sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Rei Leão (1994)

por Paulo Neto

Durante boa parte da minha vida de estudante, Dezembro era o mês mais aguardado. 
A começar, tinha logo dois feriados a 1 e 8 de Dezembro, respectivamente o Dia da Restauração da Indepêndencia e o Dia da Imaculada Conceição (e antigo Dia da Mãe), que resultava no curioso facto de durante duas semanas seguidas, o mesmo dia da semana fosse feriado e não houvesse aulas. Por isso eu (como seguramente muitos outros miúdos) ficava chateado quando havia um ano em que o 1 e o 8 de Dezembro calhavam em dois sábados ou domingos.
Depois porque Dezembro era a recta final do 1.º período. Claro que era uma altura carregada de testes de avaliação em todas as disciplinas, mas depois disso, havia farra no horizonte. Na primária, havia uma festa na escola, onde cada turma cantava um cantiga de Natal, fazia um teatrinho qualquer ou recitavam poesia. (A minha actuação preferida? Na 1.ª Classe, onde fui um "O" numa poema dramatizado sobre as vogais, com direito a simulação automóvel: "O O vai no pópó!") A partir do 2.º ciclo, havia geralmente numa das últimas aulas, geralmente de Português, uma troca de prendas e lanche partilhado. (Para um e outro, usava sempre os mesmos recursos: um baralho de cartas e uma torta Dan Cake). E por fim, chegavam as férias e era uma sucessão do momentos arrebatadores: a euforia do primeiro dia sem aulas, as programações televisivas da quadra, o Natal e a Passagem de Ano. E quando se dava por isso, aquelas duas semanas tinham passado em menos de um fósforo e era tempo de ressacar das festas e começar o 2.º período.
Não sei dizer qual foi o melhor Natal da minha vida, mas sei qual foi o meu melhor início de Férias de Natal de sempre. Foi em 1994, na primeira segunda-feira de férias, quando eu e o meu irmão fomos ao cinema ver "O Rei Leão".


Na altura, a Disney vivia uma época dourada com vários filmes animados que faziam história, começando com "A Pequena Sereia" e continuando com "A Bela e o Monstro" e "Aladino". A expectativa era elevada face a "O Rei Leão", pois era o primeiro filme da Disney com apenas personagens animais, sem nenhuma figura humana e a banda sonora era assinada por Elton John e Tim Rice. Mas em Portugal, a principal expectativa residia no facto deste ser o primeiro filme da Disney dobrado em português de Portugal, pois até então todos os filmes da Disney eram dobrados em brasileiro. Sim, era muito giro ouvir a Pequena Sereia a cantar "hoje eu tenho uma porção de coisas lindas nessa colecção..." mas já era tempo de que as personagens Disney falassem como nós, e não num português cantado e cheio de gerúndios.  O certo é que as expectativas foram mais que superadas e "O Rei Leão" ganhou lugar de honra no universo Disney.


Ao longo do filme, acompanhamos com emoção a evolução de Simba de leãozinho espevitado, que pensa que ser rei é fazer o que lhe apetece, a leão adulto pronto a assumir as suas responsabilidades. Vemos Nala passar de companheira de brincadeira de Simba a parceira ideal para rainha. Choramos a morte do seu sábio pai Mufasa e odiamos o maligno e maquiavélico Scar. Rimos com a adorável cumplicidade do javali Pumba e da suricata Timon enquanto cantamos "Hakuna Matuta" com eles. Também rimo-nos com os desastres das pérfidas mas hilariantes hienas: a astuta Shenzi, o desastrado Banzai e o indecifrável Ed. E "Can you feel love tonight" de Elton John entrou nas nossas jukeboxes mentais para nunca mais sair.


A dobragem portuguesa era imaculada graças ao talento de nomes como Carlos Freixo (Simba adulto), Cláudia Cadima (Nala adulta), António Marques (Mufasa), André Maia (Timon), José Raposo (Pumba), Rogério Samora (Scar), Cucha Carvalheiro (Shenzi), Adriano Luz (Banzai), Fernando Luís (Rafiki e Zazu) e Sara Feio (Nala criança). Abriu-se deste modo caminho para que as dobragens no nosso português fosse prática comum e desde então, a qualidade das nossas dobragens é amplamente reconhecida internacionalmente.

Se o filme em si já era uma experiência arrebatadora, melhor ainda foi vê-lo na primeira semana de férias de Natal. E calculo que para o meu irmão foi algo estratosférico, pois ele estava então na 1.ª Classe e estas eram as suas primeiras Férias de Natal. Ainda hoje, de vez em quando, recordamos esse dia com muita ternura. Memórias dessas são de valor inestimável.

Trailer português do VHS:


"Hakuna Matata":





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