terça-feira, 26 de junho de 2018

Saber Amar (2003)


por Paulo Neto

Sem dúvida que um dos trunfos da TVI na sua revolução do panorama televisivo no início do século XXI foi a sua aposta em telenovelas nacionais que a partir de títulos como "Jardins Proibidos", "Olhos de Água" e "Anjo Selvagem" começaram a enfrentar e eventualmente derrubar o até então inabalável domínio das telenovelas brasileiras. Em 2003, a máquina de telenovelas da TVI já estava bem oleada e por entre as estreias do género desse ano, destaca-se "Saber Amar" cuja exibição atravessou todo esse ano civil (20 de Janeiro a 6 de Dezembro).



Da autoria de Maria João Mira e do colectivo Casa De Criação, a trama da novela inspirava-se na história de "Sabrina", uma peça teatral de Samuel A. Taylor famosamente adaptada em filme em 1954 com Humphrey Bogart, Audrey Hepburn e William Holden, e na remake de 1995. 

Depois de seis anos a estudar Biologia Marinha nos Estados Unidos, Diana Alfarroba (Leonor Seixas) regressa ao Algarve onde cresceu para trabalhar no Zoo Marinho (na verdade, o famoso parque oceanográfico ZooMarine em Albufeira) onde pretende desenvolver uma terapia de golfinhos para crianças problemáticas.

Rodrigo (Rodrigo Menezes) e
Diana (Leonor Seixas)


Em tempos, Diana era uma menina sonhadora, filha dos caseiros da abastada família Macedo Vaz, que costumava assistir do alto de uma árvore às faustosas festas dadas pelo clã e com uma paixoneta especial pelo jovem Rodrigo (Rodrigo Menezes). Agora uma mulher bonita e determinada, o seu regresso vai desencadear um teia de paixões e intrigas.

Jorge (Ruy de Carvalho), o patriarca dos Macedo Vaz é conhecido tanto pelo seu olho para os negócios como pela sua excentricidade. Tem um longo e feliz casamento com Helena (Maria Emília Correia) embora esta, mais ligada ao status quo, fique frequentemente exasperada com a exuberância do marido, piorando a sua gaguez. Aposentado, Jorge passa o comando dos seus negócios ao filho mais velho João Pedro (Marcantónio Del Carlo), que herdou o talento do pai. Já os outros filhos têm outras ideias: Carolina (Patrícia Ribeiro) quer traçar o seu próprio rumo e Rodrigo não tem intenção de abandonar a sua vida irresponsável de playboy.

Rita (Dina Costa Félix)


Rodrigo está noivo de Rita Higgins (Dina Félix da Costa), filha de Mary Higgins (Ana Zanatti) uma inglesa snob há muito radicada em Portugal. O noivado dos dois jovens é essencial para selar um importante negócio e salvar os Higgins da ruína. Rita é apaixonada por Rodrigo mas este não lhe liga muito, preferindo continuar a sua vida desregrada. Contudo quando reencontra Diana, Rodrigo fica fascinado por ela e decide ir contra a família, tentando conquistá-la e rompendo o noivado, para choque de Helena e Mary. Mas vai ter um rival de peso: o próprio irmão!

João Pedro (Marcantónio Del Carlo)

Desde que a sua mulher Carmo (Ana Nave) desapareceu anos antes, João Pedro tornou-se um homem frio e taciturno, vivendo apenas para o trabalho e para os filhos. Mas Diana vai mexer com o seu coração. E com Diana dividida entre a antiga paixão por Rodrigo e os inesperados sentimentos por João Pedro, a jovem passará por alguns tormentos pessoais e profissionais, sobretudo quando Carmo regressa, tornando-se a sua principal antagonista.

Outro par romântico de destaque é o de Tião (Sérgio Praia) e Lúcia (Lúcia Moniz). Sebastian Higgins, mais conhecido como Tião, jovem empreendedor, não liga nada a convenções sociais, ao contrário da mãe e da irmã. Por isso, apaixona-se por Lúcia Vidal, prima de Diana, que trabalha como guia turística. Lúcia faz parte da divertida família Vidal que também é composta pelos pais Gracinda (Ângela Pinto) e Tolentino (Pompeu José) e os seus irmãos João (Ricardo Pereira), Joana (Joana Dias) e Óscar (Manuel Melo), mais conhecido como o "Girafa".

Girafa (Manuel Melo)


"Girafa" é uma espécie de mini Zezé Camarinha que gosta de lançar o seu bizarro mas eficiente charme às turistas, mas é Íris (Sílvia Rizzo), a dona do bar da praia, uma mulher misteriosa vinda de Lisboa quem o impressiona mais.
O actor Manuel Melo obteve este papel devido à sua participação no programa "Academia de Estrelas" sendo que duas outras concorrentes, Cláudia Marques e Vanessa Silva, tiveram também pequenos papéis na telenovela. 

Outra personagem cómica é Ana Simão, a Nicas (Inês Rosado), estudante de Arqueologia que trabalha nas ruínas da Boca do Mar. Nicas interessa-se por Tião e pretende subir na vida através dos Higgins mas os seus planos saem sempre furados, muito por culpa da atracção incontrolável que nasce entre ela e o bonitão Luís Miguel (Rui Santos), cujo fulgor fá-los passar por algumas situações comprometedoras...
O elenco da telenovela contou ainda com Milton Lopes (Zé Café), Orlando Costa (Emanuel), Ângela Ribeiro (Josefa), Margarida Cardeal (Elisete), Marco Delgado (Guga) e Gonçalo Diniz (Rui).   

Com uma trama romântica com vários laivos de humor e bonitas paisagens algarvias filmadas no Burgau, "Saber Amar" foi outra telenovela da TVI que fez sucesso na altura e cimentou o triunfo da sua aposta na teledramturgia nacional. Segundo a Wikipedia, é a telenovela mais exportada da TVI, tendo sido exibida na Rússia, na Ucrânia e em vários países da América Latina.







Além do tema do genérico que também dava nome à telenovela, "Saber Amar" dos Delfins - uma versão de 1997 de um original dos brasileiros Paralamas do Sucesso - a banda sonora incluía um tema do actor Rodrigo Menezes, "Se Tu Existes", que ilustrava as cenas românticas da sua personagem com Diana. Uns meses antes, o actor tinha editado aquele que seria o seu único álbum em vida, "Um Amor Não Morre Assim", tendo desde então preterido a música a favor da representação, tendo entrado em várias outras telenovelas da TVI (por exemplo "Doce Fugitiva" e "Meu Amor") até ao seu falecimento prematuro em 2014 aos 40 anos. Um segundo álbum foi editado postumamente. 

Rodrigo Menezes (1974-2014)
    Genérico de abertura:


Promos da estreia





Excertos da telenovela:







quinta-feira, 14 de junho de 2018

Cerimónia de Abertura do Mundial de Futebol 1994

por Paulo Neto

No que diz respeito ao futebol, sempre me interessei mais por competições de selecções nacionais do que de clubes. Embora seja assumidamente do Benfica (e retire o ocasional regozijo dos desaires do Sporting e do FC Porto), nunca perdi sono por causa de períodos de maus resultados dos encarnados ou fui de clubismos desenfreados (e agora muito menos). No entanto, vibro quando joga a selecção nacional (ainda não acredito que já não morro sem ver Portugal a ganhar um grande título!) e sempre gostei de seguir os Europeus e os Mundiais de Futebol, mesmo nos tempos em que era costume Portugal ficar de fora da festa, o que felizmente deixou de ser hábito.

Espanha 1982 foi o primeiro Mundial (ou como também se diz, a primeira Copa) da minha existência mas o meu eu de dois anos não guardou qualquer memória do certame, nem sequer a do mítico Naranjito. As minhas primeiras memórias de uma Copa remontam portanto ao México 1986, o dos  Saltillos de Portugal e da Mão de Deus de Maradona. Seguiu-se Itália 1990, que muitos consideram o pior Mundial de sempre, em que somente a irreverência dos Camarões contrariou o futebol pouco emocionante e demasiado agressivo que foi jogado em terras transalpinas.



Porém creio que o Mundial que mais me terá marcado foi o de 1994 nos Estados Unidos, do qual guardo várias memórias. Por exemplo, o belíssimo golo do saudita Al-Owairan à Bélgica, os equipamentos ultra-fluorescentes do guarda-redes mexicano Jorge Campos, a poderosa dupla Romário-Bebeto e na final Brasil-Itália, o desalento de Roberto Baggio ao falhar a penalidade decisiva e a homenagem dos brasileiros ao recém-falecido Ayrton Senna. Também houve memórias menos boas como a de Maradona apanhado nas malhas do doping (não sem antes marcar um belo golo à Grécia) ou o assassínio do colombiano Andrés Escobar, que marcara um autogolo que ditou a eliminação de uma selecção da Colômbia que prometia tanto, quando este regressou ao país.

Oprah Winfrey conduziu a cerimónia de abertura
do Mundial de Futebol de 1994 em Chicago


Uma das minhas principais memórias do Mundial do Futebol de 1994 foi precisamente a cerimónia de abertura, que decorreu em Chicago no dia 17 de Junho antes do jogo inaugural entre a Alemanha e a Bolívia. Na altura, o soccer era um desporto de segunda linha (se tanto!) nos States mas não foi por isso que os americanos deixaram de montar um espectáculo de arromba, conduzido por Oprah Winfrey. Para mim continua a ser a cerimónia inaugural de um Mundial que mais se aproximou da espectacularidade uma cerimónia de abertura de uns Jogos Olímpicos. O que não quer dizer que não tenha tido vários momentos cromos, bem pelo contrário.
Eis o vídeo da cerimónia através da transmissão da televisão brasileira:




- A cerimónia começou com centenas de voluntários a formar o logótipo oficial da competição no relvado do Estádio Soldier Field em Chicago do qual são largados centenas de balões azuis e vermelhos.

- Oprah Winfrey dá as boas vindas aos 60 mil espectadores presentes no estádio (incluindo Bill e Hilary Clinton, o chanceler alemão Helmut Kohl e o presidente boliviano Gonzalo Sanchez de Lozada) e aos milhões de telespectadores de todo o mundo.
- Diana Ross corre pelo relvado para cantar uma medley dos seus êxitos, começando com "I'm Coming Out". Ao lado vêem-se muitos voluntários/bailarinos vestidos de branco segurando círculos com um lado branco e um lado preto para algo a ser utilizado num quadro posterior. Antes de subir ao palco, um momento caricato: Diana Ross deveria marcar um golo de penalti numa baliza à frente do palco que se partiria em duas mas...não é que ela rematou bem ao lado?



Uma vez em palco, Miss Ross continuou a sua medley com "Why Do Fools Fall In Love", "Chain Reaction" e "Ain't No Mountain High Enough", acompanhada por bailarinos e alguns habilidosos da bola devidamente equipados. 


O palco estava decorado com faixas com as bandeiras e os nomes dos 24 países participantes: Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Bélgica, Bolívia, Brasil, Bulgária, Camarões, Colômbia, Coreia do Sul, Espanha, Grécia, Holanda, República da Irlanda, Itália, Marrocos, México, Nigéria, Noruega, Roménia, Rússia, Suécia, Suíça e Estados Unidos
- Alan Rothenberg, presidente do comité organizador do Mundial de Futebol de 1994, faz o seu discurso de boas-vindas.


- Oprah Winfrey anuncia a parada das 24 nações participantes da competição através das suas respectivas danças tradicionais, executadas por um grupo de bailarinos de cada país e com uma espécie de pavão humano com uma cauda gigante das cores da bandeira do respectivo país. Claro que a Argentina foi representada pelo tango, o Brasil pelo samba, a Itália pela tarantela e Espanha pelas sevilhanas. Mas também há que destacar para a performance "Andes meets Las Vegas" da Bolívia, a alegria dos ritmos africanos de Camarões e Nigéria, as jovens bailarinas da Irlanda (1994 foi o ano em que surgiu o fenómeno "Riverdance"), as rotações coreográficas da Coreia do Sul e as espadas da Arábia Saudita.

No relvado, os voluntários usam os círculos com um lado preto e um lado branco para "escrever" o respectivo código FIFA de três letras de cada país (por exemplo BRA para Brasil, NGA para Nigéria ou SUI para Suíça), rodeados pelas bandeiras dos países. Após a sua actuação em palco, a trupe de cada país e o "pavão" dirige-se para sua respectiva bandeira.

- O brasileiro João Havelange, então presidente da FIFA, convida (em portunhol) o então presidente americano Bill Clinton a declarar o Mundial oficialmente aberto.
- O cantor Richard Marx (de "Hazard" e "Right Here Waiting") canta o hino americano.
- Segue-se a actuação do cantor cubano-americano Jon Secada que apresentava dois temas do seu repertório: "If You Go" e "Do You Believe In Us". E eis outro momento caricato com a imagem de Secada a cantar dentro de um buraco. Veio-se a saber mais tarde que o cantor caiu acidentalmente lá para dentro (o mesmo aconteceu a Oprah Winfrey depois de anunciar Diana Ross) tendo mesmo deslocado um braço. Mas imbuído pelas máximas de "quem canta seus males espanta" e "the show must go on", Jon Secada não se deixou abater pelo percalço (nem com um pequeno enredamento no fio do microfone) e deu tudo na sua actuação, enquanto os bailarinos dos países davam a volta ao estádio. 
- Por fim, a canção oficial do torneio "Gloryland" interpretada por Daryl Hall (conhecido sobretudo pelos seus êxitos em dupla com John Oates) e The Sounds Of Blackness.
Durante a actuação, alguns bailarinos com fatos dourados formam uma espécie de réplica gigante do troféu da FIFA (e por pouco que a bola não caía do topo!)
Por fim, Franz Beckenbauer, seleccionador da Alemanha vencedora da Copa anterior em 1990, sobe ao palco trazendo consigo o verdadeiro troféu.


- Depois foi o jogo em que a Alemanha venceu a Bolívia por 1-0. Os alemães venceriam o grupo C e chegariam até aos quartos de final onde perderam para a Bulgária (que seria uma surpreendente quarta classificada) e os bolivianos (que tinham surpreendido na qualificação ao ganharem 2-0 ao Brasil) deixaram os Estados Unidos após a fase do grupos, após nova derrota com a Espanha e um empate com a Coreia do Sul, e desde então nunca mais se qualificaram para um Mundial. O único golo da Bolívia foi marcado contra a Espanha por Erwin Sanchez que na altura jogava no Boavista e também passaria pelo Benfica.


Daryl Hall & The Sounds Of Blackness "Gloryland"



quarta-feira, 6 de junho de 2018

Dossier Pelicano (1993)

por Paulo Neto

Julia Roberts é porventura a actriz da qual eu terei visto mais filmes. Embora eu tenho uma ligeira preferência por ver a eterna "Pretty Woman" em papéis cómicos, também gosto de vê-la noutros registos, como é o caso deste filme.


"Dossier Pelicano" ("The Pelican Brief") é um thriller de 1993 realizado por Alan J. Pakula, adaptado de um romance de John Grisham. Eu recordo-me de ter visto este filme no cinema em princípios de 1994 (o ano em que passei ir regularmente ao cinema) mas confesso que já tinha esquecido grande parte da história até um revisionamento recente no canal AXN. Os direitos da adaptação do livro foram postos à venda ainda antes de ser escrito e Grisham escreveu a personagem de Darby já com a ideia de Roberts (que aceitou o papel mesmo antes do livro ser editado) desempenhá-la no filme.  



Quando dois juízes do Supremo Tribunal dos Estados Unidos são assassinados, Darby Shaw (Roberts), uma estudante de Direito de Nova Orleães, elabora um dossier com a sua teoria. Victor Mattiece, um magnata do petróleo e amigo próximo do Presidente dos Estados Unidos (Robert Culp), descobriu um valiosíssimo jazigo de petróleo numa área protegida no estado do Louisiana que é um santuário para aves raras, incluindo o pelicano castanho. Por causa disso, a exploração nessa zona protegida foi inviabilizada em primeira instância. Recorrendo para o Supremo Tribunal, as mortes dos dois juízes terá sido encomendada por pessoas ligadas a Mattiece para assegurar uma decisão favorável, uma vez que os dois tinham em comum serem defensores das causas ambientalistas que provavelmente vetariam a exploração.



Thomas Callahan (Sam Shepard), o professor com quem Darby tem uma relação secreta, acha a teoria interessante e entrega uma cópia do dossier ao seu amigo do FBI Gavin Verheek (John Heard). Quando Callahan morre numa explosão de uma bomba no seu carro e Darby é perseguida por um desconhecido e o seu computador e disquetes são roubados, a jovem percebe que a sua teoria está certa e que corre perigo de vida, decidindo viver clandestinamente. A sua situação ainda se complica mais quando Khamel (Stanley Tucci), o assassino dos juízes, mata Verheek e faz-se passar por ele para se encontrar com Darby, sendo abatido a tiro no momento em que ia matá-la.


Entretanto, Gray Grantham (Denzel Washington), um jornalista de Washington, é contactado por alguém que revela informações sobre os assassinatos que confirmam a teoria de Darby. Gray e Darby encontram-se em Nova Iorque e concluem que o informador é Curtis Morgan (Jake Weber), um advogado da firma que representa Mattiece, cujos sócios terão encomendado os assassinatos dos juízos. Quando descobrem que Morgan está morto, a estudante e o jornalista lançam-se numa corrida contra o tempo para reunir as provas que comprovam a teoria, certos que há gente poderosa que fará tudo para os impedir. Até porque as revelações do Dossier Pelicano podem acabar com as hipóteses de reeleição do Presidente americano.  



Do elenco fazem ainda parte Tony Goldwyn como o chefe de gabinete da Casa Branca; Cynthia Nixon, como a colega e amiga de Darby; James B. Sikking como o director do FBI; e John Lithgow, como o director do jornal de Gray. 




Ao contrário do livro de Grisham, em que Darby e Gray (que na obra é caucasiano) acabam por se envolver, no filme não existe romance entre os dois protagonistas, apenas a sugestão que tal possa vir a acontecer no futuro. Consta que Julia Roberts era a favor de fazer par romântico com Denzel Washington, mas este seria da opinião que sendo assim, o romance interracial eclipsaria a história em si. O filme teve ainda a particularidade de ser filmado em sequência e de não haver qualquer aparição do vilão principal (Victor Mattiece). 

Trailer:


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