quarta-feira, 25 de março de 2020

Zarabadim (1985-86)

por Paulo Neto

Olhando para trás, percebo que uma das vantagens de ter sido criança nos anos 80 era que a oferta de entretenimento infantil, em todos os aspectos desde brinquedos a filmes e programas de televisão, era bem menor comparada com a actualidade mas que isso nos fazia apreciar o pouco que tínhamos. Não que eu ache errado que as crianças de hoje tenham muitas e sofisticadas opções de entretenimento (quem me dera que assim fosse no meu tempo!) mas por vezes pergunto-me se elas darão verdadeiramente valor a tudo aquilo que têm ao seu dispor.
Nos meus tempos de criança, claro que adoraria por exemplo que houvesse canais integralmente preenchidos com desenhos animados e séries infanto-juvenis, mas também havia algo de mágico naquela antecipação pela hora dos espaços infantis da RTP como "O Tempo Dos Mais Novos" ou "Brinca, Brincando". E depois, apesar dos poucos recursos, não há como negar que nos anos 80 fez-se produções infanto-juvenis em Portugal de qualidade. Ao rever alguns desses programas em adulto quer na RTP Memória quer na internet, constato como certas coisas que me encheram olho em miúdo agora parecem tão parcas, até rudimentares, ao meu olhar adulto mas ao mesmo tempo estavam cheias de dedicação e coração, e fico com a sensação de que em criança vivi num tempo e num espaço tão distantes do actuais, onde tudo decorria a uma velocidade bem menor. 



Recentemente graças ao site dos arquivos da RTP tive a oportunidade de rever alguns episódios de uma série que eu recordava vagamente desses meus tempos de petiz e dei comigo a dizer para mim próprio algumas vezes: "Tchi, já não me lembrava disto!". Trata-se de "Zarabadim", uma série infantil exibida entre 1985 e 1986 aos domingos no "Tempo do Mais Novos", da autoria de José Fanha e Dulce Fanha com canções de Carlos Alberto Moniz.
Mais uma vez, o meu olhar adulto ficou aquela duplicidade de sensações: por um lado, achei tudo tão datado e algo tosco (embora os cenários e figurinos até fossem assaz bons para o Portugal de 1985), por outro achei o conteúdo bastante didáctico, feito com muito esforço e dedicação de todos os envolvidos e perfeitamente capaz de entreter os petizes daquele tempo, como eu.



Mas o que era afinal o "Zarabadim"? Tudo começa quando dois jovens, a Joana (Ângela Pinto) e o João (José Wallenstein), decidem explorar os bastidores do teatro e espreitam um mágico (Zurc) a fazer truques com um chapéu. Os dois acabam por descobrir que se lançarem uns pozinhos de perlimpimpim e disserem a palavra mágica "Zarabadim!", tal como viram o mágico fazer, eles vão parar para dentro do chapéu e entrar num mundo mágico onde vão conhecer diversas personagens e aprender muitas coisas nas ruas desse universo. Os novos amigos que o João e a Joana vão fazer nesse mundo mágico são uma bailarina (Luzia Paramés), um palhaço (António Feio), um livro (Filipe Ferrer), um pinguim inventor (Francisco Pestana) e uma galinha (São José Lapa). E em cada episódio, eles visitam uma rua onde vão aprender coisas como formar palavras, as notas musicais ou formar novas cores a partir das cores primárias. E claro pelo meio, há várias cantigas. O último episódio foi uma retrospectiva dos anteriores. 


Mas as cantigas mais marcantes eram as dos genéricos: o de abertura ("Zarabadim, zarabadim, pozinhos de Zarabadim!") interpretado por Carlos Alberto Moniz e o genérico final ("Olha o céu lá no fundo do chapéu, olha o Sol e a Lua a namorar") na voz de uma muito jovem Lúcia Moniz. Aliás, algumas canções do programa foram editadas em disco.






Além dos actores já mencionados, houve outros que foram tendo vários papéis ao longo da série, consoante episódio, como Cláudia Cadima, José Jorge Duarte, Cecília Sousa e o próprio Carlos Alberto Moniz. A narração era de Cucha Carvalheiro.

Uma das coisas que eu fiquei espantado quando revi a série é que eu tinha a ideia de que os actores que faziam de João e Joana eram adolescentes e afinal tratavam-se de um José Wallenstein e uma Ângela Pinto já com vinte e muitos anos.

Em 2013, José Fanha adaptou textos da série para uma peça de teatro.



Como já referi, "Zarabadim" pode ser vista no site de arquivos da RTP. (Embora faltem alguns episódios, nomeadamente o primeiro.)
 

domingo, 22 de março de 2020

Festival da Eurovisão 1975

por Paulo Neto

Voltamos a recordar uma edição do Festival da Eurovisão e desta vez damos o maior salto temporal até 1975. Na virtude da histórica vitória dos ABBA com "Waterloo" no ano anterior, o 20.º Festival da Eurovisão teve lugar a 22 de Março de 1975 em Estocolmo, com apresentação de Karin Falck.


Esta edição é por vezes referida como o "Festival Azul" devido à predominância da cor azul no cenário. Dezanove países participaram no certame, destacando-se a estreia da Turquia e os regressos de França (que desistira em 1974 após a morte do Presidente Georges Pompidou) e de Malta (ausente desde 1972) e a ausência da Grécia, que se estreara no anterior, devido à participação da Turquia com quem estava em conflito na altura devido à ilha de Chipre. 
Mas esta edição da Eurovisão é sobretudo histórica por ter sido o primeiro ano em que foi o implementado o sistema de pontuação dos "douze points", nos quais o júri de cada país atribui 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 10 e 12 pontos às suas dez canções preferidas, sistema esse, que com devidas alterações, se mantém até hoje. No entanto, ao contrário da ordem crescente de pontuação que viria ser hábito a partir de 1980, as pontuações foram atribuídas por ordem de actuação dos países.
Importa ainda referir que na altura, os países tinham a opção de apresentar a canção num idioma que não o nacional e por isso vários países optaram por cantar parcialmente ou na íntegra em inglês. Existiu ainda a particularidade do trio vocal sueco The Dolls, que acompanharam o grupo Nova na participação da Suécia em 1973, ter feito coro em quatro canções: Bélgica, Suíça, Suécia e Portugal.
 Antes de cada actuação, foi apresentado um segmento onde os intérpretes foram convidados a pintar um auto-retrato numa tela branca com a bandeira do país. Júlio Isidro foi o comentador para a RTP e Amadeu Meireles para a Antena 1 e Ana Zanatti foi a porta-voz do júri português. 

Como é habitual, falaremos de cada canção por ordem inversa de classificação. (Cliquem sobre o nome do país para um link do vídeo com a actuação.)

Semiha Yanki (Turquia)

A Turquia não teve sorte de principiante, ao ficar em último lugar com três pontos, atribuídos pelo Mónaco (que até demoraram a surgir no quadro de pontuações!). O que é pena, porque a sua canção, "Seninle bir dakika" ("um minuto contigo"), era uma bonita balada interpretada por Semiha Yanki, então com 17 anos. A Turquia só regressaria à Eurovisão três anos depois.

Ellen Nikolaysen (Noruega)

A representante da Noruega, Ellen Nikolaysen, já tinha participado na Eurovisão como membros dos Bendik Singers em 1973 e fazendo coro em 1974. Optou-se por interpretar a canção em inglês com o título "Touch My Life (With Summer)" ficando-se pelo 18.º lugar com 11 pontos.

Joy Fleming (Alemanha)

O 17.º lugar da Alemanha com 15 pontos é, na minha opinião, uma das maiores injustiças de sempre do Festival da Eurovisão. Como foi possível os júris europeus terem ficado indiferente à verve da canção "Ein Lied kann ein Brucke sein" ("uma canção pode ser uma ponte") e ao poder da voz de Joy Fleming? Quem não esteve indiferente foi Rainer Pietsch, o director da orquestra, visivelmente entusiasmado ao longo da actuação. Mas infelizmente, nem mesmo com a recta final em inglês, evitou-se o parco resultado. De seu verdadeiro nome Erna Raad, Joy Fleming teve uma longa carreira, abraçando vários géneros do jazz ao rock, falecendo em 2017.

Duarte Mendes (Portugal)

Esta era a primeira participação de Portugal após o 25 de Abril (que aliás foi iniciado tendo como uma das canções-senha "E Depois Do Adeus", a canção representante de Portugal no Festival do ano anterior) e nem de propósito, o nosso representante foi um dos Capitães do Abril, Duarte Mendes, que fez parte do Movimento das Forças Armadas que desencadeou a Revolução dos Cravos. Além da carreira militar, Duarte Mendes teve também uma carreira de cantor, tendo participado em todos os Festivais da Canção entre 1970 e 1973. O Festival da Canção de 1975 foi marcado pela revolução, com prestações muito mais informais, onde participaram nomes como José Mário Branco, Jorge Palma, Paco Bandeira e Fernando Girão e com canções com títulos como "Com Uma Arma, Com Uma Flor", "Pecado (do) Capital" e "Batalha-Povo". E claro, a "Madrugada" de Duarte Mendes era uma evocação da Revolução, que foi como um acordar para o país pelo que é um bocado estranho que seja das nossas canções eurovisivas menos recordadas. Segundo consta, Duarte Mendes pretendia-se apresentar em palco com o seu uniforme, completo com uma arma com um cravo no cano mas foi dissuadido pelos organizadores. Pessoalmente gosto muito mais da versão ao vivo de "Madrugada" do que a versão do videoclip, com os coros das The Dolls em evidência. A canção portuguesa impressionou bastante o júri turco, que fez com que pela primeira vez se ouvisse "Portugal, 12 points!". Com mais dois pontos de Espanha e dois de França, Portugal totalizou 16 pontos, ficando pelo 16.º lugar.

Ann-Christy (Bélgica)

Na posição acima de Portugal com mais um ponto ficou a Bélgica, com a canção "Gelukkig Zijn (Could It Be Happiness)", apresentada em palco numa versão bilingue de flamengo e inglês. Além desses dois idiomas, a intérprete Ann-Christy gravou versões em francês e alemão. Segundo consta, Mary Boduin, a autora e compositora da canção, tinha inicialmente feito a música para o que seria o jingle de um anúncio de uma marca de jeans. Infelizmente, Ann-Christy (de seu verdadeiro nome Christianne Leenaerts), faleceu de cancro em 1984, com apenas 38 anos. 

Sophie (Mónaco)
Pepel I Kri (Jugoslávia)

O Mónaco e a Jugoslávia ficaram empatados no 13.º lugar com 22 pontos. A representar o principado esteve a cantor Sophie Hecquet com a canção "Une Chanson C'est Une Lettre" ("uma canção é uma carta"). Posteriormente mais dedicada ao trabalho como apresentadora de rádio e televisão, Sophie faleceu em 2012. A Jugoslávia foi representada pelo grupo esloveno Pepel I Kri (que no certame actuou sob a denominação inglesa Ashes And Blood) com o tema "Dan Ljubezni" ("um dia de amor"), com Ditka Haberl como voz principal. Seria a quarta e última vez que a Jugoslávia seria representada na Eurovisão por uma canção em língua eslovena, língua essa que só voltaria a ser ouvida no Festival em 1993, já sob a bandeira de uma Eslovénia independente. Quatro dos membros da banda fariam coro da canção italiana "Insieme 1992" que viria a vencer o Festival da Eurovisão de 1990.
Renato (Malta)

Depois de duas participações em 1971 e 1972, onde ficou em último lugar, a pequena nação mediterrânica de Malta regressava à Eurovisão e desta vez saiu-se bem melhor ao ficar em 12.º lugar com 32 pontos. Talvez o facto de ao contrário das duas anteriores participações em maltês, ter desta feita sido apresentada uma canção em inglês, a outra língua oficial do país, "Singing This Song", tenha ajudado. Além disso, o intérprete Renato Micalaeff não passou despercebido em palco com a sua camisola com enormes franjas. Mas apesar deste melhor resultado, Malta só voltaria à Eurovisão em 1991.
Shlomo Artzi (Israel)

Para a grande maioria dos cantores que passaram pela Eurovisão, a sua participação no certame foi o auge ou pelo menos um pico nas suas carreiras. Mas existem aqueles para os quais a Eurovisão não será muito mais que uma nota de rodapé. É o caso de Shlomo Artzi, o representante de Israel com a canção "At Va' Ani" ("tu e eu", que ficou em 11.º lugar com 40 pontos), que é uma das maiores lendas da música israelita. Tendo iniciado a carreira musical em 1970, por esta altura Artzi estava numa encruzilhada profissional já que os sucessos estavam a escassear. Em 1977, Shlomo Artzi decidiu gravar um último álbum para depois se retirar da música. Ironia das ironias, seria esse álbum, cujo título em português se pode traduzir como "um homem perdido" que salvaria a sua carreira e o catapultaria para um estrondoso sucesso nas décadas seguintes, sendo um dos raros cantores israelitas com mais de um milhão de discos vendidos. Ainda hoje, é habitual que os seus concertos durem mais tempo do que o inicialmente previsto, com o público a pedir mais e mais encores.

Sergio & Estibaliz (Espanha)

A vizinha Espanha ficou em 10.º lugar com 53 pontos, sendo representada pela canção "Tu Volverás" do duo Sergio & Estibaliz, ambos oriundos de Bilbau. Os dois eram um casal na vida real, tendo-se casado nesse mesmo ano de 1975. Os dois tinham feito parte inicialmente do grupo Mocedades que tinha representante da Espanha no Festival da Eurovisão de 1973, tendo ficado em segundo lugar com o clássico "Eres Tu". Sergio e Estibaliz continuaram juntos na vida e na música, quer como duo, quer integrando mais tarde o grupo El Consorcio, até que a Morte os separou em 2015, quando Sergio Blanco faleceu de doença prolongada aos 66 anos.

The Swarbriggs (Irlanda)

A Irlanda fez-se representar pelos The Swarbriggs e a canção "That's What Friends Are For" (não confundir com a famosa canção de Dionne Warwick do mesmo título), ficando em nono lugar com 68 pontos. Os Swarbriggs eram dois irmãos, Tommy e Jimmy Swarbrigg, que regressariam à Eurovisão dois anos depois. A partir dos anos 80, os Swarbriggs viraram-se para uma carreira nos bastidores da música, na promoção e organização de espectáculos.

Lars Berghagen (Suécia)

Lars Berghagen teve a responsabilidade de representar o país da casa, a Suécia. Curiosamente no ano anterior tinha ficado em segundo lugar atrás do ABBA na final nacional sueca. Em Estcolomo, cantou "Jennie, Jennie" tendo ficado em oitavo lugar com 72 anos. Lars Berghagen continua activo na música de 1965. Entre 1994 e 2003 apresentou "Allsang Pa Skansen", um lendário programa musical da televisão sueca que é transmitido todos os Verões.

Pihasoittajat (Finlândia)

Tal como Portugal, a Finlândia é um país pouco habituado a lugares cimeiros na Eurovisão, por isso em 1975 a terra dos mil lagos conseguiu um dos seus melhores resultados de sempre ao conseguir o sétimo lugar com 74 pontos. A Finlândia foi mais um dos países que optou por apresentar a sua canção em inglês, com o título "Old Man Fiddle" cantado pelo grupo Pihasoittajat (que pode ser traduzido como algo como "os tocadores do jardim"), o que fazia sentido já que a canção tinha um certo travo a música country. Depois de um interregno, os Pihasoittajat reuniram-se em 1995 para várias actuações até à morte do membro Hannu Karlsson em 2000. Com uma nova formação, o grupo regressou ao activo em 2009.

Simone Drexel (Suíça)

Simone Drexel, a representante da Suíça, foi a primeira mulher a ser autora, compositora e intérprete de uma canção da Eurovisão, por sinal, a que levou a Estocolmo, "Mikado", obtendo o sexto lugar com 77 pontos. E sim, o tema, cantado em alemão, era sobre o famoso jogo dos pauzinhos coloridos. Em 1984, Simone Drexel fez uma pausa na música devido a maternidade só tendo regressado vários anos depois como vocalista do grupo Bluesonix.

Geraldine (Luxemburgo)

Devido à sua pequenez, era habitual o Luxemburgo recrutar a outras bandas os seus representantes para a Eurovisão. Desta feita, o grão-ducado fez-se representar por uma cantora irlandesa, Geraldine Brannigan, e o seu sotaque fez-se notar um pouco quando cantou "Toi" em francês. A canção luxemburguesa ficou em quinto lugar com 84 pontos e ficou para a história do certame por  receber os primeiros famigerados "douze points", atribuídos pelo primeiro júri, o dos Países Baixos. Ao que parece, Phil Coulter, um dos autores da canção e o director da orquestra, apaixonou-se por Geraldine quando a viu num anúncio à cerveja Guinness. Os dois casaram-se em 1998, já depois de terem tido seis filhos!
Nicole Rieu (França)

Os primeiros "douze points" de Portugal na Eurovisão foram para a canção da França, "Et Bonjour À Toi L'artiste", interpretada por Nicole Rieu, que ficou em quarto lugar com 91 pontos. Além do original em francês, Rieu gravou esta canção em inglês, alemão, espanhol, italiano e japonês! Entre os seus discos subsequentes, destaque para uma versão em francês de "Do You Know Where You're Going To" de Diana Ross. Após uma pausa na carreira para maternidade nos anos 80, Nicole Rieu ainda vai actuando e editando música esporadicamente.

Wess & Dori Ghezzi (Itália)

A Itália fez-se representar pelo duo Wess & Dori Ghezzi, ficando em terceiro lugar com 115 pontos. Wess, ou Wes Johnson, era um americano radicado em terras italianas e desde 1973 que ele e Ghezzi actuavam como duo. Mas ao contrário dos espanhóis, a relação deles foi simplesmente profissional. A sua canção "Era", a última a desfilar no certame, tinha um certo travo a reggae e falava sobre um casal que comparava o fulgor do início da relação à monotonia do presente. A parceria entre os dois durou até 1977, quando Dori Ghezzi teve uma filha. Em 1979 ela e o seu marido Fabrizio De André foram raptados na Sardenha. Ghezzi prosseguiu a solo até que parou a carreira em 1990 devido a problemas de saúde no seu aparelho vocal. Wess continuou no activo até à sua morte em 2009 em Nova Iorque aos 64 anos. A sua filha Romina Johnson também é cantora, sobretudo conhecida por ser a vocalista no hit de 2000, "Movin' Too Fast" dos Artful Dodger.

The Shadows (Reino Unido)

A lendária banda britânica The Shadows (famosos por temas instrumentais como "Apache", "Kon-Tiki" e "Dance On!") foram os representantes do Reino Unido. Por esta altura, a banda estava numa segunda encarnação onde passaram a editar temas cantados, numa formação que incluía o australiano John Farrar, conhecido pela sua colaboração com Olivia Newton-John. A canção que levaram à Eurovisão foi "Let Me Be The One" que teve 138 pontos e o nono de 14 segundos lugares do Reino Unido na história da Eurovisão. Os The Shadows continuaram no activo até 2015.  

Teach-In (Países Baixos)

Mas nesse ano, pela primeira vez, o vencedor foi o primeiro país a actuar. Os Países Baixos (a designação que o governo deste país tem feito questão a partir deste ano que seja usada em vez de Holanda) obtiveram a sua quarta vitória no Festival da Eurovisão com o bem-disposto tema "Ding-a- Dong" (onde não é difícil adivinhar as influências dos ABBA) interpretado pelo grupo Teach-In. A canção também é conhecida como "Dinge-Dong", o título do original em neerlandês, tendo-se optado no Festival por apresentar a versão em inglês. Entre várias mudanças na formação da banda, os Teach In duraram de 1969 e 1980. Na altura, a vocalista era Gertrude "Getty" Kaspers que era de origem austríaca. Como já foi referido, esta foi a quarta vitória holandesa na Eurovisão depois de 1957, 1959 e 1969 (em ex-aqueo com Espanha, França e Reino Unido) e como se sabe, foi preciso esperar até 2019 pela quinta vitória. 

Esta semana foi anunciado que devido à actual pandemia que assola o mundo, pela primeira na história do evento não se realizará o Festival da Eurovisão este ano, mantendo-se Roterdão como a cidade anfitriã para 2021. Segundo consta, estava previsto que Getty Kaspers fosse uma das convidadas a actuar cantando "Ding-a-Dong".

A alegria dos vencedores


Festival da Eurovisão de 1975 (na íntegra, sem comentários):



sábado, 7 de março de 2020

Festival da Canção 1980

por Paulo Neto

Embora alguns programas já tivessem sido filmados a cor, quer para transmissão internacional (como a primeira edição dos Jogos Sem Fronteiras em Portugal, em 1979 na Praça de Touros de Cascais) quer a título experimental (por exemplo, a peça "A Maluquinha de Arroios"), foi apenas a 7 de Março de 1980 que a RTP passou a transmitir a cores, tal como sucedia há algum tempo em quase todo o Mundo Ocidental (e não só), ou não fosse Portugal por excelência o país do "tarda mas não falta".

Nesse dia, a RTP comemorava 23 anos de emissões e claro que não havia melhor ocasião para comemorar o início das transmissões a cor do que com uma das jóias da coroa da RTP, o Festival da Canção. Que a bem dizer, tratava-se de uma final, já que tal como no ano anterior, em 1980 o Festival da Canção teve três semifinais e uma final.

Em cada uma das semifinais que se realizaram no Teatro Villaret, nove canções actuaram perante um júri composto por Filipe de Brito, João David Nunes, Luís Villas-Boas, Pedro Bandeira Freire e Simone de Oliveira. Cada membro do júri pontuava cada canção de 1 a 5 e as três canções mais votadas da semifinal avançariam para a final no Teatro São Luís. Aliás, na final, as canções mantiveram o seu número da semifinal, actuando por essa ordem numérica.

Entre os eliminados nesta primeira fase contaram-se nomes como Lena D'Água ("Olá Cegarrega"), Helena Isabel ("Um Abraço Mais Nada"), Duo Sarabanda, composto por Armando Gama e Cris Kopke ("Made In Portugal"), Rosa do Canto ("Música Suave"), o quarteto all-star As Alegres Comadres composto por Ana Bola, Helena Isabel e as irmãs Adelaide e Mila Ferreira ("Alegria Em Mi Maior"), Lara Li ("E Um Pouco Mais"), Samuel ("Que Ninguém Te Dê Nome"), Carlos Paião ("Amigos Eu Voltei), Alexandra e António Sala ("Uma Razão de Ser") e Carlos Alberto Vidal ("Um Girassol No Olhar"). 



A final no Teatro São Luiz foi apresentada por Ana Zanatti e Eládio Clímaco e teve como convidadas especiais o grupo brasileiro As Frenéticas, conhecidas na altura por cantarem o tema de abertura da telenovela "Dancin' Days" então a ser exibida na RTP. Nem de propósito, a actuação d'As Frenéticas foi ideal para inaugurar as transmissões a cor da RTP, já que havia palavra para descrever a actuação é "colorida". E alguns dos elementos do grupo envergavam algumas das indumentárias mais reduzidas que foram vistas na televisão portuguesa até então.




 
E agora vamos analisar as canções por ordem inversa à classificação. O júri de cada distrito pontuou cinco canções com 5, 4, 3, 2 e 1 ponto consoante a sua preferência, ficando as restantes quatro sem pontos.

Zélia Rodrigues

Em último lugar com apenas 2 pontos ficou a canção n.º 25 (a oitava a actuar na final) "Agosto Em Lisboa" interpretada por Zélia Rodrigues. Curiosamente, não recebeu nenhum ponto do júri de Lisboa, apenas um de Aveiro e outro de Braga. O look com que ela se apresentou em palco foi inspirado por Bo Derek no filme "10 - Uma Mulher de Sonho" de 1979.
Zélia Rodrigues iniciou a sua carreira em Angola ainda antes de 1974. A sua canção teve letra do famoso jornalista e poeta Mário Contumélias e música do casal Manuel José e Isabel Soares que também subiram ao palco nessa noite como intérpretes (no caso dele mais que uma vez). Zélia Rodrigues também participou nos Festivais da Canção de 1981 com "Tu Foste O Mar" e de 1984 com "Tricot de Cheiros". 

Dina

Infelizmente, a cantora Ondina Veloso, conhecida apenas por Dina, deixou-nos em 2019 aos 62 anos. Aqui em 1980, a cantora natural de Carregal do Sal dava os primeiros passos na carreira e defendia a canção n.º 10 "Guardado Em Mim" que embora se tenha ficado pelo penúltimo lugar com 5 pontos, valeu-lhe o Prémio Revelação. Em 1982, ano em que lança o seu álbum de estreia "Dinamite", cantou duas das canções do Festival da Canção desse ano. Mas claro está, a glória festivaleira viria em 1992 quando venceu o Festival e representou Portugal na Eurovisão desse ano na Suécia com o incontornável "Amor de Água Fresca".

Manuel José Soares

Manuel José Soares (1948-2013) foi um veterano do Festival da Canção, participando muitas vezes, entre autor, compositor, solista e membro dos grupos Duo Orpheu e Bric-A-Brac, sem nunca ter ganho. No Festival da Canção de 1980, subiu duas vezes ao palco da grande final. A sua actuação a solo foi com a canção n.º 8 "Concerto Maior" que ficou em sétimo lugar com dez pontos, o que não foi mau já que foi a canção que passou à final com a menor pontuação nas semifinais . Tal como a canção de Zélia Rodrigues, esta também era uma composição da autoria do próprio com letra de Mário Contumélias. Foi também em 1980 que Manuel José Soares lançou o seu único álbum a solo.


O Quarteto Música Em Si que defendeu a canção n.º 27, "Esta Página Em Branco", era composto por António Branco, Gustavo Sequeira, Luís Freitas e Carlos Saborida (falecido em 2014) e a canção era da autoria dos dois primeiros. António Branco é sobrinho de José Mário Branco, o autor dos arranjos desta canção que ficou em sexto lugar com 24 pontos. António Branco participaria a solo no Festival do ano seguinte com "Tanto E Tão Pouco" enquanto Gustavo Sequeira, além de participar nos Festivais de 1985 e 1991 (em parceria com Tó Leal), destacaria-se sobretudo por dar voz a famosos jingles publicitários como "Selvagem, uma dentada em Lion" e "Gilette, o melhor para o homem".
Bric-A-Brac

O grupo Bric-A-Brac, então formada pelo casal Manuel José e Isabel Soares, Jorge Barroso e Paula Carreira, teve neste ano a segunda das suas quatro participações no Festival da Canção. Nas semifinais, a sua canção "Música Portuguesa", com forte recorte disco-sound em arranjos de Shegundo Galarza, foi a que teve a maior pontuação (22 pontos em 25 possíveis) mas na final, ficar-se-ia pelo quinto lugar com quarenta pontos. Nesse ano de 1980, os Bric-A-Brac editariam um álbum com uma medley de várias canções do Festival, não só de todas as vencedoras até então mas outras popularizadas pelo certame como "Canção de Madrugar", "Cavalo À Solta" e "Rita Rita Limão". 

S.A.R.L.

No Festival de 1979, o grupo S.A.R.L deu nas vistas com uma original actuação da sua canção "Uma Canção Comercial" e agora voltavam à carga com a canção n.º 9 "Self Made Man", vencedora da primeira semifinal, que ficou em quarto lugar com 44 pontos. Face a 1979, a única alteração da formação em palco foi a de Helena Isabel no lugar de Maria Amparo, mantendo-se Carlos Alberto Moniz, Pedro Osório, Samuel Quedas, Madalena Leal e Joana Mendes. Com arranjos de Pedro Osório e direcção de Jorge Machado, "Self Made Man", cuja letra permanece actual, recebeu o prémio de "Melhor Orquestração". Os S.A.R.L. voltariam ao Festival da Canção uma última vez em 1982, agora apenas com os membros masculinos.

Madi

Aquando da morte do seu intérprete em 2015, o David Martins já aqui falou no blogue sobre a canção n.º 4 (a primeira a actuar), "Lição de Português". O sul-africano Madi Nelson era conhecido dos portugueses pela dupla que formou com o moçambicano Sérgio Wonder, Sérgio & Madi (com ambos a terem também uma carreira paralela a solo). Como um dos raríssimos intérpretes do Festival da Canção que não tinham o português como a sua língua materna, a sua canção, que ficou em terceiro lugar com 45 pontos, falava precisamente de alguém vai aprendendo o nosso idioma ao mesmo tempo que se vai apaixonando por uma portuguesa. No coro estavam duas cantoras que tinham participado nas semifinais e que não tardariam a se afirmar nos anos vindouros: Lena D'Água e Lara Li. De ainda referir que a letra era de António Sala e a música de Luís Pedro Fonseca. Madi participou nas eliminatórias do Festival da Canção de 1993 com "Fantasia" mas não se apurou para a final.
Doce

Com o respectivo filme bio-pic "Bem Bom" actualmente a ser feito, recentemente os media nacionais têm revisitado a carreira das Doce, a nossa mais famosa girl band e um caso ímpar de sucesso na música portuguesa. Fátima, Lena, Teresa e Laura tinham já um enorme hit com o single de estreia "Amanhã de Manhã" e esta participação no Festival da Canção com o tema homónimo do grupo ajudou a consolidar o sucesso que estenderia até ao final do grupo em 1986. "Doce" (a canção n.º 15), da autoria dos irmãos Tozé e Pedro Brito, ficou num honroso segundo lugar com 68 pontos e nesse ano, sai o primeiro LP, "OK, KO". Claro está, esta seria a primeira de quatro participações das Doce no Festival da Canção, com a vitória a surgir na terceira em 1982 com "Bem Bom".



Mas nesse ano, a vitória foi assaz concludente, com a canção n.º 19, "Um Grande, Grande Amor" de José Cid, a arrecadar 92 pontos, mais 24 que as Doce. Apesar de ter vencido a terceira semifinal, tinha sido a terceira canção mais pontuada das semifinais, atrás de "Música Portuguesa" e "Guardado Em Mim". Depois de várias participações no Festival da Canção desde 1968, entre temas a solo e com os Green Windows, a vitória por fim sorriu a José Cid. Mesmo numa carreira recheada de hits, "Um Grande, Grande Amor" tornou-se um dos temas essenciais da carreira de José Cid deixando para a posteridade o refrão poliglota "Adio, adieu, auf wiedersehen, goodbye/Amore, amour, mein liebe, love of my life"




Refrão poliglota esse que arrancava a versão que foi apresentada no Festival da Eurovisão desse ano em Haia nos Países Baixos (no Festival da Canção, começava com o primeiro verso), talvez um dos factores que contribuíram para o sétimo lugar entre 19 países, que permanece como terceiro melhor resultado de sempre de Portugal no Festival da Eurovisão, apenas superado pela vitória de Salvador Sobral em 2017 e o sexto lugar de Lúcia Moniz em 1996.     

Actuação no Festival da Eurovisão de 1980:


Videoclip:




Para terminar um agradecimento especial ao site Festivais da Canção e a Jorge Mangarrinha e João Carlos Callixto, autores do livro "Portugal, 12 Points".




sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Os Anjos de Charlie (1976-81)



Este é mais um dos exemplos de um produto televisivo que conheço melhor através de referências do que propriamente como espectador. Certamente vi alguns episódios em repetições, mas o que sei sobre esta série de êxito aprendi maioritariamente na época da primeira adaptação do conceito ao cinema, através de reportagens nostálgicas sobre o impacto na cultura popular de "Os Anjos de Charlie".
Ao contrário da posterior "Um Anjo na Terra" não estamos a falar literalmente de criaturas angelicais criadas para satisfazer os caprichos de Deus mas de um trio de mulheres que combatiam o crime ás ordens de Charles "Charlie" Townsend, o misterioso dono da agência de detectives Townsend. Ao longo das suas 5 temporadas e um total de 115 episódios o elenco desta série sofreu algumas alterações, mas a voz que dirigia os Anjos - não de um arbusto ardente mas de uma coluna de som - pertencia ao veterano actor John Forsythe ("Dinastia") que regressou ao papel nos filmes dos anos 2000. É irónico que o "anjo" que é ainda mais reconhecido participou praticamente apenas da primeira temporada: a sex symbol dos anos 70 Farrah Fawcett como Jill Munroe.

Para completar o trio original, as actrizes Kate Jackson e Jaclyn Smith, respectivamente os anjos Sabrina Duncan e Kelly Garrett. Smith e David Doyle foram - segundo a Wikipedia - os únicos actores que participaram em todos os episódios (ou quase todos, também segundo a Wikipedia...). Doyle desempenhou Bosley, o assistente de Charlie e dos anjos e ocasional comic relief e contraponto á elegância e sex appeal das protagonistas. Como curiosidade, Kate Jackson foi contratada para interpretar Kelly Garrett mas pediu para trocar para Sabrina. Conta a lenda que John Forsythe apenas consegui o trabalho de gravar a voz de Charlie depois do actor Gig Young chegar bêbado demais para gravar.
O genérico da temporada 1 de "Anjos de Charlie":

Apesar do êxito da anterior, na segunda temporada, Fawcett quebrou o contrato e só regressou como personagem secundário para evitar sanções. Para completar o trio de anjos entra a irmã mais nova de Jill: Kris Munroe (a actriz Cheryl Ladd) .

Já na quarta temporada sai Sabrina e entra Tiffany Welles (Shelley Hack):

E na temporada final Julie Rogers (Tanya Roberts) substitui Tiffany:

Como ainda era hábito na maioria das séries da época, principalmente do género de crime da semana,a  estrutura de cada episódio era a mesma: Bosley e Charlie apresentavam os detalhes do caso e geralmente os anjos iam investigar disfarçadas e depois do crime resolvido eram congratuladas por Charlie na sede da agência. Apesar da ajuda ocasional de Bosley, o conceito  de três mulheres a resolver problemas sozinhas era diferente e  agradou ao público. Aliás, a ideia original era conceber uma mistura de "Os Vingadores" (que dispensa apresentações") e "Honey West"(série baseada nos livros de mistérios dos anos 50, protagonizada por uma das primeiras mulheres detectives da ficção) que foi evoluindo até resultar no filme/episódio piloto que foi um sucesso de audiências, e com alguns pequenos ajustes encontrou a fórmula para mais de uma centena de episódios.
Em 2000 e 2003 a franquia foi ressuscitada para o grande ecrã com uma gigantesca dose de adrenalina, explosões, comédia e acção mirabolante: "Charlie's Angels" e "Charlie's Angels: Full Throthle". O trio de actrizes consistia de Cameron Diaz (Natalie Cook), Drew Barrymore (Dylan Sanders) e Lucy Liu (Alex Munday). Entre os dois filmes foi exibida online uma série animada de 6 episódios: "Charlie's Angels: Animated Adventures". O primeiro filme é um dos meus guilty pleasures favoritos e adoro a versão moderna (para 2000) dos Apollo 440 do clássico tema de abertura [video], entre o som de carrinho de choques e a homenagem ao original.
Em 2019 os anjos regressaram ao grande ecrã com novas caras e um fracasso de bilheteiras: "Charlie's Angels". Já em 2011 tinha estreado uma série terrível, com apenas 7 de 8 episódios exibidos: "Charlie's Angels".


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Roger Ramjet - O Roger A Jacto (1965-69)

por Paulo Neto

Não me recordo se esta série deu antes ou depois, mas lembro-me muito bem de quando foi exibida pela RTP1 algures no início dos anos 90 numa altura em que antecedendo o Vitinho e quejandos (ou até às vezes em vez dos ditos), o primeiro canal exibia um episódio de desenhos animados à hora dos mais pequeninos se irem deitar. Foi também nesse espaço que vimos por exemplo algumas séries clássicas da Hanna-Barbera como "Pepe Legal", "Wally Gator" e "A Tartaruga Touché".


"Roger Ramjet", ou em português "O Roger A Jacto", era uma série já antiga, produzida nos anos 60 mas que ainda entretinha bastante e eu e o meu irmão gostávamos de ver. Até porque, como o meu irmão chama-se Rogério (como o nosso pai), ele sempre sentiu alguma afinidade em relação a personagens ou celebridades com o equivalente anglo-saxónico do seu nome (por exemplo, o actor Roger Moore). Aliás creio que só o categórico patriotismo bem americanista da personagem principal é que terá impedido o aportuguesamento total do nome para Rogério A Jacto.



A personagem-título da série é um herói justiceiro bem patriota que combate vários malfeitores e os seus planos malvados para dominar o mundo. No entanto, Roger Ramjet não prima pela inteligência e por vezes cai que nem um patinho nas armadilhas dos vilões. Felizmente ele tem como apoio um grupo de jovens assistentes, o American Eagle Squadron (em português "os Águias da América"), composto por três rapazes que tal como ele guiam aviões: Yankee, Doodle e Dan, e uma rapariga, Dee, que assistia na base das operações ao lado do General Grassbottom. (Os nomes dos quatro provém da famosa cantilena patriótica americana "Yankee Doodle Dandy", da qual a canção do genérico é adaptada). Apesar de serem bem mais espertos que o seu líder e geralmente serem eles a resolver a alhada, estes quatro jovens admiram Roger Ramjet e no fim de contas, costumava ser ele próprio a dar o toque final, tomando uma pílula que lhe dava a força de vinte bombas atómicas durante vinte segundos, que chegava e sobrava para dar uma valente coça nos inimigos.







Ao todo, foram produzidos 165 episódios de cerca de cinco minutos ao longo de cinco temporadas, originalmente exibidos nos Estados Unidos entre 1965 e 1969. Apesar da animação já parecer muito tosca para os meus olhos de telespectador no início dos anos 90, o humor subversivo e o ritmo acelerado da acção de cada episódio tornavam na série ainda boa de ser ver. Outro aspecto da série foi a forma como parodiou celebridades da época ou personagens cinematográficas, geralmente nas personagens vilãs, como Zsa Zsa Gabor, Burt Lancaster, Bela Lugosi, Boris Karloff e os Beatles.



O blogue Desenhos Animados Esquecidos refere um episódio na dobragem portuguesa em que um dos vilões chama o protagonista de "Roger a Jeto", ao que este corrige para "A Jacto!" e a certa altura o narrador fica baralhado e começa também a referir-se a ele como "Roger A Jito" e outras pronúncias erradas para grande irritação do herói.

Não encontrei nenhum episódio com a dobragem em Português de Portugal por isso seguem-se alguns episódios em inglês:










sábado, 22 de fevereiro de 2020

Caçadores no Espaço (1983)





Numa galáxia muito próxima, nos anos 80, continuava a vontade de ordenhar o filão da Guerra das Estrelas, ou pelo menos de aventuras espaciais. Este "Spacehunter: Adventures in the Forbidden Zone" foi mais um a tentar a sorte, com resultados mistos.



"Spacehunter: Adventures in the Forbidden Zone" é de 1983 e estreou como "Caçadores no Espaço" em Portugal (em 16 de Março de 1984), enquanto no Brasil se manteve o subtítulo: "Caçador do Espaço: Aventura na Zona Proibida". Foi realizado por Lamont Johnson e produzido por Ivan Reitman (o realizador dos "Caça-Fantasmas"), com a banda sonora a cargo de Elmer Bernstein ("Os 10 Mandamentos", "Os 7 Magníficos"). O filme foi originalmente exibido com algumas sequências naquela tecnologia do futuro, o 3-D!

Fiquei com vontade de ver o filme quando há uns anos encontrei o poster num anúncio nos arquivos do extinto jornal "Diário de Lisboa". E até no ano anterior à estreia em Portugal, o suplemento "Sábado" do Diário de Lisboa dedicou uma página ao filme, com base na expectativa pelo regresso dos filmes em 3-D, o "renascer da Fénix" nos anos 80.

 Como ainda faltava para a estreia portuguesa, é usado a semi-tradução literal do filme como "Spacehunter: Aventuras na Zona Proibida".



O plot é simples, uma nave é destruída por um incidente astronómico, e três mulheres aterram no planeta mais próximo. Imediatamente encontram estranhos nativos sobreviventes da epidemia que devastou a colónia de humanos. Tudo foi para o raio que o parta e o planeta está cheio de rejeitados do Mad Max, mais algumas criaturas bizarras que incluem uma espécie de anões que cantam em coro e atiram cocktails Molotov, vampiros obesos ("vestidos" como vieram ao mundo ) a descer os tubos do Aquaparque, mini-dragões... 
Equivalentes do Han Solo e Lando Calrissian vão competir para encontrar as miúdas e devolvê-las para receber a recompensa. Vão ser ajudados pelo trapalhão Jar Jar Binks, que depois de um banho forçado numa poça imunda se "transforma" na futura namoradinha dos anos 80: Molly Ringwald pré-"Sixteen Candles" e "Breakfast Club". Quer dizer, acho que foi mais ou menos isto, já era tarde quando comecei a ver a fita. Obviamente, o overlord do planeta é o Overdog (Michael Ironside), um gajo muito mau, que está sempre a mandar fazer experiências genéticas e químicas nos sobreviventes, quando não está ocupado com atirar pessoas para labirintos mortais. Aliás, é das sequências que conseguiu melhor criar alguma tensão, quando a Molly, perdão, Niki tenta sobreviver no labirinto cheio de armadilhas. Imagino as lágrimas que o Michael Ironside verteu no interior da sua máscara de latex, enquanto gesticulava e exclamava "Ha" de dentro da fatiota que parece o resultado de uma noite de amor do Barão Harkonnen com um Go-Bot (os primos pobres dos Transformers). Provavelmente ele depois limpou as lágrimas com o cheque. Melhor momento dramático do filme: o Overdog é apresentado ás novas cativas, e ordena a um dos capangas: "Despe-a!" para surpreender todos quando segundos depois acrescenta, vigorosamente: "Devagar...". Um Óscar retro-activo para o modo pervertido mas sensível como um homem envolto em latex e maquinaria com braços de robot industrial conseguiu actuar assim. A espécie de Han Solo, Wolff (tipo, "lobo solitário", cappice?) foi interpretado por Peter Strauss, que levei o filme todo a pensar que era uma cara conhecida, mas não me recordava de onde. Continuo na mesma. O seu mercenário rival e mas amigo da malta foi desempenhado pelo Caça-Fantasma que ninguém se lembra o nome (racistas!), Ernie Hudson.

Em suma, não envelheceu graciosamente, mas para o que é, vê-se bem.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Começar De Novo (1999-2002)

por Paulo Neto

Ainda hoje quando duas pessoas tomam a decisão de se casarem, certamente acreditam que é algo que pretendem levar para o resto das suas vidas. Mas entretanto a vida vai dando voltas, as pessoas mudam e às vezes nem todo o amor e a determinação do mundo podem evitar o fim de um casamento e o divórcio é algo cada vez mais comum. (Segundo os mais recente dados, 58 em cada 100 casamentos em Portugal acabam em divórcio.) Claro que muitas vezes o amor oferece uma segunda oportunidade, mas começar de novo com toda uma história de casamentos anteriores e filhos neles gerados é tudo menos fácil.



Foi essa premissa, cada vez mais habitual na nossa sociedade, que deu o mote à série "Começar De Novo" ("Once And Again" no original) exibida nos Estados Unidos em três temporadas entre 1999 e 2002. Em Portugal passou na RTP2 entre 2001 e 2004. Um dos criadores da série foi Edward Zwick, realizador de filmes como "Lendas Da Paixão" e "Diamante de Sangue".
A série passava-se numa cidade do estado de Illinois não muito longe de Chicago e contava a história de amor que nasce entre dois divorciados e as suas consequências não só nas suas vidas, mas também dos seus filhos, dos ex-cônjuges e de outros familiares. 



Lily Manning (Sela Ward) está recém-separada do marido Jake (Jeffrey Nordling), após ter descoberto as infidelidades deste. Os dois têm duas filhas, a insegura Grace (Julia Whelan) de 14 anos e a precoce Zoe (Meredith Deane) de 9 anos. Lily tem uma livraria chamada "My Sister's Bookstore" que gere com a sua irmã Judy (Marin Hinkle). Entre a mágoa pelas traições do marido, as pressões dos seus pais, as crises de adolescência de Grace, as inconstâncias amorosas de Judy e a esquizofrenia do irmão Aaron (Patrick Dempsey), Lily acredita que não teria tempo nem oportunidade para se apaixonar de novo.
Mas é isso precisamente que acontece no dia em que conhece Rick Sammler (Billy Campbell) durante uma reunião de pais. Rick é um arquitecto divorciado há três anos de Karen (Susanna Thompson) uma advogada pública de quem teve dois filhos: Eli (Shane West) de 16 anos, um rapaz popular do mesmo liceu de Grace que tem dificuldades de aprendizagem e Jessie (Evan Rachel Wood), de 12 anos que ainda sofre com a separação dos pais. 


À medida que Rick e Lily vão assumindo a paixão, vão se apercebendo que essa decisão afecta todos à sua volta, dos filhos (Grace e Jessie ainda sonham com a reconciliação dos respectivos pais) aos colegas de trabalho.    



O que eu mais gostava na série, e que aliás era o que a distinguia das outras, eram as cenas tipo confessionário, filmadas a preto e branco, num cenário neutro em que as personagens falavam das suas memórias e revelavam os seus pensamentos mais íntimos. A princípio essas cenas eram só com os dois protagonistas, mas aos poucos as outras personagens foram tendo essas cenas e às vezes apareciam mais que uma.



Entre as storylines que atravessaram os 63 episódios da série destaque para: quando Rick se deixa tentar pelo projecto megalómano de um cliente milionário (uma personagem que também apareceu na série "Os Trintões") e que põe em risco a sua carreira e as suas relações familiares; quando Jessie se apaixona por uma colega, Katie (Mischa Barton), naquele que foi um dos primeiros romances adolescentes lésbicos numa série americana; o envolvimento de Judy com Sam Blue (Steven Weber), um sócio de Rick, que termina quando ele lhe confessa que é casado, e que mais tarde é recuperado quando ele está divorciado; a luta de Karen contra a depressão; o crush algo obsessivo de Grace por um professor (Eric Stolz) e Jake a ser de novo pai quando Tiffany (Ever Carradine), uma das suas amantes, lhe revela que está grávida. A série terminou com um final em aberto que Rick e Lily, entretanto já casados, a terem de tomar decisões que pode mudar o rumo das suas vidas, já que ele tem uma oferta de trabalho na Austrália e ela para apresentar um programa nacional de rádio. Na cena final, Lily anuncia que está grávida.



"Começar de Novo" recebeu nomeações para diversos prémios, tendo Sela Ward ganho um Globo de Ouro e um Emmy para Melhor Actriz em Série Dramática em 2000. Este foi também o papel mais reconhecido de Billy Campbell após ter protagonizado o filme "As Aventuras de Rocketeer" e a série  revelou jovens talentos como Evan Rachel Wood e Shane West, actualmente já com larga carreira em televisão e cinema.

Genérico:


Alguns episódios com legendas em Português (do Brasil):



   
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