sexta-feira, 22 de maio de 2020

MacGyver (1985-1992) Parte 2



Com Parte 2 não indico que escrevi sobre o remake, mas apenas que vou juntar algumas observações que fiz desde que comecei a rever a série na RTP Memória. Para mais detalhes, (re)leiam a Parte 1: "MacGyver"(1985-92).


Portanto, a RTP Memória voltou a emitir os episódios, finalmente num horário que me convinha e embarquei com gosto nesta viagem de rever as aventuras de MacGyver e amigos. E foi incrível a quantidade de detalhes que tinha apagado da memória, bem como todos os que ainda estavam presentes, cerca de três décadas depois. E vendo os episódios diariamente, ao invés de um episódio por semana, como estávamos condenados antigamente, permitiu notar toda uma série de evoluções, modificações e ajustes, bem como  a personalidade inconstante do protagonista ao longo das várias temporadas, não falo em pormenores picuinhas, mas por exemplo a hesitação em ir salvar um jovem amigo a caminho de um provável destino mortal num pais desconhecido quando umas dezenas de episódios antes MacGyver fez de tudo para salvar o mesmo jovem. Principalmente no inicio, MacGyver era quase tão mulherengo como o agente 007 que tentavam imitar, mas em versão low budget gadgets. Há um vídeo que recomendo imenso porque faz um apanhado desses pormenores mais interessantes, incluindo o uso de imagens de outros filmes em sequências inteiras (Youtube "The Three Faces of MacGyver: Part 1 - Mac of All Trades").

Mas além de tudo, do pouco que recordava desta série que via religiosamente aos final dos Domingos à tarde não me lembrava que era tão divertida e dinâmica. Há alguns anos vi um episódio ao calhas num canal de cabo e quase adormeci, no entanto ao rever confirmo que é muito bem editada e resiste bem ao tempo. 



Também não tinha ideia que personagens como o adorável sacana Jack Dalton (o amigável traficante que constantemente coloca MacGyver em apuros), Penny Parker (aquela versão musical de Cleopatra foi...inesquecível) ou Murdoc, o delicioso over the top némesis imortal de MacGyver, vivido pelo actor inglês e rocker Michael Des Barres, que descobri hoje voltou a surgir no remake de MacGyver. 

Mas como estou a pensar dar uma segunda chance à série, não pesquisei mais... E nem me recordava dos irmãos Colton, que tiveram direito a episódio especial para tentar lançar uma série protagonizada pela peculiar família de caçadores de recompensas. Mas foi um spin-off que não se concretizou.

Entremeados com os capítulos mais bombásticos,  apareciam alguns episódios preocupados com causas que infelizmente, mais de 3 décadas depois não tiveram grandes melhoras: liberdade e direitos humanos dos cidadãos na China (com referências directas ao Massacre de Tian An Men), a caça furtiva aos rinocerontes (negros) para alimentar o comércio da perversa medicina tradicional chinesa, racismo, desigualdade social, etc. E à medida que a série se aproximava do final, esses episódios - mais baratos? - de causas e comentários sociais aumentaram, mas sem no entanto serem moralistas. MacGyver por exemplo, tentava compreender os argumentos dos ambientalistas e dos madeireiros, e evitava ser o tradicional "salvador branco" que ia resolver os problemas dos locais (literalmente no dia seguinte a escrever isto o episódio do dia tem um místico oriental diz que MacGyver é "o tal" ) . Mas aposto que ele ia acabar por complicar muito a vida de alguns personagens, se estes continuassem a existir depois da foto com os créditos no final de cada episódio, pelo menos nas primeiras temporadas ainda em Guerra Fria com os soviéticos e outros ditadores de meia tigela.
Curiosamente dos episódios que vi o mais pateta não é nenhum daqueles que o MacGyver sonha ser um cowboy, mas "Harry's Will", com vários cameos (com o Scotty de "O Caminho das Estrelas"), cenas ridículas e um tipo de humor slapstick que contrasta com o habitual na série.
E falando no Oeste Selvagem, no segundo episodio western, uma das "mulheres de MacGyver" é a ex-actriz porno Traci Lords, famosa pelo escândalo que abalou a indústria de filmes para adultos nos anos 80, visto que ela ainda não era adulta quando actuou na maioria da sua filmografia (que teve que ser banida ou editada nos EUA), pormenor que na época que o episódio passou na RTP eu desconhecia. (Aposto que muito espectador português sócio de clube de vídeo a reconheceu imediatamente..) Mas Lords não desistiu e conseguiu desde os anos 90 construir uma carreira de actriz em cinema e TV. 

Falando de episódios invulgares, se não tivesse terminado na sétima temporada, estou certo que ainda veríamos MacGyver no Espaço a combater alguns refugos da Galáctica depois de MacGyver bater com a cabeça na secção de ficção cientifica da biblioteca. A maioria dos vilões das ultimas temporadas pareciam saídos de um desenho animado, e tornou-se um pouco frustante ver o corajoso herói que enfrentou tantos perigos durante sete anos várias vezes agir como uma criança assustada e impotente para reagir, só para permitir acomodar a metragem do episódio. Mas foi bom recordar o trauma infantil que foi a causa da aversão que o nosso herói tem a armas de fogo.
No episódio que o chefe/melhor amigo Pete aguarda a operação aos olhos, ambos recordam aventuras passadas, e num dos flashbacks  é chocante comparar o tamanho gigante a que a gadelha de MacGyver chegou na 5ª temporada:

E falando nisso, há pouco tempo consegui uma cópia em VHS de um dos poucos episódios duplos da série, neste caso os dois primeiros dessa temporada, "Legend Of The Holy Rose". Com a minha temática favorita: caça ao tesouro!
Pete Thorton foi presença constante ao longo  da série e quando o actor Dana Elcar desenvolver glaucoma, também o seu personagem Pete ficou progressivamente cego e participou em alguns dos episódios da temporada final. 

Uma curiosidade relacionada com Dana Elcar é que consta que o actor e o seu duplo, Don S. Davis eram frequentemente confundidos. Podem vê-lo na foto abaixo, é o careca. Quase gémeos...

Anos depois, Don S. Davis seria o chefe do MacGyver, isto é, do Coronel O'Neill em "Stargate SG-1" (a continuação do "Stargate" de 1994), o segundo papel marcante da vida do actor Richard Dean Anderson.

Mais do que numa época pré-Internet podíamos imaginar, muitas vezes os episódios de séries eram emitidos fora de ordem cronológica, mas poucos casos serão tão flagrantes como o final de MacGyver, que foi emitido em penúltimo! E apesar de ter pesquisado para o artigo que escrevi em 2016 - Parte 1: "MacGyver"(1985-92), ainda consegui ter várias surpresas, como a do episódio final SPOILERS em que MacGyver encontra o seu filho que desconhecia existir. 

Com a quantidade de ex-namoradas, amigas e mulheres bonitas em perigo que MacGyver ajudou e confortou ao longo de sete temporadas e dois telefilmes, aposto que tem mais filhos que o Julio Iglesias, espalhados por essa Terra...
Estou agora a pensar rever os telefilmes "Lost Treasure Of Atlantis" e "Trail To Doomsday" ambos de 1994, e talvez recomeçar o remake no ar desde 2016. Talvez...



terça-feira, 19 de maio de 2020

Apanhados (1992-93; 1995)

por Paulo Neto


Os programas de televisão em que são pregadas partidas a cidadãos comuns, vulgo "apanhados", são tão antigos quanto a história da televisão. Não sei se o conceito foi inventado anteriormente em algum outro país, mas tanto quanto sei esse conceito começou nos Estados Unidos em 1948 sobre o título "Candid Camera", que aliás provinha de uma versão radiográfica intitulada "Candid Microphone" e de algumas curtas metragens cinematográficas. Várias encarnações do programa foram produzidas na televisão americana (a mais recente em 2014) e lembro-me que algumas delas chegaram a passar na RTP e na TVI em meados dos anos 90, quando o apresentador era Dom DeLuise. Claro que o conceito não tardou a ser adaptado para outros países, alguns mantendo programas nesses moldes na sua programação até hoje.



Em Portugal, foi Joaquim Letria o creditado por trazer os "apanhados" para a televisão portuguesa, integrados nos programas que conduziu para a RTP. Primeiro em 1980 para o programa "Tal & Qual" (que tinha o mesmo nome do jornal que fundou nesse ano e que duraria até 2007), mais tarde em 1987/88 no programa "Já Está" (onde a rubrica tinha o título de "Fotomaton") e em 1990/91 para o programa que tinha o seu nome. E claro, por essa altura, os filmes com essa mesma temática da saga sul-africana "Gente Gira"  faziam furor por cá. 



O sucesso desses quadros era tal que se impunha um programa autónomo. E foi assim que o programa obviamente intitulado "Apanhados" foi uma das mais aguardados estreias da RTP1 para a rentrée de 1992 (quando muito em breve a SIC iria iniciar as suas transmissões). Foram 26 programas emitidos nas noites de segunda-feira entre 14 de Setembro de 1992 e 8 de Março de 1993.

Joaquim Letria aparecia no início de cada quadro, explicando a respectiva situação. Embora já tivesse aparecido na televisão antes, sobretudo na pele do palhaço Fraldinha, foi aqui que Guilherme Leite teve o seu primeiro grande momento de notoriedade televisiva. Houve também uma situação em que a lendária apresentadora da RTP Helena Ramos entrevistava pessoas enquanto estas iam sendo maquilhadas exageradamente e a actriz Adelaide João protagonizou também duas situações. Consegui identificar também dois dos futuros comparsas de Guilherme Leite nos "Malucos do Riso": Ildeberto Beirão e Amadeu Caronho. O site "Brinca, Brincando" (de onde provêm várias das imagens aqui utilizadas) descobriu também que a actriz Sandra B. foi uma das vítimas que foram apanhadas numa das situações.






Eu costumava gravar os "Apanhados" para o meu pai ver quando chegava a casa e houve uma situação que rapidamente se tornou a favorita de toda a nossa família e que revimos vezes sem conta: a do manequim vivo, em que aquele famoso homem-estátua (não me recordo do nome do senhor) fazia-se passar por um manequim que de repente se mexia, para susto dos incautos clientes que andavam pela loja.


Outras situações que eu recordo: pessoas que tentam falar de uma cabine telefónica mas mesmo ao pé está uma daquelas motas a fazer aqueles ruídos insuportáveis, o homem que dá um sermão num clube de vídeo aos clientes que alegadamente teriam alugado filmes pornográficos, uma pilha de caixas que cai num supermercado com uma actriz disfarçada de repositora a culpar os transeuntes, a senhora numa farmácia que pede a outras pessoas para a ajudarem a comprar preservativos com sabor, uma freira que pede para lhe ajudarem a escrever uma carta com conteúdos não lá muito castos, pessoas que são convidadas a fazer um anúncio a um sumo que vem-se a provar ser intragável ou viajantes que acabam de chegar ao aeroporto de Lisboa e uma equipa de televisão os confunde com alguém importante. 

Estes "Apanhados" foram um sucesso de audiência e provocaram vários risos pelo país fora, mas o programa acabaria em tons amargos: Manolo Bello, o criador das situações apanhadas, desentendeu-se com Joaquim Letria, alegando que este lhe pagara menos que o previsto e o próprio Letria fartou-se de ser conotado como "o senhor dos Apanhados" e deste rótulo estar a ofuscar todo o seu vastíssimo trabalho enquanto figura de proa da comunicação social portuguesa.


Ainda em 1993, Manolo Bello recuperaria o formato dos "Apanhados" da SIC em "Minas E Armadilhas" (que futuramente terão o seu próprio artigo), novamente com Guilherme Leite entre os protagonistas das situações. 



Mesmo assim em 1995, uma nova encarnação dos "Apanhados" com treze episódios exibidos na RTP1 entre 20 de Maio e 3 de Setembro desse ano , em que os Black Company, na altura vivendo ao máximo o sucesso do seu hit "Nadar", faziam vários sketches que eram elos de ligação entre as diversas situações. Desta vez a autoria das situações esteve a cargo do francês Jean-Yves Lafesse e entre os pregadores de partidas estavam os actores António Melo e Maria João Abreu (que então ainda não eram tão conhecidos do grande público como o são actualmente), bem como participações especiais de Roberto Leal e Margarida Pinto Correia

Margarida Pinto Correia numa das situações apanhadas


As duas encarnações dos "Apanhados" estão disponíveis no site de arquivos da RTP:
- A era Joaquim Letria: https://arquivos.rtp.pt/programas/apanhados/
- A era Black Company: https://arquivos.rtp.pt/programas/apanhados-temporada-ii/

No Youtube podem ser vistos alguns excertos como por exemplo esta situação em que, 18 anos antes do casamento entre pessoas do mesmo sexo ter sido legalizado em Portugal, Guilherme Leite e o seu cúmplice fazem-se passar por um casal que se quer casar e que pede a pessoas na rua para serem a sua testemunha. (E se não me falha a memória existiu posteriormente uma situação idêntica mas com um casal de mulheres.)


4.º programa (5/10/1992)
que inclui o apanhado do anúncio ao sumo intragável:

domingo, 10 de maio de 2020

A Rede (1995)

por Paulo Neto


Em 1995, a internet dava ainda os primeiros passos para a sua massificação (aliás, acho que foi nesse ano que eu ouvi pela primeira vez a palavra "internet") mas foi nesse ano que Hollywood abordou pela primeira vez o ciberterrorismo e os perigos dessa nova forma de comunicação. E quem melhor para protagonizar um filme desses do que Sandra Bullock, que então vivia os seus primeiros anos de estrelato e que dera provas em filmes de acção como "Homem Demolidor" e sobretudo "Speed - Perigo Em Alta Velocidade"? Esse filme foi "A Rede" ("The Net") realizador por Irwin Winkler, que há dias apanhei por acaso numa noite de zapping televisivo e fiquei a ver.



Em "A Rede", Bullock é Angela Bennett, uma especialista em analisar sistemas informáticos, que vive em Venice, na Califórnia, trabalhando a partir de casa para a empresa Cathedral em São Francisco. Angela vive uma vida solitária e dedicada ao trabalho e as suas interacções com outros são quase exclusivamente via online ou por telefone, excepto algumas visitas à sua mãe (Diane Baker), internada por sofrer de Alzheimer. Um dos seus colegas envia-lhe uma disquete cujo link com o símbolo de "pi" dá acesso a informações sobre um novo sistema informático de segurança, "The Gatekeeper" (o "Guardião") mas antes de saber mais, o colega morre misteriosamente num acidente de avião.


De férias no México, Angela conhece um atraente inglês chamado Jack Devlin (Jeremy Northam), mas o que começa por ser um romance de férias toma um rumo perigoso quando ela descobre que Jack quer matá-la por causa dessa disquete. Após alguns dias inconsciente devido ao acidente de barco resultante desse confronto, Angela fica estupefacta ao saber que a sua identidade foi completamente roubada: foi dada como tendo feito o check-out do hotel e do carro alugado, os seus cartões de crédito foram invalidados e ao regressar aos Estados Unidos, descobre que alguém fez-se passar por ela para vender a sua casa e todos os seus pertences e devido às suas poucas interacções pessoais, nenhum dos vizinhos pode confirmar que ela é a verdadeira Angela. Em troca disso, a sua identidade agora é de alguém chamada Ruth Marx, que consta dos dados da polícia como procurada por ter hackeado os seus sistemas de segurança. Sem mais ninguém para a ajudar, Angela recorre a um ex-namorado Alan Champion (Dennis Miller) que a instala num hotel e promete contactar um amigo no FBI para a ajudar. 




Através de uma password que roubou da carteira de Devlin, Angela descobre que este trabalha para uma sociedade secreta, os Pretorianos, que pretendem controlar o espaço cibernético através do "Guardião", acedendo a dados secretos de bancos, de instituições públicas e até do governo americano, e que estiveram por trás da morte do Secretário de Defesa americano Michael Bergstrom (Ken Howard), um opositor desse sistema, que se suicidou por pensar que contraiu o vírus da SIDA, uma falsa informação que foi manipulada. Depois de sobreviver a mais uma perseguição de Devlin, Angela descobre que ele também provocou a morte de Alan, ao trocar os seus dados no hospital onde estava internado, recebendo uma dose letal de insulina.  
Com Devlin e a polícia no seu encalço, Angela ruma a São Francisco numa corrida contra o tempo para descobrir a verdadeira Ruth Marx (Wendy Gazelle) que ocupou o seu lugar, denunciar Jeff Gregg, o CEO da empresa do "Guardião" e líder dos Pretorianos, e provar a sua inocência.



Apesar de já parecer extremamente datado aos olhos de 2020, sobretudo na parte da tecnologia (quando uma disquete era o suprasumo do armazenamento de informação), "A Rede" ainda é um filme que se vê bem e beneficia do efeito "cápsula do tempo" de nostalgia dos anos 90. Sandra Bullock é uma vez mais competente como protagonista, embora seja pouco verosímil que alguém como ela vivesse uma vida tão solitária. No entanto, as suas mensagens sobre os perigos da internet e aquilo que expomos nela, bem como a capacidade das grandes empresas para aceder a informações pessoais e controlar muita coisa com isso, permanece bem actual vinte e cinco anos depois. 
O filme gerou também uma série em 1998 e uma sequela directa para o mercado de vídeo de 2006.

Trailer:



segunda-feira, 4 de maio de 2020

Festival da Eurovisão 1985

por Paulo Neto

Este ano, por causa das razões que se sabem e pela primeira vez desde a criação do certame, não haverá Festival da Eurovisão. Mas aqui na Enciclopédia de Cromos continuamos a recordar edições passadas e desta vez recuamos até 1985.



O 30.º Festival da Eurovisão teve lugar a 4 de Maio de 1985 na arena Scandinavium na cidade sueca de Gotemburgo. Participaram 19 países, tantos quanto no ano anterior, mas os Países Baixos e a Jugoslávia estiveram ausentes devido ao dia do evento coincidir com datas pouco propícias a celebrações nesses países mas em contrapartida regressaram Grécia e Israel, ausentes no ano anterior. Nesta edição foi prestada uma devida atenção aos autores e compositores das canções, sendo estes os protagonistas dos postais ilustrados em que eles visitavam vários locais da área metropolitana de Gotemburgo. Deste modo, os intérpretes só participaram nos postais ilustrados caso tivessem contribuído para a composição das respectivas canções. (Foi o caso da nossa Adelaide Ferreira, creditada como autora da letra da canção que defendeu.)
Ainda assim, neste ano foram vários os intérpretes que regressaram à Eurovisão. Foi também o caso da apresentadora Lill Lindfors, que tinha representado a Suécia em 1966. Lindfors acabaria por protagonizar um dos momentos mais marcantes do espectáculo, que ficaria para a história da Eurovisão: chegada a altura de iniciar as votações, um aparente acidente de vestuário deixou-a sem saia e de cuecas à mostra em pleno palco! Perante o burburinho geral, logo a seguir ficou-se a saber que tinha sido tudo uma partida, com Lill Lindfors prontamente a desdobrar a blusa que trazia vestida num outro vestido.
Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Eládio Clímaco e Maria Margarida Gaspar foi a porta-voz dos votos portugueses. 

Como é habitual, abordaremos as canções por ordem inversa da classificação:

Linda Lepomme (Bélgica)

Alguém tem de ficar em último e nesse ano a fava calhou à Bélgica, que recebeu somente sete pontos da Turquia. Linda Lepomme era mais conhecida como actriz no seu país mas também ocasionalmente dava mostras como cantora. Em Gotemburgo, interpretou a balada "Lat me nu gaan" ("deixa-me ir"). Mas por norma, a Bélgica saía-se pior no idioma flamengo do que em francês e este ano não foi excepção. Mas no ano seguinte, as coisas correriam melhor para as cores belgas. Muito melhor... 

Adelaide Ferreira (Portugal)

Com apenas dois pontos da Turquia, Portugal passou quase todo o período das votações na cauda da tabela, mas os sete pontos da Grécia, o último país a votar, salvou-nos da lanterna vermelha. Adelaide Ferreira começou por dar cartas no início dos anos 80 durante o boom do rock português, com canções como "Baby Suicida" e "Trânsito" elevando-a ao estatuto de roqueira-mor nacional. Mas seria através das baladas que o seu repertório viria a deixar maior legado. Em 1984, Adelaide Ferreira alcançou o melhor resultado de sempre de Portugal no Festival da OTI, o segundo lugar com "Vem No Meu Sonho". Em 1985 venceu o Festival da Canção com "Penso Em Ti (Eu Sei)", que como já falámos aqui foi uma edição mítica que deixou para a posterioridade o "Umbadá" de Jorge Fernando e onde participaram nomes como os Delfins, Alexandra, uns bem jovens Nuno e Henrique Feist e Wanda Stuart (então Vanda Pereira). Igualmente mítico foi o videoclip da canção filmados nos Açores, com Adelaide a protagonizar um melodrama romântico com laivos de sobrenatural. Apesar do parco resultado, Adelaide Ferreira não saiu de mãos a abanar já que foi votada (creio que pela imprensa lá presente) como a mais bem vestida, graças ao ultra-vistoso vestido desenhado pelo malogrado José Carlos. 

Lia Vissi (Chipre)

Takis Binyaris (Grécia)

As pátrias-irmãs de Chipre e Grécia partilharam o 16.º lugar com 15 pontos. Depois de ter feito coro pelas canções da Grécia de 1979 e 1980, Lia Vissi teve nesse ano a oportunidade de participar como solista pelo seu país de nascença, Chipre, interpretando "To katalava arga" ("apercebi-me tarde demais"), uma canção da sua autoria. A sua irmã mais nova, Anna, representou Chipre na Eurovisão em 1982 e a Grécia em 1980 e 2006.
Takis Biniaris representou a Grécia com a romântica balada "Miazoume" ("nós somos parecidos"). Com a camisa branca e o papillon com que se apresentou em palco, dava a ideia que tinha vindo directamente de um restaurante onde tinha servido à mesa.

MFÖ (Turquia)

Paloma San Basilio (Espanha)

Também houve um empate no 14.º com Espanha e Turquia a receberem 36 pontos. A Turquia fez-se representar pelo trio MFÖ (iniciais dos primeiros nomes dos membros da banda: Mazhar Alanson, Fuat Güner e Özkan Ugur). Podia-se quase sempre contar com a Turquia para trazer algo exótico à Eurovisão e o tema que trouxeram, "Didai didai dai", era bastante solarengo e dava para imaginar a ouvir algo assim numa bela praia na costa de Antalya. Os MFÖ regressaram ao Festival em 1988 e continuam no activo, mais de quarenta anos depois da formação do trio.
Nesse ano, a vizinha Espanha apostou forte com uma das suas mais famosas divas, Paloma San Basilio. Desde 1975 que San Basilio fazia sucesso em Espanha e na América Latina, não só em disco mas também em musicais (foi a protagonista da primeira adaptação de "Evita" em língua espanhola) e o tema que defendeu em Gotemburgo, "La fiesta terminó", era feito à medida do seu talento. Mas nesta edição de 1985 as baladas foram como que preteridas pelos temas mais mexidos e este 14.º lugar de Espanha ficou a saber a pouco.

The Internationals (Luxemburgo)

Pino Gasparini & Mariella Farré (Suíça)

O Luxemburgo foi representado por um colectivo internacional: Margo (holandesa), Franck Olivier (luxemburguês), Diane Solomon (americana), Malcolm Roberts (inglês), Chris Roberts (alemão) e Ireen Sheer (inglesa radicada na Alemanha). Embora creditados no certame com os nomes dos seis intérpretes, por vezes esta colaboração é referida sobre a designação The Internationals. Dos seis, a única com experiência eurovisiva era Ireen Sheer que tinha representado o Luxemburgo em 1974 e a Alemanha em 1978. Em uníssono cantaram "Children, Kinder, Enfants" em francês, tendo também gravado versões em alemão e inglês e uma versão trilingue. O Luxemburgo ficou em 13.º lugar com 37 pontos, destacando-se 10 pontos de Portugal.   
A Suíça foi outro país que apostou em intérpretes repetentes nestas andanças, a saber Pino Gasparini (em 1977 com membro da Pepe Lienhard Band) e Mariella Farré em 1983. Apesar de ambos terem raízes italianas e a sua canção se intitular "Piano, piano", cantaram em alemão e ficaram em 12.º lugar com 39 pontos.

Hot Eyes (Dinamarca)

Roger Bens (França)

O duo Kirsten & Soren, também conhecido como Hot Eyes, já tinham representado a Dinamarca no ano anterior e voltariam a fazê-lo em 1988. Nas outras duas participações, Kirsten Siegaard actuou grávida, mas nesta prestação, foi Léa, a filha de Soren Bundgaard, que com nove anos ficou para a história como a mais jovem pessoa a fazer parte de uma actuação no Festival da Eurovisão, um recorde que ficará para sempre já que desde 1990 só maiores de 16 anos é que podem participar seja como for. A canção dinamarquesa tinha um título complicado para quem não é nórdico: "Sku' du spørg' fra no 'en?" ("gostarias de saber?") e falava sobre duas pessoas que se encontram na discoteca e descobrem que são amigos de infância há muito desencontrados. A Dinamarca ficou em 11.º lugar com 41 pontos.
Roger Bens destilou charme francês para cantar "Femme dans ses rêves aussi" ("mulher também nos seus sonhos"), todo um elogio ao sexo feminino e rendeu à França o décimo lugar com 56 pontos, incluindo um 12 da Grécia.

Sonja Lumme (Finlândia)

Gary Lux (Áustria)

Tal como Portugal, a Finlândia é um país pouco habituado a lugares entre os dez primeiros no Festival da Eurovisão pelo que o nono lugar com 58 pontos alcançado nesse ano foi um resultado muito positivo para as cores finlandesas. E verdade seja dita, "Eläköön elämä" ("que viva a vida") é uma das melhores canções finlandesas da história da Eurovisão, um energético tema pop-rock interpretado por Sonja Lumme e onde os quatro membros do coro se moviam em sincronia. Além da sua carreira como cantora, Sonja Lumme também se destacou no seu país como actriz no teatro e na televisão. 
Nascido no Canadá, Gary Lux estava presente pela Áustria pelo terceiro ano consecutivo. Depois de em 1983 ter participado como membro do grupo Westend e em 1984 ter feito coro para Anita Spanner, Lux agora apresentava-se como solista para cantar "Kinder dieser Welt" ("as crianças deste mundo") conseguindo o oitavo lugar com 60 pontos. Um dos compositores da canção, Mick Jackson, compôs também o famoso tema disco "Blame It On The Boogie". Entre os músicos que o acompanharam em palco, estava Rhonda Heath que em 1977 representou a Alemanha como membro dos Silver Convention. Gary Lux viria a representar novamente a Áustria em 1987, além de fazer coro nas canções austríacas de 1993 e 1995.

Al Bano & Romina Power (Itália)

Maria Christian (Irlanda)

Nove anos depois, o célebre duo Al Bano e Romina Power voltou a representar a Itália. Casados desde 1970, a dupla teve vários sucessos internacionais nos anos 70 e 80 como "Felicitá" e "Ci Sará". Em Gotemburgo cantaram "Magic Oh Magic", ficando em sétimo lugar com 78 pontos (12 de Portugal). As três cantora do coro estavam vestidas de verde, branco e vermelho formando a bandeira italiana. Al Bano e Romina acabariam por se divorciar em 1999, cinco anos depois do desaparecimento da sua filha mais velha Ylenia. No Festival da Eurovisão de 2000, Al Bano integrou o coro para a canção da Suíça. Em 2007, Romina Power (filha do actor de Hollywood Tyrone Power) deixou Itália para regressar à sua América natal onde vive desde então, mas muito de vez em quando ainda acede em actuar com o ex-marido.
A Irlanda foi o primeiro país a actuar, ficando em sexto lugar com 91 pontos, com Maria Christian a cantar "Wait until the weekend comes". Christian foi a primeira cantora invisual (sofre de cegueira legal desde os nove anos) a actuar na Eurovisão. Segundo a Wikipedia, Maria Christian vive actualmente em França, na região da Lorena, com o seu marido e os seus sete filhos. Em 2016, concorreu à versão irlandesa do The Voice e este ano, concorreu à versão francesa, entretanto interrompida devido à pandemia.

Izhar Cohen

Vikki (Reino Unido)

E perguntam vocês: qual é a minha canção preferida da Eurovisão de 1985? É ainda a mesma pela qual o Paulo de cinco anos torceu na altura! Israel apostava forte ao trazer de novo Izhar Cohen, o vencedor da edição de 1978 com o clássico "A-Ba-Ni-Bi" e a canção com que regressou sete anos depois, "Olé Olé", era igualmente alegre e energética. Eu não era nascido quando Cohen ganhou em 1978, mas este "Olé olé" completo com uma parte para bater palmas encheu as medidas do Paulito de 1985. Desta vez, Israel teve de se contentar com um ainda assim meritório quinto lugar com 93 pontos. Actualmente, Izhar Cohen retirou-se do mundo artístico e é dono de uma joalharia. No Festival da Eurovisão de 2019 em Telavive, foi o porta-voz dos votos do júri israelita.   
Vikki Watson foi a representante do Reino Unido com o tema "Love is...", que ficou em quarto lugar com cem pontos. Em palco, Vikki começou a actuação sentada numa cadeira, levantando-se e afastando-se gradualmente a partir dela do primeiro refrão, uma metáfora ao tema da canção, sobre o medo de arriscar por amor. Actualmente, Vikki Lawson dedica-se a produzir música new age e composições para filmes e televisão sob o nome de Aeone.

Kikki Danielsson (Suécia)

Ao contrário a diferença final de dezoito e vinte pontos do primeiro classificado para o segundo e terceiro posto, ao longo das votações três países foram disputando renhidamente a liderança. O terceiro lugar foi para a Suécia com 103 pontos. Depois de ter representado o seu país em 1982 como parte do duo Chips, Kikki Danielsson apresentava-se a solo cantando "Bra vibrationner" (que não, não quer dizer "soutien vibratório", mas sim "boas vibrações"). Kikki Danielsson continua no activo até hoje e tentou mais quatro vezes regressar à Eurovisão pela Suécia (e uma pela Noruega), a mais recente em 2018.

Wind (Alemanha)
A Alemanha parecia ter a vitória quase certa a cinco votações do fim, mas depois a sorte acabou por favorece o eventual país vencedor, e acabou por ficar em segundo lugar com 105 pontos. O grupo Wind, formado para competir na pré-selecção alemã, com Rainer Höglmeier e Petra Scheeser como vocalistas, interpretou "Fur alle" ("para todos"), uma balada midtempo. Os Wind voltariam a representar na Alemanha em 1987 (ficando novamente em segundo lugar) e 1992, embora apenas Petra Scheeser e o baterista Samy Khalifa tenham estado nas três participações. Com um constante rodar de membros, o grupo Wind ainda hoje se mantém activo na Alemanha.

Bobbysocks (Noruega)

Mas seria a Noruega a vencer com 123 pontos, graças ao duo Bobbysocks e o tema "La det swinge". O duo era formado por Hanne Krogh e Elisabeth Andreassen, ambas já com experiência eurovisiva: em 1971, uma jovem Krogh de 14 anos tinha sido a representante norueguesa, enquanto Andreassen tinha representado a Suécia em 1982 no duo Chips...Sim, a sua parceira da altura Kikki Danielsson foi neste ano sua adversária. Krogh e Andreassen continuaram a actuar e a gravar discos como Bobbysocks até 1988, decidindo depois cada uma apostar numa carreira a solo e ambas voltariam a representar a Noruega na Eurovisão: Hanne Krogh em 1991 como parte do grupo Just 4 Fun e Elisabeth Andreassen em 1994 e 1996.   

As Bobbysocks com Lys Assia, vencedora do primeiro
Festival da Eurovisão em 1956

Foi a primeira vitória da Noruega na Eurovisão (que entretanto voltou a ganhar em 1995 e 2009), na altura um feito impressionante pois na altura era o país que tinha ficado mais vezes em último lugar. (Aliás, com mais cinco últimos lugares desde então, num total de onze, a Noruega continua a ser o país detentor desse recorde pouco invejável.) A apresentadora Lill Lindfors fez questão de referir esse facto na altura de dar os parabéns às Bobbysocks, dizendo-lhes: "Devo dizer-vos que estou francamente feliz que isto aconteceu porque a Noruega ficou tantas vezes em último lugar que vocês mereceram!", ao que Hanne Krogh respondeu: "Tu estás feliz? Como é que julgas que nós estamos?". "La det swinge" tornou-se rapidamente um clássico da Eurovisão e lembro-me de na altura ouvir na rádio a versão em inglês "Let it swing".

Festival da Eurovisão 1985 (comentários da BBC)


O "acidente" de Lill Lindfors: 


Actuação na Gala dos 60 anos da Eurovisão (2015): 




terça-feira, 21 de abril de 2020

Jackpot '86 (1986)

por Paulo Neto

Sem grandes ideias para outros textos num futuro imediato, resolvi recorrer a uma rubrica habitual de analisar discos de colectâneas de êxitos de outros tempos. E como tenho revisto a série "1986", em especial nos directos do YouTube no canal do Nuno Markl com os actores da série, pensei em recuar até ao dito ano e recordar uma colectânea que eu não tive, mas que eu me recordo bem da sua edição.
A série de colectâneas "Jackpot" teve o seu primeiro volume em 1979, com subsequentes edições anuais entre 1981 e 1988 durante o período natalício. Em alguns anos, houve também uma edição de Verão chamada "Top Jackpot". Foi sem dúvida predecessora da série de colectâneas "Número 1" dos anos 90.

 Editado pela EMI-Valentim de Carvalho, este "Jackpot '86" é sem dúvida um dos mais icónicos tomos da série, não só pela quantidade de êxitos desse ano nele contido como pela sua capa com a cartola e uma mão a agitar uma varinha mágica. Na altura, os volumes desta série ainda não tinham edição em CD, pelo que foi editada apenas em LP e cassete.
Entre grandes sucessos nacionais e internacionais e alguns temas mais obscuros, vamos portanto recordar as 28 faixas de "Jackpot '86".





Disco 1 Lado 1
1. Queen "Who Wants To Live Forever": Sendo eu ainda por nascer ou demasiado novo para me recordar do seu repertório anterior (à parte as duas canções mais famosas do álbum anterior "The Works", "Radio Ga-Ga" e "I Want To Break Free"), foi com o álbum de 1986 "A Kind Of Magic" que fiquei familiarizado com os Queen. Lembro-me de adorar o videoclip da faixa-título com Freddie Mercury vestido de Mandrake a entrar num teatro abandonado e a transformar aquilo tudo e até surgiam desenhos animados para cantar com eles e, apesar da letra algo foleira, "Friends Will Be Friends" é uma das minhas canções preferidas dos Queen. E é claro havia este épico que abre a colectânea. Escrito por Brian May para a banda sonora do filme "Duelo Imortal", "Who Wants To Live Forever" é tecnicamente um dueto de May e Mercury, mas por muito competente que seja o primeiro como vocalista, é só a partir da segunda estrofe na voz de Freddie que a canção ganha realmente vida para culminar no refrão final. Dada a temática da letra sobre a vida e a morte, não é de estranhar que "Who Wants To Live Forever" seja uma canção muito tocada em serviços fúnebres e que tenha ilustrado a cena do filme "Bohemian Rhapsody" em que Freddie Mercury inicia os primeiros tratamentos para o HIV. Entre as várias versões, destaque para a de Seal no concerto de tributo a Mercury, dos alemães Dune e de Sarah Brightman.   
2. Tina Turner "Typical Male": Depois do seu estrondoso regresso à ribalta em 1984 com o álbum "Private Dancer" e do filme "Mad Max 3", Tina Turner continuava em alta com o álbum "Break Every Rule" do qual o primeiro single foi este "Typical Male". Nunca me esqueci do divertido videoclip em que Tina tenta seduzir um advogado, que fica algo intimidado com as tácticas dela nem da versão dos Ministars no álbum "Muita Lôco", intitulada "Não Faz Mal Uma Noitada". O lado B do single era "Don't Turn Around" que viria a ser um hit nas versões dos Aswad e dos Ace Of Base. 
3. Rod Stewart "Every Beat Of My Heart": 1986 foi também regresso aos discos para Rod Stewart com o álbum "Every Beat Of My Heart", cuja faixa-título é uma das minhas preferidas dele, um épico de cinco minutos e um quarto onde não faltam gaitas de foles ou não fosse Stewart, apesar de nascido em Londres, muito ligado às suas raízes escocesas.
4. Rui Veloso "Porto Côvo": Eu nem sequer gosto de laranjas mas já decidi que se algum dia for a Porto Côvo, vou roer uma laranja na falésia tal como no primeiro verso desta canção que Rui Veloso dedicou a esta freguesia do concelho de Sines, em particular à Ilha do Pessegueiro (como reza o refrão "havia um pessegueiro na ilha..."). Era com esta faixa que abria o álbum homónimo de Rui Veloso, o quarto da sua discografia, com a capa dele a fumar num beco e que continha outros hits como "Porto Sentido", "O Negro do Rádio de Pilhas" e "Cavaleiro Andante". 
5. MC Miker G & Deejay Sven "Holiday Rap": Um dos êxitos mais kitsch de 1986, "Holiday Rap", Reza a lenda que Lucien Wittween (MC Miker G) e Sven van Veen (DJ Sven) conheceram-se numa discoteca na cidade holandesa de Hilversum, cujo DJ residente tinha um estúdio onde os dois gravariam a primeira versão de "Holiday Rap" com um sample de "Holiday" de Madonna. Mas para que o tema pudesse ser editado comercialmente e evitar maiores gastos com copyrights, o conhecido produtor Ben Liebrand gravou uma versão usando os mesmos tipos de instrumentos utilizados em "Holiday". Além do dito, o refrão de "Holiday Rap" era uma interpolação de "Summer Holiday" de Cliff Richard. Apesar dos sofríveis talentos de Wittween para o rap, o resultado final foi suficientemente apelativo para ser um hit em toda a Europa, chegando mesmo ao n.º 1 dos tops em França, Holanda, Alemanha e Suíça.
O David Martins já falou aqui em detalhe sobre a versão dos Onda Choc, intitulada "Férias No Algarve", onde a história de dois amigos que descobrem que tiveram um romance de Verão com a mesma rapariga esconde uma crítica ao turismo desenfreado que a dita região enfrenta todos os anos.
6. Pet Shop Boys "Suburbia": uma das canções mais marcantes dos Pet Shop Boys, a agradável melodia synth-pop esconde uma letra sobre as tensões vividas nas comunidades suburbanas de ambos os lados do Atlântico. Aliás, o título é uma referência ao filme de 1984 do mesmo nome. E na minha opinião, continua a ser a melhor canção de sempre a incluir cães a ladrar. 
7. Michael McDonald "Sweet Freedom": Michael McDonald é um daqueles cantores serão mais reconhecidos pela sua voz do que propriamente pelo seu nome. Nos anos 70, fez parte das bandas Steely Dan e Doobie Brothers e 1986 acabou por ser o ano de maior sucesso da sua carreira a solo graças a dois hits internacionais: "On My Own" em dueto com Patti LaBelle e este "Sweet Freedom" da banda sonora do filme "Running Scared" (em Portugal, "Dois Polícias À Solta") com Gregory Hines e Billy Crystal. Em 2002, McDonald gravou uma versão com os Safri Duo.

Disco 1 Lado 2
1. Duran Duran "Notorious": Os Duran Duran foram uma das maiores bandas do mundo na primeira metade dos anos 80 (senão mesmo a maior) mas mesmo sem todo esse fulgor, eles lá continuaram no activo e de vez em quando Simon Le Bon e companhia ainda se reúnem para um ocasional disco e digressão (o álbum mais recente é de 2015). A faixa-título do álbum "Notorious", com o grupo reduzido a um trio, é sem dúvida o seu maior hit da segunda metade da década graças ao seu refrão pegadiço "no-no-notorious!" e a produção de Nile Rodgers.   
2. The Pretenders "Don't Get Me Wrong": Embora já tivessem tido hits como "Brass In The Pocket" e "Back On The Chain Gang", bem como a colaboração de Chrissie Hynde com os UB40 na versão reggae de "I Got You Babe", não há como negar que a canção mais conhecida dos Pretenders, pelo menos em Portugal, é "Don't Get Me Wrong". O videoclip é bastante icónico recreando a série "Os Vingadores" com Hynde no papel da metade feminina da dupla e excertos de cenas de Patrick McNee.
3. Paul Simon "You Can Call Me Al": Apesar da sua extensa carreira, também aposto que se eu pedir a alguém aqui em Portugal para me dizer uma canção de Paul Simon, pelo menos a solo, decerto que maioria dirá esta. E mesmo quem não sabe o título da canção, reconhecerá o solo de instrumentos de sopro. O álbum de Simon de 1986 "Graceland" é sem dúvida um dos mais celebrados da sua carreira, influenciado pelos sons que ouviu durante uma viagem à África do Sul e que sem dúvida estão bem presentes neste "You Can Call Me Al", ainda que a letra fale sobre a crise conjugal e etária de um casal suburbano. O título da canção refere-se a um episódio da vida de Simon quando, durante uma festa, o compositor francês Pierre Boulez tratou-o erradamente por Al e a sua então esposa Peggy Harper por Betty. Tão célebre como a canção é o videoclip com o actor Chevy Chase faz o lipsync da voz de Simon enquanto este vai entrando e saindo do cenário trazendo vários instrumentos musicais. 
4. Paul McCartney "Press": Esta é uma das canções deste disco que nunca tinha ouvido antes de escrever este artigo. Talvez porque o álbum de 1986 "Press To Play" de Paul McCartney marcou a primeira vez que um disco seu teve fraca aceitação do público e da crítica. Mas pelo menos o single principal, "Press", gerou um divertido videoclip com o ex-Beatle a passear pelo metro de Londres em alegre convivência com as muitas pessoas que seguem com ele na carruagem.
5. Heróis do Mar "Fado": Um pouco como os Duran Duran mas à nossa escala nacional, os Heróis Do Mar tentavam estender o grande sucesso que tiveram na primeira metade dos anos 80 para a segunda metade. Após mudança de editora e o afastar de rumores que Rui Pragal da Cunha queria sair do grupo, lançaram o terceiro álbum "Macau" em 1986 do qual este "Fado" é a faixa mais conhecida. Os Heróis do Mar viriam a ter mais um hit em 1987 com "O Inventor" mas a recepção discreta ao álbum de 1988 "IV" ditou o fim da banda.
6. Nik Kershaw "Nobody Knows": A carreira do britânico Nik Kershaw é tão marcada pela sua trilogia de hits de 1984 "Wouldn't It Be Good", "I Won't Let The Sun Go Down On Me" e "The Riddle" que é fácil esquecer tudo o mais que ele fez e que continua no activo (o seu álbum mais recente é de 2012. Não tinha ouvido antes este "Nobody Knows", que marcou o fim do período áureo de Kershaw, já que foi o primeiro single a ficar fora do top 40 britânico (sem contar com a edição original de 1983 de "I Won't Let The Sun Go Down On Me").
7. Glass Tiger "Don't Forget Me (When I'm Gone)": 1986 foi o auge da banda rock canadiana Glass Tiger que com o seu primeiro álbum "The Thin Red Line" ganhou três prémios Juno, uma nomeação para o Grammy de Melhor Revelação e uma participação na parte europeia de uma digressão de Tina Turner. O seu maior hit foi este "Don't Forget Me (When I'm Gone)" que contava com um importante ingrediente secreto: o compatriota Bryan Adams nos coros. Os Glass Tiger continuaram com algum sucesso no seu país e após um hiato entre 1993 e 2003, continuaram em activo desde então ainda que só tenham editado mais um álbum e já em 2018.

Disco 2 Lado 1
1. Madonna "White Heat": É relativamente raro haver canções de Madonna em colectâneas de êxitos, já que a Warner Music, aquela foi durante muito tempo a sua editora, sempre foi algo relutante em ceder músicas dos seus maiores artistas para compilações de outras editoras e era particularmente protectora do repertório da sua maior estrela. Mas era impossível falar sobre a música de 1986 sem falar de Madonna, já que o seu terceiro álbum "True Blue" foi o álbum mais vendido do ano e o álbum de uma artista feminina mais vendido dos anos 80, graças a hits incontornáveis como "La Isla Bonita", "Papa Don't Preach" ou "Live To Tell", e haveria uma lacuna se não houvesse uma canção dela nas colectâneas editadas por essa Europa fora nesse ano. Talvez por isso, o compromisso foi licenciar para esses fins uma faixa do álbum que não foi single (embora tenha sido o lado B de "Open Your Heart" e mais tarde de "Who's That Girl"), este "White Heat" cujo título vinha do filme de 1949 do mesmo nome protagonizado por James Cagney, incluindo mesmo algumas das falas deste no filme.
A primeira vez que ouvi "White Heat" foi no meu 5.º ano quando houve um concurso de dança na minha escola no dia antes das férias do Carnaval e duas raparigas do 6.º ano dançaram ao som dessa canção. 
2. David Bowie "Underground": Um dos filmes de 1986 foi "Labirinto" um filme de fantasia protagonizado por uma jovenzinha Jennifer Connelly e por David Bowie no papel do Rei dos Gnomos, realizado por Jim Henson. (Mas apesar de dirigido pelo criador dos Marretas e ter bonecos, não se podia dizer que era um filme muito infantil ou bem-disposto!) Como não podia deixar de ser, David Bowie contribuiu para a banda sonora com cinco canções, em especial este "underground" que tinha nos coros estrelas da soul como Chaka Khan, Luther Vandross e Cissy (mãe de Whitney) Houston. Na altura, "Labirinto" foi um flop comercial mas rapidamente ganhou depois estatuto de culto. 
3. Peter Cetera "Glory Of Love": Continuando no cinema, um dos maiores filmes de 1986 foi o segundo filme da série "Karaté Kid" onde, como já falámos aqui, Daniel e o Mr. Miyagi vão até à ilha japonesa de Okinawa de onde o segundo é originário e são confrontados com velhos rancores e inimigos ainda mais perigosos que os Cobra Kai. (Ainda assim Daniel arranja tempo para namoriscar com a doce Kumiko.) Tão bem-sucedido como o próprio filme, foi o seu tema principal, "Glory Of Love" interpretado por Peter Cetera (originalmente escrita para o "Rocky IV"!) que se tornaria o maior sucesso a solo do ex-Chicago, chegando ao n.º 1 do top nos Estados Unidos e na Suécia e sendo nomeado para o Óscar de Melhor Canção.   
4. GNR "Efectivamente": Apesar das convulsões internas, que levariam à saída de Alexandre Soares, o álbum "Psicopátria" foi mais um passo em frente na ascensão dos GNR com canções como "Bellevue" ou "Pós-Modernos". Mas o grande hit deste álbum é sem dúvida "Efectivamente", que se tornou rapidamente outro grande clássico do Grupo Novo Rock, com Rui Reininho a cantar que adora as pulgas dos cães.
5. Sigue Sigue Sputnik "21st Century Boy": Formados em 1982 no auge do pós-punk e da new wave, os londrinos Sigue Sigue Sputnik tiveram em 1986 os seus quinze minutos de fama graças a dois hits produzidos pelo lendário Giorgio Moroder: "Love Missile F-11" e este "21st Century Boy". O álbum 1988, produzido pelos não menos lendários Stock, Aitken e Waterman, ainda teve algum sucesso no seu país (e no Brasil!), mas desde então que os dois dos membros fundadores da banda, Tony James e Neal X, continuam, entre vários hiatos, a manter o projecto activo até hoje, baseado nos seus dois hits.   
6. Francis "México": Tema instrumental do álbum "Stiletto" de Francis, que foi guitarrista dos Xutos & Pontapés entre 1981 e 1983. Neste disco participaram nomes como Guilherme Inês, Ricardo Camacho, Naná Sousa Dias, Zé Nabo e Isabel Campelo. Além de mais três álbuns a solo (o mais recente de 2015), Francis produziu discos para Jorge Palma e os Diva e integrou a formação de grupos como os Sétima Legião e os Ravel.  
7. Falco "The Sound Of Musik": O austríaco Johann Hölzl, mais conhecido como Falco, ficou sempre ligado ao seu grande hit global "Rock Me Amadeus" de 1985, provavelmente uma das canções em língua alemã mais famosas de sempre. Mas antes como depois, Falco teve uma prolífica carreira e continuou a editar música com algum sucesso nos países de língua alemã até à sua morte prematura em 1998 num acidente de viação na República Dominicana.  Este "The Sound Of Musik" (não, não tem nada a ver com o filme "Música No Coração") fazia parte do álbum seguinte, "Emotional".

Disco 2 Lado 2
1. A-Ha "I've Been Losing You": Depois do grande sucesso do seu primeiro álbum, "Hunting High And Low" de 1985, que continha hits como a faixa-título, "The Sun Always Shines On TV" e sobretudo "Take On Me", os noruegueses A-Ha não tardaram a avançar para o segundo álbum, "Scoundrel Days", do qual este foi o primeiro single.   
2. Grace Jones "I'm Not Perfect (But I'm Perfect For You)": Decerto que Serafim Saudade estaria de acordo se eu disser que a expressão "o verdadeiro artista", ou melhor, "A verdadeira artista" assenta que nem uma luva a Grace Jones. A obra da jamaicana, que já conta mais de sete décadas de vida, como modelo, actriz e cantora é amplamente conhecida e icónica e fortemente influente para muitos artistas da actualidade, da moda à música. E com o seu visual andrógino, não foi de estranhar que ela vivesse nos anos 80 o seu maior ponto alto da sua carreira musical, com temas como "Pull Up To The Pumper" e "Slave To The Rhythm". Este "I'm Not Perfect" era o primeiro single do álbum "Inside Story" e além da presença de nomes como Andy Warhol, Keith Hering, Nile Rogers e Timothy Leary, o videoclip tinha a particularidade de ter sido realizado pela própria Grace Jones. E não resiste a este apontamento final: ao pesquisar sobre Grace Jones para este texto descobri que o seu único filho chama-se...Paulo!   
3. Kate Bush "Experiment IV": 1986 foi ano de retrospectiva para Kate Bush que lançou o seu primeiro álbum best of, "The Whole Story"que continha onze dos seus maiores sucessos, uma nova regravação de "Wutering Heights" e uma faixa inédita, este "Experiment IV", que falo de um plano secreto militar para se criar um som tão horrível ao ponto de matar pessoas.   
4. Vitorino "Joana Rosa": Os anos 80 viram o alentejano Vitorino Salomé Vieira tornar-se num inesperado popstar graças à sua fusão de folclore tradicional com sonoridades pop que rendeu hits como "A Queda do Império", "Menina Que Estás À Janela" e "Leitaria Garrett". Este "Joana Rosa" foi um maxi-single com influências da morna caboverdiana, tendo Vitorino também gravado uma versão em crioulo. Versão essa que seria incluída no seu álbum seguinte "Fado Negro" de 1988 ".
5. Mike And The Mechanics "All I Need Is A Miracle": Numa pausa dos Genesis e com o colega Phil Collins ocupado com a sua carreira a solo, Mike Rutherford decidiu formar uma banda em part-time, os Mike & The Mechanics, com Paul Carrack e Paul Young (não confundir com o cantor de "Every Time You Go Away" do mesmo nome) a repartirem as funções de vocalista. O primeiro álbum da banda foi bem recebido nos Estados Unidos (não tanto no Reino Unido) graças a hits como este "All I Need Is A Miracle", cantado por Young. Os dois álbuns subsequentes trariam outros êxitos como "The Living Years" e "Over My Shoulder" (ambos interpretados por Carrack). Em 1996, por ocasião do primeiro álbum best of, regravaram uma nova versão de "All I Need Is A Miracle".    
6. Claudia "Classical Way": E eis-nos chegados à canção mais obscura deste disco. A internet não disse nada sobre quem é esta Cláudia sem acento que cantava este tema italo-disco à portuguesa. Sabe-se apenas que esta faixa foi gravada em Outubro de 1986, faria parte de um álbum intitulado "Missionary" que nunca viria a existir e que a produção era de alguém sob o nome Nice Tan que também produziu nesse o single "Latino Americano" do projecto Spunky, por quem dava cara e voz Paula Monteiro, que viria a participar no Festival da Canção de 1991 em dueto com Pedro Chaves. 
7. Crowded House "World Where You Live": Foi em 1986 que os australianos deixaram para a posterioridade o clássico "Don't Dream It's Over", retirado do álbum homónimo de estreia, álbum esse que incluía também este "World Where You Live". Após um interregno entre 1996 e 2007 e por entre as carreiras a solo dos líderes da banda, os irmãos Neil e Tim Finn, os Crowded House continuam no activo. Outros hits da banda incluem "Weather With You", "Fall At Your Feet" e "Distant Sun". 
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