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sábado, 27 de dezembro de 2025

Sassaricando - Fata Morgana (1989)






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Sommer Party

Ora cá estou eu com mais um vinil, desta vez uma edição alemã, mais concretamente da Alemanha Ocidental! Mesmo quem não pesca de alemão - como eu - topa logo que o título "Sommer Party" (DA 2002 W) promete festa da grossa, e  já que estamos no Verão, vamos dar uma olhada aos êxitos da altura, nesta colectânea de vários artistas, desde Boney M até aos Eagles, além de músicas alemãs que duvido sejam famosas mais longe que 2 km do Muro de Berlim.
Não tenho a certeza do ano de edição, apenas que é posterior a 1970 (ou 1972, segundo outra fonte), o ano de criação da Delta Music. Nota: uma das músicas é de 1977, portanto a edição será no minimo desse ano. Também não descobri se são as versões originais ou covers, mas consta que a Delta Music fazia re-edições baratuchas. Se o tradutor do Google funcionou bem, o duplo LP, além dos discos, trazia dicas para festas! Original, não?

A capa frontal, com êxitos em destaque:

A capa traseira:


http://www.discogs.com/Various-Sommer-Party/release/4740326

O lado A do Disco 1:
  1. Barfuß Durch Den Sommer - [vídeo] do album homónimo, cantado por Jürgen Drews [video]
  2. Rock Bottom - [vídeo] a representante do Reino Unido no Festival Eurovisão da Canção de 1977, interpretada por Lynsey de Paul e Mike Moran. [video]
  3. What For A Rock
  4. Papa Trinkt Bier - [vídeo] (literalmente "O papá bebe cerveja", interpretado por Gunter Gabriel)
  5. Cindy- Há várias versões desta música, não sei qual está no álbum, provavelmente a dos "Peter, Sue & Marc" [video], "The Cats" [video], "Orchester Roy Robbins" ou "Anna & Kirka"[video] e "Helmut Zacharias".
  6. Battle For Big Band - [vídeo] - esta faixa devia dar umas danças animadas!
  7. Orzowei - Tema da popular série "Orzowei", na versão alemã ou italiana (cantada por "Oliver Onions", aka, os irmãos Guido e Maurizio De Angelis, também responsáveis por músicas e banda sonora de Sandokan, Dartacão, Willy Fog e outras séries)
  8. Esta Noche
  9. Knowing Me, Knowing You [vídeo]- Single dos über-famosos ABBA, que dispensam apresentações.
  10. Strange Emotion
  11. Die Süßen Trauben Hängen Hoch - [vídeo] cantado pelo alemão de origem alemã Costa Cordalis, que vinha do êxito do ano anterior "Anita" [video]. Sim, essa "Anita" do Marco Paulo [vídeo]!! Como curiosidade, Marco Paulo também cantou mais tarde "Morena, Óh! Morenita" [video], uma versão da "Morena Morenita" de Costa Cordalis, da que, curiosamente não encontrei um unico video.
  12. Hotel California - [vídeo] a canção deste disco que dispensa apresentações, um clássico intemporal.

O lado B do Disco 1:
  1. Kali Nichta [vídeo] O último grande êxito alemão de Vassiliki Papathanasiou, mais conhecida por Vicky Leandros.
  2. Guitar Man- Bread [vídeo] Retirado do álbum homónimo, o 5º da banda americana Bread.
  3. M
  4. Yes Sir, I Can Boogie
  5. Lay Back In The Arms Of Someone
  6. Your Lips And Mine
  7. Gefeuert
  8. Little Brown Jug
  9. It's A Game
  10. Afro Rock
  11. Ma Baker
  12. Veronique 

O lado A do Disco 2:
  1. Die Nacht Als Christina Fortlief
  2. Komm Doch Heute Nacht Zu Mir
  3. Shenandoah
  4. Santa Domingo
  5. In Griechenland
  6. Las' Rosas Parati
  7. Blood And Honey
  8. Come To Me
  9. Bye Bye Bel Ami
  10. Frisco 75000
  11. Kiss Me Now Or Never
  12. Ein Ganz Normaler Tag 

O lado B do Disco 2:
  1. My Love
  2. Nimm Den Nächsten Zug
  3. My Bonnie
  4. Mare
  5. Einen Tag Mehr Als Für Immer
  6. Adm
  7. Sir Duke
  8. The Best Place In My Heart
  9. Lost In France
  10. Leslie
  11. Don't Leave Me This Way
  12. Swiss Lady


As dicas para um festa de arromba (?), com receitas de refeições, saladas e bebidas:
Este vinil é da colecção cá de casa, algum dos nossos leitores também teve?

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sábado, 2 de agosto de 2025

Portugal Mix (1990)

A par de um catálogo com um respeitável número de artistas que iam do fado à música ligeira portuguesa (que anos mais tarde seria absorvida pelo complexo fenómeno a que se convencionou chamar de música pimba), alguns bem conhecidos outros nem tanto, a editora Discossete editou algumas compilações, como por exemplo de medleys de músicas dos anos 60,  que durante anos a fio podiam ser vistas nos escaparates das lojas de discos ou nos expositores de cassetes das tabacarias e bombas de gasolina. 

Mas em 1990, a Discossete reuniu alguma da prata da sua casa para um projeto que tentava apelar tanto ao patriotismo tuga como a um pé de dança. A qualidade do resultado final era discutível, mas não foi por isso que deixou de ter sucesso nem de animar bailaricos por esse país fora. 

Inspirado pelas medleys com batidas eurodisco como "Balla Balla" de Francesco Napoli ou os volumes "Max Mix" de Toni Peret e José Maria Castells, "Portugal Mix" reunia várias temas conhecidos do nosso cancioneiro popular com ritmos eurodisco e vários efeitos sonoros à mistura. 
Ao leme do projeto estava Ricardo Landum, hoje um credenciado e prolífico compositor para um sem-fim de artistas nacionais, mas que na altura tanto na sua carreira a solo como na sua ligação aos Da Vinci (foi o compositor do incontornável "Conquistador") assinava apenas como Ricardo tout court. Além dele no primeiro volume de "Portugal Mix", colaboraram nomes conhecidos como José Malhoa, Ana e Manuela Bravo, bem como António Passão, Deolinda Maria, Alexandre Calisto e Lígia



No segundo volume, também editado de 1990, juntaram-se também Toy, Anabela, Ilda de Castro e, com um lado A dedicado sobretudo ao fado, fadistas como António Severino, Fernanda Maria, Lena Silva e até a icónica Cidália Moreira.    


Mas apesar de todas as manhosices incluídas no produto final, creio que a grande maioria dos artistas envolvidos conseguir dar dignidade à sua interpretação, sobretudo os mais veteranos. Até porque estou em crer que o projeto não recuperou gravações anteriores e os artistas fizeram novas gravações expressamente para o efeito. Pergunto-me qual foi, por exemplo, a reação de Cidália Moreira ao ouvir a sua rendição de "Quem Me Dera Ter Outra Vez Vinte Anos" ser acompanhada daqueles efeitos sonoros a fazer lembrar os Chipmunks.  

Seja como for, os dois volumes de Portugal Mix tiveram um sucesso considerável. Não sei se foram editados mais volumes, creio que em vez disso, a Discossete aproveitou as medleys de canções portuguesas para uma nova série, Popular Mix. 

Além de outras utilidades dos dois discos, como por exemplo para encher chouriços nas emissões das rádios locais, lembro-me de ter lido certa vez nos comentários da página de Facebook da "Caderneta De Cromos" o relato de uma pessoa cujo trabalho incluía acompanhar grupos de idosos em excursões, e que descobriu em "Portugal Mix" a solução ideal para animar as viagens no autocarro, com os idosos a cantar e bater palmas alegremente ao som da medley. 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Aqua "Barbie Girl" (1997)

Se me dissessem que o primeiro filme que eu iria ver ao cinema pós-pandemia COVID era o filme da Barbie, eu responderia "O QUÊ?", mas foi o que aconteceu há dias. (Curiosamente o último filme que fui ver ao cinema pré-pandemia foi "As Mulherzinhas", também da Greta Gerwig.) 



Seja como for, o filme está a ser um fenómeno e, talvez inevitavelmente, trouxe de volta memórias de uma canção que, embora não faça parte da banda sonora (pelo menos não na versão original), tem sido indelevelmente associada com a boneca mais famosa do mundo desde que escalou os tops pelo mundo afora nos idos de 1997. Falo obviamente de "Barbie Girl" da banda pop dinamarquesa Aqua. Goste-se ou deteste-se, não há como negar que esta é uma das canções mais icónicas da segunda metade dos anos 90 e que é um must nas festas temáticas dedicadas a esse decénio.  



Aliás, a primeira vez que ouvi "Barbie Girl" foi uns meses antes do seu sucesso internacional, quando a popularidade ainda estava basicamente circunscrita ao reino da Dinamarca. Foi quando estava a ver na RTP o concurso de manequins Elite Model Look de 1997 (cuja vencedora foi uma muito jovem Soraia Chaves) e um dos convidados musicais eram precisamente os Aqua, com os apresentadores (não me recordo quem) a descreverem o seu estilo musical como "happy pop". Foi aí que ouvi pela primeira vez "Barbie Girl" onde certas partes como "I'm a Barbie girl, in a Barbie world" e "Come on, Barbie, let's go party" ficaram-me logo no ouvido. Lembro-me de achar que, apesar da combinação bizarra de um Ken careca com voz de Monstro das Bolachas e de uma Barbie bem menos comedida e angelical que a prototípica boneca (se bem que igualmente atraente) com voz de balão de hélio, ou talvez precisamente por causa disso, era uma canção extremamente divertida com o seu quê de subversiva, pelo que não fiquei surpreendido quando meses mais tarde "Barbie Girl" rodava nas rádios e na MTV e afins, rumo ao sucesso planetário. 

Mas comecemos pelo princípio. Corria o ano de 1994, quando dois jovens compositores e amigos de infância, Soren Rasted e Claus Norreen, foram encarregados de criar a banda sonora para um filme infantil dinamarquês: "Fraekke Frida og de frygtlose spionner" (traduzindo, é qualquer coisa como "Frida Marota e os Espiões Temerários"). Para algumas das canções, recrutaram a colaboração de um DJ de seu nome René Dif, que andava pelo mesmo estúdio. Os três gostaram de trabalhar juntos e começaram a congeminar a ideia de formar uma banda juntos. Foi então que Dif sugeriu que também entrasse no projecto uma jovem norueguesa que ele tinha conhecido quando a viu a cantar num ferry que fazia a travessia entre a Noruega e a Dinamarca, e com quem viria a namorar pouco depois. Essa jovem era Lene Nystrom, que conjugava a sua carreira de cantora com trabalhos como manequim e assistente de concursos televisivos (ao que uma vez li, chegou a ser uma das Ruth Ritas da versão norueguesa de "A Roda Da Sorte"). Rasted e Norreen acederam e em 1995, o quarteto lançaria o seu primeiro single sob o nome de Joyspeed, uma versão da cantilena infantil "Itsy Bitzy Spider". 




Contudo foi no ano seguinte, com um novo contrato e a mudança de nome para Aqua, que o grupo iniciou o seu caminho rumo ao sucesso. O seu primeiro single, "Roses Are Red", foi n.º 1 do top dinamarquês e valeu-lhes uma nomeação para os prémios da música dinamarquesa. O single seguinte "My Oh My" e o álbum "Aquarium" saíram no início de 1997 mas seria o terceiro single "Barbie Girl" a catapultá-los para um sucesso além-fronteiras. Sim, havia a irresistível batida eurodance, havia a bizarra mas eficaz química entre essa Barbie e esse Ken inconvencionais (ainda que por esta altura Lene e René já não namorassem), mas claro que o ingrediente especial era a provocação a todo o imaginário dessa instituição que é a boneca Barbie. Um imaginário e uma instituição tão presentes na cultura pop que até aqueles como eu que nunca tiveram nenhum interesse em brincar com Barbies (nem sequer para as despir ou danificar) estão bem cientes deles.   

Desde praticamente a sua criação que Barbie tem sido alvo de vários ataques desde as suas medidas corporais irrealistas ao apelo ao consumismo, passando pelo alegado feminismo performativo. Também praticamente desde a mesma altura que a sua empresa criadora e fabricante, a Mattel, tem feito o possível para desmentir ou menorizar as críticas à sua joia da coroa e conferir-lhe toda a dignidade. E com versos como "you can brush your hair, undress me everywhere" ou "I can act like a star, I can beg on my knees", dignidade não era bem o que "Barbie Girl" pretendia elevar em relação à sua boneca-musa e claro que isso enfureceu a Mattel.

A Mattel já movera no passado acções judiciais contra artistas que fizeram intepretações subversivas da Barbie (como por exemplo a cantora luso-belga Lio nos anos 80) mas o processo que moveu contra os Aqua via a sua editora nos Estados Unidos foi de longe o mais famoso, arrastando-se até 2002 com a decisão judicial a favor do grupo. 

Mas se o processo acabou por refrear o sucesso dos Aqua nos Estados Unidos, no resto do mundo "Barbie Girl" foi n.º 1 dos tops de inúmeros países. Por exemplo, contando apenas vendas tradicionais, é ainda hoje o 16.º single mais vendido de sempre no Reino Unido. E na verdade, a maioria das pessoas esteve-se nas tintas para as conotações sexuais e miúdos e graúdos trauteavam, uns alegremente, outros como ironia, a canção. Uma das minhas memórias mais ternas com a "Barbie Girl" foi no baile de Carnaval da minha escola secundária: quando tocava a canção, os rapazes gritavam de um lado "Come on Barbie, let's go party!" ao que as raparigas respondiam com "Ah ah ah yeah!" e "Uh oh uh, uh oh uh!".


Tudo isto sem ainda termos falado do icónico videoclip filmado no maior estúdio cinematográfico de Copenhaga, com a cenografia a recriar deveras fielmente, pese uma ou outra subversão, o universo da Barbie à escala humana. Creio mesmo que estaria muita próxima da cenografia que teria a Barbie Land se o filme da Barbie tivesse sido feito em 1997.  


Em 1998, os Aqua tiveram mais dois singles no primeiro lugar do top britânico: o single subsequente "Doctor Jones" e aquela que é para mim de longe a obra-prima dos Aqua, a sublime balada "Turn Back Time", incluída na banda sonora do filme "Sliding Doors - Instantes Decisivos". Isto para além de outros hits como o reeditado "My Oh My", "Lollipop (Candyman)" (o seu único outro hit nos Estados Unidos) e "Good Morning Sunshine". Paralelamente, o álbum "Aquarium" foi campeão de vendas e colecionou discos de ouro e platina por todo o mundo (Portugal incluído). É o terceiro álbum mais vendido de sempre na Dinamarca, com 350 mil cópias - impressionante se pensarmos que na altura este país tinha basicamente metade da população de Portugal. 

Em 2000, saiu o segundo álbum dos Aqua, "Aquarius", e mesmo sem o sucesso estrondoso do primeiro, também gerou alguns hits como "Cartoon Heroes", "Around The World" e "We Belong To The Sea".  Em 2001, no Festival da Eurovisão desse ano em Copenhaga, os Aqua (acompanhados pelos Safri Duo) foram os convidados especiais, interpretando uma medley dos seus hits, destacando-se alguma linguagem profana por parte Lene Nystrom.

Nos anos seguintes, a banda fez um hiato. Num rasgo à la Fleetwood Mac, em 2001 Lene Nystrom casou-se com Soren Rasted e os dois mudaram-se para Londres onde tiveram dois filhos (a união durou até 2017). Em 2003, Lene lançou o álbum a solo "Play With Me", do qual o single "It's Your Duty" teve alguma rotação no Sol Música e na Rádio Cidade. Por altura dos MTV Europe Music Awards em 2006 em Copenhaga, vi num programa da MTV que René Dif era então o dono da discoteca mais chique da capital dinamarquesa. 

Os Aqua em 2016


Por fim em 2009, os Aqua reuniram-se para promover um álbum best of com o single inédito "Back To The 80's" e desde então têm actuado ao vivo e lançado música intermitentemente, com o terceiro álbum de originais "Megalomania" a sair em 2011. Desde 2016, os Aqua têm actuado como trio depois da saída de Claus Norreen. 

Entretanto, "Barbie Girl" manteve-se um clássico incontornável. Eventualmente a Mattel até utilizou variações do tema (obviamente com outra letra) em algumas suas campanhas da Barbie e multiplicaram-se várias versões por parte de nomes tão díspares como Faith No More, Kelly Key e Ludacris. Recordo-me também, ainda nos anos 90, de passar um videoclip no Sol Música, de um cantor nórdico, cujo nome não recordo, a cantar uma versão em estilo de bossa nova.
E claro, foi actualmente samplado para um dos temas da banda sonora do filme da Barbie, "Barbie World" de Nicki Minaj e Ice Spice que, ao creditar os Aqua, trouxe-os de novo para os tops.  

Selecção de temas dos Aqua e relacionados

"Doctor Jones"



"Turn Back Time"


"Cartoon Heroes"


"Around The World"


"Back To The 80's"


Lene "It's Your Duty"



Nicki Minaj & Ice Spice with Aqua "Barbie World"


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

White Town "Your Woman" (1996)

Existem canções que surgem à frente do seu tempo. Existem canções que teimam em não envelhecer uma ruga. E existem canções que conseguem inesperadamente conjugar o passado, o presente e o futuro em si. É o caso de "Your Woman" de White Town, que encapsulava tão bem os três que subiu ao primeiro lugar do top britânico no início de 1997 e é um dos mais inconvencionais hits clássicos da década. Por exemplo, em 2010 a revista Pitchfork considerou-a uma das 200 melhores canções dos anos 90 (em 158.º lugar).



Como acontece na génese de tantos projectos musicais, White Town começou por ser uma banda mas acabou por ser um pseudónimo para o espólio musical de apenas uma pessoa. Neste caso, o de Jyoti Mishra, nascido a 30 de Julho de 1966 na cidade indiana de Rourkela, que aos três anos mudou-se com a família para Derby em Inglaterra. Crescendo como um jovem indiano introvertido numa cidade predominantemente branca (daí o seu pseudónimo musical), Mishra encontrou refúgio na música. 

A actual foto de perfil de Jyoti Mishra no Twitter


Inspirado por um concerto dos Pixies, Jyoti Mishra decidiu formar uma banda de rock alternativo com mais três amigos da universidade em 1989 a quem deu o nome de White Town, mas um ano depois, já estava sozinho no projecto colaborando ocasionalmente com outros músicos.
O primeiro álbum de White Town, "Socialism, Sexism & Sexuality" foi editado em 1994 e, apesar de algumas boas críticas da crítica especializada e do lendário radialista da BBC John Peel ter tocado uma faixa, "Heather's Party", passou despercebido. 

Com a tecnologia ao serviço de criação de música a evoluir, em 1996 Jyoti Mishra decidiu criar novos temas com um sampler, um microfone, um gravador de oito faixas e um CD-ROM que vinha numa revista. Hoje em dia, é bastante comum para músicos, dos mais famosos ao mais amadores, criar música nos seus quartos com todo o tipo de programas digitais em vez de ir para estúdio, mas nos anos 90, tal prática ainda estava no início. Enfim, armado com todo esse arsenal digital, Mishra compôs quatro faixas que fizeram parte do EP "Abort, Retry, Fail?", assim chamado porque foram essas palavras que apareceram quando o seu computador crashou enquanto mixava as faixas do disco, o que levou a que passasse os próximos três dias a reformatar tudo. 
Um das faixas do EP era "Your Woman", que continha algo que se revelaria o principal ingrediente para o seu sucesso: um sample de "My Woman", uma canção originalmente gravada em 1932 de Lew Stone & His Monseigneur Band e cantada por Al Bowlly (que curiosamente nasceu em Lourenço Marques, Moçambique). (Não, ao contrário do que muitos julgam, esse sample não era da "Imperial March" da trilogia "A Guerra das Estrelas"!) Jyoti Mishra lembrava-se de "My Woman" de ter visto a minissérie musical da BBC "Pennies From Heaven" (1978) com Bob Hoskins, que fazia playback de "My Woman", em especial do solo inicial de trompete que seria samplado em "Your Woman".



Aos poucos, "Your Woman" foi chamando a atenção das rádios britânicas, que foram tocando até que a EMI ofereceu um contrato a Mishra e o tema foi reeditado como single no início de 1997, tendo chegado ao n.º1 do top do Reino Unido e mais tarde de Espanha, Islândia e Israel, e até chegou ao n.º 23 do top americano, numa altura em que não eram muitos os artistas britânicos singravam nos States. 

Para além do infecioso sample, outros dois factores chamaram a atenção do público. O videoclip filmado em Derby a preto e branco que era uma homenagem (com uma pitada de paródia) aos filmes do cinema mudo, que contava a competição (por vezes literal) entre a heroína ingénua e andrajosa e a vamp vilã pelo afecto de um homem algo empertigado e onde Jyoti Mishra aparecia em ecrãs de televisão. A outra foi a própria letra, pois tratava-se de um homem a cantar que nunca poderia ser a mulher de alguém. Surgiram muitas interpretações (Um homem apaixonado por uma lésbica? Um gay apaixonado por um heterossexual?) com Mishra a afirmar que podia haver muitas válidas. Mas a interpretação mais consensual é a que a letra é do ponto de vista de uma mulher que está a aperceber-se de que o seu amado não passa de um escroque pretensioso (e possivelmente um marxista performativo). Mishra terá sido inspirado por conhecidas suas nessa situação e por ele achar que a composição musical do ponto de vista masculino é enviesado pela dualidade santa/meretriz pela qual os homens costumam ver as mulheres. 



O álbum "Women In Technology" saiu em 1997, mas a recusa de Jyoti Mishra em fazer as típicas promoções como actuações em programas de televisão (por exemplo o "Top Of The Pops") e entrevistas para revistas generalistas, aliada à incapacidade da editora em conseguir promover um material que não se encaixava num género específico, levou a um desempenho modesto em termos de vendas, apesar de críticas positivas. O single "Undressed" ainda chegou ao n.º 57 do top britânico, mas "Wanted", uma das três faixas cantadas por Ann Pearson, passou completamente ao lado.

Sem qualquer surpresa, Mishra rescindiu com a EMI e desde então lançou mais cinco álbuns independentemente (o mais recente em 2021), continuando a imprimir à sua obra um cunho experimentalista e o activismo político. Por exemplo, no seu álbum de 2006, "Don't Mention The War", existe uma faixa, "These Are The MPs", que é uma lista dos nomes dos deputados do parlamento britânico que aprovaram a participação do Reino Unido na invasão ao Iraque em 2003. 


E mesmo se não guarda muitas saudades do seu breve momento na ribalta, Jyoti Mishra continua orgulhoso do impacto que "Your Woman" teve no público. Não só ainda canta regularmente o tema ao vivo como por vezes comenta no YouTube a agradecer em vídeos que falam  sobre a canção, como aquele de um dos meus YouTubers preferidos, Todd In The Shadows. Em 2017, houve uma nova versão chamada "Your Woman 1917" com instrumentos comuns em 1917.  

E o legado de "Your Woman" estendeu-se a outras obras: não só inúmeras covers em variadíssimos géneros, como o sample foi utilizado por exemplo em "Power Woman" pela dupla alemã Mark Van Dale & Enrico em 1998, por Naught Boy com Wiley e Emeli Sandé em "Never Be Your Woman" de 2010 e em "Love Again" de  Dua Lipa em 2020. Em 2007, uma comédia romântica com Michelle Pfeiffer e Paul Rudd recebeu o título de "I Could Never Be Your Woman" (curiosamente em Portugal, o título para o filme nestas bandas, "Nem Contigo Nem Sem Ti" foi escolhido por entre sugestões do público!).

Undressed


"Wanted" (com Ann Pearson)



Lew Stone Monseigneur Band com Al Bowlly "My Woman"





domingo, 18 de dezembro de 2022

Compilação Número Um (1992)

Por esta altura, gostamos de analisar os alinhamentos colectâneas de êxitos e esta é sem dúvida que merece uma análise. Após o lançamento do primeiro volume em finais do ano anterior, em 1992 a série de colectâneas "Número Um" teve mais dois volumes, um CD/LP editado no Verão e um duplo volume pensado para o mercado natalício. Eu na altura ainda não tinha aparelhagem, nem sequer um rádio com cassetes, senão provavelmente queria ter este volume da série, já que está recheado dos maiores sucessos do ano de 1992. 


O terceiro volume da série "Número 1" foi editado pela EMI - Valentim de Carvalho e na versão CD continha trinta e uma faixas.  E o anúncio televisivo já aguçava o apetite:




CD1
1. Too Much Love Will Kill You - Brian May: Sabiam que além de guitarrista dos Queen, Brian May é um cientista especializado na astrofísica? Em 1992, May tinha editado o álbum a solo "Back To The Light", que incluía esta balada na qual ele reflectia sobre o fim do seu primeiro casamento. A canção foi inicialmente gravada para o álbum "The Miracle" dos Queen (1989), mas foi posta de lado porque foi dada preferência aos temas compostos em conjunto pela banda. A versão dos Queen interpretada por Freddie Mercury acabou por ser incluída no álbum póstumo "Made In Heaven" (1995) e lançada como o quarto single. 
2. How Do You Do! - Roxette: Por esta altura, os Roxette eram incontestavelmente a banda sueca de maior sucesso mundial pós-ABBA. Nesse ano de 1992, o duo editou o álbum "Tourism" que reunia temas gravados ao vivo e outros temas inéditos gravados durante a digressão do álbum "Joyride". Por exemplo, incluía duas canções gravadas num quarto de hotel em Buenos Aires. O single de apresentação foi "How Do You Do!", gravado em Estocolmo, e que rapidamente se tornou mais um dos hits incontornáveis dos Roxette, chegando ao n.º 1 dos tops na Noruega e na Espanha. Lembro-me que na altura, era uma das canções mais utilizadas nos concursos de dança na minha escola do 2.º ciclo. 
3. Good Stuff - The B'52s: Gozando um renovado sucesso graças aos hits "Love Shack" e "Roam" e à participação da vocalista Kate Pierson em "Shiny Happy People" dos R.E.M. (que vinham da mesma cidade: Athens, no estado americano da Geórgia), os The B-52's lançaram o álbum "Good Stuff", o único em que não participou a outra vocalista Cindy Wilson, que fez uma pausa para se dedicar à família. A faixa-título foi o single de lançamento e é uma das minhas preferidas da banda. Recordo-me do videoclip psicadélico, que foi um dos últimos utilizados pela RTP como tapa-buracos na programação. 
4. It's My Life - Dr. Alban: Quando o nigeriano Alban Nwapa foi estudar medicina dentária para a Suécia e começou a fazer alguns biscates como DJ e rapper para pagar os estudos e mais tarde a sua clínica, estava longe de imaginar que se tornaria toda uma estrela internacional graças a hits como "Hello Afrika", "Sing Hallelujah" e sobretudo "It's My Life", com o seu triunfante refrão sing-along. Na produção estava Denniz Pop, que depois também produziria sucessos para nomes como Ace Of Base e Backstreet Boys.  
5. One - U2: Assim reza a lenda: esgotados por todo o sucesso e promoção dos álbuns "The Joshua Tree" e "Rattle And Hum", os U2 chegaram a Berlim em 1990 na vésperas da reunificação da Alemanha em busca de inspiração para o álbum seguinte, mas em vez disso as tensões e as divergências criativas entre a banda só se exacerbaram ainda mais, ao ponto de uma ruptura estar iminente. Até que uma progressão de acordes de The Edge em guitarra acústica captou a atenção de todos e o produtor Daniel Lanois sugeriu tentarem trabalhar uma canção à volta disso. Como que intervenção divina, Bono Vox tem logo uma ideia para a letra e a melodia e com todos em sintonia, surge uma canção que lhe deu um alento e uma nova direção para aquele que seria o álbum "Achtung Baby" de 1991. Essa canção era "One" que foi o terceiro single e rapidamente se tornou uma das canções mais emblemáticas da banda. "One" teve três videoclips: o mais conhecido é o de Bono Vox a fazer lispync sentado numa mesa de restaurante; há ainda outro filmado em Berlim com alguns planos dos membros da banda vestidos em drag e do pai de Bono e um com imagens de búfalos a corrererem em câmara lenta, a partir da fotografia da capa do single (o autor da fotografia, David Wojnarowicz, morreu de SIDA meses depois da edição do single, sendo essa uma das razões pelas quais todas as vendas de "One" reverteram na luta contra a doença). "One" é também uma das canções mais versionadas do U2, tendo sido gravada por nomes tão díspares como Mica Paris, Johnny Cash, Pearl Jam, Vanessa Paradis e Joe Cocker. Em 2006, os U2 regravaram uma versão em dueto com Mary J. Blige. Recordo ainda a versão em fusão com "(I Wish I Knew How It Would Feel To Be) Free" de Nina Simone que os Lighthouse Family lançaram em 2001.     
6. Não Sou O Único - Resistência: Originalmente uma faixa do mítico álbum "Circo De Feras" dos Xutos & Pontapés, "Não Sou O Único" foi o primeiro single do álbum "Palavras Ao Vento" do supergrupo Resistência, que reunia nomes como Tim, Miguel Ângelo, Pedro Ayres Magalhães e Olavo Bilac e desde então que rivaliza com o original como a versão mais popular, assim como o outro hit do disco, a versão de "Nasce Selvagem". Ainda em 1992, os Resistência lançaram um segundo álbum "Mano A Mano". 
7. Walking On Broken Glass - Annie Lennox: Com as tensões entre ela e Dave Stewart a chegarem ao ponto de rutura dos Eurythmics em 1990, a escocesa Annie Lennox estreava-se a solo em 1992 com álbum "Diva". Este "Walking On Broken Glass" foi o segundo single e teve um marcante videoclip com a estética do século XVIII e a participação de John Malkovich e Hugh Laurie. 
8. Sleeping Satellite - Tasmin Archer: Segundo a própria Tasmin Archer, "Sleeping Satellite" foi escrita em 1989 por alturas do 20.º aniversário da aterragem na Lua por Armstrong, Aldrin e Collins, com a letra a reflectir sobre os avanços da Humanidade e da tecnologia e se algo importante se perdeu no processo. Após Archer assinar contrato com a EMI em 1990, a canção foi lançada como single de apresentação do álbum "Great Expectations" e rapidamente chegou ao n.º1 do top britânico. Tasmin Archer editou desde então mais três álbuns (o mais recente "On" em 2006) mas nunca mais se aproximou do sucesso de "Sleeping Satellite" que no entanto permanece como um intemporal clássico dos anos 90. 
9. Rhythm Is A Dancer - Snap!: Poder-se-ia pensar que o colectivo alemão Snap! nunca superaria o estrondoso sucesso do hit de 1990 "The Power", foi o que alcançaram em 1992 quando "Rhythm Is A Dancer" dominou as pistas de dança e as ondas de rádio em todo ao mundo, atingindo o n.º 1 dos tops do Reino Unido (onde esteve no topo durante seis semanas), Alemanha, Áustria, Bélgica, Espanha, França, Irlanda, Israel, Países Baixos, Suíça e Zimbabwe e chegando ao top 5 nos Estados Unidos. Se o refrão cantado por Thea Austin é absolutamente estrelar, já a parte rap interpretada por Turbo B tem sido muito criticada pelo verso "I'm serious as cancer when I say rhythm is a dancer". No Brasil, o tema ficaria associada ao strip-tease masculino porque era muito utilizado nas cenas da telenovela "De Corpo E Alma" que se passavam num clube de strip masculino. Novas versões de "Rhythm Is A Dancer" foram editadas em 1996, 2003 e 2008.       
10. Humpin' Around - Bobby Brown: Desde menino e moço que Robert Barisford Brown está na ribalta, primeiro como parte do grupo New Edition e depois numa carreira a solo iniciada em 1988. Em 1992, Brown lançou o seu terceiro álbum a solo "Bobby", do qual "Humpin' Around" foi o single de apresentação. Mas mais do que a sua música, foi o seu casamento com Whitney Houston que fez Bobby Brown ser notícia nesse ano. 
11. Vida De Marinheiro - Sitiados: Foi uma canção dos Mão Morta, que a banda ainda sem nome viu o título escrito numa maquete, que denominou a banda nacional com o mais triunfante hit de estreia de 1992. Com uma poderosa fusão de rock e sonoridades folclóricas (a fazer lembrar uns Pogues à portuguesa) e as figuras carismáticas do líder João Aguardela e da acordeonista Sandra Baptista, o álbum homónimo dos Sitiados fez grande sucesso, muito por culpa do hit "Vida De Marinheiro" que em 1992 andou na boca de toda a gente. Os Sitiados editariam mais quatro álbuns ao longo dos anos 90, até se separarem no ano 2000. João Aguardela dedicou-se então a outros projectos como Megafone, A Naifa e Linha Da Frente até infelizmente falecer de cancro em 2009 com somente 39 anos.           
12. Ain't No Doubt - Jimmy Nail: O actor e cantor Jimmy Nail teve em 1992 um pico na sua carreira quando este "Ain't No Doubt", influenciado pelo New Jack Swing americano, chegou ao n.º 1 do top britânico. Em Portugal, o papel de mais conhecido de Jimmy Nail como actor será provavelmente o de Agustín Magaldi em "Evita" (1996) ao lado de Madonna.  
13. Feels Like Forever - Joe Cocker: O primeiro volume do Número Um em 1991 incluía a faixa-título do álbum "Night Calls" de Joe Cocker. No ano seguinte, o álbum foi reeditado com alguns temas inéditos incluindo este "Feels Like Forever", escrito por Bryan Adams e Diane Warren. 
14. Disappointed - Electronic: Os Electronic era um super-projecto composto por Bernard Sumner dos New Order e Joy Division, Johnny Marr dos The Smiths e Neil Tennant e Chris Lowe dos Pet Shop Boys. O primeiro single deste colectivo foi "Getting Away With It" em 1989 mas só em 1991 surgiu o álbum homónimo. Tennant e Lowe abandonaram o projecto em 1994, mas os Electronic continuaram até 1999, com mais dois álbuns, onde colaboraram nomes como Karl Bartos dos Kraftwerk. Este "Disappointed" foi um single à parte, que viria a ser incluído na banda sonora do filme "Cool World" e acabou por ser o mais bem-sucedido dos Electronic em termos de tabelas de vendas chegando ao n.º 6 do top britânico e, segundo diz a Wikipedia, ao n.º 8 em Portugal.   
15. Take A Chance On Me - Erasure: Em 1992, fazia dez anos que os ABBA tinham iniciado um longo interregno (apenas quebrado em 2021). Porém esse ano é considerado o ano da redescoberta do quarteto sueco, com o lançamento da colectânea campeã de vendas "ABBA Gold" mas, antes disso, com o EP "Abba-Esque" dos Erasure, onde o duo britânico versionou quatro canções dos ABBA: "S.O.S.", "Voulez-Vous", "Lay All Your Love On Me" e "Take A Chance On Me". A promoção incidiu mais sobre esta última, com um inesquecível videoclip com Andy Bell e Vince Clarke transvestidos de Frida Lynstaad e Agnetha Faltskog e um rap de MC Kinky. O EP foi n.º 1 em vários países europeus, incluindo no Reino Unido. Mais tarde, os Bjorn Again, a mais famosa banda de tributo aos ABBA, lançaram um single intitulado "Erasure-ish" com duas versões de canções dos Erasure.   
16. Hazard - Richard Marx: Conhecido pelas suas baladas e temas soft-rock, terá sido surpreendente para os fãs de Richard Marx saber do tema mais tétrico do segundo single do álbum "Rush Street", contando a história de um homem ostracizado na cidade titular do Nebraska que é acusado da morte de Mary, a jovem com quem tinha uma relação de amizade (ou algo mais). O narrador declara a sua inocência ao longo da canção, mas foca-se sobretudo no facto de desde criança as gentes da cidade lhe tratarem como um pária, deixando o mistério da morte em aberto. O mistério e negrume da canção estão presentes no famoso videoclip a preto e branco. 

CD2
1. Sangue Oculto - GNR: Trinta anos antes de dar título a uma telenovela da SIC com Sara Matos a fazer de não sei quantas gémeas, "Sangue Oculto" foi um dos maiores hits nacionais de 1992. Se o Grupo Novo Rock já contava então com mais de uma década de sucesso no activo, o álbum "Rock In Rio Douro" catapultou Rui Reininho e companhia para um pico de popularidade quase inaudito, multiplicando discos de platina e culminando num concerto no Estádio de Alvalade para 40 mil pessoas, na altura a maior audiência de sempre de um concerto de uma banda portuguesa. "Sangue Oculto" contava com a participação de Javier Andreu, vocalista da banda espanhola La Frontera, sendo pois cantada em português e castelhano, e tenho de admitir que gostava mais do refrão cantado por Andreu ("al huir de una investida/ es como saltar una hoguera/ la barrera de fuego una frontera").     
2. Lobo-Hombre En Paris - La Unión: E continuando na língua de Cervantes, os La Unión foram uma das bandas mais importantes do rock espanhol dos anos 80. Porém cá deste lado da Península o seu momento mais notório foi precisamente em 1992 com o álbum ao vivo "Tren De Largo Recorrido", gravado num concerto em La Coruña, que finalmente deu a conhecer ao público português o tema mais embelmático da banda, "Lobo-Hombre En Paris", originalmente editado em 1984. (Desconheço se a versão incluída nesta compilação é a original ou a gravada ao vivo.) Os La Unión continuaram activos por mais anos, mas em 2020 o vocalista Rafael Sanchez anunciou o fim da banda e o início de uma carreira a solo, mas o baixista Luis Bolín ainda actua sob o nome de La Unión. Em Abril deste ano, o guitarrista Mario Martinez faleceu de cancro da laringe. 
3. Jesus He Knows Me - Genesis: O álbum "We Can't Dance" dos Genesis (que ainda hoje é o penúltimo da banda e o último com Phil Collins) continuava em alta e o quarto single era uma paródia aos tele-evangelistas, precisamente numa altura em que vários deles estavam a ser investigados por todo o tipo de falcatruas devido à vida de luxo obtida à custa das doações dos fiéis. 
4. Damn I Wish I Was Your Lover - Sophie B. Hawkins: Provavelmente um dos primeiros hits globais explicitamente sobre o amor e desejo sexual de uma mulher por outra (sendo que esta está numa relação abusiva com outrem) foi o tema que lançou a carreira da cantora e compositora americana Sophie B. Hawkins (o B é de Ballantine), que se define a si própria como omnisexual. Hawkins teve mais alguns temas de sucesso nos anos seguintes como "Right Beside You" e "As I Lay Me Down To Sleep".     
5. Tão Só - Sétima Legião: A banda de "Sete Mares" e "Por Quem Não Esqueci" lançou em 1992 o álbum "O Fogo", de onde foi extraído este "Tão Só". Os Sétima Legião regressariam para mais um álbum ao vivo, "Auto da Fé" (1994) e outro de estúdio, "Sexto Sentido" (1999), antes de terminarem em 2000 com um disco best-of. 
6. Baker Street - Undercover: Depois de ter ficado famosa por ser a rua da residência de Sherlock Holmes, Baker Street em Londres deu título a um tema do escocês Gerry Rafferty de 1978. O tema contém um dos mais lendários solos de saxofone da história da música pop, tocado por Raphael Ravenscroft e foi um hit em todo ao mundo, chegando ao n.º dos tops da África do Sul, Austrália e Canadá. Em 1992, o trio britânico Undercover lançou uma cover eurodance de "Baker Street" que chegou ao n.º 2 do top britânico (o original foi até ao n.º 3). Um dos membros dos Undercover é Steve McCutcheon, ou Steve Mac, que mais tarde viria a tornar-se um importante compositor e produtor.     
7. Too Funky - George Michael: "Too Funky" foi uma das faixas destinadas ao segundo volume do álbum "Listen Without Prejudice" de George Michael, mas com o cantor embrenhado numa disputa legal com a Sony Music, esse disco nunca se materializou. Em vez disso, foi um dos três temas que George Michael entregou para a colectânea "Red Hot + Dance", cujas vendas revertiam a favor da pesquisa e da luta contra a SIDA, e que também incluiu temas de artistas como Madonna, Lisa Stansfield e Seal. "Too Funky" é célebre pelo seu videoclip passado num exubertante desfile de moda do criador Thierry Mugler e que tinha a participação de top models famosíssimas como Linda Evangelista, Tyra Banks, Estelle Hallyday, Eva Herzigova e Nadja Aumermann. (Menos famosa mas para mim a mais impactante no vídeo era Emma Sjöberg com o seu corpete com manípulos e espelhos de mota!) Existe também um videoclip alternativo, realizado pelo próprio Mugler, em que aparecem os futuros actores Justin "Alex Karev" Chambers e Djimon Honsou.  
8. Jump - Kris Kross: Chris Kelly e Chris Smith, que é como quem diz Mac Daddy e Daddy Mac, que é como quem diz, Kris Kross, tinham somente treze anos quando em 1992 alcançaram um hit global e um clássico do hip hop com "Jump", que entre outros momentos de ribalta, os levou a actuarem na digressão Dangerous de Michael Jackson. Os Kris Kross editariam mais dois álbuns. Chris Kelly faleceu em 2013 com apenas 34 anos.  
9. Ellegibo (Una História de Ifa - Ejigbo) - Ellegibo: Originalmente gravado pela cantora brasileira Margareth Menezes, "Elegibô (Uma História de Ifa - Ejigbo)" ficou conhecido pela sua inclusão na banda sonora do filme "Orquídea Selvagem". Eu recordo-me depois que em 1992, foi utilizado no anúncio a uma bebida (não me recordo qual), o que levou a uma versão eurodance de produção espanhola sob o nome Ellegibo, que foi n.º 1 do top espanhol durante seis semanas e cujo sucesso se estendeu à pistas de dança deste lado da fronteira. 
10. Tudo Ou Nada - Zero: João Loureiro ainda estava a cinco anos de assumir pela primeira vez a presidência do Boavista, pelo que na altura ainda era mais conhecido por ser o vocalista dos Ban. Após o álbum "Mundo de Aventuras", três elementos da banda viraram as agulhas para outro projecto, os Zero com ex-GNR Alexandre Soares, do qual resultou um álbum homónimo e o hit "Tudo Ou Nada".  
11. Heading For A Call - Vaya Con Dios: Após o sucesso do álbum "Night Owls" de 1990 que continha dois do maiores hits dos Vaya Con Dios, "What's A Woman" e "Nah Neh Nah", a banda belga passou por um período crítico em 1991 quando o membro fundador Dirk Schoofs deixou a banda em diferendo com a vocalista Dani Klein, acabando por morrer pouco tempo depois. Com os Vaya Con Dios a se tornarem basicamente um projecto de Klein acompanhada por vários músicos, 1992 viu a edição do álbum "Time Flies" do qual este "Heading For A Fall" foi o single de apresentação. Os Vaya Con Dios continuariam até 2014 mas regressaram para mais um disco em 2022.  
12. Sympathy - Marillion: Para comemorar dez anos de existência, os Marillion lançaram o seu álbum best of "A Singles Collection", que continha doze dos singles da banda britânica e mais dois temas inéditos. Nos Estados Unidos, o disco teve o título "Six Of One, Half-Dozen Of The Other", indicando que seis singles eram da era liderada por Derek "Fish" Dick que deixou o grupo em 1988 (que conteve os hits "Kayleigh" e "Lavender" e a outra meia dúzia eram da era com Steven Hogarth como vocalista (função que mantém até hoje). Um dos temas inéditos era este "Sympathy", originalmente gravado pelos Rare Bird in 1970
13. What God Wants Part 1 - Roger Waters: Sobretudo conhecido como baixista e principal letrista dos Pink Floyd, sendo portanto preponderante na criação de álbuns tão lendários como "The Dark Side Of The Moon", "Wish You Were Here" e "The Wall", em 1983 Roger Waters deixou a banda para uma carreira a solo, cujo maior sucesso comercial foi com o terceiro álbum "Amused To Death", que contou com colaborações de nomes como Jeff Beck, Patrick Leonard, Randy Jackson e Rita Coolidge do qual este "What God Wants - Part 1" (existem mais duas partes) foi o single de apresentação e o único tema  a solo de Waters a chegar ao top 40 britânico. 
14. America: What Time Is Love - KLF: Depois de terem sido o mais bem-sucedido colectivo electro-dance britânica do início dos anos 90, os KLF terminaram em 1992 literalmente um estrondo, com uma actuação nos Brit Awards onde foi disparada pólvora seca de uma metralhadora. "What Time Is Love?" teve três versões diferentes, sendo a mais conhecida aquela intitulada como "America: What Time Is Love" que contou com a voz de Glenn Hughes, que integrou bandas como Deep Purple e Black Sabbath. 
15. O Hábito Faz O Monstro - Rádio Macau: O álbum "A Marca Amarela", do qual este "O Hábito Faz O Monstro" foi a faixa de maior destaque, encerrou o primeiro capítulo da vida dos Rádio Macau, com Xana e Flak a seguirem projectos a solo antes de regressarem com novo disco em 2000 e uma nova sonoridade.   

Playlist com as 31 canções:

segunda-feira, 18 de julho de 2022

Bobby McFerrin "Don't Worry Be Happy" (1988)

Existem canções que logo à primeira audição dá para ver que são tão intemporais que parece que tanto podiam ter sido recentes como antigas. É o caso desta canção que é de 1988, mas que eu na altura julgava que era dos anos 60, ou pelo menos, uma cover actualizada. Mas não, é mesmo dos anos 80 e foi um enorme hit, chegando ao n.º 1 de vários tops, incluindo Estados Unidos, Austrália e Alemanha e utilizado em vários meios, desde o filme "Cocktail" com Tom Cruise aos anúncios dos pensos higiénicos Evax. 



Reza a lenda que foi o guru indiano Meher Baba (1894-1969) que criou o slogan "Don't Worry Be Happy" de forma a angariar seguidores ocidentais. Ao longo dos anos 60, foram surgindo vários posters e cartões com essa frase e foi precisamente um desses posters que viu em casa de uns amigos em São Francisco que Bobby McFerrin teve a ideia para compor a canção que seria o seu único grande momento de sucesso mainstream. Canção essa que não utilizava mais do que a voz e alguns estalidos de dedos e percussões corporais do próprio McFerrin.



Robert Keith McFerrin Jr. nasceu a 11 de Março de 1950 em Manhattan. O seu pai, Robert McFerrin sénior, foi um dos primeiros cantores líricos negros a cantar em grandes palcos nos Estados Unidos. Já o McFerrin filho herdou os talentos vocais, sendo capaz de cantar em registo multifónico (ou seja em diversos tons, tipo uns Tetvocal de um homem só), fazendo carreira no jazz. O seu segundo álbum, "The Voice" (1984) fez história por ser o primeiro álbum jazz gravado sem qualquer acompanhamento instrumental (uma das faixas desse álbum chama-se "I'm My Own Walkman"!) mas seria o seu quarto álbum, "Simple Pleasures", que conteria o seu grande hit "Don't Worry Be Happy". 

Assim de repente, dizer a alguém para simplesmente deixar de se preocupar e ser feliz parece positividade tóxica. (Por exemplo, ouvir esta canção durante  o confinamento da pandemia não deve ter sido muito recomendável.) Tal como eu, como a pessoa ansiosa que eu sou, detesto que me digam repetidamente para ter calma, como se a calma me surgisse só por a enunciarem. Contudo, creio que a verdadeira mensagem da canção está no verso "in every life we have some trouble, but when you worry you make it double", ou seja, os problemas são inevitáveis na vida mas frequentemente a preocupação excessiva só prejudica mais a situação.  



Além disso, além de toda a mestria acapella com que foi construída, "Don't Worry Be Happy" tinha uma aura de cantilena popular que lhe conferia uma aura intemporal, que até custava a crer que era então uma canção do presente e não um eco do passado. E depois havia o videoclip com Bobby McFerrin em divertida interação com os comediantes Robin Williams e Billy Irwin. (Consta que Williams dissera que só estava disponível para 20 minutos de filmagem mas acabou por ficar o dia inteiro!) 

Bobby McFerrin em 2021


Embora "Don't Worry Be Happy" tenha ajudado ao sucesso do álbum "Simple Pleasures", os singles seguintes passaram despercebidos e McFerrin calmamente saiu dos holofotes do mainstream e prosseguiu os projectos que bem entendeu. Além de continuar a editar discos de jazz (o mais recente em 2013), foi professor universitário, investigador de musicologia, maestro da Orquestra de São Francisco e maestro convidado em várias orquestras em todo o mundo. Quanto à sua relação com o hit que o tornou num nome conhecido, ela tem variado ao longo dos anos: em 2002, num programa da VH1 sobre one hit wonders, Bobby McFerrin disse que chegara um nível de tal saturação que já nem mais a conseguia cantar, mas desde então têm havido alguns registos de McFerrin a cantar "Don't Worry Be Happy" ao vivo. Não sei se a cantou quando ele veio cá em 2018 ao Festival EDP Cool Jazz, mas adivinhem qual foi a canção usada nas promos? 


segunda-feira, 25 de abril de 2022

Lou Bega "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" (1999)

Recuamos hoje ao Verão quente de 1999, o último Verão do milénio! (Sim, eu sei muito bem que na verdade o términus do século XX e do segundo milénio depois de Cristo foi em 2000, mas na altura a Humanidade decidiu que o Milénio acabava a 31 de Dezembro de 1999 e quis lá saber de exatidões matemáticas.) Nesse Verão de 1999, quando Portugal respirava prosperidade e esperança como nunca se atrevera a sentir, quando a Expo 98 deu alento à candidatura ao Euro 2004 e quando a luta de Timor Leste pela independência levou a uma mobilização e solidariedade no nosso país em níveis raramente vistos desde o 25 de Abril, entre os diversos sons que compuseram a banda sonora desse Verão, houve um destaque para os ritmos latinos. Ricky Martin e Enrique Iglesias, já bem consagrados nos mercados latino-americano, deram o salto para o sucesso global, Jennifer Lopez dava o salto dos filmes para a música, Carlos Santana lançou o seu álbum mais celebrado "Supernatural" e até foi então que se descobriu que "el único fruto del amor es la banana, es la banana!"
E foi também em 1999 que um jovem alemão deu ao mundo um hit tão esmagador que parecia ao mesmo tempo tão retro e tão a gritar "ESTAMOS EM 1999!", que tão rapidamente ficou datado como se tornou um evergreen, e que redefiniu o mambo para toda uma nova geração. Não que fosse um mambo genuíno, mas o certo é que a partir de então, quando se ouve a palavra "Mambo", aposto que para muito boa gente a primeira coisa que virá à cabeça será este tema. 



A teoria mais consensual sobre a origem do mambo é que terá derivado de dois estilos musicais cubanos: o danzón e o montuno. Nos anos 30, a orquestra Arcaño Y Sus Maravillas popularizou um novo estilo chamado de danzón de nuevo ritmo, mais tarde conhecido como danzón-mambo. Em 1949, o músico cubano Damaso Perez Prado mudou-se para o México onde reinventou a sonoridade do mambo, imprimindo-lhe influências do swing e do jazz americano. Essa nova sonoridade acabou por também ganhar popularidade nos Estados Unidos, dando origem a vários conjuntos de mambo made in USA e até alguns na Europa. O auge comercial do mambo durou até ao início dos anos 60.
A obra completa de Perez Prado continuou a ser reconhecida e redescoberta nas décadas seguintes, destacando-se temas como "Guaglione" (que chegou ao 2.º lugar do top britânico em 1995 devido a um anúncio da cerveja Guinness), "Patricia" e "Mambo N.º 5". (Ao que parece não existem os Mambos n.º 1, 2, 3 e 4, mas existe sim um "Mambo N.º 8"!) 

Entretanto, a 13 de Abril de 1975, nascia em Munique um filho de mãe siciliana e pai ugandês, a quem foi dado o nome de David Lubega. Inicialmente, o jovem David Lubega queria ser rapper, tendo feito parte alguns grupos de hip hop desde a adolescência e gravou o primeiro disco em 1990. Em 1997, integrou o grupo Balibu cujo single "Let's Come Together (Holiday Shout)" pretendia claramente ser o novo "Coco Jamboo".
Mas então como é que um alemão aspirante a rapper se reinventou como um ícone do mambo? Há duas versões da história: o próprio Lubega afirma que descobriu a música latina numa viagem a Miami e decidiu então reinventar-se como cantor latin-pop, enquanto o seu manager Goar Biesenkamp tem declarado que, após os Balibu, ele é que lhe sugeriu essa reinvenção.  


 

Seja como for, David Lubega lá se aperaltou com o fato às riscas, o chapéu Fedora e o bigodinho para se metamorfosear em Lou Bega e a persona do latin lover. E em Abril de 1999, o seu primeiro single "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" foi editado na Alemanha. A canção era trabalhada à volta de "Mambo N.º 5" de Perez Prado, com Bega a enumerar as suas conquistas amorosas na letra. No refrão havia a Monica, a Erica, a Rita, a Tina, a Sandra, a Mary e a Jessica, e na primeira estrofe ainda havia mais a Angela e a Pamela. Na altura, Bega afirmava que estas mulheres eram todas reais, mas acho que até então o consenso foi de que era apenas ele a viver a personagem.


Seja como for  "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" foi rapidamente um hit na Alemanha e à medida que o Verão de 1999 foi chegando, o tema foi sendo lançado internacionalmente e foi escalando os tops de todo o mundo, tendo sido n.º 1 em praticamente todos os países europeus, Austrália, Canadá e Nova Zelândia e chegado ao 3.º lugar nos Estados Unidos, com Lou Bega actuando alegremente pelo globo. O álbum "A Little Bit Of Mambo" foi então editado, sendo também um campeão de vendas.




Lou Bega é ocasionalmente referido como um one-hit wonder mas o single seguinte "I Got A Girl" ainda foi um sucesso assinalável em vários países, nomeadamente na Finlândia onde chegou ao segundo lugar do top. Recordo-me que em 2000, ambos os temas foram usados no genérico do concurso da RTP "Só Números". 
Mas os single seguintes "Tricky Tricky" e "Mambo Mambo" passaram mais despercebidos bem como o segundo álbum de Lou Bega, "Ladies And Gentlemen", de 2001, onde há a destacar uma versão de "Just A Gigolo". 



Após um breve hiato, Lou Bega voltou ao activo em 2005 e desde então que tem editado discos e actuado com regularidade, agora sobretudo nos circuitos de nostalgia dos anos 90 (aliás o seu mais recente álbum é de versões de temas dos anos 90). Em 2010, teve um hit assinalável na Alemanha com "Sweet Like Cola". E em 2019, num verdadeiro recontro de hits titãs dos anos 90, saiu o single "Scatman vs. Hatman". 

A par de isso "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of)" continuou o seu legado. Não só Lou Bega fez novas versões para certas ocasiões (como concerto de André Rieu) e anúncios publicitários (lembro-me de ter sido usado por exemplo num anúncios das Pringles), como regressou ao n.º 1 do top britânico numa versão de… Bob O Construtor em 2001 (aliás, era o single que estava em n.º 1 no Reino Unido aquando do 11 de Setembro) e a BBC usou o tema na sua cobertura de jogos de críquete. É caso para afirmar que um bocadinho de mambo chegou muito longe.  

Selecção de temas: 

"I Got A Girl"


"Just A Gigolo / I Ain't Got Nobody" 

 


"Mambo Mambo"


  "Sweet Like Cola"


"Scatman vs. Hatman"



quarta-feira, 1 de setembro de 2021

Canções da Rua Sésamo - Cassete (1990)

 


O Paulo Neto já escreveu na enciclopédia sobre a icónica versão portuguesa da "Rua Sésamo (1989-96)" e em mais detalhe sobre as "Canções da Rua Sésamo". Eu 1989, do alto dos meus 10 anos de idade  eu já achava a Rua Sésamo muito infantil, e acabei por assistir mais vezes ás repetições, geralmente na parte da tarde, enquanto aguardava por outras séries e desenhos animados. E apesar de não ser fã hardcore havia lá muito material de qualidade, como a Alexandra Lencastre e os sketches e canções de que ainda recordo excertos tantos anos depois. 

E claro, que não ia deixar passar a oportunidade de agarrar numa feira de velharias a cassete áudio que nos ocupa hoje:

"Canções da Rua Sésamo". Em som Estéreo.


 

Na capa frontal, os icónicos Poupas e Ferrão num recanto da rua mais famosa do planeta. E na dobra traseira, a listagem dos 31 temas que foram espremidos na cassete. Lançado em 1990, já enverga o logotipo com as cores da segunda temporada.

No interior do folheto/capa, de novo a lista das 31 faixas, mas com a informação relativa aos créditos dos autores das respectivas letras, músicas e arranjos:

Os arranjos foram da autoria do histórico Ramon Galarza, que também tratou de compor a maioria das canções do álbum. 

A lista das faixas:

FACE A:

  1. Tema "Rua Sesamo".
  2. Passear a pé.
  3. Formas de escrever.
  4. O Telefone.
  5. O Hospital.
  6. Lá vão eles.
  7. Atravessar a rua.
  8. Paragens.
  9. Luminárias.
  10. Mar, Maré e Poesia.
  11. Esta Rua é divertida.
  12. Ferrão Fadista 1ª Parte.
  13. Ferrão Fadista 2ª Parte.
  14. Só eu.
  15. Parabéns.
  16. Os cinco.

FACE B:

  1. Quando eu.
  2. O zangão 1ª Parte.
  3. O zangão 2ª Parte.
  4. Teatro de Janela - O cinco.
  5. De fio a pavio.
  6. O passeio.
  7. O combóio dos R's.
  8. Rádio Disparate 1ª Parte.
  9. Rádio Disparate 2ª Parte.
  10. Canção do Zé Maria.
  11. Notas só.
  12. Dez-Zero.
  13. Os gatos lavam os dentes.
  14. Indo eu.
  15. Os gatos lavam os dentes (reprise).


Vindo de uma marca tão grande, se vendeu o álbum em cassete, naturalmente vendeu o disco de vinil homónimo, com o mesmo número de faixas da versão em fita (ou melhor dito, a cassete consegui ter o mesmo número de faixas do vinil). A Wikipédia afirma que um total de 4 volumes de "Canções da Rua Sésamo" foram publicados em CD, Vinil e cassete.

ACTUALIZAÇÃO: O canal do YouTube Máquina Do Tempo postou um vídeo com todas as canções deste disco.

segunda-feira, 19 de julho de 2021

5 canções subvalorizadas das Doce

 por Paulo Neto



Há anos, já fiz aqui um artigo com o meu top 5 das canções da Doce. Mas agora com a recente estreia da biopic da nossa lendária girlband, resolvi ir mais ao fundo na discografia das Doce e revelar algumas das suas canções menos conhecidas mas que, a meu ver, não ficam atrás dos seus grandes hits e que merecem ser mais divulgadas. Quem quiser descobrir mais repertório das Doce para além da imortal trindade "Bem Bom", "Amanhã De Manhã" e "Ali Babá" e de hits como "OK, KO" ou "É Demais", estas canções são um bom ponto de partida.

Desta vez, não fiz um ranking, optando antes por apresentar estas cinco canções por ordem cronológica. 

"Doce Caseiro" (1980): Embora as Doce tivessem o seu tema epónimo com o qual concorreram ao Festival da Canção de 1980, esta faixa do primeiro álbum "OK/KO" será porventura o tema mais meta da Doce, com a letra a explicar, por entre metáforas de doçaria, a essência do grupo: o de quatro mulheres confiantes, sem medo de assumir uma postura de desafio às convenções da altura e dispostas a trazer mais cor a um Portugal ainda bem cinzentão, espelhada em versos como "Não temos qualquer segredo nem medo/ Ai nunca é tarde nem cedo/Sacode as ancas e dança" ou "Somos o doce da casa na brasa/Prova um pedaço de graça/Do nosso doce agressivo", sem esquecer o refrão "Doce caseiro, doce caseiro/Quem entra na dança?/Quem é o primeiro?". As Doce infelizmente pagariam o preço dessa ousadia mas o primeiro pontapé na porta estava dado e não haveria volta atrás. "Doce Caseiro" foi o lado B do single "OK, KO" e uma das suas raras performances em televisão é esta do programa "Eu Show Nico".



"Eu Sou" (1981): Um dos vários mitos que rodearam as Doce foi o de que a loiríssima Laura Diogo não cantava e que não ia além de ser a Miss do grupo e de fazer lipsync, escudada pelas vozes das outras três. O facto de não se ouvir a voz dela nos maiores hits do grupo e de que Ágata, que nos anos finais de grupo foi o membro suplente do grupo, ter afirmado ao longo dos anos que Laura actuava de microfone desligado, ajudaram a perpetuar esse mito. No entanto, há uma canção das Doce em que Laura Diogo é a voz principal. Aliás, no segundo álbum do grupo, "É Demais" de 1981, cada uma das Doce tinha um tema ao solo. No caso de Laura, a balada "Eu Sou". E se a faixa confirma que ela não tinha as amplitudes vocais das outras três, existe porém algo de cativante no registo Jane Birkin-esco que Laura imprime aos versos, sibilando palavras como "Eu sou o teu prazer/Já tenho o corpo a arder" e no seu contraste com a força do refrão quando as outras três se juntam. O único cringe é o verso "Eu sou a tua escrava" que obviamente envelheceu mal.
Seja como for, é impensável imaginar as Doce sem Laura Diogo, até porque foi o membro de grupo mais interveniente em alguns aspectos extramusicais como a negociação de contractos. Essa experiência seria determinante para a sua carreira após o fim do grupo como manager de vários artistas como os Sitiados e Sara Tavares.   


"Desatino" (1981): Como já referi, no álbum "É Demais", cada uma das Doce tinha o seu tema a solo. Além do já referido "Eu Sou" para Laura Diogo, houve também "Dói Dói" para Fátima Padinha (que ouvi pela primeira vez no telefilme da SIC "O Lampião Da Estrela") e "Uau!" para Lena Coelho (versionado em 2000 por nada menos que o brasileiro Netinho). Mas dos quatro temas, o meu preferido é aquele interpretado por Teresa Miguel, "Desatino". Aqui a ruiva das Doce imprime um registo rock, a fazer lembrar Pat Benatar, cantando a sua determinação em esquecer um ex-amado. "Não vou morrer, só para te perder/ Nem parar para te esperar/Vou-me esquecer de ti/Ficas a saber/ Que já não és o meu desatino.


"Perfumada" (1982): Será consensual afirmar que o maior auge das Doce foi a vitória no Festival da Canção de 1982 com "Bem Bom" e a subsequente participação no Festival da Eurovisão desse ano na cidade inglesa de Harrogate. Quem teve o single de "Bem Bom", decerto que conhecerá o lado B, este "Perfumada", onde as Doce são a voz de uma mulher que se alinda e se perfuma toda para acolher o seu amado até que descobre que não é a única mulher que espera toda linda e perfumada por esse homem. No YouTube existem duas actuações desta canção: uma em que as quatro Doce surgem em coloridos vestidos de tule (uma das várias indumentárias que usaram no videoclip de "Bem Bom") e outra em 1986 no programa "Faz De Conta", já com Fá Padinha fora do grupo. 





"Choose Again" (1982): Após a participação no Festival da Eurovisão, as Doce editaram dois singles com canções em inglês, talvez numa tentativa de internacionalização. É o caso daquela que é pessoalmente a minha canção preferida das Doce, "Starlight", editado em 1983 e cujo lado B "Stepping Stone" também merece uma audição. Antes disso houve o single "For The Love Of Conchita" com sonoridades latinas, cujo lado B é este "Choose Again", mais uma pérola de synth-pop que, tal como "Starlight", viesse de um outro país europeu, teria sido um hit internacional. Existem duas actuações em televisão de "Choose Again" com uma das melhores coreografias do grupo: uma no programa "Já Cá Canta" e outra, em que as Doce se apresentam num visual bem 80's futurista, no concurso "Toma Lá, Dá Cá".  

 




Vocês conheciam estas cinco canções da Doce? E que outro deep cut do grupo é que acham que devia ser mais reconhecido? Digam nos comentários.
                        

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