segunda-feira, 18 de julho de 2022

Bobby McFerrin "Don't Worry Be Happy" (1988)

Existem canções que logo à primeira audição dá para ver que são tão intemporais que parece que tanto podiam ter sido recentes como antigas. É o caso desta canção que é de 1988, mas que eu na altura julgava que era dos anos 60, ou pelo menos, uma cover actualizada. Mas não, é mesmo dos anos 80 e foi um enorme hit, chegando ao n.º 1 de vários tops, incluindo Estados Unidos, Austrália e Alemanha e utilizado em vários meios, desde o filme "Cocktail" com Tom Cruise aos anúncios dos pensos higiénicos Evax. 



Reza a lenda que foi o guru indiano Meher Baba (1894-1969) que criou o slogan "Don't Worry Be Happy" de forma a angariar seguidores ocidentais. Ao longo dos anos 60, foram surgindo vários posters e cartões com essa frase e foi precisamente um desses posters que viu em casa de uns amigos em São Francisco que Bobby McFerrin teve a ideia para compor a canção que seria o seu único grande momento de sucesso mainstream. Canção essa que não utilizava mais do que a voz e alguns estalidos de dedos e percussões corporais do próprio McFerrin.



Robert Keith McFerrin Jr. nasceu a 11 de Março de 1950 em Manhattan. O seu pai, Robert McFerrin sénior, foi um dos primeiros cantores líricos negros a cantar em grandes palcos nos Estados Unidos. Já o McFerrin filho herdou os talentos vocais, sendo capaz de cantar em registo multifónico (ou seja em diversos tons, tipo uns Tetvocal de um homem só), fazendo carreira no jazz. O seu segundo álbum, "The Voice" (1984) fez história por ser o primeiro álbum jazz gravado sem qualquer acompanhamento instrumental (uma das faixas desse álbum chama-se "I'm My Own Walkman"!) mas seria o seu quarto álbum, "Simple Pleasures", que conteria o seu grande hit "Don't Worry Be Happy". 

Assim de repente, dizer a alguém para simplesmente deixar de se preocupar e ser feliz parece positividade tóxica. (Por exemplo, ouvir esta canção durante  o confinamento da pandemia não deve ter sido muito recomendável.) Tal como eu, como a pessoa ansiosa que eu sou, detesto que me digam repetidamente para ter calma, como se a calma me surgisse só por a enunciarem. Contudo, creio que a verdadeira mensagem da canção está no verso "in every life we have some trouble, but when you worry you make it double", ou seja, os problemas são inevitáveis na vida mas frequentemente a preocupação excessiva só prejudica mais a situação.  



Além disso, além de toda a mestria acapella com que foi construída, "Don't Worry Be Happy" tinha uma aura de cantilena popular que lhe conferia uma aura intemporal, que até custava a crer que era então uma canção do presente e não um eco do passado. E depois havia o videoclip com Bobby McFerrin em divertida interação com os comediantes Robin Williams e Billy Irwin. (Consta que Williams dissera que só estava disponível para 20 minutos de filmagem mas acabou por ficar o dia inteiro!) 

Bobby McFerrin em 2021


Embora "Don't Worry Be Happy" tenha ajudado ao sucesso do álbum "Simple Pleasures", os singles seguintes passaram despercebidos e McFerrin calmamente saiu dos holofotes do mainstream e prosseguiu os projectos que bem entendeu. Além de continuar a editar discos de jazz (o mais recente em 2013), foi professor universitário, investigador de musicologia, maestro da Orquestra de São Francisco e maestro convidado em várias orquestras em todo o mundo. Quanto à sua relação com o hit que o tornou num nome conhecido, ela tem variado ao longo dos anos: em 2002, num programa da VH1 sobre one hit wonders, Bobby McFerrin disse que chegara um nível de tal saturação que já nem mais a conseguia cantar, mas desde então têm havido alguns registos de McFerrin a cantar "Don't Worry Be Happy" ao vivo. Não sei se a cantou quando ele veio cá em 2018 ao Festival EDP Cool Jazz, mas adivinhem qual foi a canção usada nas promos? 


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Publicidade RTP1 (Junho 1990)

Voltamos a analisar blocos publicitários, desta vez uns do dia 27 de Junho de 1990 na RTP1, antes e durante a exibição do filme "Filhos De Um Deus Menor". Estávamos pois no início do Verão de 1990 e eu deveria estar pulgas por mais um Verão em cheio, com a colónia de férias da Zona Alta em Julho, as férias no Algarve em Setembro e sobretudo, muita televisão para eu ver à vontade. As preocupações sobre a minha transição da escola primária para o ciclo preparatório podiam esperar. 

Uma vez mais, um enorme agradecimento ao canal PT Vaults, por disponibilizar estes vídeos no YouTube, e a Afonso Gageiro pelo acervo de onde eles provêm.

- Vinheta RTC
- Hoje em dia há muita concorrência, mas na altura as Chiclets eram líderes no reino das pastilhas, ao ponto de até serem usadas como sinónimos. E uma vez mais é Gustavo Sequeira, o rei dos jingles publicitários, que dá a voz. 
- Era tempo de trabalhar para o bronze, e a Piz Buin tinha este anúncio bem vistoso com um homem e uma mulher bem bronzeados sob um belíssimo céu azul cobalto (suponho que algures na Grécia). Ele deixa cair uma embalagem na água e ela mergulha com uma graciosidade de uma atleta olímpica para a ir buscar.
- Apetitosas imagens de frutas (laranjas, ananases e morangos) ilustram este anúncio às gelatinas Royal.
- A nossa eterna resposta às internacionais bebidas gaseificadas de lima-limão Sprite e SevenUp, a Snappy apostava num anúncio com motas e automóveis em manobras radicais.
- É verdade, nem sempre as embalagens de iogurtes líquidos tiveram a forma cilíndrica ou de garrafa como agora. Algumas tinham uma forma de cálice e uma abertura larga como então tinha o iogurte líquido da Mimosa, com que os jovens deste anúncio se deleitam à beira-mar.  
- Um vistoso anúncio em tons negros para anunciar o sistema Mega Bass da Sony que quando activado nos seus diversos produtos (rádios, walkmans e discmans) realçava os sons mais graves/baixos. Os dois Walkman da Sony que tive tinham esse botão, que escusado será dizer, estava sempre activado.  
- Um senhor perdido no meio do deserto chama a Assistência Renault
- Sabonete líquido Johnson - com uma sideboob
- Tchi que memória esta! O gelado Happy da Camy (Nestlé) que prometia mudar de sabor e de cor, com um miúdo na praia com uma toalha a fazer de capa a mudar as cores em tudo à volta. Escusado será dizer que quis experimentar, mas o problema é que havia poucos sítios onde se podiam comprar gelados da Camy nas redondezas. Finalmente experimentei quando eu e os outros miúdos da colónia de férias fomos ao parque de campismo da Golegã e quatro de nós reparámos que o bar vendia gelados da Camy e cada um comprou o seu Happy. Tal como o miúdo do anúncio provámos com toda a solenidade, cada um com a sua toalha a fazer de capa. Mas lembro-me que o(s) sabor(es) não eram nada por aí além e a mudança de cor era devida às várias camadas.    
- Anúncio em preto e branco ao Perfume Limara com uma voz feminina a falar em inglês.
- Hoje é uma presença incontestável nas secções de detergente de cada supermercado tuga mas foi só em 1990 que o detergente Persil chegou a Portugal, ou não fôssemos o país do "tarda mas não falta" por excelência. Na altura, queria destacar-se como sendo o detergente mais ecológico sem os fosfatos poluentes dos outros e o anúncio queria transmitir que no resto da Europa, isso já era um hábito, com testemunhos vindos alegadamente dos Países Baixos, Áustria e Suíça.    
- Por falar em tarda mas não falta, ainda estávamos a um ano da McDonald's chegar a Portugal e as hamburguerias que cá havia ainda eram muito poucas, por isso a opção então mais viável seria os hamburgers congelados, como os da Iglo (que até vinham com a variedade cheeseburger!). Lembro-me bem deste anúncio ao som de um jingle adaptado de "Happy Together" dos The Turtles em que uma típica cozinha transformava-se numa hamburgueria vistosa e uma senhora idosa até fica a andar à roda depois de provar! 
- Para combater o calor do Verão, nada como um ar condicionado Pinguin Delonghi transportável! 
- Na altura, se alguém que jogasse no Totoloto quisesse manter o anonimato em caso de prémio tinha de colocar uma cruzinha no quadrado do boletim destinado a esse efeito. Foi o caso de um emigrante na Suíça que assinou essa cruzinha e arrecadou 186 mil contos (cerca de 930 mil euros) sem ter o seu nome divulgado. Recordo-me que houve outra versão deste anúncio mas com um apostador de Guimarães.  
- Promoção ao filme "Um Espião No Purgatório" e ao documentário "Os Soviéticos", a serem exibidos na noite seguinte.
- Vinheta da "Lotação Esgotada"
- Isabel Bahia faz o prelúdio do filme "Filhos De Um Deus Menor" com William Hurt e Marlee Matlin, com esta a ganhar o Óscar de Melhor Actriz. (E é verdade, antes da "Lotação Esgotada" havia desenhos animados dos Looney Toons, nomeadamente os do Coiote e do Papa-Léguas.)


- William Hurt numa cena do filme, antes deste curtíssimo bloco com apenas um anúncio. 
- Ainda não reparei, mas ainda existem desodorizantes Impulse à venda? Este bem vistoso anunciava uma nova variedade, "Très L.A.", e claro não faltava um desconhecido de repente a oferecer flores a uma beldade que passeia alegremente pela cidade. 



- De novo, William Hurt algo admirado, antes de uma nova pausa comercial.
- Mais um anúncio a bronzeadores, desta vez da marca Delial, em tons de amarelo.
- Uma esfregona Vileda a limpar facilmente uma poça de tinta no chão.
- Uma das sempiternas maçadas de Verão são os mosquitos. Para os combater havia o repelente Tabard. "E resulta!"
- Um sensual anúncio ao gelado Rol da Olá, com uma boca feminina e a voz de Helena Ramos num tom bem sensual. (Bem que a Olá podia relançar o Rol!)
- Lembram-se de um anúncio em que um rapaz pedia dois TriNaranjus e dizia que era um para ele e outro para o amigo e mais tarde pede três, alegando que o amigo trouxe a namorada (sendo que o amigo e a namorada era fictícios e era o rapaz que emborcava todo aquele sumo)? Eis então aqui uma sequela em meta-referência com o mesmo actor a fazer de empregado de mesa em que uma jovem pede também dois TriNaranjus mas que adverte logo: "Eu não sou como o outro, eu gosto mesmo de beber dois!" A jovem do anúncio é Mafalda Amorim, mais tarde conhecida como Mafalda Bessa, casada com Nicolau Breyner aquando o falecimento deste. 
- As lâminas de barbear Schick Advantage eram equiparadas a um automóvel neste anúncio
- Limpando o chão com Vim Líquido, a limpeza é tal que uma família até come assentada no chão, embora reclame o petiz: "Porque não comemos à mesa como toda a gente?"
- Uma beldade loura chega a casa exausta do trabalho mas logo recupera a energia graças a um belo duche com o gel duche Badedas
- Para combater as unhas falhadas ou partidas, o endurecedor Durcilong Gemey que até faz o verniz Gemey durar duas vezes mais.
- Um divertido anúncio da Pepsi com o actor Michael J. Fox, que vai à ópera e após uma série de peripécias em busca de uma Pepsi se vê no papel principal do libreto. 
- Em mais um episódio de "Portugal tarda mas não falta": um anúncio teaser que dizia Portugal esperou mais de 70 anos por este momento e que por detrás da porta do frigorífico será diferente. Esse mistério era nada menos da chegada da Danone ao nosso país! Fundada em Espanha em 1919, só em 1990 é que este gigante dos lacticínios chegou para cá da fronteira!
- Alcatel Portugal, "a primeira figura no cenário da alta tecnologia". 
- Electrodomésticos Bosch "trabalham trabalham trabalham".
- Um dos carros da nossa família foi um Volkswagen Golf, por isso é um automóvel pelo qual sempre tive um carinho especial. Neste anúncio, o Golf é representado por uma bola de...golfe e a voz off refere que a cada passo de inovação do Golf, outros quiseram logo seguir as pisadas, mas o dito é inimitável. 
- Maria Lurdes Modesto, um dos maiores ícones da culinária nacional, dá o seu aval ao tempero para saladas da Calvé!
- Promo à série "Miller & Mueller", com a americana Suzanne Savoy e a luxemburguesa Desirée Nosbuch (a apresentadora do Festival da Eurovisão de 1984) encarando as personagens titulares. Durante uma estadia na Alemanha, o detective David Miller casa com a sua colega novata germano-americana Kim Mueller, mas quando esta vai com ele para os States, descobre que não só o divórcio de David não está concluído, pelo que continua casado com a suposta ex-mulher Bonnie, como esta é a sua chefe no seu novo trabalho numa esquadra. Para piorar as coisas, David morre misteriosamente antes da situação se resolver, pelo que as duas são obrigadas a trabalhar juntas não só nos casos da esquadra mas para investigar que aconteceu ao marido de ambas. Esta série substituiu o reboot anos 80 de "Missão: Impossível" nas noites de sexta-feira da RTP1.    

Bónus: o programa "Vamos Jogar No Totobola" sobre a Base Aérea dos Açores.



segunda-feira, 23 de maio de 2022

Manequim (1987)

 Recordamos hoje mais um daqueles filmes que só podiam ter existido nos anos 80. "Manequim" é uma comédia romântica de 1987 realizada por Michael Gottlieb e protagonizado por Andrew McCarthy e Kim Cattrall, sobre um jovem que se apaixona por um manequim, ou melhor, pelo espírito da jovem mulher aprisionada nesse manequim. (Dito assim, até parece que é um filme sobre essa vertente da objectofilia mais fielmente abordada no filme "Lars e o Verdadeiro Amor".) 



Jonathan Switcher (McCarthy) é um jovem escultor de Filadélfia cuja sensibilidade artística leva-o a ser constantemente despedido dos seus empregos, já que isso o torna demasiado lento para o trabalho, e é deixado pela sua namorada Roxie (Carole Davis), que não compreende a sua veia artística. 
Numa noite chuvosa, Jonathan para diante da montra dos armazéns Prince & Company e repara que está lá um dos manequins que ele criou. No dia seguinte, Jonathan salva Claire Timkin (Estelle Getty), a dona da Prince & Company, de ser atingida pela queda do letreiro da loja e como agradecimento, ordena ao seu gestor Daryl Richards (James Spader) que lhe dê emprego. É então que Jonathan passa a colaborar com Hollywood Montrose (Meshach Taylor), o exuberante e divertido vitrinista dos armazéns. 



Certa noite, enquanto Jonathan vai compondo uma montra, fica estupefacto ao ver o manequim que admirara na noite chuvosa ganhar vida, falando e andando como uma mulher a sério (Cattrall). Ela explica que se chama Ema Hesire, ou Emmy, e nasceu no Antigo Egipto, onde um dia, na iminência de ser forçada a um casamento arranjado, refugiou-se numa pirâmide e rogou aos deuses que lhe ajudassem a encontrar o verdadeiro amor. Desde então o seu espírito tem contactado com vários artistas a quem serviu de musa, mas embora tenha conhecido grandes artistas e feito bons amigos, ainda não encontrou o verdadeiro amor que lhe fará novamente ser uma mulher de carne e osso. Emmy previne também que os deuses só a permitem estar na forma humana enquanto ela e Jonathan estiverem sozinhos. 


Com a ajuda de Emmy, as montras criadas por Jonathan dão um renovado sucesso à Prince & Company, para mal de Richards (que na verdade é pago pelos armazéns rivais Illustra para arruinar e depois comprar a Prince & Company) e do Capitão Felix Maxwell (G.W. Bailey, num decalque do Tenente Harris de "Academia De Polícia), que sempre antipatizou com Jonathan. Já Hollywood por vezes apanha Jonathan com Emmy (em manequim) e conclui que o amigo tem um relação especial com o manequim, mas não o julga.  



BJ Wert (Steve Vinovich), o dono da Illustra, pede a Roxie que convença o ex-namorado a vir trabalhar para eles, mas Jonathan, cada vez mais apaixonado por Emmy e feliz por trabalhar num local onde é valorizado, recusa. Enquanto isso, descontente com as suas atitudes, Claire despede Richards e Maxwell e promove Jonathan a vice-presidente da loja. Certa noite, Jonathan leva Emmy a passear pela cidade na sua mota, indiferente ao facto de ela se transformar em manequim assim que alguém os vir. Só que sucede que Richards e Maxwell os observam e descobrem a fixação de Jonathan pelo manequim. Como tal decidem roubar todos os manequins da Prince & Company.

Ao saber do roubo, Jonathan dirige-se à Illustra com a ajuda de Hollywood para salvar Emmy. Esta está prestes a cair dentro de uma máquina trituradora quando no instante final, Jonathan salva-a e ela torna-se definitivamente humana, sinal de que ele é o seu verdadeiro amor. Wert e Richards ordenam à polícia que prendam Jonathan mas Claire intervém com provas de filmagens de videovigilância do roubo dos manequins. (Quando Jonathan lhe pergunta sobre se ela viu imagens dele com Emmy, Claire diz-lhe para não se preocupar com isso.) No final, Jonathan e Emmy casam-se na montra da Prince & Company, com Hollywood e Claire como padrinhos.      


Segundo consta, foi o próprio realizador Michael Gottlieb que teve a ideia para o filme quando um dia viu na montra um manequim, que devido a uma ilusão com luzes, parecia que se mexia. Foram utilizados no filme seis manequins com diferentes expressões, criados por um escultor para o qual Kim Cattrall pousou durante seis semanas. O papel de Jonathan foi inicialmente pensado como sendo o de um homem mais velho, para tentativamente ser interpretado por Dudley Moore, até que se optou por ser reescrita como uma personagem mais jovem. (Aliás na altura Andrew McCarthy tinha 24 anos e Kim Cattrall tinha 30.) 

Apesar de ter sido arrasado pela crítica, "Manequim" foi um sucesso de bilheteira, e mais tarde, de aluguer de vídeo. Outro factor importante para o sucesso foi o tema principal, "Nothing's Gonna Stop Us Now" da banda rock Starship, que se tornou um hit global e foi nomeado para o Óscar de Melhor Canção Original. Kim Cattrall teve aqui o seu primeiro grande  papel de protagonista (e ainda estávamos a onze anos daquele que seria o seu papel mais célebre em "O Sexo e A Cidade").
Mas o grande destaque é Meshach Taylor, um scene stealer no papel de Hollywood Montrose, que à primeira vista parece ser todo um estereótipo do gay extravagante e colorido (até a cobertura do seu carro é azul com bolinhas vermelhas!) mas numa altura em que a homossexualidade era mostrada em Hollywood ora em meias-tintas ora de forma trágica, um filme onde uma personagem gay confortável na sua pele, que não é julgada (excepto pelos vilões), que tem vida amorosa (ele refere várias vezes o seu namorado Albert) e amigos que o defendem, e que não vira a cara à luta ("As duas coisas que eu mais gosto de fazer é lutar e beijar rapazes!") era algo inovador. 


Em 1991, surgiu a sequela, "Manequim de Carne e Osso", que apesar da trama se passar na mesma loja em Filadélfia, entraram apenas dois actores do primeiro filme: Meshach Taylor de novo como Hollywood Montrose e Andrew Hill Newman, que no primeiro filme era o empregado de limpeza que, ao ver Emmy ganhar vida quando Jonathan a salva da máquina trituradora, começa a beijar os outros manequins para ver se alguma deles também se transforma em mulher, e que no segundo é um segurança da loja. 

Trailer:


"Nothing's Gonna Stop Us Now" Starship:





terça-feira, 3 de maio de 2022

Festival da Eurovisão 1997


Aproxima-se mais uma edição do Festival da Eurovisão e como é de tradição, recordamos mais uma edição antiga. Desta feita, recuamos 25 anos até ao dia 3 de Maio de 1997 e até Dublin, capital da Irlanda.


O 42.º Festival da Eurovisão teve lugar no Point Theatre de Dublin, tal como em 1994 e 1995. Devido a quatro vitórias da Irlanda nos últimos cinco anos, a televisão irlandesa RTÉ já estava um bocado estafada demais por ter de organizar tantos certames (para não falar dos custos dos ditos). A princípio até foi equacionada uma organização conjunta com a BBC da Irlanda do Norte. A apresentação esteva a cargo de Carrie Crawley e Ronan Keating, da célebre boyband irlandesa Boyzone que fazia muito sucesso na altura. Aliás foram os Boyzone que estiveram na actuação de intervalo entre o desfile das canções e as votações, com um tema inédito "Let The Message Run Free". Carlos Ribeiro fez os comentários para a RTP e Cristina Rocha foi a porta-voz dos votos de Portugal. 



Uma das razões pelas quais eu ainda não tinha feito um artigo sobre esta edição foi porque eu tinha guardado más memórias dela, devido ao aziago resultado de Portugal. Mas durante o confinamento, eu revi esta edição e, ultrapassando esse espinho, tive de concordar que foi uma edição muito bem conseguida a vários níveis. Na altura, a Irlanda vivia um tempo de prosperidade e queria ser vista como um país moderno, já para além dos tradicionais clichés culturais. Além disso na altura, a tecnologia dava importantes avanços, pelo que foi interessante e premonitório ver ecrãs a dominarem esta edição, do palco ao genérico inicial, passando pelos postcards. E se no início da década, parecia haver um certo desfasamento entre as canções do Festival e os sons que dominavam na altura, aqui as canções concorrentes reflectiam bem vários tipos de sonoridades dos anos 90. 

Outra particularidade desta edição foram as mensagens de vários antigos participantes do Festival da Eurovisão a recordarem a sua passagem pelo certame e a desejar boa sorte aos intérpretes: Benny Andersson e Bjorn Ulaveus dos ABBA (Suécia 1974), Céline Dion (Suíça 1988), Julio Iglesias (Espanha 1970), Cliff Richard (Reino Unido 1968 e 1973), Bucks Fizz (Reino Unido 1981), Sandra Kim (Bélgica 1986), Bobbysocks (Noruega 1985), Johnny Logan (Irlanda 1980 e 1987), Secret Garden (Noruega 1995) e os responsáveis pelas quatro últimas vitórias da Irlanda, Linda Martin (1992), Niamh Kavanagh (1993), Charlie McGettigan & Paul Harrington (1994) e Eimear Quinn (1996).

25 países participaram neste ano: ausentes no ano anterior, Alemanha, Dinamarca, Hungria e Rússia regressaram neste ano bem como a Itália, que não participava desde 1993. Já Bélgica, Finlândia e Eslováquia, participantes em 1996, ficaram de fora este ano. Era também suposto Israel regressar em 1997, mas como a data do Festival coincidia com a de uma data religiosa dedicada às vítimas do Holocausto, declinou a participação pelo que Bósnia & Herzegovina ocupou a vaga. Importa ainda referir que pela primeira vez foi introduzido o televoto popular no Festival da Eurovisão, mas em apenas cinco países (Áustria, Alemanha, Reino Unido, Suécia e Suíça) e por causa disso, pela primeira vez foi exibido um resumo das actuações de todos os países onde seriam indicados nos países com voto telefónico os números correspondentes a cada canção, algo que rapidamente viria a tornar-se comum no Festival da Eurovisão. 

Como habitualmente, vamos rever as canções por ordem inversa da classificação.  

Célia Lawson (Portugal)

E o melhor é arrancar logo o penso: nesse ano, pela primeira vez desde a sua participação inaugural em 1964, Portugal não recebeu qualquer ponto. Sem dúvida um resultado deveras injusto para a nossa canção "Antes Do Adeus" na voz de Célia Lawson, que estava a longe de ser a pior canção das que desfilaram nesse ano. Contudo, também não era das mais memoráveis e como tal acabou por passar despercebida aos júris e televotos europeus. Célia Lawson ficou conhecida pela sua participação na terceira edição do "Chuva De Estrelas" onde chegou à grande final com uma imitação de Oleta Adams, (tal como o seu irmão Paulo imitando Jim Kerr dos Simple Minds) e tinha acabado de lançar o seu primeiro álbum "First". A acompanhá-la em palco estava um coro de quatro vozes, a fazer lembrar os agentes do Matrix (um deles, o mais alto, era nada menos que Mico da Câmara Pereira). A música e a orquestração estiveram a cargo de Thilo Krassmann e a letra (que mencionava Pedro Abrunhosa e José Saramago) era de Rosa Lobato Faria, na quarta e última vez que assinara uma letra para uma canção eurovisiva. Célia Lawson também escreveu a letra de "Eu Sou Aquele" dos Excesso. Em 2017, participou no "The Voice". 

Tor Endersen (Noruega)

Mas pelo menos, Portugal não provou sozinho a amargura dos nul points, já que a Noruega foi também corrida a zeros. O que também foi um choque para este país que vinha de uma vitória em 1995 e de um segundo lugar em 1996. Ainda por cima, Tor Endersen finalmente conseguira ir à Eurovisão depois de ter tentado sete vezes antes (fez parte do coro da canção norueguesa de 1988). Contudo, apesar dos zeros e devido a um novo sistema de relegação que apurava a média de pontos de cada país no últimos cinco anos, Portugal e Noruega puderam participar em 1998.    

Barbara Berta (Suíça)

Mrs. Einstein (Países Baixos)

Mais acima, Suíça e Países Baixos repartiram o 22.º lugar com 5 pontos. Barbara Berta representou as cores helvéticas com uma canção em italiano da sua autoria, "Dentro Di Me".
Já os Países Baixos levaram o quinteto feminino Mrs. Einstein com a canção "Niemand Heeft Nog Tijd" ("já ninguém tem tempo"). O grupo que na altura era formado por Linda Snoeij, Suzanne Venneker, Marjolein Spijkers, Saskia van Zutphen e Paulette Willemse estava no activo desde 1990, e embora só tenham editado um disco por ocasião da participação na Eurovisão, as Mrs. Einstein continuam a actuar por terras holandesas, com Spijkers, van Zutphen e Willemse ainda na formação actual. 

Bettina Soriat (Áustria)

A Áustria foi representada por Bettina Soriat, que esteve no coro da canção austríaca do ano anterior. Com uma larga experiência como cantora e bailarina, tendo participado em vários musicais do meio teatral de Viena, Soriat levou a Dublin o tema "One Step" onde evidenciava os seus dotes de dançarina, que ficou em 21.º lugar com 12 pontos.

Paul Oscar (Islândia)

A Islândia foi o último país a actuar e ficou em 20.º lugar com 18 pontos, mas a sua actuação foi uma das mais marcantes da noite e bastante ousada para a época. Paul Oscar cantou "Minn Hansti Dans" ("minha dança final") sentado num sofá branco, acompanhado por quatro bailarinas vestidas de cabedal. Com uma carreira artística desde infância e abrangendo vários estilos, Paul Oskar tinha-se também notabilizado no seu país como DJ e figura de proa da comunidade LGBT. A sua canção era um tema techno-pop que não destoaria numa Eurovisão da década seguinte. Há que notar que três dos quatro países que deram pontos à Islândia foram os que tinha televoto, pelo que fica a ideia que se a maioria dos países tivesse voto popular nesse ano, quem sabe se o resultado não teria sido melhor.

Bianca Schomburg (Alemanha)

Alma Cardzic (Bósnia & Herzegovina)

A Alemanha e a Bósnia & Herzegovina ficaram em 18.º lugar com 22 pontos. A representante alemã foi Bianca Schomburg, que no ano anterior, vencera a primeira final europeia do "Chuva de Estrelas" imitando Céline Dion (com Portugal em segundo lugar com Rui Faria como Elton John). Em Dublin, cantou "Zeit" ("tempo"). Aproveitando uma nova regra que permitia uma faixa gravada completa, a Alemanha foi um dos quatro países que não recorreram à orquestra. 
Já a Bósnia & Herzegovina foi representada por Alma Cardzic, que já tinha representado o país em 1994 (também em Dublin) em dueto com Dejan Lazarevic, que agora a solo cantou "Goodbye". 

ENI (Croácia)

Como se lembram, em 1997, as cinco mulheres mais famosas dos planeta eram as Spice Girls, por isso não era admirar que algum país apostasse em trazer algum do espírito das raparigas especia(r)i(a)s para a Eurovisão. E esse país foi, algo surpreendentemente, a Croácia que com o grupo ENI e a canção "Probudi Me" ("desperta-me"), era impossível não associar à estética e sonoridade das Spice Girls: Elena Tomecek evocava a sensualidade de Geri Halliwell e Ivona Maricic a inocência de Emma Bunton, enquanto Nikolina Tomljanovic surgiu desportiva como Melanie C. e Iva Mocibob representaria talvez um elo perdido entre Melanie B. e Victoria Beckham. A Croácia ficar-se-ia pelo 17.º lugar com 24 pontos. Mas ao contrário das Spice Girls, as ENI têm continuado juntas no activo no seu país desde então. 

Kolig Kaj (Dinamarca)

A Dinamarca também apostou na diferença com um tema rap, "Stemmen I Mit Liv" ("a voz na minha vida") interpretado por Thomas Laegard Sorensen, aliás Kolig Kaj, sobre um homem obcecada sobre uma voz feminina que ele ouviu por acaso num chamada de sondagens, ficando em 16.º lugar com 25 pontos. A Dinamarca só voltaria a levar um tema completamente em dinamarquês à Eurovisão em 2021.  

Alla Pugacheva (Rússia)

Na sua terceira participação, a Rússia foi representada por uma das maiores cantoras do país desde os tempos da União Soviética. Com uma carreira iniciada em 1965, Alla Pugacheva já vendera mais de 200 milhões de discos e gravara em várias línguas e em 1991, foi condecorada como a "Artista do Povo da URSS". Com tanta consagração, fazia sentido que Pugacheva tivesse cantado um tema intitulado "Prima Donna". Curiosamente na altura, ela era casada com Philipp Kirkorov, o representante russo em 1995. Apesar da primorosa interpretação, a Rússia ficou em 15.º lugar com 33 pontos e só voltaria a participar na Eurovisão em 2000.    

Blond (Suécia)

Na altura, também as boybands estavam em alta e não foi de estranhar que dois países tivessem sido representados por uma boyband. Um deles foi a Suécia com o trio Blond, que como o nome indicava, era composto por três membros bem loirinhos: Jonas Karlhager, Gabriel Forss e Patrick Lundstrom. Os três cantaram "Bara Hon Älskar Mig" ("se ao menos ela me amasse"), alcançando o 14.º lugar com 36 pontos. 

VIP (Hungria)

O outro país que levou uma boyband foi a Hungria. Os VIP cantaram "Miért kell, hogy elmenj?" ("porque tiveste de partir?"), uma balada que se fosse em inglês, não destoaria no repertório dos Backstreet Boys. O grupo era composto Jozsa Alex, Imre Rakonczai, Viktor Rakonczai e Gergo Racz, com estes dois últimos a terem mais tarde sucesso a solo no seu país. No Festival, a canção húngara ficou em 12.º lugar com 39 pontos.

Marianna Zorba (Grécia)

Na mesma posição e com os mesmos pontos ficou a Grécia. Marianna Zorba cantou "Horepse" ("dança") um tema que não destoaria numa aula da dança do ventre.  

Anna-Maria Jopek (Polónia)

A Polónia ficou em 11.º lugar com 54 pontos. Anna-Maria Jopek cantou "Ale Jestem" ("mas eu sou"), um tema folk. Jopek viria a ter uma bem-sucedida carreira como intérprete de jazz e world music, colaborando com nomes sonantes como Pat Metheny, com quem editou um álbum conjunto em 2002.

Tanja Ribic (Eslovénia)

Com uma canção num estilo semelhante à da polaca, a Eslovénia ficou em décimo lugar com "Zbudi Se" ("acorda"), cantada pela loiríssima Tanja Ribic. Este será porventura o momento mais notório de Tanja Ribic como cantora, já que tem trabalhado mais como actriz de teatro e cinema. 

Debbie Scerri (Malta)

Debbie Scerri foi a representante de Malta, cantando "Let Me Fly", obtendo o nono lugar com 66 pontos, incluindo um doze da Turquia. Mas o que ficou sobretudo para história desta participação maltesa foi o facto de Debbie Scerri ter sido a primeira recipiente do Prémio Barbara Dex (o nome da representante belga de 1993), o prémio para o participante mais mal vestido, devido ao seu vestido largueirão roxo e azul turquesa. A partir de 2022, o prémio foi renomeado You're A Vision e agora distingue o look mais original de entre os participantes de cada edição. Debbie Scerri é hoje por hoje sobretudo conhecida no seu país como apresentadora.  

Maarija (Estónia)

Duas cantoras que tinham participado em 1996, voltaram nesse ano a representar novamente o seu país. Uma delas foi Maarija-Liis Ilus que representava a Estónia pelo segundo ano consecutivo. Se em 1996 fê-lo em dueto como Ivo Linna, desta vez apresentou-se a solo (e sob o nome de Maarija, simplesmente) cantando "Keelatud Maa" ("terra proibida"). Ficou em oitavo lugar com 82 pontos um pouco aquém do quinto lugar do ano transacto, mas ainda assim, um bom resultado.

Fanny (França)


Fanny Biascamano foi a representante da França, e apesar de ter apenas 17 anos, já era uma cantora de grande sucesso desde a pré-adolescência quando em 1991 teve um hit com uma versão de "L'homme à la moto" de Edith Piaf. Em Dublin, cantou "Sentiments Songes" ("sentimentos sonhados") alcançando o sétimo lugar com 95 pontos.   

Marcos Llunas (Espanha)

A vizinha Espanha obteve o sexto lugar em 1996 com a powerballad "Sin Rencor" na voz de Marcos Llunas. Filho do célebre cantor romântico Dyango, Llunas estava habituado a este tipo de competições pois ganhara o Festival da OTI de 1995 com "Eres Mi Debilidad". O seu disco mais recente data de 2012 é um tributo ao repertório do seu pai. Se virem esta actuação no YouTube, prestem atenção ao momento em que Marcos Llunas olha para a câmara com um esgar de quem apanhou um choque eléctrico. 

Hara Konstantinou (Chipre)

Chipre foi o primeiro país a actuar, o que sem dúvida deu sorte já que repetiu o melhor resultado do país até então, ao alcançar o quinto lugar, tal como em 1982, posição que também seria repetida em 2004 e apenas ultrapassada com o segundo lugar de 2018. Os representantes cipriotas foram os irmãos Hara e Andreas Konstantinou, que cantaram "Mana Mou" ("terra mãe"), com uma participação muito activa dos quatro cantores do coro.  

Jalisse (Itália)

Ausente desde 1993, a Itália regressava à Eurovisão, mas segundo consta foi um regresso meio contrariado. Isto porque na altura, caso um país não estivesse interessado em participar, era obrigatório informar disso atempadamente à EBU, mas aparentemente a RAI não o fez dentro da data prevista e para não pegar pesada multa, a Itália acabou por participar, levando a canção vencedora do Festival de San Remo desse ano: "Fiumi Di Parole" ("rios de palavras") interpretada pelo duo Jalisse. O duo era composto pelo casal Alessandra Drusian e Fabio Ricci. Tanto em San Remo como na Eurovisão, foram apontadas semelhanças da canção italiana com "Listen To Your Heart" dos Roxette. Porém, nenhuma acção foi tomada quanto a isso e a Itália alcançou o quarto lugar com 114 pontos (incluindo 12 de Portugal). Mas nem este bom resultado alentou a Itália a continuar a participar na Eurovisão, só regressando ao certame em 2011. 

Sebnem Paker (Turquia)


Antes de 1997, o historial da Turquia no Festival da Eurovisão não era muito famoso, com apenas um resultado no top 10 em 1986. Mas nesse ano, a Turquia conseguiu um brilhante terceiro lugar com 121 pontos e nos anos vindouros obteria outros grandes resultados, nomeadamente a vitória em 2003. Sebnem Paker já tinha sido a representante turca em 1996, onde ficou em 12.º lugar, e regressava um ano depois com o Grup Etnik e o tema "Dinle" ("escuta"), um tema com sonoridades bem turcas a que a assistência presente respondeu batendo palmas animadamente no refrão. Sebnem Paker ainda tentou representar o país por um terceiro ano consecutivo em 1998, mas não venceu a final nacional. Actualmente é professora do ensino secundário. 

Marc Roberts (Irlanda)

Com quatro vitórias nos últimos cinco anos, a Irlanda foi de longe o país dominante do Festival da Eurovisão nos anos 90. E em 1997, obteve mais um excelente resultado ao ficar em segundo lugar com 157 pontos. Marc Roberts cantou "Mysterious Woman" sobre alguém que fica fascinado após cruzar olhares com uma mulher misteriosa no aeroporto. 


Os Katrina & The Waves obtiveram a quinta vitória do Reino Unido


Contudo, rapidamente ficou claro que a vitória nesse ano não escaparia ao Reino Unido, com um esmagador total de 227 pontos, mais setenta que a Irlanda. A banda rock Katrina & The Waves, composta por dois britânicos (Kimberley Crew e Alex Cooper) e dois americanos radicados na Britânia (Katrina Leskanich e Vince De La Cruz), deixara a sua marca nos anos 80 com o hit "Walking On Sunshine". Porém embora a banda tivesse continuado a dar concertos e a lançar discos desde então, nunca conseguiu repetir esse sucesso, pelo que esta vitória na Eurovisão foi o segundo pico de notoriedade para a banda. "Love Shine A Light" foi composta pelo guitarra Kimberly Rew e foi o único membro da banda que não esteve em palco, com Phil Nicol a tocar guitarra em seu lugar, sendo ainda acompanhados no coro por Miriam Stockley e Beverly Skeete. Contudo, estes novo fogacho de fama durou pouco e os Katrina & The Waves terminaram em 1999. Katrina Leskanich tem contudo continuado a actuar a solo desde então e eu vi-a ao vivo em 2012 na Eurovision Party de Setúbal. Aliás, Katrina nunca deixou de abraçar o seu legado na Eurovisão e por exemplo, apresentou a gala dos 50 anos da Eurovisão em 2005 e em 2017 foi a porta-voz dos votos do Reino Unido (que deu um dos muitos 12 a Portugal). Em 2020, quando o Festival da Eurovisão foi cancelado devido à pandemia de Covid-19, os representantes do diversos países que iriam participar nesse ano (excepto os da Bélgica) cantaram "Love Shine A Light".   

Festival da Eurovisão 1997 (transmissão da RTP)

 



segunda-feira, 25 de abril de 2022

Lou Bega "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" (1999)

Recuamos hoje ao Verão quente de 1999, o último Verão do milénio! (Sim, eu sei muito bem que na verdade o términus do século XX e do segundo milénio depois de Cristo foi em 2000, mas na altura a Humanidade decidiu que o Milénio acabava a 31 de Dezembro de 1999 e quis lá saber de exatidões matemáticas.) Nesse Verão de 1999, quando Portugal respirava prosperidade e esperança como nunca se atrevera a sentir, quando a Expo 98 deu alento à candidatura ao Euro 2004 e quando a luta de Timor Leste pela independência levou a uma mobilização e solidariedade no nosso país em níveis raramente vistos desde o 25 de Abril, entre os diversos sons que compuseram a banda sonora desse Verão, houve um destaque para os ritmos latinos. Ricky Martin e Enrique Iglesias, já bem consagrados nos mercados latino-americano, deram o salto para o sucesso global, Jennifer Lopez dava o salto dos filmes para a música, Carlos Santana lançou o seu álbum mais celebrado "Supernatural" e até foi então que se descobriu que "el único fruto del amor es la banana, es la banana!"
E foi também em 1999 que um jovem alemão deu ao mundo um hit tão esmagador que parecia ao mesmo tempo tão retro e tão a gritar "ESTAMOS EM 1999!", que tão rapidamente ficou datado como se tornou um evergreen, e que redefiniu o mambo para toda uma nova geração. Não que fosse um mambo genuíno, mas o certo é que a partir de então, quando se ouve a palavra "Mambo", aposto que para muito boa gente a primeira coisa que virá à cabeça será este tema. 



A teoria mais consensual sobre a origem do mambo é que terá derivado de dois estilos musicais cubanos: o danzón e o montuno. Nos anos 30, a orquestra Arcaño Y Sus Maravillas popularizou um novo estilo chamado de danzón de nuevo ritmo, mais tarde conhecido como danzón-mambo. Em 1949, o músico cubano Damaso Perez Prado mudou-se para o México onde reinventou a sonoridade do mambo, imprimindo-lhe influências do swing e do jazz americano. Essa nova sonoridade acabou por também ganhar popularidade nos Estados Unidos, dando origem a vários conjuntos de mambo made in USA e até alguns na Europa. O auge comercial do mambo durou até ao início dos anos 60.
A obra completa de Perez Prado continuou a ser reconhecida e redescoberta nas décadas seguintes, destacando-se temas como "Guaglione" (que chegou ao 2.º lugar do top britânico em 1995 devido a um anúncio da cerveja Guinness), "Patricia" e "Mambo N.º 5". (Ao que parece não existem os Mambos n.º 1, 2, 3 e 4, mas existe sim um "Mambo N.º 8"!) 

Entretanto, a 13 de Abril de 1975, nascia em Munique um filho de mãe siciliana e pai ugandês, a quem foi dado o nome de David Lubega. Inicialmente, o jovem David Lubega queria ser rapper, tendo feito parte alguns grupos de hip hop desde a adolescência e gravou o primeiro disco em 1990. Em 1997, integrou o grupo Balibu cujo single "Let's Come Together (Holiday Shout)" pretendia claramente ser o novo "Coco Jamboo".
Mas então como é que um alemão aspirante a rapper se reinventou como um ícone do mambo? Há duas versões da história: o próprio Lubega afirma que descobriu a música latina numa viagem a Miami e decidiu então reinventar-se como cantor latin-pop, enquanto o seu manager Goar Biesenkamp tem declarado que, após os Balibu, ele é que lhe sugeriu essa reinvenção.  


 

Seja como for, David Lubega lá se aperaltou com o fato às riscas, o chapéu Fedora e o bigodinho para se metamorfosear em Lou Bega e a persona do latin lover. E em Abril de 1999, o seu primeiro single "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" foi editado na Alemanha. A canção era trabalhada à volta de "Mambo N.º 5" de Perez Prado, com Bega a enumerar as suas conquistas amorosas na letra. No refrão havia a Monica, a Erica, a Rita, a Tina, a Sandra, a Mary e a Jessica, e na primeira estrofe ainda havia mais a Angela e a Pamela. Na altura, Bega afirmava que estas mulheres eram todas reais, mas acho que até então o consenso foi de que era apenas ele a viver a personagem.


Seja como for  "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" foi rapidamente um hit na Alemanha e à medida que o Verão de 1999 foi chegando, o tema foi sendo lançado internacionalmente e foi escalando os tops de todo o mundo, tendo sido n.º 1 em praticamente todos os países europeus, Austrália, Canadá e Nova Zelândia e chegado ao 3.º lugar nos Estados Unidos, com Lou Bega actuando alegremente pelo globo. O álbum "A Little Bit Of Mambo" foi então editado, sendo também um campeão de vendas.




Lou Bega é ocasionalmente referido como um one-hit wonder mas o single seguinte "I Got A Girl" ainda foi um sucesso assinalável em vários países, nomeadamente na Finlândia onde chegou ao segundo lugar do top. Recordo-me que em 2000, ambos os temas foram usados no genérico do concurso da RTP "Só Números". 
Mas os single seguintes "Tricky Tricky" e "Mambo Mambo" passaram mais despercebidos bem como o segundo álbum de Lou Bega, "Ladies And Gentlemen", de 2001, onde há a destacar uma versão de "Just A Gigolo". 



Após um breve hiato, Lou Bega voltou ao activo em 2005 e desde então que tem editado discos e actuado com regularidade, agora sobretudo nos circuitos de nostalgia dos anos 90 (aliás o seu mais recente álbum é de versões de temas dos anos 90). Em 2010, teve um hit assinalável na Alemanha com "Sweet Like Cola". E em 2019, num verdadeiro recontro de hits titãs dos anos 90, saiu o single "Scatman vs. Hatman". 

A par de isso "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of)" continuou o seu legado. Não só Lou Bega fez novas versões para certas ocasiões (como concerto de André Rieu) e anúncios publicitários (lembro-me de ter sido usado por exemplo num anúncios das Pringles), como regressou ao n.º 1 do top britânico numa versão de… Bob O Construtor em 2001 (aliás, era o single que estava em n.º 1 no Reino Unido aquando do 11 de Setembro) e a BBC usou o tema na sua cobertura de jogos de críquete. É caso para afirmar que um bocadinho de mambo chegou muito longe.  

Selecção de temas: 

"I Got A Girl"


"Just A Gigolo / I Ain't Got Nobody" 

 


"Mambo Mambo"


  "Sweet Like Cola"


"Scatman vs. Hatman"



segunda-feira, 18 de abril de 2022

Cuidado Com As Gémeas (1988)

E vamos a mais um capítulo da saga "Filmes que eu vi na Sessão Da Noite da RTP1", esse mítico espaço de cinema das sextas feiras à noite que durou de Setembro de 1990 a Abril de 1994 e que se tornou essencial na minha formação como cinéfilo. (Se alguém tiver conhecimento de uma lista de todos os filmes exibidos nesse espaço, por favor entre em contacto comigo.)


"Cuidado Com As Gémeas" (de título original, "Big Business"), comédia de 1988, era uma adaptação livre e modernizada de "A Comédia de Erros", com Bette Midler e Lily Tomlin no papel de dois pares de gémeas trocadas à nascença. A realização esteve a cargo de Jim Abrahams, no seu primeiro filme fora da tríplice aliança com os irmãos Zucker, com produção pela Touchstone, a chancela da Disney para filmes menos infantis.

Em 1948, dois casais dão entrada num hospital na pequena cidade de Jupiter Hollow na Virgínia Ocidental, com as esposas em trabalho de parto. Um deles são os Shelton, um casal rico de Nova Iorque que por lá estava de passagem, e os Ratliff, um casal local. As duas mulheres dão à luz duas meninas gémeas praticamente ao mesmo tempo. Os Shelton decidem chamar as suas filhas Rose e Sadie, e o Sr. Ratliff, que ouviu a conversa, sugere à esposa dar os mesmos nomes às suas filhas. Os Shelton partem no dia seguinte, mas o que ninguém sabe é que no meio da confusão com os dois partos, a idosa enfermeira do hospital trocou as bebés e na verdade, cada casal teve gémeas idênticas: as duas Sadies (Midler) são filhas dos Shelton e as duas Roses (Tomlin) dos Ratfliff.

Quarenta anos depois, as irmãs Shelton herdaram a Moramax, o império empresarial do pai. Sadie Shelton tornou-se uma implacável mulher de negócios, negligenciando o filho rebelde Jason (Seth Green), para frustração do seu ex-marido Michael (Barry Primus). Já Rose Shelton sempre sonhou com uma vida no campo e não tem muito jeito para a gestão, deixando todas as decisões nas mãos da irmã.
Sadie Shelton pretende vender a Hollowmade, uma fábrica de móveis em Jupiter Hollow, que o seu pai comprou aquando do seu nascimento e marca uma reunião para convencer os acionistas. O seu subalterno Graham Sherbourne (Edward Herrmann) avisa-a que R. Ratliff, o líder dos trabalhadores da fábrica, está a caminho de Nova Iorque para impedir a venda e Sadie encarrega-o de tentar descobri-lo para o impedir de interferir.

Rose e Sadie Ratliff
Rose e Sadie Shelton

R. Ratliff é na verdade Rose Ratliff, que ruma a Nova Iorque com a sua irmã Sadie, que sempre sonhou conhecer a cidade. Uma série de confusões faz com que as Shelton e as Ratliff se instalem no Hotel Plaza. Também lá se instala Fabio Alberici (Michele Placido), um magnata italiano e um dos potenciais compradores da fábrica, que arrasta a asa às duas Sadies, ignorando que são duas mulheres diferentes. Ao Plaza também vai parar Roone Dimmick (Fred Ward), o namorado de Rose Ratliff, que Graham e o seu assistente (e namorado) Chuck (Daniel Geroll) creem ser R. Ratliff. 
Roone pretende pedir Rose Ratliff em casamento mas é Rose Shelton que se encanta com ele. Já Sadie Ratliff conhece Jay num incidente que a levou a dominar Jason amarrando-o, e embora deduzindo logo que aquela não é a ex-mulher, Jay fica impressionado. As confusões e os desencontros entre as quatro mulheres e seus pretendentes sucedem-se até que as quatro se encontram na casa de banho. Ao descobrir que, ao contrário do que tinha dito, Sadie Shelton não pretende cancelar a venda da fábrica, Rose Ratliff fecha-a num armário, e Sadie Ratliff faz-se passar por ela, e com a ajuda de Rose Shelton, convence os acionistas a impedir a venda.  

No final, cada uma das quatro mulheres sai do hotel acompanhada: Rose Shelton com Roone, Sadie Shelton com Fabio, Sadie Ratliff com Michael e Rose Ratliff entende-se com o Dr. Jay Marshall (Michael Gross), um pretendente de Rose Shelton. Enquanto isso, um mendigo que costuma rondar o Plaza (e que a certa altura diz: "Há dois de toda gente lá dentro!") dá de caras com um executivo engravatado igualzinho a ele e o recepcionista do hotel, ainda mal refeito de todas as confusões, desmaia ao ver umas trigémeas que pretendem fazer o check-in!


Quando eu vi o filme já estava familiarizado com o trabalho de Bette Midler, tanto como actriz (este foi um dos seus cinco filmes na Touchstone entre 1986 e 1988, juntamente com "Por Favor Matem A Minha Mulher", "Um Vagabundo Na Alta Roda", "Que Sorte Danada!", que também passaram na "Sessão Da Noite" da RTP1, e "Beaches - Eternamente Amigas") como cantora (com os seus hits "Wind Beneath My Wings" e "From A Distance"), mas foi o primeiro filme de Lily Tomlin que eu vi. Curiosamente, os papéis foram inicialmente escritos para Barbra Streisand e Goldie Hawn, que seriam respectivamente Sadie e Rose. O actor brasileiro José Wilker foi equacionado para o papel de Roone. 

"Cuidado Com As Gémeas" foi um sucesso modesto de bilheteira mas teve melhor desempenho no mercado de vídeo. Apesar de algumas falhas no argumento (sobretudo quanto às relações das quatro protagonistas com os seus interesses românticos que são abordadas demasiado apressadamente) e algumas inconsistências no ritmo da trama, é um filme que entretém e arranca umas quantas gargalhadas. Uma das minhas cenas preferidas é quando as duas Sadies, que na altura estão a usar o mesmo vestido, sentam-se a tomar pequeno-almoço cada uma com a Rose que não é a sua irmã, e as quatro falam entre si sem saber que a outra não é aquela com quem julgam estar a falar.   

Além do desempenho de ambas (embora Midler e Tomlin sejam significativamente melhores como Sadie Shelton e Rose Ratliff) e dos imenso gags, um dos pontos fortes do filme são os efeitos especiais que para a época são bem conseguidos: em vez de se recorrer a duplas, as cenas com cada gémea em duplicado foram construídas em cinco meses de pós-produção. 

E como a realidade é muitas vezes mais estranha que a ficção, segundo o IMDB, no ano em que o filme foi lançado surgiu a notícia de dois pares de gémeos na Colômbia que tinham sido trocados à nascença num hospital de Bogotá e que cresceram em meios diferentes pensando que cada um a pensar que tinha um gémeo falso e que só descobriram da troca (e que tinham na verdade um gémeo idêntico) quando os quatro já tinham vinte e tal anos. 

Trailer








segunda-feira, 11 de abril de 2022

Recordando 1992

Se vocês são da minha idade, à primeira impressão 1992 não parece um ano assim tão distante. Mas a verdade é que já passaram trinta anos desde 1992. Sim, pessoas nascidas em 1992 já são trintonas! Em 2022, estamos mais longe de ano de 1992 do que por exemplo, estávamos em 1992 de 1969, o ano da chegada do Homem à Lua. 
Em 1992, eu completei uma dúzia de anos de vida e vivia a pré-adolescência em todos os altos e os baixos (sobretudo os baixos, já que foi nessa altura que mais sofri com o bullying na escola). Mas claro que tive momentos bons e, apesar de na altura eu ainda não ter desenvolvido os meus gostos e conhecimentos musicais e cinematográficos, foi um ano com os seus pontos marcantes na cultura pop. Por isso, hoje recuamos trinta anos e vamos recordar algumas coisas do ano de 1992.





Portugal presidiu pela primeira vez à União Europeia
Entre 1 de Janeiro e 30 de Junho, Portugal assumiu pela primeira vez a presidência rotativa da União Europeia, na altura ainda denominada Comunidade Económica Europeia. Até agora, Portugal assumiu esse papel semestral mais três vezes, de Janeiro a Junho de 2000 e 2021 e de Julho a Dezembro de 2007. Esta primeira presidência europeia de Portugal teve como sede o Centro Cultural de Belém.

O Centro Cultural de Belém sediou a primeira
presidência de Portugal da UE em 1992


Aliás foi esse o ano em que a CEE deu grandes passos a tornar-se cada vez mais uma federação europeia, com uma unidade monetária comum e maior mobilidade de pessoas e mercadorias entre os países-membros com o famigerado Tratado de Maastricht. 

Profundas transformações na Europa
Mais a Leste, a Europa passava por profundas transformações. A União Soviética colapsara no final de 1991 e doze das suas quinze ex-repúblicas (Estónia, Letónia e Lituânia já tinham obtido a independência anteriormente) tornaram-se estados independentes. Enquanto estes tentavam alicerçar a sua autonomia, foi criada a Comunidade de Estados Independentes para um auxílio mútuo, designação essa que também foi utilizada para fins desportivos, como por exemplo no Europeu de Futebol e nos Jogos Olímpicos de Verão e Inverno, enquanto alguns desses novos países não tinham as suas próprias federações desportivas. 

Conflitos sangrentos na ex-Jugoslávia


Também a República Socialista Federal da Jugoslávia se desmembrara nos anos anteriores com Eslovénia, Croácia, Macedónia e Bósnia-Herzegovina a declararem independência, enquanto o território composto por Sérvia e Montenegro manteve a denominação de Jugoslávia até 2003. Mas se a Macedónia conquistou a independência sem sangue derramado e os conflitos na Eslovénia foram breves, na Croácia e sobretudo na Bósnia-Herzegovina travou-se uma guerra violenta que se arrastaria pelos três anos seguintes. Devido às agressões do governo de Belgrado no conflito, a 30 de Maio de 1992 a ONU instaurou um embargo banindo todas as transições económicas, científicas, culturais e desportivas com a República Federal da Jugoslávia que duraria até 1995, com novas sanções instauradas em 1998 durante o conflito no Kosovo.   

O assassinato de Daniella Perez chocou o Brasil
A 28 de Dezembro de 1992, a actriz brasileira Daniella Perez foi brutalmente apunhalada até à morte. A actriz fazia então parte da telenovela "De Corpo E Alma", que estava a ser exibida na Rede Globo e na SIC. Depois de "Barriga de Aluguer" e "O Dono Do Mundo", Perez, de 22 anos e casada com o actor Raúl Gazzola, entrava agora numa telenovela da autoria da sua mãe, Glória Perez, no papel de Yasmin, irmã da protagonista Paloma (Cristiana Oliveira). Mas ao choque da sua morte sucedeu-se o da descoberta que o autor do crime era o actor Guilherme de Pádua, que fazia para romântico com Perez na telenovela, com a cumplicidade da esposa deste, Paula Thomaz. O assassinato de Daniella Perez chocou de tal forma o país irmão que ofuscou o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Uma vez que a telenovela estava a ser exibida e sendo a Rede Globo um dos seu accionistas, a SIC também fez uma cobertura do caso. A Rede Globo nunca mais repôs a telenovela "De Corpo E Alma" mas a SIC reexibiu-a em 1997. Guilherme de Pádua e Paula Thomaz foram condenados a 19 anos de prisão mas só cumpriram seis anos da pena em regime fechado. Pádua é agora pastor evangélico.    

Daniella Perez (1970-1992)

Também foi em 1992 que nos despedimos do Capitão Salgueiro Maia, um dos principais rostos da Revolução do 25 de Abril, do autor Isaac Azimov, dos actores Dick York ("Casei Com Uma Feiticeira") e Anthony Perkins ("Psico"), do comediante Benny Hill, da lenda do cinema Marlene Dietrich, da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva e de Branca Santos, a famigerada Dona Branca

Nasceram várias estrelas
Mas foi neste ano que nasceram várias estrelas. No futebol, o astro brasileiro Neymar e o dinamarquês Christian Eriksen. Os actores Freddie Highmore (de "Charlie E A Fábrica de Chocolate" e da série "The Good Doctor"), Taylor Lautner (o Jacob da saga "Crepúsculo"), Logan Lerman ("Percy Jackson" e "As Vantagens De Ser Invisível"), Ezra Miller ("Temos de Falar Sobre Kevin" e também de "As Vantagens De Ser Invisível") e dos novos tomos de "A Guerra Das Estrelas", Daisy Ridley e John Boyega. Na música, Sam Smith, Nick Jonas, a rapper Cardi B e as ex-estrelas da Disney Miley Cyrus, Demi Lovato e Selena Gomez. E ainda no desporto, a jamaicana Elaine Thompson, pluricampeã olímpica do atletismo.

Made in 1992: Demi Lovato, Selena Gomez e Miley Cyrus

 

A tragédia do voo 495 Martinair no Aeroporto de Faro
A nível nacional, a maior tragédia de 1992 aconteceu a 21 de Dezembro quando um avião da companhia holandesa Martinair, partindo de Amesterdão, se despenhou na pista 11 do Aeroporto de Faro. Apanhado nas más condições atmosféricas, com uma tempestade e túneis de vento, e com visibilidade quase nula, o avião DC-10 aterrou violentamente na pista. O impacto fez o avião partir em dois e causou uma explosão no tanque de combustível da asa direita.


Das mais de trezentas pessoas a bordo, 56 faleceram (incluindo dois tripulantes) e 106 ficaram gravemente feridas. A rápida intervenção dos serviços de emergência ajudou a minorar o número de vítimas.
A tragédia do voo Martinair 495 foi tema de conversa e notícia para muitos dias, não só em Portugal como nos Países Baixos, de onde era proveniente o avião, e que meses antes fora palco de outro acidente de aviação. E para muitos algarvios, foi a primeira vez que viriam um desastre de tamanhas dimensões ali tão perto, como foi o caso do David Martins, que morava a poucos quilómetros e se lembrava de ver ao longe dos destroços.

O início do futebol moderno
1992 é visto como o primeiro ano do futebol moderno. Entre os vários motivos para tal, destacam-se dois.


Na época 1992/93, a Taça dos Campeões Europeus deu lugar à Liga do Campeões. Contratado pela UEFA, o empresário alemão Klaus Hempel reinventou a competição, concentrando todos os direitos de transmissão de jogos e os patrocinadores sob a sua alçada e fixando os horários das partidas. Como tal, as receitas subiram vertiginosamente: se em 1992, as receitas das transmissões televisivas foram de 85 mil francos suíços, em 2002, já ascendiam a mil milhões! Já na época 1991-92, a Taça dos Campeões Europeus tinha sofrido uma grande mudança, introduzindo uma fase de grupos em que as oito equipas que chegavam aos quartos de final foram divididas em dois grupos de quatro, cujos vencedores se apurariam para a grande final. Como tal, as principais equipas europeias disputavam agora mais jogos. O Benfica foi uma das oito equipas dessa primeira era com dois grupos, ficando em terceiro lugar no grupo que apurou o Barcelona para a final no Estádio de Wembley em que bateu a Sampdoria. Já a final da Taça das Taças foi disputada no Estádio da Luz com o Werder Bremen a vencer o Mónaco enquanto o Ajax conquistou a Taça UEFA.
Desde então a Liga dos Campeões passou por várias transformações, mas o inconfundível tema composto por Tony Britton (inspirado na ária utilizada na coroação dos monarcas britânicos) mantém-se o mesmo.


Pela mesma altura, após mais de uma década marcada por hooliganismo, infraestruturas em ruínas e parcos dividendos, a liga inglesa sofreu uma profunda transformação. Os principais clubes ingleses chegaram a um lucrativo acordo de transmissões televisivas com a Sky Sports, que ao jeito americano, transformou os jogos muito além das partidas disputadas, com debates e análises de jogo. Para a promoção da nova Premiere League, a Sky Sports levou a cargo uma campanha utilizando o hit dos Simple Minds "Alive And Kicking". Nos anos seguintes, o futebol inglês tornou-se uma marca importante, melhorando os estádios e atraindo jogadores de outros países e outros países europeus não tardaram a seguir o exemplo. O Manchester United seria o campeão da época inaugural da Premier League (1992-93).  

Em Portugal, o FC Porto ganhou o Campeonato e o Boavista a Taça de Portugal.

O milagre dinamarquês no Euro 1992



1992 foi também ano de Europeu de Futebol, que resultaria numa das maiores surpresas da história do torneio. Além da Suécia, o país anfitrião, apuraram-se a então campeã mundial Alemanha, os Países Baixos detentores do título (e que mediram forças com Portugal na qualificação), a Inglaterra, a Escócia, a França (o único grande torneio de selecções em que Eric Cantona jogou), a recém-dissolvida União Soviética sob o nome de Comunidade Estados Independentes e a Dinamarca, em substituição da Jugoslávia, impedida de disputar a prova devido ao embargo das Nações Unidas. 
E não é que foi a Dinamarca a levantar o caneco? Após uma fase de grupos morna, com um empate face à Inglaterra, uma derrota com a Suécia e assegurando as meias-finais após vitória contra a França, os dinamarqueses empataram com holandeses na semifinal, onde uma defesa de Peter Schmeichel ao remate de Marco Van Basten nos penáltis os colocou na final de Gotemburgo, onde bateram a Alemanha por 2-0 para espanto global.

De eliminados a campeões europeus


Rezou a lenda que quando se soube que a Dinamarca iria disputar o Europeu em vez da Jugoslávia, muitos dos jogadores já estavam a gozar as férias, mas consta que afinal não foi bem assim e que a federação dinamarquesa estava preparada para essa eventualidade.      

Santos da Península não fizeram milagres nos Jogos Olímpicos
1992 foi ano de Jogos Olímpicos, o último a ter em simultâneo Jogos de Inverno e de Verão. 



Os Jogos Olímpicos de Inverno decorreram de 8 a 23 de Fevereiro na localidade francesa de Albertville, com a participação de 1801 atletas de 64 países (Portugal não participou). Pela primeira vez, houve provas de patinagem de velocidade em pista curta, de esqui freestyle (moguls) e biatlo feminino. Também houve provas de demonstração de curling, ballet em esqui e esqui de velocidade, ficando estas infelizmente manchadas pela morte do atleta suíço Nicolas Bochatay ao colidir com um veículo gerador de neve durante um treino. Pela primeira vez, a China, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia ganharam medalhas em Jogos Olímpicos de Inverno e a esquiadora Blanca Fernandez Ochoa foi a primeira mulher espanhola a conquistar uma medalha olímpica (Verão ou Inverno).




Barcelona acolheu os primeiros Jogos Olímpicos disputados na Península Ibérica, que tiveram lugar de 25 Julho a 9 e Agosto. Mais de 9300 atletas de 169 países competiram em 25 desportos, incluindo pela primeira vez o basebol, o badmington e o judo feminino. A África do Sul participou pela primeira vez desde 1960, após décadas de exclusão devido ao regime de apartheid, a Alemanha competiu unificada pela primeira vez desde 1964, as antigas repúblicas da União Soviética competiram como uma única equipa sob a bandeira olímpica (excepto Estónia, Letónia e Lituânia que competiram novamente como países independentes). Croácia, Eslovénia e Bósnia-Herzegovina participaram como países independentes enquanto os atletas das restantes repúblicas ex-jugoslavas (Sérvia, Montenegro e Macedónia) competiram como atletas neutros. 



Entre os principais feitos, destaque para a Dream Team americana de basquetebol, composta por estrelas da NBA como Michael Jordan e Magic Johnson, que dominaram como quiseram; para o ginasta bielorrusso Vitaly Scherbo que obteve seis medalhas de ouro e para as as vitórias do britânico Linford Christie nos 100m, do americano Kevin Young nos 400m barreiras,  da argelina Hassiba Boulmerka nos 1500m e do russo Alexander Popov nos 50 e 100m livres da natação.
Entre os momentos mais dramáticos, houve a determinação do britânico Derek Redmond em querer acabar a sua corrida apesar da lesão, apoiado pelo seu pai que desceu da bancada até à pista, e o infortúnio da nadadora sincronizada canadiana Sylvie Fréchette, prejudicada por um acidental erro de pontuação de uma juíza brasileira. 
Galvanizada pelo factor casa, Espanha alcançou 22 medalhas, incluindo 13 de ouro, de longe o melhor medalheiro olímpico de nuestros hermanos.
Já Portugal, apesar de levar a maior delegação de sempre com mais de 100 atletas, saiu de Barcelona sem medalhas. Nem sequer a equipa do hóquei em patins, que era modalidade de demonstração, foi além do quarto lugar. Os melhores resultados portugueses foram o sexto lugar do canoísta José Garcia e o sétimo de Manuela Machado na maratona (lesionada, Rosa Mota não pôde defender o título olímpico e ficou em Portugal).  

Ano dourado do rock em Portugal


Em Portugal, dois discos dominam as atenções. "Palavras Ao Vento", lançado mesmo no final de 1991, marcou a estreia dos Resistência, um verdadeiro projecto all-star com nomes como Miguel Ângelo, Tim, Olavo Bilac, Pedro Ayres Magalhães ou Fernando Cunha, e rapidamente foi campeão de vendas graças aos seus dois hits, dando uma nova roupagem a "Nasce Selvagem" dos Delfins e "Não Sou O Único" dos Xutos & Pontapés. Aproveitando o momento, ainda em 1992 sairia o segundo álbum "Mano A Mano", destacando-se a versão de "A Noite" dos Sitiados.



Mas o disco nacional do ano é "Rock In Rio Douro" dos GNR. O Grupo Novo Rock de Rui Reininho e companhia já vinha somando vários hits e álbuns memoráveis, mas foi este álbum elevou-os a um novo nível de sucesso, sendo então um dos raros discos a atingir quatro vezes platina. Temas como "Sangue Oculto", em colaboração com Javier Andreu da banda espanhola La Frontera, "Pronúncia Do Norte" com Reininho em dueto com Isabel Silvestre, "Sub-16" e "Ana Lee" rapidamente andaram na boca de toda a gente e a 10 de Outubro, os GNR tocaram no Estádio de Alvalade para 40 mil pessoas, na altura a maior audiência de sempre num concerto de uma banda portuguesa. 
Mas 1992 foi também o ano de outros grandes hits nacionais como "Vida De Marinheiro" dos Sitiados, "Easy Come & Go" dos Joker, "Tudo Ou Nada" dos Zero (um projecto spin-off dos Ban) e "Chuva Dissolvente" dos Xutos & Pontapés.  

Mais grande música


1992 viu também surgir álbuns marcantes como aquele que é o meu álbum preferido de sempre: "Automatic For The People" dos R.E.M. Mas também saíram discos seminais como "Fear Of The Dark" dos Iron Maiden, "Keep The Faith" dos Bon Jovi, "Adrenalize" dos Deff Leppard, "Diva" de Annie Lennox, "Seven" dos James, "Hormonally Yours" das Shakespear's Sister, "Funky Divas" das En Vogue, "Kerplunk" de Green Day, "Dirty" dos Sonic Youth, "Bigger! Better! Faster! More!" dos 4 Non Blondes e "Love Deluxe" de Sade. 
E nas pistas de dança bombaram forte "It's My Life" de Dr. Alban, "Rhythm Is A Dancer" dos Snap!, "Please Don't Go" dos Double You e "I Love Your Smile" de Shanice, e os grandes êxitos dos ABBA foram reavivados graças ao EP "Abba-Esque" dos Erasure e à compilação "ABBA Gold".  

Madonna mais "Erotica" que nunca
Quem também tem teve álbum novo em 1992 foi Madonna. A rainha da pop nunca se fez rogada em imprimir boas doses de sensualidade e sexualidade nos seus opus, mas o lançamento simultâneo do álbum "Erotica" e do livro "Sex" demonstravam Madonna no seu mais explícito até então. Até mesmo hoje, alguns dos ensaios de "Sex", como a famosa fotografia de Madonna nua a pedir boleia na estrada, seriam considerados demasiados ousados para uma estrela de topo. (Isto para não falar em várias outras imagens onde ela podia ser vista em cenas sadomasoquistas e em poses sensuais com várias pessoas, incluindo celebridades como Naomi Campbell, Isabella Rossellini e Vanilla Ice.) 



Mas apesar das boas vendas de "Erotica" e de "Sex" ter esgotado rapidamente o milhão e meio de exemplares da sua única edição, este período foi marcado por uma enorme animosidade da opinião pública por Madonna, recebendo duras críticas de vários quadrantes desde os habituais grupos ultrahipócritasconservadores a líderes feministas como Camille Paglia.
Será que Madonna tinha mesmo ido longe demais e agora não passava uma estrela desvairada que só queria chocar? O tempo viria mostrar que não era bem assim, e que este marco de Madonna contribuiria não só para que outras artistas de vários ramos explorassem mais livremente a sua sensualidade na sua obra como para abrir mentalidades. 

Regressos de Batman, do Alien e de Kevin McAllister ao cinema



No cinema, filmes para todos os gostos. Michael Keaton voltou a ser o Homem-Morcego às voltas com uma Michelle Pfeiffer Catwoman e um Danny DeVito Pinguin em "Batman Regressa"; Macaulay Culkin voltou a enfrentar os Wet Bandits em "Sozinho Em Casa 2: Perdido em Nova Iorque"; as sagas "Alien" e "Arma Mortífera" chegaram ao terceiro tomo; Jack Nicholson achou que não aguentaríamos a verdade em "Uma Questão De Honra"; Francis Ford Coppola ressuscitou "Drácula"; Richard Gere e Kim Basinger cederam aos "Desejos Finais"; Whoopi Goldberg mudou-se "Do Cabaret Para O Convento"; Geena Davis e Madonna jogaram na "Liga De Mulheres", "Beethoven" deu um recital de gargalhadas e amaremos sempre Whitney Houston e Kevin Costner em "O Guarda-Costas". Para não falar que também em 1992 saíram "Aladino", "Imperdoável", "Horizonte Longínquo", "A Morte Fica-vos Tão Bem", "A Mão Que Embala O Berço", "Regresso A Howard's End", "Perfume De Mulher", "Chaplin", "Jovem Procura Companheira", "Querida, Ampliei O Miúdo" e, em Portugal, "Aqui D'El Rei", "O Dia Do Desespero", "Vertigem" e "Retrato de Família". 

A viagem do Lusitânia Expresso para alertar o mundo contra a luta do povo timorense
As imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz em Dili em Novembro de 1991 chocaram Portugal e gerou uma onda de revolta contra a opressão do governo da Indonésia, que desde 1975 ocupara a ex-colónia portuguesa. Porém, esse acontecimento não teve grande repercussão no resto do mundo.


No início de 1992, a equipa da revista Fórum Estudante teve a ideia de viajar até Timor no ferryboat Lusitânia Expresso para depositar uma coroa de flores no cemitério de Santa Cruz e alertar os media internacionais sobre a luta do povo timorense pela liberdade e contra o jugo da Indonésia.
Com o apoio do governo e donativos de várias empresas e cidadãos anónimos, o projecto ganhou forma e no dia 6 de Março, após várias conferências na Austrália, mais de 120 pessoas de 23 países embarcaram no Lusitânia Expresso a partir de Darwin. Eram na grande maioria estudantes, mas também jornalistas como José Rodrigues dos Santos para a RTP e o ex-Presidente Ramalho Eanes. 
Mas ao entrar nas águas territoriais de Timor, o barco foi cercado por quatro navios de guerra indonésios e vários aviões militares, sendo impedido de continuar a viagem. Como tal, a homenagem das vítimas de Santa Cruz foi feita no barco e a coroa de flores foi lançada ao mar. 


Pot-pourri de outros acontecimentos de 1992

- Bill Clinton foi eleito presidente dos Estados Unidos impedindo a reeleição de George W.H. Bush.
- A Disneyland Paris é aberta ao público a 29 de Abril.
- A Rainha Isabel II completou 40 anos de reinado mas uma sucessão de  acontecimentos embaraçosos para a coroa britânica (o divórcio da Princesa Ana, a separação do Príncipe André e de Sarah Ferguson, fotos desta em topless com outro homem, o lançamento do livro sobre a Princesa Diana que revelava os problemas do seu casamento com o Príncipe Carlos e detalhes do relacionamento deste com Camilla Parker-Bowles, um incêndio no Castelo de Windsor) fez com que a monarca definisse 1992 como um "annus horribilis".
- A Irlanda venceu o Festival da Eurovisão em Malmö na Suécia com tema "Why Me" interpretado por Linda Martin e escrito por Johnny Logan, vencedor do certame em 1980 e 1987. Portugal ficou em 17.º com o "Amor de Água Fresca" de Dina. 


- Aos 18 anos, Marisa Cruz é eleita Miss Portugal. A namibiana Michelle McLean é coroada Miss Universo e a russa Yulia Kurotchkina é eleita Miss Mundo. 
- A cidade de Los Angeles foi palco de seis dias de motins após a absolvição dos quatro polícias que agrediram Rodney King, causando 63 mortos e mais de mil milhões de dólares em prejuízos. 
- Apanhado num escândalo de corrupção, o Presidente do Brasil Fernando Collor de Mello abdicou do cargo a 29 de Dezembro.
- A Super Nintendo chega finalmente à Europa e são lançados jogos de antologia como "Sonic 2", "Super Mario Kart" e "Ecco The Dolphin".
- Estrearam séries como "Picket Fences", "Doido Por Ti", "Melrose Place", "Absolutamente Fabulosas" e "California Dreams". A MTV estreou "The Real World", considerado o percursor do "Big Brother", e na animação, surgiu a "Sailor Moon". É também lançado o Cartoon Network. 

RTP preparando ventos de mudança



Muito provavelmente já a pensar em se precaver face ao início das televisões privadas, foi em 1992 que a RTP estreou programas marcantes como "Isto Só Video", "Parabéns", "Marina Marina", "Apanhados", "Olha Que Dois!!" e "Sons De Sol". Estrearam também as telenovelas "Meu Bem, Meu Mal", "Pedra Sobre Pedra", "Barriga De Aluguer" e a portuguesa "Cinzas".



A 14 de Setembro, a RTP2 foi renomeada TV2, apresentando uma programação especialmente focada na cultura e no desporto.


E a 10 de Junho, foi lançada a RTP Internacional via satélite para chegar às comunidades portuguesas em todo o mundo. 

"A sua televisão independente SIC, SIC, SIC..."
Mas 1992 em Portugal é marcado pelo fim do monopólio televisivo da RTP. Projectos para estações de televisão privada em Portugal remontam ao final dos anos 70, mas só com a alteração em 1989 a uma lei da Constituição que limitava as licenças de televisão ao sector público é que esses projectos podiam ser viabilizados. A 6 de Fevereiro, o Governo de Cavaco Silva atribuiu as duas licenças para emissão de televisão privada à Sociedade Independente de Comunicação (SIC) e à Televisão Independente (TVI). De fora ficou o projecto TV1 liderado por Daniel Proença de Carvalho.


Liderada por Francisco Pinto Balsemão, ex-Primeiro Ministro de Portugal entre 1981 e 1983, a SIC tinha como principais accionistas a TV Globo, Expresso, Lusomundo, Grupo Impala, Costa do Castelo Filmes, Interpress e a seguradora Império e instalou o seu centro de emissões em Carnaxide, onde ficaria até à mudança em 2019 para Paço D'Arcos. 


Com as emissões da TVI previstas para se iniciarem em 1993, coube à SIC a honra de quebrar o monopólio televisivo de 35 anos da RTP. No dia 6 de Outubro às 16:30, a SIC arrancou as suas emissões com um bloco informativo conduzido por Alberta Marques Fernandes, que ficaria para a posterioridade como a primeira cara da televisão privada portuguesa. 



De entre a programação dos primeiro três meses da SIC, destacam-se programas informativos como "Praça Pública", o magazine desportivo "Portugal Radical", o concurso "Encontros Imediatos", a já referida telenovela "De Corpo E Alma", emissões da MTV, a série nacional "A Viúva Do Enforcado", séries internacionais como "Cuidado Com As Aparências", "Justiça Negra", "Cosby Show" e "Raven" e sobretudo o célebre concurso italiano "Il Colpo Grosso", que teve o título português de "Água Na Boca". 

Durante os seus primórdios, a SIC voou baixinho sem levantar muitas ondas para o domínio da RTP. Mas gradualmente, a SIC soube corresponder aos desejos de mudança que o país não sabia que queria e os portugueses foram se deixando conquistar por esse admirável mundo novo audiovisual e em menos de três anos atingiria a liderança. Uma ascensão que seria caso de estudo em toda a Europa. Guardo muitas boas memórias destes primeiros anos da SIC e tenho muito pena na dificuldade de rever na SIC actual o espírito inovador da sua génese.

Que outras memórias e acontecimentos de 1992 que não foram mencionados neste texto é que se recordam? Contem nos comentários!


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