sábado, 18 de abril de 2026

Vila Faia (1982)

Cinco anos depois da chegada de "Gabriela", Portugal já estava rendido às telenovelas, e o ritual familiar de ver o capítulo do dia da telenovela do momento após o Telejornal (e não só) já estava instituído em muitos lares portugueses. Outros títulos made in Brasil como "O Casarão", "O Astro", "A Escrava Isaura", "Dancin' Days" e "Água Viva" também fizeram sucesso e pelo meio até foi exibida uma novela venezuelana ("Dona Bárbara", na RTP2 em legendagem).
Mas até mesmo nesses primeiros anos de telenovelamania em Portugal, já pululava a ideia do nosso país se aventurar nas telenovelas a curto/médio prazo. E no dia 10 de Maio de 1982 essa ideia foi materializada ao ir para o ar nesse dia o primeiro capítulo de "Vila Faia", a primeira telenovela produzida em Portugal. Foi originalmente exibida no horário nobre da RTP em cem capítulos até ao dia 28 de Setembro desse ano. 



A novela foi escrita por Francisco Nicholson e João Carlos Alves (após o afastamento da autora inicial, Odette de Saint-Maurice), produzida pela Edipim e filmada nos seus estúdios no concelho de Sintra, e realizada por Nuno Teixeira. Além de coproprietário da Edipim e de desempenhar um dos papéis principais, Nicolau Breyner também acumulou a função de diretor de actores. 

"Vila Faia" tinha duas tramas principais: os dramas públicos e privados da família Marques Vila, dona do império vinicultor, produtor dos vinhos da marca Vila Faia, e a história de amor entre o camionista João Godunha (Breyner) e a prostituta Mariette (Margarida Carpinteiro).

Ruy De Carvalho e Rosa Lobato Faria como Gonçalo e Beatriz



Gonçalo Marques Vila (Ruy de Carvalho) geriu com mestria o negócio familiar e prepara-se para modernizar a produção conforme as normas que a futura entrada de Portugal na CEE assim exigem. Mas a sua dedicação ao trabalho fez com que negligenciasse a família, sobretudo a esposa Beatriz (Rosa Lobato Faria), e que tenha relações tensas com os três filhos: Mariana (Paula Street), Pedro (Nuno Homem De Sá) e Joana (Luísa Freitas). Quem tenta estabelecer um pouco de harmonia familiar é a sua mãe Ifigénia (Mariana Rey Monteiro). Para desgosto de Gonçalo, Pedro não parece muito interessado em assumir responsabilidades. O jovem acaba por interessar-se pelo boxe, e é nesse meio que trava amizade com Godunha, camionista da Marques Vila e Zé Dinis (Vítor Norte), um jovem mecânico, humilde e batalhador, filho de Alice (Anna Paula). 

Duas outras famílias vão cruzar com os destinos dos Marques Vila. Uma delas são os Marinhais, recém-regressados de um exílio em Espanha, e fornecedores de uvas à Marques Vila, mas que apesar das aparências vivem em apuros financeiros. Nuno Marinhais (Varela Silva) é amigo de longa data de Gonçalo, enquanto a sua esposa Luísa (Glória de Matos) pretende unir as duas famílias e assim manter o seu estilo de vida, encorajando a aproximação do filho Manuel (Luís Esparteiro) a Joana e fazendo tudo para impedir o romance da sua filha Ana (Filipa Trigo) com Zé Dinis.  


Ana Zanatti e Nuno Homem de Sá como Madalena e Pedro


A outra é os Andrades, composta pela doutora Madalena (Ana Zanatti), o seu marido Miguel (Miguel Wahnon) e a filha de ambos, Cristina (Manuela Marle). O choque é geral nos Marques Vila quando se descobre que Mariana, a mais certinha dos três filhos e a possível sucessora no negócio, andava a ter uma relação secreta com Miguel e ambos fogem para o Brasil. Enquanto isso, Pedro fica dividido entre Madalena e Cristina, gerando um grande conflito entre mãe e filha. 

Mais que os dramas familiares, uma maior ameaça paira na Marques Vila, já que há quem esteja a usar a empresa para um esquema de falsificação dos vinhos Vila Faia para o Brasil. Entre os envolvidos no esquema estão Mariano (Carlos César), um aparentemente funcionário de confiança da empresa e Zé Balhão (António Montez), encarregado das caves de vinhos. Manuel Marinhais também se envolve no esquema para pagar as suas dívidas do jogo. As coisas complicam-se quando Eduardo (Cunha Marques), o guarda noturno da empresa, aparece assassinado. 

A vida sempre foi madrasta para João Gudunha, desde as suas tentativas de emigração até à sua carreira de boxe, pelo que se tornou um homem amargo e bravio, cuja única companhia é o seu papagaio Crispim. Mas ao conhecer Mariette na leitaria de Dona Ermelinda (Luísa Barbosa), o seu coração rende-se ao amor. De seu verdadeiro nome Conceição, Mariette recorreu à prostituição para sustentar o filho Rui (Gonçalo Zanartu), que vive num colégio interno, e a quem mente dizendo que trabalha num hospital. Além da mãe, também o pequeno Rui se afeiçoa a Gudunha, que vê nele o pai que nunca teve. 

Entretanto, Zé Balhão também aparece assassinado nas caves dos Marques Vila, e Gudunha torna-se o principal suspeito, já que este o tinha ameaçado quando Balhão atacou Mariette. A investigação das mortes de Eduardo e Zé Balhão ficam a cargo do Inspetor Serôdio (Francisco Nicholson) e dos agentes Silveira (Tozé Martinho), Lino (Carlos Vieira de Almeida) e Nunes (Gil António).

A Marques Vila entra em crise quando a notícia da falsificação de vinhos é tornada pública, e a família acaba por vender a mansão a Eurico Laskaris (Baptista Fernandes), um misterioso negociante de arte. Na verdade, é ele o cabecilha do esquema de contrabando e falsificação, e Mariano tornou-se seu cúmplice para se vingar do facto de nunca ter sido reconhecido como membro da família do Marques Vila, já que é filho ilegítimo do marido de Ifigénia com uma empregada.
No final, uma vez apanhada a rede de contrabando, os Marques Vila regressam à mansão. Com Gonçalo numa cadeira de rodas depois de ter sofrido um acidente, Pedro e Mariana assumem a liderança da empresa. Madalena aproxima-se do seu colega Diogo (João Perry) e reconcilia-se com a filha. Ana e Zé Diniz vencem os obstáculos e ficam livres para amar com a benção das famílias.  

O casamento de João Gudunha e Mariette

O amor de Gudunha e Mariette acaba por ter um final trágico quando ela é atacada por Tó (António Feio), o sobrinho da Ermelinda, que pretendia roubar o estabelecimento da tia. O choque precipita o alastrar de uma doença incurável, que a deixa com pouco tempo de vida. Antes de morrer, Gudunha e Mariette casam-se para viverem juntos os últimos dias da vida dela. Na última cena, Gudunha e Rui passeiam pelas vinhas como pai e filho. 

Outras personagens marcantes foram Dona Ercília (Adelaide João), a chefe das empregadas dos Marques Vila sempre às turras com Lina (Isabel Mota) e Rita (Mafalda Drummond); Inês Brisar (Helena Isabel), secretária da Marques Vila, casada com Bruno (Vítor de Sousa); o Padre Sebastião (David Silva), irmão de Ifigénia que celebra o casamento de Gudunha e Mariette; e Aurora (Cremilda Gil), a sofrida empregada dos Marinhais. 
Do elenco ainda fizeram parte nomes como Curado Ribeiro, Virgílio Castelo, Paula Guedes e Maria Muñoz (filha de Eunice).  

O tema da telenovela foi composto por Thilo Krassmman e Vítor Mamede e era tocado na versão instrumental no genérico de abertura e numa versão cantada por Samuel no de encerramento. 




Mesmo com recursos bem esparsos do que aqueles da telenovelas brasileiras, "Vila Faia" acabou por conquistar o público, sobretudo graças ao desempenho do elenco, que aliava nomes consagrados a algumas caras novas, deixando assente que este tipo de teledramaturgia made in Portugal tinha pernas para andar.

O sucesso da telenovela até impulsionou a produção e comercialização de um vinho "Vila Faia", com direito a um anúncio com quatro atores, da telenovela: Helena Isabel, Nuno Homem de Sá, Nicolau Breyner e Manuela Marle. 



"Vila Faia" foi reposta na RTP em 1985, 1990 e 2000, além de várias exibições na RTP Memória. Em 2008, foi feito um remake com Albano Jerónimo e Inês Castel-Branco a serem os novos Gudunha e Mariette. 

A telenovela está disponível na íntegra no YouTube, no canal Séries Novelas Completas e na RTP Arquivos





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