domingo, 18 de janeiro de 2015

Duarte & Companhia - Parte 2



Nos primórdios da Enciclopédia de Cromos, uma das primeiras séries que abordámos foi "Duarte & Companhia" ("Duarte & C.a"), obrigatório pelo seu estatuto de culto e objecto estranho mas divertidissimo do panorama televisivo nacional. Nínguém que estivesse vivo nos anos 80 - a não ser que morasse numa caverna sem televisor - esqueceu os personagens e situações desta comédia policial. Mas esses aspectos já vimos no artigo original. Alguns assuntos voltam á ribalta por motivos menos felizes, e recentemente o falecimente do Rocha [António Rocha (1944-2015)] um dos ícones da série e do imaginário português fez que eu - como muitos portugueses - recordasse as peripécias de Duarte & Companhia.
Ora, quando há coisa de três ou quatro anos revi alguns episódios das três primeiras temporadas houve algo que me causou estranhesa: o genérico da primeira temporada não era o que eu recordava. Á medida que avançava nos episódios acabei por chegar à familiar música e canção, e com isso em mente, achei interessante comparar os diversos genéricos disponíveis online. E se leram até aqui, aguentem até ao final!

O genérico da primeira temporada:
Envergando o belo do casaco de fato de treino, Duarte empunha a arma cheio de estilo em direcção da câmera. Cada disparo faz aparecer um cartão com informação, e no final o título do episódio.
A música do genérico, é pouco memóravel, com um começo que não destoaria num filme para adultos vintage. A Wikipédia indica que o responsável da música do genérico foi José Luís Tinoco, mas sem indicação se dos posteriores ou este.

Na segunda temporada, somos brindados com o tema mais associado à série, seguindo o esquema do genérico anterior, mas com Duarte e Tó recortados do fundo e Duarte com um casaco mais "elegante". Também a partir da segunda temporada, o genérico final passa a incluir fotos com os nomes dos actores principais. [ver final do post]

O genérico da segunda temporada:


Além da indicaçao do título, o espectador era informado também do número no episódio num cartão separado. Por exemplo, "A Paixão de Tó" está indicado como "7º episódio" (contado desde o inicio da série) mas é o 1º da 2º temporada.


Na terceira temporada, a abertura é mais longa e inclui a canção cantada a plenos pulmões e playback pelo trio de protagonistas a bordo do carismático Citröen "2 Cavalhos" vermelho.

O genérico da terceira temporada:



A canção com o nome "Duarte & Cª", teve a música a cargo de Carlos Alberto Moniz ("Arca de Noé"), e com letra de José Jorge Letria.
Despeço-me por hoje com a transição da letra para poderem cantar a plenos pulmões enquanto conduzem (ou se calhar não):

DUARTE:

Eu sou um aventureiro
Detective destemido
O primeiro a chegar
quando tudo está tremido

Nasci para ser amado
e não tenho culpa disso
As mulheres é que conhecem
o poder do meu feitiço

Áquilo que mete medo
respondo com um sorriso
Quando o perigo acontece
eu estou onde for preciso

TODOS (REFRÃO)

Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia

TÓ:

Permitam que me apresente
sou valente e sou audaz
E de uma ponta de medo
sou às vezes bem capaz

Sigo o chefe, diligente
vá ele pra onde for
Mas se não houver sarilho
para mim é bem melhor


TODOS (REFRÃO)

Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia


JOANINHA:
Mal me faz a timidez
que me leva a hesitar
E a pôr sempre porquês
se me querem abraçar

E se me fazem feliz
mas que posso eu fazer?
Se estrago as coisas boas
que me estão a acontecer?

TODOS (REFRÃO)

Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia

Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia
Nós somos Duarte e Companhia

Alguns dos actores que fizeram parte do elenco principal e secundário, variando conforme o episódio:

Actualização:
Finalmente reencontrei - no  meu artigo anterior - o vídeo com  outra variação do genérico, talvez da quarta ou quinta temporada:

A diferença em relação ao da terceira temporada é que o trio canta a sua canção com os pés assentes no chão - com a ponte 25 de Abril ao fundo - e vão entrando no "2 Cavalos" que qual KITT do Justiceiro, arranca sozinho!

Recorde também: "Duarte e Companhia - Parte 1"

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sábado, 17 de janeiro de 2015

Os Moto-Ratos de Marte (1993-96)

por Paulo Neto

Quando se é petiz, papa-se tudo o quanto é desenho animado, sem pensar demasiado no que as histórias encerram. Mas quando se chega uma certa idade e se olha em retrospectiva, chegamos à conclusão que a criação de certas séries animadas deve ter sido produto de efeitos psicotrópicos, tais as premissas mirabolantes que elas encerram. Não que isso seja obstáculo (às vezes bem pelo contrário) para a sua genialidade, mas de facto, mesmo num reino onde a imaginação e a transgressão não conhecem limites como o da animação, existem séries verdadeiramente mirabolantes.



Uma dessas séries é sem dúvida "Os Moto Ratos de Marte", co-produzida pela Marvel, estreada nos Estados Unidos em 1993 e em Portugal no ano seguinte, aos sábados no "Buéréré" da SIC. Recordemos a história: Marte foi outrora um planeta pacificamente habitado por ratos antropomórficos, adeptos da deslocação em duas rodas, quando foi invadido pelos Plutarquianos, uma raça extra-terrestre de seres gordos, pestilentos e com cara de peixe, que se dedica a invadir planetas e a esbanjar os seus recursos. Apesar dos esforços dos roedores locais que lutaram contra os invasores, estes foram dizimados pelos plutarquianos. Os únicos três sobreviventes conseguiram fugir numa nave até à Terra: Bugias, Modo e Vinnie. Bugias é o líder do trio e o mais racional, cuja visão foi danificada durante a guerra contra os invasores. Tem como armas uma luva especial e uma pistola laser. Modo é o mais forte, mas por detrás da sua aparência agressiva, na verdade é o mais sensível e bondoso dos três. Tendo perdido um olho e um braço no conflito, o seu braço robótico tornou-se a sua principal arma. Vinnie, que ficou sem metade da cara na guerra e por isso usa máscara, é o namoradeiro e gabarola e o que mais aprecia situações de risco, mas por detrás da sua presunção, até é bom tipo e é o mais talentoso motoqueiro dos três - daí que a sua mota seja a mais artilhada com armas.


Os três acabam por aterrar em Chicago, onde são acolhidos por Charley Davidson, uma aguerrida dona de uma oficina, que se torna a sua principal amiga humana. Eles rapidamente descobrem que o principal magnata industrial da cidade, Lawrence Limburger, é na verdade um plutarquiano disfarçado que pretende apoderar-se dos recursos naturais da Terra tal como os seus conterrâneos fizeram com outros planetas. Os seus aliados são o Dr. Karbunkle, um perverso cientista, Gordo, o inepto e grosseirão braço direito de Limburger sempre com gasolina a escorrer das mãos e Fred, um mutante masoquista e cobaia preferida de Karbunkle. Em cada episódio, os Moto Ratos dedicam-se a humilhar e dar cabo dos planos de Limburger. Outros vilões ocasionais são Lord Camembert, o chefe dos plutarquianos, e Napoleon Brie, o doppleganger rival de Limburger que domina Detroit. 




Como se tudo isto não fosse já suficientemente louco, há que dizer que a dobragem em Portugal esteve a cargo da Novaga, que famosamente se ocupou da dobragem de séries míticas dos anos 90 como "Dragon Ball Z" e "A Navegante da Lua" e contava com nomes sonantes: Rogério Samora (vozes de Vinnie e Limburger), Joaquim Monchique (Bugias e Karbunkle) e António Semedo (Modo e Gordo). E tal como nessas outras séries, era comum haver referências a acontecimentos e personalidade da actualidade em Portugal na altura. Três exemplos:
- Vinnie: "Este plano cheira pior que a incineradora de Estarreja" (Na altura havia uma controvérsia sobre a edificação de uma incineradora de lixos tóxicos, tendo Estarreja sido escolhida como o local para a sua construção).
- Charley: "Que chatos, parecem os Irmãos Coragem." (Referência à telenovela que dava na altura no horário nobre da SIC).
- Gordo: "Eu tinha uma namorada, era a Catarina Portas, mas ela deu-me com uma porta em cima." (Catarina Portas era uma das apresentadoras do programa "Fru-Fru" então exibido na RTP)



A série teve um total de 65 episódios ao longo de três temporadas. Além disso, gerou toda uma linha de merchandising: vídeos, jogos para consola, têxteis, material escolar e brinquedos, etc. O meu irmão tinha um boneco do Bugias. Em 2006, a série foi renovada para mais 28 episódios.


Genérico:


1.º episódio:




                
     

António Rocha (1944-2015)


O actor e produtor António Rocha faleceu a 15 de Janeiro. O grande público poderá não reconhecer o nome, a não ser que recordemos o papel televisivo que lhe valeu alguma notoriedade, o gigante Rocha, um dos ineptos bandidos que faziam frente aos - um pouco menos ineptos - detectives de "Duarte & Companhia". O Rocha e o seu bigode à Chalana é uma das personagens mais recordadas com carinho pelos espetadores dessa série de comédia dos anos 80 (que já abordámos aqui na Enciclopédia por altura do 25º aniversário). Tive conhecimento da triste notícia por intermédio de um post do Miguel Meira no Facebook. Depois do sucesso de "Duarte e Companhia", António Rocha fez várias participações como actor na TV até recentemente como 2011 (segundo artigo do site 'Zapping' - "Morreu o eterno Rocha de Duarte e Companhia"'), mas a maioria da sua actividade profissional desenvolveu-se atrás das cameras, na função de  produtor ("Gente fina é outra coisa", "Vila Faia", "Tudo ao Molho e Fé em Deus", etc), como atesta a sua página no IMDB, aliás,  uma das excepções à quase nula informação disponível online sobre António Rocha. Segundo a edição de 17 de Janeiro do Correio da Manhã, o actor faleceu aos 70 anos de idade.


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Street Sharks - Figuras de Acção


Voltamos a receber na Enciclopédia um convidado especial, o debute "crómó" de Pedro André Conde, que partilha com a comunidade a sua experiência com uma linha de figuras de acção da Mattel ("He-man e os Mestres do Universo", "Barbie"), os "Street Sharks" conhecidos entre nós como "Tubarões da Rua" (e no Brasil "Tubarões Urbanos"). Como podem ver pelo texto, o Pedro é um coleccionador entusiasmado:

Street Sharks – Figuras/Bonecos de Acção (Mattel) por Pedro André Conde

Apesar da serie dos Street Sharks (Tubarões da Rua em Portugal) em 1994, ter tido uma grande audência, os seus produtos também foram alvo de grande entusiasmo e divertimento para todas as crianças.
Lembro-me no meu tempo de míudo, as figuras que estavam à venda não eram os iniciais, mas sim os das “Linhas/Series” seguintes, e eram muito caros também. Isto ainda na altura do Escudo. Consegui ainda adquirir algumas figuras apesar desse problema.
Aqui vão as fotos dos que comprei até agora e os que consegui encontrar em casa.
O primeiro que sempre quis foi o vilão principal da serie: Dr. Luther Paradigm, também conhecido por Dr. Piranoid. Em que depois de muita luta para o comprar no Jumbo de Setúbal, ele não era a versão inicial que queria mas sim a seguinte, e isto porque os que apareceram à venda eram os das linhas seguintes e não os primeiros (e acho que nunca vi esses à venda em qualquer lado). Mas apesar disso, nunca deixei de brincar com ele ou gostar da figura em si.



Mais tarde comprei o Repteel também em Setúbal e o Killamari na antiga Feira Nova do Barreiro agora Pingo Doce e era a loja onde vendia imensos, mas acima de tudo, lembro-me que no ano seguinte houve uma promoção no mesmo Jumbo: 500 escudos cada figura dos Street Sharks! Aquilo foi de morrer: havia tantos míudos a querer comprar vários. Lembro-me que houve um que “derrubou” o paínel do Big Slammu para tentar apanhar o que queria. Consegui ainda comprar dois para mim: Series 2 Jab e o Ravenous Ripster; e para a minha irmã também: o Rox e o Radical Bends. Infelizmente não sei onde se esconderam o Ripster e o Bends, mas ainda hei-de encontrá-los.



Houve também outros conhecidos por “Ocean Warriors”: havia apenas quatro bonecos e eram imitações baratas mais pequenas e com outros acessórios do Jab, Slobster, Moby Lick e Strex.




Depois de tantos anos, encontrei no OLX em 2013, um dos mais raros: o Mecho Shark, completo e sem defeitos! Comprei-o logo sem pensar duas vezes, e mal me chegou às mãos, vieram-me as recordações de quando via os episódios e quando brincava com eles.



Naquela altura, a infância era do melhor quando se tinha bonecos como os Tubarões da Rua, e até o próprio nome em português era e é espectacular de ouvir.
Ainda hoje procuro mais figuras incluindo o Dr. Piranoid que tanto pretendo, só que pelos vistos o “meio virtual” mais possível de comprá-los é no Ebay, onde consegui adquirir o Slobster impecável ainda este mês e ano presentes (Dezembro de 2014).



Resumindo, não pude deixar de querer partilhar esta linha de brinquedos única que tanto entusiasmou muitas crianças e que já não se fazem assim hoje em dia, e eram acima de tudo... “JAWESOME”!!!

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Novamente, muito obrigado ao Pedro André Conde pela participação!

Podem ler os posts dos nossos "Convidados Especiais".

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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Moulinex - Micro Ondas (1995)


Na minha mente, o nome Moulinex estará sempre associada à picadora "1-2-3" (que ainda temos algures guardada cá por casa). Em termos de culinária, sei fazer sandes e saladas, mas em pequeno fascinava-me esse aparelho, por ser algo mecânico numa cozinha muito oldschool e pelo perigo das lâminas a rodarem em alta velocidade. No entanto, no anúncio que nos ocupa hoje, a estrela é um microondas da mesma marca, que além de aquecer comida podia habilitar o comprador a ficar milionário. "Milionário" no tempo que se ficava milionário a partir dos 1000 contos. Neste caso, 1500 contos sorteados semanalmente.

Publicidade retirada da revista Maria Nº 893, da semana de 20 a 26 Dezembro de 1995.

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

7 Seconds - Youssou N’Dour & Neneh Cherry (1994)


Este “7 seconds” foi um dos grandes êxitos globais do inicio dos anos 90, e recordo claramente ouvi-lo vezes sem conta na rádio, pode-se dizer que fez parte da banda sonora do meu primeiro emprego de Verão -  nas férias grandes de 1994, numa oficina, entre peças de motor oleosas e os calendários de senhoras nuas nas paredes - creio que era a Rádio Cidade que estava sempre ligada. Era frustrante quando tínhamos que usar algum equipamento barulhento que abafava o som do rádio, que era a minha companhia durante os tempos mortos na oficina, com poucas distracções além da telefonia e os clientes habituais que vinham dar conversa. Mas, voltando ao assunto:


Incluída no álbum "The Guide (Wommat)" do senegalês Youssou N'Dour - um dos artistas africanos mais famosos - o single "7 seconds" esteve nos lugares cimeiros das tabelas musicais de 1994. A outra metade do duo foi a sueca Neneh Cherry (meia-irmã do também cantor Eagle-Eye Cherry), que juntou o tema ao seu album de 1996, "Man". A música, composta por Youssou, Neneh, Cameron McVey e Jonathan Sharp, é cantada em 3 línguas (wolof, francês e inglês) e aborda, segunda as palavras da própria Neneh Cherry “os sete primeiros segundos de vida de um recém-nascido, sem dúvida inconsciente dos problemas do mundo.” 

A letra é bem directa no modo como aborda o tema do racismo, e o videoclip, em preto e branco - realizado pelo francês Stéphane Sednaoui (vários videoclips de Alaniz Morrisette, Garbage, etc) -  representa uma amostra das diferentes etnias que povoam o planeta, num jogo de luzes, sombras,  desfoques e slowmotion, criando algumas imagens belas e perturbadoras.




Mais detalhes: 7 seconds [Wikipedia].

O videoclip:




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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Big Brother Portugal 1 (2000)

por Paulo Neto

Uma vez que estamos chegados ao ano 2015 e que a passagem do milénio (já?) foi há quinze anos, este blogue já se poderá permitir a esticar ligeiramente a sua cobertura cronológica e abordar os primeiros dois ou três anos do século XXI. Apesar de todo o seu simbolismo, o ano de 2000 em Portugal decorria sem grande história, com apenas o futebol a gerar as notícias que causaram mais impacto na população: primeiro com o Sporting finalmente a quebrar o enguiço de 18 anos e vencer por fim o Campeonato, depois com a participação de Portugal no Euro 2000, realizado na Bélgica e na Holanda, com a mão na bola de Abel Xavier e consequente penalty de Zidane a terminar abruptamente o que até então tinha sido uma brilhante campanha da Selecção Nacional. Mas tudo mudaria a partir do dia 3 de Setembro.



Quando George Orwell escreveu a sua obra "1984" na qual previa nesse ano que o mundo tomaria a forma de uma sociedade distópica onde o cidadão comum era constantemente vigiado e controlado por uma entidade denominada o "Big Brother", decerto não imaginaria que de certo modo a sua visão só se adiantou em quinze anos. Pois em 1999, estreava na Holanda a edição original do reality show Big Brother, produzido pela produtora Endemol. Inspirado, entre outras influências, por "1984" e o programa da MTV "The Real World", o programa pegava numa dúzia de desconhecidos previamente escolhidos para viver em reclusão dentro de uma casa cheia de câmaras que os vigiavam ao longo das vinte e quatro horas do dia e que lutavam entre si para ficarem na casa, à medida que os concorrentes iam sendo expulso à vez via votação do público. Bart Spring In't Veld foi o primeiro vencedor da primeiríssima edição do Big Brother (e também foi parte envolvida na primeira cena de sexo numa edição do programa, juntamente com outra concorrente). Dado o sucesso do programa nos Países Baixos, a sua importação não se fez esperar, estreando no ano seguinte em países como Espanha, Alemanha, Suécia, Reino Unido, Bélgica e Estados Unidos. Em todos esses países (menos nos EUA, ultrapassado pelo sucesso do primeiro "Survivor"), o sucesso repetiu-se, dada a premissa de despertar o voyeur em cada telespectador, além da capacidade deste se identificar naqueles desconhecidos que de repente se tornavam presenças habituais da televisão.
Como tal, era apenas uma questão de tempo até o programa chegar a Portugal, e até mesmo o seu processo foi bastante badalado. Como a SIC era o cliente mais assíduo dos produtos da Endemol, foi à estação de Carnaxide que a produtora propôs o programa, tendo sido rejeitado por Emídio Rangel. Seria José Eduardo Moniz, então director da TVI, a aproveitar a oportunidade e a comprar o "Big Brother" para Portugal, num gesto que viria a ser considerado o princípio da liderança televisiva da TVI e o fim do até então fulgurante domínio da SIC, que se concretizaria definitivamente em 2003 e que perdura até hoje.

O primeiro Big Brother português estreou a 3 de Setembro de 2000, com apresentação de Teresa Guilherme e Pedro Miguel Ramos. Doze concorrentes foram escolhidos entre milhares de candidaturas para coabitarem numa casa na Venda do Pinheiro durante um período máximo de 120 dias, com o vencedor a ser determinado no último dia do ano. Eram eles: Célia, 18 anos, estudante de Vila Nova de Gaia; Marco, 24 anos, vendedor de produtos químicos e kickboxer, do Carregado; Maria João, 20 anos, estudante, de Ermesinde; Mário, 19 anos, estudante e  modelo, de São Mamede de Infesta; Marta, 23 anos, barmaid, de Loures; Ricardo A., 24 anos, músico e informático, de Oeiras; Ricardo V., 30 anos, escritor e surfista, da Parede; Maria da Conceição a.k.a. Riquita, 29 anos, professora, de Guimarães; Sónia, 24 anos, estudante, de Aveiro; Susana, 26 anos, desempregada, de Paredes; Telmo, 23 anos, serralheiro e ex-paraquedista, de Leiria; e Zé Maria, 27 anos, trolha, de Barrancos.



Além de vários blocos de informação ao longo do dia, o programa consistia de um resumo dos acontecimentos da casa no dia anterior exibido diariamente em horário nobre e as galas às terças-feiras, apresentadas por Teresa Guilherme, que alternavam entre as nomeações e as expulsões dos concorrentes. Todas as semanas, os concorrentes também tinham de cumprir uma tarefa semanal e consoante o êxito ou fracasso desta, eles viam o seu orçamento para as compras semanais aumentar ou diminuir.

Não se poderá dizer que o "Big Brother" tenha sido um sucesso instantâneo, o cepticismo era notório por parte do público e a crítica da especialidade expressou prontamente em coro o seu desagrado pelo programa. Mas gradualmente, o interesse e a audiência foram aumentando e quando deu por si, Portugal inteiro parava todos os dias depois do Jornal das Oito da TVI (que aliás passara a incluir amiúde algumas ocorrências do programa no seu bloco de notícias) para saber dos últimos acontecimentos na casa e todas as acções e declarações dos concorrentes eram analisadas e debatidas à exaustão nos lares, nas escolas, nos cafés e na internet.







O momento mais marcante ocorreu ao 34.º dia, com a agressão de Marco a Sónia na sequência de uma discussão entre os dois durante um ensaio para a tarefa dessa semana, representar uma cena dramatizada de "A Relíquia" de Eça de Queiroz. A expulsão de Marco do programa devido a esse incidente acabaria por ter mais destaque nesse dia no Jornal da TVI e em alguma imprensa escrita do que o anúncio da recandidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República.

 
 
 



Sem desprimor para os quatro primeiros concorrentes eliminados - Riquita (expulsa pelo público logo ao terceiro dia, provavelmente por ser a única que era casada e mãe), os dois Ricardos e Maria João - bem para os dois que entraram na casa em substituição de Marco - Paulo, 31 anos, electricista e funcionário no Casino de Monte Gordo e Carla, 29 anos, cabeleireira e ex-stripper - mas a primeira edição portuguesa do "Big Brother" e o sucesso desta, foi feito essencialmente das personalidades e desventuras de um núcleo duro de oito concorrentes.



- Ainda que no primeiro dia tenha protagonizado um momento de súbito acanhamento que a levou a mudar de roupa na casa-de-banho, Sónia revelar-se-ia uma concorrente bem desinibida, afirmando que falar de sexo era como comer um iogurte e revelando sem rodeios que já tivera experiências sexuais com mulheres. Sónia viria a participar no primeiro Big Brother Famosos, mas desde então tem estado longe dos olhares dos media.
- Apesar de ser o rapaz mais passível de agradar ao público feminino, Mário acabou por ser como que o vilão do programa, pela sua tendência em semear intrigas entre os concorrentes. Também foi criticado por ser demasiado preguiçoso e ser raramente visto a fazer as tarefas da lida de casa. Mário voltaria anos mais tarde a ser notícia pelos piores motivos, ao ser detido devido ao seu alegado envolvimento em negócios ilícitos.



- Telmo e Célia acabariam por formar um dos casais da casa. Apesar de não serem concorrentes muito apreciados pelo público, ela pela sua imaturidade, ele pelas, digamos, particularidades do seu discurso e vocabulário, o certo é que protagonizaram momentos divertidos entre discussões e reconciliações e os dois figuravam entre os quatro últimos concorrentes, tendo Célia mesmo resistido até ao último dia e ganho o prémio de terceira classificada. 
Ficou na história o episódio em que após uma sessão marmelada onde aparentemente teria havido sexo, Telmo perguntou: "Gostastes?" ao que ela responde "Gostei", e a reacção de Célia quando confrontada com Teresa Guilherme sobre isso, exclamando a viva voz: "Mãe, não aconteceu nada, o forte está guardado!". Contra as expectativas, Célia e Telmo continuam casados até hoje e têm um filho. Telmo ganhou uma edição do programa "Primeira Companhia" e figurou na lista do PS do distrito de Leiria para as eleições legislativas de 2011.



- Mas o principal casal foi aquele formado por Marco e Marta, que chegaram ao ponto de serem o primeiro casal a assumidamente ter sexo num programa de televisão em Portugal. Marco foi sempre um concorrente controverso, que desde o início se impôs como o líder da casa e que alternava entre momentos de extrema agressividade, que culminaram no momento que lhe valeu a sua expulsão, e diversos momentos cómicos. Marta era vista como a concorrente com mais maturidade e era sempre ela que chamava os outros concorrentes à razão nos momentos mais tensos. Contra todas as expectativas, Marco soube contornar os efeitos de um gesto sempre condenável e que podia ter suscitado o ódio de Portugal inteiro, expiando a sua culpa tanto diante de Manuela Moura Guedes no Jornal das Oito como de Teresa Guilherme na gala seguinte à sua expulsão e multiplicando-se em diversas declarações de amor a Marta, inclusive a gravação de um single. Marco e Marta continuariam a sua relação, com o respectivo noivado e casamento transmitidos em directo e tiveram um filho, mas a união terminou em 2005. Além de algumas esporádicas aparições na televisão, como quando ele se auto-parodiou em programas como "Gato Fedorento" e "O Último A Sair", Marco também foi notícia por treinar soldados chineses em Israel seguindo os duríssimos parâmetros do exército israelita. Marta Cardoso formou-se em jornalismo e desde 2009 que tem colaborado em vários programas da TVI, como reportagens para "A Casa dos Segredos" e a condução dos programas das extracções dos números do Euromilhões.



- A loura Susana, que se definiu certa vez como "o Sol da Casa" e cujos colegas lhe tratavam por "cabeça amarela" foi uma das concorrentes mais populares. Após algumas dificuldades iniciais de se integrar a casa, Susana acabou por se afirmar quer pelas suas variações de humor, quer pelas interacções com aquele que parecia ser o único candidato à vitória. Houve uma certa altura, já na recta final, em que a vitória de Susana chegou a ser provável mas ela acabaria no segundo lugar. Foi ela que ficou com Big, a cadela que se tornou a nova residente da casa a meio do programa. Desiludida com a fama inesperada, há muito que Susana se remeteu de novo anonimato.
- O vencedor da edição foi Zé Maria, que desde cedo foi visto como o grande candidato. O esquálido alentejano que por diversos motivos, como ser o único proveniente de um meio rural e por encarar o desafio com um inocência quase infantil, foi semi-ostracizado ao princípio, parecendo dar-se melhor com as galinhas residentes no quintal da casa do que com os outros concorrentes. Mas gradualmente ele foi-se integrando no grupo e cativando os telespectadores, que viram nele o underdog ideal para a narrativa do programa, pois até mesmo as suas tiradas menos felizes eram divertidas. Zé Maria também foi aquele que conseguiu criar mais empatia com Teresa Guilherme durante as conversas no confessionário às terças-feiras. Eram habituais as suas queixas de falta de audição ("Ai, não estou a ouvir Teresa!"). A consagração de Zé Maria no réveillon 2000/2001 foi apoteótica assim como o seu regresso a Barrancos, mas como foi amplamente documentado, a fama súbita acabou por lhe causar diversos problemas, sobretudo de foro mental, pelo que já há alguns anos que ele vive resguardado das atenções mediáticas.     



Além disso, outra peça fundamental no sucesso do primeiro Big Brother nacional foi sem dúvida Teresa Guilherme. Se hoje a sua condução de "A Casa dos Segredos" parece dominada por diversos tiques, trocadilhos e pavios curtos, na altura TG soube ser o elo perfeito de ligação entre os concorrentes, os familiares destes e os telespectadores, aliando humor, sensatez e sensibilidade. Pelo confessionário, estabelecia relações com os concorrentes, provocando-lhes o riso diante dos seus episódios mais divertidos e puxando-lhe as orelhas por algumas atitudes menos correctas. Pedro Miguel Ramos também foi um co-apresentador irrepreensível, quer nas suas reportagens de exteriores, quer quando acompanhava os concorrentes no caminho ao estúdio após a sua expulsão. 
E já que falámos em familiares dos concorrentes, até estes também tiveram a sua dose de notoriedade, nomeadamente o irmão gémeo de Marco, o namorado de Susana (alcunhado de "Bolinha de Pelo"), a mãe de Célia, o pai e a irmã de Marta e a "Cegonha", a alegada amiga colorida de Zé Maria.



Quando o primeiro Big Brother terminou, parecia que Portugal estava viciado no programa como uma droga. Daí que a segunda edição tenha arrancado somente três semanas depois e entretanto, a TVI tenha fornecido a devida metadona com "Big Estrelas" que seguia os concorrentes nas suas várias actividades após a saída do programa. Enquanto isso, a SIC apercebeu-se que cometera um enorme erro em recusar o programa e contra-atacou, sem grande sucesso, com programas similares como "Acorrentados" e "O Bar da TV". 

Em Portugal, o "Big Brother" teve quatro edições com anónimos e três com famosos, mas sem dúvida que foi a primeira delas todas foi a que mais impacto causou e que mais nostalgia provoca ainda hoje. Primeiro, porque era todo um território inexplorado e depois, em todos as edições e outros reality shows que se seguiram, já se notava um perda de inocência por parte dos concorrentes, mais conscientes das câmaras e das consequências que poderiam obter com a sua participação. Depois, porque se hoje em dia na "Casa dos Segredos" os concorrentes parecem ser escolhidos pelo índice de músculos, tatuagens, silicone, acefalia e/ou apetência para a peixeirada, no "Big Brother" houve uma preocupação de escolher concorrentes semelhantes ao jovem português comum, pessoas que podiam ser nossos parentes, colegas, amigos e gente que encontraríamos casualmente na rua. E foi precisamente essa a revolução do Big Brother no panorama audiovisual português, a forma como quebrou a barreira mística entre o português comum e as pessoas ligadas ao mundo da televisão, que até aí pareciam envoltas numa aura de inacessibilidade. Mais do que nunca, os Zés Marias, as Susanas, os Telmos e as Martas desta vida podiam também ser estrelas no pequeno ecrã. E partir daí, a televisão em Portugal nunca mais foi a mesma.  

Imagens do primeiro bloco diário:


Entrada dos concorrentes na casa:






Tema oficial do Big Brother 1: "Vive" Delfins



A vitória do Zé Maria e os últimos momentos:


ACTUALIZAÇÃO:
Descobrimos este vídeo brasileiro sobre como foi feito o primeiro Big Brother do mundo inteiro, na Holanda em 1999, desde as ideias iniciais e dos testes experimentais até à consagração do primeiro vencedor.


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