Miguel Dias já leva várias décadas de carreira no entretenimento. Tendo ficado conhecido do grande público como o vocalista da banda Mercúriocromos (lembram-se de "sou camionista, sou o maior"?), Dias também se destacou em vários programas de televisão, geralmente aqueles produzidos por Teresa Guilherme, onde colaborou como actor, apresentador ou roteirista, e nos últimos anos tem estado sobretudo ligado a produções de teatro musical e de revista.
Recentemente, o canal de Miguel Dias no YouTube tem disponibilizado vários programas da SIC em que colaborou, alguns deles que eram lost media, como sessões de "Ai, Os Homens", "Cantigas Da Rua", "Ousadias", "Confissões" e do concurso "Só Números". E também algumas sessões do programa sobre o qual hoje nos debruçamos, "Furor".
Adaptado de um original italiano "Furore" (quem na altura tinha TV Cabo poderá eventualmente tê-lo visto na RAI Internazionale), "Furor" foi uma das principais apostas da SIC para o Verão de 1998. Tratava-se de uma guerra dos sexos musical onde duas equipas, cada qual composta por cinco famosos, defrontavam-se em vários desafios de karaoke ou relacionados com música e famosos. Música essa que era bastante variada e que podia ir dos hits do momento até clássicos mais antigos.
Bárbara Guimarães era a anfitriã de serviço, apoiada por Miguel Dias, e a produção era, surprise surprise, de Teresa Guilherme. Inicialmente os convidados VIP pendiam mais para aqueles então na casa dos 20 e 30, mas eventualmente também por lá passaram vários famosos veteranos, alguns até que nem estavam relacionados à SIC. Aquele que se sentava ao meio em cada uma das mesas era nomeado o chefe de equipa.
A audiência também estava "segregada" com os homens de um lado e as mulheres de outro, cada qual apregoando cantos de apoio à respetiva equipa ou de ligeira provocação à adversária. E o tema do programa não podia ser mais básico mas que não saía da cabeça: "Furor, furor, na na na na na na na…"
A título de explicação, vamos tomar por exemplo esta sessão que tinha na equipa feminina Florbela Queiroz, Luísa Beirão, Dina, Simara e Anabela Rodrigues e na masculina, Rui Paulo, Vítor Cândido (não me lembro nada dele, era ator ou modelo?), Bonga, Ildeberto Beirão e Rodrigo Saraiva.
- Geralmente o primeiro jogo começava com cada equipa a cantar uma canção designada (no caso da sessão acima referida "Eye Of The Tiger" para eles, "I Will Survive" para elas), sendo que a dada altura, a música parava e tinham de continuar acapella. Ao longo do programa, os telespectadores podiam também cantar pois as letras das canções aparecia, no ecrã. (Escusado será dizer que nem todos os famosos tinham vozes muito famosas.)
Outros jogos musicais consistiam em cantar uma canção evitando palavras como uma certa letra como por exemplo nesta sessão, o "Mãe Querida" sem palavras com a letra M. ("não há outro ... na vida igual ao ... de ...") ou em que cada membro tinha de à vez cantar uma parte de uma canção. Esta sessão em particular teve até um jogo tipo Pictionary onde um membro de cada equipa (Luísa Beirão para elas, Rodrigo Saraiva para eles) teria de desenhar um título de uma canção para os restantes colegas adivinharem.
- Mas nem só de música de faziam os jogo do "Furor". Havia outros dedicados a figuras públicas, como por exemplo descobrir se uma citação de uma determinada figura pública era verdadeira ou falsa (tendo em conta que a situação podia só estar ligeiramente alterada) ou descobrir famosos através de versões distorcidas das suas caras.
- No final de cada jogo, havia uma espécie de penitência para a equipa que perdeu, que era de cantar medleys dedicadas a um determinado cantor ou tema, mas em que rapidamente a cantoria se estendia à outra equipa. Na sessão acima referida, houve medleys de António Variações, de Juan Luis Guerra e uma de hits bicharada infantil com Abelha Maia, Eu Vi Um Sapo e O Camelo Areias.
- Cada sessão também tinha uma atuação de um convidado especial, que até podia ser internacional, como nesta sessão onde atuou o grupo Flip Da Scrip que estava baseado na Alemanha mas cujos membros eram americanos. Quem se lembra deste "I Never Told You", que muito se ouviu nas rádios nacionais nesse ano de 1998?
- No seu livro "Isso Agora Não Interessa Nada", Teresa Guilherme recorda um divertido episódio que decorreu na sessão em que os convidados eram artistas pertencentes ao universo que se convencionou chamar de música pimba, com nomes como Ana e José Malhoa, Micaela, Romana, Ruth Marlene, Emanuel e Fernando Correia Marques. Num jogo onde cada um tinha de cantar uma canção que referisse o nome de um animal, estes artistas criaram um enorme jardim zoológico. A ideia era que o jogo terminaria quando alguém não se lembrasse de mais nenhuma canção ou repetisse uma que já tivesse sido dita, mas nas vozes e nas memórias destes cantores, essa arca de Noé musical prolongou-se por uns bons quarenta e cinco minutos. Até que por fim, um deles referiu o "Eu ouvi um passarinho" e Bárbara Guimarães e Miguel Dias aproveitaram para terminar o jogo, alegando que passarinho era um termo genérico e não um animal específico. Quando o produto final chegou aos telespectadores, essa longa bicharada foi editada para uns escassos dez minutos.
- "Furor" começou por dar inicialmente num dia de semana, acho que à terça-feira, mas depois passaria para os domingos. Houve também dois especiais de fim-de-ano. Um deles para o réveillon 1998/99 que, segundo Teresa Guilherme conta noutro livro, "O Avesso Do Direto", foi-lhe proposto por Emídio Rangel muito em cima da hora, a 15 de Dezembro. Mas por fim lá se conseguiu arranjar uma vaga no Coliseu dos Recreios no dia 23 para gravar esse especial, aproveitando o palco circular do circo de Natal que na altura estava montado para o Circo de Natal do Coliseu.
- "Furor" reapareceria uma última vez na SIC para um especial para a passagem de ano 2000/2001, conduzido por Ana Marques, que acabaria por passar despercebida pois nessa noite, o país pararia para o final do primeiro Big Brother.
Outras sessões do "Furor"
Equipa feminina: Fernanda Serrano, Nayma, Rita Salema, Maria João Pinheiro, Julie Sargent Equipa masculina: Joaquim Monchique, Miguel Vital, Miguel Ângelo, Pedro Reis, Miguel Gameiro Convidados: Excesso "És Loucura"
Equipa feminina: Adelaide de Sousa, Mónica Sofia, Lúcia Moniz, Ana Marques, Rota Ferro Rodrigies
Equipa masculina: Jorge Gabriel, João Pedro Pais, Ricardo Carriço, Armindo Neves, Carlos Bruno
Peter Parker (Tobey Maguire, "Pleasantville", "The Ice Storm"; na época com 27 anos a interpretar um adolescente graças ao seu look jovial) é o típico nerd da cultura pop: óculos, fisicamente fraco, sem sorte ao amor e nulas capacidades sociais. Um dia, quase como nos comics, é mordido por uma aranha geneticamente alterada e ganha capacidades sobre-humanas depois de uma noite de metamorfose. A transformação imediatamente leva a eterna vitima de bulling a ser um "macho alfa", até os seus seres queridos sofrerem as consequências. Depois da vazia vingança consumada, nasce verdadeiramente o super-herói que todo o Mundo ama (excepto J.J. Jameson). O principal nemesis de Peter Parker é Norman Osborn (Willem Dafoe, "Platoon", "The Last Temptation of Christ") o maníaco Green Goblin, e pai do único amigo de Peter, Harry Osborn (James Franco, "Freaks and Geeks", "Milk") e o seu interesse amoroso é Mary Jane (Kirsten Dunst, "The Virgin Suicides", "Anastasia") que de imponente top model foi reimaginada como a vizinha adorável.
"Spider-Man" estreou na sua terra natal a 3 de Maio de 2002 e 21 de Junho em Portugal. Houve antes uma grande campanha de marketing por parte da Sony Pictures, incluindo o infame e magnífico teaser trailer com as Torres Gémeas (do World Trade Center), que foi rapidamente expurgado depois do ataque terrorista de 11 de Setembro 2001 (não consigo recordar se vi o trailer primeiro numa sala de cinema, ou na Internet) que também obrigou a refilmagens de algumas cenas. Mas, the show must go on, e a crescente comunidade nerd online esperava em antecipação, assim como os plebeus que também queriam ver o primeiro filme "a sério" com a origem, metamorfose e triunfo do herói mais conhecido que Jesus Cristo.
Em Fevereiro de 2004, escrevinhei este post de apreciação da primeira entrada do Aranha do grande Sam Raimi: "Spider-Man", o "Homem-Aranha":
"Aproveitei que me ofereceram o DVD no meu aniversário, para rever um filme, que gosto mais, cada vez que tenho oportunidade de ver. Confesso que fiquei desiludido quando fui assistir á estreia no grande ecran, esperava um filme com mais acção, mas depois de vê-lo em versão pirata, apercebi-me dos seus pontos fortes, uma história ligeira, bem desenvolvida e que não se deixou embriagar pelos CGIs, e tem a Kirsten Dunst! O DVD trás uma quantidade apreciável de extras, que recordam as origem do personagem na BD. E para quem tem um computador decente (ao contrário de mim...) ficará agradado com o jogo de acção incluído (julgo que será só uma demo, tenho que confirmar isso...).
Agradável e entretido, recomendo vivamente!!
Ah, e está lá a Kirsten Dunst (não sei se já tinha mencionado esse facto...)"
Tenho pouco a adicionar aos meus rascunhos 2000s, mas, bem, eu estava mesmo com um crush pela querida Kirsten. Mas isso foi meia vida atrás...
Entre os pontos altos, a vitalidade da direcção e humor de Sam Raimi (Evil Dead), a cinematografia de Don Burgess (Contact, Castaway), a edição por Bob Murawski (um habitual colaborador de Raimi) e Arthur Coburn. E claro, em categorias igualmente importantes, banda sonora do genial Danny Elfman (Batman, Sleepy Hollow, etc) e efeitos especiais computorizados de ultima geração (supervisionados pelo lendário John Dykstra, que trabalhou em projectos como "Star Wars", "Battlestar Galactica", "Star trek: The Motion Picture", etc ) misturados com os efeitos práticos do agrado do realizador. E um elenco perfeito, desde os principais aos secundários.
Não querendo repetir, mas realmente cada vez mais aprecio a maestria com que Sam Raimi nos brindou neste filme que dois anos depois de "X-Men" e seis antes do "Iron Man" escancarou a porta à enxurrada de filmes com as aventuras de super-heróis das seguintes décadas. Na época deixei-me também levar por algumas reações negativas ao uniforme do vilão ao estilo dos Super Sentai, mas tantos anos depois não consigo imaginar outra versão além da que foi filmada.
Pessoalmente, esta película continua a ser versão definitiva da origem do Spider-Man. Sim, não sou grande fã das versões com o Andrew Garfield e do Tom Holland.
Além de promos apenas tinha visto alguns clips durante alguma exibição na TV, mas só 26 anos depois tive oportunidade para ver de uma ponta a outra o filme português "Capitães de Abril" a reconstrução dos acontecimentos do maior dia de Portugal no século XX, o dia da Revolução dos Cravos, o 25 de Abril de 1974.
Maria de Medeiros ("Henry & June", "Pulp Fiction") realizou, co-escreveu e actuou em "Capitães de Abril", vertendo experiências pessoais na estória da História de Portugal; que serviu ao espectador sem ingenuidade e com contrariedades na medida certa para ser emocionante mas sem fotocópias ou fangirling das Figuras Históricas. Li por ai nas opiniões auto-importantes num qualquer agregador de críticas, que na película faltou mostrar o ponto de vista d'"o outro lado", e claro: sem influências ideológicas de esquerda, mostrar todo o caos que se seguiu, a descolonização "sem planeamento" e toda a restante cassete gasta que os velhos do Restelo, colaboradores e saudosistas continuam a debitar, hoje nas redes sociais para atrair sangue novo e "patriótico" com a propaganda a normalizar a extrema-direita e conservadora. Reconheço que seria interessante, mas tudo isso iria resultar mais adequado num formato de série televisiva (como as posteriores "Conta-me como Foi" e "Depois do Adeus"). Mas voltando ao que conteúdo que realmente está no ecrã:
A cena inicial da despedida de um soldado e sua namorada é tão exagerada e teatral que me sobressaltou imediatamente. Felizmente, tudo mudou nas cenas seguintes, que encontraram o seu ritmo, com a interação entre as personagens, reproduções de acontecimentos reais a entrelaçar-se. Tinha-me esquecido de quantos recursos e investimento em produção foram dedicados a este projeto, como filmar nos locais onde ocorreram eventos históricos, com chaimites e tudo. O humor cínico de Gervásio (Joe de Almeida "Adão e Eva") contrasta com o optimismo de Maia (Stefano Accorsi) e um certo romantismo em relação à Revolução, resultando, por vezes, em diálogos algo exagerados, mas que representa um foreshadowing do futuro mais negro após o triunfo de um golpe militar quase sem derramamento de sangue. E no rosto de Maia, apesar da esperança podemos ver sinais do começo da morte da liberdade, quando a velha guarda rapidamente assume o comando dos militares subalternos que tanto trabalharam arduamente para libertar o povo das amarras do regime colonialista e autoritário. A banda sonora é maravilhosa (assim como o delicioso cameo de Maestro Vitorino de Almeida), o elenco é recheado de caras conhecidas do grande público, mas definitivamente não sou fã de dobragens de atores estrangeiros, que ajudou a tornar alguns momentos mais líricos* em algo um pouco estranho... A edição esteve a cargo de Jacques Witta ("O Delfim", "Cinco Dias, Cinco Noites") e com a fotografia de Michel Abramowicz ("Taken","The Other Story") mesmo as cenas mais intensas parecem intimas do espectador.
Concluindo, é um interessante novelo de acontecimentos, deixando a solenidade apenas para os momentos em que o povo anónimo exprime a alegria de um evento inimitável, o fim da cinzento-suja e corrupta ditadura que oprimiu milhões por todo o mundo, com recurso á pobreza, à violência, à espionagem, à ignorância, nacionalismo bacoco, e á perversidade de um Império podre e decadente.
* Fui obrigado por lei a colocar esse adjetivo na review.
Cinco anos depois da chegada de "Gabriela", Portugal já estava rendido às telenovelas, e o ritual familiar de ver o capítulo do dia da telenovela do momento após o Telejornal (e não só) já estava instituído em muitos lares portugueses. Outros títulos made in Brasil como "O Casarão", "O Astro", "A Escrava Isaura", "Dancin' Days" e "Água Viva" também fizeram sucesso e pelo meio até foi exibida uma novela venezuelana ("Dona Bárbara", na RTP2 em legendagem).
Mas até mesmo nesses primeiros anos de telenovelamania em Portugal, já pululava a ideia do nosso país se aventurar nas telenovelas a curto/médio prazo. E no dia 10 de Maio de 1982 essa ideia foi materializada ao ir para o ar nesse dia o primeiro capítulo de "Vila Faia", a primeira telenovela produzida em Portugal. Foi originalmente exibida no horário nobre da RTP em cem capítulos até ao dia 28 de Setembro desse ano.
A novela foi escrita por Francisco Nicholson e João Carlos Alves (após o afastamento da autora inicial, Odette de Saint-Maurice), produzida pela Edipim e filmada nos seus estúdios no concelho de Sintra, e realizada por Nuno Teixeira. Além de coproprietário da Edipim e de desempenhar um dos papéis principais, Nicolau Breyner também acumulou a função de diretor de actores.
"Vila Faia" tinha duas tramas principais: os dramas públicos e privados da família Marques Vila, dona de um império vinicultor, produtor dos vinhos da marca Vila Faia, e a história de amor entre o camionista João Gudunha (Breyner) e a prostituta Mariette (Margarida Carpinteiro).
Ruy De Carvalho e Rosa Lobato Faria como Gonçalo e Beatriz
Gonçalo Marques Vila (Ruy de Carvalho) geriu com mestria o negócio familiar e prepara-se para modernizar a produção conforme as normas que a futura entrada de Portugal na CEE assim exige. Mas a sua dedicação ao trabalho fez com que negligenciasse a família, sobretudo a esposa Beatriz (Rosa Lobato Faria), e que tenha relações tensas com os três filhos: Mariana (Paula Street), Pedro (Nuno Homem De Sá) e Joana (Luísa Freitas). Quem tenta estabelecer um pouco de harmonia familiar é a sua mãe Ifigénia (Mariana Rey Monteiro). Para desgosto de Gonçalo, Pedro não parece muito interessado em assumir responsabilidades. O jovem acaba por interessar-se pelo boxe, e é nesse meio que trava amizade com Gudunha, camionista da Marques Vila e com Zé Dinis (Vítor Norte), um jovem mecânico, humilde e batalhador, filho de Alice (Anna Paula).
Duas outras famílias vão cruzar com os destinos dos Marques Vila. Uma delas são os Marinhais, recém regressados de um exílio em Espanha, e fornecedores de uvas à Marques Vila, mas que apesar das aparências vivem em apuros financeiros. Nuno Marinhais (Varela Silva) é amigo de longa data de Gonçalo, enquanto a sua esposa Luísa (Glória de Matos) pretende unir as duas famílias e assim manter o seu estilo de vida, encorajando a aproximação do filho Manuel (Luís Esparteiro) a Joana e fazendo tudo para impedir o romance da sua filha Ana (Filipa Trigo) com Zé Dinis.
Ana Zanatti e Nuno Homem de Sá como Madalena e Pedro
A outra é os Andrades, composta pela doutora Madalena (Ana Zanatti), o seu marido Miguel (Miguel Wahnon) e a filha de ambos, Cristina (Manuela Marle). O choque é geral nos Marques Vila quando se descobre que Mariana, a mais certinha dos três filhos e a mais provável sucessora no negócio, andava a ter uma relação secreta com Miguel e ambos fogem para o Brasil. Enquanto isso, Pedro fica dividido entre Madalena e Cristina, gerando um grande conflito entre mãe e filha.
Mais que os dramas familiares, uma maior ameaça paira na Marques Vila, já que há quem esteja a usar a empresa para um esquema de falsificação dos vinhos Vila Faia para o Brasil. Entre os envolvidos no esquema estão Mariano (Carlos César), um funcionário aparentemente de confiança da empresa e Zé Balhão (António Montez), encarregado das caves de vinhos. Manuel Marinhais também se envolve no esquema para pagar as suas dívidas do jogo. As coisas complicam-se quando Eduardo (Cunha Marques), o guarda noturno da empresa, aparece assassinado.
A vida sempre foi madrasta para João Gudunha, das suas tentativas de emigração até à sua carreira de boxe, pelo que se tornou um homem amargo e bravio, cuja única companhia é o seu papagaio Crispim. Mas ao conhecer Mariette na leitaria de Dona Ermelinda (Luísa Barbosa), o seu coração rende-se ao amor. De seu verdadeiro nome Conceição, Mariette recorreu à prostituição para sustentar o filho Rui (Gonçalo Zanartu), que vive num colégio interno, e a quem mente dizendo que trabalha num hospital. Além da mãe, também o pequeno Rui se afeiçoa a Gudunha, que vê nele o pai que nunca teve.
Entretanto, Zé Balhão também aparece assassinado nas caves dos Marques Vila, e Gudunha torna-se o principal suspeito, já que este o tinha ameaçado quando Balhão atacou Mariette. A investigação das mortes de Eduardo e Zé Balhão ficam a cargo do Inspetor Serôdio (Francisco Nicholson) e dos agentes Silveira (Tozé Martinho), Lino (Carlos Vieira de Almeida) e Nunes (Gil António).
A Marques Vila entra em crise quando a notícia da falsificação de vinhos é tornada pública, e a família acaba por vender a mansão a Eurico Laskaris (Baptista Fernandes), um misterioso negociante de arte. Na verdade, é ele o cabecilha do esquema de contrabando e falsificação, e Mariano tornou-se seu cúmplice para se vingar do facto de nunca ter sido reconhecido como membro da família do Marques Vila, já que é filho ilegítimo do marido de Ifigénia com uma empregada.
No final, uma vez apanhada a rede de contrabando, os Marques Vila regressam à mansão. Com Gonçalo numa cadeira de rodas depois de ter sofrido um acidente, Pedro e Mariana assumem a liderança da empresa. Madalena aproxima-se do seu colega Diogo (João Perry) e reconcilia-se com a filha. Ana e Zé Dinis vencem os obstáculos e ficam livres para amar com a benção das famílias.
O casamento de João Gudunha e Mariette
O amor de Gudunha e Mariette acaba por ter um final trágico quando ela é atacada por Tó (António Feio), o sobrinho da Ermelinda, que pretendia roubar o estabelecimento da tia. O choque precipita o alastrar de uma doença incurável, que a deixa com pouco tempo de vida. Antes de morrer, Gudunha e Mariette casam-se para viverem juntos os últimos dias da vida dela. Na última cena, Gudunha e Rui passeiam pelas vinhas como pai e filho.
Outras personagens marcantes foram Dona Ercília (Adelaide João), a chefe das empregadas dos Marques Vila sempre às turras com Lina (Isabel Mota) e Rita (Mafalda Drummond); Inês Brisar (Helena Isabel), secretária da Marques Vila, casada com Bruno (Vítor de Sousa); o Padre Sebastião (David Silva), irmão de Ifigénia que celebra o casamento de Gudunha e Mariette; e Aurora (Cremilda Gil), a sofrida empregada dos Marinhais.
Do elenco ainda fizeram parte nomes como Curado Ribeiro, Virgílio Castelo, Paula Guedes e Maria Muñoz (filha de Eunice).
O tema da telenovela foi composto por Thilo Krassmman e Vítor Mamede e era tocado na versão instrumental no genérico de abertura e numa versão cantada por Samuel no de encerramento.
Mesmo com recursos bem esparsos do que aqueles da telenovelas brasileiras, "Vila Faia" acabou por conquistar o público, sobretudo graças ao desempenho do elenco, que aliava nomes consagrados a algumas caras novas, deixando assente que este tipo de teledramaturgia made in Portugal tinha pernas para andar.
O sucesso da telenovela até impulsionou a produção e comercialização de um vinho "Vila Faia", com direito a um anúncio com quatro atores, da telenovela: Helena Isabel, Nuno Homem de Sá, Nicolau Breyner e Manuela Marle.
"Vila Faia" foi reposta na RTP em 1985, 1990 e 2000, além de várias exibições na RTP Memória. Em 2008, foi feito um remake com Albano Jerónimo e Inês Castel-Branco a serem os novos Gudunha e Mariette.
Em 1986, a RTP optou por seguir um modelo inédito para selecionar a canção que representaria Portugal no Festival da Eurovisão desse ano, que teria lugar na cidade de Bergen na Noruega.
Embora seja agora considerada canonicamente como o 23.º Festival da Canção, esta selectiva nacional teve o nome de "Uma Canção Para A Noruega" e foi emitida na RTP1 no dia 22 de Março de 1986.
No entanto, ao contrário do que era habitual, a selecção e apresentação das canções concorrentes foi feita de forma diferente. Em vez de uma submissão aberta a nível nacional, os quatro centros de produção da RTP em Lisboa, Porto, Açores e Madeira ficaram incumbidos de seleccionarem três canções para a competição, bem como os seus compositores e intérpretes. As doze canções não foram apresentadas ao vivo no mesmo local, como era costume, mas sim em actuações pré-gravadas num local fornecido pelos centros de produção.
A escolha da canção vencedora esteve a cargo de um júri composto por 43 funcionários da RTP, tendo sido antes anunciadas as três canções sujeitas à votação final. O site Festivais Da Canção refere que houve ainda uma fase inicial da votação em que seis canções seriam apuradas para a ronda seguinte, mas que acabou por ser com oito canções devido a um empate. Porém, tal não foi mencionado no programa e desconhecem-se quais teriam sido as outras canções apuradas nessa fase além das três finalistas.
O programa teve seis apresentadores, todos eles habituados a estas andanças: Alice Cruz, Ana Zanatti, Eládio Clímaco, Fialho Gouveia, Henrique Mendes e Maria Helena.
No início da emissão, fez-se um breve resumo da história do Festival da Canção até ao momento.
Seguiu-se aquele que foi, pelo menos na minha opinião o ponto alto da gala, a interpretação de "Cavalo À Solta", a canção que ficou em terceiro lugar na voz de Fernando Tordo, pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras e quase todos os vencedores do Festival da Canção até então: António Calvário (1964), Simone de Oliveira (1965 e 1969), Eduardo Nascimento (1967), Carlos Mendes (1968 e 1972), Sérgio Borges (1970), Tonicha (1971), Paulo De Carvalho (1974), Duarte Mendes (1975), Ana Bola (membro d'Os Amigos, 1977), Tozé Brito (membro dos Gemini, 1978), Manuela Bravo (1979), Carlos Paião (1981), Armando Gama (1983), Maria Guinot (1984) e Adelaide Ferreira (1985). De fora ficaram somente Madalena Iglesias (1966), Carlos do Carmo (1976), José Cid (1980) e as Doce (1982).
Quanto às canções começamos pelas do Centro do Produção da Madeira, o único que não viu nenhuma das suas canções na ronda final. (Links para as canções nas letras a negrito)
Sérgio Borges
- Luís Filipe "Tango Da Meia-Noite": depois de ter participado no ano anterior com "Mulher Só, Mulher Giesta", Luís Filipe (1952-2015) apresentava-se de novo no Festival com este tema que escreveu com Nuno Rodrigues da Banda Do Casaco. Depois de nos anos 70 ter integrado algumas das bandas madeirenses mais reconhecidas, Luís Filipe ia consolidando uma carreira a solo ao longo da década de 80, com alguns hits como "Raio Azul". O cantor representou Portugal no Festival da OTI em 1988 com "Vive A Vida Cantando" e compôs outras canções concorrentes ao Festival da Canção como por exemplo, "Partir De Mim", interpretado por Marina Mota, que ficou em segundo lugar em 1989.
- Paulo Ferraz "Uma Ilha, Um Amor": um dos mais firmados compositores do arquipélago, Paulo Ferraz compôs duas das canções a concurso por esta região: esta interpretada pelo próprio e a seguinte.
- Sérgio Borges "Quebrar A Distância": Ao vencer em 1970 com "Onde Vais Rio Que Canto", Sérgio Borges (1943-2011) tornou-se o primeiro madeirense a vencer o Festival da Canção, embora nesse ano, perante o boicote da RTP, não tenha ido à Eurovisão. (Em vez disso, participou com essa canção no Festival de Música de Tóquio.) Em 1966, Borges tinha ficado em segundo lugar com "Nunca Direi Adeus", acompanhado pelo Conjunto Académico João Paulo, a primeira canção do Festival em que foi utilizada uma guitarra eléctrica! Esta foi a terceira e derradeira que Sérgio Borges participou no Festival da Canção, tendo ainda vivido para ver em 2008 pela primeira vez uma madeirense, Vânia Fernandes, a representar Portugal na Eurovisão.
Carlos Alberto Moniz
Seguindo para os Açores onde, além da que avançou para a fase final, foram apresentadas estas duas canções:
- Carlos Alberto Moniz "Canção Para José Da Lata": Natural da Ilha da Terceira, Carlos Alberto Moniz já era um rosto conhecido do grande público, tanto a nível musical como televisivo. Esta foi a sua única participação a solo, mas anteriormente já tinha competido três vezes como membro do grupo SARL (1979, 1980 e 1982) e uma com a sua então esposa Maria do Amparo. Nos anos seguintes, Moniz teria alguns pontos altos como o tema do concurso "Arca De Noé" e apresentando o primeiro espaço infantil da TVI, "A Casa Do Tio Carlos". À Eurovisão propriamente dita, Carlos Alberto Moniz foi duas vezes como orquestrador em 1990 e 1992, e claro, a sua filha Lúcia Moniz levou ao alto as cores portuguesas em 1996, conquistando o melhor resultado de Portugal no Festival até à vitória em 2017.
- Luís Gil Bettencourt "Cais De Encontro": Um dos músicos mais proeminentes do arquipélago desde os tempos da banda Viking, Luís Gil Bettencourt apresentou-se com este tema da sua autoria. A sua canção mais conhecida será "If There's A Reason" de 1987, cujo videoclip, inspirado pelo mito da Atlântida (e com uma produção bem avultada para a altura), passou amplamente na RTP. Por esta altura, nos Estados Unidos, o seu irmão Nuno Bettencourt dava os seus primeiros passos nos Extreme, ainda a cinco anos do sucesso global com "More Than Words".
Uma canção da RTP Porto seguiu para a fase final, e estas foram as outras duas canções da "Imbicta".
Né Ladeiras
- Gabriela Schaaf "Cinza E Mel": Nascida em Basileia na Suíça, Gabriela Schaaf mudou-se para o Porto com os seus pais em 1971 e por lá deu os seus primeiros passos na música. Em 1977, colaborou com a Banda Do Casaco no álbum "Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos" e no ano seguinte lançou o seu single de estreia "Põe Os Teus Braços À Volta De Mim". 1979 foi um ano marcante, obtendo o segundo lugar no Festival da Canção com "Eu Só Quero" e lançamento do seu primeiro álbum "Vídeo", o qual incluía a sua canção mais conhecida, "Homem Muito Brasa". Nesse ano de 1986, Schaaf editou um duplo single com temas em inglês e participou nesta seletiva com "Cinza E Mel", que não conheceu edição em disco. Pouco depois, Gabriela Schaaf abandonou a carreira artística e mudou-se para Zurique, onde reside até hoje. A sua mais recente aparição televisiva em Portugal foi no Festival da Canção de 2017, onde integrou o júri das semifinais.
- Né Ladeiras "Dessas Juras Que Se Fazem" (aka "Jura"): O público irá conhecer mais tarde esta canção da dupla Rui Veloso/Carlos Tê como "Jura", mas aqui foi anunciada com o título "Dessas Juras Que Se Fazem". Depois de passagens pela Brigada Victor Jara, os Trovante e a Banda Do Casaco, Né Ladeiras iniciou a sua carreira a solo em 1982 e dois anos depois, teve o seu momento mais notório com o álbum "Sonho Azul", do qual a faixa-título foi um grande hit. Né Ladeiras continuaria com uma carreira bastante ativa nos anos seguintes, destacando-se o álbum "Traz Os Montes" de 1994. Embora esta tenha sido a sua única participação no Festival da Canção, colaborou na versão de estúdio de uma canção que competiu na selectiva de 1988, "Nono Andar" de Ana & Suas Irmãs. Reintitulada "Jura", esta ganharia novas vidas nas vozes de Lara Li (edição em single em 1987 e incluída no álbum "Quimera" de 1988) e de Rui Veloso (no álbum "Avenidas" de 1998).
A eventual vencedora foi uma das três propostas da RTP Lisboa, e estas foram as outras propostas vindas da capital.
Lara Li venceu o Prémio de Melhor Interpretação
- Lara Li "Rapidamente": Referimos ela agora mesmo e Lara Li também marcou presença neste evento, naquela que era a sua segunda participação no Festival da Canção. Em 1980, ficou-se pelas semifinais com "E Pouco Mais" e pôde ser vista na final ao lado de Lena D'Água no coro da canção "Lição De Português" defendida por Madi. No ano seguinte, editou o álbum "Água Na Boca" que continha aquela que é a sua canção mais emblemática, "Telepatia".
Para esta selectiva, a cantora nascida em Lisboa com o nome Ilídia Amendoeira, interpretou "Rapidamente" da autoria dos "trovantes" Luís Represas e João Gil, um desempenho que lhe valeu o prémio de Melhor Interpretação. Em 2023, depois de vários anos fora das atenções do grande público, Lara Li participaria pela terceira vez no Festival da Canção com "Funâmbula", da autoria de André Henriques.
- Fá "Uma Balada De Amor": Fátima Padinha já tinha grande experiência em Festivais das Canção: em 1977 fez parte da formação dos Green Windows que apresentaram duas versões de dois temas a concurso, "Rita, Rita Limão" e "O Que Custar", em 1978 com os Gemini no papagaio voador de "Dai Li Dou" chegou à Eurovisão, ao que se seguiram quatro participações com as Doce em 1980, 1981, 1982 (vitória) e 1984. Tendo anunciado a sua saída do grupo no final de 1985, Fá tentava aqui lançar uma carreira a solo com "Uma Balada De Amor", uma declaração de amor a Lisboa com letra de Helena Isabel e música de Paulo de Carvalho. Contudo, a carreira a solo de Fá acabou por não descolar. (E sim, por esta altura, ela já era casada com o futuro primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.)
Já as Doce, primeiro com a artista futuramente conhecida com Ágata, depois em trio, ainda continuariam até 1987. Desde então as aparições de Fátima Padinha em televisão têm sido relacionadas com as Doce, incluindo breves atuações com as colegas Lena Coelho e Teresa Miguel.
Passemos agora às três canções finalistas. Como a classificação completa nunca foi divulgada, canonicamente as duas outras canções finalistas são consideradas como sendo dois segundos lugares ex-aqueo.
Rimanço "No Vapor Da Madrugada" (Açores): Composto por Luísa Alves (vocalista), Brígida Ferreira (violino), Álvaro Melo, Aníbal Raposo, João Lima, Luís Alberto Bettencourt, Paulo Andrade e Zeca Sousa, o grupo Rimanço trouxe "No Vapor Da Madrugada", uma proposta de saboroso recorte etno-folk, a fazer um pouco a música celta, que valeu o acesso ao top 3. Além desta canção, os Rimanço editariam mais outro single, "Chuva De Sentidos" em 1987.
Trabalhadores Do Comércio "Os Tigres Da Bengala R.S.F." (Porto): Fundados por Sérgio Castro e Álvaro Azevedo, os Trabalhadores Do Comércio trouxeram o sotaque do Porto para o boom do rock português. "Chamem A Polícia" é a sua canção-assinatura, mas também houve "Táquetinho Ou Lebas No Focinho", "A Chabala Do Meu Coração", "De Manhã Bou Ao Pão" e "Sou Um Gaijo Do Porto", entre outros. A banda também tinha a particularidade de ter um membro infantil, João Luís Médicis.
Aliás, Médicis, que aqui ainda só tinha 13 anos, teve papel de destaque neste "Os Tigres De Bengala", o que significa que foi por pouco que a belga Sandra Kim, a jovem vencedora do Festival da Eurovisão desse ano, não teve na Noruega outro competidor da sua idade. Os Trabalhadores Do Comércio aproveitaram a ocasião para lançar o mini-álbum "Mais Um Membro P'rá Europa" e seguem no activo até hoje.
Mas a canção que levaríamos até à Noruega, vinda de Lisboa, foi obviamente "Não Sejas Mau Para Mim", na voz de uma jovem de 19 anos chamada Dora Maria de Jesus, que em breve Portugal inteiro iria conhecer como simplesmente Dora. Escrito pelos ex-Salada De Frutas Guilherme Inês e Zé da Ponte com Luís Oliveira, "Não Sejas Mau Para Mim" seria a rampa de lançamento da carreira de Dora. Não, aqui não usou o lendário outfit de saia verde e botas Doc Martens com que se apresentou na Eurovisão em Bergen onde alcançou o 14.º lugar, mas sim um vestido em tons de amarelo e prateado.
Dora seria uma das cantores mais proeminentes do país no resto da década de 80, com hits em português e inglês como "Já Dei", "Our Love", "Easy" e, claro, uma nova ida à Eurovisão em 1988 com "Voltarei", novamente através de uma seleção interna da RTP. Também representou Portugal no Festival da OTI em 1990 com "Quero Acordar". Depois, foi viver para o Brasil tendo regressado no início deste século. Desde então tem trabalhado sobretudo em espetáculos no Casino Estoril e atuado pelo país fora e participou no programa "A Tua Cara Não Me É Estranha".
"Não Sejas Mau Para Mim" permanece como a canção-assinatura de Dora e, tal como tantas outras canções vencedoras do Festival, tornou-se um clássico imortal trauteado por várias gerações.
Actuação no Festival da Eurovisão
Actuação no Festival da Canção de 2021
Na altura, com os meus quase seis anos, lembro-me de pensar que se doravante a seletiva portuguesa para a Eurovisão passaria a chamar-se "Uma Canção Para…" com o nome do país anfitrião do Festival de cada ano, mas logo no ano seguinte, em vez de "Uma Canção Para A Bélgica", a RTP regressou à nomenclatura "Festival da Canção".
Um enorme agradecimento ao site Festivais Da Canção e ao livro "Portugal 12 pts" de João Carlos Calixto e Jorge Mangorrinha pela informação essencial para este artigo.
"Uma Canção Para A Noruega" está disponível para visualização: No Portal RTP Arquivos: Parte 1Parte 2Parte 3 Em RTP Palco: Link
Retirado da minha longa lista de "filmes para ver", finalmente chegou a vez de "Young Sherlock Holmes" de 4 de Dezembro de 1985. Estreado entre nós a 21 de Março de 1986, o título português entrega logo um bom spoiler: "O Enigma da Pirâmide", sem qualquer referência ao mais famoso detective do Mundo (depois do Batman, óbvio).
A cena inicial, numa Londres embaixo de um nevão, parecia saída de mais uma versão de "A Christmas Carol", mas a inesperada e imaginativa criatura animatrónica rapidamente dissipa as dúvidas e estabelece o que podemos esperar dali em diante. The game is afoot! A chegada de Harry Potter a Hogwarts foi... quer dizer, a chegada do ainda não-Dr. Watson a um colégio interno foi quase mágica. Quase tão mágico como as coisas que Chris Columbus (argumentista de "Os Goonies", "Gremlins" e realizador de "Harry Potter", "Sozinho em Casa", etc.) devia estar a consumir na altura em que escreveu o argumento: Sherlock Holmes adolescente e com namorada, alucinogénicos, engenhocas voadoras ao estilo de Da Vinci, pirâmides debaixo de Londres, estereótipos egípcios, etc. É uma pérola algo esquecida, geralmente citada como o "filme com a primeira personagem totalmente em CGI". E esses pormenores são impressionantes, assim como o trabalho de animatrónica e as sequências em stop motion, o design de produção; e é mais emocionante e trágico do que eu previa. O compositor Bruce Broughton ("Perdidos no Espaço", "A Turma dos Monstros") faz uma boa imitação de John Williams, ou pelo menos mantém a tradição de uma produção de Spielberg com efeitos dos mestres da ILM.
O elenco tem uma grande química, com uma bela Elisabeth (a jovem Sophie Ward) que, infelizmente, no último ato, se transforma na donzela em perigo, e era fácil adivinhar o seu destino, inevitável para que Sherlock Holmes (Nicholas Row, "A Importância de Ser Óscar") ignorasse as suas emoções e se dedicasse a ser o maior detetive de todos os tempos. O futuro Dr. Watson (Alan Cox, "O Ditador") foi pouco útil, relegado a ser os olhos do espectador e o alívio cómico (pessoas gordas = diversão). O arqui-inimigo de Sherlock é o stylish e carismático Professor Rathe (Anthony Higgins, que mais tarde interpretou Sherlock nos anos 90 em "Sherlock Holmes Returns" (1993). Spoiler: Rathe não voltou na sequela, que não existiu...
Todo o filme possui um pouco daquela magia da Amblin dos anos 80, é imperfeito, mas ainda assim uma divertida aventura para toda a família.
No dia em que a TVI celebra mais um aniversário (já 33 anos?), propomos recordar alguns elementos da sua história mais antiga, nomeadamente separadores e vinhetas dos anos 90. Infelizmente, só a muitos espaços que a atual direção da TVI se propõe a relembrar este período e como tal existem muitos programas do canal da década de 90 que continuam como lost media. Por exemplo, só recentemente é que a telenovela "Telhados De Vidro" exibida nos seus primórdios foi disponibilizada no TVI Player, após largos anos a ser semi-ignorada pela estação.
Mas vamos então analisar alguns destes elementos, graças ao acervo do canal do YouTube Grafismos Portugueses.
Quando iniciou as emissões no dia 20 de Fevereiro de 1993, a TVI apresentava-se como um projeto claramente associado à Igreja Católica e com um ligeira preferência para ser referida como "a 4". Daí que o seu primeiro logótipo foi um 4 que fazia lembrar a Cruz de Cristo das caravelas portuguesas. Algumas das vinhetas faziam mesmo lembrar velas de navios. O logótipo teve variantes de várias cores, mas a versão mais standard, que era aquela que aparecia no canto superior direito do ecrã, era com um 4 amarelo sobre um fundo vermelho.
Este grafismo foi concebido pela empresa de design britânica Lambie-Nairn. O seu líder, Martin Lambie-Nairn (1945-2020), foi o responsável pela criação, entre outros projetos, do icónico logótipo do Channel 4 britânico e de toda a remodelação visual da BBC em 1997. A sonoridade utilizada nestes separadores foi da autoria do conceituado compositor franco-libanês Gabriel Yared. (Não sei se foi composta propositadamente para o efeito ou se foi adaptada de outro trabalho dele.)
O genérico do bloco informativo "Informação 4" apostava num visual mais colorido.
A já referida telenovela "Telhados De Vidro" também viu o 4 a ser integrado no seu genérico de enceramento, para assinalar a co-produção entre a TVI e a Atlântida, a produtora de Tozé Martinho.
Nos seus primeiros sete meses de emissões, enquanto a RTP fechava as emissões com o hino nacional e a SIC com o seu próprio hino, a TVI optava por uma animação 3D de uma igreja, um frase inspiradora e uma versão suave ao piano da sua sonoridade. Mas depois de Setembro de 1993, passou apenas a utilizar uma versão ligeiramente mais prolongada da vinheta da vela com um 4 antes de passar para a mira técnica e a emissão nocturna da Rádio Renascença ou da RFM.
Já a partir de 1994, os separadores das velas foram paulatinamente substituídos por outros em animação 3D.
E esta foi a vinheta do seu primeiro aniversário:
Estes foram os separadores do Verão de 1994
Em Setembro desse ano, com a rentrée e uma nova grelha, um novo logótipo coexistiu com o do 4, que foi gradualmente remetido quase apenas como o DOG no canto superior direito. Inclusivamente esse novo logótipo foi utilizado nas vinhetas do Natal de 1994.
No dia do seu segundo aniversário em 1995, a TVI estreava um novo logótipo deixando definitivamente de lado o grafismo e a nomenclatura do 4. Esta era a primeira abertura da emissão dessa era.
Os separadores do Verão de 1995
Na rentrée de Setembro de 1995, foram introduzidos novos separadores de publicidade e de promoção sem qualquer uso do logótipo.
A rentrée de Setembro de 1996 proporcionou a estreia do terceiro logótipo, o da esfera prateada com um I, que pessoalmente é o meu preferido.
Com um e outro retoque este logótipo permaneceu durante quatro anos até ao dia 3 de Setembro de 2000 (quando estreou o primeiro Big Brother). Como tal, estes eram visuais vigentes durante aquele que terá sido o momento mais crucial da TVI, a sua aquisição pelo grupo Media Capital em 1998, que ditou o afastamento definitivo da Igreja Católica na sua influência.
Esta era a vinheta de abertura e fecho da emissão entre 1997 e 1999
Estes foram os separadores no Natal de 1998
Em 1999, os separadores incluíam imagens rápidas de vários programas emitidos pelo canal
Ainda antes da mudança para o novo logótipo entre 1999 e 2000, a TVI teve novos visuais para os seus separadores, alguns deles incluindo chamadas de elenco para programas de ficção como "Todo O Tempo Do Mundo", "Jardins Proibidos" e "Criança SOS".
Em homenagem à actriz Diane Keaton, falecida em Outubro passado e que faria este mês 80 anos, recordamos hoje um dos meus filmes preferidos que ela protagonizou, compartilhando o protagonismo com mais duas actrizes lendárias.
"O Clube Das Divorciadas" (1996), filme de comédia realizado por Hugh Wilson, baseado no romance homónimo de Olivia Goldstein, foi protagonizada por Keaton, Goldie Hawn e Bette Midler. Por acaso, foi o primeiro filme que eu fui ver ao cinema no ano de 1997.
Annie McDugan (Keaton), a narradora do filme, reencontra as suas amigas dos tempos da Universidade, Brenda Morelli (Midler) e Elise Eliot (Hawn), durante o funeral de uma quarta amiga, Cynthia (Stockard Channing), que se suicidou quando o seu marido a trocou por uma mulher mais nova.
Annie, Brenda e Elise descobrem que também elas estão numa situação semelhante à da amiga falecida: os seus ex-maridos, para quem elas contribuíram crucialmente para os seus sucessos profissionais, trocaram-nas por mulheres mais novas.
Quando Annie pensava que estava prestes a reatar com o seu marido Aaron* (Stephen Collins), dono de uma agência de publicidade e por quem ela abdicou da sua própria carreira, este choca-a ao pedir-lhe o divórcio e revelar que ele namora com Leslie Rosen (Marcia Gay Harden), a psicóloga que ambos consultavam.
Morty (Dan Hedaya), o ex-marido de Brenda, dono de uma cadeia de lojas de electrodomésticos, ludibriou-a com um acordo de divórcio que a deixou com muito menos do que tinha direito e agora namora com a arrogante arrivista Shelly (Sarah Jessica Parker).
Elise é uma actriz vencedora de um Óscar que vive inconformada com o declínio da sua carreira e o envelhecimento, sendo agora chamada para fazer papéis de velha. O seu ex-marido Bill (Victor Garber), cujo casamento com Elise ajudou a torná-lo um produtor prestigiado, está agora envolvido com Phoebe (Elizabeth Berkeley), uma jovem aspirante a actriz.
* Quando eu vi o filme no cinema, por algum motivo inexplicável, a legendagem aportuguesou o nome desta personagem para Aarão, sendo que não sucedeu o mesmo com mais nenhuma outra personagem!
Decididas a vingarem-se dos ex-maridos, mas sobretudo a que estes lhes deem a compensação merecida, as três amigas fundam o "Clube Das Divorciadas" e elaboram planos para conseguir os seus intentos. Para tal, contam com a ajuda de Gunilla (Maggie Smith), uma velha dama da alta-sociedade nova iorquina, e de Duarto Feliz (Bronson Pinchot), um excêntrico decorador para quem Brenda trabalha. Annie tem ainda o apoio da sua filha Chris (Jennifer Dundas) que trabalha na firma do pai e que desaprova a forma como ele tratou a mãe.
Através do seu tio Carmine (Philip Bosco), Brenda descobre que o negócio de Morty foi fundado devido às ligações da família dela à máfia que forneceu material roubado para a primeira loja e que Mort tem feito várias falcatruas. Enquanto isso, Elise vende a Annie por uma quantia simbólico todos os bens que conseguiu liquidar com o acordo do divórcio, para que a amiga consiga dinheiro para comprar as acções da firma de Aaron. Os bens vão a leilão onde, incitada por Gunilla e Duarto, Shelly esbanja o dinheiro de Morty.
Um impasse surge quando as três não conseguem encontrar nada de ilícito sobre Bill, o que leva a uma discussão entre elas que quase acaba com o clube. Porém, as três reconciliam-se pouco depois e ao aproximar-se de Phoebe, Elise descobre o segredo desta: Phoebe é menor de idade, tendo fugido de casa e mentido sobre a idade para seguir uma carreira artística!
Brenda consegue que Morty lhe dê o controlo do seu negócio, sob ameaça de denunciar as suas falcatruas à polícia. Annie compra as acções e, através de Brenda, consegue um contrato lucrativo que lhe dá a liderança da firma. Elise consegue o papel principal numa peça na Broadway enquanto Bill dispensa Phoebe ao saber da verdadeira idade dela.
Finalmente, Annie, Brenda e Elise propõem um acordo aos seus ex-maridos: para evitarem problemas com a Justiça, eles terão de financiar o projecto delas, um centro de apoio a mulheres em dificuldades maritais e financeiras. Sem outra saída, Morty, Aaron e Bill acedem.
Na inauguração do centro, Morty conclui que Shelly só estava com ele por dinheiro e reconcilia-se com Brenda, para alegria do filho de ambos. Já Annie rejeita o pedido de reconciliação de Aaron enquanto Elise namora com um actor da peça. No final da festa, dá-se a cena e a mais célebre do filme onde as três amigas cantam "You Don't Own Me".
O filme contou ainda com a participação do recentemente falecido Rob Reiner como o cirurgião que tenta em vão dissuadir Elise de fazer mais plásticas, de Timothy Olyphant (no seu primeiro papel no cinema) como um realizador que propõe a Elise um papel de mãe num filme e de Heather Locklear como a mulher por quem o ex-marido de Cynthia a trocou. Ivana Trump, a primeira mulher de vocês-sabem-quem, também faz um cameo como ela própria dizendo a tagline do filme: "Não fiquem zangadas, fiquem com tudo!". Jon Stewart filmou cenas como o novo interesse amoroso de Elise mas acabaram por não ser incluídas.
Com uma boa dose de humor e boas prestações do elenco, "O Clube das Divorciadas" foi um inesperado sucesso de bilheteira e tem tido um certo estatuto de culto. A banda sonora composta para Marc Shaiman foi nomeada para o Óscar e também incluía temas de Dionne Warwick, Eurythmics, Aretha Franklin e M People. Destaque ainda para o tema "Over And Over" da cantora Puff Johnson.
Keaton, Midler e Hawn demonstraram interesse em fazer uma sequela mas os planos para tal nunca se materializaram. Em 2019, o filme foi adaptado para uma série com a cantora Jill Scott que durou três temporadas. Também já houve duas adaptações para peça musical.
Mais algumas curiosidades:
- O Óscar que se vê no filme, alegadamente ganho pela personagem de Goldie Hawn, é precisamente aquele que a própria ganhou pelo filme "A Flor Do Cacto".
- As três atrizes protagonistas completaram cinquenta anos de idade durante a rodagem do filme. Das três, só Goldie Hawn tinha sido divorciada. Bette Midler é casada desde 1984 e Diane Keaton nunca casou.
- Diane Keaton e Jennifer Dundas voltaram a fazer de mãe e filha, tal como no filme "Mrs. Soffel - O Fogo Da Paixão".
- Apesar de ter um papel importante no filme e de já ser uma atriz bem conhecida, o nome de Sarah Jessica Parker não aparece nos créditos iniciais.
- Foi o último filme da actriz Eileen Heckart, no papel da mãe de Keaton.
-Durante a filmagem do número musical da cena final, Goldie Hawn sofreu tanto em executar a performance em saltos altos que na parte em que as três amigas saem para a rua, ela pode ser vista com outros sapatos.