segunda-feira, 23 de maio de 2016

Anúncio da Calvin Klein com Tom Hintnaus (1982)

por Paulo Neto

Nas suas campanhas publicitárias, a Calvin Klein desde cedo pautava-se pelas suas inovações e transgressões, como por exemplo nos anúncios com uma lindíssima e ainda proibitivamente jovem Brooke Shields em poses sensuais, a ronronar coisas como: "Nothing comes between me and my Calvins".

E em 1982, uma fotografia tirada na ilha grega de Santorini pelo fotógrafo Bruce Webber para uma nova campanha mudaria o modo como o mundo veria a roupa interior masculina.
A foto mostrava um modelo encostado a uma chaminé branca e vestindo apenas umas cuecas brancas, de olhos fechados como que a sentir o calor do sol mediterrânico no seu corpanzil bronzeado. Além do bronze do corpo do modelo e do branco da chaminé e das cuecas, a outra cor em destaque é o profundo azul cobalto do céu. 



Dos outdoors gigantes em Times Square, às páginas de revistas e às montras das lojas, essa foto espalhou-se pela América e alterou duas ideias estabelecidas.
Uma delas foi a reinvenção da roupa interior masculina, até então sempre vista como um produto baratusco que se comprava aos packs, num objecto de luxo e status. Nos anos 80, em plena era de consumismo desenfreado, onde mais do que nunca, o status de alguém passava pelos produtos que se tinha e pelas marcas que se usava. E não tardou que um par de cuecas Calvin Klein fosse um desses must-haves para os americanos dos anos 80, ainda que um par custasse tanto ou mais que um pack de meia-dúzia de cuecas normais. 
Por exemplo, em "The 80's: The Decade That Made Us", a famosa série documental da National Geographic sobre os anos 80, Naomi Campbell dizia que quando começou a trabalhar como manequim em Nova Iorque, se havia coisa que os seus amigos em Londres pediam que ela lhes trouxesse de lá, eram cuecas Calvin Klein. E as ditas cujas acabariam por ser enraizadas na cultura pop no filme "Regresso Ao Futuro", quando a personagem de Michael J. Fox viaja ao passado e é acolhido pela família da sua mãe enquanto jovem e esta parte do princípio que ele se chama Calvin Klein porque era o que estava escrito nas cuecas que ele usava. 



A outra subversão provocada por essa fotografia foi a forma como pela primeira vez, pelo menos de forma tão mainstream, uma publicidade apresentava um homem como objecto de desejo sexual. O mundo da publicidade já há muito sabia da máxima "sex sells" e já era habitual haver campanhas que apostavam fortemente na sexualização das manequins intervenientes para vender fosse o que fosse. Mas essa campanha da Calvin Klein provou que a máxima também se aplicava revertendo os papéis, colocando um manequim masculino no lugar central, causando desejo nas mulheres e inveja nos homens. E escusado será dizer, além do status, havia também o factor sexual envolvido no objectivo de incitar a vontade de se ter umas cuecas Calvin Klein. Além disso, como o boom dos ginásios e do culto do corpo a ocorrer na mesma altura, ficou claro que para os homens, o sucesso já não passava somente pelo campo profissional mas também na manutenção de um bom aspecto físico.
A partir daí, o tabu da sexualização do homem na publicidade ruiu de vez e surgiram cada vez mais campanhas e anúncio publicitários onde a fasquia da masculinidade era elevada a alturas inacessíveis. Além de que a estética da fotografia foi alvo de várias reinterpretações para outras campanhas e produtos, como por exemplo nos anúncios aos bronzeadores Piz Buin. 

Mas quem era afinal o Adónis bronzeado da fotografia? O seu nome é Tom Hintnaus. E a sua história de vida não podia ser mais interessante.
Hintnaus era filho de dois cidadãos checos que decidiram escapar à opressão que começava fazer-se notar cada vez mais no sistema comunista, sobretudo pela rédea curta da União Soviética sobre as suas nações-satélite. Aproveitando o facto de ainda não haver muro de Berlim, Lubomir e Marianne Hintnaus conseguiram chegar à Alemanha Ocidental, pretendendo emigrar para os Estados Unidos. Mas na impossibilidade de viajarem directamente para os States, optaram por ir para o Brasil. E foi aí que nasceu o seu filho Tomás Valdemar, a 15 de Fevereiro de 1958. Dois anos mais tarde, a família mudou-se finalmente para a América, assentando arraiais na Califórnia. 
Foi aí que Tom Hintnaus desenvolveu aptidão para o desporto, acabando por se especializar no salto à vara. Em 1980, o seu progresso era tal que com 22 anos, parecia ter lugar indiscutível na equipa dos Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Moscovo. Só que ele seria um dos muitos atletas que viram os seus sonhos olímpicos destruídos pelo boicote liderado pelos Estados Unidos aos Jogos da capital soviética, em protesto contra à invasão de tropas da URSS no Afeganistão. Não obstante, Hintnaus prosperou nesse ano, sagrando-se campeão nacional do salto à vara e vencendo a mesma prova no Liberty Bell Classic, uma competição de atletismo para atletas dos países que boicotaram os Jogos Olímpicos de Moscovo que teve lugar em Filadélfia. 



Os sonhos olímpicos de Tom Hintnaus tiveram de ser adiados por mais quatro anos, mas para financiar a sua preparação, foi aceitando alguns trabalhos como manequim. E foi um desses trabalhos que o levou até à Grécia e à fotografia que lhe trouxe mais fama do que provavelmente uma medalha olímpica. 

Se na foto, parecia ser o homem mais confiante do mundo, no já referido documentário da National Geographic, Hintnaus admitiu que não podia estar mais nervoso na altura. Ele confessou ainda que quando viu um modelo sueco de longo cabelo louro a vestir com aquelas cuecas, o seu primeiro pensamento foi "Ainda bem que não sou eu!". Mas logo no instante seguinte, Bruce Webber decidiu que a foto resultaria melhor com um manequim moreno e ordenou que fosse Tom Hintnaus a vestir as ditas cuecas. Webber deitou-se todo no chão para conseguir o ângulo contrapicado da fotografia e o resto foi história.     

Mas apesar de todo o furor causado pela foto que protagonizou, Tom Hintnaus deu prioridade à sua carreira como atleta. Em 1983, optou por representar o Brasil, seu país de nascença, e foi de verde e amarelo que nesse ano foi quinto nos campeonatos do Mundo e ganhou a medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos. E foi pelo Brasil que por fim competiu nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, onde teve a infelicidade de não conseguir nenhum salto válido na final. No ano seguinte, em Zurique, Hintnaus fez a sua melhor marca pessoal, 5,76m, que permaneceu durante 22 anos como recorde sul-americano. 





Tom Hintnaus em 2007

Actualmente Hintnaus reside no Hawaii, onde está ligado à direcção desportiva e ainda compete no circuito de veteranos. Participou também num episódio da série "Hawaii Five-0". 



sexta-feira, 20 de maio de 2016

Festival da Eurovisão de 1996

por Paulo Neto

O Festival da Eurovisão deste ano já lá vai, mas por aqui vamos recuar vinte e anos e recordar a edição de 1996. O 41.º Festival da Eurovisão teve lugar a 18 de Maio de 1996 no Spektrum de Oslo na Noruega. Esta era portanto a segunda vez que a Noruega organizava o certame após a edição de 1986 em Bergen. Os apresentadores foram Ingvild Bryn e Morten Harket, o vocalista dos famosíssimos A-Ha, que na altura tinha lançado um álbum a solo. Aliás Harket cantou um dos temas desse disco no início do espectáculo.




Por esta altura, o Festival da Eurovisão já tinha aberto as portas ao países da Europa de Leste, o que causou o problema de um número excedente de países candidatos para um limitado número de vagas e era sempre complicado determinar quais eram os países que ficavam de fora, só podendo voltar a marcar presença no evento dois anos depois. Em 1996, a solução encontrada foi a de uma pré-eliminatória com 29 países, para determinar os 22 que se juntariam à anfitriã Noruega no Festival propriamente dito. Um júri de cada país ouviu gravações audio de todas as canções e pontuou conforme o habitual sistema da Eurovisão. Os sete países eliminados foram Alemanha, Dinamarca, Hungria, Israel, Macedónia, Roménia e Rússia. A eliminação da Alemanha foi a mais controversa pois não era um dos países que mais contribui financeiramente para a EBU como a sua canção, o tema techno "Planet Of Blue", era semelhante à do Reino Unido que se apurou confortavelmente. Particularmente infelizes foram também os afastamentos da Hungria que teve os mesmos pontos da Finlândia e eliminada apenas no desempate e da Macedónia que pretendia estrear-se no Festival nesse ano, algo que só aconteceu em 1998. Curiosamente, o tema da Macedónia era interpretado por Kalliopi, a cantora que representou esta antiga república jugoslava este ano.

Os países concorrentes presentes no Festival da Eurovisão de 1996 foram portanto Áustria, Bélgica, Bósnia-Herzegovina, Chipre, Croácia, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Estónia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Islândia, Malta, Noruega, Polónia, Portugal, Reino Unido, Suécia, Suíça e Turquia. Antes da actuação de cada país, era exibida uma mensagem de boa sorte de uma figura política - embaixadores, ministros, secretários de Estado e até primeiros ministros e Presidentes da República - do respectivo país. No caso de Portugal, foi o então primeiro ministro António Guterres a desejar boa sorte à nossa Lúcia Moniz. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Maria Margarida Gaspar.
Outra inovação deste ano foi o facto da parte da votações ter sido realizada num cenário virtual em "bluescreen".


Como é hábito, analisaremos as canções por ordem inversa à da classificação:

Jasmine (Finlândia)

Amila Glamocak (Bósnia Herzegovina)

Depois de ter passado résvés na pré-eliminatória, a Finlândia não conseguiu evitar mais um último lugar para a sua história, somando apenas 9 pontos. No entanto, acho que a canção finlandesa até nem era das piores. O tema "Niin kaunis on taivas" ("tão belo que é o céu") foi interpretado por Jasmine Valentin, que tinha raízes ciganas. No final da actuação, Jasmine atirou à assistência a rosa amarela que estava presa na sua guitarra.
Em 22.º lugar com 13 pontos ficou a Bósnia-Herzegovina que, apesar das dificuldades da guerra no país, já ia na quarta participação consecutiva no Festival. A Oslo levou a balada "Za nasu ljubav" ("pelo nosso amor") interpretada por Amila Glamocak, que tinha um look que fazia lembrar o da nossa Misia.

Regina (Eslovénia)
Antonio Carbonell (Espanha)

Um lugar acima com 16 pontos ficou (algo injustamente, digo eu) a Eslovénia. O tema "Dan najlpesih sanj" ("o dia do mais belo sonho") foi interpretado por Regina, nome artístico de Irena Jalsovec, que apresentou-se em palco com um vestido que revelava o seu estado de gravidez. Regina continua a ser uma das cantoras mais populares do seu país e tentou por diversas vezes voltar a representar a Eslovénia no Festival mas até agora sem sucesso.
Em 20.º lugar com mais um pontos ficou a Espanha, aquela que pessoalmente acho a mais fraca de todas as canções concorrentes (incluindo as eliminadas na pré-eliminatória). O tema "Ay que deseo!" foi escrito pelo conhecido grupo flamenco-pop Ketama mas a interpretação de Antonio Carbonell e sobretudo das cantoras do coro deixou muito a desejar. Não foi das escolhas mais felizes do nosso país vizinho.

L'Héritage des Celtes (França)
Marcel Palonder (Eslováquia)

A França optou por uma proposta étnica algo invulgar para a altura, com um tema cantado na língua bretã, "Diwanit Bugale" ("que as crianças floresçam") interpretado pelo colectivo L'Héritage Des Celtes, liderado por Dan Ar Braz, músico gaulês dedicado à música celta desde os anos 70. O colectivo, que incluía membros oriundos de França, Escócia e País de Gales, tinha conseguido algum sucesso com um disco de 1994. No Festival, obtiveram o 19.º lugar com 18 pontos.
Um lugar acima e com mais um ponto ficou a Eslováquia que participava pela segunda vez após a estreia em 1994. Marcel Palonder interpretou "Kým nás más" ("enquanto tiveres-nos a nós"), uma balada que evidenciava a musicalidade da língua eslovaca.

Kathy Leander (Suíça)

Lisa Del Bo (Bélgica)

Também pelo signo da balada se regeu a Suíça, com Kathy Leander, uma cantora que na altura repartia-se entre trabalhos como cantora e a profissão de bancária, a defender o tema "Mon coeur l'aime" ("o meu coração ama-o"), que ficou em 16.º lugar com 22 pontos. De referir que o director de orquestra da canção helvética era o português Rui Filipe Reis.
Os mesmos 22 pontos foram obtidos pela Bélgica que tinha uma das canções mais orelhudas, apesar de ser cantada em flamengo. Lisa Del Bo (de seu verdadeiro nome Renhilde Goosens) interpretou o tema "Liefde ist een kaarstpel" ("o amor é um jogo de cartas"). Dadas as semelhanças entre esta canção e a representante da Suécia no Festival de 2001, os autores da canção belga acusaram os da sueca de plágio. O processo foi resolvido com um acordo remuneratório entre ambas as partes.

Kasia Kowalska (Polónia)
Marianna Efstratiou (Grécia)

Na sua terceira participação, a Polónia ficou em 15.º lugar com 31 pontos. Kasia Kowalska interpretou a balada "Chce znac swój grzech" ("quero saber qual o meu pecado") mas infelizmente não esteve tão segura na actuação como na arrebatadora versão de estúdio. Ainda assim foi uma das minhas canções preferidas desta edição. Nos anos seguintes, Kasia Kowalska continuou a ser uma das cantoras mais bem-sucedidas do seu país. Em 1997, foi a voz de Esmeralda no filme da Disney "O Corcunda de Notre-Dame" e em 2001 ganhou o prémio MTV para melhor artista polaca.
Marianna Efstratiou voltou a representar a Grécia no Festival da Eurovisão em 1996, depois de já o ter feito em 1989. Mas se sete anos antes, ela se apresentara morena de cabelo curto, nesse ano surgiu com uma longa melena loura para cantar "Emeis forame to himona anixiatika" ("vestimos roupas de primavera no inverno"). Além de dois cantores de coro, durante a actuação também esteve em palco um bailarino de camisa transparente que por vezes interagia com Marianna, que no entanto parecia dar-lhe pouca atenção. A Grécia ficou em 14.º lugar com 36 pontos.

Anna Mjöll (Islândia)
Sebnem Paker (Turquia)

Anna Mjöll Oláfsdóttir foi a representante da Islândia, que obteve o 13.º lugar com 51 anos. O tema "Sjúbidu" (que é como quem diz "shoo-bee-doo") foi escrito por Anna e seu pai, um pianista de jazz, e na letra eram mencionados nomes como Louis Armstrong, Billie Holliday, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald, Frank Siniatra, Sammy Davis Jr, Elvis Presley e Dizzy Gillespie. Além de uma carreira no jazz, Anna Mjöll foi durante três anos cantora de coro nos concertos de Julio Iglesias.
A Turquia foi o primeiro país a actuar com a canção "Besinçi Mevsim" ("a quinta estação") interpretada por Sebnem Paker, que ficou em 12.º lugar com 57 pontos. Sebnem Paker voltaria a representar o seu país no Festival do ano seguinte com bem mais sucesso. Mas apesar do seu sucesso na música na altura, Sebnem acabaria por trocar as cantorias pelo ensino, sendo actualmente professora do ensino secundário.

Miriam Christine (Malta)
Georg Nussbaumer (Áustria)

Malta e Áustria repartiram o 10.º lugar com 68 pontos. Miriam Christine Borg, nascida no Brasil e adoptada por malteses da ilha de Gozo, então com 17 anos, foi a representante maltesa, defendendo o tema "In a woman's heart". Entre as vozes do coro estava Georgina Abela, que representara o país em 1991. A participação de Miriam Christine no Festival serviu para iniciar uma bem-sucedida carreira no seu país que se prolonga até hoje. Tal como a participante eslovena, também Miriam tentou por várias vezes regressar ao Festival mas por enquanto esta continua a ser a sua única participação no certame.
A Áustria levou um tema gospel "Weil's dr guat got" ("porque te sentes bem"), cantado no dialecto da região de Voralberg. Região essa de onde era originário o intérprete George Nussbaumer, que era invisual de nascença. (Até então o único outro cantor invisual a participar no Festival tinha sido o espanhol Serafin Zubiri em 1992). O tema e a interpretação de Nussbaumer faziam lembrar o repertório de Ray Charles.

Constantinos (Chipre)
Gina G. (Reino Unido)
Chipre ficou em nono lugar com 72 pontos graças a uma balada, "Mono yia mas" ("só para nós") interpretada por Constantinos Christoforou, então com 19 anos. Constantinos tomou-lhe o gosto e viria a representar Chipre mais duas vezes, em 2002 com membro da boyband One e em 2005 novamente a solo. No Festival da Eurovisão de 2016, ele foi o porta-voz dos votos da Grécia.
Em oitavo lugar com 77 pontos ficou o Reino Unido, tido como o principal favorito. Era a primeira vez que um tema euro-dance competia no Festival, "Ooh...Ah...Just a little bit" interpretado pela australiana Gina G. que surgiu em palco num vestido mirrorball. O resultado ficou aquém das expectativas, apesar de Portugal ter dado 12 pontos. Ainda assim, o tema foi o mais bem-sucedido comercialmente, tendo chegado ao n.º 1 do top britânico e até alcançou algum sucesso nos Estados Unidos onde foi nomeado para um Grammy. Gina G. teve mais um punhado de singles no top britânico nos meses seguintes e em 2005 competiu na pré-selecção do Reino Unido para o Festival desse ano.

Maxine & Franklin Brown
Lúcia Moniz (Portugal)

A Holanda obteve o sétimo lugar com 78 pontos, com o dueto entre Maxine e Franklin Brown, nomes pelos quais eram conhecidos os cantores Goony Burmeester e Franklin Kroonenberg. O tema "De eerste keer" ("a primeira vez") soava um bocado demodé (não destoaria no Festival de 1986) mas era compensado pela boa disposição e profissionalismo dos dois intérpretes, apesar da grande diferença de alturas entre os dois.
E ei-nos chegado a Portugal que nesse ano conseguiu aquele que até hoje o nosso melhor resultado de sempre. (Que tristeza que em mais de 50 anos de participação nem sequer termos um top 5 para a mostra, mas pronto...) Confesso que queria gostar mais deste canção do que eu realmente gosto e que há várias canções portuguesas da Eurovisão de que gosto bem mais, mas reconheço-lhe o devido valor. "O meu coração não tem cor" tinha letra de José Fanha e música e orquestração do saudoso Pedro Osório e foi exemplarmente interpretado por Lúcia Moniz, na altura ainda com 19 anos e sem ainda adivinhar a sua extremamente bem-sucedida carreira tanto como cantora como actriz. A curiosa fusão  entre o folclórico e o moderno e a seguríssima actuação em Oslo por parte não só de Lúcia (que também tocava cavaquinho) como também dos cantores do coro (Laura Ferreira, Fernanda Lopes, Telmo Miranda e Manuel Lourenço) acabou por convencer a Europa, que deu a Portugal um total de 92 pontos, incluindo doze pontos Chipre e Noruega. Nesse ano, surgiram também as primeiras experimentações de efeitos durante as actuações, que no caso de Portugal consistiram em converter o ecrã a preto e branco, sempre que Lúcia Moniz cantava "o meu coração não tem cor."

Maarja-Liis Ilus & Ivo Linna (Estónia)
Maja Blagdan (Croácia)

A Estónia estreou-se no certame de forma discreta em 1994, mas logo na sua segunda participação alcançou um excelente quinto lugar com o tema "Kaelakee hääl" ("o som de um colar") cantado em dueto por Maarja-Liis Ilus e Ivo Linna. Apesar da diferença de idades (ela tinha então 16 anos e ele 46), as vozes de ambos combinaram bem na balada romântica que obteve 94 pontos. Maarja voltou a representar o seu país no ano seguinte, mas desta vez a solo.
O quarto lugar (98 pontos) da Croácia foi algo surpreendente. até porque foi das canções que se apurou por pouco na pré-eliminatória, mas a interpretação de Maja Blagdan em "Sveta ljubav" ("amor sagrado"), que incluía notas impossivelmante agudas a la Mariah Carey causou impacto. Ainda hoje é o melhor resultado deste país, apenas igualado em 1999.

One More Time (Suécia)
A canção da Suécia, que foi a mais votada na pré-eliminatória, ficou em terceiro lugar com 100 pontos. O grupo One More Time interpretou o tema "Den Vilda" ("o selvagem"), uma primorosa balada de contornos étnicos e de fortes arranjos vocais. Um dos elementos de grupo, Peter Grönvall, é filho de Benny Andersson dos ABBA, fruto do primeiro casamento deste com Christina Grönvall, (antes da relação com Anni-Frid Lynstaad). A esposa de Peter, Nanne Grönvall, iniciou uma popular carreira a solo na Suécia após a dissolução do grupo em 1997.  

Elisabeth Andreasen (Noruega)
Elisabeth "Bettan" Andreassen, a representante da Noruega, o país-anfitrião, era uma veterana nestas andanças eurovisivas, pois já ia na sua quarta participação, embora a primeira a solo. Em 1982, representou a Suécia como metade do duo Chips, em 1985 venceu pela Noruega integrando outro duo feminino, as Bobbysocks, e em 1994 esteve novamente pela Noruega em dueto com Jan Werner Danielsen. Nascida na Suécia e filha de pais noruegueses, Bettan possui dupla nacionalidade e sempre dividiu a carreira entre os dois países. Graças ao tema "I evighet" ("para a eternidade") e apesar de não ter tido quaisquer doze pontos, a Noruega conseguiu o segundo lugar e 114 pontos.

Eimear Quinn

Mas pela quarta vez em cinco anos, a Irlanda acabaria por ser o país vencedor, alargando para sete o seu número de vitórias, o que ainda constitui um recorde. E para mim, esta terá sido a vitória mais merecida da Irlanda dos seus quatro triunfos dos anos 90. Com "The Voice", um tema com forte influência celta, e a voz angelical de Eimear Quinn, a Irlanda amealhou 162 pontos, vencendo de forma clara. Até então membro do grupo coral Anúna, esta canção marcou o início da carreira a solo de Quinn, que desde então tem actuado um pouco por todo o mundo.

Se hoje praticamente todos os países apostam em canções cantadas em inglês, não deixa de ser interessante recordar estes tempos onde o Festival da Eurovisão tinha canções em tantas línguas diferentes, ainda para mais nesta altura onde se descobria a musicalidade dos idiomas leste-europeus

A delegação irlandesa comemora a sua vitória


Festival da Eurovisão 1996 (comentários em dinamarquês):



   

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Faça Você Mesmo - Revista (1979)



Numa época que a Internet está inundada de vídeos e blogs de DIY (Do It Yourself - Faça Você Mesmo) é interessante ver a publicidade a uma revista dos anos 70 dedicada ao tema: "Faça Você Mesmo". Junto ás ilustrações para tentar o artesão dentro de cada leitor, o cupão de assinatura (420$ para um ano).
"A revista que o ajuda a: remodelar, pintar, decorar, construir, arranjar...e muito mais."


Publicidade retirada da revista Revista Jovem, Série 2, Nº 14, de 1979. 
Uploader original desconhecido. Imagem Editada por Enciclopédia de Cromos.

Só consegui encontrar online uma imagem da capa da revista "Faça Você Mesmo" Nº 4:



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terça-feira, 17 de maio de 2016

Trainspotting (1996)

por Paulo Neto

Os anos 90 assistiram a uma revitalização do cinema europeu, com várias obras produzidas no Velho Continente a reunir grande aceitação do público, pois nem só de películas hollywoodescas vive o cinéfilo. No caso do cinema britânico, foi quase um renascer das cinzas depois de uma série de flops na segunda metade dos anos 80 ter ameaçado a indústria cinematográfica britânica.



E entre os títulos marcantes do cinema made in UK da década de 90 está sem dúvida "Trainspotting", que depressa ganhou o estatuto de filme culto, daqueles que marcou toda uma geração. Estreado no ano de 1996, o filme era realizado por Danny Boyle, adaptando o livro de 1993 de Irvine Welsh.




O filme narra as aventura e desventuras de um grupo de toxicodependentes de Edimburgo no início dos anos 90: Mark Renton (Ewan McGregor) o narrador, o adorável imbecil Spud (Ewen Bremner), o vigarista Sick Boy (Jonny Lee Miller) e Begbie (Robert Carlyle) que não consome droga mas em compensação é um psicopata que adora brigar com quem se cruza no caminho. A eles também se junta Tommy (Kevin McKidd), o amigo desportista e certinho de Renton, que também cai na droga depois ser deixado pela namorada. A personagem feminina com mais destaque é Diane (Kelly MacDonald), uma rapariga de 15 anos que seduz Renton numa saída à noite fazendo passar-se por mais velha e que depois chantageia-o com isso.


Entre desintoxicações e recaídas e uma série de acontecimentos trágicos - uma quase morte por overdose, a morte de uma bebé filha de Alison (Susan Vidler) uma toxicodependente amiga do grupo e a infecção de Tommy com o vírus HIV - Renton decide deixar a Escócia e começar uma nova vida em Londres. Mas o passado apanha-o quando o resto do grupo ocupa o seu apartamento e força-o a alinhar na venda de uma grande quantidade de heroína. Só que no final, será Renton a rir por último.


Entre as cenas mais marcantes do filme, estão a do mergulho para a sanita da casa de banho mais nojenta da Escócia (na verdade aquele cocó era chocolate), a do ataque laxativo de Spud em casa de uma rapariga com quem passou a noite e a alucinação de Renton com a referida falecida bebé  a trepar pelo tecto.



Com um humor negríssimo, uma excelente fotografia, uma realização acutilante de Boyle e sobretudo grandes interpretações de todo o elenco, "Trainspotting" conquistou público e crítica. O argumento, adaptado por John Hodge, ganhou o BAFTA de Melhor Argumento Adaptado e foi nomeado para o Óscar. O British Film Institute elegeu-o o 10.º melhor filme britânico de sempre e uma votação pública de 2004 como o melhor filme escocês de sempre.

Eu só vi "Trainspotting" em 2007. Tinha curiosidade para o ver desde a sua estreia, mas também tinha receio pois acho que o meu eu de 16 anos ficaria demasiado impressionado. Por isso foi o meu eu de 27 anos que viu "Trainspotting" soube apreciá-lo melhor. Gostei sobretudo do facto como à superfície parece fazer a apologia da droga já que as personagens referem frequentemente a forte sensação do "high" que a heroína provoca ("pensem no melhor orgasmo que já tiveram, multipliquem por vinte e ainda estarão a milhas do que é") e pelo facto do filme não julgar as personagens por consumirem droga por si só mas sim por outros actos que cometem (tráfico, roubos, violência, negligência), mas acaba no fundo por ser bastante anti-droga, deixando transparecer subtilmente toda a degradação e destruição que provoca em quem consome. Além da droga, o filme também foca a exploração da pobreza urbana na Escócia.



"Trainspotting" acabou por catapultar o realizador e os actores, então praticamente desconhecidos, para outros níveis. Quando Ewan McGregor deu por si, já tinha Hollywood a seus pés. Danny Boyle passou a ser realizador de topo conquistando a glória máxima com "Quem Quer Ser Bilionário". Robert Carlyle protagonizou outro inesperado sucesso britânico dos anos 90, "Ou Tudo Ou Nada", e foi o vilão em "007-O Mundo Não Chega". Ewen Bremner foi visto em "Sntach - Porcos & Diamantes", "Black Hawk Down", "Pearl Harbour" e "Alien vs. Predador". Kevin McKidd é agora conhecido como Dr. Owen Hunt de "Anatomia de Grey". Jonny Lee Miller entrou em filmes como "Dracula 2000"  e "Aeon Flux", deu cartas na televisão em "Eli Stone" e "Elementar" e foi o primeiro a quem Angelina Jolie chamou de marido. Kelly MacDonald que se estreava em cinema neste filme entrou em filmes como "Elizabeth", "Godsford Park", "À Procura da Terra do Nunca", "Este País Não É Para Velhos" e no tomo final da saga Harry Potter, além de ter sido a voz original da Princesa Merida no filme "Brave".



Outro aspecto em que "Trainspotting" venceu foi na banda sonora, que produziu dois discos campeões de vendas, que incluíam temas de Blur, New Order, Brian Eno, Primal Scream, Lou Reed, Elastica e Joy Division. Mas as duas canções mais marcantes da banda sonora de "Trainspotting" foram sem dúvida aquelas que respectivamente abrem e fecham o filme: o trepidante "Lust For Life" de Iggy Pop, um original de 1977 composto em parceria com David Bowie, que o filme apresentou a uma nova geração e que toca enquanto Renton diz o seu famoso monólogo "Choose Life"; e "Born Slippy" dos Underworld que se tornaria um dos êxitos das pistas de dança do verão de 1996 e que pôs muita gente a gritar a plenos pulmões "lager lager lager" ou "mega mega white thing".

Trailer:


Iggy Pop "Lust For Life"


Underworld "Born Slippy.NUXX"





A sequela de "Trainspotting" encontra-se actualmente em rodagem e tem estreia para Janeiro de 2017.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Iogurte Longa Vida (1980)


Publicidade de 1980 aos iogurtes da Longa Vida. "O que é bom da natureza.".

O blog "Ainda Sou do Tempo..." tem uma imagem retirada de uma melhor impressão: "...dos Iogurtes Longa Vida" .

Publicidade retirada da revista Almanaque do Patinhas Nº 6, de 1980. 
Uploader original desconhecido. Imagem Editada por Enciclopédia de Cromos.


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terça-feira, 10 de maio de 2016

Chuva de Maio (1990)

por Paulo Neto

Os dias chuvosos deste mês  de Maio fizeram-me recordar a série "Chuva De Maio", exibida na RTP em seis episódios entre Abril e Junho de 1990. Foi um daqueles programas do tempo do monopólio da RTP que eu nunca esqueci, quiçá pelo facto de aliar o drama telenovelesco a números musicais, algo relativamente inédito na altura e porque desde sempre tive esta fantasia de soltar o Gene Kelly que há em mim e começar a cantar e a dançar num sítio qualquer e todas as pessoas à minha volta também juntam-se para o número. A série também tinha a particularidade de ter um elenco que juntava actores conhecidos a nomes fora do mundo da representação, como era o caso dos protagonistas, o fadista António Pinto Basto e a bailarina Sandra Nobre.



António Pinto Basto (Rodrigo) e Sandra Nobre (Mariana)

A série era da autoria do bailarino e coreógrafo Zé Arantes, escrita em parceria com Rosa Lobato Faria a partir de uma ideia de Thilo Krassmann. A história podia ser a de uma típica telenovela não fosse o facto em vários momentos, as personagens desatassem a cantar e a dançar.

Sofia Brito (Sara)
Carmen Dolores (Teresa)
Norberto de Sousa (Fernando)
Ana Luís (Joana)
Rodrigo Freitas (António Pinto Basto) é um decorador de interiores numa fase muito complicada: está desempregado, sente-se culpado pela morte da sua esposa Marta (Maria João Lucas) num acidente de automóvel há um ano, e Sara (Sofia Brito), a sua filha de dez anos, tornou-se uma fedelha insuportável e revoltada desde a morte da mãe. A gota de água surge quando Sara maltrata Joana (Ana Luís), uma bailarina com quem Rodrigo tem saído. Desesperado e com o apoio do seu amigo Fernando (Norberto de Sousa), Rodrigo leva Sara para passar uns tempos a casa da sua mãe Teresa (Carmen Dolores), na esperança que a paciência e a sabedoria ajudem a arrefecer o temperamento da neta.

Curado Ribeiro (João)
Laura Soveral (Malú)
João Baião (Miguel)

Mariana Mendes Sobral (Sandra Nobre) vive numa herdade no Alentejo, com os pais João (Curado Ribeiro) e Malú (Laura Soveral) e os seus quatro irmãos: Eduardo (Alfredo Azinheira), Miguel (João Baião) e dois gémeos (André e Eduardo Parente). Cansada da autoridade excessiva do pai, Mariana resolve fugir de casa a meio da noite rumo a Lisboa. Mas pelo caminho, sofre um acidente do qual Rodrigo é testemunha.
Teresa Miguel (Naná)
Margarida Carpinteiro (Mariazinha)
Zé Arantes (Luís Filipe) e Sandra Nobre (Mariana)

Mariana e Rodrigo não demoram a apaixonar-se um pelo outro. Quando João descobre através de um detective (Carlos Santos) sobre o romance dos dois, contrata Naná (Teresa Miguel), uma antiga amante sua que é cantora de cabaret, para seduzir Rodrigo e afastá-lo de Mariana. Tal acaba por acontecer, mas ao saber que Mariana é filha de João, Naná revela tudo a Rodrigo. Enquanto isso, Mariana muda-se para casa da sua tia Mariazinha (Margarida Carpinteiro), uma mulher excêntrica, com vários amigos do meio artístico com os quais Mariana simpatiza imediatamente, em especial Luís Filipe (Zé Arantes). 
Entretanto, Miguel também revolta-se contra o pai e vai para Lisboa, arranjando emprego como assistente de Rodrigo num projecto de renovação de um hotel e acabando por se apaixonar por Joana. 

No final, tudo acaba bem. Mariana e Rodrigo fazem as pazes e marcam casamento. Após um percalço, Sara aceita Mariana. Durante o casamento, João aparece dando a bênção à filha e ao genro. E no fim, todos dançam sob a chuva de Maio que abençoa a boda.

Ao rever "Chuva De Maio" na RTP Memória, confirmei a sensação que tinha tido ao longo de estes anos sobre a serie: que em teoria era uma boa ideia mas que na prática foi um resultado sofrível. Não só o argumento era fraquinho como as interpretações eram demasiado básicas, até as dos nomes mais credenciados como Curado Ribeiro e Margarida Carpinteiro. Embora na altura António Pinto Basto tivesse toda a pinta de um galã de telenovelas, a sua prestação na série deixou bem claro que o melhor era dedicar-se apenas aos fados.


Participações especiais de Rosa Lobato Faria, Felipa Garnel, Joel Branco e Michel


Patrícia Tavares estreou-se em televisão em "Chuva De Maio" no papel de Fátima

Como já foi dito, o elenco da série tinha muitos nomes fora do mundo da representação como era o caso de Sandra Nobre, do autor Zé Arantes (que para além do argumento e do papel de Luís Filipe, foi também director de actores e das coreografias), da ex-Doce Teresa Miguel e de Sofia Brito, que na altura fazia parte dos Onda Choc. Além disso, também contou com cameos de Rosa Lobato Faria, Joel Branco, Patrícia Tavares (então com 12 anos), Felipa Garnel e do acordeonista e sapateador  Michel de Roubaix, conhecido apenas por Michel. Todos os actores deram a sua voz às canções, excepto Sandra Nobre que foi substituída por Paula Oliveira. Por tudo isto, "Chuva De Maio" valeu mais pelo que foi cantado e dançado do que pelo que foi representado.

Segundo o site "Brinca, Brincando", de onde vêm estas imagens, as cenas íntimas e o seu contexto terão gerado alguma controvérsia. Sandra Nobre referiu a uma revista que a sua mãe estranhou o facto de Rodrigo e Mariana terem ido para a cama pouco depois de se conhecerem. Pelos vistos, algo ainda puxado para o Portugal de 1990.



Os pouquíssimos excertos que existem no YouTube estão relacionados com a personagem de Teresa Miguel.




Há ainda este curtíssimo excerto de uma cena entre Curado Ribeiro e João Baião:




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