday Night". A cara deste projecto de italo-dance era a dinamarquesa Sannie Carlsen que promoveu o hit um pouco para toda a Europa e Portugal foi um dos países em que ela marcou presença tendo aparecido em vários programas de televisão. O segundo single foi este "Another Day": esta colectânea continha a versão original que basicamente era "Saturday Night 2.0" mas a versão que foi mais promovida em Portugal (e que foi incluída nas colectâneas da Vidisco) era o "Bubble Gum Mix", com uma sonoridade mais techno. Anos mais tarde, questionou-se se, tal como outros projectos de italo-dance, a voz que se ouvia nas canções era mesmo a de Sannie Carlsen, havendo quem apontasse que a verdadeira cantora era a inglesa Annerley Gordon, creditada como letrista das canções e que em 1999 teve ela própria um hit internacional com "2 Times" sob o nome de Ann Lee. (Talvez seja verdade, mas eu ouvi o álbum de Ann Lee e a voz que se ouvia lá parecia-me suficientemente distinta das canções de Whigfield.) Seja como for, Sannie Carlsen continua a actuar, agora em nome próprio, e em 2018 participou no Melodi Grand Prix, o equivalente dinamarquês do Festival da Canção.   
2. Big Mountain "Baby I Love Your Way": "Baby I Love Your Way" foi originalmente gravada em 1975 por Peter Frampton - embora seja mais conhecida a versão ao vivo do seu multiplatinado álbum "Frampton Comes Alive". Em 1988, os Will II Power chegaram ao n.º 1 do top americano com uma versão que misturava a canção com "Free Bird" dos Lynyrd Skynyrd. Em 1994, a canção foi apresentada a uma nova geração graças à versão da banda reggae americana Big Mountain, incluída na banda sonora do filme "Reality Bites", que foi n.º 1 em Espanha, Suécia e Dinamarca.
3. Gabriel, O Pensador "O Resto Do Mundo": Gabriel Contino, mais conhecido como Gabriel, O Pensador foi o primeiro rapper brasileiro a fazer sucesso em Portugal, com o seu álbum homónimo de estreia a ser disco de ouro no nosso país, graças às suas faixas cheias de humor e de crítica social. O grande hit foi "Lôraburra". Mas para este CD, o tema escolhido foi um dos mais sérios, "O Resto Do Mundo" (que muita gente se lembrará melhor como "Eu Queria Morar Numa Favela"), um relato em primeira mão da pobreza extrema no Brasil, utilizando uma faixa da banda sonora do filme "A Malta do Bairro". Na Rádio Cidade, chegou a tocar uma paródia chamada "Eu Queria Um Ferrari Amarelo". E ainda faltava alguns anos até ao mega-hit "2-3-4-5-Meia-7-8". O carinho de Portugal por Gabriel, O Pensador dura até hoje, tendo o rapper visitado e actuado no nosso país incontáveis vezes e em 2016, colaborou com os D.A.M.A.   
4. Reel 2 Real "I Like To Move It": Outro tema que nos fez abanar o capacete em 1994 foi "I Like To Move It" dos Reel 2 Real, um projecto do famoso DJ Erick Morillo. Na verdade, Morillo já tinha editado alguns singles sob este avatar, mas foi "I Like To Move It", com a voz do cantor trinidadiano de dance-hall Mark Quashie a.k.a. The Mad Stuntman que atingiu um sucesso internacional, tendo sido top 5 em praticamente todos os países da Europa (n.º1 em França e Holanda). Em 2005, a sua inclusão no filme de "Madagáscar" apresentou o tema a uma nova geração e firmou-o como um dos clássicos dance dos anos 90. E não, os Reel 2 Reel não foram "one hit wonders". Por exemplo no Reino Unido tiveram mais seis singles no top 30 entre 1994 e 1996, como "Go On Move" e "Jazz It Up".     
5. Inner Circle "Games People Play": Por incrível que pareça, a banda reggae Inner Circle foi formada em 1968. Após um hiato nos anos 80, eles reformaram-se em 1986 e nos anos 90, tiveram uma trilogia de hits nacionais. Primeiro com "Bad Boys" (originalmente gravada em 1987 mas popularizada na reedição de 1993) ao ser utilizada como tema de abertura do programa "Cops", tido como uma das primeiros reality shows do estilo "telenovelas da vida real". Depois com "Sweat (A La La La Long)", uma canção tão solarenga que deu para ser banda sonora de dois Verões consecutivos (1992 e 1993) e este "Games People Play", o primeiro single do novo álbum "Reggae Dancer" e ouvido amiúde na telenovela Vidas Cruzadas/Pátria Minha. Os Inner Circle continuam no activo com praticamente quase toda a formação original.   
6. Snap! "Welcome To Tomorrow (Are You Ready)": O projecto alemão famoso por hits esmagadores como "The Power" e "Rhythm Is A Dancer" avançava para o terceiro álbum, cujo tema de apresentação era a faixa que dava o nome ao álbum. A voz era de Paula Brown sobre o pseudónimo de Summer que cantou em seis faixas do álbum e deu a cara pelas actuações ao vivo.   
7. CJ Lewis "Sweets For My Sweet": "Sweets For My Sweet" foi originalmente gravada em 1961 pelos The Drifters e em 1964, a versão dos The Searchers chegou ao n.º 1 do top britânico. O cantor reggae Steven James Lewis ou CJ Lewis apresentou a canção a uma nova geração em 1994 com a sua versão que soou maravilhosamente nesse verão. A voz feminina que se ouve na faixa é a de Samantha Depasois. Tal como os Reel 2 Real, embora hoje por hoje só se lembre de CJ Lewis só por uma canção, ele não foi uma "one hit wonder" tendo tido pelo menos mais cinco singles de destaque, como "Everything's Alright (Uptight)" e "R To The A". Embora não edite material novo desde 1998, CJ Lewis continua no activo, provavelmente nesses "Revenge Of The 90's" pelo mundo fora.
8. Jam & Spoon "Find Me": Jam & Spoon eram um duo alemão de música electrónica de Frankfurt: a "compota" era Rolf Ellmer ou Jam El Mar e a "colher" era Markus Loffel ou Mark Spoon. Os primeiros singles da dupla são de 1992, mas foi em 1994 que fizeram sucesso com o tema "Right In The Night" (Fall In Love With Music)", interpretado pela cantora americana de ascendência croata Plavka Lonich (cuja voz fazia lembrar a de Madonna). Foi também Plavka que cantou este single seguinte "Find Me" (subtitulado "Oydssey To Anyoona"). Os Jam & Spoon continuaram editar música tanto sob este nome como por outros pseudónimos como Tokyo Ghetto Pussy e Storm até à morte de Markus Loffel de ataque cardíaco em 2006 aos 39 anos (chiça, é a minha idade!). Rolf Ellmer continua no activo como DJ e produtor.   
9. Sophie B. Hawkins "Right Beside You": Em 1992, a nova-iorquina Sophie B. Hawkins (o B é de Ballantine) teve um hit global com "Damn, I Wish I Was You Lover" e dois anos mais tarde, livrou-se da etiqueta de "one hit wonder" com este primeiro single do seu segundo álbum, cujas sonoridades dançáveis surpreendeu aqueles que a tinham rotulado de roqueira. Um dos singles desse álbum, a balada "As I Lay Me Down" fez sucesso nos Estados Unidos, incluído na banda sonora do filme "Now And Then -Amigas Para Sempre". Sophie B. Hawkins continua no activo até hoje, lançando música através da sua editora independente. 
10. GNR "+ Vale Nunca": Mesmo para uma banda tão familiarizada com o sucesso como os GNR, o álbum de 1992 "Rock In Rio Douro" foi um êxito estratosférico: obteve quatro discos de platina, canções como "Sangue Oculto" e "Pronúncia do Norte" andaram na boca de toda a gente e foram a primeira banda portuguesa a encher (sozinha) o antigo Estádio de Alvalade. Depois de um sucesso destes, o que fazer? Para Rui Reininho e companhia, a resposta foi simples: continuar a serem eles próprios e em 1994, surgiu o novo álbum "Sob Escuta" que conheceu que fez assinalável sucesso, embora um pouco ofuscado pela consagração dos Madredeus e a explosão do fenómeno Pedro Abrunhosa, e deixou mais um hit clássico dos GNR, "+ Vale Nunca" (sim, com o "Mais" de sinal aritmético), que na recta final tinha um coro de crianças. A minha parte preferida é o solo do baixo de Jorge Romão. 
11. Babyface "When Can I See You": Reza a lenda que foi a lenda do funk Bootsy Collins, achando-o novo demais para a sua idade, que deu a Kenneth Edmonds a alcunha que viria a ser o seu nome artístico. Embora mais conhecido pelo seu trabalho como compositor e produtor de sucesso para outros artistas (Whitney Houston, Mariah Carey, Madonna, Toni Braxton, Boyz II Men, TLC...), Babyface também tinha a sua própria carreira como cantor desde 1986. A balada acústica "When Can I See You" foi uma das suas primeiras canções a ter alguma repercussão na Europa e valeu-lhe o seu primeiro Grammy como intérprete. (Este tema e os dos Jam & Spoon são os únicos que eu nunca tinha ouvido antes de ter este CD.)   
12. Despe E Siga "Festa": Para terminar em beleza, eis um tema para animar a festa. Nos anos 80 e inícios dos anos 90, os Peste & Sida foram uma das mais populares bandas de punk-pop nacional graças a êxitos como "Sol da Caparica". Nos seus concertos, costumavam tocar versões em português de temas internacionais e a recepção do público inspirou-os a gravar um disco com essas versões sob o nome Despe E Siga, com Luís Varatojo a liderar as vozes em vez de João San Payo. Por exemplo destacavam-se faixas como "Surf Em Portugal" ("Surfin' USA" dos Beach Boys), "Bué Da Baldas" ("Baggy Trousers" dos Madness) e este "Festa" uma versão de "Fiesta" dos Pogues que rapidamente tornou-se por cá tão ou mais popular que o original. Para a história ficou o verso "Só fico eu mais a Maria com a garrafa de Casal Garcia". Já agora, a Sandra do acordeão era Sandra Baptista, a acordeonista e parcela feminina dos Sitiados (mais recentemente integrante do projecto Señoritas). As duas bandas ainda existiram algum tempo até que com a saída de João San Payo, os restantes membros deram prioridade aos Despe E Siga, lançando mais dois álbuns onde puderam explorar outras sonoridades como o ska "("Os Primos" de 1996 com os hits "Sempre Em Pé" e "Radio Ska") e o rock alternativo ("99.9" de 1998 de onde se destacou "Manual do Gelo"). Entretanto em 2004, João San Payo recuperou os Peste & Sida com outros músicos. 

Playlist do YouTube com as 24 canções:

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Thermotebe

por Paulo Neto

Nada como uma astuta campanha publicitária para transformar objectos banais em autênticos must-haves. Por exemplo, durante anos a fio, um jingle irresistível e um anúncio bem colorido faziam de "A Minha Agenda RTP" um dos presentes mais desejados pela pequenada a cada Natal. E nos anos 80, dois anúncios e uma alegada tecnologia têxtil de ponta fez muita gente de várias idades ambicionar algo tão corriqueiro como uma camisola interior. Falo claro das camisolas Thermotebe.

Um dos anúncios tinha um senhor de bigode a caminhar confiantemente na rua enquanto sopra um vento tão forte que a gravata que ele usa teima em voar e diz: "Frio? Eu não tenho frio. Estou bem protegido!" ao mesmo tempo que desabotoa a camisa e revela a camisola Thermotebe que tem por baixo. De seguida, uma voz off louva as qualidades da dita camisola, nomeadamente as suas "características turbo-eléctricas", como "mantém o calor do corpo" e "protege da humidade" e a sua recomendação ideal para "estados reumáticos" e para "senhoras e crianças em idade escolar" enquanto surge uma animação de uma camisola rodeada de várias setas que deviam simbolizar o frio. 


Escusado será dizer que dito assim parecia que as Thermotebe eram o El Dorado das camisolas interiores e que nem na Antártida alguém sentiria frio usando uma das ditas. E depois havia essa palavra fascinante "turbo-eléctrica"! Dava ideia que tinha sido aplicada nessas camisolas a mesma tecnologia utilizada na criação do KITT de "O Justiceiro!". 



Infelizmente não existe no YouTube o outro famoso anúncio, desta vez protagonizado por um petiz, que tal como o adulto, diz "Frio? Eu não tenho frio?" e também expõe a sua Thermotebe. Mas esse outro anúncio ficaria para a história pelo bordão que o garoto profere: "Eu uso uma Thermotebe e o meu pai também!". (Um bordão tão histórico que em 2018 até deu título a uma peça de teatro). O que está no YouTube, graças ao canal Mistério Juvenil, é outro anúncio, claramente posterior, passado num acampamento onde também sopra um vento algo furioso e enquanto vários garotos preparam lenha para uma fogueira, o único adulto presente que as legendas indicam ser um médico de nome Alberto Silva afirma (em voz dobrada pelo famoso locutor Carlos Duarte) que estão todos a usar Thermotebes. E uma vez mais, um petiz que levanta a camisola e mostra a sua Thermotebe e uma nova variação do bordão: "Frio? Nós não temos frio." Como é evidente, estes dois anúncios com miúdos também fizeram com que durante um curto espaço de tempo, a petizada tuga tivesse desejado receber uma camisola interior como prenda de Natal.   



Mas afinal de onde vinham essas Thermotebes turbo-eléctricas? Vinham de Barcelos, da empresa TEBE, fundada nos anos 40, que além de camisolas interiores, produzia todo o tipo de roupa interior e têxteis-lar. A TEBE também tinha outras marcas como Marie-Claire (presumo de lingerie) e Tebesport (de vestuário desportivo).  E o que era afinal essa fabulosa tecnologia de ponta utilizada nessas confecções made in Minho? Ao que parece, a mistura de tecidos utilizada na sua confecção propiciava a geração de electricidade estática, isolando a peça e tornando-a mais capaz de manter o calor do corpo. (Na minha pesquisa para este texto, descobri mesmo um relato de alguém que usou Thermotebes em criança e que se divertia a despir a camisola no escuro frente ao espelho para ver as faíscas que saltavam devido à electricidade estática!)   



Pelo que consegui apurar (e alguém me corrija se houver alguma incorrecção naquilo que vou dizer), existe ainda empresa TEBE mas o negócio da confecção têxtil foi transferido em 2009 para outra empresa do grupo, a Posolis cuja fábrica se situa em Braga. E não, já não fabricam Thermotebes. Tal como outras empresas do ramo têxtil nacional, a TEBE enfrentou algumas dificuldades com as dinâmicas e as regulamentações para essa indústria que advieram da entrada de Portugal na União Europeia e algures nos anos 90, a empresa optou por abdicar das suas marcas próprias e desde então produz para grandes marcas de distribuição.


E eu sou sincero: com o frio que tem feito ultimamente, volta e meio dou por mim a desejar ter uma camisola como a Thermotebe que me protegesse do frio como uma armadura.
     

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Os Donos do Jogo (1994-97)

por Paulo Neto

Numa das coincidências da vida, há cerca de um ano eu descobri que era colega de trabalho de um leitor/seguidor de longa data da Enciclopédia de Cromos. E pouco depois, esse meu colega, o Cláudio Assunção, também somou dois mais dois e percebeu que é que era o Paulo Neto dos textos que ele lia no blogue. Escusado será dizer que desde então o Cláudio segue os nossos passos com redobrada atenção. E foi  ele que me sugeriu um texto sobre este programa.

Jorge Gabriel Costa Mendes Fialho, conhecido apenas pelos seus dois nomes próprios, é uma das poucas personalidades televisivas que já tive a oportunidade de encontrar pessoalmente pois foi ele o meu padrinho das minhas duas aparições televisivas, enquanto apresentador dos dois concursos em que participei na RTP: "O Cofre" (2006) e "Sabe Mais Que Um Miúdo de Dez Anos (2007). (Se alguém tiver algum registo gravado das minhas passagens por esses concursos, por favor contacte-me!). Mas se hoje é uma das caras de longa data da RTP, foi na SIC que Jorge Gabriel deu os primeiros passos na televisão, como apresentador do magazine desportivo "Os Donos da Bola" em 1993 (além de passagens ocasionais pelo "Praça Pública"). E em 1994, ainda no âmbito no desporto, experimentou pela primeira vez o entretenimento com o concurso "Os Donos do Jogo".




Uma vez mais, a informação encontrada na internet foi muito escassa e incompleta. Sei apenas que o programa estreou a 24 de Agosto de 1994 e terá durado até 1997 e dava de segunda a sexta-feira a seguira ao Primeiro Jornal. A partir de 1995, com Jorge Gabriel a transitar para o horário nobre onde apresentaria programas como "Sim Ou Não" e sobretudo "Agora Ou Nunca", foi alternando na apresentação com Nuno Santos


Da autoria de Paulo Bordalo Pinheiro, "Os Donos do Jogo" tinha uma dinâmica simples. Em cada sessão, dois concorrentes respondiam a perguntas relacionadas com futebol e no ecrã via-se um campo de futebol com várias camisolas (geralmente representando o clube de que cada um dos concorrentes era adepto). Cada concorrente escolhia a sua táctica, por exemplo 4-3-3 ou 4-4-2, tendo em conta que o grau dificuldade de cada pergunta (as perguntas de grau 4 eram as mais fáceis, as de grau 1 ou 2 as mais difíceis). Sempre que um concorrente acertava, via-se uma das camisolas do ecrã a transformar-se num boneco a chutar uma bola. Caso o concorrente errasse a pergunta, o adversário ficava com a posse da bola e era ele a responder à pergunta seguinte. O objectivo era portanto responder o maior número de perguntas até conseguir marcar golo, ganhando o concorrente que tinha "marcado mais golos" (isto é, acertado mais perguntas sucessivas).     






Apesar da simplicidade do jogo e dos gráficos, sem dúvida que era um programa que fazia as delícias dos telespectadores apaixonados por futebol, que em casa também testavam os seus conhecimentos futebolísticos. Aliás, os telespectadores também podiam ganhar prémios com esses conhecimentos já que por vezes quando um concorrente errava uma pergunta, essa pergunta poderia ser utilizada para o jogo de casa para ser respondida pelos espectadores através de chamada telefónica. 


O blogue "Ainda Sou Do Tempo" refere que chegou a haver uma versão caseira deste jogo (de tabuleiro ou para computador?) que não teve grande sucesso.  

Programa como Jorge Gabriel (1995)






Em 2008, no programa "Zé Carlos" dos Gato Fedorento, foi revelado que um dos concorrentes deste programa foi um muito jovem Ricardo Araújo Pereira (com um ainda mais jovem Tiago Dores na assistência)!










quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Mulherzinhas (1994)

por Paulo Neto

Publicado pela primeira vez em 1868, "Mulherzinhas" de Louisa May Alcott tornou-se um clássico da literatura juvenil e já há várias gerações que leitores em todo o mundo se encantaram com a história de quatro irmãs adolescentes que vão passando pelas diversas dores de crescimento enquanto o pai de ambas está ausente na Guerra Civil Americana (a história é baseada em experiências reais da autora). Este livro tem um lugar especial na minha vida como leitor pois foi o primeiro livro não-lá-muito infantil que eu li, tinha para aí uns oito ou nove anos, numa edição da Série Azul do Círculo Leitores, famosa por editar os livros da Condessa de Ségur mas também outros clássicos da literatura juvenil, da autores como Júlio Verne, Anne Bronte ou Charles Dickens.



"Mulherzinhas" também já foi adaptada várias vezes em cinema e televisão. Ao todo existem seis adaptações cinematográficas: duas no período do cinema mudo em 1917 e 1918, uma de 1933 protagonizada por Katharine Hepburn, uma de 1949 com umas bem jovens Elizabeth Taylor e Janet Leigh, a de 1994, da qual eu vou falar neste texto, e uma a estrear ainda este ano de 2019, realizada por Greta Gerwig e com Saoirse Ronan, Emma Watson, Timothée Chalamet e Meryl Streep. (Existe também uma versão de 2018 recontada na actualidade.) Tenho ainda de referir a adaptação em série anime de 1987 que passou na TVI nos anos 90.


Cartaz da adaptação de 1933

Elizabeth Taylor como Amy na versão de 1949


Uma cena da versão de 1949, que inspirou a capa
de uma edição do Círculo de Leitores.


Aliás o meu primeiro contacto com a história foi com a versão de 1949, que passou na RTP uns tempos antes de eu ter o livro, que aliás tinham a ilustração de uma cena desse filme na capa. No entanto ao ler constatei que essa versão fez uma alteração importante à trama ao reverter a ordem de nascimento das duas irmãs mais novas: no livro Amy é a mais nova e nesse filme, a irmã caçula é Beth, uma alteração que se deveu ao casting de Elizabeth Taylor como Amy (numa das raras vezes em que fez de loura) e a estrela infantil, Margaret O'Brien como Beth. (Meg e Jo foram respectivamente interpretadas pelas não menos célebres Janet Leigh e June Allyson.) 

Foi preciso esperar quase mais cinquenta anos para que Hollywood revisitasse a história até chegar a versão de 1994, realizada por Gillian Armstrong com Winona Ryder, Susan Sarandon, Claire Daines, Kirsten Dunst, Christian Bale, Eric Stolz, Trini Alvarado, Samantha Mathis e Gabriel Byrne. Tal como noutras adaptações, o filme condensa a história de "Mulherzinhas" e da sua sequela "Boas Esposas". (Existem ainda mais dois livros da série: "Homenzinhos", que eu também li, e "Os Rapazes de Jo".) 




No estado de Massachusetts, as quatro irmãs March tentam viver com os seus parcos recursos e o pai a combater na Guerra Civil. Margaret ou Meg (Alvarado) é a mais velha, e considerada a mais bonita, esforça-se para ser uma moça prendada mas de vez em quando deixa-se tentar pela vaidade; Josephine ou Jo (Ryder) é a maria-rapaz, de temperamento forte e decidido, que sonha em ser escritora e que desespera nas suas funções de dama de companhia à sua rabugenta tia-avó (Mary Wickes), a única pessoa endinheirada da família; Elizabeth ou Beth (Daines) é doce, tímida e frágil contentando-se em ficar em casa e em tocar piano; Amy (Dunst e mais tarde Mathis) é mimada, empertigada e apaixonada pelas artes. Por entre os altos e baixos das quatro irmãs, está o apoio firme e terno da mãe delas, Abigail (Sarandon) que as filhas tratam por Marmee bem como a da dedicada empregada Hanna (Florence Patterson). 




Por altura do Natal, Jo trava amizade com o jovem Theodore Laurence ou Laurie (Bale), o vizinho do lado, e os dois depressa se tornam grandes amigos, uma amizade que rapidamente se estende ao resto da família March. James Laurence (John Neville), o avô de Laurie, também acolhe as irmãs March como se fossem suas netas, em especial Beth, cujo talento para tocar piano lhe faz recordar uma filha falecida. Enquanto isso, Meg apaixona-se por John Brooke (Stolz), o tutor de Laurie.      
Meses mais tarde, uma série de acontecimentos infelizes se sucedem: o Sr. March (Matthew Walker) é ferido na guerra e Jo vende o seu cabelo para que Marmee possa viajar até Washington e tratar do marido. Enquanto Marmee está ausente, Beth contrai escarlatina durante uma visita a uma família pobre que era ajudada pela sua mãe e fica gravemente doente, e Amy é levada para casa da Tia March para evitar risco de contágio. O fim desses dias penosos só chega no Natal com Beth recuperada e o pai March de regresso a casa.




Quatro anos depois, Meg e John casam-se (é aqui começa a história do livro seguinte "Boas Esposas") e pouco depois têm um casal de gémeos, Demi e Daisy. Laurie declara-se a Jo mas esta recusa, sentindo que só gosta dele como amigo, para grande frustração do rapaz. Jo fica ainda mais destroçada quando descobre que a Tia March decidiu levar Amy numa viagem pela Europa, que era o grande sonho de Jo. Esta então muda-se para Nova Iorque para tentar ganhar a vida como escritora e lá encontra Friedrich Bhaer (Byrne), um professor alemão que a introduz à ópera e à filosofia e a encoraja a melhorar a sua escrita. 
Entretanto, Beth, cuja saúde ficou irremediavelmente deteriorada, sente que tem pouco tempo de vida e aguarda serenamente pela morte. Jo regressa a casa para velar Beth nos seus últimos dias e decide escrever sobre a vida dela e das irmãs. Na Europa, Laurie e Amy encontram-se e acabam por se apaixonar, regressando à América já casados.  
Após a morte da Tia March, Jo herda a sua propriedade que ela decide transformar numa escola, vê o seu livro publicado, e após alguns mal-entendidos, ela e Bhaer descobrem que estão apaixonados e ela aceita casar-se com ele.  

Esta adaptação de "Mulherzinhas" foi extremamente competente, apresentando a obra a toda uma nova geração e recebendo elogios do público e da crítica. Todavia, quem tenha lido o livro como eu não pôde deixar de achar que ficaram de fora várias cenas marcantes da obra (como a cena do piquenique ou aquela em que Meg enfrenta a Tia que se opõe ao seu noivado com John). Todo o elenco está muito bem mas sem dúvida que Winona Ryder é quem brilha mais como Jo, ao ponto de ter sido nomeada para o Óscar de Melhor Actriz (curiosamente, Susan Sarandon foi nomeada nesse ano por outro filme, "O Cliente"). O filme foi também nomeado para Melhor Guarda-Roupa e Melhor Banda Sonora Original da autoria de Thomas Newman.  

Trailer:




   

domingo, 3 de novembro de 2019

Roque Santeiro (1985-86)

por Paulo Neto

Já falámos aqui no blogue de muitas telenovelas, mas surpreendentemente ainda não falámos desta que é sem dúvida uma das telenovelas mais lendárias de sempre e que foi um estrondoso sucesso tanto no Brasil como em Portugal.




Da autoria de Dias Gomes, o autor de "O Bem Amado", a história de "Roque Santeiro" começou com uma peça sua, "O Berço do Herói", escrita nos anos 60 e que foi proibida pela censura da ditadura militar brasileira. Em 1975, uma primeira versão da telenovela esteve quase a ser transmitida pela Globo, já com alguns capítulos gravados mas foi suspensa. Os censores federais terão escutado uma chamada telefónica do autor em que este admitia que a telenovela era uma nova versão da peça censurada, com algumas alterações. A telenovela só viria a se concretizar em 1985, precisamente no ano de transição da ditadura para a democracia no país-irmão. Em Portugal, "Roque Santeiro" foi exibido pela RTP entre 12 de Outubro de 1987 e 3 de Agosto de 1988.

Nesta nova versão, Dias Gomes contou com a ajuda de Aguinaldo Silva para concretizar o guião. Lima Duarte assumiu o mesmo papel que teria tido na primeira versão enquanto Regina Duarte e José Wilker assumiram os outros papéis do trio protagonista, que seriam interpretados na versão suspensa por Betty Faria e Francisco Cuoco.


Sinhôzinho Malta (Lima Duarte), Porcina (Regina Duarte)
e Roque Santeiro (José Wilker)


Asa Branca seria mais uma pequena cidade como tantas outras no Brasil profundo, não fosse um acontecimento de há dezassete anos que desencadeou o mito de Roque Santeiro. Luís Roque Duarte (José Wilker) era um simples artesão de arte sacra quando reza a lenda que terá salvado a cidade, sacrificando a sua vida para defendê-la do gangue do terrível bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). A partir daí, surgiram vários relatos de milagres relacionados com Roque Santeiro, como o de pessoas curadas de doença graças à lama do local onde teria sido encontrado o seu corpo. Com o passar dos anos, o suposto mártir ganhou um estatuto de divindade e a cidade passou a viver da exploração da sua imagem e das romarias de peregrinos vindos de todo o Brasil.
Os que mais lucraram com tudo disso foram o Sinhôzinho Francisco Malta (Lima Duarte), que embora deteste ser chamado de coronel, é o todo-poderoso da região, famoso pelo seu bordão "Tô certo ou tô errado?"; Porcina (Regina Duarte), a alegada viúva de Roque Santeiro, com quem afirma ter casado em segredo pouco antes da sua morte, que vive um estilo de vida opulento e exuberante bem como uma ligação amorosa e (pouco) secreta com Malta; Zé das Medalhas (Armando Bogus) o principal comerciante do merchandising relacionado com o santo, um homem pérfido e agressivo que mantém a sua esposa Lulu (Cássia Kiss), uma das pessoas curadas pelos ditos milagres, num regime de quase prisão dentro de casa; o Padre Hipólito (Paulo Gracindo), um pároco conservador que viu a sua paróquia ganhar riqueza e prestígio com as peregrinações; e o prefeito da cidade, Florindo Abelha (Ary Fontoura) que dentro de casa é mandado e desmandado pela sua esposa Pombinha (Eloísa Mafalda), uma beata retrógrada. Os Abelha têm uma filha, Mocinha (Lucinha Lins), que era a verdadeira amada de Roque e que manteve a sua devoção depois da morte dele, fazendo voto de castidade.

Mocinha (Lucinha Lins), Pombinha (Eloísa Mafalda) e Florindo Abelha (Ary Fontoura)


Zé das Medalhas (Armando Bógus)
e Lulu (Cássia Kiss)

Na actualidade e no auge da sua prosperidade, Asa Branca é agitada por vários acontecimentos. Um deles, é a inauguração da boîte Sexus, propriedade de Matilde (Yoná Magalhães), uma carioca protegida de Sinhôzinho Malta, que também explora a pousada local e que traz à cidade um grupo de vistosas bailarinas vindas do Rio de Janeiro, em especial a loura Rosaly (Ísis de Oliveira) e a morena Ninon (Cláudia Raia), para fúria de Pombinha Abelha, do Padre Hipólito e das outras beatas.

Rosaly (Ísis de Oliveira), Matilde (Yoná Magalhães)
e Ninon (Cláudia Raia)

Outro é o activismo de Albano (Cláudio Cavalcanti), o outro padre da cidade a quem chamam de padre comunista, que vive em conflito com o Padre Hipólito, devido às suas ideias progressistas e por acreditar que o mito de Roque Santeiro não passa de uma farsa, preferindo dedicar-se a ajudar os mais pobres. A sua causa aos poucos vai tendo mais adeptos, sobretudo Tânia (Lídia Brondi), a rebelde filha de Sinhôzinho Malta, com quem vive em tensão desde a morte da sua mãe. Albano e Tânia chegam a viver um romance, mas no fim ele decide renunciar ao amor e continuar no sacerdócio.

Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) e Tânia Malta (Lídia Brondi)

Por fim, existe a chegada de uma equipa de filmagem para rodar um filme sobre a lenda de Roque Santeiro, que o realizador Gerson do Valle (Ewerton de Castro) espera que lhe dê fama e prestígio, com os actores Roberto Mathias (Fábio Júnior) e Linda Bastos (Patrícia Pillar) nos papéis de Roque e Porcina. Roberto é preguiçoso e indisciplinado como profissional, mas tem um charme eficaz que vai fazer efeito em várias mulheres como Tânia, Lulu e até a própria Porcina.

Roberto Mathias (Fábio Júnior)

É neste cenário que chega a cidade um homem misterioso e sofisticado. Trata-se do verdadeiro Roque que afinal está bem vivo: na verdade, em vez de se sacrificar para salvar a cidade de Navalhada, viu na invasão a oportunidade para concretizar de fugir da cidade e ver o mundo, roubando o ostensório da igreja. Depois de ter enriquecido no estrangeiro, Roque regressou para devolver o valor do artefacto ao Padre Hipólito e para ajustar contas com o passado. À medida que Roque vai permanecendo na cidade e algumas personagens vão descobrindo a sua identidade, Sinhôzinho Malta e os seus aliados ficam cada vez mais alarmados pois se a verdade for descoberta, a cidade irá à falência. Após mandar tentar eliminar Roque, este ameaça Malta alegando ter um dossier que denuncia toda a verdade e que será publicado caso algo lhe aconteça. 
Para maior de desespero do "coronel", Roque e Porcina, que afinal nem sequer se conheciam antes, apaixonam-se um pelo outro. Antes disso, Roque ainda aceita que Mocinha finalmente se entregue a ele, mas isso só contribuirá mais para o desequilíbrio mental dela.

Na recta final da telenovela, Navalhada regressa a Asa Branca para um ajuste final de contas com Roque Santeiro. Embora seja Sinhôzinho Malta quem, escondido, atinge de morte o bandido, Roque Santeiro convence-se que foi ele quem o matou  e decide fugir de helicóptero, pedindo a Porcina que venha com ele. Mas no último momento, Porcina decide antes ficar com Malta. E com a descoberta do corpo de Navalhada, o mito de Roque Santeiro continuará… Quanto a Zé das Medalhas, cada vez mais louco e com Lulu finalmente ganhando coragem para o abandonar, põe uma máquina a funcionar sem parar e morre afogado nas medalhas que a máquina vai fabricando.

Professor Astromar Junqueira (Rui Resende)


É também no último episódio que é revelado outro mistério, o de um lobisomem que dizem que vagueia pela cidade todas as noites de lua cheia, confirmando-se o principal suspeito: o sinistro Professor Astromar Junqueira (Rui Resende). Habitual frequentador da casa dos Abelha, em parte devido à sua paixoneta por Mocinha, o professor tinha como hábito perguntar antes de entrar: "Posso penetrar?"

Jeremias (Arnaud Rodrigues) e Jiló (João Carlos Cardoso)
Mina (Ilva Niño)

Outras personagens inesquecíveis são Jiló (João Carlos Cardoso), um ex-peão que se torna o guia turístico oficial dos peregrinos; João Ligeiro (Maurício Mattar), meio-irmão de Roque e vaqueiro nas propriedades de Sinhôzinho Malta que vive um romance com a criada Dondinha (Cristina Galvão); Luizão (Alexandre Frota), o operador de câmara do filme que se envolve com Matilde; Marilda (Elizângela) a tumultuosa esposa de Roberto Mathias que tem um breve affair com Sinhôzinho Malta; Marcelina (Wanda Kosmo) sogra de Malta e principal apoio da neta Tânia; Tito França (Luiz Armando Queiroz), o ciumento marido e agente de Linda; o Delegado Feijó (Maurício do Valle) cujo pequeno papel que consegue no filme alimenta o seu sonho de ser actor e que se disfarça de lobisomem para seduzir Ninon, sabendo do fascínio desta pela criatura; o cego Jeremias (Arnaud Rodrigues) que vive de cantar na rua para os turistas; e sobretudo Mina (Ilva Niño), a sofredora mas fiel criada de Porcina, a qual chama por ela sempre aos gritos: "MINAAAAAAAA!".

Com um enredo com doses equilibradas de humor, drama e fantasia, e uma mordaz sátira à exploração política e comercial da fé popular (não faltou quem em Portugal comparasse Asa Branca a Fátima), "Roque Santeiro" foi um sucesso em toda a linha e para a maioria do elenco, foi o auge ou pelo menos um pico das suas carreiras. 
Entre os produtos de merchandising da novela, destaque para uma colecção de calendários, uma caderneta de cromos e dois álbuns com canções da banda sonora. Aliás foram muitas as canções da telenovela que fizeram sucesso por cá durante a exibição da telenovela como o tema de abertura "Santa Fé" de Moraes Moreira, "De Volta Para O Aconchego" de Elba Ramalho, "Sem Pecado e Sem Juízo" de Baby Consuelo, "Dona" dos Roupa Nova, "Roque Santeiro" de Sá & Guarabyra, "Chora Coração" de Wando, "Coração Aprendiz" de Fáfá de Belém, "Indecente" de Anne Duá e o arrepiante "Mistérios da Meia-Noite" de Zé Ramalho que ilustrava as cenas do lobisomem.
No Brasil, é das poucas telenovelas a terem sido editadas em DVD, numa edição de 2010 com 16 discos.

Regina Duarte e Lima Duarte de novo como Porcina e Malta
no programa "Com Pés E Cabeça" 

Por alturas do Carnaval de 1988, Lima Duarte e Regina Duarte deslocaram-se a Portugal onde além de participarem nos festejos do Entrudo na Mealhada, estiveram em Lisboa e no Porto. Os dois chegaram a vestir as suas personagens de Porcina e Sinhôzinho Malta para um sketch inédito no programa "Com Pés e Cabeça".
Em 1993, a SIC repôs a telenovela na rubrica "Vale A Pena Ver De Novo".

Genérico de abertura:



Comparação do elenco entre a novela de 1985 e a versão censurada de 1975:


Cena divertida entre Porcina e Malta:




O final alternativo em que Porcina parte com Roque:


terça-feira, 29 de outubro de 2019

SEGA Novidades Explosivas - Verão 1994 - Cassete Mega Force (1994)





Reparei que hoje se celebra o 31º aniversário da consola Mega Drive, a versão original japonesa, e finalmente fui buscar ao arquivo esta mítica cassete que saiu nas bancas com a revista de videojogos "Mega Force" na sua edição nacional. A dita cassete com duração de cerca de 15 minutos vinha na embalagem em cartão que podem ver na foto acima, com a mascote da SEGA, o Sonic The Hedgehog em destaque. O conteúdo era as "Novidades Explosivas" da Sega, para o Verão de 1994, complementa  a etiqueta na própria cassete VHS.

Além dos jogos para a Mega Drive (Genesis nos EUA) no final do vídeo estão excertos de alguns jogos para a "Mega CD". Só em finais dos anos 90 consegui esse acessório para a Mega Drive e um dos jogos nesta cassete foi um dos que comprei junto com a "Mega CD II": "Tomcat Alley" um jogo que basicamente era um filme interactivo, com o jogador aos comandos de um jacto de guerra. Era limitado e repetitivo, mas o factor novidade fez-me jogar muitas vezes..


Já encontrei algumas versões do "Novidades Explosivas" pelo Youtube, mas fica a minha gravação:

Cópia do vídeo no Archive.Org.

Leitores, quem teve esta cassete? Compraram alguns destes jogos anunciados?

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Forrest Gump (1994)

por Paulo Neto

Existem filmes que tenho algum receio de rever pois tenho receio que o revisionamento estrague as boas memórias quando os vi pela primeira vez, especialmente no cinema. "Forrest Gump" é um desses filmes: eu adorei quando fui vê-lo no cinema e lembro-me de considerá-lo durante uns bons anos como o meu filme preferido de sempre. Mas entretanto, foi daqueles filmes que sofreu um backlash e foi etiquetado como "sobrevalorizado" e desde então nunca mais o revi, pelo menos na íntegra, e tenho medo de já não gostar tanto, embora creia que não tenha envelhecido assim tão mal.





Adaptado do livro de Winston Gordon, "Forrest Gump" foi realizado por Robert Zemeckis e protagonizado por Tom Hanks com Robin Wright, Gary Sinise, Sally Field, Mykleti Williamson e Michael Connor Humphreys nos principais papéis.



No estado do Alabama no início dos anos 50, Forrest Gump (Humphreys) é um rapazinho que parece não seria grande coisa na vida. Além de um Q.I. abaixo da média e sem poder andar direito devido aos ferros nas pernas usados para corrigir um defeito na espinha, Forrest só conta com o amor incondicional da sua mãe (Field), a dona de uma estalagem, para o proteger do desprezo e da chacota dos outros. Porém quando ele conhece Jenny Curran (Hanna R. Hall), uma menina que sofre maus-tratos por parte do pai, os dois se tornam grandes amigos. Um dia, ao fugir de uns bullies, ante o grito de Jenny para ele correr e a queda dos seus ferros nas pernas, Forrest revela-se um excelente corredor.




Esse talento leva um Forrest mais crescido (Hanks) a entrar na Universidade onde se destaca como jogador de futebol americano e mais tarde alista-se no exército onde faz um novo amigo em Bubba Buford (Williamson). Os dois são destacados para combater no Vietname, sob a liderança do Tenente Dan Taylor (Sinise). Durante um emboscada dos Vietcong, Forrest salva vários soldados, incluindo o Tenente (que fica sem pernas) mas não consegue evitar a morte de Bubba. 
Após a guerra, Forrest descobre mais um talento no ping-pong que o leva até à China e mais tarde abre o negócio de pesca de camarão que pretendia abrir com Bubba, sendo ajudado pelo Tenente Dan que aí recupera dos traumas da guerra e das mágoas de ter sido amputado.





Entretanto, Forrest encontra-se algumas vezes com Jenny, que tinha adoptado o estilo de vida hippie para depois cair numa espiral de dependência a drogas. Após a morte da mãe e a rejeição de Jenny ao seu pedido de casamento, Forrest enceta uma maratona pelo país inteiro ao longo de três anos.
Até que de volta ao início no filme, na paragem de autocarro onde Forrest vai contando a sua história às pessoas que lá estão. É então que descobre que tem um filho da noite que passou com Jenny e que esta tem pouco tempo de vida, devido a um vírus incurável. Os dois finalmente casam-se mas Jenny morre um ano depois, deixando-o a criar sozinho o filho Forrest Jr. (Haley Joel Osment).

Ao longo destes anos todos, Forrest conheceu três Presidentes americanos (Kennedy, Johnson e Nixon), auxiliou Vivian Malone, uma estudante negra que o Governador George Wallace tentou impedir que entrasse na Universidade do Alabama, foi entrevistado junto a John Lennon, acidentalmente causou o escândalo Watergate, criou as T-shirts com smiley e ficou rico devido aos investimentos do Tenente Dan na Apple (que Forrest pensava ser um negócio de frutaria!).



"Forrest Gump" foi o maior sucesso de bilheteira de 1994 nos Estados Unidos e segundo no mundo e obteve seis Óscares incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Actor, com Tom Hanks a ser dos poucos actores a ganhar uma estatueta em dois anos consecutivos, após ter sido galardoado no ano anterior por "Filadélfia". Recebeu ainda três Globos de Ouro, dois prémios Saturn e foi indicado na lista de American Film Institute como um dos melhores cem filmes americanos de sempre. E claro, deixou bordões lendários como "Run, Forrest, run!" e "Life is like a box of chocolates."
A banda sonora do filme, recheada de clássicos dos anos 50, 60 e 70, também foi um grande êxito. Um videoclip de "Turn Turn Turn (To Everything There Is A Season)" dos The Byrds (1965) com cenas do filme foi feito para promover o disco.

Para mim, além do vibrante relato da história da América dos anos 50, 60 e 70, o que mais me impressionou no filme foi a história de auto-superação da personagem-título, mostrando que mesmo aqueles que à partida parecem ter todo o tipo de desvantagens podem ser capazes de fazer grandes coisas na vida. E como afinal, os conceitos contraditórios de karma e destino muitas vezes andam de mãos dadas.



E para terminar eis algumas curiosidades:
- As cenas do ping-pong foram filmadas sem bolas.
- Tom Hanks não recebeu cachet pelo filme, ficando antes com uma percentagem dos lucros. O seu irmão Jim fez de duplo em algumas cenas de corrida.
- A pena que surge a flutuar no início e no fim do filme foi criada em computador a partir de uma pena real manobrada por uma cana de pesca.
- Bill Murray, Chevy Chase e John Travolta recusaram o papel principal, com o último a admitir que cometeu um grande erro. Jodie Foster, Nicole Kidman e Demi Moore recusaram o papel de Jenny e Ice Cube e Dave Chapelle o papel de Bubba.
- Nas cenas em que a sua personagem tem as pernas amputadas, Gary Sinise tinha as pernas enfaixadas em tecido azul para depois ser apagadas digitalmente.
- Embora o actor Peter Dobson fizesse no filme de Elvis Presley, a voz que se ouve é a de Kurt Russell.
- Na cena em que o jovem Forrest entra no autocarro da escola e os miúdos não o deixam sentar ao lado deles, dois desses miúdos são a filha de Tom Hanks, Elizabeth, e o filho do realizador Robert Zemeckis, Alexander. 
- Existem 33 restaurantes chamados "Bubba Gump" no mundo inteiro.
- O banco da paragem de autocarro da cidade de Savannah, no estado da Geórgia, onde o protagonista está sentado ao longo do filme está agora no museu municipal da cidade.

Trailer:


 "Turn Turn Turn (To Everything There Is A Season)" The Byrds




domingo, 20 de outubro de 2019

Watchmen (1986)





Em Setembro de 1986 começou a ser publicada uma das histórias em banda desenhada que mudou a nona arte: a maxi-série em 12 partes "Watchmen". Os seus criadores, Alan Moore e Dave Gibbons, na prosa e arte, respectivamente. Pessoalmente só tomei conhecimento com a obra através da Internet, onde graças aos scans piratas em meados dos anos 2000 pude conhecer histórias do calibre de "The Dark Knight Returns", "Batman: A Piada Mortal", ou "V de Vingança", entre outras que entretanto já consegui comprar, em várias edições vintage ou contemporâneas. A minha primeira "Watchmen" em formato físico foi um encadernado brasileiro de 1989 que comprei numa loja de livros antigos em Quarteira, com esta capa jeitosa:



Este cromo adapta o meu texto de 2009 "Watchmen - Graphic Novel", por isso as ilustrações têm apenas imagens da banda desenhada comparada com as do filme desse ano. Obviamente, SPOILERS para quem ainda não leu esta obra de arte, viu o filme ou a série da HBO que estreia em 2019.

As 12 capas da série limitada original.
Watchmen passa-se nos E.U.A. de um mundo muito semelhante ao nosso, com uma diferença crucial: na primeira metade do século XX surgiram os primeiros vigilantes mascarados, super-heróis que combatiam o crime em uniformes coloridos. Da reunião de vários heróis nasce o primeiro super-grupo, os Minutemen. Depois de vários êxitos, escândalos e um impacto gigantesco na sociedade contemporânea, o grupo é desmantelado. Só anos mais tarde, a nova geração de heróis, inspirada pelos seus antecessores, se reúne para salvar o mundo. Assim nasceram os Watchmen. Na maioria, homens e mulheres sem poderes, que com treino, armas ou engenhocas combatiam os malfeitores. Mas a desconfiança do público e o surgimento de Dr. Manhathan - o primeiro ser super-humano - levaram a que o governo americano banisse as actividades dos vigilantes. Os E.U.A. ganharam no Vietname mas a Guerra Fria continuou, com a ameaça de uma guerra nuclear global eminente e omnipresente.

Sinopse:
A narração de Watchmen começa em 1985, com o assassinato do Comediante, um antigo membro dos Minutemen e dos Watchmen. O psicótico Rorshack, outro antigo Watchmen, investiga o caso, tentando desmontar o que ele acredita ser uma conspiração para eliminar antigos heróis mascarados. Entra em contacto com os ex-colegas, tentando levá-los a actuar. Só depois de um ataque á vida de Ozymandias e do auto-exílio do Dr. Manhattan, Nite Owl II e Silk Spectre II unem-se a Rorshack para desvendar quem é o assassino do Comediante, e que segredos este descobriu antes de morrer.


Os personagens principais:





Rorschach

Baseado no herói Questão. Usa uma máscara especial com padrões em movimento, que para ele é a sua verdadeira cara. Depois de uma infância problemática, dirigiu a sua raiva contra os bandidos, tornando-se cada vez mais violento. Depois de descobrir a morte do Comediante, tenta alertar os antigos companheiros para uma misteriosa conspiração. Paranóico e inflexível, Rorschach acredita firmemente que os culpados têm que ser punidos.





Dr. Manhattan

Baseado no herói Capitão Átomo, o único super-humano do planeta nasceu de um acidente de laboratório nos anos 50. Depois de ser desintegrado conseguiu recriar um corpo humanóide, azul e com poderes extraordinários que lhe permitem manipular a energia e a matéria. Apelidado de deus e super-homem americano, Dr. Manhattan venceu a guerra do Vietname e trabalha em experiências cientificas. A sua percepção diferente do Mundo leva a que se distancie cada vez mais da Humanidade.





Nite Owl II

Baseado nos heróis Besouro Azul e Batman, é um inventor abastado que criou engenhocas relacionadas com corujas (incluindo uma nave) para combater os criminosos. Durante algum tempo fez equipa com Rorschach. Depois da proibição dos vigilantes, Daniel perdeu a motivação, está em baixo de forma e leva uma vida solitária e tristonha. Mas depois da visita de Silk Spectre II e do seu regresso á activa, tudo vai mudar.





Silk Spectre II

Filha da Silk Spectre original, Laurie leva uma vida monótona ao lado do Dr. Manhattan. Este parece ter perdido o interesse por ela e pelo resto do planeta, e depois de uma discussão Laurie abandona-o e visita Nite Owl II, lembrando antigas memórias e recuperando a excitação do tempo em combatiam o crime nas ruas. Personagem inspirada nas heroínas Nightshade e Phantom Lady.





Ozymandias

Adrian Veidt, é – alegadamente – o homem mais inteligente do mundo. Dono de uma fortuna imensa, representa o ideal da perfeição humana de corpo e mente. O seu ídolo é Alexandre, O Grande o mítico conquistador da história antiga. Veidt há muitos anos que revelou a sua identidade ao público tornando-se numa celebridade.





Comediante

Baseado no herói Pacificador (mas fisicamente parecido a Nick Fury da Marvel Comics) Edward Blake foi integrante, quando jovem, dos Minutemen. Extremamente agressivo e sádico, tentou violar a Silk Spectre original e fez muitos trabalhos sujos para o governo americano. Afiança que tudo é uma piada, mas é o seu brutal assassinato que despoleta toda a história de Watchmen. Quem teria motivos para matar o Comediante?


A Graphic Novel
Watchmen nasceu da vontade de usar heróis da antiga editora Charlton, entretanto comprada pela DC Comics (a editora de Super-Homem, Batman, etc), mas com o objectivo de criar uma sátira ao género das BDs de Super-heróis. Mas como a DC tinha mais planos para esses personagens, eles foram usados apenas como base para criar outros especialmente para a maxi-série Watchmen, editada originalmente em 12 números entre 1986 e 1987. O polémico Alan Moore foi o escritor por detrás de uma história totalmente contra-corrente para a época em que a maioria das pessoas ainda encarava a banda desenhada como simples bonecadas para as crianças. Os super-heróis de Alan Moore não são certinhos, cometem erros e influenciam a sociedade que os rodeia (ao contrários dos super-herois tradicionais, em cujas aventuras uma cidade é destruída e no próximo número já está recuperada e sem consequências de qualquer tipo, por exemplo). Imaginem por um segundo, o que mudaria no nosso mundo actual se surgisse o Super-Homem, quase um deus. Como reagiriam os políticos, as corporações, os oportunistas, os religiosos, as pessoas comuns? Além disso, a história tem conteúdos violentos e sexuais bem explícitos. Aborda ainda a homossexualidade entre heróis, a paranóia com os comunistas e a Guerra Fria, a ameaça nuclear e outros temas importantes, e as suas consequências na opinião pública. O estilo de desenho de David Gibbons, pouco super-heróico, mas realista e cheio de detalhes em cada quadradinho ajudou a criar um mundo credível para os personagens de Alan Moore, em páginas recheadas de duplos sentidos, símbolos e referências da cultura pop. Rapidamente a obra tornou-se um objecto de culto e admiração, tanto por leitores como pela crítica. Em 1988 ganhou um prémio Hugo, em 2005 a revista Times colocou Watchmen na lista das “100 maiores novelas de língua inglesa de 1923 ao presente”. Junto com obras como “The Dark Knight Returns”, ajudou a mudar a forma como se contam histórias através da nona arte.


Uma breve comparação de alguns dos mais icónicos painéis recriados na versão de Zack Snyder em 2009: "Watchmen BD Vs Filme".


Texto adaptado de "Watchmen - Graphic Novel" [Cine31 - Março 2009].


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...