Em 1986, a RTP optou por seguir um modelo inédito para selecionar a canção que representaria Portugal no Festival da Eurovisão desse ano, que teria lugar na cidade de Bergen na Noruega.
Embora seja agora considerada canonicamente como o 23.º Festival da Canção, esta selectiva nacional teve o nome de "Uma Canção Para A Noruega" e foi emitida na RTP1 no dia 22 de Março de 1986.
No entanto, ao contrário do que era habitual, a selecção e apresentação das canções concorrentes foi feita de forma diferente. Em vez de uma submissão aberta a nível nacional, os quatro centros de produção da RTP em Lisboa, Porto, Açores e Madeira ficaram incumbidos de seleccionarem três canções para a competição, bem como os seus compositores e intérpretes. As doze canções não foram apresentadas ao vivo no mesmo local, como era costume, mas sim em actuações pré-gravadas num local fornecido pelos centros de produção.
A escolha da canção vencedora esteve a cargo de um júri composto por 43 funcionários da RTP, tendo sido antes anunciadas as três canções sujeitas à votação final. O site Festivais Da Canção refere que houve ainda uma fase inicial da votação em que seis canções seriam apuradas para a ronda seguinte, mas que acabou por ser com oito canções devido a um empate. Porém, tal não foi mencionado no programa e desconhecem-se quais teriam sido as outras canções apuradas nessa fase além das três finalistas.
O programa teve seis apresentadores, todos eles habituados a estas andanças: Alice Cruz, Ana Zanatti, Eládio Clímaco, Fialho Gouveia, Henrique Mendes e Maria Helena.
No início da emissão, fez-se um breve resumo da história do Festival da Canção até ao momento.
Seguiu-se aquele que foi, pelo menos na minha opinião o ponto alto da gala, a interpretação de "Cavalo À Solta", a canção que ficou em terceiro lugar na voz de Fernando Tordo, pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras e quase todos os vencedores do Festival da Canção até então: António Calvário (1964), Simone de Oliveira (1965 e 1969), Eduardo Nascimento (1967), Carlos Mendes (1968 e 1972), Sérgio Borges (1970), Tonicha (1971), Paulo De Carvalho (1974), Duarte Mendes (1975), Ana Bola (membro d'Os Amigos, 1977), Tozé Brito (membro dos Gemini, 1978), Manuela Bravo (1979), Carlos Paião (1981), Armando Gama (1983), Maria Guinot (1984) e Adelaide Ferreira (1985). De fora ficaram somente Madalena Iglesias (1966), Carlos do Carmo (1976), José Cid (1980) e as Doce (1982).
Quanto às canções começamos pelas do Centro do Produção da Madeira, o único que não viu nenhuma das suas canções na ronda final. (Links para as canções nas letras a negrito)
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| Sérgio Borges |
- Luís Filipe "Tango Da Meia-Noite": depois de ter participado no ano anterior com "Mulher Só, Mulher Giesta", Luís Filipe (1952-2015) apresentava-se de novo no Festival com este tema que escreveu com Nuno Rodrigues da Banda Do Casaco. Depois de nos anos 70 ter integrado algumas das bandas madeirenses mais reconhecidas, Luís Filipe ia consolidando uma carreira a solo ao longo da década de 80, com alguns hits como "Raio Azul". O cantor representou Portugal no Festival da OTI em 1988 com "Vive A Vida Cantando" e compôs outras canções concorrentes ao Festival da Canção como por exemplo, "Partir De Mim", interpretado por Marina Mota, que ficou em segundo lugar em 1989.
- Paulo Ferraz "Uma Ilha, Um Amor": um dos mais firmados compositores do arquipélago, Paulo Ferraz compôs duas das canções a concurso por esta região: esta interpretada pelo próprio e a seguinte.
- Sérgio Borges "Quebrar A Distância": Ao vencer em 1970 com "Onde Vais Rio Que Canto", Sérgio Borges (1943-2011) tornou-se o primeiro madeirense a vencer o Festival da Canção, embora nesse ano, perante o boicote da RTP, não tenha ido à Eurovisão. (Em vez disso, participou com essa canção no Festival de Música de Tóquio.) Em 1966, Borges tinha ficado em segundo lugar com "Nunca Direi Adeus", acompanhado pelo Conjunto Académico João Paulo, a primeira canção do Festival em que foi utilizada uma guitarra eléctrica! Esta foi a terceira e derradeira que Sérgio Borges participou no Festival da Canção, tendo ainda vivido para ver em 2008 pela primeira vez uma madeirense, Vânia Fernandes, a representar Portugal na Eurovisão.
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| Carlos Alberto Moniz |
Seguindo para os Açores onde, além da que avançou para a fase final, foram apresentadas estas duas canções:
- Carlos Alberto Moniz "Canção Para José Da Lata": Natural da Ilha da Terceira, Carlos Alberto Moniz já era um rosto conhecido do grande público, tanto a nível musical como televisivo. Esta foi a sua única participação a solo, mas anteriormente já tinha competido três vezes como membro do grupo SARL (1979, 1980 e 1982) e uma com a sua então esposa Maria do Amparo. Nos anos seguintes, Moniz teria alguns pontos altos como o tema do concurso "Arca De Noé" e apresentando o primeiro espaço infantil da TVI, "A Casa Do Tio Carlos". À Eurovisão propriamente dita, Carlos Alberto Moniz foi duas vezes como orquestrador em 1990 e 1992, e claro, a sua filha Lúcia Moniz levou ao alto as cores portuguesas em 1996, conquistando o melhor resultado de Portugal no Festival até à vitória em 2017.
- Luís Gil Bettencourt "Cais De Encontro": Um dos músicos mais proeminentes do arquipélago desde os tempos da banda Viking, Luís Gil Bettencourt apresentou-se com este tema da sua autoria. A sua canção mais conhecida será "If There's A Reason" de 1987, cujo videoclip, inspirado pelo mito da Atlântida (e com uma produção bem avultada para a altura), passou amplamente na RTP. Por esta altura, nos Estados Unidos, o seu irmão Nuno Bettencourt dava os seus primeiros passos nos Extreme, ainda a cinco anos do sucesso global com "More Than Words".
Uma canção da RTP Porto seguiu para a fase final, e estas foram as outras duas canções da "Imbicta".
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| Né Ladeiras |
- Gabriela Schaaf "Cinza E Mel": Nascida em Basileia na Suíça, Gabriela Schaaf mudou-se para o Porto com os seus pais em 1971 e por lá deu os seus primeiros passos na música. Em 1977, colaborou com a Banda Do Casaco no álbum "Hoje Há Conquilhas, Amanhã Não Sabemos" e no ano seguinte lançou o seu single de estreia "Põe Os Teus Braços À Volta De Mim". 1979 foi um ano marcante, obtendo o segundo lugar no Festival da Canção com "Eu Só Quero" e lançamento do seu primeiro álbum "Vídeo", o qual incluía a sua canção mais conhecida, "Homem Muito Brasa". Nesse ano de 1986, Schaaf editou um duplo single com temas em inglês e participou nesta seletiva com "Cinza E Mel", que não conheceu edição em disco. Pouco depois, Gabriela Schaaf abandonou a carreira artística e mudou-se para Zurique, onde reside até hoje. A sua mais recente aparição televisiva em Portugal foi no Festival da Canção de 2017, onde integrou o júri das semifinais.
- Né Ladeiras "Dessas Juras Que Se Fazem" (aka "Jura"): O público irá conhecer mais tarde esta canção da dupla Rui Veloso/Carlos Tê como "Jura", mas aqui foi anunciada com o título "Dessas Juras Que Se Fazem". Depois de passagens pela Brigada Victor Jara, os Trovante e a Banda Do Casaco, Né Ladeiras iniciou a sua carreira a solo em 1982 e dois anos depois, teve o seu momento mais notório com o álbum "Sonho Azul", do qual a faixa-título foi um grande hit. Né Ladeiras continuaria com uma carreira bastante ativa nos anos seguintes, destacando-se o álbum "Traz Os Montes" de 1994. Embora esta tenha sido a sua única participação no Festival da Canção, colaborou na versão de estúdio de uma canção que competiu na selectiva de 1988, "Nono Andar" de Ana & Suas Irmãs. Reintitulada "Jura", esta ganharia novas vidas nas vozes de Lara Li (edição em single em 1987 e incluída no álbum "Quimera" de 1988) e de Rui Veloso (no álbum "Avenidas" de 1998).
A eventual vencedora foi uma das três propostas da RTP Lisboa, e estas foram as outras propostas vindas da capital.
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| Lara Li venceu o Prémio de Melhor Interpretação |
- Lara Li "Rapidamente": Referimos ela agora mesmo e Lara Li também marcou presença neste evento, naquela que era a sua segunda participação no Festival da Canção. Em 1980, ficou-se pelas semifinais com "E Pouco Mais" e pôde ser vista na final ao lado de Lena D'Água no coro da canção "Lição De Português" defendida por Madi. No ano seguinte, editou o álbum "Água Na Boca" que continha aquela que é a sua canção mais emblemática, "Telepatia".
Para esta selectiva, a cantora nascida em Lisboa com o nome Ilídia Amendoeira, interpretou "Rapidamente" da autoria dos "trovantes" Luís Represas e João Gil, um desempenho que lhe valeu o prémio de Melhor Interpretação. Em 2023, depois de vários anos fora das atenções do grande público, Lara Li participaria pela terceira vez no Festival da Canção com "Funâmbula", da autoria de André Henriques.
- Fá "Uma Balada De Amor": Fátima Padinha já tinha grande experiência em Festivais das Canção: em 1977 fez parte da formação dos Green Windows que apresentaram duas versões de dois temas a concurso, "Rita, Rita Limão" e "O Que Custar", em 1978 com os Gemini no papagaio voador de "Dai Li Dou" chegou à Eurovisão, ao que se seguiram quatro participações com as Doce em 1980, 1981, 1982 (vitória) e 1984. Tendo anunciado a sua saída do grupo no final de 1985, Fá tentava aqui lançar uma carreira a solo com "Uma Balada De Amor", uma declaração de amor a Lisboa com letra de Helena Isabel e música de Paulo de Carvalho. Contudo, a carreira a solo de Fá acabou por não descolar. (E sim, por esta altura, ela já era casada com o futuro primeiro-ministro Pedro Passos Coelho.)
Já as Doce, primeiro com a artista futuramente conhecida com Ágata, depois em trio, ainda continuariam até 1987. Desde então as aparições de Fátima Padinha em televisão têm sido relacionadas com as Doce, incluindo breves atuações com as colegas Lena Coelho e Teresa Miguel.
Passemos agora às três canções finalistas. Como a classificação completa nunca foi divulgada, canonicamente as duas outras canções finalistas são consideradas como sendo dois segundos lugares ex-aqueo.
Rimanço "No Vapor Da Madrugada" (Açores): Composto por Luísa Alves (vocalista), Brígida Ferreira (violino), Álvaro Melo, Aníbal Raposo, João Lima, Luís Alberto Bettencourt, Paulo Andrade e Zeca Sousa, o grupo Rimanço trouxe "No Vapor Da Madrugada", uma proposta de saboroso recorte etno-folk, a fazer um pouco a música celta, que valeu o acesso ao top 3. Além desta canção, os Rimanço editariam mais outro single, "Chuva De Sentidos" em 1987.
Trabalhadores Do Comércio "Os Tigres Da Bengala R.S.F." (Porto): Fundados por Sérgio Castro e Álvaro Azevedo, os Trabalhadores Do Comércio trouxeram o sotaque do Porto para o boom do rock português. "Chamem A Polícia" é a sua canção-assinatura, mas também houve "Táquetinho Ou Lebas No Focinho", "A Chabala Do Meu Coração", "De Manhã Bou Ao Pão" e "Sou Um Gaijo Do Porto", entre outros. A banda também tinha a particularidade de ter um membro infantil, João Luís Médicis.
Aliás, Médicis, que aqui ainda só tinha 13 anos, teve papel de destaque neste "Os Tigres De Bengala", o que significa que foi por pouco que a belga Sandra Kim, a jovem vencedora do Festival da Eurovisão desse ano, não teve na Noruega outro competidor da sua idade. Os Trabalhadores Do Comércio aproveitaram a ocasião para lançar o mini-álbum "Mais Um Membro P'rá Europa" e seguem no activo até hoje.
Mas a canção que levaríamos até à Noruega, vinda de Lisboa, foi obviamente "Não Sejas Mau Para Mim", na voz de uma jovem de 19 anos chamada Dora Maria de Jesus, que em breve Portugal inteiro iria conhecer como simplesmente Dora. Escrito pelos ex-Salada De Frutas Guilherme Inês e Zé da Ponte com Luís Oliveira, "Não Sejas Mau Para Mim" seria a rampa de lançamento da carreira de Dora. Não, aqui não usou o lendário outfit de saia verde e botas Doc Martens com que se apresentou na Eurovisão em Bergen onde alcançou o 14.º lugar, mas sim um vestido em tons de amarelo e prateado.
Dora seria uma das cantores mais proeminentes do país no resto da década de 80, com hits em português e inglês como "Já Dei", "Our Love", "Easy" e, claro, uma nova ida à Eurovisão em 1988 com "Voltarei", novamente através de uma seleção interna da RTP. Também representou Portugal no Festival da OTI em 1990 com "Quero Acordar". Depois, foi viver para o Brasil tendo regressado no início deste século. Desde então tem trabalhado sobretudo em espetáculos no Casino Estoril e atuado pelo país fora e participou no programa "A Tua Cara Não Me É Estranha".
"Não Sejas Mau Para Mim" permanece como a canção-assinatura de Dora e, tal como tantas outras canções vencedoras do Festival, tornou-se um clássico imortal trauteado por várias gerações.
Actuação no Festival da Eurovisão
Actuação no Festival da Eurovisão
Actuação no Festival da Canção de 2021
Na altura, com os meus quase seis anos, lembro-me de pensar que se doravante a seletiva portuguesa para a Eurovisão passaria a chamar-se "Uma Canção Para…" com o nome do país anfitrião do Festival de cada ano, mas logo no ano seguinte, em vez de "Uma Canção Para A Bélgica", a RTP regressou à nomenclatura "Festival da Canção".
Um enorme agradecimento ao site Festivais Da Canção e ao livro "Portugal 12 pts" de João Carlos Calixto e Jorge Mangorrinha pela informação essencial para este artigo.
"Uma Canção Para A Noruega" está disponível para visualização:
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