sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

A Vida Continua (1989-93)

por Paulo Neto 


Quando eu era criança e pré-adolescente, uma das muitas coisas que eu gostava nas férias grandes era o facto de poder ver televisão mais tempo, sobretudo a programação das tardes da RTP, porque vários dos meus anos lectivos eram maioritariamente durante a tarde. Era também por essa altura que a RTP fazia uns ajustes na grelha e exibia alguns programas ao longo do Verão.
E foi no Verão de 1991 que eu vi esta série, cujas duas primeiras temporadas foram exibidas de segunda a sexta feira à tarde na RTP 1. As outras duas temporadas foram posteriormente exibidas na RTP2 durante o "Agora, Escolha". 



"A Vida Continua" ("Life Goes On") foi uma série americana que contava os dramas quotidianos de uma família de classe média dos arredores de Chicago e foi inovadora por ser a primeira série, creio que no mundo inteiro, a ter um actor portador de Síndroma de Down (ou Trissomia 21) como um dos protagonistas, numa altura onde ainda era muito raro e esporádico haver actores assim na televisão. A série teve quatro temporadas, exibidas nos Estados Unidos entre 1989 e 1993. 

 



A família Thatcher é composta pelo pai Drew (Bill Smitrovich), a mãe Libby (Patti LuPone), o filho Charles, tratado por todos Corky (Chris Burke) de 18 anos e a filha Rebecca, ou Becca, (Kellie Martin) de 14 anos. Existe ainda Paige (Monique Lanier na primeira temporada, Tracey Needham nas outras), a filha do primeiro casamento de Drew, que a princípio ainda vive com eles mas a certa altura passa a viver sozinha e o cão Arnold que no genérico é ignorado pelos donos durante a sua azáfama matinal que no fim acaba sozinho com a sua tigela de comida vazia.
Por falar em genérico, o título da série vem de um excerto da letra da canção "Obladi Oblada" dos Beatles cantada pelo elenco. 





Embora houvesse episódios mais focados em algumas questões pessoais e profissionais de Drew e Libby, a série focava sobretudo em Corky e Becca. Depois de ter passado a vida em aulas de ensino especial e com o apoio dos pais, Corky pretende acabar o liceu na escola da irmã e provar a todos que apesar do Síndroma de Down, é perfeitamente capaz de obter a sua educação numa escola normal. Através de Corky, a série mostrava todos os desafios que os portadores de Trissomia 21 enfrentam no dia-a-dia na sua luta pela integração na sociedade e desfazer os mitos sobre as supostas incapacidades. Inevitavelmente Corky sofre bullying na escola e o cepticismo dos professores face às suas capacidades mas aos poucos vai fazendo amigos e vai provando o seu valor. A série chegou mesmo a demonstrar que pessoas com Síndroma de Down também têm desejos afectivos e físicos, mostrando Corky a se interessar por algumas raparigas, com ou sem Síndroma de Down. No final ele acaba casado com Amanda Swanson (Andrea Friedman), também com Trissomia 21 e a trabalhar num cinema.



Já Becca é a típica adolescente que vive todos os seus dramas típicos da idade, desde a acne às paixões não correspondidas. Apesar de inteligente e empenhada, ela é algo desajeitada socialmente e é vista na escola como apenas uma marrona. Becca tem um paixoneta pelo popular bonitão Tyler Benchfield (Tommy Puett) mas acredita que ele nunca olharia para ela duas vezes. Com o tempo, Becca vai ficando mais segura de si e acaba por conseguir namorar com Tyler, que entretanto também se tornou amigo de Corky, por este fazer-lhe lembrar de um irmão falecido que sofria do mesmo síndroma.   



Entretanto, na segunda temporada, Libby engravida pela terceira vez e dá a luz um rapaz, Andrew, no último episódio (também o último que vi quando acompanhei essa série no Verão de 1991).



Nas duas últimas temporadas, a história principal é a da relação de Becca com o novo namorado Jesse McKenna (Chad Lowe), que era seropositivo. Numa altura em que havia ainda muito estigma para com os seropositivos e muitas noções erradas quanto à transmissão do vírus HIV, a série aproveitou para informar os telespectadores sobre a doença, como é ou não transmitida, e a importância de ter sexo protegido e fazer testes de HIV. No final da série, há um fast forward que mostra uma Becca mais velha que conta que Jesse acabaria por morrer de SIDA e que agora está casada e com um filho chamado Jesse. 


Já não me lembro assim muito da série "A Vida Continua" mas lembro-me de gostar muito de ver e de caso estivesse na rua nessas férias, fazer questão de voltar a casa todos os dias para ver um novo episódio. Recordo-me ainda que tive um pequeno crush pela Becca/Kellie Martin que mais tarde, entre inúmeros telefilmes, também entrou na série "E.R.". 

Genérico (1.º episódio)


Genérico (4.ª temporada, com Arnold finalmente a ter a sua comida)





sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Aventuras Fora de Horas (1987)

por Paulo Neto


Voltando a abrir o baú dos filmes que eu vi na "Sessão Da Noite", o espaço da cinema da RTP1 nas noites de sexta-feira no início dos anos 90, recordamos hoje "Aventuras Fora de Horas" (no original "Adventures In Babysitting") filme de 1987 que marcou a estreia na realização de Chris Colombus, então mais conhecido como argumentista ("Gremlins", "Goonies") e que uns anos mais tarde entraria para a história do cinema ao realizar "Sozinho Em Casa". Consta que Colombus recebeu mais de cem guiões para o seu primeiro filme como realizador e escolheu este porque queria começar com um filme mais simples.



Trata-se de uma comédia com laivos de acção protagonizada por Elisabeth Shue, no papel de uma adolescente para quem uma simples noite de trabalho de babysitter acaba por se tornar numa grande aventura. Aparentemente, muitas actrizes conhecidas fizeram audição ou foram consideradas para o papel principal incluindo Michelle Pfeiffer, Jodie Foster, Julia Louis-Dreyfus, Sharon Stone, Andie McDowell, Justine Bateman, Tatum O'Neal, ou Molly Ringwald. Além de Shue, a outra finalista para ser a protagonista foi Valerie Bertinelli.  



Chris Parker (Shue) é uma jovem de dezassete anos dos arredores de Chicago que fica desapontada quando o seu namorado Mike (Bradley Whitford) cancela o encontro de aniversário de namoro. Ela decide então chamar a sua amiga Brenda (Penelope Ann Miller) para passar a noite com ela, mas entretanto ela aceita tomar conta de Sara Anderson (Maia Brewton), uma miúda de oito anos obcecada com o Thor, usando sempre o capacete com asas semelhante ao herói da Marvel. Brad (Keith Coogan), o irmão de Sara, tem um fraquinho por Chris e preparava-se para passar a noite em casa do seu amigo Daryl (Anthony Rapp), quando muda de ideias. É então que Chris recebe um telefonema de Brenda que foi parar a uma parte pouco recomendável de Chicago e que lhe pede para a ir buscar. Perante a insistência deles, Sara, Brad e Daryl vão acompanhá-la e esse é o início de uma noite louca em Chicago para os quatro. Chris fura o pneu do carro da mãe, o rebocador (John Ford Noonan) desata aos tiros ao descobrir que a mulher o trai, eles são perseguidos por três criminosos (John Chandler, Ron Canada e Calvin Levels), cantam os blues para uma plateia, vão parar a uma festa universitária onde um estudante, Dan (George Newbern), os ajuda e encontram um garagista muito parecido com o Thor (Vincent D'Onofrio). Pelo meio, descobrem que Mike está com outra rapariga no restaurante em que tinha combinado levar Chris, Brad leva com uma faca no pé quando se metem no meio de uma luta entre gangs e dois sem-abrigos reclamam cada qual que a cabine telefónica em que Brenda se refugiou é a casa deles.



Mas no fim, o grupo consegue buscar Brenda, voltar a casa e limpar toda a confusão antes dos pais de Sarah e Brad chegarem. Brad admite que compreende que Chris não corresponda aos sentimentos e encoraja o seu romance com Dan.

Em 1989, um episódio-piloto de uma adaptação do filme para televisão chegou a ser gravado mas o projecto acabou não ser comprado. Curiosamente, o papel de Chris nesse piloto foi interpretado por Jennifer Guthrie, que viria a contracenar com Maia Brewton na série "Parker Lewis Can't Lose" e os papéis de Brad e Daryl foram interpretados por dois actores que viriam a ter mais sucesso nas suas séries seguintes: Joey Lawrence ("Blossom") e Brian Austin Green ("Beverly Hill 90210").
Em 2016, o Disney Channel produziu um remake de "Aventuras Fora de Horas" com Sabrina Carpenter e Sofia Carson.

Trailer:


     

Sequência inicial:


"Babysitting Blues"


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

20 coisas que aconteceram há 20 anos (2000)

por Paulo Neto

Já passaram vinte anos desde que acolhemos a chegada do ano 2000 e no entanto ainda parece que foi ontem!

Ao longo do século XX (e quiçá até antes), o ano 2000 estava carregado de misticismo. Dos receios apocalípticos ("a mil chegarás, de dois mil não passarás") às mais espectaculares visões do futuro, a mudança para o número 2 no primeiro algarismo dos anos da era cristã dava azo à imaginação. E sem dúvida que a passagem de ano de 1999 para 2000 foi sem dúvida uma das mais globalmente celebradas, sobretudo depois de afastados os receios do bug Y2K.
Claro que se queremos ser matematicamente correctos, o ano 2000 foi o último ano do século XX e do segundo milénio d.C. , com o novo século e milénio a começar de facto em 2001. Mas para quase todos, o ano 2000 representava um novo início. E foi em auto-celebração que o mundo acolheu esse ano, quando ainda a palavra globalização era sobretudo uma promessa de progresso e união mundial e onde ainda era fácil acreditar que a humanidade caminhava a passos largos para algo melhor. (Infelizmente essa ilusão seria literalmente estilhaçada no ano seguinte e desde então parece que tem tudo sido colina abaixo).
Também para mim o ano 2000 foi também um início de ciclo já que foi nesse ano que completei vinte anos. Pessoalmente foi um ano agridoce para mim: por um lado, houve uma crise na minha família e o segundo ano da minha licenciatura foi de longe o mais complicado; por outro, foi finalmente o ano em que pus o pé fora de solo português, numa viagem à Galiza uns dias depois do meu aniversário. (Desde então, os meus pés já foram postos em dez países estrangeiros).
Na minha opinião, apesar da sua mística, e sobretudo se comparado com 1999, não creio que 2000 tenha sido um ano super marcante no cômputo geral. Mas ainda assim teve bastante acontecimentos e hoje vamos recordar 20 coisas que aconteceram nesse ano.



1. O Sporting voltou a ser campeão ao fim de dezoito anos
Quando em 1982 os leões conquistaram o seu 16.º campeonato nacional decerto que ninguém imaginaria que teriam de esperar até ao ano 2000 para poderem erguer o décimo sétimo troféu, com o FC Porto e o Benfica a vencerem todos os títulos de permeio e somente uma Taça de Portugal (1995) e duas Supertaças (1987 e 1995) foram parar a Alvalade.


Mas na época 1999/2000, ao fim de dezoito anos, o Sporting finalmente voltou a conquistar o mais almejado título nacional de futebol. Comandados por Augusto Inácio e com um plantel que reunia nomes como Peter Schmeichel, Beto, Rui Jorge, Quim Berto, Aldo Duscher, Toñito, Iordanov, Afonso Martins e Beto Acosta, os leões puseram fim a uma série de cinco títulos consecutivos do FC Porto. A emoção durou até ao fim: uma vitória do Benfica em Alvalade adiou a decisão para a última jornada, com o Sporting a confirmar o triunfo diante uma vitória frente ao Salgueiros.
O Sporting voltaria a ser campeão duas épocas mais tarde, mas desde então já se passaram mais dezoito anos...



2. Glória e drama para Portugal no EURO 2000


Figo e Nuno Gomes marcaram contra a Inglaterra
A Alemanha caiu ao pés de Sérgio Conceição
O descalabro após a mão na bola de Abel Xavier


A Bélgica e a Holanda organizaram conjuntamente o Campeonato da Europa de 2000 (quando já se sabia que Portugal iria acolher o seguinte). Para mim, é capaz de ter sido uma das melhores edições da competição, com bom futebol praticado e muitos jogos repletos de emoção. Recomendo vivamente o texto que o Francisco Ramalheira escreveu no seu blogue sobre o EURO 2000. A selecção portuguesa foi sem dúvida uma das grandes protagonistas desse Europeu com uma campanha brilhante que nos fez sonhar que o caneco era possível. E as coisas de início até nem pareciam muito favoráveis ao termos sido incluído num grupo com as sempre poderosas Alemanha e Inglaterra, mais a Roménia que tinha ficado à nossa frente no grupo de qualificação. Dois golos ingleses no início do primeiro jogo pareceriam confirmar tudo isso mas eis que de repente golos de Figo e João Pinto empatam a partida antes do intervalo e Nuno Gomes faz depois o golo da reviravolta. Contra a Roménia, um inspirado momento de Costinha já na recta final do jogo decide as coisas a nosso favor. Com os quartos de final e o primeiro lugar do grupo garantidos, Portugal dá-se ao luxo de jogar contra a Alemanha sem vários dos titulares habituais e mesmo assim humilha a Mannschaft num hat-trick de Sérgio Conceição. Nos quartos contra a Turquia, Nuno Gomes bisa e Vítor Baía defende um penalty. Na meia-final contra a França, tudo parecia continuar sobre rodas com outra vez Nuno Gomes a marcar, inaugurando o marcador. Um golo de Henry leva o jogo para prolongamento e aí o descalabro: Abel Xavier toca com o braço na bola, o árbitro austríaco Gunter Benko assinala grande penalidade, os jogadores portugueses perdem a cabeça e Zidane converte facilmente o penalty, levando os gauleses até à final onde bateriam a Itália. Foi um final demasiado triste para aquela que tinha sido uma campanha de sonho de Portugal mas ficou no ar a impressão que vencer uma grande competição poderia ser possível. E foi, embora até lá ainda faltassem dezasseis anos...

Resumo do emocionante Portugal-Inglaterra:


3. O Chanquete de "O Verão Azul" morreu na vida real
O actor espanhol ficaria para a posterioridade do imaginário ibérico (e não só) como o rude mas amável pescador Chanquete na mítica série "O Verão Azul" e o episódio da morte da personagem foi sem dúvida o momento mais triste de toda a trama. Mas a 16 de Outubro de 2000, Antonio Ferrandis acabaria por falecer na vida real aos 79 anos.
Foi também em 2000 que nos despedimos de Charles Schulz, o criador da banda desenhada "Peanuts" (do Charlie Brown e do Snoopy); da actriz e inventora Hedy Lamarr; da cantora israelita Ofra Haza; de Ian Dury, o cantor de "Sex & Drugs & Rock'n'roll"; da "actriz" francesa Lolo Ferrari famosa pelos seus peitos descomunais; da rainha dos romances cor-de-rosa Barbara Cartland; dos actores Walter Matthau, Alec Guinness e Jason Robards; do lendário campeão olímpico checo Emil Zatopek; da cantora britânica Kirsty McColl e do músico Ben Orr, baixista da banda Cars e cantor do seu famoso hit "Drive".

In Memoriam 2000: Antonio Ferrandis, Ofra Haza, Walter Matthau, Emil Zatopek 



4. Nasceram futuras estrelas na música e no desporto
Foi no ano 2000 que nasceram algumas das mais jovens estrelas do desporto e do mundo do espectáculo. Por exemplo, Willow Smith, filha dos actores Will Smith e Jada Pinkett-Smith, que em 2010 foi uma das mais jovens pessoas a ter um hit global com "Whip My Hair", mas também Noah Cyrus, irmã de Miley e filha de Billy Ray; a havaiana Auli'i Cravalho, a voz de "Vaiana"; o cantor búlgaro Kristian Kostov, que em 2017 apenas ficou atrás do nosso Salvador Sobral no Festival da Eurovisão; a campeã olímpica americana Chloe Kim, estrela-prodígio no snowboard desde tenra idade; o rapper Lil' Pump; a ginasta americana Laurie Hernandez e duas estrelas do desporto canadiano: Penny Oleksiak, campeã olímpica de natação e Bianca Andreescu, tenista vencedora do US Open de 2019.
Geração 2000: Willow Smith, Noah Cyrus, Lil' Pump, Bianca Andreescu



5. Nuno Delgado e Fernanda Ribeiro ganharam medalhas de bronze nos Jogos Olímpico de Sydney.



Os Jogos da XXVII Olímpiada realizaram-se entre 15 Setembro e 1 de Outubro em Sydney, na segunda vez que o certame foi organizado na Austrália e no Hemisfério Sul. 10651 atletas de 199 países participaram, incluindo 62 atletas portugueses e, sob a bandeira olímpica, quatro atletas de Timor Leste. O triatlo e o taekwondo estrearam-se como modalidades olímpica e pela primeira vez, houve mulheres a competir no pólo aquático, no pentatlo moderno, no halterofilismo, no salto à vara e no lançamento do martelo. Durante a grandiosa cerimónia de abertura, a atleta de raízes aborígenes Cathy Freeman (que viria a vencer os 400m) acendeu a pira olímpica.




Do lado português, o destaque foi obrigatoriamente para as duas medalhas de bronze: Nuno Delgado conseguiu a primeira medalha olímpica do judo português (categoria 81kg) ao bater por ippon o uruguaio Alvaro Paseyro no combate um dos dois terceiros lugares; enquanto isso Fernanda Ribeiro juntou ao glorioso ouro de Atlanta um nada menos fantástico bronze em Sydney nos 10000m, segurando o pódio atrás da etíopes Derartu Tulu e Gete Wami com um tempo mais rápido do que aquele com que fora campeã olímpica quatro anos antes. Destaque ainda para a repetição do quatro lugar de Atlanta por parte da dupla do vólei de praia, Miguel Maia e João Brenha, três lugares nos oito primeiros na vela, o 5.º lugar de João Costa no tiro e o 7.º de Michel Almeida na categoria de judo de 73kg (onde nesse ano foi campeão da Europa).


6. Chuva de medalhas para Portugal nos Jogos Paralímpicos
E se a prestação olímpica portuguesa em Sydney foi positiva, a da equipa paralímpica foi simplesmente fabulosa com o seu melhor pecúlio de sempre: 16 medalhas, 6 de ouro, 5 de prata e 5 de bronze nos desportos de atletismo, natação e boccia. Gabriel Potra foi o atleta mais galardoado com ouro nos 200m e na estafeta 4x100m e bronze nos 100m (categoria invisual T12). E eis os nomes dos outros medalhados: Carlos Lopes, Paulo Coelho, Carlos Ferreira, José Alves, José Gameiro, Firmino Baptista, José Monteiro, Maria Fernandes (atletismo), José Macedo, Armando Costa, Luís Belchior, António Marques, Fernando Ferreira, Pedro Silva (boccia) e Susana Barroso (natação). 

Gabriel Potra foi um dos atletas portugueses
que brilharam nos Jogos Paralímpicos de 2000


7. Coldplay, Linkin Park, Jill Scott, Nelly Furtado e Anastacia lançaram os seus álbuns de estreia.
Houve música para todos os gostos em 2000, com novos álbuns de Britney Spears ("Oops...I Did It Again"), Eminem ("The Marshall Matters LP"), Madonna ("Music"), Robbie Williams ("Sing When You're Winning"), Limp Bizkit ("Chocolate Starfish And The Hotdog Flavored Water"), Kylie Minogue ("Light Years"), HIM ("Razorblade Romance"), Oasis ("Standing On The Shoulders Of Giants"), AC/DC ("Stiff Upper Lip"), Joni Mitchell ("Both Sides Now"), NSYNC ("No Strings Attached"), Backstreet Boys ("Black & Blue"), A-Ha ("Minor Earth Major Sky"), Morcheeba ("Fragments Of Freedom"), The Corrs ("In Blue"), Radiohead ("Kid A"), Green Day ("Warning"), Spice Girls ("Forever"), Bon Jovi ("Crush"), OutKast ("Stankonia"), Moloko ("Things To Make And Do") e U2 ("All That You Can't Leave Behind").
Foi também neste ano que alguns nomes que viriam a marcar a música ao longo da nova década editaram o seu álbum de estrela: os Coldplay com "Parachutes", os Linkin Park com "Hybrid Theory) e as cantoras Jill Scott ("Who Is Jill Scott?"), Anastacia ("Not That Kind") e Nelly Furtado ("Whoa, Nelly"). Em Portugal, destaque para o segundo (e último) álbum dos Silence 4: "Only Pain Is Real".





8. 43 canções foram n.º 1 no Reino Unido
No ano 2000, nada menos que 43 canções atingiram o primeiro lugar do top britânico de singles, um recorde que perdura até hoje e dificilmente será batido. Se excluirmos o duplo single dos Westlife "I Have A Dream/Seasons In The Sun" que vinha da última semana de 1999, apenas sete singles aguentaram mais que uma semana no topo da tabela em 2000 e "It Feels So Good" de Sonique foi o único que conseguiu mais de duas semanas. Reflectindo a grande diversidade musical desse ano, o lugar cimeira do top britânico foi ocupado por nomes tão díspares como Manic Street Preachers, Spice Girls, All Saints, Robbie Williams, Craig David, Mariah Carey, Oasis, Kylie Minogue, Eminem, The Corrs, U2, Destiny's Child e até o Bob, O Construtor!

Sonique foi uma das artistas que atingiram o n.º 1 do top britânico em 2000

Foi também em 2000 que dançámos ao som de faixas como "Lady (Hear Me Tonight") dos Modjo, "One More Time" dos Daft Punk, "Groovejet (If This Ain't Love)" de Spiller com Sophie Ellis-Bextor, "Don't Give Up" de Chicane com Bryan Adams, "Toca's Miracle" de Fragma, "Freestyler" dos Bomfunk MCs, "Sandstorm" de Darude, "Sex Bomb" de Tom Jones e Mousse T., "Who Let The Dogs Out" dos Baha Men, "Around The World (La La La)" dos ATC e "La Bomba" de King África.   

9. A Dinamarca voltou a vencer o Festival da Eurovisão 37 anos depois.



Pela primeira vez desde 1970, Portugal não participou no Festival da Eurovisão devido ao fraco coeficiente de resultados dos anos anteriores (apesar de mesmo assim ter havido uma edição do Festival da Canção em 2000, com a canção vencedora a ser "Sonhos Mágicos" interpretado por Liana) e por isso não foi um dos 24 países a estarem presentes no 45.º Festival da Eurovisão, realizado no dia 13 Maio de 2000 em Estocolmo, naquela que foi a primeira edição na qual foi editado um CD oficial.


Entre as diversas prestações, destaque para a brilhante estreia da Letónia, com a banda Brainstorm a alcançar o terceiro lugar e para a controversa actuação de Israel por parte do grupo PingPong que conteve um beijo na boca entre os membros masculinos do grupo, o quarteto e as duas cantoras de coro a erguerem bandeiras de Israel e da Síria e sobretudo, um completo desafinanço por parte de todos eles. Mas a vitória acabou por sorrir à Dinamarca, que perseguia uma segunda vitória desde 1963 (então um recorde para o maior espaço entre duas vitórias no certame, depois batido pela Áustria em 2014), com os irmãos Jorgen e Niels Olsen, os Olsen Brothers e o tema "Fly On The Wings Of Love" (talvez também conheçam a versão eurodance de 2003 dos espanhóis XTM). Uma terceira vitória dinamarquesa viria treze anos depois, curiosamente em outro ano em que Portugal não participou.

10. Vimos gladiadores, anjos e galinhas no cinema
Entre os filmes do ano 2000, tivemos "Gladiador", com Russell Crowe a lutar nas arenas romanas rumo ao Óscar, uma remake MTV da série "Os Anjos de Charlie" com Cameron Diaz, Drew Barrymore e Lucy Liu, os primeiros filmes das franchises "X-Men", "Scary Movie" e "Destino Final". Na animação, destaque para "A Fuga Das Galinhas", ainda hoje a longa metragem de animação stop motion mais rentável de sempre.



Outros filmes que estrearem em 2000 temos "Erin Brockovich", "Cast Away - O Náufrago", "O Que As Mulheres Querem", "Um Sogro do Pior", "Scream 3", "A Praia", "Romeu Deve Morrer", "Alta Fidelidade", "American Psycho", "As Virgens Suicidas", "Mission: Impossible 2", "60 Segundos", "Os Três Reis", "Pokémon - O Filme", "Bring It On - Tudo Por Elas", "Quase Famosos", "Requiem For A Dream - A Vida Não É Um Sonho", ""O Tigre e o Dragão", "Snatch - Porcos e Diamantes", "Chocolate", "Miss Detective", "Traffic - Ninguém Sai Ileso", "Os 102 Dálmatas" e "Grinch".

11. Foi feito um filme português sem imagens



No cinema português de 2000, não há como escapar à obra mais controversa: "Branca de Neve" de João César Monteiro, estreado a 10 de Novembro. Nem mesmo o facto dos cinéfilos nacionais estarem habituados às provocações do realizador podia preparar para o que vinha nesta obra: um filme sem imagens, quase todo num ecrã preto, com apenas curtos e raros planos inseridos e onde se ouvem vozes de actores como Diogo Dória, Ana Brandão e Luís Miguel Cintra . O projecto era uma adaptação da peça do mesmo nome do suíço Robert Walser. Mas o principal foco da polémica foi o facto do Instituto do Cinema e do Audiovisual ter dado um subsídio de 130 mil contos (650 mil euros) para a produção do filme, gerando discussões sobre a forma como se atribui subsídios ao cinema. O produtor Paulo Branco acabaria por devolver parte do dinheiro do subsídio e chegou a haver uma iniciativa de organizar visualizações do filme para invisuais.
Com muito menos polémica, outros filmes portugueses estreados em 2000 foram "Capitães de Abril" (sobre a Revolução dos Cravos, na estreia de Maria de Medeiros como realizadora), "Camarate", "O Fantasma", "Tarde Demais", "Palavra E Utopia" e "Peixe Lua".

12. As tragédias do Kursk e do Ônibus 174 (Sandro Nascimento)
Entre os acontecimentos mais trágicos do ano de 2000, destaque para dois: um na Rússia e outro no Brasil.
A 12 de Junho, no Rio de Janeiro, Sandro Rosa de Nascimento, de 21 anos, subiu a bordo do autocarro 174 na zona do Jardim do Botânico armado com uma pistola. Apercebendo-se disso, um dos passageiros fez sinal a uma viatura policial que passava por perto. Quando o autocarro foi interceptado pela polícia, Nascimento tomou os onze passageiros como reféns e seguiram-se horas de aflição com uma multidão de polícias, equipas de televisão e vários curiosos a rodearem a viatura, ameaçando matar os reféns caso não cumprissem as suas exigências de fuga, chegando mesmo a simular a execução de uma passageira. Algumas horas depois, Sandro Nascimento saiu do autocarro usando a refém Geisa Gonçalves como escudo. Um tiro falhado de um agente para o atingir precipitou o sequestrador a disparar a arma, matando a refém. Nascimento foi visto com vida pela última vez ao ser levado para a esquadra.
Sandro Nascimento com uma refém

O caso reflectiu mais uma vez o eterno problema da criminalidade no Rio de Janeiro, onde muitos jovens como Sandro Nascimento convivem desde tenra idade com a miséria, o crime, a indigência e a droga que assolam as favelas cariocas. Veio-se mais tarde a saber que terá vivido na rua desde os oito anos de idade pouco depois de assistir ao assassinato da sua mãe e que foi um dos sobreviventes do massacre da Igreja da Candelária de 1993, quando milícias dispararam sobre os jovens que dormiam perto da igreja. A tragédia do Ônibus 174 deu origem a dois filmes, um documentário e um de ficção, com Michel Gomes (da série "3%") no papel de Sandro Nascimento. Lembro-me também de uma grande reportagem da SIC uns anos mais tarde sobre o caso. 
Monumento ao desastre do submarino Kursk

A 12 de Agosto, durante o primeiro grande exercício mental da marinha russa após a queda da União Soviética, o submarino Kursk, movido a energia nuclear, explodiu no fundo do mar de Barents matando os 118 membros da sua tripulação (estima-se que os cerca de trinta sobreviventes de explosão terão depois falecido devido à falta de oxigénio e inalação de gases tóxicos). O desastre revelou a deficiente capacidade de resposta da marinha russa, que tardou em lançar as missões de salvamento. Foi ainda criticado o facto do governo russo - então já liderado por Vladimir Putin - ter demorado a aceitar ajuda internacional, apenas autorizado o auxílio por parte da Grã-Bretanha e da Noruega cinco dias depois. A tragédia do Kursk inspirou uma peça de teatro e um filme.

13. Uma cegonha deixou meio Portugal às escuras



A 9 de Maio, por volta das 22 horas, praticamente todo o sul do país, incluindo Lisboa, ficou às escuras durante cerca de duas horas. As imagens de uma Lisboa completamente às escuras trouxe memórias de outros tempos, quando a electricidade era um bem escasso. Apesar dos reforços policiais na capital, não se registaram ocorrências de assaltos.
Calcula-se que o apagão foi causado por uma cegonha que embateu contra os fios de alta tensão numa zona do concelho da Figueira da Foz.

14. George W. Bush foi eleito presidente dos Estados Unidos



Num preâmbulo do que viria a ser o actual pandemónio político americano, as eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2000 foram marcadas pela polémica. George W. Bush, filho do presidente George W.H. Bush era o candidato republicano e Al Gore, vice-presidente dos mandatos de Bill Clinton, concorria pelos democratas. Apesar de Gore ter tido mais votos absolutos, Bush ganhou no Colégio Eleitoral e tornou-se o 43.º Presidente dos Estados Unidos, não sem antes suspeitas de manipulações de votos que levou a uma recontagem de votos no estado da Flórida.
O primeiro mandato de Bush filho ficaria marcado pelo 11 de Setembro e a nova guerra no Iraque, além de várias gaffes. Na altura, pensava-se que não seria possível haver um presidente americano com mais provas de inaptidão para o cargo. Mas em 2016, confirmou-se que quando se pensa que se bateu no fundo, há sempre mais um alçapão. 

15. O pequeno Elián Gonzalez foi alvo de um novo braço-de-ferro entre Cuba e Estados Unidos
Antes das eleições, o momento mais marcante de 2000 na política americana foi a disputa familiar pelo pequeno Elián Gonzalez que trouxe de novo à baila a longa tensão entre Estados Unidos e Cuba. Em Novembro de 1999, ele foi um dos sobreviventes de um naufrágio de um barco com cubanos que pretendiam chegar aos Estados Unidos, sendo uma das vítimas a sua mãe. Resgatado pelas autoridades americanas, Elián foi entregue a parentes residentes em Miami. Seguiu-se depois um braço de ferro entre os seus familiares em Miami, apoiados pela comunidade cubana local, e o pai do menino, Juan Miguel, que pretendia que ele regressasse a Cuba.


Quando um tribunal da Flórida decidiu que apenas o pai, e não os outros parentes, teria direito a pedir asilo político em nome da criança, a Procuradora-Geral Janet Reno ordenou que a forças federais retirassem Elián aos parentes de Miami. A 22 de Abril, agentes federais invadiram a casa dos familiares de Miami e durante a confusão, um fotógrafo capturou a imagem do agente federal Jim Goldman de arma em riste a confrontar Donato Dalrymple (um dos outros sobreviventes do naufrágio) que se escondeu com o menino dentro de um roupeiro, enquanto segurava um choroso Elián.
Elián Gonzalez em 2015

Quando todas as hipóteses de recurso dos familiares de Miami se esgotaram, Elián regressou a Cuba em Junho e o governo de Cuba fez dele um símbolo. Em 2005, Elián Gonzalez deu uma entrevista em que afirmou que via em Fidel Castro "não só um amigo, mas também um pai". Elián Gonzalez tem actualmente 26 anos, estudou Engenharia Industrial e ao que se sabe, trabalha para uma empresa estatal de construção de tanques e piscinas.

16. A Índia ganhou a Miss Universo e a Miss Mundo (outra vez!)
Em 1994, a Índia tornara-se num dos poucos países a conseguir conquistar os títulos de Miss Universo e Miss Mundo no mesmo ano, respectivamente graças a Sushmita Sen e Aishwarya Rai. E em 2000, o país repetiu o feito com mais duas beldades indianas a vencerem esses títulos.


Em 12 de Maio, na ilha de Chipre, Lara Dutta tornou-se a segunda Miss Universo indiana e provou que não só era uma cara muito bonita como bastante inteligente, conseguindo a pontuação mais alta de sempre no segmento de entrevista. Mais tarde, Lara Dutta destacou-se como actriz de Bollywood e é actualmente casada com tenista Mahesh Bhupathi.


Depois a 30 de Novembro no Millenium Dome de Londres, Priyanka Chopra, de 18 anos, tornou-se a quinta Miss Mundo indiana (a quarta em seis anos!). Chopra também tornar-se-ia uma estrela de Bollywood e depois veio a fazer sucesso nos Estados Unidos, onde protagonizou a série "Quantico" e em 2018, casou-se com o cantor Nick Jonas, o mais novo dos Jonas Brothers (que em 2000, tinha apenas oito anos!).

17. Foi o ano da Playstation 2, dos The Sims e do Nokia 3310.


No que diz respeito ao mundo dos videojogos, foi em 2000 que a Playstation 2 foi posta à venda (4 de Março no Japão, 24 de Novembro na Europa) e onde foi lançado o primeiro jogo da franquia "The Sims", bem como jogos como "Pokémon Stadio", "Residente Evil - Code: Veronica", "Mario Tennis", "Final Fantasy IX" e "Tomb Raider: Chronicles". Mas quiçá o jogo mais viciante de 2000 foi o jogo "Snake II" incluído em cada exemplar do telemóvel Nokia 3310, que foi lançado este ano. (Eu viria a ter um.) 

18. A SIC exibiu um telefilme em cada mês
Um dos grandes pontos altos da televisão nacional de 2000 foi a iniciativa SIC Filmes, com doze telefilmes que a (então) estação de Carnaxide produziu e exibiu em cada mês do ano. Os telefilmes ainda eram um produto televisivo raro em Portugal por isso, e aliado ao facto de a SIC ter apoiado a produção de filmes no cinema como "Adão E Eva", "Zona J" e "Tentação", as expectativas estavam altas. Dos doze filmes, o mais mítico foi o primeiro deles, "Amo-Te Teresa", com Ana Padrão e Diogo Morgado a viverem um amor proibido numa pequena vila alentejana e que o país parou para ver. Outros títulos exibidos foram "Monsanto", "Facas E Anjos", "Mustang", "Aniversário", "Amor Perdido", "A Noiva", "Um Passeio No Parque", "Alta Fidelidade" e "O Lampião Da Estrela".


Outros programas que estrearam na televisão portuguesa foram as séries "A Senhora Ministra""O Bairro da Fonte", "Super Pai", "Uma Aventura", "Capitão Roby", "Cuidado Com As Aparências""Criança SOS" e "A Loja do Camilo", a telenovela "Jardins Proibidos", o magazine "Sex Appeal" e os concursos  "Quem Quer Ser Milionário""A Febre Do Dinheiro" e "Negócio Fechado".

19. Os portugueses colaram DOTs na televisão
Falar da televisão em Portugal no ano 2000 é também falar do DOT, que como já falamos aqui, foi uma forma que a SIC arranjou de fidelizar telespectadores, primeiro no início do ano para testar as águas e depois mais tarde para tentar combater uma poderosa arma da concorrência.





Basicamente tinha-se de colar o DOT, que afinal era uma rodela de cartão, no canto do televisor para se poder ganhar todo o tipo de prémios (automóveis, electrodomésticos, viagens, litros de gasolina grátis...) e não se podia retirá-lo até ao final de um determinado programa, não se podendo mudar de canal nem mesmo nos intervalos, porque aparentemente o apetrecho tinha a tecnologia para detectar a duração da programação e autoinvalidar-se caso se mudasse de canal. Depois ter-se-ia de enviar o DOT por correio para depois se habilitar ao sorteio dos prémios, conduzido por Ana Marques no espaço "A Família DOT". Os DOT podiam ser adquiridos com a Revista TV Mais, nas lojas Worten, no McDonald's e nas bombas da BP e traziam o logótipo da sua origem. 
Mais tarde, vir-se-ia saber que essa suposta tecnologia não passava de uma trapaça, mas pelo menos houve quem ganhasse prémios. Ao que parece, os DOTs remanescentes são hoje alvo de colecção.

20. Portugal inteiro vigiou a vida de doze pessoas dentro de uma casa e a televisão portuguesa nunca mais foi a mesma.



Mas não há como evitar: o maior acontecimento televisivo e social em Portugal no ano 2000 foi a primeira edição portuguesa do "Big Brother". Tratava-se de um reality show em que um determinado número de pessoas viveria em reclusão durante um determinado tempo com câmaras a filmarem e a transmitirem para o exterior 24 horas por dia. Piet-Hein Bakker, então o director-geral da Endemol em Portugal, recorda o momento em que o presidente do grupo apresentou a ideia para o programa no livro "Vinte Anos de Televisão Privada Em Portugal" de Felisbela Lopes:

"Numa reunião que juntou na Alemanha todos os directores-gerais da Endemol, o presidente do grupo apresentou-nos um projecto que se chamava The Golden Cage. Era algo absolutamente inacreditável: imagens de biólogos que tinham sido fechados numa cúpula de vidro, sem contacto com o exterior, para perceber as consequências biológicas daquilo. Quando saíam eram imediatamente entrevistados para contar a experiência. (...) Nesse filme, uma das biólogas afirmava isto: "A maior dificuldade não foi estar ali fechada sem conforto. A maior dificuldade foi ter que conviver com as outras pessoas dentro daquele ambiente fechado." Ora foi este apontamento que chamou a atenção. A partir daqui a Endemol desenvolveu uma ideia de construir uma casa com uma horta onde as pessoas viviam em regime de auto-suficiência e onde tudo era filmado. Uma coisa diabólica! (...) Eu também tenho de confessar que me sentia mal com aquilo. Pensava que a Endemol tinha enlouquecido. Entretanto fizeram-se ajustamentos no formato que foi produzido na Holanda: reduziu-se o tempo para três meses, acedeu-se a colocar lá comida diariamente, mantendo tudo o resto, ou seja, tudo era filmado 24 horas por dia e as pessoas não tinham contacto com o exterior. Assim nasceu o Big Brother, que foi um êxito estrondoso na Holanda em 1999(...)" 

Após o sucesso na Holanda, outros países não tardaram em adaptar o programa ao longo do ano 2000 e a versão portuguesa estreou a 3 de Setembro de 2000. Antes disso, Emídio Rangel recusou-se terminantemente a comprar o programa para a SIC, pelo que a TVI, então liderada por José Eduardo Moniz, aproveitou a oportunidade e adquiriu o formato, na manobra que viria a ser considerada como o princípio do fim da liderança da SIC.


Embora não se pode dizer que que a estreia em si do primeiro "Big Brother" português foi auspiciosa, aos poucos o público foi deixando de resistir à curiosidade orwelliano-voyeurista de ver o que aquelas doze pessoas fechadas numa casa na Venda do Pinheiro faziam, mesmo que não fosse grande coisa. Os nomes dos concorrentes Célia, Maria João, Mário, Marco, Marta, Ricardo A., Ricardo V., Riquita, Sónia, Susana, Telmo e Zé Maria  (e mais tarde Carla e Paulo) passaram a andar nas bocas do povo e todos os seus passos na casa eram discutidos nas ruas, nos cafés e, creio que pela primeira vez num caso de um programa de televisão em Portugal, na internet. A TVI chegou a criar uma secção da sua redacção exclusivamente dedicada ao "Big Brother" e além do programa em si, havia vários blocos diários (onde por exemplo, se viu pela primeira vez uma tal de Cristina Ferreira) e alguns acontecimentos chegavam a ser mencionados nos noticiários da TVI.



O momento mais marcante foi sem dúvida o pontapé que Marco desferiu a Sónia durante uma discussão que levou à sua expulsão - ao ponto de o "Jornal Nacional" da TVI e alguma imprensa escrita ter dado mais destaque nesse dia a esse incidente do que ao anúncio da recandidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República. Mas também para a história ficaram momentos como a noite de sexo entre o Marco e a Marta, as desinibições do Sónia, as intrigas do Mário, as calinadas e picardias amorosas do Telmo e da Célia (que, contra todas as expectativas, continuam juntos até hoje), as tiradas da loura Susana e dos refúgios do Zé Maria no galinheiro. E claro que outro ingrediente para o sucesso foi a excelente apresentação de Teresa Guilherme, bem apoiada por Pedro Miguel Ramos. 
Na última noite do ano 2000, o país parou para ver o final que consagrou José Maria Seleiro como o vencedor. A sua figura caricata e a narrativa de underdog/peixe fora de água (era o único que não vinha de um grande meio urbano, foi semi-ostracizado pelos outros ao princípio) com que foi apresentado tornou-o no preferido do público desde muito cedo. (Infelizmente, esta fama viria a afectar gravemente a saúde mental do alentejano nos anos que se seguiram.)  

Se programas anteriores já tinham feito fissuras na barreira mística entre o português comum e as 
figuras do mundo da televisão, o "Big Brother" derrubou-a por completa e a partir daí a televisão e a noção de fama em Portugal nunca mais seriam as mesmas. 

E vocês, que memórias guardam dos anos 2000? Que acontecimentos desse ano vocês se lembram que não foram aqui mencionados? Deixem os vossos comentários aqui no blogue e/ou na página do Facebook.

Pulp "Disco 2000" (1995)
"Let's all meet up in the year 2000..."


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