Além de promos apenas tinha visto alguns clips durante alguma exibição na TV, mas só 26 anos depois tive oportunidade para ver de uma ponta a outra o filme português "Capitães de Abril" a reconstrução dos acontecimentos do maior dia de Portugal no século XX, o dia da Revolução dos Cravos, o 25 de Abril de 1974.
Maria de Medeiros ("Henry & June", "Pulp Fiction") realizou, co-escreveu e actuou em "Capitães de Abril", vertendo experiências pessoais na estória da História de Portugal; que serviu ao espectador sem ingenuidade e com contrariedades na medida certa para ser emocionante mas sem fotocópias ou fangirling das Figuras Históricas. Li por ai nas opiniões auto-importantes num qualquer agregador de críticas, que na película faltou mostrar o ponto de vista d'"o outro lado", e claro: sem influências ideológicas de esquerda, mostrar todo o caos que se seguiu, a descolonização "sem planeamento" e toda a restante cassete gasta que os velhos do Restelo, colaboradores e saudosistas continuam a debitar, hoje nas redes sociais para atrair sangue novo e "patriótico" com a propaganda a normalizar a extrema-direita e conservadora. Reconheço que seria interessante, mas tudo isso iria resultar mais adequado num formato de série televisiva (como as posteriores "Conta-me como Foi" e "Depois do Adeus"). Mas voltando ao que conteúdo que realmente está no ecrã:
A cena inicial da despedida de um soldado e sua namorada é tão exagerada e teatral que me sobressaltou imediatamente. Felizmente, tudo mudou nas cenas seguintes, que encontraram o seu ritmo, com a interação entre as personagens, reproduções de acontecimentos reais a entrelaçar-se. Tinha-me esquecido de quantos recursos e investimento em produção foram dedicados a este projeto, como filmar nos locais onde ocorreram eventos históricos, com chaimites e tudo. O humor cínico de Gervásio (Joe de Almeida "Adão e Eva") contrasta com o optimismo de Maia (Stefano Accorsi) e um certo romantismo em relação à Revolução, resultando, por vezes, em diálogos algo exagerados, mas que representa um foreshadowing do futuro mais negro após o triunfo de um golpe militar quase sem derramamento de sangue. E no rosto de Maia, apesar da esperança podemos ver sinais do começo da morte da liberdade, quando a velha guarda rapidamente assume o comando dos militares subalternos que tanto trabalharam arduamente para libertar o povo das amarras do regime colonialista e autoritário. A banda sonora é maravilhosa (assim como o delicioso cameo de Maestro Vitorino de Almeida), o elenco é recheado de caras conhecidas do grande público, mas definitivamente não sou fã de dobragens de atores estrangeiros, que ajudou a tornar alguns momentos mais líricos* em algo um pouco estranho... A edição esteve a cargo de Jacques Witta ("O Delfim", "Cinco Dias, Cinco Noites") e com a fotografia de Michel Abramowicz ("Taken","The Other Story") mesmo as cenas mais intensas parecem intimas do espectador.
Concluindo, é um interessante novelo de acontecimentos, deixando a solenidade apenas para os momentos em que o povo anónimo exprime a alegria de um evento inimitável, o fim da cinzento-suja e corrupta ditadura que oprimiu milhões por todo o mundo, com recurso á pobreza, à violência, à espionagem, à ignorância, nacionalismo bacoco, e á perversidade de um Império podre e decadente.
* Fui obrigado por lei a colocar esse adjetivo na review.
Cinco anos depois da chegada de "Gabriela", Portugal já estava rendido às telenovelas, e o ritual familiar de ver o capítulo do dia da telenovela do momento após o Telejornal (e não só) já estava instituído em muitos lares portugueses. Outros títulos made in Brasil como "O Casarão", "O Astro", "A Escrava Isaura", "Dancin' Days" e "Água Viva" também fizeram sucesso e pelo meio até foi exibida uma novela venezuelana ("Dona Bárbara", na RTP2 em legendagem).
Mas até mesmo nesses primeiros anos de telenovelamania em Portugal, já pululava a ideia do nosso país se aventurar nas telenovelas a curto/médio prazo. E no dia 10 de Maio de 1982 essa ideia foi materializada ao ir para o ar nesse dia o primeiro capítulo de "Vila Faia", a primeira telenovela produzida em Portugal. Foi originalmente exibida no horário nobre da RTP em cem capítulos até ao dia 28 de Setembro desse ano.
A novela foi escrita por Francisco Nicholson e João Carlos Alves (após o afastamento da autora inicial, Odette de Saint-Maurice), produzida pela Edipim e filmada nos seus estúdios no concelho de Sintra, e realizada por Nuno Teixeira. Além de coproprietário da Edipim e de desempenhar um dos papéis principais, Nicolau Breyner também acumulou a função de diretor de actores.
"Vila Faia" tinha duas tramas principais: os dramas públicos e privados da família Marques Vila, dona de um império vinicultor, produtor dos vinhos da marca Vila Faia, e a história de amor entre o camionista João Gudunha (Breyner) e a prostituta Mariette (Margarida Carpinteiro).
Ruy De Carvalho e Rosa Lobato Faria como Gonçalo e Beatriz
Gonçalo Marques Vila (Ruy de Carvalho) geriu com mestria o negócio familiar e prepara-se para modernizar a produção conforme as normas que a futura entrada de Portugal na CEE assim exige. Mas a sua dedicação ao trabalho fez com que negligenciasse a família, sobretudo a esposa Beatriz (Rosa Lobato Faria), e que tenha relações tensas com os três filhos: Mariana (Paula Street), Pedro (Nuno Homem De Sá) e Joana (Luísa Freitas). Quem tenta estabelecer um pouco de harmonia familiar é a sua mãe Ifigénia (Mariana Rey Monteiro). Para desgosto de Gonçalo, Pedro não parece muito interessado em assumir responsabilidades. O jovem acaba por interessar-se pelo boxe, e é nesse meio que trava amizade com Gudunha, camionista da Marques Vila e com Zé Dinis (Vítor Norte), um jovem mecânico, humilde e batalhador, filho de Alice (Anna Paula).
Duas outras famílias vão cruzar com os destinos dos Marques Vila. Uma delas são os Marinhais, recém regressados de um exílio em Espanha, e fornecedores de uvas à Marques Vila, mas que apesar das aparências vivem em apuros financeiros. Nuno Marinhais (Varela Silva) é amigo de longa data de Gonçalo, enquanto a sua esposa Luísa (Glória de Matos) pretende unir as duas famílias e assim manter o seu estilo de vida, encorajando a aproximação do filho Manuel (Luís Esparteiro) a Joana e fazendo tudo para impedir o romance da sua filha Ana (Filipa Trigo) com Zé Dinis.
Ana Zanatti e Nuno Homem de Sá como Madalena e Pedro
A outra é os Andrades, composta pela doutora Madalena (Ana Zanatti), o seu marido Miguel (Miguel Wahnon) e a filha de ambos, Cristina (Manuela Marle). O choque é geral nos Marques Vila quando se descobre que Mariana, a mais certinha dos três filhos e a mais provável sucessora no negócio, andava a ter uma relação secreta com Miguel e ambos fogem para o Brasil. Enquanto isso, Pedro fica dividido entre Madalena e Cristina, gerando um grande conflito entre mãe e filha.
Mais que os dramas familiares, uma maior ameaça paira na Marques Vila, já que há quem esteja a usar a empresa para um esquema de falsificação dos vinhos Vila Faia para o Brasil. Entre os envolvidos no esquema estão Mariano (Carlos César), um funcionário aparentemente de confiança da empresa e Zé Balhão (António Montez), encarregado das caves de vinhos. Manuel Marinhais também se envolve no esquema para pagar as suas dívidas do jogo. As coisas complicam-se quando Eduardo (Cunha Marques), o guarda noturno da empresa, aparece assassinado.
A vida sempre foi madrasta para João Gudunha, das suas tentativas de emigração até à sua carreira de boxe, pelo que se tornou um homem amargo e bravio, cuja única companhia é o seu papagaio Crispim. Mas ao conhecer Mariette na leitaria de Dona Ermelinda (Luísa Barbosa), o seu coração rende-se ao amor. De seu verdadeiro nome Conceição, Mariette recorreu à prostituição para sustentar o filho Rui (Gonçalo Zanartu), que vive num colégio interno, e a quem mente dizendo que trabalha num hospital. Além da mãe, também o pequeno Rui se afeiçoa a Gudunha, que vê nele o pai que nunca teve.
Entretanto, Zé Balhão também aparece assassinado nas caves dos Marques Vila, e Gudunha torna-se o principal suspeito, já que este o tinha ameaçado quando Balhão atacou Mariette. A investigação das mortes de Eduardo e Zé Balhão ficam a cargo do Inspetor Serôdio (Francisco Nicholson) e dos agentes Silveira (Tozé Martinho), Lino (Carlos Vieira de Almeida) e Nunes (Gil António).
A Marques Vila entra em crise quando a notícia da falsificação de vinhos é tornada pública, e a família acaba por vender a mansão a Eurico Laskaris (Baptista Fernandes), um misterioso negociante de arte. Na verdade, é ele o cabecilha do esquema de contrabando e falsificação, e Mariano tornou-se seu cúmplice para se vingar do facto de nunca ter sido reconhecido como membro da família do Marques Vila, já que é filho ilegítimo do marido de Ifigénia com uma empregada.
No final, uma vez apanhada a rede de contrabando, os Marques Vila regressam à mansão. Com Gonçalo numa cadeira de rodas depois de ter sofrido um acidente, Pedro e Mariana assumem a liderança da empresa. Madalena aproxima-se do seu colega Diogo (João Perry) e reconcilia-se com a filha. Ana e Zé Dinis vencem os obstáculos e ficam livres para amar com a benção das famílias.
O casamento de João Gudunha e Mariette
O amor de Gudunha e Mariette acaba por ter um final trágico quando ela é atacada por Tó (António Feio), o sobrinho da Ermelinda, que pretendia roubar o estabelecimento da tia. O choque precipita o alastrar de uma doença incurável, que a deixa com pouco tempo de vida. Antes de morrer, Gudunha e Mariette casam-se para viverem juntos os últimos dias da vida dela. Na última cena, Gudunha e Rui passeiam pelas vinhas como pai e filho.
Outras personagens marcantes foram Dona Ercília (Adelaide João), a chefe das empregadas dos Marques Vila sempre às turras com Lina (Isabel Mota) e Rita (Mafalda Drummond); Inês Brisar (Helena Isabel), secretária da Marques Vila, casada com Bruno (Vítor de Sousa); o Padre Sebastião (David Silva), irmão de Ifigénia que celebra o casamento de Gudunha e Mariette; e Aurora (Cremilda Gil), a sofrida empregada dos Marinhais.
Do elenco ainda fizeram parte nomes como Curado Ribeiro, Virgílio Castelo, Paula Guedes e Maria Muñoz (filha de Eunice).
O tema da telenovela foi composto por Thilo Krassmman e Vítor Mamede e era tocado na versão instrumental no genérico de abertura e numa versão cantada por Samuel no de encerramento.
Mesmo com recursos bem esparsos do que aqueles da telenovelas brasileiras, "Vila Faia" acabou por conquistar o público, sobretudo graças ao desempenho do elenco, que aliava nomes consagrados a algumas caras novas, deixando assente que este tipo de teledramaturgia made in Portugal tinha pernas para andar.
O sucesso da telenovela até impulsionou a produção e comercialização de um vinho "Vila Faia", com direito a um anúncio com quatro atores, da telenovela: Helena Isabel, Nuno Homem de Sá, Nicolau Breyner e Manuela Marle.
"Vila Faia" foi reposta na RTP em 1985, 1990 e 2000, além de várias exibições na RTP Memória. Em 2008, foi feito um remake com Albano Jerónimo e Inês Castel-Branco a serem os novos Gudunha e Mariette.