Recuamos hoje ao Verão quente de 1999, o último Verão do milénio! (Sim, eu sei muito bem que na verdade o términus do século XX e do segundo milénio depois de Cristo foi em 2000, mas na altura a Humanidade decidiu que o Milénio acabava a 31 de Dezembro de 1999 e quis lá saber de exatidões matemáticas.) Nesse Verão de 1999, quando Portugal respirava prosperidade e esperança como nunca se atrevera a sentir, quando a Expo 98 deu alento à candidatura ao Euro 2004 e quando a luta de Timor Leste pela independência levou a uma mobilização e solidariedade no nosso país em níveis raramente vistos desde o 25 de Abril, entre os diversos sons que compuseram a banda sonora desse Verão, houve um destaque para os ritmos latinos. Ricky Martin e Enrique Iglesias, já bem consagrados nos mercados latino-americano, deram o salto para o sucesso global, Jennifer Lopez dava o salto dos filmes para a música, Carlos Santana lançou o seu álbum mais celebrado "Supernatural" e até foi então que se descobriu que "el único fruto del amor es la banana, es la banana!"
E foi também em 1999 que um jovem alemão deu ao mundo um hit tão esmagador que parecia ao mesmo tempo tão retro e tão a gritar "ESTAMOS EM 1999!", que tão rapidamente ficou datado como se tornou um evergreen, e que redefiniu o mambo para toda uma nova geração. Não que fosse um mambo genuíno, mas o certo é que a partir de então, quando se ouve a palavra "Mambo", aposto que para muito boa gente a primeira coisa que virá à cabeça será este tema.
A teoria mais consensual sobre a origem do mambo é que terá derivado de dois estilos musicais cubanos: o danzón e o montuno. Nos anos 30, a orquestra Arcaño Y Sus Maravillas popularizou um novo estilo chamado de danzón de nuevo ritmo, mais tarde conhecido como danzón-mambo. Em 1949, o músico cubano Damaso Perez Prado mudou-se para o México onde reinventou a sonoridade do mambo, imprimindo-lhe influências do swing e do jazz americano. Essa nova sonoridade acabou por também ganhar popularidade nos Estados Unidos, dando origem a vários conjuntos de mambo made in USA e até alguns na Europa. O auge comercial do mambo durou até ao início dos anos 60.
A obra completa de Perez Prado continuou a ser reconhecida e redescoberta nas décadas seguintes, destacando-se temas como "Guaglione" (que chegou ao 2.º lugar do top britânico em 1995 devido a um anúncio da cerveja Guinness), "Patricia" e "Mambo N.º 5". (Ao que parece não existem os Mambos n.º 1, 2, 3 e 4, mas existe sim um "Mambo N.º 8"!)
Entretanto, a 13 de Abril de 1975, nascia em Munique um filho de mãe siciliana e pai ugandês, a quem foi dado o nome de David Lubega. Inicialmente, o jovem David Lubega queria ser rapper, tendo feito parte alguns grupos de hip hop desde a adolescência e gravou o primeiro disco em 1990. Em 1997, integrou o grupo Balibu cujo single "Let's Come Together (Holiday Shout)" pretendia claramente ser o novo "Coco Jamboo".
Mas então como é que um alemão aspirante a rapper se reinventou como um ícone do mambo? Há duas versões da história: o próprio Lubega afirma que descobriu a música latina numa viagem a Miami e decidiu então reinventar-se como cantor latin-pop, enquanto o seu manager Goar Biesenkamp tem declarado que, após os Balibu, ele é que lhe sugeriu essa reinvenção.
Seja como for, David Lubega lá se aperaltou com o fato às riscas, o chapéu Fedora e o bigodinho para se metamorfosear em Lou Bega e a persona do latin lover. E em Abril de 1999, o seu primeiro single "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" foi editado na Alemanha. A canção era trabalhada à volta de "Mambo N.º 5" de Perez Prado, com Bega a enumerar as suas conquistas amorosas na letra. No refrão havia a Monica, a Erica, a Rita, a Tina, a Sandra, a Mary e a Jessica, e na primeira estrofe ainda havia mais a Angela e a Pamela. Na altura, Bega afirmava que estas mulheres eram todas reais, mas acho que até então o consenso foi de que era apenas ele a viver a personagem.
Seja como for "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" foi rapidamente um hit na Alemanha e à medida que o Verão de 1999 foi chegando, o tema foi sendo lançado internacionalmente e foi escalando os tops de todo o mundo, tendo sido n.º 1 em praticamente todos os países europeus, Austrália, Canadá e Nova Zelândia e chegado ao 3.º lugar nos Estados Unidos, com Lou Bega actuando alegremente pelo globo. O álbum "A Little Bit Of Mambo" foi então editado, sendo também um campeão de vendas.
Lou Bega é ocasionalmente referido como um one-hit wonder mas o single seguinte "I Got A Girl" ainda foi um sucesso assinalável em vários países, nomeadamente na Finlândia onde chegou ao segundo lugar do top. Recordo-me que em 2000, ambos os temas foram usados no genérico do concurso da RTP "Só Números". Mas os single seguintes "Tricky Tricky" e "Mambo Mambo" passaram mais despercebidos bem como o segundo álbum de Lou Bega, "Ladies And Gentlemen", de 2001, onde há a destacar uma versão de "Just A Gigolo".
Após um breve hiato, Lou Bega voltou ao activo em 2005 e desde então que tem editado discos e actuado com regularidade, agora sobretudo nos circuitos de nostalgia dos anos 90 (aliás o seu mais recente álbum é de versões de temas dos anos 90). Em 2010, teve um hit assinalável na Alemanha com "Sweet Like Cola". E em 2019, num verdadeiro recontro de hits titãs dos anos 90, saiu o single "Scatman vs. Hatman".
A par de isso "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of)" continuou o seu legado. Não só Lou Bega fez novas versões para certas ocasiões (como concerto de André Rieu) e anúncios publicitários (lembro-me de ter sido usado por exemplo num anúncios das Pringles), como regressou ao n.º 1 do top britânico numa versão de… Bob O Construtor em 2001 (aliás, era o single que estava em n.º 1 no Reino Unido aquando do 11 de Setembro) e a BBC usou o tema na sua cobertura de jogos de críquete. É caso para afirmar que um bocadinho de mambo chegou muito longe.
E vamos a mais um capítulo da saga "Filmes que eu vi na Sessão Da Noite da RTP1", esse mítico espaço de cinema das sextas feiras à noite que durou de Setembro de 1990 a Abril de 1994 e que se tornou essencial na minha formação como cinéfilo. (Se alguém tiver conhecimento de uma lista de todos os filmes exibidos nesse espaço, por favor entre em contacto comigo.)
"Cuidado Com As Gémeas" (de título original, "Big Business"), comédia de 1988, era uma adaptação livre e modernizada de "A Comédia de Erros", com Bette Midler e Lily Tomlin no papel de dois pares de gémeas trocadas à nascença. A realização esteve a cargo de Jim Abrahams, no seu primeiro filme fora da tríplice aliança com os irmãos Zucker, com produção pela Touchstone, a chancela da Disney para filmes menos infantis.
Em 1948, dois casais dão entrada num hospital na pequena cidade de Jupiter Hollow na Virgínia Ocidental, com as esposas em trabalho de parto. Um deles são os Shelton, um casal rico de Nova Iorque que por lá estava de passagem, e os Ratliff, um casal local. As duas mulheres dão à luz duas meninas gémeas praticamente ao mesmo tempo. Os Shelton decidem chamar as suas filhas Rose e Sadie, e o Sr. Ratliff, que ouviu a conversa, sugere à esposa dar os mesmos nomes às suas filhas. Os Shelton partem no dia seguinte, mas o que ninguém sabe é que no meio da confusão com os dois partos, a idosa enfermeira do hospital trocou as bebés e na verdade, cada casal teve gémeas idênticas: as duas Sadies (Midler) são filhas dos Shelton e as duas Roses (Tomlin) dos Ratfliff.
Quarenta anos depois, as irmãs Shelton herdaram a Moramax, o império empresarial do pai. Sadie Shelton tornou-se uma implacável mulher de negócios, negligenciando o filho rebelde Jason (Seth Green), para frustração do seu ex-marido Michael (Barry Primus). Já Rose Shelton sempre sonhou com uma vida no campo e não tem muito jeito para a gestão, deixando todas as decisões nas mãos da irmã.
Sadie Shelton pretende vender a Hollowmade, uma fábrica de móveis em Jupiter Hollow, que o seu pai comprou aquando do seu nascimento e marca uma reunião para convencer os acionistas. O seu subalterno Graham Sherbourne (Edward Herrmann) avisa-a que R. Ratliff, o líder dos trabalhadores da fábrica, está a caminho de Nova Iorque para impedir a venda e Sadie encarrega-o de tentar descobri-lo para o impedir de interferir.
Rose e Sadie Ratliff
Rose e Sadie Shelton
R. Ratliff é na verdade Rose Ratliff, que ruma a Nova Iorque com a sua irmã Sadie, que sempre sonhou conhecer a cidade. Uma série de confusões faz com que as Shelton e as Ratliff se instalem no Hotel Plaza. Também lá se instala Fabio Alberici (Michele Placido), um magnata italiano e um dos potenciais compradores da fábrica, que arrasta a asa às duas Sadies, ignorando que são duas mulheres diferentes. Ao Plaza também vai parar Roone Dimmick (Fred Ward), o namorado de Rose Ratliff, que Graham e o seu assistente (e namorado) Chuck (Daniel Geroll) creem ser R. Ratliff.
Roone pretende pedir Rose Ratliff em casamento mas é Rose Shelton que se encanta com ele. Já Sadie Ratliff conhece Jay num incidente que a levou a dominar Jason amarrando-o, e embora deduzindo logo que aquela não é a ex-mulher, Jay fica impressionado. As confusões e os desencontros entre as quatro mulheres e seus pretendentes sucedem-se até que as quatro se encontram na casa de banho. Ao descobrir que, ao contrário do que tinha dito, Sadie Shelton não pretende cancelar a venda da fábrica, Rose Ratliff fecha-a num armário, e Sadie Ratliff faz-se passar por ela, e com a ajuda de Rose Shelton, convence os acionistas a impedir a venda.
No final, cada uma das quatro mulheres sai do hotel acompanhada: Rose Shelton com Roone, Sadie Shelton com Fabio, Sadie Ratliff com Michael e Rose Ratliff entende-se com o Dr. Jay Marshall (Michael Gross), um pretendente de Rose Shelton. Enquanto isso, um mendigo que costuma rondar o Plaza (e que a certa altura diz: "Há dois de toda gente lá dentro!") dá de caras com um executivo engravatado igualzinho a ele e o recepcionista do hotel, ainda mal refeito de todas as confusões, desmaia ao ver umas trigémeas que pretendem fazer o check-in!
Quando eu vi o filme já estava familiarizado com o trabalho de Bette Midler, tanto como actriz (este foi um dos seus cinco filmes na Touchstone entre 1986 e 1988, juntamente com "Por Favor Matem A Minha Mulher", "Um Vagabundo Na Alta Roda", "Que Sorte Danada!", que também passaram na "Sessão Da Noite" da RTP1, e "Beaches - Eternamente Amigas") como cantora (com os seus hits "Wind Beneath My Wings" e "From A Distance"), mas foi o primeiro filme de Lily Tomlin que eu vi. Curiosamente, os papéis foram inicialmente escritos para Barbra Streisand e Goldie Hawn, que seriam respectivamente Sadie e Rose. O actor brasileiro José Wilker foi equacionado para o papel de Roone.
"Cuidado Com As Gémeas" foi um sucesso modesto de bilheteira mas teve melhor desempenho no mercado de vídeo. Apesar de algumas falhas no argumento (sobretudo quanto às relações das quatro protagonistas com os seus interesses românticos que são abordadas demasiado apressadamente) e algumas inconsistências no ritmo da trama, é um filme que entretém e arranca umas quantas gargalhadas. Uma das minhas cenas preferidas é quando as duas Sadies, que na altura estão a usar o mesmo vestido, sentam-se a tomar pequeno-almoço cada uma com a Rose que não é a sua irmã, e as quatro falam entre si sem saber que a outra não é aquela com quem julgam estar a falar.
Além do desempenho de ambas (embora Midler e Tomlin sejam significativamente melhores como Sadie Shelton e Rose Ratliff) e dos imenso gags, um dos pontos fortes do filme são os efeitos especiais que para a época são bem conseguidos: em vez de se recorrer a duplas, as cenas com cada gémea em duplicado foram construídas em cinco meses de pós-produção.
E como a realidade é muitas vezes mais estranha que a ficção, segundo o IMDB, no ano em que o filme foi lançado surgiu a notícia de dois pares de gémeos na Colômbia que tinham sido trocados à nascença num hospital de Bogotá e que cresceram em meios diferentes pensando que cada um a pensar que tinha um gémeo falso e que só descobriram da troca (e que tinham na verdade um gémeo idêntico) quando os quatro já tinham vinte e tal anos.
Se vocês são da minha idade, à primeira impressão 1992 não parece um ano assim tão distante. Mas a verdade é que já passaram trinta anos desde 1992. Sim, pessoas nascidas em 1992 já são trintonas! Em 2022, estamos mais longe de ano de 1992 do que por exemplo, estávamos em 1992 de 1969, o ano da chegada do Homem à Lua.
Em 1992, eu completei uma dúzia de anos de vida e vivia a pré-adolescência em todos os altos e os baixos (sobretudo os baixos, já que foi nessa altura que mais sofri com o bullying na escola). Mas claro que tive momentos bons e, apesar de na altura eu ainda não ter desenvolvido os meus gostos e conhecimentos musicais e cinematográficos, foi um ano com os seus pontos marcantes na cultura pop. Por isso, hoje recuamos trinta anos e vamos recordar algumas coisas do ano de 1992.
Portugal presidiu pela primeira vez à União Europeia Entre 1 de Janeiro e 30 de Junho, Portugal assumiu pela primeira vez a presidência rotativa da União Europeia, na altura ainda denominada Comunidade Económica Europeia. Até agora, Portugal assumiu esse papel semestral mais três vezes, de Janeiro a Junho de 2000 e 2021 e de Julho a Dezembro de 2007. Esta primeira presidência europeia de Portugal teve como sede o Centro Cultural de Belém.
O Centro Cultural de Belém sediou a primeira presidência de Portugal da UE em 1992
Aliás foi esse o ano em que a CEE deu grandes passos a tornar-se cada vez mais uma federação europeia, com uma unidade monetária comum e maior mobilidade de pessoas e mercadorias entre os países-membros com o famigerado Tratado de Maastricht.
Profundas transformações na Europa Mais a Leste, a Europa passava por profundas transformações. A União Soviética colapsara no final de 1991 e doze das suas quinze ex-repúblicas (Estónia, Letónia e Lituânia já tinham obtido a independência anteriormente) tornaram-se estados independentes. Enquanto estes tentavam alicerçar a sua autonomia, foi criada a Comunidade de Estados Independentes para um auxílio mútuo, designação essa que também foi utilizada para fins desportivos, como por exemplo no Europeu de Futebol e nos Jogos Olímpicos de Verão e Inverno, enquanto alguns desses novos países não tinham as suas próprias federações desportivas.
Conflitos sangrentos na ex-Jugoslávia
Também a República Socialista Federal da Jugoslávia se desmembrara nos anos anteriores com Eslovénia, Croácia, Macedónia e Bósnia-Herzegovina a declararem independência, enquanto o território composto por Sérvia e Montenegro manteve a denominação de Jugoslávia até 2003. Mas se a Macedónia conquistou a independência sem sangue derramado e os conflitos na Eslovénia foram breves, na Croácia e sobretudo na Bósnia-Herzegovina travou-se uma guerra violenta que se arrastaria pelos três anos seguintes. Devido às agressões do governo de Belgrado no conflito, a 30 de Maio de 1992 a ONU instaurou um embargo banindo todas as transições económicas, científicas, culturais e desportivas com a República Federal da Jugoslávia que duraria até 1995, com novas sanções instauradas em 1998 durante o conflito no Kosovo.
O assassinato de Daniella Perez chocou o Brasil A 28 de Dezembro de 1992, a actriz brasileira Daniella Perez foi brutalmente apunhalada até à morte. A actriz fazia então parte da telenovela "De Corpo E Alma", que estava a ser exibida na Rede Globo e na SIC. Depois de "Barriga de Aluguer" e "O Dono Do Mundo", Perez, de 22 anos e casada com o actor Raúl Gazzola, entrava agora numa telenovela da autoria da sua mãe, Glória Perez, no papel de Yasmin, irmã da protagonista Paloma (Cristiana Oliveira). Mas ao choque da sua morte sucedeu-se o da descoberta que o autor do crime era o actor Guilherme de Pádua, que fazia para romântico com Perez na telenovela, com a cumplicidade da esposa deste, Paula Thomaz. O assassinato de Daniella Perez chocou de tal forma o país irmão que ofuscou o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Uma vez que a telenovela estava a ser exibida e sendo a Rede Globo um dos seu accionistas, a SIC também fez uma cobertura do caso. A Rede Globo nunca mais repôs a telenovela "De Corpo E Alma" mas a SIC reexibiu-a em 1997. Guilherme de Pádua e Paula Thomaz foram condenados a 19 anos de prisão mas só cumpriram seis anos da pena em regime fechado. Pádua é agora pastor evangélico.
Daniella Perez (1970-1992)
Também foi em 1992 que nos despedimos do Capitão Salgueiro Maia, um dos principais rostos da Revolução do 25 de Abril, do autor Isaac Azimov, dos actores Dick York ("Casei Com Uma Feiticeira") e Anthony Perkins ("Psico"), do comediante Benny Hill, da lenda do cinema Marlene Dietrich, da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva e de Branca Santos, a famigerada Dona Branca.
Nasceram várias estrelas Mas foi neste ano que nasceram várias estrelas. No futebol, o astro brasileiro Neymar e o dinamarquês Christian Eriksen. Os actores Freddie Highmore (de "Charlie E A Fábrica de Chocolate" e da série "The Good Doctor"), Taylor Lautner (o Jacob da saga "Crepúsculo"), Logan Lerman ("Percy Jackson" e "As Vantagens De Ser Invisível"), Ezra Miller ("Temos de Falar Sobre Kevin" e também de "As Vantagens De Ser Invisível") e dos novos tomos de "A Guerra Das Estrelas", Daisy Ridley e John Boyega. Na música, Sam Smith, Nick Jonas, a rapper Cardi B e as ex-estrelas da Disney Miley Cyrus, Demi Lovato e Selena Gomez. E ainda no desporto, a jamaicana Elaine Thompson, pluricampeã olímpica do atletismo.
Made in 1992: Demi Lovato, Selena Gomez e Miley Cyrus
A tragédia do voo 495 Martinair no Aeroporto de Faro A nível nacional, a maior tragédia de 1992 aconteceu a 21 de Dezembro quando um avião da companhia holandesa Martinair, partindo de Amesterdão, se despenhou na pista 11 do Aeroporto de Faro. Apanhado nas más condições atmosféricas, com uma tempestade e túneis de vento, e com visibilidade quase nula, o avião DC-10 aterrou violentamente na pista. O impacto fez o avião partir em dois e causou uma explosão no tanque de combustível da asa direita.
Das mais de trezentas pessoas a bordo, 56 faleceram (incluindo dois tripulantes) e 106 ficaram gravemente feridas. A rápida intervenção dos serviços de emergência ajudou a minorar o número de vítimas.
A tragédia do voo Martinair 495 foi tema de conversa e notícia para muitos dias, não só em Portugal como nos Países Baixos, de onde era proveniente o avião, e que meses antes fora palco de outro acidente de aviação. E para muitos algarvios, foi a primeira vez que viriam um desastre de tamanhas dimensões ali tão perto, como foi o caso do David Martins, que morava a poucos quilómetros e se lembrava de ver ao longe dos destroços.
O início do futebol moderno 1992 é visto como o primeiro ano do futebol moderno. Entre os vários motivos para tal, destacam-se dois.
Na época 1992/93, a Taça dos Campeões Europeus deu lugar à Liga do Campeões. Contratado pela UEFA, o empresário alemão Klaus Hempel reinventou a competição, concentrando todos os direitos de transmissão de jogos e os patrocinadores sob a sua alçada e fixando os horários das partidas. Como tal, as receitas subiram vertiginosamente: se em 1992, as receitas das transmissões televisivas foram de 85 mil francos suíços, em 2002, já ascendiam a mil milhões! Já na época 1991-92, a Taça dos Campeões Europeus tinha sofrido uma grande mudança, introduzindo uma fase de grupos em que as oito equipas que chegavam aos quartos de final foram divididas em dois grupos de quatro, cujos vencedores se apurariam para a grande final. Como tal, as principais equipas europeias disputavam agora mais jogos. O Benfica foi uma das oito equipas dessa primeira era com dois grupos, ficando em terceiro lugar no grupo que apurou o Barcelona para a final no Estádio de Wembley em que bateu a Sampdoria. Já a final da Taça das Taças foi disputada no Estádio da Luz com o Werder Bremen a vencer o Mónaco enquanto o Ajax conquistou a Taça UEFA.
Desde então a Liga dos Campeões passou por várias transformações, mas o inconfundível tema composto por Tony Britton (inspirado na ária utilizada na coroação dos monarcas britânicos) mantém-se o mesmo.
Pela mesma altura, após mais de uma década marcada por hooliganismo, infraestruturas em ruínas e parcos dividendos, a liga inglesa sofreu uma profunda transformação. Os principais clubes ingleses chegaram a um lucrativo acordo de transmissões televisivas com a Sky Sports, que ao jeito americano, transformou os jogos muito além das partidas disputadas, com debates e análises de jogo. Para a promoção da nova Premiere League, a Sky Sports levou a cargo uma campanha utilizando o hit dos Simple Minds "Alive And Kicking". Nos anos seguintes, o futebol inglês tornou-se uma marca importante, melhorando os estádios e atraindo jogadores de outros países e outros países europeus não tardaram a seguir o exemplo. O Manchester United seria o campeão da época inaugural da Premier League (1992-93).
Em Portugal, o FC Porto ganhou o Campeonato e o Boavista a Taça de Portugal.
O milagre dinamarquês no Euro 1992
1992 foi também ano de Europeu de Futebol, que resultaria numa das maiores surpresas da história do torneio. Além da Suécia, o país anfitrião, apuraram-se a então campeã mundial Alemanha, os Países Baixos detentores do título (e que mediram forças com Portugal na qualificação), a Inglaterra, a Escócia, a França (o único grande torneio de selecções em que Eric Cantona jogou), a recém-dissolvida União Soviética sob o nome de Comunidade Estados Independentes e a Dinamarca, em substituição da Jugoslávia, impedida de disputar a prova devido ao embargo das Nações Unidas.
E não é que foi a Dinamarca a levantar o caneco? Após uma fase de grupos morna, com um empate face à Inglaterra, uma derrota com a Suécia e assegurando as meias-finais após vitória contra a França, os dinamarqueses empataram com holandeses na semifinal, onde uma defesa de Peter Schmeichel ao remate de Marco Van Basten nos penáltis os colocou na final de Gotemburgo, onde bateram a Alemanha por 2-0 para espanto global.
De eliminados a campeões europeus
Rezou a lenda que quando se soube que a Dinamarca iria disputar o Europeu em vez da Jugoslávia, muitos dos jogadores já estavam a gozar as férias, mas consta que afinal não foi bem assim e que a federação dinamarquesa estava preparada para essa eventualidade.
Santos da Península não fizeram milagres nos Jogos Olímpicos 1992 foi ano de Jogos Olímpicos, o último a ter em simultâneo Jogos de Inverno e de Verão.
Os Jogos Olímpicos de Inverno decorreram de 8 a 23 de Fevereiro na localidade francesa de Albertville, com a participação de 1801 atletas de 64 países (Portugal não participou). Pela primeira vez, houve provas de patinagem de velocidade em pista curta, de esqui freestyle (moguls) e biatlo feminino. Também houve provas de demonstração de curling, ballet em esqui e esqui de velocidade, ficando estas infelizmente manchadas pela morte do atleta suíço Nicolas Bochatay ao colidir com um veículo gerador de neve durante um treino. Pela primeira vez, a China, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia ganharam medalhas em Jogos Olímpicos de Inverno e a esquiadora Blanca Fernandez Ochoa foi a primeira mulher espanhola a conquistar uma medalha olímpica (Verão ou Inverno).
Barcelona acolheu os primeiros Jogos Olímpicos disputados na Península Ibérica, que tiveram lugar de 25 Julho a 9 e Agosto. Mais de 9300 atletas de 169 países competiram em 25 desportos, incluindo pela primeira vez o basebol, o badmington e o judo feminino. A África do Sul participou pela primeira vez desde 1960, após décadas de exclusão devido ao regime de apartheid, a Alemanha competiu unificada pela primeira vez desde 1964, as antigas repúblicas da União Soviética competiram como uma única equipa sob a bandeira olímpica (excepto Estónia, Letónia e Lituânia que competiram novamente como países independentes). Croácia, Eslovénia e Bósnia-Herzegovina participaram como países independentes enquanto os atletas das restantes repúblicas ex-jugoslavas (Sérvia, Montenegro e Macedónia) competiram como atletas neutros.
Entre os principais feitos, destaque para a Dream Team americana de basquetebol, composta por estrelas da NBA como Michael Jordan e Magic Johnson, que dominaram como quiseram; para o ginasta bielorrusso Vitaly Scherbo que obteve seis medalhas de ouro e para as as vitórias do britânico Linford Christie nos 100m, do americano Kevin Young nos 400m barreiras, da argelina Hassiba Boulmerka nos 1500m e do russo Alexander Popov nos 50 e 100m livres da natação.
Entre os momentos mais dramáticos, houve a determinação do britânico Derek Redmond em querer acabar a sua corrida apesar da lesão, apoiado pelo seu pai que desceu da bancada até à pista, e o infortúnio da nadadora sincronizada canadiana Sylvie Fréchette, prejudicada por um acidental erro de pontuação de uma juíza brasileira.
Galvanizada pelo factor casa, Espanha alcançou 22 medalhas, incluindo 13 de ouro, de longe o melhor medalheiro olímpico de nuestros hermanos.
Já Portugal, apesar de levar a maior delegação de sempre com mais de 100 atletas, saiu de Barcelona sem medalhas. Nem sequer a equipa do hóquei em patins, que era modalidade de demonstração, foi além do quarto lugar. Os melhores resultados portugueses foram o sexto lugar do canoísta José Garcia e o sétimo de Manuela Machado na maratona (lesionada, Rosa Mota não pôde defender o título olímpico e ficou em Portugal).
Ano dourado do rock em Portugal
Em Portugal, dois discos dominam as atenções. "Palavras Ao Vento", lançado mesmo no final de 1991, marcou a estreia dos Resistência, um verdadeiro projecto all-star com nomes como Miguel Ângelo, Tim, Olavo Bilac, Pedro Ayres Magalhães ou Fernando Cunha, e rapidamente foi campeão de vendas graças aos seus dois hits, dando uma nova roupagem a "Nasce Selvagem" dos Delfins e "Não Sou O Único" dos Xutos & Pontapés. Aproveitando o momento, ainda em 1992 sairia o segundo álbum "Mano A Mano", destacando-se a versão de "A Noite" dos Sitiados.
Mas o disco nacional do ano é "Rock In Rio Douro" dos GNR. O Grupo Novo Rock de Rui Reininho e companhia já vinha somando vários hits e álbuns memoráveis, mas foi este álbum elevou-os a um novo nível de sucesso, sendo então um dos raros discos a atingir quatro vezes platina. Temas como "Sangue Oculto", em colaboração com Javier Andreu da banda espanhola La Frontera, "Pronúncia Do Norte" com Reininho em dueto com Isabel Silvestre, "Sub-16" e "Ana Lee" rapidamente andaram na boca de toda a gente e a 10 de Outubro, os GNR tocaram no Estádio de Alvalade para 40 mil pessoas, na altura a maior audiência de sempre num concerto de uma banda portuguesa.
Mas 1992 foi também o ano de outros grandes hits nacionais como "Vida De Marinheiro" dos Sitiados, "Easy Come & Go" dos Joker, "Tudo Ou Nada" dos Zero (um projecto spin-off dos Ban) e "Chuva Dissolvente" dos Xutos & Pontapés.
Mais grande música
1992 viu também surgir álbuns marcantes como aquele que é o meu álbum preferido de sempre: "Automatic For The People" dos R.E.M. Mas também saíram discos seminais como "Fear Of The Dark" dos Iron Maiden, "Keep The Faith" dos Bon Jovi, "Adrenalize" dos Deff Leppard, "Diva" de Annie Lennox, "Seven" dos James, "Hormonally Yours" das Shakespear's Sister, "Funky Divas" das En Vogue, "Kerplunk" de Green Day, "Dirty" dos Sonic Youth, "Bigger! Better! Faster! More!" dos 4 Non Blondes e "Love Deluxe" de Sade.
E nas pistas de dança bombaram forte "It's My Life" de Dr. Alban, "Rhythm Is A Dancer" dos Snap!, "Please Don't Go" dos Double You e "I Love Your Smile" de Shanice, e os grandes êxitos dos ABBA foram reavivados graças ao EP "Abba-Esque" dos Erasure e à compilação "ABBA Gold".
Madonna mais "Erotica" que nunca Quem também tem teve álbum novo em 1992 foi Madonna. A rainha da pop nunca se fez rogada em imprimir boas doses de sensualidade e sexualidade nos seus opus, mas o lançamento simultâneo do álbum "Erotica" e do livro "Sex" demonstravam Madonna no seu mais explícito até então. Até mesmo hoje, alguns dos ensaios de "Sex", como a famosa fotografia de Madonna nua a pedir boleia na estrada, seriam considerados demasiados ousados para uma estrela de topo. (Isto para não falar em várias outras imagens onde ela podia ser vista em cenas sadomasoquistas e em poses sensuais com várias pessoas, incluindo celebridades como Naomi Campbell, Isabella Rossellini e Vanilla Ice.)
Mas apesar das boas vendas de "Erotica" e de "Sex" ter esgotado rapidamente o milhão e meio de exemplares da sua única edição, este período foi marcado por uma enorme animosidade da opinião pública por Madonna, recebendo duras críticas de vários quadrantes desde os habituais grupos ultrahipócritasconservadores a líderes feministas como Camille Paglia.
Será que Madonna tinha mesmo ido longe demais e agora não passava uma estrela desvairada que só queria chocar? O tempo viria mostrar que não era bem assim, e que este marco de Madonna contribuiria não só para que outras artistas de vários ramos explorassem mais livremente a sua sensualidade na sua obra como para abrir mentalidades.
Regressos de Batman, do Alien e de Kevin McAllister ao cinema
No cinema, filmes para todos os gostos. Michael Keaton voltou a ser o Homem-Morcego às voltas com uma Michelle Pfeiffer Catwoman e um Danny DeVito Pinguin em "Batman Regressa"; Macaulay Culkin voltou a enfrentar os Wet Bandits em "Sozinho Em Casa 2: Perdido em Nova Iorque"; as sagas "Alien" e "Arma Mortífera" chegaram ao terceiro tomo; Jack Nicholson achou que não aguentaríamos a verdade em "Uma Questão De Honra"; Francis Ford Coppola ressuscitou "Drácula"; Richard Gere e Kim Basinger cederam aos "Desejos Finais"; Whoopi Goldberg mudou-se "Do Cabaret Para O Convento"; Geena Davis e Madonna jogaram na "Liga De Mulheres", "Beethoven" deu um recital de gargalhadas e amaremos sempre Whitney Houston e Kevin Costner em "O Guarda-Costas". Para não falar que também em 1992 saíram "Aladino", "Imperdoável", "Horizonte Longínquo", "A Morte Fica-vos Tão Bem", "A Mão Que Embala O Berço", "Regresso A Howard's End", "Perfume De Mulher", "Chaplin", "Jovem Procura Companheira", "Querida, Ampliei O Miúdo" e, em Portugal, "Aqui D'El Rei", "O Dia Do Desespero", "Vertigem" e "Retrato de Família".
A viagem do Lusitânia Expresso para alertar o mundo contra a luta do povo timorense As imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz em Dili em Novembro de 1991 chocaram Portugal e gerou uma onda de revolta contra a opressão do governo da Indonésia, que desde 1975 ocupara a ex-colónia portuguesa. Porém, esse acontecimento não teve grande repercussão no resto do mundo.
No início de 1992, a equipa da revista Fórum Estudante teve a ideia de viajar até Timor no ferryboat Lusitânia Expresso para depositar uma coroa de flores no cemitério de Santa Cruz e alertar os media internacionais sobre a luta do povo timorense pela liberdade e contra o jugo da Indonésia.
Com o apoio do governo e donativos de várias empresas e cidadãos anónimos, o projecto ganhou forma e no dia 6 de Março, após várias conferências na Austrália, mais de 120 pessoas de 23 países embarcaram no Lusitânia Expresso a partir de Darwin. Eram na grande maioria estudantes, mas também jornalistas como José Rodrigues dos Santos para a RTP e o ex-Presidente Ramalho Eanes.
Mas ao entrar nas águas territoriais de Timor, o barco foi cercado por quatro navios de guerra indonésios e vários aviões militares, sendo impedido de continuar a viagem. Como tal, a homenagem das vítimas de Santa Cruz foi feita no barco e a coroa de flores foi lançada ao mar.
Pot-pourri de outros acontecimentos de 1992
- Bill Clinton foi eleito presidente dos Estados Unidos impedindo a reeleição de George W.H. Bush.
- A Disneyland Paris é aberta ao público a 29 de Abril.
- A Rainha Isabel II completou 40 anos de reinado mas uma sucessão de acontecimentos embaraçosos para a coroa britânica (o divórcio da Princesa Ana, a separação do Príncipe André e de Sarah Ferguson, fotos desta em topless com outro homem, o lançamento do livro sobre a Princesa Diana que revelava os problemas do seu casamento com o Príncipe Carlos e detalhes do relacionamento deste com Camilla Parker-Bowles, um incêndio no Castelo de Windsor) fez com que a monarca definisse 1992 como um "annus horribilis".
- A Irlanda venceu o Festival da Eurovisão em Malmö na Suécia com tema "Why Me" interpretado por Linda Martin e escrito por Johnny Logan, vencedor do certame em 1980 e 1987. Portugal ficou em 17.º com o "Amor de Água Fresca" de Dina.
- Aos 18 anos, Marisa Cruz é eleita Miss Portugal. A namibiana Michelle McLean é coroada Miss Universo e a russa Yulia Kurotchkina é eleita Miss Mundo.
- A cidade de Los Angeles foi palco de seis dias de motins após a absolvição dos quatro polícias que agrediram Rodney King, causando 63 mortos e mais de mil milhões de dólares em prejuízos. - Apanhado num escândalo de corrupção, o Presidente do Brasil Fernando Collor de Mello abdicou do cargo a 29 de Dezembro. - A Super Nintendo chega finalmente à Europa e são lançados jogos de antologia como "Sonic 2", "Super Mario Kart" e "Ecco The Dolphin". - Estrearam séries como "Picket Fences", "Doido Por Ti", "Melrose Place", "Absolutamente Fabulosas" e "California Dreams". A MTV estreou "The Real World", considerado o percursor do "Big Brother", e na animação, surgiu a "Sailor Moon". É também lançado o Cartoon Network.
RTP preparando ventos de mudança
Muito provavelmente já a pensar em se precaver face ao início das televisões privadas, foi em 1992 que a RTP estreou programas marcantes como "Isto Só Video", "Parabéns", "Marina Marina", "Apanhados", "Olha Que Dois!!" e "Sons De Sol". Estrearam também as telenovelas "Meu Bem, Meu Mal", "Pedra Sobre Pedra", "Barriga De Aluguer" e a portuguesa "Cinzas".
A 14 de Setembro, a RTP2 foi renomeada TV2, apresentando uma programação especialmente focada na cultura e no desporto.
E a 10 de Junho, foi lançada a RTP Internacional via satélite para chegar às comunidades portuguesas em todo o mundo.
"A sua televisão independente SIC, SIC, SIC..." Mas 1992 em Portugal é marcado pelo fim do monopólio televisivo da RTP. Projectos para estações de televisão privada em Portugal remontam ao final dos anos 70, mas só com a alteração em 1989 a uma lei da Constituição que limitava as licenças de televisão ao sector público é que esses projectos podiam ser viabilizados. A 6 de Fevereiro, o Governo de Cavaco Silva atribuiu as duas licenças para emissão de televisão privada à Sociedade Independente de Comunicação (SIC) e à Televisão Independente (TVI). De fora ficou o projecto TV1 liderado por Daniel Proença de Carvalho.
Liderada por Francisco Pinto Balsemão, ex-Primeiro Ministro de Portugal entre 1981 e 1983, a SIC tinha como principais accionistas a TV Globo, Expresso, Lusomundo, Grupo Impala, Costa do Castelo Filmes, Interpress e a seguradora Império e instalou o seu centro de emissões em Carnaxide, onde ficaria até à mudança em 2019 para Paço D'Arcos.
Com as emissões da TVI previstas para se iniciarem em 1993, coube à SIC a honra de quebrar o monopólio televisivo de 35 anos da RTP. No dia 6 de Outubro às 16:30, a SIC arrancou as suas emissões com um bloco informativo conduzido por Alberta Marques Fernandes, que ficaria para a posterioridade como a primeira cara da televisão privada portuguesa.
De entre a programação dos primeiro três meses da SIC, destacam-se programas informativos como "Praça Pública", o magazine desportivo "Portugal Radical", o concurso "Encontros Imediatos", a já referida telenovela "De Corpo E Alma", emissões da MTV, a série nacional "A Viúva Do Enforcado", séries internacionais como "Cuidado Com As Aparências", "Justiça Negra", "Cosby Show" e "Raven" e sobretudo o célebre concurso italiano "Il Colpo Grosso", que teve o título português de "Água Na Boca".
Durante os seus primórdios, a SIC voou baixinho sem levantar muitas ondas para o domínio da RTP. Mas gradualmente, a SIC soube corresponder aos desejos de mudança que o país não sabia que queria e os portugueses foram se deixando conquistar por esse admirável mundo novo audiovisual e em menos de três anos atingiria a liderança. Uma ascensão que seria caso de estudo em toda a Europa. Guardo muitas boas memórias destes primeiros anos da SIC e tenho muito pena na dificuldade de rever na SIC actual o espírito inovador da sua génese.
Que outras memórias e acontecimentos de 1992 que não foram mencionados neste texto é que se recordam? Contem nos comentários!
Depois da telenovela "Palavras Cruzadas", a produtora Atlântida decidiu que estava na altura de dar um passo em frente na ficção nacional e criar uma série de acção, inspirada por sucessos como "Miami Vice"; pelo menos dentro dos meios possíveis no Portugal dos anos 80, onde ainda tudo andava a uma velocidade bem menos vertiginosa. Felizmente, existia em Portugal um lugar que emanava um forte misticismo veraneante: Troia, com os seus aldeamentos turísticos, como os já extintos complexos da Torralta e do J. Pimenta, e o seu ponto de encontro entre o rio Sado e o Oceano Atlântico, era local de romaria de férias para muita gente vinda de todo país e até alguns estrangeiros, e parecia o sítio ideal para aí se inventar uma Miami portuguesa.
E foi assim que surgiu a série "Homens Da Segurança", cujos 13 episódios foram exibidos na RTP1 entre Julho e Outubro de 1988 nas noites de sábado. Além de recuperarem os cargos de respectivamente produtor e realizador, tal como em "Palavras Cruzadas", Tozé Martinho e Nicolau Breyner protagonizavam a série no papel de dois agentes de uma empresa se segurança que formam uma dupla intrépida no combate ao crime em Troia e arredores. Foi também a estreia do autor Manuel Arouca em escrita para televisão.
Carlos Jorge ou "Cajó" (Breyner) é um ex-agente da Polícia Judiciária, sem papas na língua e com pelo na venta. Filipe Sarmento (Martinho) é mais sofisticado e os seus jeitos de sedutor não são indiferentes ao sexo feminino. Os dois trabalham na mesma empresa mas não se conheciam e, claro está, a primeira impressão é uma antipatia mútua com os diferentes feitios, mas rapidamente descobrem que se complementam como dupla e acabam por ficar amigos. Os dois são contratados por Tomás Mendonça (Baptista Fernandes), dono de um hotel e ex-sogro de Filipe, para proteger os clientes de uma crescente onda de criminalidade, uma decisão que não agrada muito a Vítor Mesquita (Henrique Santana), o empertigado sub-director e relações públicas do hotel, que acha a ideia uma "americanice". Entre um e outro affair, Filipe vai-se encantando com Luísa (Manuela Marle), a funcionária do rent-a-car do hotel.
Outros empregados do hotel são Catarina (Cristina Homem De Melo), a recepcionista; Irene (Noémia Costa), telefonista; Quim (Carlos Areia), barman; Cecília (Filipa Cabaço), empregada de quarto; e Toni (Ivan) um rapaz órfão que faz uns trabalhos de paquete no hotel. Geralmente no seu trabalho, Cajó e Filipe cruzam-se com o do inspector da PJ Humberto Fernandes (Morais e Castro) e do seu assistente Pais (Licínio França), com quem costumam ter vários desentendimentos. De referir ainda que Mafalda Bessa, que em 2006 viria a casar-se com Nicolau Breyner, teve um pequeno papel na série como Paula, a outra funcionária do rent-a-car, creditada como Mafalda Amorim. Este foi também o último trabalho em televisão da actriz Filipa Cabaço, célebre pelo seu papel de Ana do Mar em "Chuva Na Areia", que viria depois a deixar a representação.
A série teve algumas particularidades então ainda pouco vistas na ficção nacional como a participação de vários actores estrangeiros e de haver bastante diálogos da série em inglês. A série também teve participações especiais de nomes como o treinador de futebol Luís Norton de Matos e da sua então esposa Xana, que eram um casal socialite da altura, Luís Esparteiro, Cila do Carmo, António Feio, Carlos Quintas, Felipa Garnel, Tareka, Linda Silva, Rogério Paulo, Filomena Gonçalves, Rui Luís, Luís Aleluia, Rita Ribeiro e Ruy de Carvalho. Os filhos de Tozé Martinho, António e Rita Martinho, também entraram na série, inclusivamente com Rita no papel de Marta, filha de Filipe.
Houve dois episódios que quando eu vi na altura se destacaram para mim: um em que Filipe e Cajó acabam a proteger uma inglesa que fugiu com a filha do marido que as maltratava (sobretudo a cena em que ela mostra as costas da miúda cheias de nódoas negras) e outro em que Felipa Garnel é uma bandida portuguesa que se faz passar por americana para seduzir um empresário árabe, interpretado por Carlos Quintas. A página do Facebook do Brinca Brincando (a quem vai um enésimo agradecimento pelas imagens aqui utilizadas) tem um vídeo da cena em que a loura Cristina/Kim tenta matar o árabe após uns momentos de paixão, sendo detida com uma bala certeira de Filipe numa lancha!
Apesar de acusar os sinais que é de um tempo em que os meios eram menos e tudo andava a uma velocidade bem menor, como o genérico de um minuto e meio e vários planos meio supérfluos de personagens a andarem por corredores e algo assim, a verdade é que "Homens De Segurança" ainda vê bem. Nicolau Breyner e Tozé Martinho tinham boa química como o Crockett e o Tubbs portugueses e era divertido vê-los a combater o crime por essa Troia fora, de corrida, de lancha ou conduzindo um bem português jipe UMM!
A série está disponível para visualização na RTP Arquivos e alguns episódios estão no YouTube.
Por entre as telenovelas brasileiras exibidas em Portugal que ainda não tinham entrada na Enciclopédia de Cromos, esta é sem dúvida daquelas que há mais tempo merecia um artigo. "Guerra Dos Sexos" era uma telenovela de autoria de Sílvio de Abreu exibida originalmente no Brasil entre Junho de 1983 e Janeiro de 1984.
Em Portugal, foi a primeira telenovela a ser exibida na RTP 2 a partir de 23 de Abril de 1984 (embora o primeiro capítulo tenha sido exibido em antestreia a 9 de Março na RTP1), numa altura em que a telenovela "O Bem Amado" que, anunciada desde os tempos de "Gabriela", era finalmente exibida no horário nobre da RTP1. Não faltaram protestos do público por causa dessa decisão e a RTP até equacionou abrir as emissões da RTP1 mais cedo (que na altura abria apenas às 17 horas nos dias de semana) para exibir o capítulo do dia anterior, mas devido à crise financeira que o país atravessava na altura que levou, entre outros cortes na despesa pública, a encurtar as emissões da RTP, o governo negou essa hipótese. Em 1996, foi reposta na SIC à hora de almoço.
Tanto no Brasil como em Portugal, "Guerra Dos Sexos" fez grande sucesso ao utilizar elementos inovadores, como um humor bastante mais burlesco e quase nonsense e várias referências cinematográficas, por vezes até utilizando músicas de filmes conhecidos.
Mas vamos à trama: na juventude, os primos Alcântara, Otávio (Paulo Autran) e Charlô (Fernanda Montenegro) foram apaixonados e, mal ou bem, essa paixão permaneceu ao ponto de ambos nunca terem casado, porém anos de discórdias e ressentimentos levaram a que se tornassem inimigos e nas suas picarias, tratam-se pelas alcunhas de Bimbo e Cumbuca. Após a morte do tio Enrico, os dois primos descobrem que são os herdeiros da sua fortuna, que inclui uma faustosa mansão em São Paulo e sobretudo, a cadeia de loja de roupas Charlô's, com sucursais em todas as grandes cidades brasileiras. No entanto o testamento refere que essa herança não deve ser negociada fora da família. Sem dinheiro para comprarem a parte do outro, Otávio e Charlô não têm outro remédio senão serem sócios e viverem juntos na mansão, e as brigas são ordem do dia, para desespero da empregada Olívia (Marilu Bueno).
Analu, Felipe, Juliana, Charlô e Otávio
Além deles, na mansão também moram Felipe (Tarcísio Meira), o filho adoptivo de Charlô, e as suas duas filhas, Juliana (Maitê Proença) e Analu (Ângela Figueiredo). Machista inveterado e mulherengo incorrigível, Felipe toma partido de Otávio enquanto que Juliana se identifica com as ideias progressivas e feministas da avó. Outra aliada de Charlô é Vânia (Maria Zilda Bethlem), uma mulher independente e sensual a quem vários homens elogiam as suas belas pernas, que é o seu braço direito na gestão da Charlô's. O problema é que Vânia tem um caso secreto com Filipe. Também Juliana vive um romance proibido com o fotógrafo Fábio (Herson Capri), que é casado.
Enquanto isso, Otávio comprou a fábrica Ravello Sport para garantir fornecimento exclusivo para as lojas Charlô's, só que o proprietário Vitório Leone (Carlos Zara) morre antes de lhe entregar os recibos que comprovam a aquisição e sem provas, a viúva Roberta (Glória Menezes) assume o comando da Ravello e torna-se mais uma aliada de Charlô.
Para resolverem o impasse, Charlô e Otávio fazem uma aposta: as mulheres tomam conta da empresa por 100 dias e terão de conseguir aumentar os lucros em 10%. Se conseguirem, Charlô ficará com a totalidade da empresa e se falharem, terá de a entregar ao primo. Charlô e suas aliadas deitam mãos à obra, atentas às tentativas de sabotagem de Otávio e Felipe. Porém a sua maior ameaça está em quem menos esperam.
Roberta e Nando
Carolina (Lucélia Santos), a sobrinha de Roberta, parece ser uma jovem doce e inocente mas é um autêntico lobo em pele de cordeiro. Desdenhando a vida modesta com que cresceu no Bairro da Mooca junto dos seus pais, Nieta (Yara Amaral) e Dino (Ary Fontoura), não olha a meio para subir na vida. Para tal pretende aproximar-se Felipe e alia-se a ele para sabotar os planos das mulheres, a começar por expor o caso de Vânia e Felipe. Entretanto, apesar de não recusar os avanços de Carolina e da animosidade por Roberta, Felipe não consegue impedir de se sentir atraído por esta.
Já Roberta dá por si a sentir uma forte atracção pelo Nando (Mário Gomes), o motorista dos Alcântara, um jovem humilde mas com notório atributos físicos, a quem encoraja a tornar-se modelo. Mas para além do obstáculo da diferença de idades, Nando também é disputado por Juliana e Analu.
Carolina
Nando mora no bairro da Mooca em casa de Semíramis (Leina Krespi) que criou os seus três sobrinhos como filhos: Ulisses (José Mayer), Afrodite (Cristina Pereira) e Zenon (Edson Celulari). Este último mora no Rio de Janeiro e foi em tempos a grande paixão de Carolina que, despeitada, passou a namorar com o irmão. Ulisses sonha em tornar-se pugilista e vai viver um romance tempestuoso com Vânia, pois sempre que os dois se encontram, a atracção mútua é incontrolável. Por seu turno e embora pouco deva à beleza, Afrodite, que trabalha na cafetaria da Charlô's, acredita fazer jus ao nome da deusa grega e que vários homens estão de olho nela.
Vânia e Ulisses
Entretanto, além de Carolina, surge outra aliada para Otávio e Felipe: Veruska (Sónia Clara), ex-secretária e amante de Vitório Leone. A aposta fica comprometida para o lado das mulheres quando Felipe, com o auxílio de Carolina e Veruska, consegue sabotar um importante desfile da Ravello promovido por Charlô e Roberta.
É então que surge Dominguinhos, um suposto primo português cara-chapada de Otávio (que entretanto desapareceu), que se declara apaixonado por Charlô. No entanto, esta não lhe dá trela, desconfiada que seja mais um plano de Otávio.
Por fim Roberta, ao descobrir o negócio de Otávio e Vitório que foi feito sem seu conhecimento, consegue recuperar a fábrica e quando a sabotagem é provada, Charlô ganha a aposta. Roberta termina feliz ao lado de Nando, que se tinha casado com Juliana mas os dois acabaram por concluir que apesar de apaixonados não são compatíveis como casal. Carolina, desprezada por todos e remetida a vender bolinhos de coco tal como a sua mãe, é surpreendida pela declaração de Felipe. Analu entende-se com Kico (Diogo Vilela), o filho geek de Roberta, a quem abandonara no altar no início da telenovela. Por seu turno, Vânia, perante a insistência de Ulisses em se casarem, conclui que valoriza mais a sua independência e parte com Juliana num cruzeiro onde rapidamente atraem várias atenções masculinas. Dispensado por Vânia, Ulisses singra no boxe e dá uma oportunidade a Lucilene (Helena Ramos), uma eterna apaixonada sua. Quando, derrotado, Otávio prepara-se para deixar a mansão, Charlô pede que não vá e declara-se apaixonada por ele. Os dois casam-se e quando regressam de lua-de-mel, deparam-se com mais dois herdeiros vindo de Portugal: o já conhecido Dominguinhos e a sua prima e esposa Altamiranda, sendo esta a fotocópia de Charlô.
Esta foi a primeira telenovela que me recordo ver na televisão, e há uma cena em particular que eu me lembro bem: Roberta e Nando vão a um salão de bowling e encontram lá Felipe e Carolina. Provocação puxa provocação, os quatro acabam à pega, culminando com Nando a pegar em Carolina, que dá por si a deslizar até aos pinos.
Tal como no Brasil, "Guerra Dos Sexos" fez grande sucesso em Portugal, e vários actores que viram a Portugal durante a exibição da RTP puderam comprovar isso, como foi o caso de Tarcísio Meira, Glória Menezes, Maitê Proença, Maria Zilda, Leina Krespi e Mário Gomes. A banda sonora da telenovela também fez sucesso, com destaque para o tema do genérico interpretado pelos Fevers e dois temas que ilustravam cenas de Juliana, "Hold Me Till The Morning Comes" de Paul Anka e Peter Cetera e "Straight From The Heart" de Bryan Adams.
Capa do álbum da banda sonora
Quando "Sassaricando", também da autoria de Sílvio de Abreu e com vários actores das duas novelas, estreou no nosso país em 1988, a RTP promoveu a telenovela como sendo "da mesma equipa da "Guerra Dos Sexos".
Em 2012, surgiu um remake de "Guerra Dos Sexos", com muitos nomes conhecidos e o português Paulo Rocha no papel de Fábio. Irene Ravache, a Charlô do remake, tinha tido uma participação especial na versão original como uma das cinco ex-mulheres de Felipe, Edson Celulari, o Zenon da versão original, foi Felipe e Marilu Bueno recuperou o papel de Olívia.
Parece incrível mas foi há precisamente dez anos, no dia 4 de Março de 2012, que a primeira página desta Enciclopédia de Cromos foi escrita. Inspirado pelas saborosas ondas de nostalgia que a "Caderneta de Cromos" da Rádio Comercial desencadeou no país inteiro, o David Martins iniciou este blogue que pretendia expandir essas memórias e outras memórias das três últimas décadas do século XX, que preencheram a vida daqueles que nasceram e cresceram nelas.
Eu próprio também tive a mesma ideia e até rascunhei alguns textos, mas por um motivo ou outro, acabei por nunca criar um blogue. Porém, descobri este e decidi enviar alguns textos por e-mail ao David, que mais tarde deu-me acesso a escrever directamente no blogue. E foi o início de uma parceria e, apesar de nunca nos termos encontrado pessoalmente, de uma grande amizade.
Mais do que um simples compêndio de informação sobre filmes, músicas e outros elementos da cultura pop dos anos 70, 80 e 90 (e depois também dos anos 2000), para nós e para todos aqueles que também colaboraram no blogue, nomeadamente o Paulo Gomes, foi uma maneira de contar as nossas memórias do que foi ter sido criança, adolescente e jovem adulto nesses tempos, ainda para mais tendo ambos crescido em meios mais pequenos, especialmente em comparação à Lisboa do cromos do Nuno Markl.
Ao longo destes dez anos, tem sido uma experiência gratificante ajudar a ampliar esta Enciclopédia e sempre que penso que gastei todos os temas a serem abordados, acaba por surgir outro que ainda não me tinha ocorrido. E ainda mais gratificante é sentir o apoio de todos aqueles que leem o blogue e que nos seguem na página do Facebook, ler os relatos daqueles que nos agradeceram por nos fazerem relembrar boas recordações dos seus tempos mais jovens e os elogios ao trabalho desenvolvido, nomeadamente por parte do Nuno Markl, que durante o breve reboot da "Caderneta de Cromos" por ocasião dos 10 anos da rubrica original, citou várias vezes a "Enciclopédia de Cromos" como uma das suas fontes.
Esperamos poder continuar convosco, leitores e seguidores da Enciclopédia de Cromos, para os anos que se seguem. Muito obrigado por estarem desse lado!
O início dos anos 90 foram férteis em termos de ficção nacional televisiva em vários géneros, com várias série a serem exibidas na RTP e no advento da SIC, embora nem todas com os melhores resultados. Foi o caso desta série que partia de uma premissa bem interessante e embora a execução não tenha sido a melhor, julgo que merecia ter tido mais atenção.
"O Cacilheiro Do Amor" foi uma série da autoria de Júlio César e Mário Lindolfo, sob realização de Nicolau Breyner e produção de Carlos Paço D'Arcos. Dos oito episódios, os cinco primeiros foram exibidos nas tarde de quinta feira entre 16 de Agosto a 13 de Setembro de 1990 na RTP1. Porém, com a entrada da nova grelha, a emissão da série foi descontinuada e, segundo consta no portal de arquivos da RTP onde a série já se encontra disponibilizada, os três restantes episódios só viriam a ser exibidos a 31 de Dezembro de 1991, mais de um ano depois e tem sido reposta algumas vezes na RTP Memória.
Como o próprio título deixa antever, a série era uma paródia à famosa série "O Barco Do Amor" (que, nem de propósito, estava na altura a ter uma temporada exibida na RTP2), com um humor nonsense ainda pouco visto na teledramaturgia nacional.
E se tal como nos luxuosos cruzeiros de "O Barco Do Amor", uma travessia no Tejo a bordo do cacilheiro, entre Cacilhas e o Seixal, proporcionasse a mesma experiência aos portugueses amantes de viagens e aventuras? Como tal, existe "O Cacilheiro Do Amor" sob comando do Comandante Alves Teodósio (Manuel Cavaco), que ostenta orgulhosamente as suas medalhas, e do temperamental imediato Octávio (Luís Aleluia). Josefa Linhares (Margarida Carpinteiro) é a diretora do cruzeiro, mulher acesa, versada em provérbios e que comunica tudo em português do Portugal e do Brasil. O médico do navio é Tito Gaspar (Luís Vicente), que divide as preocupações entre os cuidados com os pacientes e os números do Totoloto, auxiliado pela enfermeira Lisete (Alexandra Diogo). No freeshop, a doce Betinha (Cristina Paço D'Arcos) vende galos de Barcelos e outros souvenirs enquanto suspira pelos cantos pelo Doutor Tito. Albino (Aristides Teixeira) é o barman do cacilheiro, que também dispõe de um salão de barbeiro, onde o dito (Octávio Matos) está sempre a par das fofocas. A segurança do navio é assegurada por Simões (António Rocha), um segurança tão feroz que ruge em vez de falar e tão competente que raramente precisa de sair do seu camarote.
O trio As Estares proporcionam momentos de entretenimento a bordo. Antes de cada partida, os passageiros têm de passar pelas trovas do bilheteiro (Rui Luís), um velho do Restelo dos tempos modernas. E há uma passageira (Adelaide João) sempre acompanhada de uma boia em forma de pato, dividida entre o seu medo de andar de barco e o vício na adrenalina que sente ao fim de cada viagem.
Ao longo dos oito episódios, era possível ver alguns actores sem papel fixo desempenhando papel de passageiros, geralmente comentando entre si sobre os acontecimentos de cada episódio, como por exemplo, José Raposo, Licínio França, Rui Paulo, Mafalda Drummond, Carlos Areia e Marcantónio Del Carlo.
Um gag recorrente do humor nonsense característico da série era o facto do barco ser movido pela força de remadores descamisados, que pareciam saídos de uma galé romana, com um baterista e um guitarrista a marcarem o ritmo.
Na exibição original, eu só vi os três primeiros episódios, e o que mais se destacou foi o segundo episódio onde o Cacilheiro Do Amor recebe um grandioso evento: a eleição da Miss Tejo. Sob o controlo férreo da Frau Grünchen (Noémia Costa), são cinco as candidatas ao título: Sandra Isabel (Miss Douro), Sandra Cristina (Miss Guadiana), Sandra Filomena (Miss Mondego), Sandra Floripes (Miss Nabão) e Sandra Raquel (Miss Ribeira de Loures, interpretada por Maria João Abreu). Mas eis que rebentam dois escândalos: o cronista social Nelson Vanderley descobre que uma candidata é casada e mãe de dois filhos e o ceptro para premiar a vencedora é roubado! Mas claro, no final tudo se resolve.
Como já referi, "O Cacilheiro Do Amor" foi uma série que merecia ter tido mais atenção, embora nem sempre as piadas fossem as mais acertadas. Também sou da opinião que, para fazer mais jus ao título e à fonte de inspiração, talvez tivesse sido melhor explorar uma vertente mais romântica e refrear um pouco o humor nonsense.
Segundo o sempre indispensável "Brinca Brincando", a série acabou por causar uma disputa legal entre dois dos sócios da produtora EV, Nicolau Breyner e Carlos Paço D'Arcos, com este a acusar Breyner, que também era o realizador, de causar prejuízos devido aos seus preciosismos na direção e aos atrasos nas gravações.
O actor Luís Pavão, que disponibilizou no YouTube algumas cenas da sua participação no 4.º episódio, conta por exemplo sobre esta cena: "No estúdio estavam um módicos 53 ou 54 graus, o leitão fedia a quilómetros. A cena foi adiada repetidamente vários dias... Um perfume!"
Entre os aspectos mais positivos da série, está sem dúvida o tema do genérico, da autoria de José Cid.