terça-feira, 26 de outubro de 2021

Anúncio OMO "Rosalina, A Roupa Está Boa!" (1991)

 por Paulo Neto

Já há anos a fio que o OMO é uma das marcas de eleição em Portugal em detergentes em pó para a roupa. Produzido pela multinacional Unilever, a marca é na verdade um acrónimo de Old Mother Owl ("velha mãe coruja") inicialmente produzida em Inglaterra em 1908. Foram muitos os anúncios do OMO que passaram pela televisão nacional, geralmente sob o slogan "OMO lava mais branco!", mas para mim, o anúncio mais marcante, foi este de 1991 (embora este vídeo que serve de exemplo, cortesia do LusitaniaTV disponibilizado no Archive, seja do dia 3 de Janeiro de 1992). 


A narrativa do anúncio é bem simples: a dona de um restaurante algures no Portugal rural (eu arriscaria que no Alentejo) recebe um casal de clientes, fazendo as honras da casa e convidando-os a almoçar no exterior. Igualmente presentes estão o marido e a mãe da patroa e uma jovem empregada, de seu nome Rosalina, que é a heroína secreta do anúncio. E claro, a certa altura a conversa da patroa vai dar à brancura das toalhas, impecavelmente lavadas com OMO. 

Eis o discurso completo da patroa:
(para Rosalina): Acaba isto que acabam de chegar clientes. Traz toalhas de mesa!
(para os clientes): Bom dia, podem ficar cá para fora, está um dia lindo. As favas hoje estão uma maravilha. Estão branquinhas, não estão? Sou eu que as tiro e ponho no OMO. Ó Mãe, veja aí.
(para Rosalina): Depois estendes a outra roupa que lavei. 
(para os clientes): O Sol está para a roupa branca, fica mesmo como eu gosto. Bom proveito!
E no fim, não se a patroa ou a mãe dela exclamam: "Rosalina, a roupa está boa!"

Um anúncio solarengo e linear mas com vários momentos marcantes: o ladrar de um cão que se ouve ao início mas que nunca aparece na imagem, o marido da patroa (que é quem terá cozinhado as favas servidas aos clientes) a esfregar um facão no outro, a mãe da patroa encostada à ombreira da porta a verificar pelo olfacto se a roupa está bem lavada, a cliente sentada à mesa que acaricia a cara com um guardanapo, um momento de ternura entre a patroa e o marido, abraçando-o e compondo a gola da camisa branca dele (seguramente lavada com OMO). E sobretudo a jovem Rosalina que é presença constante ao longo do anúncio, primeiro a amassar um pão, depois a seguir as várias ordens da patroa às quais ela anui sem parecer muito incomodada com tanta ordem em tão pouco tempo e por fim, a sorrir por entre a brancura das roupas estendidas.

Já na altura, sempre que este anúncio passava na televisão, a minha atenção acabava sempre por ir para à Rosalina. E ainda hoje tenho a teoria que, apesar das hospitalidades da patroa e dos cozinhados do patrão, era Rosalina, executando diligente e silenciosamente as várias tarefas, a verdadeira razão da prosperidade daquele restaurante, percursor da chiqueza que o conceito de turismo rural viria a ter anos mais tarde. 

E escusado será dizer que enquanto este anúncio do OMO esteve no ar, as Rosalinas deste país tiveram que ouvir dezenas de vezes por dia o bordão: "Rosalina, a roupa está boa!". Como por exemplo, uma rapariga que andava na minha escola (na altura ela estava do 5.º ano e eu no 6.º), a qual eu me lembro que sempre que um engraçadinho lhe dizia "Rosalina, a roupa está boa!", ela respondia invariavelmente "Então vai apanhá-la!"

Bónus: um anúncio do OMO dos anos 60



quarta-feira, 6 de outubro de 2021

2.º Aniversário SIC (1994)

por Paulo Neto

Em dia de mais um aniversário da SIC, proponho recuar até a 6 de Outubro de 1994 para recordar um programa especial do segundo aniversário da SIC disponibilizado no YouTube pelo canal TV Antiga.

Ao longo do primeiro ano a SIC voou baixinho deixando que Portugal estranhasse e depois entranhasse novas formas de se fazer televisão, diferentes daquelas que o país conheceu ao longo de mais de trinta anos de monopólio da RTP. E como se tivesse captado nos portugueses esse desejo de mudança e novidade, o segundo ano de exibições foi de confronto directo com a RTP, estreando um conjunto de programas que viriam a tornar-se icónicos na história da televisão portuguesa. Embora a RTP ainda fosse a líder no geral, a SIC já dominava no horário nobre e seria uma questão de tempo até alcançar a liderança total.

Era portanto em clima de autocelebração que a SIC completava o seu segundo aniversário, com uma emissão que se estenderia pela noite fora e ao longo desse dia. Foi logo à meia-noite que os festejos iniciaram-se com o programa especial "Aniversário SIC" conduzido por Rodrigo Guedes de Carvalho, então ainda com apenas 30 anos.

Este programa era uma espécie de balanço do segundo ano da SIC com os momentos e as conquistas que marcaram o canal nos últimos doze meses. Rodrigo Guedes de Carvalho conduzia este programa caminhando pelos míticos estúdios de Carnaxide (que cheguei a visitar uma vez em 2004). 

Para começar, a cobertura das Eleições Autárquicas, o primeiro acto eleitoral nacional da existência da SIC, que tiveram lugar a 12 de Dezembro de 1993: vemos Júlia Pinheiro a perguntar Edite Estrela, que viria ser eleita para a Câmara de Sintra, se estava nervosa e Ricardo Costa a José Luís Judas, idem para Cascais, se o sindicalismo era mais fácil que estas eleições. Macário Correia, que concorria para a Câmara de Lisboa, garantia que tinha o melhor programa eleitoral; o Major Valentim Loureiro, eleito para Gondomar, afirmava que tinha ganho a muita gente, apesar do seu adversário dizer que o major iria perder fora de casa; Jorge Sampaio, reeleito para Lisboa, saudava a SIC enquanto um repórter enfrentava um banho de multidão para as declarações de Fernando Gomes, reeleito como edil do Porto.


 

Doze dias depois, na véspera de Natal desse ano, a transmissão na SIC do filme "Sozinho Em Casa" (ainda antes de se tornar recorrente na televisão nacional durante a quadra natalícia) teve uns impressionantes 67.1% de share. 

A 12 de Junho de 1994, novas eleições, desta vez para o Parlamento Europeu. Uma jornalista importunava o lendário Álvaro Cunhal, que estava descansado num café a comer uma tarte, para uma reacção deste às sondagens da SIC. Anabela Neves e Ricardo Costa inquiriam Jorge Coelho e outros jornalistas marcavam cerradamente Cavaco Silva e Eurico de Melo. Já António Guterres aproveitava o dia para anunciar a slogan do PS para as legislativas do ano seguinte, "A Nova Maioria" e quando Ricardo Costa questionou se devido à pequena margem de vitória nas Europeias se tinha sido o dia correcto para tal, Guterres replicava que tal como no futebol, no fim o que as pessoas se lembram é que foi o vencedor e não tanto do resultado ou se foi a penáltis. 


Por ocasião dos 20 anos do 25 de Abril, a SIC promoveu alguns debates onde se discutiram os efeitos a longo prazo da Guerra Colonial cujos demónios ainda pairavam sobre muitos portugueses e foi revelado que Marcelo Caetano preparava uma retirada das colónias antes da Revolução. Foi também exibido o programa "20 anos, 20 nomes" onde Miguel Sousa Tavares entrevistou vinte figuras que tinham marcado o país nos últimos vinte anos, como "o exilado que chegou a Presidente" (Mário Soares), "o economista que chegou a Primeiro-Ministro" (Cavaco Silva) e "o humorista que diz ter olho em terra de cegos" (Herman José). Também foi neste ano que estreou com grandes taxas de audiência o controverso "Casos De Polícia".

A informação da SIC também esteve atenta a vários acontecimentos internacionais como as tensões na África do Sul, antes e depois das primeiras eleições universais que elegeram Nelson Mandela, com Paulo Camacho a testemunhar um desses tumultos em Tokosa; quando a 1 de Maio Ayrton Senna perdeu a vida no Grande Prémio de São Marino, a SIC e a Globo fizeram um simultâneo de três horas na despedida ao às brasileiro do Fórmula 1; uma equipa liderada por Cândida Pinto fez da SIC a primeira televisão portuguesa no Polo Norte; a Irlanda continuava a braços com o conflito do IRA e uma esperança de paz nesse ano foi logo abalada; e mostraram-se as duas faces de Cuba, por um lado uma multidão dançando alegremente aos ritmos da salsa num concerto onde nem a chuva estraga a festa e por outro, o drama daqueles que se lançam em frágeis balsas e jangadas mar adentro em busca da ilusão de uma vida melhor.

O Verão quente de 1994 foi também o do Buzinão da Ponte, onde um protesto pelo aumento das portagens na Ponte 25 de Abril tomaram proporções violentas, tornando-se um dos maiores casos de desobediência civil em Portugal. 

Foi também nesse ano que a SIC obteve os direitos da cobertura da Volta A Portugal em Bicicleta (que transmitiria até 1997), que nesse ano seria vencida por Orlando Rodrigues. Claro que o velhinho tema da RTP da Volta À Portugal é mítico, mas o tema da SIC também ficou na memória: "Pedalar para vencer/ Para ganhar, outras vezes perder/ Percorrer este chão/ P'ra chegar a Saturno, Plutão!


E agora perdoem-me, mas vou ter de falar do "Perdoa-me", que tanta celeuma causou ao tentar reconciliar pessoas desavindas nos ecrãs da televisão mas que vingou nas audiências, chegando aos 56,8% de share. Tal foi o sucesso que até inspirou uma série da RTP que parodiava o programa, "Desculpem Qualquer Coisinha" (como diz o RGdC cheirando uma flores!).

Na frieza dos números, contra factos não há argumentos. E ao fim de dois anos, a SIC estreitava cada vez mais o fosso para a RTP em termos de share nacional (32,8% vs. 44,9%) e no chamado primetime, entre as 20 e as 23 horas a SIC já liderava (42,1% vs. 41.6% da RTP1 - com a TVI, ainda a uns bons anos da sua ascensão com 10,8%).

E sem dúvida que um dos maiores trunfos da SIC foram se dúvidas as telenovelas da Rede Globo (que detinha 15% do capital inicial da SIC) que transitaram da RTP para a SIC. Ainda em finais de 1993, exibiu "Renascer", mas foi com "Mulheres De Areia" que agarrou o público noveleiro. A telenovela em que Glória Pires celebremente desempenhou as gémeas Ruth e Raquel estreou em Portugal no dia 31 de Janeiro de 1994, o mesmo dia em que a SIC passou a abrir a emissão às 12 horas durante a semana e passou a exibir os noticiários no mesmo horário que a concorrência (até então por exemplo o "Jornal Da Noite" dava às 20:45). E o sonho seu de conquistar o horário do final da tarde concretizou-se com a telenovela "Sonho Meu", onde a história da pequena Maria Carolina comoveu os portugueses. 

Mas nem só do Brasil choviam estrelas na SIC. O "Chuva De Estrelas" rapidamente tornou-se uma das joias da coroa da estação e não poderia ter havido maior estrela para vencer a primeira edição do que Sara Tavares, que quando deu por si estava a chamar a música em Dublin na Eurovisão. E claro está, a maior estrela a chover na galáxia SIC foi Catarina Furtado, que não cantava mas encantava Portugal. Um autêntico dilúvio nas audiências que chegaram aos 60,8% de share.
A chuva continuou mais miudinha mas igualmente bem-sucedida com o "Mini Chuva De Estrelas", onde "todos juntos, todos juntos" os petizes portugueses imitavam em playback as estrelas maiores sob apresentação de Margarida Reis. 

Mas voltando a Catarina Furtado, ela não só encantava o país como voava pelos céus de Portugal num "Caça Ao Tesouro", outro programa do panteão da SIC. Sem desprimor para Henrique Mendes e Rita Blanco, que a par dos concorrentes, ajudavam-na (embora Blanco por vezes desajudava) a encontrar as várias moedas e o tesouro final.  

Também marcante foi o "Ora Bolas, Marina". Ainda antes dos "Malucos do Riso", Marina Mota, Carlos Cunha e companhia recriavam várias anedotas, como esta do casal recém-casado em que o noivo exibe orgulhosamente a sua dinamite muscular mas a noiva está mais preocupada com a falta de rastilho… Mas o programa também recriou alguns quadros do teatro de revista, bem como trouxe os sketches dos terríveis Bitucha e Cunhinha e as canções dos roqueiros Us-Batná-Vó. 



Ainda faltavam mais de vinte anos para a SIC casar pessoas à primeira vista, mas já então houve casais portugueses que, já se conhecendo há bem mais tempo, tiveram o seu casamento transmitido no pequeno ecrã. Foram "Cenas De Um Casamento" que Portugal viu. (E muito que Guilherme Leite deve ter aproveitado os copos de água!) 

Semanas antes, já com a grelha da rentrée 1994/95 em curso, o "All You Need Is Love" foi uma das maiores apostas da SIC. Camões pode ter dito que o amor é fogo que arde sem se ver, mas nas quartas-feiras de então, esse amor podia ser um pouco mais visível, com Lídia Franco na condução do programa. 

Ainda no ano 2 da SIC, duas formas diferentes de entrevistar: em vez de ali ao lado, "O Pecado Mora Aqui" com Paula Moura Pinheiro (então casada com RGdC) numa conversa sobre os pecados capitais com aqueles que os cometeram; e depois houve as figuras públicas que não recusaram o convite para estar "Na Cama Com" Alexandra Lencastre e levantarem um pouco do lençol da vida privada. 

Os programas de moda também eram então um marco da SIC, como foi o caso da "Moda Roma" onde modelos internacionais (incluindo a rainha Claudia Schiffer) desciam a grande escadaria da Piazza De Spagna da capital italiana envergando as criações do grandes criadores italianos. E nem só de cores se fez o segundo ano da SIC, uma vez que promoveu um ciclo de cinema dedicado a Charlie Chaplin onde foram exibidas todas as grandes metragens que protagonizou e realizou. 

Outros filmes e séries internacionais passaram nesse ano pela SIC, com destaque para a badalada "Balada De Nova Iorque". A série policial, protagonizada por Dennis Franz e David Caruso, estreada em Setembro de 1993 nos EUA, e na SIC meses depois, colecionava louvores e prémios.


Para terminar, a vinheta dos 2 anos de SIC onde os nomes de vários programas desfilavam numa esfera. 

Por estes dias, a SIC também exibia o segmento "A SIC Mudou A Minha Vida" com depoimentos de alguns daqueles que passaram pelos programas da estação. Como foi o caso de Cristiana e Miguel, um dos casais de "Cenas De Um Casamento", que revelaram que a romântica cena que filmaram na praia foi feita num dia de pouco sol e que a madrinha de Cristiana que vivia em França e de quem perdera o contacto há quinze anos, viu o programa deles quando veio a Portugal e conseguiu através da SIC voltar a falar com a afilhada.

Para terminar e porque ainda estávamos a um ano e meio de se consolidarem no "Contra-Informação" da RTP, temos alguns pequenos sketches com bonecos políticos e não só, que marcaram presença nos programas "Jornalouco" e "Cara Chapada". Como se pode ver, pela madrugada dessa noite foram exibidos vários filmes (como "Let's Make Love" com Marilyn Monroe) e um concerto de Luciano Pavarotti em Modena. Para a noite, o ponto alto seria o especial "As Nossas Estrelas" com as caras da SIC também a querem cantar ou encantar no palco do "Chuva De Estrelas". 

Programação da SIC do dia 6 de Outubro de 1994
Fonte: "A Comarca De Arganil"



terça-feira, 28 de setembro de 2021

Babylon 5 (1994-98)

"Babylon 5". Esta série de culto estreou nos States a 26 de Janeiro de 1994, cerca de um ano depois do tele-filme que funcionou como episódio piloto: “Babylon 5: the Gathering”. 
 

Assisti apenas a episódios esporadicamente quando foi exibida nos ecrãs portugueses, na altura eu andava mais numa onda dos mais mainstream Star Wars e Star Trek. No entanto, depois de no final dos anos 90 ler vários artigos em revistas de ficção cientifica sobre a obra e esta específica criação de J. Michael Straczynski, fiquei com a vontade de ver todas as 5 temporadas de inicio. E talvez os 6 telefilmes. Mas até ao momento ainda não concretizei essa vontade, tenho outras sagas espaciais mais antigas para ver antes, como o "Espaço: 1999".
Os genéricos de abertura de "Babylon 5":

 
O título da série indica a importância de "Babylon 5" na história dos episódios que se desenrolam a bordo desta a estação espacial com 8km entre os anos 2257 e 2262, com todas as implicações sociais, diplomáticas e políticas que esses conflitos significam, para os civis, militares, comerciantes e outros visitantes. 
O IMDB indica duas datas para a chegada de "Babylon 5" aos ecrãs portugueses: 26 de Fevereiro e 5 de Março de 1996, provavelmente primeiro o filme-episódio-piloto e depois a série propriamente dita. Se bem me lembro, devo ter alguns episódios gravados da passagem na TVI. Mais tarde passou para a SIC Radical. No entanto, sobre essas datas adiantadas pelo IMDB, só posso acrescentar que consegui comprovar que já em 12 de Janeiro de 1996 (uma sexta-feira) estava a ser exibida na TVI no horário das 20:30, neste caso concreto o 21º Episódio da Primeira Temporada de "Babylon 5": "The Quality of Mercy":
 

Portanto, a não ser que os episódios fossem emitidos fora de ordem, a primeira temporada terá começado a ser exibida na TVI ainda em 1995. Se se confirmar o que li há tempos em fóruns, a TVI terá exibido parcialmente a temporada 2, que depois de uma campanha de fãs, fez nada. Na sequência dessa campanha os episódios foram adquiridos pela SIC Radical.
Como disse, vi alguns episódios de várias temporadas (mais do que do Star Trek DS9), impressionava os efeitos especiais, a banda sonora, o elenco e a sensação que estávamos a ver algo mais profundo que o habitual soap-opera com explosões e tiroteios, e com arcos narrativos que se expandem ao longo das temporadas. E recordo-me melhor da Comandante Ivanova, porque...motivos.
 
A série terminou em  25 de Novembro de 1998, ao fim de 110 episódios (distribuídos em 5 temporadas) e 6 telefilmes [entre 1998 e 2002] e 2 episódios curtos directos para vídeo em 2007. Em 1999 estreou um spinoff no mesmo universo, "Crusade", com apenas 13 episódios.
No ano 2021 foi anunciado que o criador J.M.S. estava a trabalhar num reboot para uma nova série de "Babylon 5".
 
 
Cromo original no Tumblr: Babylon 5 [1994-98].

terça-feira, 21 de setembro de 2021

Ulisses 31 (1981-82)


"Ulisses 31", a verdadeira Odisseia no Espaço. "Ulysse 31" e "宇宙伝説ユリシーズ31", nos originais francês e japonês, respectivamente.

Este é dos posts que levou mais tempo em hibernação na secção de "Rascunhos", praticamente desde a criação da Enciclopédia. Esta série de animação foi, a par com outras como "As Misteriosas Cidades de Ouro", uma das principais influências para o meu fascínio com literatura, filmes, séries, etc, de temática ficção cientifica, mitológica e fantástica, géneros muito ricos mas muito desprezados pela patética "elite" cultural, mais um exemplo da velha máxima que acumulação de conhecimento não é sinónimo de sabedoria. "Ulisses 31" bebe abundantemente da antiga mitologia grega e transpõe a odisseia de Ulisses (Odisseu) para o espaço, para o século XXXI. Temos reinterpretações futuristas de mitos que conhecemos dos livros, ou de  filmes clássicos, como os Ciclopes, o labirinto do Minotauro, a feiticeira Circe, etc.

Ao regressar da base espacial Tróia a bordo da nave Odisseia, Ulisses salva o filho Telémaco do terrorífico Ciclope e do seu culto. Como castigo pela destruição da criatura do deus Poseidon, Zeus - o líder dos deuses do Olimpo - "congela" a tripulação da nave e apaga a rota para o planeta Terra da memória do computador Shirka. A única hipótese de regressar a casa é encontrar o Reino de Hades e durante a perigosa viagem pelo universo, Ulisses e os seus companheiros vão ter que lidar com diversas figuras mitológicas, reinterpretadas para o século XXXI. Nas versões que tenho lido e assistido de material baseado na Odisseia de Homero, Telémaco permanecia em casa a desesperar pelo regresso de Ulisses junto com a mãe Penélope. Mas nesta versão futurista, Telémaco acompanha o pai na árdua viagem para regressar à Terra. Com a tripulação em animação suspensa (literalmente) pai e filho são acompanhados nestas aventuras por  Thémis (Yumi na versão japonesa, uma gentil criança azul do planeta Zoltra, com poderes telepáticos e telequinéticos) e Nono, o pequeno robot vermelho - que come parafusos e oferece comic relief - oferecido a Telémaco no seu aniversário. 
 
Esta co-produção japonesa e francesa durou 26 episódios, materializados pelas produtoras DIC (As Misteriosas Cidades de Ouro, M.A.S.K., Ursinhos Carinhosos, etc) e TMS Entertainment (Akira, Batman TAS, Duck Tales, etc). Foi concebida por Nina Wolmark ("Shagma e os Mundos Misteriosos") e Jean Chalopin (Inspector Gadget, Pole Position, Conan The Adventurer, etc).
Recentemente surgiu online o episódio piloto - em japonês sem legendas - produzido em 1980, com um estilo mais tradicional ao anime da época. É um interessante vislumbre do que podia ter sido, antes de imensas mudanças visuais, principalmente, para o produto final que conhecemos. 
O episódio piloto japonês de "Ulisses 31" (1980):

 
Depois da transformação na série final, a emissão original foi no canal francês FR3 entre 10 de Outubro de 1981 e 3 de Abril de 1982. No Japão só começaram a passar os episódios em finais de 1985, já bem depois da estreia em Portugal, em 6 de Outubro de 1984. Pelo menos foi a data mais afastada que consegui confirmar. Para mim, o momento alto do dia, logo aos Sábados de manhã! Se ma estreia a 6 de Outubro de 1984 na RTP surgia integrado no espaço referido nas lista de programações apenas como "Infantil", a partir de 19 de Janeiro de 1985 até 20 de Abril de 1985 "Ulisses 31" aparece como parte do mítico espaço "Tempo dos Mais Novos", na companhia de "Aventuras de Marco Polo", "Sempre Em Forma", Jornalinho".
Na vizinha Espanha as aventuras de "Ulises 31" aterraram exactamente 1 ano depois da França, em 10 de Outubro de 1982. Em terra de nuestros hermanos até chegou a ser lançado em formato de vídeo Betamax.
A capa do Número 1, cassete Betamax "Video España" com 3 episódios:

E falando em Beta, podem ver no Youtube alguns dos episódios gravados de forma caseira nesse formato, no precioso Canal Tugatomsk (LINK).

Narrador: No século XXXI.
Como Ulisses tinha destruído o Cíclope
para salvar Telémaco, Themis e Numaios,
os deuses do Olimpo imaginaram esta terrível vingança.
Zeus: Quem ousar desafiar o poder de Zeus será punido!
Vaguearás por um mundo desconhecido.
Até ao reino de Hades, os vossos corpos ficarão inertes.
Shirka: Ulisses, o caminho da Terra apagou-se-me da memória.
Telémaco: Papá, papá!
Ulisses: Vivos! Estão vivos!



Em Portugal foi emitida a versão francesa, com legendas em português. Curiosamente, o genérico foi dobrado, tal como se pode ouvir no disco da banda sonora em vinil. O site "Máquina do Tempo" reproduz a teoria - ou boato - que um acidente técnico terá destruído a dobragem portuguesa de "Ulisses 31" e que apenas o genérico pode ser aproveitado. Foi a primeira vez que me recordo de ouvir falar disto, mas tem lógica, e pode explicar o genérico ser dobrado mas não os episódios. 
O genérico inicial que vimos em Portugal:
 
O primeiro genérico francês:

O genérico japonês:
 
Além do tema rockeiro, a banda sonora da série era uma mistura de música electrónica, que aconselho vivamente a audição. E falando na banda sonora, deu direito a um processo em tribunal por semelhanças de uma faixa de o "Império Contra-Ataca", a continuação de "A Guerra das Estrelas". E continuando com os pontos em comum com a Saga de "A Guerra das Estrelas", a arma preferida de Ulisses é uma "espada/pistola lazer", um misto dos lightsabers com uma pistola laser. E décadas depois, o universo Star Wars pegou "emprestada" a arma de Ulisses para armar o protagonista Ezra da série "Star Wars: Rebels"...
 
 

Entre o imenso merchandising produzido além-fronteiras, alguns dos que chegaram ao nosso pais incluíam banda desenhada, na forma de uma colecção de livros recortados da Disvenda (foto acima), e as bandas desenhadas da APR (Agência Português de Revistas)
 


Foram também lançados 4 livros pela Editorial Notícias: "O Planeta Perdido", "A Traição de Heratos", "A Revolta dos Companheiros" e "O Prisma Sagrado" que novelizavam alguns episódios:
 
 
Obviamente, a Disvenda também vendeu uma caderneta de cromos. 
E, naturalmente, não poderiam faltar as míticas figuras em PVC da Maia & Borges que retratam o quarteto protagonista. 
Ainda me falta o Nono. O que podem ver na foto é uma figura francesa.
Na França e Japão naturalmente foram vendidas muito mais figuras, que actualmente custam centenas de euros, mesmo em estado lastimoso e incompletas. Na França até foram lançados mais discos, dois deles dedicados ao robot Nono. 


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Morangos Com Açúcar - 3.ª temporada (2005-06)

 por Paulo Neto

Já falei aqui sobre as duas primeiras temporadas de "Morangos Com Açúcar" e não tinha intenção de abordar outra, mas acabei por concluir que seria interessante falar dela primeiro porque nela participaram alguns jovens talentos que viriam a fazer carreira assinalável na representação, em especial na teledramaturgia nacional, e depois porque foi marcada por dois acontecimentos: um que extrapolou da novela para a vida real e uma tragédia da vida real que mudaria o rumo da novela.



Finda a parte de Verão da segunda temporada, a terceira temporada de "Morangos Com Açúcar", subtitulada "Geração Rebelde" estreou a 20 de Setembro de 2005 e prolongou até 16 de Junho de 2006, onde deu lugar à já habitual parte de Férias de Verão. Como era hábito algumas personagens da temporada anterior transitaram para esta temporada como foi o caso de Marta Navarro (Ana Guiomar) e Tojó Rochinha (Diogo Valsassina), Valter "Crómio" Matoso (Tiago Castro), e, nos primeiros episódios, Maria Vicente (Dânia Neto) bem como personagens introduzidas na parte das Férias de Verão, como Alice Esteves (Inês Castel-Branco), Fred Oliveira (Paulo Rocha), Dino (Francisco Adam) e Teresinha (Mariana Pacheco). Vítor Fonseca e Paulo Vintém dos D'ZRT também recuperaram os seus papéis de Zé Milho e Topê.

Esta série tinha ainda a particularidade de ter a acção dividida entre duas escolas, o Colégio da Barra das temporadas anteriores e o Colégio dos Navegantes, uma escola pública.   

Tiago e Matilde

O par principal desta temporada é composto por Matilde Gouveia (Joana Duarte) e Tiago Borges (Luís Lourenço): os dois conhecem-se durante umas férias em Cuba, quando ela o salva de um acidente de mergulho, e ficam logo fascinados, mas depois desse fugaz encontro, não se voltam a ver. Até que de regresso a Portugal, Matilde descobre que não só Tiago, que julgava ser estrangeiro, é português como começou a namorar com a sua irmã Bia (Mariana Monteiro), que vai causar muito atrito entre as duas. Bia e Matilde têm um irmão mais novo, Manuel (Tiago Felizardo), um jovem rebelde e indisciplinado. Os três ressentem-se da falta de atenção dos seus pais, Helena (Isabel Medina) e Luís (Rui Madeira), sempre mais dedicados à carreira do que aos filhos. Só depois do divórcio é que Helena decide dedicar-se mais a estabelecer uma relação com os filhos, ao mesmo tempo que Jorge (Rui Luís Brás), contratado como homem-a-dias, a faz despertar de novo para o amor.

Fila de cima: Becas, Tomé, Kiko, Susana, Mimi, Tojó, Michael, Dino, Marta, Catarina
Fila de baixo: Afonso, Bia, Matilde, Salomé, Cristiano, Crómio, Daniela


Tiago é filho de Julieta (Sónia Brazão), professora de Inglês no Colégio da Barra, casada em segundas núpcias com Sebastião Rodrigues (Jorge Silva), professor de Matemática nos Navegantes. Com eles vivem Francisco "Kiko" (João André), irmão de Tiago, Catarina (Filipa Oliveira), filha do casamento anterior de Sebastião e Gil (Salvador Vargas), o filho em comum de Julieta e Sebastião. 

O Colégio da Barra foi comprado por uma cooperativa de professores e agora a directora é Maria José Campos (Ana Zanatti), que tem dois filhos: Afonso (Francisco Corte-Real), o melhor amigo de Tiago e colega nas provas de downhill rancing, e Rebeca "Becas" (Sara Prata), uma jovem aguerrida que partilha os interesses de Manel e Kiko pelo graffiti e por causar sarilhos… Maria José também tem a guarda do seu sobrinho Tomé (Fernando Fernandes), um rapaz com talento para cantar mas com medo do palco. 

Tal como no passado, o Colégio da Barra tem um programa de bolsas para que alunos mais desfavorecidos, e uns desses bolseiros são Salomé Lisboa (Ciomara Morais), uma jovem cabo-verdiana, e Michael Sousa (Francisco Froes), vindo da África do Sul e que tem o desejo secreto de se tornar padre. Salomé e Michael ficam instalados em casa de Alice e Fred que agora são um casal. Dino, o irmão de Alice, continua armado em engatatão e protagoniza várias situações cómicas, para as quais costuma arrastar Tojó e Crómio. Mas a chegada de Susana Lopes (Diana Chaves), uma amiga de Fred que decide pôr um pausa na carreira como surfista para acabar o ensino secundário, vai fazer o seu coração bater mais forte… Outro jovem beneficiado pela bolsa é Cristiano Jesus (Miguel Bogalho), um jovem pobre e semi-indigente, que se apaixona por Bia. 

As Popstars Mónica, Mimi e Daniela

Mas é também no Colégio da Barra, que andam as terríveis Popstars (inspiradas nas Plastics do filme "Mean Girls"). Lideradas pela arrogante Mónica Teixeira (Helena Costa), elas divertem-se a fazer bullying com os mais frágeis, como a insegura Catarina. Acompanhando Mónica estão a desmiolada Maria Micaela "Mimi" Silva (Jéssica Athayde) e Daniela Xavier (Marta Faial). Daniela, que vive com a tia Vera (Paula Neves), uma professora de música amiga de Matilde, esconde um segredo: foi criada numa comunidade hippie, algo de que se envergonha. Tal como fica envergonhada quando Crómio se interessa por ela. Mónica namora com Nelson Pereira (João Cajuda, creditado como João Pedro Sousa), um rapaz presunçoso, rival de Tiago e Afonso no downhill e ex-namorado de Matilde, de quem ainda tenta arrastar a asa, embora convença Mónica de que é Matilde quem se mete com ele. 

Becas e Manel


Do corpo docente do Colégio da Barra, fazem parte Wei Min (Sofia Grilo), Durval Madureira (Luís Gaspar) e Diogo Castro (Ruben Gomes), que namora com Vera. Há ainda Carla Mergulhão (Oceana Basílio), a empregada do bar da escola, sempre metida em esquemas de dinheiro fácil.  

Rita e Sílvia


Dora / Pedro


A meio da temporada surgem novos alunos como Lourenço (Tiago Carreira), um rapaz meio desajeitado que se torna amigo de Tojó e Crómio, e as gémeas Rita e Sílvia Cruzeiro (Margarida e Mariana Martinho) que gostam de pregar partidas aos rapazes, Cláudia (Inês Simões), com quem Tiago vai namorar num período em que este e Matilde estão separados, e Dora (Cláudia Chéu), filha do novo professor de Matemática, Álvaro Paes (António Cordeiro), que devido a um segredo do passado, tem de se fazer passar por um rapaz mudo chamado Pedro. É também introduzida a banda 4Taste composta por Ed (Luke D'Eça), Link (Nelson Patrão), Sérgio (David Gama) e Jota (Francisco Borges). 

Os 4 Taste: Ed, Sérgio, Link e Jota


Poster da temporada de Verão da 3.ª série

Como já referi, esta temporada de "Morangos Com Açúcar" foi marcada por dois acontecimentos:

- A certa altura, houve um arco narrativo em que Vânia Campos (Carla Bolito), prima de Becas e Afonso, uma cientista está a fazer pesquisas no laboratório do Colégio da Barra e de repente deixa escapar um vírus perigoso que atinge vários alunos da escola, fazendo-os adoecer de forma misteriosa, até que Vânia e Crómio conseguirem criar um antídoto. Esta seria apenas uma história rocambolesca como tantas outras da teledramaturgia mas na altura em que os respectivos episódios foram exibidos, cerca de 300 jovens de catorze escolas um pouco por todo o país deram entradas em hospitais queixando-se de sintomas semelhantes aos que as personagens afectadas pelo vírus na telenovela apresentavam, lançando o pânico em algumas zonas e até o encerramento de algumas escolas. Contudo, veio-se a apurar que quase todos os casos eram psicossomáticos. Este incidente que viria a ser chamado de o "Vírus do Morangos" acabaria porém por ser estudado pela comunidade médica em todo o mundo como um dos mais mediáticos casos de histeria colectiva. 



Francisco Adam (1983-2006)

- No dia 16 de Abril de 2006, o actor Francisco Adam perdeu a vida aos 22 anos num acidente de viação. O carro seguia para Santa Cruz em Torres Vedras com três pessoas lá dentro até que um despiste vitimou imediatamente Adam. Um outro ocupante veio a falecer doze dias mais tarde enquanto o terceiro sobreviveu apenas com ferimentos ligeiros. A autópsia ao actor revelou a presença no organismo de cocaína e álcool. 
A notícia da morte prematura de Francisco Adam chocou o país, em especial a comunidade de fãs da série para quem a sua personagem, Bernardino "Dino" Esteves, era uma das mais populares desde a sua aparição na temporada de Verão da 2.ª série. Na altura, a sua personagem formava um par romântico com a de Diana Chaves (que aqui se estreava como actriz depois de ter participado no reality show "Primeira Companhia"), onde os dois revelavam grande química. (Consta que estava na calha Dino e Susana serem o principal par romântico da temporada de Verão desta 3.ª série, e após a morte do actor, foi a personagem Afonso quem se tornou o novo interesse amoroso de Susana.) Na telenovela, em vez de matarem a personagem, optou-se por dar a Dino uma despedida mais simbólica subindo aos céus num balão. 





Reencontro do elenco MCA3 em 2018


Mais umas notas:
- Foi nesta temporada dos Morangos que se revelaram nomes que fariam carreira na teledramturgia nacional como Mariana Monteiro, Diana Chaves, Jéssica Athaíde, Sara Prata e Oceana Basílio. Na parte de Verão (e transitando para quarta temporada lectiva), surgiu ainda Victoria Guerra, que tem dado cartas na televisão e no cinema. Em 2019, em parceria com Carlos Coutinho Vilhena, João André destacou-se na série do YouTube "O Resto Da Tua Vida".  
- Durante o Natal, houve uma storyline em que as personagens encontram Ana Maria (Lura) uma jovem mulher grávida que vive na rua e tentam ajudá-la com o apoio de Nicolau (Raúl Solnado), um simpático mas misterioso velhote. Nicolau ajudará Ana Maria a dar à luz na noite de Natal, mesmo a tempo de José, o marido dela ausente do país, reencontrar a mulher. 
- Na senda dos D'ZRT, mas num estilo mais rock, os 4Taste também atingiram grande sucesso no público, com temas como "Sempre Que Te Vejo", "Só Tu Podes Alcançar" e "Diz-me Que Sim". O seus dois álbuns foram disco de platina e actuaram no Rock In Rio.
- Também Fernando Fernandes conheceu grande sucesso na música sob o nome FF. O álbum que editou durante a emissão foi disco de platina. (Lembram-se de "O Meu Verão Não Acabou"?). E desde então que FF tem mostrado o seu talento na música, no teatro e na televisão.

Capa do CD da banda sonora

- Da banda sonora desta temporada recordo temas como "Brilhantes Diamantes" de Serial, "Hi Hello (My Name Is Joe)" dos Squeeze Theeze Pleeze, "I Really Am Such A Fool" dos EZ Special e na parte de Verão, "Love Show" de Skye. 

- Entretanto, descobri que o blogue que a Matilde escrevia na telenovela existia de facto na internet e ainda hoje pode ser lido: https://moranguitatvi.blogspot.com/


sábado, 18 de setembro de 2021

Teatro Infantil (1987)

Nunca fui grande apreciador de teatro, prefiro há muito o cinema, mas provavelmente assistia a estas peças de teatro destinado aos mais pequenos nos anos 80. Só tínhamos dois canais e a escolha era...limitada. Foram estas as peças emitidas em 1987, algumas por si só, outras em outros espaços infantis:

  • "O Palhaço Pobre e o Viajante do País de Sonho" de Ana Paula Portugal (1 Janeiro 1987).
  • "O Relógio Mágico" de Fernando Paços (1 Janeiro 1987).
  • "O Chapéu Mágico" de Carlos Correia* (31 Janeiro 1987).
  • "O Casamento do Robot" de Carlos Correia* (11 e 12 Fevereiro 1987).
  • "Olhar, Rir e Cantar" de Teresa Ricou (Teté) (18 Fevereiro 1987).
  • "N'Ovo de N'Ovo" de Cristina Magda, Elsa Galvão, João Martins, José Galvão, Tereza Ricou e Jorge Humberto (19 Fevereiro 1987).
  • "Sete Histórias de Primeiros Amores" tradução de M.G. Oliveira (19 Abril).
  • "Babine, O Parvo"** de Francisco Brás (12 e 18 Dezembro 1987).
  • "O Palhaço Pobre e o Viajante do País de Sonho" de Ana Paula Portugal (25 Dezembro 1987). 

Estas  11 emissões (em 1987) fazem parte do total de 28 classificadas como "teatro infantil". As restantes 17 estão separadas em rubricas que vão ter o seu próprio artigo: os "Contos Mágicos" e "Fui de visita à minha tia a Marrocos".

Fonte: Anuário RTP 1987. 


Vídeos no Youtube com  "O Palhaço Pobre e o Viajante do País de Sonho": PARTE 1 e PARTE2.

Algumas dessas peças na programação TV da época:

"O Relógio Mágico" na tarde do dia de Ano Novo de 1987:


No dia 11 de Fevereiro, "O Casamento do Robot" como parte do "Brinca Brincando":

Dias 18 e 19 de Fevereiro: "Teté - Olhar, Rir e Cantar", e "Teté - Novo de Novo".


Fonte: Diário de Lisboa.

* Carlos Correia - Link para teatro televisivo do autor: AQUI. Lembro-me tão bem do "A Revolta dos Micróbios" que também terá artigo próprio.

 ** Adaptado da peça homónima de Tolstoi.

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Os Amigos Do Tejo (1987)

 por Paulo Neto

Já algum tempo tinha a expectativa que o portal de arquivos da RTP disponibilizasse esta série e não era para menos: um dos episódios tinha sido filmado numa aldeia do meu concelho natal. Lembro-me de por acaso apanhar esse episódio durante a reposição da série na RTP Memória precisamente no plano em que aparecia uma tabuleta a indicar o nome da aldeia, Lapas, e fiquei surpreendido porque não me lembrava da série quando foi originalmente exibida e ainda por cima com filmagens numa aldeia que eu visitava frequentemente pois é lá que morava (e ainda mora) a madrinha do meu irmão. No Portugal dos anos 80, um programa de televisão a filmar num concelho tão singelo como o de Torres Novas devia ter sido um acontecimento! 



Mas vamos por partes: "Os Amigos Do Tejo" foi uma série de quinze episódios, exibidos na RTP1 entre 11 de Abril e 18 de Julho de 1987 aos sábados de manhã, e seguia um grupo de jovens mais um cão que desciam o rio Tejo da fronteira com Espanha até Lisboa e visitavam as localidades por onde passavam. Mas ao contrário do programa "Conheces A Tua Terra", exibido no ano anterior e com uma premissa semelhante, em "Os Amigos Do Tejo" havia uma narrativa ficcionada a fazer lembrar as histórias de Enid Blyton ou da saga "Uma Aventura", com uma trama policial. A autoria e realização eram de Carlos Diogo

Desafiado pela sua amiga espanhola Carmen que pretende fazer uma empreitada semelhante na parte espanhola do curso do Tejo, João (João Vaz Ribeiro) escreve um relatório sobre a descida do Tejo que fez de canoa no Verão anterior com os seus amigos Miguel (Rui Renda da Costa), Susana (Patrícia Costa Alves), António (Miguel Costa Alves) e Inês (Joana Roque Lino), assim como a sua irmã Rita (Nádia Sousa Lopes) e o seu cão Tejo (Dick). É portanto pela voz e pelo olhar observador de João que nós somos guiados ao longo da série. Miguel é o culto do grupo, com grande conhecimento da História de Portugal; Susana é uma ecologista que recolhe amostras das águas do Tejo ao longo da viagem; António, irmão de Susana, é o tipo cool, que gosta de dormir e ouvir música (anda sempre com uma T-shirt dos U2); e Inês, irmã de Miguel, parece ser uma rapariga mais dada a vaidades do que aventuras na natureza mas acabará por mostrar o seu valor (e de permeio, deixa-se antever que João tem um fraquinho por ela). Chateada porque o irmão não a quis levar por ser muito pequena, Rita decide ir na viagem clandestinamente escondida numa das canoas com o Tejo


O grupo parte de comboio de Lisboa até Castelo Branco para iniciar a sua expedição no Rosmaninhal, e na estação descobrem Rita e o Tejo. João pensa em levá-la de volta a Lisboa mas António convence-o a deixar a irmã ir com eles pelo menos até Vila Velha do Ródão. O grupo acampa na foz do rio Erges, junto à fronteira, e quando dois homens tentam assaltar o acampamento, Rita e Tejo afugentam-nos, ganhando direito a fazerem a viagem com os mais velhos. 

Nos primeiros oito episódios, o grupo vai descendo o rio Tejo, encontrando ao longo das diversas passagens vários delegados da Juventejo, uma associação juvenil que promove a vigilância do rio. Passam por Vila Velha do Ródão, Amieira do Tejo, Belver, Abrantes, Tramagal, Constância, Praia do Ribatejo, Almourol, Tancos, Vila Nova da Barquinha, Quinta da Cardiga, Golegã e Chamusca. Sem saberem, os bandidos que os assaltaram seguem no seu encalço, roubando ou tentando roubar vários artefactos pelo caminho, mas só o Tejo os consegue pressentir. Em Belver, eles tentam envenenar o cão, o que causa alguma tensão entre os nossos heróis. Também ao longo do caminho vão testemunhando as diversas fontes de poluição que ameaçam o rio Tejo, das indústrias à cultura intensiva de eucaliptos. 
Na Praia do Ribatejo, Rita conhece um rapaz, Gonçalo (Rui Manuel Vidor), a quem lhe conta que foi raptada pelos outros. Acreditando nela, Gonçalo monta uma emboscada com os amigos na ilha do Castelo de Almourol para resgatar Rita dos seus "raptores", até que a petiza se vê obrigada a confessar a verdade. Mesmo assim, Gonçalo continua a segui-los até que é capturado pelos bandidos. 

E eis-nos chegados ao nono episódio passado nas Lapas, concelho de Torres Novas. Ao saberem do desaparecimento de Gonçalo, o grupo decide procurá-lo. António encontra-o amarrado no carro do chefe da quadrilha e acaba por se esconder com ele no porta-bagagens, enquanto o bandido conduz o carro até às Lapas. Aí chegados, António sai para avisar a polícia mas quando chegam, Gonçalo foi levado para as grutas. No entanto, chegam a tempo de salvar o rapaz e de apanhar os bandidos, vindo-se a descobrir que eles usavam as várias galerias e catacumbas da aldeia das Lapas para transportarem as mercadorias roubadas sem dar nas vistas. Na sua narração, João alerta para a extrema poluição dos rios Almonda e Alviela, afluentes ao Tejo. De regresso à Chamusca, o grupo é recebido por uma equipa de televisão e Rita quer logo dominar as atenções, declarando-se a principal responsável pela captura da quadrilha. 

Os restantes episódios percorrem Santarém, Almeirim, Muge, Escaroupim, Salvaterra de Magos, Azambuja, Vila Franca de Xira, Alhandra, Alcochete, Seixal e Almada. Após mais uma diabrura, Rita é levada de volta para Lisboa, mas inconformada, resolve fugir de casa e convencer o seu amigo Pedro (Carlos Miguel Chende Dias), exímio velejador, a subirem o Tejo no barco para ela se reencontrar com os outros, mas o plano por pouco que não dá para o torto. Pedro e Rita reúnem-se com os outros no Mochão do Lombo do Tejo, mas ainda cruzam-se com outro grupo de contrabandistas. E para espanto de todos, é Inês que tem um papel importante na sua captura. Na cena final, vemos João a contemplar o Tejo da janela do seu quarto antes de ir buscar Carmen a Santa Apolónia. 

No seu artigo sobre a série, o site Brinca Brincando (a quem tenho de agradecer pela enésima vez pela informação e imagens) conseguiu contactar Joana Roque Lino, a Inês da série, para lhe colocar algumas perguntas sobre a série. Aí, ela revela que foi escolhida para a série através da Associação Naval de Lisboa, onde ela praticava remo e canoagem; que filmaram ao longo de todo o Verão de 1986 de forma faseada mas que ainda gravaram algumas cenas depois disso; que o sítio por onde passaram que mais gostou de visitar foi a Casa-Estúdio Carlos Relvas na Golegã; e que os actores que faziam de António e Susana (que também eram irmãos na vida real) "eram um bocado difíceis de suportar".  


    

Ao rever a série, achei que estava muito bem conseguida, equilibrando bem a parte documental com a parte ficcionada, digna das aventuras de "Os Cinco" ou "Os Sete". Os jovens actores mesmo sem experiência (presumo que, tal como Joana Roque Lino, fossem todos praticantes de canoagem e tivessem sido selecionados através de diferentes associações desportivas), não se saíram mal, sobretudo a pequena Nádia Sousa Lopes. E até o cão Dick foi muito convincente nas cenas em que ele tinha de fazer de doente! Foi pena que só tenha sido reposta pela primeira vez em 2017, trinta anos depois da exibição original, na RTP Memória. Como referi ao princípio, a série encontra-se disponível no Portal de Arquivos da RTP, embora os episódios 4 e 5 estejam trocados.  

Genérico:


Excerto do 7.º episódio:



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