segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Blocos Publicitários RTP1 (Fevereiro 1983)

Tal como há uns tempos atrás decidi não esperar pelo mês certo para analisar uns incríveis blocos publicitários da RTP de Julho de 1985, também não quis esperar até ao próximo mês de Fevereiro para esmiuçar três blocos publicitários da RTP1 do dia 23 de Fevereiro de 1983 (quarta-feira), emitidos durante a exibição do filme "O Voo Da Águia". 

1983 é o ano de que tenho as minhas memórias mais remotas de televisão, mas eu não me lembro de nenhum destes anúncios (embora me recorde de outros anúncios de algumas destas marcas), até porque na altura eu nem sequer tinha ainda completado três anos de andar cá neste mundo. Mas é engraçado ver como até comparado com os blocos de publicidade mais à frente nos anos 80, já existem algumas diferenças notórias, nomeadamente os bumpers entre anúncios que creio que desapareceram com a génese da RTC ainda nesse ano. Uma vez mais, o meu agradecimento ao canal PT Vault e ao acervo de Afonso Gageiro por disponibilizarem estes vídeos no YouTube.  



0:00 Breve excerto do filme e vinheta da RTP1 (uma das muitas ao longo dos anos 80).
0:08 Ao som de música dramática, um jovem executivo entra numa sala de reuniões e depara-se com uns homens mais velhos lá presentes, cada um com o seu drink. Mas ele não se deixa intimidar e afirma confiantemente: "Eu trabalho e bebo Sumol!". E diz que havia uma coleção de autocolantes. 
0:29 Foi mais ou menos por esta altura que os empreendimentos turísticos no Algarve começavam a brotar que nem cogumelos. Este anúncio anunciava a construção dos Apartamentos TénisGolfMar em Vilamoura
0:37 A revista TV Guia tinha então quatro anos de existência, e na altura tinham uma spin-off gastronómica, a TV Guia Culinária. Além das típicas imagens de uma típica dona de casa às voltas na cozinha, existe a aparição do saudoso Chef Michel a dizer que cada receita havia sempre um ou mais aproveitamentos. Havia ainda uma capa para guardar todas as fichas. 
0:58 A Nacional sempre foi mais conhecida pelas suas massas e bolachas, mas também tem a sua própria farinha que ainda hoje é produzida: a Farinha Rainha, a qualidade que faz crescer.
1:06 Eis que começa a minha ronda de perguntar: "Esta marca/produto ainda existe?" Neste caso, o verniz Cibelle
1:15 Um simpático anúncio animado à Metrópole Seguros, actualmente Zurich. Uma instituição que me é particularmente marcante pois o meu pai trabalhava nela como perito avaliador e foi lá que tive a minha primeira experiência laboral, estagiando nos escritórios da delegação de Torres Novas.
1:35 O Totobola já existia há mais de vinte anos e com o Totoloto ainda a dois anos de aparecer, ainda reinava como o bastião dos jogos de apostas. Nessa semana, e como era habitual em tempo de competições europeia, havia dois concursos. Logo no primeiro still do anúncio, a inconfundível figura de Diego Maradona. 
1:44 Pode nunca ter sido tão popular como outras marcas, quer na vertente gaseificada, quer na lisa, mas a Água do Cruzeiro, capturada na Vacariça, concelho da Mealhada, ainda está aí. Neste anúncio, um senhor impede um faux pas no seu drink ao exigir Água do Cruzeiro, pois só ela "respeita a sua bebida". 
2:06 Para a mulher activa dos eighties, como esta do anúncio, uma jornalista que dá um pulo entre Lisboa e Paris, o desodorizante-colónia Vida Activa!
2:20 Vim lembra aquele detergente em pó com cheiro a limão para limpar banheiras e outras cerâmicas, mas na altura também tinha o seu limpa-vidros. E venha de lá o eterno gag dos vidros tão limpos que alguém não dá por eles e bate de frente.  
2:29 Ele há coisas que parecem que existe desde que o mundo é mundo, mas afinal só surgiram (pelo menos em Portugal), quando eu já era nascido. É o caso de sabonete líquido, que hoje em dia já quase obliterou os sabonetes em barra, mas que em 1983 era uma novidade do outro mundo. E a primeira marca de sabonete líquido que me lembro era a Soft Sense. É cremoso! É prático! É suave! 
2:50 Estou em crer que eu fui um dos últimos portugueses que em bebé nunca soube o que era ter fraldas descartáveis no rabo, somente fraldas de pano - algumas das quais transitariam para o meu irmão, (se bem que agora alternadas com descartáveis). Não sei se em 1983 já havia as imbatíveis Dodot e Ausónia, mas havia as fraldas Johnson's. Neste anúncio, uma mãe com um choroso e húmido bebé aconselha-se que uma empregada da farmácia que lhe recomenda fraldas Johnson's, não faltando sequer um teste tipo "Estão a ver? Só as nossas é que são boas, o resto é porcaria!".    
3:21 Esta marca ainda existe? #2: Recordo-me de ver anúncios e produtos no supermercado da Harpic para limpar sanitas, mas já faz largos anos que nunca mais ouvi falar. Já agora, bem engraçado o jingle deste anúncio ao Harpic Líquido
3:36 Neste anúncio ao perfume Marlene, uma beldade azul atrai vários olhares masculinos, sobretudo o do Clark Kent que se apressa a abrir-lhe a porta de um carro.
3:58 Num supermercado, três senhoras (uma das quais nada menos que Marluce, a primeira mulher de Carlos Cruz e mãe de Marta Cruz) explicam porque preferem o leite em pó Nido da Nestlé. O Nido ainda se vê por aí nas lojas, embora não seja anunciado na TV desde 1980 e carqueja.  
4:18 Quando ainda se estava a uns anos do desabrochar das caixas Multibanco, o Crédito Predial Português disponibilizava extractos semanais para os clientes manterem as contas em dia. Fundado em 1864, o CPP viria a ser adquirido em 1992 pelo Banco Totta & Açores, hoje parte do Grupo Santander. 
4:34 O saudoso Artur Agostinho neste anúncio do concurso das bodas de prata da Verbo Postal com 10 mil contos em prémios, incluindo um andar no Algarve e outro em Queluz! (Já agora, sabiam que Queluz é a maior cidade europeia que começa com a letra Q?)
5:03 Um anúncio animado da EDP alertando para os diversos perigos que podem ocorrer ao lidar com os postes e cabos de alta tensão. 
5:33 Com tudo o que umas mãos fazem e por onde passam, convém tratar delas, de preferência com o creme Atrix!


 

0:00 Excerto do filme e vinheta RTP 1
0:12 Nesse eterno confronto de cervejas nacionais que é Sagres vs. Super Bock, é fácil esquecer que também havia e há a cerveja Cristal e que também ela era digna de alguns anúncios épicos como este com uma gaivota a pairar sobre o mar e uns pescadores de barba rija.
0:33 Uma das múltiplas variações dos desodorizantes Impulse com o lendário bordão "E se de repente um desconhecido lhe oferecer flores, isso é Impulse!" (Porém à luz dos tempos actuais, dir-se-ia antes que isso é stalking!)
0:54 Um curtinho mas assertivo anúncio ao vinho verde Grinalda
1:02 Se em 1983, ter uma máquina de lavar roupa ainda podia ser considerado um luxo para uma extensa parte da população portuguesa, uma máquina de lavar loiça era um completo luxo. (Em minha casa, só tivemos uma para aí em meados/finais dos anos 90.) Mas já na altura, em pó ou líquido, Sun era a marca líder nos detergentes para máquinas de lavar loiça
1:24 O lendário Fernando Pessa a dar voz a um anúncio aos relógios Pulsar Quartz. E esta, hein?
1:35 E de repente, um zapping para a RTP2 no programa "Hoje Convidamos" para ver o Duo Ouro Negro a cantar o seu incontornável hit "Vou Levar-te Comigo". Infelizmente Milo MacMahon estaria apenas mais dois anos neste mundo antes de falecer em 1985 com somente 46 anos. 
2:01 Depois deste zapping, voltamos aos anúncios desta vez a uma colecção de livros da História de Portugal, dirigida por - who else? - José Hermano Saraiva.
2:23 Há pouco falávamos em stalking, e eis mais algum desta vez por parte de um repórter de farfalhudo bigode que surpreende uma senhora num supermercado a pegar numa caixa de Omo. Uma semana depois, eis o repórter no quintal da senhora onde, como não podia deixar de ser, ela elogia a brancura do Omo. 
2:44 E eis agora uma sugestão culinária da Maggi, um lombo fingido feito com as sobras de carne!
3:14 Nunca ouvi falar desta marca de pasta de dentes. E com um nome como Binaca, é fácil de perceber porque é que não vingou, pelo menos por cá.  
3:24 Um anúncio animado às carrinhas Nissan Ebro, cujo baixo consumo de gasóleo leva uma bomba às lágrimas!
3:43 Uma modelo de longos cabelos com ar de que saiu de um filme de ficção científica dos anos 70 protagoniza este anúncio ao Glassex Multiusos, que manobra como se de uma pistola laser se tratasse.
3:59 Zenite, a zénite das torneiras! E que dizer do magnífico bigode do canalizador?  
4:08 Uma barba tão bem feita que a cara-metade fica louca para encostar o rosto? Provavelmente usou  Schick Pivot.
4:39 Coisas que  que parecem que existe desde que o mundo é mundo, mas afinal só surgiram quando eu já era nascido #2: a garrafa de litro e meio da água do Luso! Pelos vistos, nos idos de 1983, isto foi uma grande novidade. 
4:54 E eis aqui a principal razão pela qual quis analistas estes blocos publicitários. A McDonald's só chegaria a Portugal em 1991, mas já nos anos 80 havia algumas hamburguerias no país. O que eu não sabia é que em 1983 havia uma cadeia de fast food portuguesa ao estilo daquelas que se conhecem hoje em dia, como se vê aqui neste anúncio do Max Burger, que anunciava "um novo estilo de vida e de alimentação: rápida, económica e de qualidade" e que tinha restaurantes em Lisboa, Porto e Cascais e que tencionava abrir em breve mais. O que terá acontecido ao Max Burger? Este tópico no fórum "A Televisão" dá algumas pistas, como por exemplo um autocolante que indica que um dos restaurantes em Lisboa era na Avenida Guerra Junqueiro, mas sem chegar a grandes conclusões. Outro vídeo do PT Vault, de um bloco publicitário de 14 de Março de 1983 contém outro anúncio do Max Burger mais curto.   
5:10 Um anúncio fofucho dos produtos Mustela, especializados nos cuidados com bebés.
5:30 Novamente o anúncio da EDP sobre os perigos dos cabos e postes de alta tensão. 



0:00 Imagem da actriz Jean Marsh em apuros no filme "O Voo Da Águia" e vinheta RTP1.
0:09 Royal Label Black, o whiskey que prolonga os bons momentos! 
0:23 Os anos 80 foram um auge para os achocolatados e entre eles estava Milo, que se tentava vender como um alimento para os grandes atletas. O Milo andou um pouco desparecido mas para aí para os finais dos anos 2000, já recomecei a ver nos supermercados. 
0:44 Em termos de produtos de higiene íntima feminina, Dystron (em casa líquido, fora de casa e no trabalho em toalhetes) é a marca mais célebre. Mas havia outras como Aseptal. No entanto este aparentemente inocente e singelo anúncio em que uma mulher vai à porta da casa de uma adolescente para lhe entregar uma embalagem de Aseptal deixou-me cheio de interrogações. Uma vez que neste país, e ainda para mais em 1983, assuntos desta natureza sempre foram abordados com algum secretismo, imaginei que esta entrega foi feita pela calada. ("Estou, Dona Idalina? É a Carla Patrícia do terceiro esquerdo. A minha mãe foi às compras e estou agora sozinha, podia vir aqui entregar-me o Aseptal que lhe pedi sem dar nas vistas?) E depois o que quereriam dizer com o slogan "para a mulher desinibida"? Não sei porquê acho que na altura "desinibida" podia ser dita como insulto. ("Carla Patrícia, que conversas andas a ter com a desinibida da Idalina?")
0:53 O brilho luminoso do Ajax Amónia é tal que esta dona de casa até tem de usar óculos de sol!
1:24 Um anúncio apenas feito com stills para a bagaceira Aveleda
1:47 Imagine que havia na sua casa uma mão habilidosa como a Thing da Família Addams, mas que a sua única função é colar, um pouco por todo o lar, ambientadores Stick Up da Airwick
2:16 Citizen Quartz bracelete, "o relógio certa para a mulher certa". 
2:24 Diz uma jovem mulher numa pastelaria: "Com Magos, hmmm, o lanche sabe melhor!". Mas desconfio que um vinho espumoso e um pastel de nata não seja  a combinação ideal para um lanche. 
2:32 Um bastante dramático anúncio do dentífrico Dentagard sobre o que pode acontecer às gengivas sem a devida higiene oral. Curiosamente, na altura a marca não apostava no seu célebre leitmotiv de ser feito à base de extractos de plantas como nos seus anúncios posteriores.
3:03 Neste anúncio, vários automóveis levantam o seu capot para receber Castrol GTX
3:34 Ao que parece, a figura-mascote dos vinhos do Porto Sandeman, um vulto masculino de chapéu de aba larga e grande capa, terá causado pesadelos a alguns petizes. Mas por acaso nunca me intimidou, e eu até efabulava que seria uma espécie de Zorro vinícola. Em 2017, numa excursão à Invicta, visitei as caves Sandeman e a guia usava o mesmo traje. 
3:44 Uma versão mais curta do anúncio do Soft Sense
3:51 As edições Europa-América apresentam uma coleção de livros subordinada ao tema Guerra E Espionagem
4:07 Ainda existe esta marca #3? Desodorizantes Limara. "Mulher em ritmo novo!"
4:27 A sua encarnação em farinha láctea será mais célebre, mas a Pensal também sempre existiu em paralelo em bebida de cevada solúvel e ainda hoje, a minha mãe aprecia a sua xícara. 
4:43 E eis outra preciosidade? O trailer da estreia cinematográfica em Portugal de "Blade Runner - Perigo Iminente", com a inconfundível voz de João David Nunes! (Mais o inevitável "Sexta-feira estreia em Lisboa!") O lendário filme de ficção científica de Ridley Scott protagonizado por Harrison Ford não tardaria a ser uma das maiores referências do género e rapidamente tornou-se um filme muito cultuado por várias gerações de cinéfilos. (Confesso que nunca vi!) E que estranho pensar que em 1983, o ano de 2019 estava tão longínquo que podia muito bem ser como a visão imaginada no filme e agora 2019 já começa a ser uma memória meio distante!  
4:58 Com Novycera, "chão encerado, chão lavado!" 
5:07 "Malhas Jagar, malhas para homem e senhora, um produto Costex." Engraçado o logótipo ser uma estilização daquelas bicicletas antigas com uma roda bem maior que a outra.
5:19 Promo para o programa "1.ª Página" com uma entrevista a Francisco Lucas Pires (1944-1998), então Ministro da Cultura e da Coordenação Científica do governo liderado por Francisco Pinto Balsemão. Lucas Pires seria posteriormente líder do CDS e deputado no Parlamento Europeu.
5:59 Por fim, um momento de locução de continuidade, onde Margarida Andrade (mais tarde Mercês de Melo) anuncia que no dia seguinte seria exibida a terceira parte de um concerto de James Last e referia a morte da personagem de Larry Hagman (obviamente referenciado como o JR do "Dallas") no filme que estava a ser exibido. 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

EDtv (1999)

Há uns tempos, relembraram-me deste filme no grupo de Facebook Saudade Nostálgica (que recomendamos que passem por lá e digam que vêm da nossa parte - não sem antes seguir também a Enciclopédia de Cromos no Facebook, claro está!) e a opinião generalizada foi a de que é um filme algo subvalorizado, em parte devido às circunstância em que saiu.

De vez em quando acontece que Hollywood produz dois filmes de temas semelhantes num curto espaço de tempo, algumas vezes intencionalmente (como os dois filmes sobre Cristóvão Colombo que saíram em 1992), outras vezes nem por isso (por exemplo, "AntZ" e "Vida de Insecto" ou "Impacto Profundo" e "Armageddon"). E foi o caso de dois filmes sobre um homem cuja vida é seguida 24 horas por dia através da televisão: "The Truman Show - A Vida Em Directo" em 1998 e "EDtv" em 1999. 




Apesar do sucesso de "The Truman Show", que provou que Jim Carrey tinha mais talento do que se lhe dava crédito (que crime não ter sido sequer nomeado para um Óscar), "EDtv" também tinha os seus argumentos, como um realizador consagrado e experiente em Ron Howard, um bom elenco com nomes como Matthew McConaughey, Woody Harrelson, Ellen DeGeneres, Jenna Elfman, Sally Kirkland, Martin Landau, Dennis Hopper, Rob Reiner e Elizabeth Hurley, e uma premissa que se veio a provar bastante realista. Na verdade tratava-se de um remake do filme franco-canadiano "Louis 19, Le Roi Des Ondes" de 1994.  

Cynthia Reed (DeGeneres), uma produtora de uma estação de televisão sediada em São Francisco apresenta à direcção um projecto inovador: "TrueTV" em que se vai seguir a vida de um cidadão comum 24 horas por dia. Entre os candidatos entrevistados para o programa estão os irmãos Ray (Harrelson) e Ed Pekurny (McConaughey). Ray é o que está mais desejoso de ser famoso mas Cynthia intui que Ed tem mais potencial e é ele o escolhido.



O programa vem virar do avesso a vida estagnada de Ed, que aos 31 anos trabalha num clube de vídeo e não tem mais actividades além de sair com o irmão ou estar com a mãe Jeanette (Kirkland) e o padrasto Al (Landau), que ele vê como uma figura paterna depois do seu pai os ter deixado e que está numa cadeira de rodas num estado de saúde periclitante. Ed também é secretamente apaixonada por Shari (Elfman), a namorada de Ray que trabalha como entregadora da UPS. 



A princípio, o programa, agora renomeado EDtv, começa timidamente com alguns percalços, como Ed a acordar e quase perto de uma… satisfação matinal até que ele dá por conta das câmaras. As coisas começam a aquecer quando Ed descobre que Ray traiu Shari, que acaba com ele a revelar que gosta dela e os dois passam a namorar. O programa vai tendo cada vez mais sucesso, tornando-se mais nacional e com maiores receitas publicitárias e Ed torna-se uma celebridade, sendo mesmo convidado para vários eventos, nomeadamente para o programa de Jay Leno onde ele conhece Jill (Hurley), uma atraente modelo e actriz que demonstra interesse nele. No entanto, tudo isto acaba por condenar o namoro de Ed e Shari, a quem o público rejeita por achá-la desinteressante, e que acaba por sair da cidade. Também a relação entre os irmãos Pekurny fica deteriorada, com Ray ressentido da fama de Ed e por ele ter ficado com Shari. 


Para animar as audiências, a produção decide chamar Jill para convidar Ed para um jantar. Nessa noite, o clima entre ambos aquece e as audiências disparam na expectativa de poder haver sexo em directo. Mas um tórrido beijo entre ambos em cima da mesa acaba em desastre com dolorosas consequências, sobretudo para o gato de Jill.
Outro drama acontece quando Hank (Hooper), o pai de Ed que abandonou a família quando ele era adolescente, aparece aliciado pela estação e revela que a principal razão pela qual se foi embora foi por ter descoberto que Jeanette estava a ter um caso com Al. Ed fica decepcionado com a mãe, mas o maior choque chega quando ele recebe a notícia de que o seu pai morreu durante o sexo com a sua mãe. A princípio ele julga-se tratar de Al, mas acaba por descobrir que se trata do pai biológico. 

A produção do programa torna-se cada vez mais intrusiva e inescrupulosa, ao ponto de Cynthia deixar o projecto, por se desviar da sua ideia original. Também Ed revolta-se contra a produção, sobretudo quando descobre a nova ideia da estação: devido aos contratos que assinaram, Ray, Shari, Jeanette e Al são também agora seguidos pelas câmaras dos programa.

Farto do programa e com saudades de Shari, Ed quer acabar com tudo mas está impossibilitado devido às exigências do contrato que assinou. É então que Ed tem uma ideia: oferecer 10 mil dólares ao telespectador que lhe comunicar o segredo mais escabroso de um dos membros da produção ou da direcção da estação. Anonimamente, Cynthia revela-lhe que Whittaker (Reiner), o director da estação, tem um problema de disfunção eréctil que só é resolvido com uma bomba de líquido. E tal como Ed previa, Whittaker ordena o encerramento do programa antes do seu nome ser divulgado. Assim que as câmaras saem, Ed reconcilia-se com Shari e a família. O filme acaba com uns comentadores televisivos a afirmar que a EDtv e programas similares vão rapidamente cair no esquecimento.   

Além de Jay Leno, o filme tinha cameos de outros apresentadores, em especial de Michael MooreRuPaul que na altura tinha o seu próprio talk show, e que após o acidente em casa de Jill, comenta: "All that boy did was hurt that girl's pussy. I mean the cat!".

Apesar de alegadamente os produtores não estarem preocupados com as comparações com "The Truman Show", sobretudo por este ser sobretudo um drama e "EDtv" uma comédia satírica, mas foi tal o sucesso do primeiro junto do público e da crítica que as comparações acabaram mesmo por prejudicar o segundo, resultando num fracasso de bilheteira. Mas eu lembro-me de ter visto os dois filmes no cinema e de achar que eram suficientemente distintos para que argumentos de que um era o decalque do outro não fazerem sentido.

E apesar do argumento de "EDtv" não ser o mais sólido, o filme tem os seus méritos e merece uma reavaliação mais atenta. O elenco não deslumbra mas cumpre plenamente, nomeadamente com Ellen DeGeneres e Elizabeth Hurley a se destacarem nos seus papéis mais periféricos. E claro está, mais do que "The Truman Show", "EDtv" previa uma realidade que não tardaria a se materializar. Basta lembrar que foi nesse mesmo ano de 1999 que foi para o ar nos Países Baixos o primeiro tomo do colosso "Big Brother" e que nos anos seguintes, a barreira mitológica que separava o mundo da televisão e das celebridades do cidadão comum desabaria para sempre.  

Destaque ainda para o tema principal do filme, "Real Life" dos Bon Jovi.    

Trailer:


 

 "Real Life" Bon Jovi





 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

Ovide e os Amigos (1987-88)


"Ovide E Os Amigos" é uma série animada de coprodução belga e canadiana (título original francês "La Bande À Ovide"), com 67 episódios de cerca de 13 minutos, originalmente exibidos no Canadá entre 1987 e 1988. Se não estou em erro, a série estreou em Portugal em 1990 no "Brinca, Brincando" na versão francesa com legendas em português, sendo mais tarde reexibida na RTP2 com uma dobragem em português, sob o título "Ovide E Companhia". (Para este texto vou utilizar os nomes da personagens na versão em francês.)



A série conta as aventuras de um grupo de animas de uma pequena ilha-atol algures no Oceano Pacífico, não muito longe da Austrália. O titular Ovide é um ornitorrinco azul e o líder não-oficial da ilha. Geralmente é ele que tem a solução para os problemas que surgem em cada episódio e costuma trazer consigo uma mala com uma televisão incorporada onde ele e o grupo de amigos assistem à programação. Os amigos mais próximos de Ovide são Ventribous, um ornitorrinco amarelo e hábil cozinheiro, Polo, um lagarto vermelho responsável pela limpeza da ilha e sempre em conflito com um bicho-da-madeira que faz buracos em tudo o que é sítio, e Wouaoua, um tucano branco sempre pronto pregar alguma partida. A única habitante feminina na ilha é Mira, uma canguru fêmea, que chegou à ilha e demorou a simpatizar com os outros animais, mas que depressa foi integrada. Mira é especialista em medicina herbal e em lançar o boomerang e, pelo que se vê no episódio sobre o Dia dos Namorados, todo os outros habitantes da ilha tem um crush secreto por ela.

O antagonista é Py, uma cobra piton, que como não podia deixar de ser, é mau como as cobras e que tem bastante inveja de Ovide, pelo que passa a vida a elaborar planos para tomar o poder da ilha, que inevitavelmente saem sempre furados. Até porque o seu cúmplice Zozo, um tucano cinzento, não prima pela inteligência. Mas apesar disso, Zozo até nem é mau tipo, alinhando com Py mais por amizade a este do que por maldade, e por isso não costuma sofrer grandes consequências. Lembro-me de um episódio em que Py aparentemente consegue que Ovide e os outros saiam da ilha e uma ornitorrinco-fêmea jornalista vem fazer-lhe entrevista à qual ele conta versões muito adulteradas e auto-enaltecidas de acontecimentos em episódios anteriores, mas no final tudo não passou de um sonho dele.

Outros habitantes da ilha são três coalas, Ko (com headphones), Ah (com óculos de sol) e La (muito atreito a soluços) quase sempre vistos sentados lado a lado num ramo de um árvore e Aie, uma preguiça que não faz mais do que ficar pendurada numa árvore e exclamar "Ai, ai, ai!". 



Não exactamente uma residente da ilha mas uma presença constante é a ornitorrinco fêmea de cabelo cor-de-rosa, uma espécie de locutora de continuidade de uma televisão que anda pela ilha e que surge em determinados pontos em frente a uma personagem (sobretudo Ovide, mas também às vezes Py), geralmente dando-lhe informações úteis para a situação em que se encontram. Num dos episódios, ela avisa o ilhéus que aquele dia é sexta-feira dia 13, o que causa alguns percalços, mas no fim surge a advertir que se enganou ao ver o calendário do ano anterior e afinal era sexta-feira 14. 

"Ovide E Os Amigos" era uma série despretensiosa e agradável de ver. Uma das minhas coisas favoritas era o tema do genérico com sonoridades tropicais e ao qual a adaptação da dobragem portuguesa conseguiu ser fiel.

  Genérico em francês


Genérico em português




segunda-feira, 18 de julho de 2022

Bobby McFerrin "Don't Worry Be Happy" (1988)

Existem canções que logo à primeira audição dá para ver que são tão intemporais que parece que tanto podiam ter sido recentes como antigas. É o caso desta canção que é de 1988, mas que eu na altura julgava que era dos anos 60, ou pelo menos, uma cover actualizada. Mas não, é mesmo dos anos 80 e foi um enorme hit, chegando ao n.º 1 de vários tops, incluindo Estados Unidos, Austrália e Alemanha e utilizado em vários meios, desde o filme "Cocktail" com Tom Cruise aos anúncios dos pensos higiénicos Evax. 



Reza a lenda que foi o guru indiano Meher Baba (1894-1969) que criou o slogan "Don't Worry Be Happy" de forma a angariar seguidores ocidentais. Ao longo dos anos 60, foram surgindo vários posters e cartões com essa frase e foi precisamente um desses posters que viu em casa de uns amigos em São Francisco que Bobby McFerrin teve a ideia para compor a canção que seria o seu único grande momento de sucesso mainstream. Canção essa que não utilizava mais do que a voz e alguns estalidos de dedos e percussões corporais do próprio McFerrin.



Robert Keith McFerrin Jr. nasceu a 11 de Março de 1950 em Manhattan. O seu pai, Robert McFerrin sénior, foi um dos primeiros cantores líricos negros a cantar em grandes palcos nos Estados Unidos. Já o McFerrin filho herdou os talentos vocais, sendo capaz de cantar em registo multifónico (ou seja em diversos tons, tipo uns Tetvocal de um homem só), fazendo carreira no jazz. O seu segundo álbum, "The Voice" (1984) fez história por ser o primeiro álbum jazz gravado sem qualquer acompanhamento instrumental (uma das faixas desse álbum chama-se "I'm My Own Walkman"!) mas seria o seu quarto álbum, "Simple Pleasures", que conteria o seu grande hit "Don't Worry Be Happy". 

Assim de repente, dizer a alguém para simplesmente deixar de se preocupar e ser feliz parece positividade tóxica. (Por exemplo, ouvir esta canção durante  o confinamento da pandemia não deve ter sido muito recomendável.) Tal como eu, como a pessoa ansiosa que eu sou, detesto que me digam repetidamente para ter calma, como se a calma me surgisse só por a enunciarem. Contudo, creio que a verdadeira mensagem da canção está no verso "in every life we have some trouble, but when you worry you make it double", ou seja, os problemas são inevitáveis na vida mas frequentemente a preocupação excessiva só prejudica mais a situação.  



Além disso, além de toda a mestria acapella com que foi construída, "Don't Worry Be Happy" tinha uma aura de cantilena popular que lhe conferia uma aura intemporal, que até custava a crer que era então uma canção do presente e não um eco do passado. E depois havia o videoclip com Bobby McFerrin em divertida interação com os comediantes Robin Williams e Billy Irwin. (Consta que Williams dissera que só estava disponível para 20 minutos de filmagem mas acabou por ficar o dia inteiro!) 

Bobby McFerrin em 2021


Embora "Don't Worry Be Happy" tenha ajudado ao sucesso do álbum "Simple Pleasures", os singles seguintes passaram despercebidos e McFerrin calmamente saiu dos holofotes do mainstream e prosseguiu os projectos que bem entendeu. Além de continuar a editar discos de jazz (o mais recente em 2013), foi professor universitário, investigador de musicologia, maestro da Orquestra de São Francisco e maestro convidado em várias orquestras em todo o mundo. Quanto à sua relação com o hit que o tornou num nome conhecido, ela tem variado ao longo dos anos: em 2002, num programa da VH1 sobre one hit wonders, Bobby McFerrin disse que chegara um nível de tal saturação que já nem mais a conseguia cantar, mas desde então têm havido alguns registos de McFerrin a cantar "Don't Worry Be Happy" ao vivo. Não sei se a cantou quando ele veio cá em 2018 ao Festival EDP Cool Jazz, mas adivinhem qual foi a canção usada nas promos? 


segunda-feira, 27 de junho de 2022

Publicidade RTP1 (Junho 1990)

Voltamos a analisar blocos publicitários, desta vez uns do dia 27 de Junho de 1990 na RTP1, antes e durante a exibição do filme "Filhos De Um Deus Menor". Estávamos pois no início do Verão de 1990 e eu deveria estar pulgas por mais um Verão em cheio, com a colónia de férias da Zona Alta em Julho, as férias no Algarve em Setembro e sobretudo, muita televisão para eu ver à vontade. As preocupações sobre a minha transição da escola primária para o ciclo preparatório podiam esperar. 

Uma vez mais, um enorme agradecimento ao canal PT Vaults, por disponibilizar estes vídeos no YouTube, e a Afonso Gageiro pelo acervo de onde eles provêm.

- Vinheta RTC
- Hoje em dia há muita concorrência, mas na altura as Chiclets eram líderes no reino das pastilhas, ao ponto de até serem usadas como sinónimos. E uma vez mais é Gustavo Sequeira, o rei dos jingles publicitários, que dá a voz. 
- Era tempo de trabalhar para o bronze, e a Piz Buin tinha este anúncio bem vistoso com um homem e uma mulher bem bronzeados sob um belíssimo céu azul cobalto (suponho que algures na Grécia). Ele deixa cair uma embalagem na água e ela mergulha com uma graciosidade de uma atleta olímpica para a ir buscar.
- Apetitosas imagens de frutas (laranjas, ananases e morangos) ilustram este anúncio às gelatinas Royal.
- A nossa eterna resposta às internacionais bebidas gaseificadas de lima-limão Sprite e SevenUp, a Snappy apostava num anúncio com motas e automóveis em manobras radicais.
- É verdade, nem sempre as embalagens de iogurtes líquidos tiveram a forma cilíndrica ou de garrafa como agora. Algumas tinham uma forma de cálice e uma abertura larga como então tinha o iogurte líquido da Mimosa, com que os jovens deste anúncio se deleitam à beira-mar.  
- Um vistoso anúncio em tons negros para anunciar o sistema Mega Bass da Sony que quando activado nos seus diversos produtos (rádios, walkmans e discmans) realçava os sons mais graves/baixos. Os dois Walkman da Sony que tive tinham esse botão, que escusado será dizer, estava sempre activado.  
- Um senhor perdido no meio do deserto chama a Assistência Renault
- Sabonete líquido Johnson - com uma sideboob
- Tchi que memória esta! O gelado Happy da Camy (Nestlé) que prometia mudar de sabor e de cor, com um miúdo na praia com uma toalha a fazer de capa a mudar as cores em tudo à volta. Escusado será dizer que quis experimentar, mas o problema é que havia poucos sítios onde se podiam comprar gelados da Camy nas redondezas. Finalmente experimentei quando eu e os outros miúdos da colónia de férias fomos ao parque de campismo da Golegã e quatro de nós reparámos que o bar vendia gelados da Camy e cada um comprou o seu Happy. Tal como o miúdo do anúncio provámos com toda a solenidade, cada um com a sua toalha a fazer de capa. Mas lembro-me que o(s) sabor(es) não eram nada por aí além e a mudança de cor era devida às várias camadas.    
- Anúncio em preto e branco ao Perfume Limara com uma voz feminina a falar em inglês.
- Hoje é uma presença incontestável nas secções de detergente de cada supermercado tuga mas foi só em 1990 que o detergente Persil chegou a Portugal, ou não fôssemos o país do "tarda mas não falta" por excelência. Na altura, queria destacar-se como sendo o detergente mais ecológico sem os fosfatos poluentes dos outros e o anúncio queria transmitir que no resto da Europa, isso já era um hábito, com testemunhos vindos alegadamente dos Países Baixos, Áustria e Suíça.    
- Por falar em tarda mas não falta, ainda estávamos a um ano da McDonald's chegar a Portugal e as hamburguerias que cá havia ainda eram muito poucas, por isso a opção então mais viável seria os hamburgers congelados, como os da Iglo (que até vinham com a variedade cheeseburger!). Lembro-me bem deste anúncio ao som de um jingle adaptado de "Happy Together" dos The Turtles em que uma típica cozinha transformava-se numa hamburgueria vistosa e uma senhora idosa até fica a andar à roda depois de provar! 
- Para combater o calor do Verão, nada como um ar condicionado Pinguin Delonghi transportável! 
- Na altura, se alguém que jogasse no Totoloto quisesse manter o anonimato em caso de prémio tinha de colocar uma cruzinha no quadrado do boletim destinado a esse efeito. Foi o caso de um emigrante na Suíça que assinou essa cruzinha e arrecadou 186 mil contos (cerca de 930 mil euros) sem ter o seu nome divulgado. Recordo-me que houve outra versão deste anúncio mas com um apostador de Guimarães.  
- Promoção ao filme "Um Espião No Purgatório" e ao documentário "Os Soviéticos", a serem exibidos na noite seguinte.
- Vinheta da "Lotação Esgotada"
- Isabel Bahia faz o prelúdio do filme "Filhos De Um Deus Menor" com William Hurt e Marlee Matlin, com esta a ganhar o Óscar de Melhor Actriz. (E é verdade, antes da "Lotação Esgotada" havia desenhos animados dos Looney Toons, nomeadamente os do Coiote e do Papa-Léguas.)


- William Hurt numa cena do filme, antes deste curtíssimo bloco com apenas um anúncio. 
- Ainda não reparei, mas ainda existem desodorizantes Impulse à venda? Este bem vistoso anunciava uma nova variedade, "Très L.A.", e claro não faltava um desconhecido de repente a oferecer flores a uma beldade que passeia alegremente pela cidade. 



- De novo, William Hurt algo admirado, antes de uma nova pausa comercial.
- Mais um anúncio a bronzeadores, desta vez da marca Delial, em tons de amarelo.
- Uma esfregona Vileda a limpar facilmente uma poça de tinta no chão.
- Uma das sempiternas maçadas de Verão são os mosquitos. Para os combater havia o repelente Tabard. "E resulta!"
- Um sensual anúncio ao gelado Rol da Olá, com uma boca feminina e a voz de Helena Ramos num tom bem sensual. (Bem que a Olá podia relançar o Rol!)
- Lembram-se de um anúncio em que um rapaz pedia dois TriNaranjus e dizia que era um para ele e outro para o amigo e mais tarde pede três, alegando que o amigo trouxe a namorada (sendo que o amigo e a namorada era fictícios e era o rapaz que emborcava todo aquele sumo)? Eis então aqui uma sequela em meta-referência com o mesmo actor a fazer de empregado de mesa em que uma jovem pede também dois TriNaranjus mas que adverte logo: "Eu não sou como o outro, eu gosto mesmo de beber dois!" A jovem do anúncio é Mafalda Amorim, mais tarde conhecida como Mafalda Bessa, casada com Nicolau Breyner aquando o falecimento deste. 
- As lâminas de barbear Schick Advantage eram equiparadas a um automóvel neste anúncio
- Limpando o chão com Vim Líquido, a limpeza é tal que uma família até come assentada no chão, embora reclame o petiz: "Porque não comemos à mesa como toda a gente?"
- Uma beldade loura chega a casa exausta do trabalho mas logo recupera a energia graças a um belo duche com o gel duche Badedas
- Para combater as unhas falhadas ou partidas, o endurecedor Durcilong Gemey que até faz o verniz Gemey durar duas vezes mais.
- Um divertido anúncio da Pepsi com o actor Michael J. Fox, que vai à ópera e após uma série de peripécias em busca de uma Pepsi se vê no papel principal do libreto. 
- Em mais um episódio de "Portugal tarda mas não falta": um anúncio teaser que dizia Portugal esperou mais de 70 anos por este momento e que por detrás da porta do frigorífico será diferente. Esse mistério era nada menos da chegada da Danone ao nosso país! Fundada em Espanha em 1919, só em 1990 é que este gigante dos lacticínios chegou para cá da fronteira!
- Alcatel Portugal, "a primeira figura no cenário da alta tecnologia". 
- Electrodomésticos Bosch "trabalham trabalham trabalham".
- Um dos carros da nossa família foi um Volkswagen Golf, por isso é um automóvel pelo qual sempre tive um carinho especial. Neste anúncio, o Golf é representado por uma bola de...golfe e a voz off refere que a cada passo de inovação do Golf, outros quiseram logo seguir as pisadas, mas o dito é inimitável. 
- Maria Lurdes Modesto, um dos maiores ícones da culinária nacional, dá o seu aval ao tempero para saladas da Calvé!
- Promo à série "Miller & Mueller", com a americana Suzanne Savoy e a luxemburguesa Desirée Nosbuch (a apresentadora do Festival da Eurovisão de 1984) encarando as personagens titulares. Durante uma estadia na Alemanha, o detective David Miller casa com a sua colega novata germano-americana Kim Mueller, mas quando esta vai com ele para os States, descobre que não só o divórcio de David não está concluído, pelo que continua casado com a suposta ex-mulher Bonnie, como esta é a sua chefe no seu novo trabalho numa esquadra. Para piorar as coisas, David morre misteriosamente antes da situação se resolver, pelo que as duas são obrigadas a trabalhar juntas não só nos casos da esquadra mas para investigar que aconteceu ao marido de ambas. Esta série substituiu o reboot anos 80 de "Missão: Impossível" nas noites de sexta-feira da RTP1.    

Bónus: o programa "Vamos Jogar No Totobola" sobre a Base Aérea dos Açores.



segunda-feira, 23 de maio de 2022

Manequim (1987)

 Recordamos hoje mais um daqueles filmes que só podiam ter existido nos anos 80. "Manequim" é uma comédia romântica de 1987 realizada por Michael Gottlieb e protagonizado por Andrew McCarthy e Kim Cattrall, sobre um jovem que se apaixona por um manequim, ou melhor, pelo espírito da jovem mulher aprisionada nesse manequim. (Dito assim, até parece que é um filme sobre essa vertente da objectofilia mais fielmente abordada no filme "Lars e o Verdadeiro Amor".) 



Jonathan Switcher (McCarthy) é um jovem escultor de Filadélfia cuja sensibilidade artística leva-o a ser constantemente despedido dos seus empregos, já que isso o torna demasiado lento para o trabalho, e é deixado pela sua namorada Roxie (Carole Davis), que não compreende a sua veia artística. 
Numa noite chuvosa, Jonathan para diante da montra dos armazéns Prince & Company e repara que está lá um dos manequins que ele criou. No dia seguinte, Jonathan salva Claire Timkin (Estelle Getty), a dona da Prince & Company, de ser atingida pela queda do letreiro da loja e como agradecimento, ordena ao seu gestor Daryl Richards (James Spader) que lhe dê emprego. É então que Jonathan passa a colaborar com Hollywood Montrose (Meshach Taylor), o exuberante e divertido vitrinista dos armazéns. 



Certa noite, enquanto Jonathan vai compondo uma montra, fica estupefacto ao ver o manequim que admirara na noite chuvosa ganhar vida, falando e andando como uma mulher a sério (Cattrall). Ela explica que se chama Ema Hesire, ou Emmy, e nasceu no Antigo Egipto, onde um dia, na iminência de ser forçada a um casamento arranjado, refugiou-se numa pirâmide e rogou aos deuses que lhe ajudassem a encontrar o verdadeiro amor. Desde então o seu espírito tem contactado com vários artistas a quem serviu de musa, mas embora tenha conhecido grandes artistas e feito bons amigos, ainda não encontrou o verdadeiro amor que lhe fará novamente ser uma mulher de carne e osso. Emmy previne também que os deuses só a permitem estar na forma humana enquanto ela e Jonathan estiverem sozinhos. 


Com a ajuda de Emmy, as montras criadas por Jonathan dão um renovado sucesso à Prince & Company, para mal de Richards (que na verdade é pago pelos armazéns rivais Illustra para arruinar e depois comprar a Prince & Company) e do Capitão Felix Maxwell (G.W. Bailey, num decalque do Tenente Harris de "Academia De Polícia), que sempre antipatizou com Jonathan. Já Hollywood por vezes apanha Jonathan com Emmy (em manequim) e conclui que o amigo tem um relação especial com o manequim, mas não o julga.  



BJ Wert (Steve Vinovich), o dono da Illustra, pede a Roxie que convença o ex-namorado a vir trabalhar para eles, mas Jonathan, cada vez mais apaixonado por Emmy e feliz por trabalhar num local onde é valorizado, recusa. Enquanto isso, descontente com as suas atitudes, Claire despede Richards e Maxwell e promove Jonathan a vice-presidente da loja. Certa noite, Jonathan leva Emmy a passear pela cidade na sua mota, indiferente ao facto de ela se transformar em manequim assim que alguém os vir. Só que sucede que Richards e Maxwell os observam e descobrem a fixação de Jonathan pelo manequim. Como tal decidem roubar todos os manequins da Prince & Company.

Ao saber do roubo, Jonathan dirige-se à Illustra com a ajuda de Hollywood para salvar Emmy. Esta está prestes a cair dentro de uma máquina trituradora quando no instante final, Jonathan salva-a e ela torna-se definitivamente humana, sinal de que ele é o seu verdadeiro amor. Wert e Richards ordenam à polícia que prendam Jonathan mas Claire intervém com provas de filmagens de videovigilância do roubo dos manequins. (Quando Jonathan lhe pergunta sobre se ela viu imagens dele com Emmy, Claire diz-lhe para não se preocupar com isso.) No final, Jonathan e Emmy casam-se na montra da Prince & Company, com Hollywood e Claire como padrinhos.      


Segundo consta, foi o próprio realizador Michael Gottlieb que teve a ideia para o filme quando um dia viu na montra um manequim, que devido a uma ilusão com luzes, parecia que se mexia. Foram utilizados no filme seis manequins com diferentes expressões, criados por um escultor para o qual Kim Cattrall pousou durante seis semanas. O papel de Jonathan foi inicialmente pensado como sendo o de um homem mais velho, para tentativamente ser interpretado por Dudley Moore, até que se optou por ser reescrita como uma personagem mais jovem. (Aliás na altura Andrew McCarthy tinha 24 anos e Kim Cattrall tinha 30.) 

Apesar de ter sido arrasado pela crítica, "Manequim" foi um sucesso de bilheteira, e mais tarde, de aluguer de vídeo. Outro factor importante para o sucesso foi o tema principal, "Nothing's Gonna Stop Us Now" da banda rock Starship, que se tornou um hit global e foi nomeado para o Óscar de Melhor Canção Original. Kim Cattrall teve aqui o seu primeiro grande  papel de protagonista (e ainda estávamos a onze anos daquele que seria o seu papel mais célebre em "O Sexo e A Cidade").
Mas o grande destaque é Meshach Taylor, um scene stealer no papel de Hollywood Montrose, que à primeira vista parece ser todo um estereótipo do gay extravagante e colorido (até a cobertura do seu carro é azul com bolinhas vermelhas!) mas numa altura em que a homossexualidade era mostrada em Hollywood ora em meias-tintas ora de forma trágica, um filme onde uma personagem gay confortável na sua pele, que não é julgada (excepto pelos vilões), que tem vida amorosa (ele refere várias vezes o seu namorado Albert) e amigos que o defendem, e que não vira a cara à luta ("As duas coisas que eu mais gosto de fazer é lutar e beijar rapazes!") era algo inovador. 


Em 1991, surgiu a sequela, "Manequim de Carne e Osso", que apesar da trama se passar na mesma loja em Filadélfia, entraram apenas dois actores do primeiro filme: Meshach Taylor de novo como Hollywood Montrose e Andrew Hill Newman, que no primeiro filme era o empregado de limpeza que, ao ver Emmy ganhar vida quando Jonathan a salva da máquina trituradora, começa a beijar os outros manequins para ver se alguma deles também se transforma em mulher, e que no segundo é um segurança da loja. 

Trailer:


"Nothing's Gonna Stop Us Now" Starship:





terça-feira, 3 de maio de 2022

Festival da Eurovisão 1997


Aproxima-se mais uma edição do Festival da Eurovisão e como é de tradição, recordamos mais uma edição antiga. Desta feita, recuamos 25 anos até ao dia 3 de Maio de 1997 e até Dublin, capital da Irlanda.


O 42.º Festival da Eurovisão teve lugar no Point Theatre de Dublin, tal como em 1994 e 1995. Devido a quatro vitórias da Irlanda nos últimos cinco anos, a televisão irlandesa RTÉ já estava um bocado estafada demais por ter de organizar tantos certames (para não falar dos custos dos ditos). A princípio até foi equacionada uma organização conjunta com a BBC da Irlanda do Norte. A apresentação esteva a cargo de Carrie Crawley e Ronan Keating, da célebre boyband irlandesa Boyzone que fazia muito sucesso na altura. Aliás foram os Boyzone que estiveram na actuação de intervalo entre o desfile das canções e as votações, com um tema inédito "Let The Message Run Free". Carlos Ribeiro fez os comentários para a RTP e Cristina Rocha foi a porta-voz dos votos de Portugal. 



Uma das razões pelas quais eu ainda não tinha feito um artigo sobre esta edição foi porque eu tinha guardado más memórias dela, devido ao aziago resultado de Portugal. Mas durante o confinamento, eu revi esta edição e, ultrapassando esse espinho, tive de concordar que foi uma edição muito bem conseguida a vários níveis. Na altura, a Irlanda vivia um tempo de prosperidade e queria ser vista como um país moderno, já para além dos tradicionais clichés culturais. Além disso na altura, a tecnologia dava importantes avanços, pelo que foi interessante e premonitório ver ecrãs a dominarem esta edição, do palco ao genérico inicial, passando pelos postcards. E se no início da década, parecia haver um certo desfasamento entre as canções do Festival e os sons que dominavam na altura, aqui as canções concorrentes reflectiam bem vários tipos de sonoridades dos anos 90. 

Outra particularidade desta edição foram as mensagens de vários antigos participantes do Festival da Eurovisão a recordarem a sua passagem pelo certame e a desejar boa sorte aos intérpretes: Benny Andersson e Bjorn Ulaveus dos ABBA (Suécia 1974), Céline Dion (Suíça 1988), Julio Iglesias (Espanha 1970), Cliff Richard (Reino Unido 1968 e 1973), Bucks Fizz (Reino Unido 1981), Sandra Kim (Bélgica 1986), Bobbysocks (Noruega 1985), Johnny Logan (Irlanda 1980 e 1987), Secret Garden (Noruega 1995) e os responsáveis pelas quatro últimas vitórias da Irlanda, Linda Martin (1992), Niamh Kavanagh (1993), Charlie McGettigan & Paul Harrington (1994) e Eimear Quinn (1996).

25 países participaram neste ano: ausentes no ano anterior, Alemanha, Dinamarca, Hungria e Rússia regressaram neste ano bem como a Itália, que não participava desde 1993. Já Bélgica, Finlândia e Eslováquia, participantes em 1996, ficaram de fora este ano. Era também suposto Israel regressar em 1997, mas como a data do Festival coincidia com a de uma data religiosa dedicada às vítimas do Holocausto, declinou a participação pelo que Bósnia & Herzegovina ocupou a vaga. Importa ainda referir que pela primeira vez foi introduzido o televoto popular no Festival da Eurovisão, mas em apenas cinco países (Áustria, Alemanha, Reino Unido, Suécia e Suíça) e por causa disso, pela primeira vez foi exibido um resumo das actuações de todos os países onde seriam indicados nos países com voto telefónico os números correspondentes a cada canção, algo que rapidamente viria a tornar-se comum no Festival da Eurovisão. 

Como habitualmente, vamos rever as canções por ordem inversa da classificação.  

Célia Lawson (Portugal)

E o melhor é arrancar logo o penso: nesse ano, pela primeira vez desde a sua participação inaugural em 1964, Portugal não recebeu qualquer ponto. Sem dúvida um resultado deveras injusto para a nossa canção "Antes Do Adeus" na voz de Célia Lawson, que estava a longe de ser a pior canção das que desfilaram nesse ano. Contudo, também não era das mais memoráveis e como tal acabou por passar despercebida aos júris e televotos europeus. Célia Lawson ficou conhecida pela sua participação na terceira edição do "Chuva De Estrelas" onde chegou à grande final com uma imitação de Oleta Adams, (tal como o seu irmão Paulo imitando Jim Kerr dos Simple Minds) e tinha acabado de lançar o seu primeiro álbum "First". A acompanhá-la em palco estava um coro de quatro vozes, a fazer lembrar os agentes do Matrix (um deles, o mais alto, era nada menos que Mico da Câmara Pereira). A música e a orquestração estiveram a cargo de Thilo Krassmann e a letra (que mencionava Pedro Abrunhosa e José Saramago) era de Rosa Lobato Faria, na quarta e última vez que assinara uma letra para uma canção eurovisiva. Célia Lawson também escreveu a letra de "Eu Sou Aquele" dos Excesso. Em 2017, participou no "The Voice". 

Tor Endersen (Noruega)

Mas pelo menos, Portugal não provou sozinho a amargura dos nul points, já que a Noruega foi também corrida a zeros. O que também foi um choque para este país que vinha de uma vitória em 1995 e de um segundo lugar em 1996. Ainda por cima, Tor Endersen finalmente conseguira ir à Eurovisão depois de ter tentado sete vezes antes (fez parte do coro da canção norueguesa de 1988). Contudo, apesar dos zeros e devido a um novo sistema de relegação que apurava a média de pontos de cada país no últimos cinco anos, Portugal e Noruega puderam participar em 1998.    

Barbara Berta (Suíça)

Mrs. Einstein (Países Baixos)

Mais acima, Suíça e Países Baixos repartiram o 22.º lugar com 5 pontos. Barbara Berta representou as cores helvéticas com uma canção em italiano da sua autoria, "Dentro Di Me".
Já os Países Baixos levaram o quinteto feminino Mrs. Einstein com a canção "Niemand Heeft Nog Tijd" ("já ninguém tem tempo"). O grupo que na altura era formado por Linda Snoeij, Suzanne Venneker, Marjolein Spijkers, Saskia van Zutphen e Paulette Willemse estava no activo desde 1990, e embora só tenham editado um disco por ocasião da participação na Eurovisão, as Mrs. Einstein continuam a actuar por terras holandesas, com Spijkers, van Zutphen e Willemse ainda na formação actual. 

Bettina Soriat (Áustria)

A Áustria foi representada por Bettina Soriat, que esteve no coro da canção austríaca do ano anterior. Com uma larga experiência como cantora e bailarina, tendo participado em vários musicais do meio teatral de Viena, Soriat levou a Dublin o tema "One Step" onde evidenciava os seus dotes de dançarina, que ficou em 21.º lugar com 12 pontos.

Paul Oscar (Islândia)

A Islândia foi o último país a actuar e ficou em 20.º lugar com 18 pontos, mas a sua actuação foi uma das mais marcantes da noite e bastante ousada para a época. Paul Oscar cantou "Minn Hansti Dans" ("minha dança final") sentado num sofá branco, acompanhado por quatro bailarinas vestidas de cabedal. Com uma carreira artística desde infância e abrangendo vários estilos, Paul Oskar tinha-se também notabilizado no seu país como DJ e figura de proa da comunidade LGBT. A sua canção era um tema techno-pop que não destoaria numa Eurovisão da década seguinte. Há que notar que três dos quatro países que deram pontos à Islândia foram os que tinha televoto, pelo que fica a ideia que se a maioria dos países tivesse voto popular nesse ano, quem sabe se o resultado não teria sido melhor.

Bianca Schomburg (Alemanha)

Alma Cardzic (Bósnia & Herzegovina)

A Alemanha e a Bósnia & Herzegovina ficaram em 18.º lugar com 22 pontos. A representante alemã foi Bianca Schomburg, que no ano anterior, vencera a primeira final europeia do "Chuva de Estrelas" imitando Céline Dion (com Portugal em segundo lugar com Rui Faria como Elton John). Em Dublin, cantou "Zeit" ("tempo"). Aproveitando uma nova regra que permitia uma faixa gravada completa, a Alemanha foi um dos quatro países que não recorreram à orquestra. 
Já a Bósnia & Herzegovina foi representada por Alma Cardzic, que já tinha representado o país em 1994 (também em Dublin) em dueto com Dejan Lazarevic, que agora a solo cantou "Goodbye". 

ENI (Croácia)

Como se lembram, em 1997, as cinco mulheres mais famosas dos planeta eram as Spice Girls, por isso não era admirar que algum país apostasse em trazer algum do espírito das raparigas especia(r)i(a)s para a Eurovisão. E esse país foi, algo surpreendentemente, a Croácia que com o grupo ENI e a canção "Probudi Me" ("desperta-me"), era impossível não associar à estética e sonoridade das Spice Girls: Elena Tomecek evocava a sensualidade de Geri Halliwell e Ivona Maricic a inocência de Emma Bunton, enquanto Nikolina Tomljanovic surgiu desportiva como Melanie C. e Iva Mocibob representaria talvez um elo perdido entre Melanie B. e Victoria Beckham. A Croácia ficar-se-ia pelo 17.º lugar com 24 pontos. Mas ao contrário das Spice Girls, as ENI têm continuado juntas no activo no seu país desde então. 

Kolig Kaj (Dinamarca)

A Dinamarca também apostou na diferença com um tema rap, "Stemmen I Mit Liv" ("a voz na minha vida") interpretado por Thomas Laegard Sorensen, aliás Kolig Kaj, sobre um homem obcecada sobre uma voz feminina que ele ouviu por acaso num chamada de sondagens, ficando em 16.º lugar com 25 pontos. A Dinamarca só voltaria a levar um tema completamente em dinamarquês à Eurovisão em 2021.  

Alla Pugacheva (Rússia)

Na sua terceira participação, a Rússia foi representada por uma das maiores cantoras do país desde os tempos da União Soviética. Com uma carreira iniciada em 1965, Alla Pugacheva já vendera mais de 200 milhões de discos e gravara em várias línguas e em 1991, foi condecorada como a "Artista do Povo da URSS". Com tanta consagração, fazia sentido que Pugacheva tivesse cantado um tema intitulado "Prima Donna". Curiosamente na altura, ela era casada com Philipp Kirkorov, o representante russo em 1995. Apesar da primorosa interpretação, a Rússia ficou em 15.º lugar com 33 pontos e só voltaria a participar na Eurovisão em 2000.    

Blond (Suécia)

Na altura, também as boybands estavam em alta e não foi de estranhar que dois países tivessem sido representados por uma boyband. Um deles foi a Suécia com o trio Blond, que como o nome indicava, era composto por três membros bem loirinhos: Jonas Karlhager, Gabriel Forss e Patrick Lundstrom. Os três cantaram "Bara Hon Älskar Mig" ("se ao menos ela me amasse"), alcançando o 14.º lugar com 36 pontos. 

VIP (Hungria)

O outro país que levou uma boyband foi a Hungria. Os VIP cantaram "Miért kell, hogy elmenj?" ("porque tiveste de partir?"), uma balada que se fosse em inglês, não destoaria no repertório dos Backstreet Boys. O grupo era composto Jozsa Alex, Imre Rakonczai, Viktor Rakonczai e Gergo Racz, com estes dois últimos a terem mais tarde sucesso a solo no seu país. No Festival, a canção húngara ficou em 12.º lugar com 39 pontos.

Marianna Zorba (Grécia)

Na mesma posição e com os mesmos pontos ficou a Grécia. Marianna Zorba cantou "Horepse" ("dança") um tema que não destoaria numa aula da dança do ventre.  

Anna-Maria Jopek (Polónia)

A Polónia ficou em 11.º lugar com 54 pontos. Anna-Maria Jopek cantou "Ale Jestem" ("mas eu sou"), um tema folk. Jopek viria a ter uma bem-sucedida carreira como intérprete de jazz e world music, colaborando com nomes sonantes como Pat Metheny, com quem editou um álbum conjunto em 2002.

Tanja Ribic (Eslovénia)

Com uma canção num estilo semelhante à da polaca, a Eslovénia ficou em décimo lugar com "Zbudi Se" ("acorda"), cantada pela loiríssima Tanja Ribic. Este será porventura o momento mais notório de Tanja Ribic como cantora, já que tem trabalhado mais como actriz de teatro e cinema. 

Debbie Scerri (Malta)

Debbie Scerri foi a representante de Malta, cantando "Let Me Fly", obtendo o nono lugar com 66 pontos, incluindo um doze da Turquia. Mas o que ficou sobretudo para história desta participação maltesa foi o facto de Debbie Scerri ter sido a primeira recipiente do Prémio Barbara Dex (o nome da representante belga de 1993), o prémio para o participante mais mal vestido, devido ao seu vestido largueirão roxo e azul turquesa. A partir de 2022, o prémio foi renomeado You're A Vision e agora distingue o look mais original de entre os participantes de cada edição. Debbie Scerri é hoje por hoje sobretudo conhecida no seu país como apresentadora.  

Maarija (Estónia)

Duas cantoras que tinham participado em 1996, voltaram nesse ano a representar novamente o seu país. Uma delas foi Maarija-Liis Ilus que representava a Estónia pelo segundo ano consecutivo. Se em 1996 fê-lo em dueto como Ivo Linna, desta vez apresentou-se a solo (e sob o nome de Maarija, simplesmente) cantando "Keelatud Maa" ("terra proibida"). Ficou em oitavo lugar com 82 pontos um pouco aquém do quinto lugar do ano transacto, mas ainda assim, um bom resultado.

Fanny (França)


Fanny Biascamano foi a representante da França, e apesar de ter apenas 17 anos, já era uma cantora de grande sucesso desde a pré-adolescência quando em 1991 teve um hit com uma versão de "L'homme à la moto" de Edith Piaf. Em Dublin, cantou "Sentiments Songes" ("sentimentos sonhados") alcançando o sétimo lugar com 95 pontos.   

Marcos Llunas (Espanha)

A vizinha Espanha obteve o sexto lugar em 1996 com a powerballad "Sin Rencor" na voz de Marcos Llunas. Filho do célebre cantor romântico Dyango, Llunas estava habituado a este tipo de competições pois ganhara o Festival da OTI de 1995 com "Eres Mi Debilidad". O seu disco mais recente data de 2012 é um tributo ao repertório do seu pai. Se virem esta actuação no YouTube, prestem atenção ao momento em que Marcos Llunas olha para a câmara com um esgar de quem apanhou um choque eléctrico. 

Hara Konstantinou (Chipre)

Chipre foi o primeiro país a actuar, o que sem dúvida deu sorte já que repetiu o melhor resultado do país até então, ao alcançar o quinto lugar, tal como em 1982, posição que também seria repetida em 2004 e apenas ultrapassada com o segundo lugar de 2018. Os representantes cipriotas foram os irmãos Hara e Andreas Konstantinou, que cantaram "Mana Mou" ("terra mãe"), com uma participação muito activa dos quatro cantores do coro.  

Jalisse (Itália)

Ausente desde 1993, a Itália regressava à Eurovisão, mas segundo consta foi um regresso meio contrariado. Isto porque na altura, caso um país não estivesse interessado em participar, era obrigatório informar disso atempadamente à EBU, mas aparentemente a RAI não o fez dentro da data prevista e para não pegar pesada multa, a Itália acabou por participar, levando a canção vencedora do Festival de San Remo desse ano: "Fiumi Di Parole" ("rios de palavras") interpretada pelo duo Jalisse. O duo era composto pelo casal Alessandra Drusian e Fabio Ricci. Tanto em San Remo como na Eurovisão, foram apontadas semelhanças da canção italiana com "Listen To Your Heart" dos Roxette. Porém, nenhuma acção foi tomada quanto a isso e a Itália alcançou o quarto lugar com 114 pontos (incluindo 12 de Portugal). Mas nem este bom resultado alentou a Itália a continuar a participar na Eurovisão, só regressando ao certame em 2011. 

Sebnem Paker (Turquia)


Antes de 1997, o historial da Turquia no Festival da Eurovisão não era muito famoso, com apenas um resultado no top 10 em 1986. Mas nesse ano, a Turquia conseguiu um brilhante terceiro lugar com 121 pontos e nos anos vindouros obteria outros grandes resultados, nomeadamente a vitória em 2003. Sebnem Paker já tinha sido a representante turca em 1996, onde ficou em 12.º lugar, e regressava um ano depois com o Grup Etnik e o tema "Dinle" ("escuta"), um tema com sonoridades bem turcas a que a assistência presente respondeu batendo palmas animadamente no refrão. Sebnem Paker ainda tentou representar o país por um terceiro ano consecutivo em 1998, mas não venceu a final nacional. Actualmente é professora do ensino secundário. 

Marc Roberts (Irlanda)

Com quatro vitórias nos últimos cinco anos, a Irlanda foi de longe o país dominante do Festival da Eurovisão nos anos 90. E em 1997, obteve mais um excelente resultado ao ficar em segundo lugar com 157 pontos. Marc Roberts cantou "Mysterious Woman" sobre alguém que fica fascinado após cruzar olhares com uma mulher misteriosa no aeroporto. 


Os Katrina & The Waves obtiveram a quinta vitória do Reino Unido


Contudo, rapidamente ficou claro que a vitória nesse ano não escaparia ao Reino Unido, com um esmagador total de 227 pontos, mais setenta que a Irlanda. A banda rock Katrina & The Waves, composta por dois britânicos (Kimberley Crew e Alex Cooper) e dois americanos radicados na Britânia (Katrina Leskanich e Vince De La Cruz), deixara a sua marca nos anos 80 com o hit "Walking On Sunshine". Porém embora a banda tivesse continuado a dar concertos e a lançar discos desde então, nunca conseguiu repetir esse sucesso, pelo que esta vitória na Eurovisão foi o segundo pico de notoriedade para a banda. "Love Shine A Light" foi composta pelo guitarra Kimberly Rew e foi o único membro da banda que não esteve em palco, com Phil Nicol a tocar guitarra em seu lugar, sendo ainda acompanhados no coro por Miriam Stockley e Beverly Skeete. Contudo, estes novo fogacho de fama durou pouco e os Katrina & The Waves terminaram em 1999. Katrina Leskanich tem contudo continuado a actuar a solo desde então e eu vi-a ao vivo em 2012 na Eurovision Party de Setúbal. Aliás, Katrina nunca deixou de abraçar o seu legado na Eurovisão e por exemplo, apresentou a gala dos 50 anos da Eurovisão em 2005 e em 2017 foi a porta-voz dos votos do Reino Unido (que deu um dos muitos 12 a Portugal). Em 2020, quando o Festival da Eurovisão foi cancelado devido à pandemia de Covid-19, os representantes do diversos países que iriam participar nesse ano (excepto os da Bélgica) cantaram "Love Shine A Light".   

Festival da Eurovisão 1997 (transmissão da RTP)

 



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