sábado, 25 de abril de 2026

Capitães de Abril (2000)

Além de promos apenas tinha visto alguns clips durante alguma exibição na TV, mas só 26 anos depois tive oportunidade para ver de uma ponta a outra o filme português "Capitães de Abril" a reconstrução dos acontecimentos do maior dia de Portugal no século XX, o dia da Revolução dos Cravos, o 25 de Abril de 1974

Maria de Medeiros ("Henry & June", "Pulp Fiction") realizou, co-escreveu e actuou em "Capitães de Abril", vertendo experiências pessoais na estória da História de Portugal; que serviu ao espectador sem ingenuidade e com contrariedades na medida certa para ser emocionante mas sem fotocópias ou fangirling das Figuras Históricas. Li por ai nas opiniões auto-importantes num qualquer agregador de críticas, que na película faltou mostrar o ponto de vista d'"o outro lado", e claro: sem influências ideológicas de esquerda, mostrar todo o caos que se seguiu, a descolonização "sem planeamento"  e toda a restante cassete gasta que os velhos do Restelo, colaboradores e saudosistas continuam a debitar, hoje nas redes sociais para atrair sangue novo e "patriótico" com a propaganda a normalizar a extrema-direita e conservadora. Reconheço que seria interessante, mas tudo isso iria resultar mais adequado num formato de série televisiva (como as posteriores "Conta-me como Foi" e "Depois do Adeus"). Mas voltando ao que conteúdo que realmente está no ecrã:

A cena inicial da despedida de um soldado e sua namorada é tão exagerada e teatral que me sobressaltou imediatamente. Felizmente, tudo mudou nas cenas seguintes, que encontraram o seu ritmo, com a interação entre as personagens, reproduções de acontecimentos reais a entrelaçar-se. Tinha-me esquecido de quantos recursos e investimento em produção foram dedicados a este projeto, como filmar nos locais onde ocorreram eventos históricos, com chaimites e tudo. O humor cínico de Gervásio (Joe de Almeida "Adão e Eva") contrasta com o optimismo de Maia (Stefano Accorsi) e um certo romantismo em relação à Revolução, resultando, por vezes, em diálogos algo exagerados, mas que representa um foreshadowing do futuro mais negro após o triunfo de um golpe militar quase sem derramamento de sangue. E no rosto de Maia, apesar da esperança podemos ver sinais do começo da morte da liberdade, quando a velha guarda rapidamente assume o comando dos militares subalternos que tanto trabalharam arduamente para libertar o povo das amarras do regime colonialista e autoritário. A banda sonora é maravilhosa (assim como o delicioso cameo de Maestro Vitorino de Almeida), o elenco é recheado de caras conhecidas do grande público, mas definitivamente não sou fã de dobragens de atores estrangeiros, que ajudou a tornar alguns momentos mais líricos* em algo um pouco estranho... A edição esteve a cargo de Jacques Witta ("O Delfim", "Cinco Dias, Cinco Noites") e com a fotografia de Michel Abramowicz ("Taken","The Other Story") mesmo as cenas mais intensas parecem intimas do espectador. 

Concluindo, é um interessante novelo de acontecimentos, deixando a solenidade apenas para os momentos em que o povo anónimo exprime a alegria de um evento inimitável, o fim da cinzento-suja e corrupta ditadura que oprimiu milhões por todo o mundo, com recurso á pobreza, à violência, à espionagem, à ignorância, nacionalismo bacoco, e á perversidade de um Império podre e decadente.


* Fui obrigado por lei a colocar esse adjetivo na review.


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