terça-feira, 17 de novembro de 2020

"Forever Young" Alphaville (1984)

 por Paulo Neto

Em 1984, a Guerra Fria estava num dos seus pontos altos e a possibilidade de uma guerra nuclear continuava a ser algo vislumbrável, caso algum dos lados da barricada - Estados Unidos ou União Soviética- desse um passo em falso. (Aliás, foi algo que aparentemente esteve muito perto de acontecer em 1983 e que só o bom-senso de um oficial soviético terá evitado.) Por isso, não era admirar que as gerações mais jovens vivessem com a sensação de que era só uma questão de tempo até uma guerra nuclear eclodir e não haveria futuro do muito além do presente. Essa sensação era especialmente pungente na Alemanha cortada em duas ao longo da Guerra Fria e que era um dos focos principais dessa tensão.


Como tal, foi da Alemanha que surgiram algumas das mais icónicas canções dos anos 80 de temática apocalíptica, como por exemplo "99 Red Balloons" dos/da Nena, que imaginava uma Terceira Guerra Mundial que começava quando alguém por brincadeira uns quantos balões para outro lado do Muro de Berlim e estes eram confundidos por mísseis. E também "Forever Young" dos Alphaville, que reflectia sobre a fragilidade da juventude e da vida, no meio de tanta coisa que está além do nosso controlo.


Formados em 1982 na cidade de Münster, os Alphaville eram um trio synth-pop formado por Marian Gold (nome verdadeiro: Hartwig Schierbaum), Bernard Lloyd (nome verdadeiro: Bernhard Gössling) e Frank Mertens (nome verdadeiro: Frank Sorgatz). Inicialmente a banda chamava-se...Forever Young mas rapidamente mudaram o nome para Alphaville, em homenagem ao filme de 1965 de Jean-Luc Godard. A banda rapidamente obteve sucesso internacional com o seu primeiro single, "Big In Japan" (originalmente escrito por Gold em 1979) e o single seguinte "Sounds Like A Melody" continuou o êxito. Mas seria o terceiro single, que tinha o nome inicial da banda e que dava nome ao seu álbum de estreia, que se tornaria a canção-assinatura dos Alpahville, embora na altura tivesse sido relativamente menos bem-sucedida comercialmente do que os dois singles anteriores. 


"Forever Young" é uma das minhas canções preferidas dos anos 80 e ainda hoje, quer o início instrumental, quer o clímax final com o sintetizador a imitar um trompete causam-me arrepios. E pelo meio, há Marian Gold cantando versos tão marcantes como "hoping for the best but expecting the worst, are you gonna drop the bomb or not?", "let us die young or let us live forever" ou "it's so hard to get old without a cause". O videoclip, filmado num antigo manicómio em Inglaterra, é igualmente icónico com a banda a tocar para um grupo de pessoas de várias idades vestidas com roupas esfarrapadas (em especial aquele senhor de bigode com um grande capuz branco) que acordam ao ouvi-los e terminam passando por um estranha e luminosa passagem em forma de losango (suponho que a porta para a Eternidade). 

"Forever Young" foi mais um grande hit para os Alphaville na Europa continental, tendo sido n.º 1 na Suécia e chegado ao top 20 na Alemanha, Áustria, Espanha, França, Holanda, Noruega, Suíça e África do Sul. Também lembro-me da canção ter tido alguma repercussão em Portugal na altura pois recordo-me de a RTP transmitir o videoclip em programas como "ViváMúsica". Foi também o maior hit da banda nos Estados Unidos, apesar de não ter ido além do n.º 65 no top da Billboard, mas devido a algumas versões de outros artistas, utilizações em filmes, séries, anúncios e talent shows, é uma canção que não soará totalmente estranha aos ouvidos americanos. 




O segundo álbum da banda, "Afternoons In Utopia" de 1986 ainda teve alguma notoriedade internacional, sobretudo devido ao single "Dance With Me", mas mesmo sem se aproximarem dos êxitos do passado, os Alphaville continuam no activo (o seu último disco de originais é de 2017), se bem que Marian Gold seja o único membro fundador que ainda continua no projecto. Gold também lançou dois discos a solo. 
Além dos Alphaville já terem regravado "Forever Young" várias vezes (a versão de 2001 foi editada em single), a canção já teve um número incontável de covers, de nomes como Laura Branigan, DJ Space C, Jay-Z & Mr. Hudson, Youth Group, One Direction, Interactive, Becky Hill e Wayne Wonder. E como já referi foi utilizado em vários filmes e anúncios publicitários. Aqui há tempos, vi "Forever Young" a ser usado numa sequência do filme norueguês "Mot Naturen" (2014), sobre um homem que decide passar um fim de semana a caminhar pelas montanhas, enquanto o espectador vai ouvindo os seus pensamentos sobre a sua crise de meia-idade, a vontade de largar tudo e a juventude que lhe escapa. 


Em Portugal, "Forever Young" teve um redescoberta e tornou-se definitivamente um clássico do FM nacional em 1994, quando Alberto Ferreira escolheu a canção para a sua participação na segunda temporada do "Chuva De Estrelas" que chegou até à final.    

"Big In Japan" (1983)


"Sounds Like A Melody" (1984)


"Dance With Me" (1986)




quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Bloco Publicitário SIC (Novembro 2000)

por Paulo Neto

Voltamos a analisar um bloco publicitário, desta vez um emitido na SIC há precisamente vinte anos no dia 11 de Novembro de 2000 (um sábado), cortesia do canal LustaniaTV. Pelo que depreendo, este intervalo foi durante uma emissão do concurso "A Febre Do Dinheiro", que marcou a mudança de Carlos Cruz da RTP para a SIC. 



0:00 Um anúncio ao BPI com Fernanda Serrano e um bem jovem Nuno Lopes, onde um outro actor mais velho (desconheço o seu nome) lhes mostra como obter um crédito habitação no site do banco. Em 2000, ainda parecia inacreditável poder tratar de assuntos bancários pela internet (que nem estava assim tão massificada em Portugal) mas nos anos seguintes, viria a ser uma prática bem comum.
0:37 Foi em Novembro de 2000 que o grupo Vodafone (que em Portugal ainda tinha então a Telecel como marca principal) lançou a Yorn, uma marca destinado ao público jovem, no qual se destacava um dos primeiros tarifários de grupo no mundo. A Yorn viria a se notabilizar pelas suas campanhas publicitárias criativas nos anos seguintes e chegou a ter uma megastore no Chiado que durou até 2005. Actualmente, é apenas a denominação para conjuntos de tarifários.  
0:54 Um gigantesco cálice de vinho na rotunda do Marquês de Pombal domina este anúncio sobre o Festival do Vinho que se realizou entre 4 e 12 de Novembro de 2000 e que era a maior feira do vinho no país. O certame envolveu vários locais de Lisboa como a Cordoaria Nacional, o Centro Cultural de Belém e a Praça do Município. (Com patrocínio do Jumbo e a presença do grupo vitivinicultor Dom Teodósio.)
1:18 Num restaurante, um comensal causa furor junto dos empregados ao pagar com o novo cartão Unibanco.
1:54 Por insistência da namorada, um jovem homem alimenta-a com uma bola de Maltesers usando uma palhinha e o seu poder de sucção. (E agora fiquei curioso para experimentar se é mesmo possível transportar assim os Maltesers.
2:15 Um alegre e colorido anúncio ao Mitsubishi Space Star
2:40 Graças ao novo desodorizante Rexona, uma atraente reclusa consegue escapar da cadeia e nem sequer os cães-polícia conseguem denunciar o seu cheiro. 
3:09 Uma instituição de anos a fio, os anúncios do Pingo Doce narrados pela voz de Rui Morrison. Desta feita, tal voz anuncia a 14.ª Feira do Vinho do Pingo Doce, "no sítio do costume". E em previsão do futuro, já era então também possível encomendar esses vinhos pela internet. 
3:45 Um homem passeia calmamente pela cidade, sem se dar conta que é seguido por vários automóveis Seat Toledo de várias cores. Alucinação, projeção subconsciente ou o preâmbulo de alguma revolta das máquinas?
4:16 Um homem-estátua admira-se ao ver um garoto a retirar-lhe uma moeda de cinquenta escudos para juntar aos 450 escudos que ele tinha na mão até constatar que na McDonald's, era possível na altura comprar dois Big Mac por quinhentos escudos (cerca de 2 euros e meio). Sim, ainda estávamos a pouco mais de um ano de termos euros no bolso.  (Xi, já não me lembrava do aspecto de uma nota de quinhentos escudos!)
4:37 Já falámos aqui sobre "Sex-Appeal", o magazine sobre a sexualidade dos portugueses, apresentado por Elsa Raposo. Nesta promo, recorda-se como em 1953, a Câmara Municipal de Lisboa estabeleceu um conjunto de coimas para aqueles que se afoitassem aos prazeres lascivos em locais públicos da capital (tudo em nome da decência e dos bons costumes, claro está!) e onde os termos exactos eram substituídos por expressões mais comedidas como "mão naquilo", "aquilo naquilo" ou "aquilo atrás daquilo". 47 anos depois, as liberdades eram sem dúvida maiores, e possivelmente também o desejo dos portugueses de dar largas aos prazeres do amor em outdoor. 
5:30 Promo à transmissão do jogo Benfica-Farense, ao som de "Beautiful Day" dos U2. O jogo terminaria com a vitória das águias por 2-1, com golos de Van Hooijdonk e João Tomás a inverter a vantagem inicial dos algarvios. Porém esta época seria aziaga para o Benfica que terminaria na sua pior classificação de sempre, o sexto lugar. 
6:01 Regressado de férias e depois de um duche, um homem deixa-se encantar pela suavidade uma toalha que a sua esposa lavou com amaciador Vernel Sensations.
6:22 Uma rua cheia de esferovite ilustra este anúncio à Citroen, onde na compra de uma viatura da marca, valorizava-se o carro anterior em 250 contos. 
6:32 Acho que foi por esta altura que as barras de cereais começaram a ser comercializadas em Portugal. Neste anúncio um corredor de uma maratona recupera as suas energias graças às barras de cereais Hero Muesly!
6:43 Reduzindo-se a um tamanho diminuto ao ponto de poderem ver as fibras dos tecidos, duas pessoas constatam que muita sujidade entranha-se entre elas. Mas felizmente, elas poderiam ser eliminadas graças a Persil Progress. Pois se outrora uma geração inteira acreditou que o Presto tinha seres que comiam a sujidade da roupa, porque não tentar passar a ideia de pérolas tira-nódoas?
6:58 Para tentar combater as desigualdades entre homens e mulheres nas empresas, a CITE (Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego), criada pelo Ministério do Trabalho de Solidariedade Social, criou o Prémio Igualdade É Qualidade para premiar as entidades com políticas exemplares de igualdade entre sexos. E vinte anos depois, graças a iniciativas como esta, reina hoje a igualdade de salários e oportunidades laborais entre sexos em Portugal! (Só que não…)
7:14 Será que foi este o primeiro anúncio televisivo em Portugal a utilizar o termo smartphone? É o anúncio (com voz off de Ricardo Carriço) ao Ericsson R380s, um dos primeiros telemóveis com acesso à internet. E vinte anos depois, os telemóveis são autênticos computadores portáteis!
7:34 Uma simpática e atlética loirinha chamada Clara é protagonista deste anúncio ao chocolate Duplo. Já há largos anos, que a produção desse chocolate foi descontinuada, pelo menos em Portugal, mas lembro-me que era assaz saboroso, uma espécie de Kinder Bueno mas com avelãs inteiras. Mas ao contrário do que o nome indiciava, cada embalagem tinha apenas uma barra. 
8:03 Os Jogos Olímpicos de Sydney tinham terminado há mais de um mês, mas várias cenas desportivas ilustravam este anúncio ao Seat León, "o automóvel do milénio". 
8:33 Um anúncio em animação 3D aos pensos higiénicos Renova First.
9:04 Trailer ao filme "A Cela", protagonizado por Jennifer Lopez. Um thriller sobrenatural em que Lopez faz de uma psicóloga escolhida para utilizar uma tecnologia experimental que a fará entrar na mente de um serial killer em estado de coma (Vincent D'Onofrio) para tentar descobrir onde se encontra a sua última vítima raptada, com a ajuda de um agente do FBI (Vince Vaughn). O filme foi realizado por Tarsem Singh e foi nomeado para o Óscar de Melhor Caracterização.
9:19 Um elegante casal fica desejoso de comer um (ou mais) Mon Chéri, mas ao constatarem que sobrou apenas um em sua casa, já que os seus amigos lambões paparam o resto, só lhes resta dividir o bombom sobrevivente. 
9:50 Um senhor idoso parece querer dar um sermão do tipo "no meu tempo, é que era", porém ao afirmar que no seu tempo não podia fazer negócios na internet, como por exemplo em BizDirect.pt, é forçado a admitir "No meu tempo, era uma seca!". Sim, estávamos no advento das compras e negócios online.
10:20 Vinheta SIC
10:25 Desde o início de 1998 que o programa "Roda Dos Milhões" era uma bastião das noites de segunda-feira da SIC. Paralelamente, havia uma revista do programa que habilitava os seus compradores a prémios monetários e automóveis (um pouco à semelhança no passado da revista "Telejogos" e o concurso "Casa Cheia" da RTP). Nessa semana, Revista "Roda Dos Milhões" tinha na capa o ex-Excesso Duck que se aventurava a solo.
10:46 Ao longo do ano 2000, um dos destaques da programação da SIC foram os doze telefilmes "SIC Filmes", cada um exibido em cada mês desse ano, com todas as honras promocionais. O mais célebre desses telefilmes era de longe o primeiro, "Amo-Te Teresa", mas também ainda hoje são recordados títulos como "Monsanto", "Facas E Anjos" e "O Lampião Da Estrela". Para o dia 16 de Novembro, estava prevista a estreia do 11.º filme, "Alta Fidelidade" (nada a ver com o filme americano do mesmo nome com John Cusack também estreado em 2000), com argumento de Rodrigo Guedes de Carvalho e cujo elenco incluía nomes como Pedro Laginha, Maria João Bastos, Miguel Borges, Isabel Abreu, Paulo Pires e Rogério Samora. É a história de dois amigos que, para aliviar as despesas do apartamento que os dois partilham, decidem subalugar um dos quarto extra que será ocupado por uma bela e misteriosa jovem…
11:35 Galp Energia patrocinava a SIC Filmes.
11:41 Depois da Expo 98, o Pavilhão Atlântico (actual Altice Arena) já se tornara recinto de referência para acolher vários tipos de espetáculos e eventos desportivos. E já nesse mês de Novembro de 2000, decorreria aí a fase final da Tennis Masters Cup onde oito dos maiores ases do ténis da altura se defrontaram: Andre Agassi, Gustavo Kuerten, Pete Sampras, Marat Safin, Evgeny Kafelnikov, Lleyton Hewitt, Alex Corretja e Magnus Norman. O torneio seria vencido por Kuerten que bateu Agassi na final. 
12:12 O programa que se seguia (pressuponho que "A Febre Do Dinheiro") é patrocinado pelo BPI, daí vermos de novo Fernanda Serrano e Nuno Lopes. 

Devo dizer que foi uma interessante viagem no tempo até 2000, com alguns anúncios dos quais eu me recordava (Duplo, Mon Chéri, Rexona) e outros que já tinha esquecido. Aquilo que mais se destacou para mim foi como produtos ligados à internet começavam a ser cada vez mais publicitados e deixavam antever a sua massificação e como ela mudaria os nossos hábitos (consultas bancárias, compras, internet móvel, etc.) ao longo dos próximos anos. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Sapatilhas ZAES (1988)

 por Paulo Neto

Ao deambular pelo YouTube encontrei este colorido anúncio de 1988 às sapatilhas ZAES de que eu já nem me lembrava mas que assim que o vi fez-se luz na minha mente, no canal FlashBulletPT


"O olhar da moda é... ZAES!
O sentido da moda é...ZAES!
O andar da moda é...ZAES!
ZAES, está em todas!"

Eu nunca tive sapatilhas desta marca, até porque pelo menos nesta campanha, o seu público-alvo era feminino, mas além do anúncio, lembro-me de ver vários cartazes a estas sapatilhas em todas as sapatarias da minha terra. Pelo visto por esta altura, esta marca espanhola sedeada em Barcelona queria apostar em forte no mercado português. A hispanidade da marca estava até no nome, já que é a junção das primeiras sílabas de "zapatillas españolas". 

Quando eu postei o vídeo do anúncio na página do Facebook da Enciclopédia de Cromos, o nosso seguidor Ilídio Coelho teve a amabilidade de nos fornecer fotos com calendários da ZAES para 1988: 




Como se pode ver no calendário, a filial portuguesa da ZAES tinha sede na Rua dos Lusíadas em Lisboa e tinha uma delegação no Norte em Guimarães.

E vocês, tiveram algum par de sapatilhas ZAES? 


terça-feira, 20 de outubro de 2020

Minas E Armadilhas (1993-1996)

por Paulo Neto

Como já falámos no texto sobre os "Apanhados" de Joaquim Letria na RTP, um desentendimento entre Letria e Manolo Bello, que organizava as situações a ser filmadas, resultou na ida deste para a SIC, pouco depois do fim da exibição do programa.



Assim sendo, entre os programas da nova grelha da rentrée de 1993 da SIC, estreou "Minas E Armadilhas". Tal como no programa "Apanhados", também havia várias situações em que apanhavam portugueses desprevenidos. Recordo-me que algumas delas até foram recicladas do programa da RTP como por exemplo a situação de alguém no clube de vídeo que decide pregar sermões a pessoas a quem o empregado da loja afirmava terem alugado filmes pornográficos, mas desta vez, em vez de Guilherme Leite, o "justiceiro da moral" era uma senhora de idade avançada. Aliás, lembro-me que essa senhora irritou tanto uma das vítimas, que também era idosa, que ripostou: "Já vi que você é Jeová!"

  

Mas a principal novidade é que o programa era conduzido em estúdio por Júlio César, com a presença de algumas das pessoas apanhadas que depois falavam na sua experiência e na partida que lhes fizeram. Lembro-me um caso de um homem apanhado numa situação em que uma jovem lhe pede para se fazer passar por namorado dela junto dos seus pais porque supostamente estes não gostavam do verdadeiro namorado dela, e durante a reunião familiar aparecia o tal verdadeiro namorado, e no caso desse jovem homem, apesar de tudo levou a farsa até às últimas dizendo diante todos que ele é que era o namorado, até que lhe por fim disseram que era tudo uma partida. Quando essa situação foi filmada, o jovem tinha farta cabeleira e barba mas em estúdio, lembro-me de achar que ele quase nem parecia o mesmo com o cabelo cortado e a barba feita. 

O programa tinha ainda uma vertente de concurso, conduzido por Júlio César, onde dois dos apanhados jogavam um jogo de memória de pares para ganharem prémios monetários. Tal como no programa da RTP, Guilherme Leite participou em algumas das situações, mas por vezes acontecia que as pessoas já o reconhecessem dos "Apanhados". Nesta fase inicial também participaram nas situações Carla Andrino e Ildeberto Beirão, que mais tarde também entrariam noutros programas com Guilherme Leite como "O Café Do Surdo" e as primeiras temporadas dos "Malucos Do Riso". 

Aliás, houve situação protagonizado por estes dois que para mim foi a mais inesquecível de "Minas E Armadilhas", porque envolvia indiretamente nada menos que o então Primeiro-Ministro Aníbal Cavaco Silva. Em Boliqueime, terra natal de Cavaco Silva, Carla Andrino fazia de transeunte que reparava num carro abandonado onde estava alguém trancado no porta-bagagens, tendo esse alguém uma voz muito semelhante à do então chefe do Governo e que dizia ser "o Aníbal, o filho do Teodoro" (aludindo ao verdadeiro pai de Cavaco Silva que ainda era residente na dita localidade algarvia)* e que fora raptado. Então vários cidadãos de Boliqueime se acercam do carro, ora preocupados em ajudar a pessoa trancada na porta-bagagens, ora curiosos para saberem se quem estava lá dentro era mesmo o Primeiro Ministro filho do Teodoro. A certa altura, existe alguém que ao acreditar que era mesmo ele, exclama algo que surge escrito em legenda no ecrã como: "É o Cavaco? Então que se f...". No final, era revelado que quem estava no porta-bagagens do carro era Ildeberto Beirão imitando a voz de Cavaco Silva. 

* O que me leva a concluir que quase sempre na tua terra, por muito mais famoso ou importante que sejas, para os teus conterrâneos que te viram crescer, tu continuas a ser "o/a filho/a de"… Por exemplo, e embora não seja famoso nem coisa que se pareça, há muitos conterrâneos meus que podem não saber o meu nome mas sabem que eu sou "o filho do Rogério" ou "o filho da Maria João". Há até aqueles que pensam que eu é que tenho o nome do meu pai por ser o filho mais velho, quando na verdade foi o meu irmão que herdou o nome do nosso progenitor.    




Ao longo das quatro temporadas, Júlio César teve várias parcerias à assisti-lo na condução do programa, começando pela célebre drag queen Belle Dominique e passando pela modelo e actriz soft-porn francesa Marlène Mourreau e pela patinadora Andreia Fernandes. Na assistência do programa era comum estarem presentes várias colectividades, como tunas académicas, ranchos folclóricos e bandas filarmónicas.     

Programa completo (Fevereiro 1995):


Algumas situações:





segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Anúncio do Nescafé "Um Amanhecer Diferente" (1990)

 por Paulo Neto

No passado dia 6 de Outubro faleceu aos 80 anos o cantor americano Johnny Nash, um dos primeiros artistas a conjugar o pop mais tradicional com o reggae, e foi mesmo um dos primeiros cantores não-jamaicanos a gravar em Kingston. Apesar de ter iniciado a sua carreira em 1956, os maiores sucessos de Johnny Nash surgiram nos anos 70, com "Tears On My Pillow" e sobretudo "I Can See Clearly Now". Este último foi editado em 1972, tendo sido o seu o único single n.º 1 no top americano. Mas para as gerações seguintes, foi através de um dos mais lendários casamentos entre música e publicidade que "I Can See Clearly Now" seria eternizado. 

Oriundo do gigante suíço da produção alimentar Nestlé, o Nescafé é já há várias décadas uma das marcas de eleição de café solúvel. Lembro-me que o primeiro café que tomei na vida, para aí com seis anos, foi um Nescafé daquelas saquetas em forma de prisma e de que gostei de misturar os grãos de Nescafé com o açúcar. (Claro que só muito ocasionalmente é que bebia café sem leite na minha infância e foi já adolescente que comecei a beber bicas nos cafés.) Mas foi em 1990, que a Nescafé lançou o seu anúncio mais emblemático em Portugal, originalmente estreado no Reino Unido em 1988 com o título "Sunrise" nos cinemas e meses depois na televisão. 


O anúncio é muito simples: na hora do lobo, um carocha estaciona junto à praia sob o som das gaivotas. Dentro da viatura, vê-se uma jovem mulher com um ar entristecido. Talvez tenha acabado um namoro, talvez tenha perdido o emprego ou sido despejada, talvez simplesmente esteja a passar por muita tensão na sua vida e decidiu por impulso pegar no carocha e fugir momentaneamente de tudo isso. Seja como for, ela depara-se no seu saco com um frasco de Nescafé e decide preparar um café ligando uma resistência ao isqueiro do carro para aquecer água. É então que começa a tocar "I Can See Clearly Now". Então ela sai do carro com uma chávena de café na mão. A jovem encosta-se ao capot do carocha e enquanto bebe café, vemos o seu rosto, banhado pelas primeiros raios de sol da manhã, esboçando um sorriso. O anúncio termina com um lindíssimo plano do nascer do sol na praia e as silhuetas da mulher e do carro e o slogan a surgir no ecrã: "Nescafé, um amanhecer diferente."  


O anúncio era assaz simples mas muito eficaz porque todos nós nos reconhecíamos naquela jovem mulher porque todos já passámos por períodos tensos na nossa vida onde uma pausa para simples prazeres como saborear um café ou ver um nascer do sol nos dá forças para seguir em frente. E que melhor canção do que "I Can See Clearly Now" para capturar aquela sensação de finalmente se poder vislumbrar melhores dias no horizonte após tempos menos bons?
Mas além disso, para muitos incluindo eu, a parte mais fascinante do anúncio foi a simples ideia de fazer café ligando uma resistência ao isqueiro do carro. Será que além de Nescafé, o anúncio também fez aumentar as vendas das resistências? E será que muita gente terá imitado a jovem do anúncio e fazer assim um rico cafezinho no carro? Na altura eu cheguei a sugerir aos meus pais que nas nossas idas à praia nós fizéssemos assim um café deste modo para bebermos à beira-mar quando lá chegássemos mas eles não alinharam nisso.   



Mais tarde, houve outro anúncio ao Nescafé com o slogan "Um amanhecer diferente" (no original inglês, "make a fresh start"), dirigido pelo mesmo realizador, Derek Coutts,  que também começava com um carro que chega perto de uma praia ao raiar da aurora, sob o som das gaivotas e incluindo também uma conhecida música de outros tempos. Mas desta vez é o protagonista é um jovem homem que comprou em trespasse uma loja de discos na avenida marginal à praia. Ao entrar ele depara-se com um amontoado de correio a entupir a frincha da porta e grande desordem no interior da loja, sinal de que um longo dia de grandes limpezas e arrumações o espera. Felizmente a loja tem um fogão com uma cafeteira e o jovem trouxe consigo um frasco de Nescafé. Enquanto a água aquece, ele liga a jukebox e escolhe para tocar "I Got You (I Feel Good)", um dos incontornáveis êxitos de James Brown. O jovem pega na chávena de café para beber na rua, junto à entrada, para apreciar o amanhecer, não sem antes virar o letreiro de fechado para aberto. 
Ao que parece esta foi a primeira vez que uma canção do Padrinho da soul teve autorização para ser incluída num anúncio publicitário, e não tardaram que várias outras canções de James Brown também seguissem o exemplo e surgissem noutros anúncios (nomeadamente "Get Up (Feel Like A Sex Machine)" para o famoso anúncio do Renault Clio de 1999 do "Get up ahhh!"). Mas apesar de também belissimamente realizado, este segundo anúncio do Nescafé, intitulado "Brand New Beat" não era tão eficiente quanto o antecessor, talvez porque não havia tanta relatability do espectador para com o protagonista. Primeiro porque nem todos nós podíamos comprar uma loja de discos, por mais vetusta que fosse, e depois porque não existe a mesma evolução do estado de espírito: longe da melancolia da jovem do anúncio anterior, aqui o protagonista exala confiança o tempo todo e no máximo, só fica ligeiramente perturbado com a desarrumação. 

Foram também editadas em cassete duas colectâneas com as músicas dos anúncios e outras semelhantes, tendo como título o slogan "Nescafé - Um Amanhecer Diferente".



Em 1993, uma nova de versão de "I Can See Clearly Now" do cantor jamaicano Jimmy Cliff para a banda sonora do filme "Jamaica Abaixo De Zero", ajudou a cimentar o estatuto clássico da canção junta das novas gerações.  

Para terminar, uma das minhas piadas secas preferidas: O que diz o café ao Nescafé? "N'és café nem és nada!" Ba dum tss!  

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Buéréré (1993-2002)

por Paulo Neto

Desde a sua génese, a SIC teve um espaço de programação infantil nas manhãs do fim-de-semana, começando no início das emissões com a exibição das séries animadas "O Livro Da Selva" (uma versão anime de coprodução italo-japonesa da obre de Rudyard Kipling, adaptada em 1968 pela Disney) e "T-Rex". Gradualmente, outras séries foram sendo exibidas, sobretudo após o estabelecimento de uma parceria com o Nickelodeon. 


Com a nova grelha para a rentrée de 1993, esse espaço infantil ganhou um nome: o do "Buéréré", alegadamente um termo comum na conversa da pequenada. (Eu nunca na minha vida tinha ouvido essa palavra antes disso, apenas bué, mas se calhar era só dita mesmo entre aqueles mais novos do que eu, que então estava no alto dos meus treze anos. Seria mesmo verdade?) E no início de 1994, o "Buéréré" da SIC tornou-se mais do que um simples espaço para exibição de séries animadas. 


E é aqui que tenho de deixar claro um facto que tem sido algo obliterado: a primeira Ana do "Buéréré" da SIC foi a Ana Marques. Tal como José Figueiras, Ana Marques tem sido a cara da SIC desde o início, começando na meteorologia e depois fazendo de tudo um pouco. E algures no primeiro trimestre de 1994, foi ela que apresentou aos domingos uma primeira encarnação do Buéréré, que por entre a exibição das demais séries animadas, havia uma espécie de concurso em que a cada semana opunha duas equipas vindas de diferentes escolas primárias, uma de vermelho e uma de amarelo, que disputavam vários jogos. Não sei bem qual era o prémio final mas suponho que deviam ser brinquedos e vales de compras já que a Toys R Us e a Lego eram alguns dos patrocinadores. E lembro-me disto: o programa também passava um videoclip escolhido pela equipa vencedora, e os videoclips dos Bon Jovi costumavam ser muito escolhidos (lembro de terem aí exibido os videoclips de "Keep The Faith" e "Always", por exemplo). 




Com o início do ano lectivo 1994/95, o "Buéréré" também passou a dar às tardes da SIC de segunda a sexta-feira e as primeiras séries nesse espaço, como se pode ver nesta promo com Ana Marques, foram "M.A.S.K." e "Hulk Hogan - Rock & Wrestling".


Foi também por essa altura que além do "Buéréré", foram também exibidos na SIC nas manhãs de fim-de-semana outros programas da parceria com o Nickelodeon, como o concurso "Tudo Ou Nada" apresentador por Humberto Bernardo (que era uma adaptação de "Double Dare") e "Global GUTS", de que já falámos aqui, uma competição internacional com participação portuguesa, com José Figueiras como o apresentador oficiosa da SIC. 




Porém a maior revolução e a fase mais icónica do "Buéréré" viria com a rentrée de 1995. E aí reinou outra Ana. Com o "Big Show SIC" em alta, o produtor brasileiro Ediberto Lima foi incumbido dessa renovação do Bueréré, inspirando-se claramente nos programas da Xuxa na televisão brasileira. E para conduzir esse novo Buéréré, com o título "Super Buéréré" (ou "Buéréré Super", whatever), a escolha recaiu sobre a artista de seu nome completo Ana Sofia Lopes Malhoa, então com 16 anos. No entanto Ana Malhoa já andava no mundo do espetáculo desde tenra idade, quer cantando com o seu pai José quer em discos a solo, e até já tinha tido uma breve incursão na televisão como coapresentadora com Badaró no programa da RTP "O Grande Pagode" (1987-88).    


O "Super Buéréré" tinha um cenário muito maior, e Ana Malhoa conduzia a emissão secundada por um vasto elenco de assistentes: quatro Anetes (uma espécie de copy paste das Paquitas da Xuxa), quatro Mini Anetes (cada uma com o seu traje: a boneca, a artista circense, a fada e a pirata), a abelha Melzinho, o crocodilo Croko, o sapo Filipe La Fera e sobretudo os míticos Boiréré (que ao que se veio a saber recentemente, chegou a ser manobrado pelo Pedro Soá do "Big Brother 2020") e Vacaréré


AM com duas das Anetes


As Mini-Anetes


AM com o Boiréré e o Macado Hadrianno


A princípio "Super Buéréré" tinha muitos pontos em comum com o "Big Show SIC": o DJ Pantaleão também era o DJ residente e passava mesmo as músicas e a par de actuações da própria Ana Malhoa e de outros jovens artistas, também por lá passavam alguns artistas e grupos não tão infantis quanto isso. Por exemplo, existe no YouTube uma actuação da banda heavy-metal RAMP no programa! O Macaco Hadrianno também passava por lá frequentemente. Mas embora a correlação entre os dois programas nunca tenha sido cortada, com o tempo o "Super Buéréré" foi tornando-se cada vez mais age appropriate, passando só músicas infantis (até porque o reportório próprio do programa também ia crescendo) e os convidados musicais fora do público alvo infanto-juvenil foram diminuindo. O duo de prestidigitação Damião e Helena passou a ser também uma presença regular e cada programa tinha um segmento onde os dois apresentava truques de magia. Havia também um segmento onde Ana Malhoa lia cartas dos jovens telespectadores e onde mostravam desenhos e fotografias dos ditos cujos. 


AM com o duo ilusionista Damião E Helena

Ana Malhoa também marcava presença no Buéréré diário, geralmente acompanhada pelo Boiréré e a Vacaréré, em breves segmentos não só apresentar as séries animadas a ser emitidas, como também para promover passatempos de linhas de valor acrescentado do indicativo 0641 ou o merchandising do programa.   

E por falar em merchandising do programa, entre ele contava-se: os kits de magia de Damião e Helena, puzzles, material escolar, produtos têxteis e acho eu (mas não tenho muita certeza) que chegou a haver peluches do Boiréré e da Vacaréré. Porém o produto principal era sem dúvida os discos da canção do programa, que foram quatro: "Super Buéréré", "A Turma Do Big Buéréré", "Super Buéréré - O Grande Pagode" e "Buéréré Super Rock". Além das músicas cantada por Ana Malhoa no programa, também as outras personagens tinham direito à sua própria canção: a das Anetes, a das Mini Anetes, a da Melzinho, a do Boiréré ("muu, Boiréré, muu, Boiréré") e a da Vacaréré. As canções era uma mistura de originais (alguns deles escritos por Toy) e outras versões de várias cantigas infantis made in Brasil. Por exemplo, uma das minhas preferidas era "Pula, Brinca, Agita", um original do brasileiro Sérgio Malandro. 

A capa do primeiro disco do Buéréré

Mas claro que o grande hit de Ana Malhoa da sua fase Buéréré foi o "Começar No A", que ela ainda hoje de vez em quando canta nos seus concertos. 

Cheguei a casa e abri o meu livro para estudar
Para aprender é preciso saber como é bom cantar
Numa canção escolho o tema de escola p'ra começar
Repete então comigo estas letras que eu vou gritar

A! (A!) E! (E!), A, E, I, O, U
A! (A!) E! (E!), A, E, I, O, U

Sabes que começou no A (A-A-A)
E a seguir vem o E (E-E-E)
Inteligente é com o I (I-I-I)
O U depois do O faz o  A-E-I-O-U. 

O "Buéréré" da fase Ana Malhoa durou até ao final de 1998. (Segundo o que ambos revelaram no "Maluco Beleza", devido a desentendimentos entre ela e Ediberto Lima.) Em 1999, Ana Malhoa deu à luz a sua filha Índia e desde então tem-se reinventado várias vezes ao longo da sua carreira.  
A SIC continuou a denominar o seu espaço infanto-juvenil de "Buéréré" (por meio também criando outro programa de estúdio, o "Zip Zap" com o seu elenco de jovens apresentadoras cantadeiras) até 2002, quando passou a chamar-se "Iô-Iô". 

As séries exibidas na SIC durante o "Buéréré" ao longo da sua existência formam uma lista deveras extensa por isso vou só destacar algumas: "Rugrats", "Ren & Stimpy", "Power Rangers", "Aaahh!!! Real Monsters!", "Dogcat", "Rocco's Modern Life", "Hey, Arnold", "A Janela Da Allegra", "Rimba's Island", "Big Bad Beetleborgs", "VR Troopers" e é claro, os incontornáveis "Sailor Moon" e "Dragon Ball".  

Quero deixar os meus agradecimentos ao membro do fórum "A Televisão" de seu nome ATVTQsV pela crónica da sua autoria sobre o "Buéréré" que se tornou a minha principal fonte para este artigo. Na sua crónica sobre "A Arca De Noé" ele referiu o meu texto aqui no blogue sobre esse programa como uma das suas fontes, por isso fica o favor retribuído.  



segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Daria (1997-2002)

por Paulo Neto

Tenho de confessar que nunca fui fã da série "Beavis & Butt-Head". Houve sempre algo nela que nunca me cativou e achava o humor demasiado rasteiro e os traços da animação muito toscos para o meu gosto. Mas nessa série havia uma personagem que viria a ter a sua spin-off, que na minha opinião era muito mais interessante: Daria Morgendorffer


Daria em (e com) "Beavis & Butt-Head"

Em "Beavis & Butt-Head", Daria era uma espécie de contraponto inteligente à acefalia dos protagonistas, sempre com um comentário mordaz na ponta da língua. Mas embora não os tivesse em grande consideração e retirasse prazer de os ver cair nos mais diversos sarilhos, Daria (a quem eles lhes chamavam "diarrhea") era das poucas personagens que se importava minimamente com eles e se dava ao trabalho de lhes explicar coisas aparentemente elementares como pôr sementes no chão para plantar. Inicialmente a personagem era mais expressiva, mas com o tempo foi-se tornando mais inexpressiva, mais sarcástica e com um tom de voz de monocórdico que seria a sua imagem de marca na spin-off.


 

Sob aprovação de Mike Judge, o criador de "Beavis & Butt-Head" e da personagem, Glenn Eichler e Susie Lewis Lynn trabalharam numa série spin-off tendo a personagem de farta cabeleira castanha, óculos, casaco verde, botas da tropa e língua afiada como protagonista, mantendo-se Tracy Wagstaff como a voz de Daria.
"Daria", a série teve cinco temporadas de treze episódios de 22 minutos cada exibidas originalmente entre 1997 e 2002, bem como duas longas metragens: "Is It Fall Yet?" (que ligava os acontecimentos do fim da quarta temporada com os do início da quinta) e "Is It College Yet?", que serviu como episódio final, após os autores da série terem optado por fazer um filme em vez da sugestão da MTV para uma minitemporada final de seis episódios. Além disso, houve também dois episódios especiais, um mostrando os bastidores da série apresentado pela actriz Janeane Garofalo (que muitos acreditavam ser a voz de Daria) e outro de retrospectiva antes do episódio/filme final e um episódio piloto a preto e branco nunca exibido em televisão, mas disponibilizado na internet. A canção do genérico é "You're Standing On My Neck" do grupo rock feminino Splendora
Eu lembro-me de ver a série nos finais dos anos 90, ainda quando Portugal não tinha MTV própria e estava sobre a alçada da MTV Europe, e recentemente a MTV Portugal tem reposto a série, à razão de dois episódios por dia nas noite de segunda a quinta-feira.    

Tirando as características da protagonista e as origens texanas da família, a série não reteve nenhuma referência a "Beavis & Butt-Head". Como tal, vemos Daria a viver em Lawndale, uma comunidade de classe média-alta algures no Nordeste americano, com a sua família. Os seus pais Helen e Jake foram outrora hippies mas agora são obcecados pela sua carreira (ela é advogada, ele é consultor de empresas) e pelo estatuto social e a sua irmã mais nova Quinn (quando vi pela primeira vez a série, o nome dela soava-me a Gwen) mais obcecada com roupas, popularidade e namoros do que com responsabilidades e acha que a sua cara laroca é suficiente para conseguir o que quer. Embora Helen e Jake fiquem frequentemente exasperados com o sarcasmo e pessimismo da primogénita ("eu não tenho baixa auto-estima, tenho baixa estima por toda a gente"), a falta de aplicação aos estudos e às responsabilidades da mais nova deixa-os ainda mais em palpos de aranha. 

Jake, Quinn, Daria, Helen


Jane e Trent


No liceu de Lawndale, enquanto Gwen rapidamente torna-se popular, Daria destoa completamente daquele meio escolar banhado em superficialidades e contradições que ela nunca se faz rogada em apontar. E embora tenha boas notas, não cai nas boas graças dos professores, quer por não gostarem de ela ser respondona, quer por não saberem lidar com alguém assim. Porém, Daria trava logo amizade com uma colega, Jane Lane, que partilha o humor sardónico e o espírito crítico, se bem que Jane seja um pouco mais positiva e sociável. As duas também gostam de comer pizza e ver o programa de televisão "Sick, Sad World"
 Filha de pais ligados ao mundo das artes, dos quais ela herdou o talento, Jane vive numa grande casa onde o único outro residente habitual é o seu irmão Trent, que passa os seus dias entre dormir, tocar na sua banda Mystik Spiral ou praticar na guitarra (dormir agarrado à guitarra contra como praticar!) e que fala com que num sussurro arrastado. Contra os seus próprios esforços, Daria mantém um crush por Trent ao longo das três primeiras temporadas.  

Outros alunos de Lawndale da turma de Daria e Jane são: Brittany Taylor, a típica cheerleader loura burra, que namora com Kevin Thompson, o quarterback da equipa de futebol americano que é ainda mais burro que ela; Charles "Upchuck" Ruttheimer, o chato insuportável que se mete com todas as raparigas; o casal Jodie Landon e Michael Jordan "Mack" MacKenzie, dois dos poucos alunos negros no liceu, ela aluna do quadro de honra, ele capitão da equipa de futebol americano; e Andrea, a rapariga gótica. Jodie era uma das minhas personagens preferidas porque embora estivesse integrada no sistema escolar e da comunidade, ela não se fazia rogada em apontar as injustiças à sua volta, ou sobretudo o facto de ela ser tratada como uma quota de minoria numa comunidade maioritariamente caucasiana. Por vezes, Jodie chegava mesmo a lembrar Daria que esta podia-se dar ao luxo de confrontar o establishment à sua volta sem sofrer grandes represálias porque ela era branca e economicamente privilegiada. (Foi anunciado recentemente que Jodie terá a sua própria série, com Tracee Ellis-Ross a dar-lhe voz.)

Enquanto isso Quinn integra o Clube da Moda com três das raparigas mais populares da escola, priorizando as tendências da moda a tudo o resto: Sandy Griffin, a presidente do clube que nutre uma inveja velada por Quinn, Stacy Rowe, a mais simpática e próxima de Quinn, e Tiffany Blum-Deckler, a asiática meio apática que fala num tom de voz baixa. Entre os  vários pretendentes de Quinn, existem três rapazes sempre atrás dela e a quem ela só liga quando lhe convém: Joey, Jeffy e Jamie, este último alvo de um gag recorrente das outras personagens confundirem sempre o nome dele. Na escola, Quinn faz tudo para que ninguém saiba que Daria é sua irmã e como tal as outras raparigas do Clube Da Moda costumam referir-se a Daria como "a prima da Quinn".

Da esquerda para a direita: Ms. Li, Brittany, Kevin, Jodie, Daria,
Jane, Mack, Upchuck, Andrea e Mr. DeMartino


Entre os professores há a directora Angela Li, obcecada em angariar dinheiro para a escola (e às vezes para ela), nem que seja por esquemas pouco lícitos; Janet Barch, a professora de Economia, que nutre um ódio geral pelo sexo masculino desde que o seu ex-marido fugiu com a amante; Timothy O'Neill, o professor de Inglês, hipersensível, inseguro e com dificuldade em fixar os nomes dos alunos; Claire DeFoe, a professora de Artes, que encoraja o talento de Jane; e Anthony DeMartino, o professor de História, atreito a vários ataques de fúria (nomeadamente devido à burrice dos alunos) que faz o seu olho sair da órbita. 

Daria e Tom


A partir da quarta temporada, surge uma nova personagem importante, Tom Sloane que se torna o namorado de Daria. O início da relação é algo atribulado porque Tom tinha antes namorado brevemente com Jane, o que causou tensão entre as duas amigas. Embora pertença a uma das famílias mais ricas e poderosas de Lawndale e por vezes seja algo presunçoso por causa desses privilégios, Tom partilha a mesma mentalidade sagaz e sarcástica de Daria, embora seja mais sociável. O namoro com Tom vai fazer com que Daria repense as suas atitudes e se confronte com as suas inseguranças e traumas passados (que moldaram a sua personalidade). No final de "Is It College Yet?", Tom e Daria decidem terminar amigavelmente a relação para se focarem no novo capítulo das suas vidas na universidade.

No geral, gosto bastante de tudo em "Daria": os traços da animação (sobretudo no desenho das personagens), do humor mordaz, de como a maioria das personagens foi passando de meros estereótipos a caracteres bem delineados e desenvolvidos e do trabalho dos voice actors. Outro pormenor muito engraçado era durante os créditos finais aparecerem desenhos das personagens da série assumindo outro tipo de personalidade. (Por exemplo, Daria como a rainha Isabel I, Jane como Cleópatra, Quinn como uma freira, Jake como Keith Flint dos Prodigy, Trent como um gangster...)   

Algumas curiosidades:

- Para o nome de Daria, Mike Judge, criador de "Beavis & Butt-Head", inspirou-se numa antiga colega de liceu que tinha o mesmo nome (e a mesma alcunha escatológica). 
- Wendy Hoopes fez as vozes de Quinn, Helen e Jane. Fiquei muito surpreendido quando soube isto porque a voz da Quinn era tão aguda e a da Jane tão grave que quase parece inacreditável que as duas vozes saíssem da mesma pessoa. 
- A inspiração para o design da personagem de Brittany foi a actriz e apresentadora Jenny McCarthy (actualmente mais conhecida por ser militante anti-vacinas). 
- Quatro actores fizeram a voz de Mack: Delon Ferdinand, Paul Williams, Kevin Daniels e Amir Williams. Talvez por isso, a personagem não foi tão desenvolvida como as outras.
- Os outros voice actors da série foram Sarah Drew (Stacy), Geoffrey Arend (Upchuck), Marc Thompson (Kevin, Mr. O'Neill, Mr. DeMartino, Jamie), Janie Mertz (Brittany, Sandy), Ashley Albert (Ms. Barch, Tiffany), Alvaro Gonzalez (Trent), Jessica Cydnee Jackson (Jodie) e Russel Hankin (Tom).

Além da série, que teve edições em VHS e DVD, "Daria" também gerou dois livros e dois programas de software para computador. Alguns serviços de GPS disponibilizam a voz de Daria como guia. 

Para terminar deixo-vos os conselhos de Daria no seu discurso da formatura:
"Lutem por aquilo que acreditem até que, ou a não ser que a lógica e a experiência vos prove o contrário; lembrem-se quando o rei parece ir nu, o rei vai nu; a verdade e uma mentira não são "mais ou menos a mesma coisa"; e não há nenhum aspecto, faceta ou momento da vida que não possa ser melhorado com pizza."

Quinze das melhores frases de Daria Morgendorffer



Genérico

 



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