sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Os Anjos de Charlie (1976-81)



Este é mais um dos exemplos de um produto televisivo que conheço melhor através de referências do que propriamente como espectador. Certamente vi alguns episódios em repetições, mas o que sei sobre esta série de êxito aprendi maioritariamente na época da primeira adaptação do conceito ao cinema, através de reportagens nostálgicas sobre o impacto na cultura popular de "Os Anjos de Charlie".
Ao contrário da posterior "Um Anjo na Terra" não estamos a falar literalmente de criaturas angelicais criadas para satisfazer os caprichos de Deus mas de um trio de mulheres que combatiam o crime ás ordens de Charles "Charlie" Townsend, o misterioso dono da agência de detectives Townsend. Ao longo das suas 5 temporadas e um total de 115 episódios o elenco desta série sofreu algumas alterações, mas a voz que dirigia os Anjos - não de um arbusto ardente mas de uma coluna de som - pertencia ao veterano actor John Forsythe ("Dinastia") que regressou ao papel nos filmes dos anos 2000. É irónico que o "anjo" que é ainda mais reconhecido participou praticamente apenas da primeira temporada: a sex symbol dos anos 70 Farrah Fawcett como Jill Munroe.

Para completar o trio original, as actrizes Kate Jackson e Jaclyn Smith, respectivamente os anjos Sabrina Duncan e Kelly Garrett. Smith e David Doyle foram - segundo a Wikipedia - os únicos actores que participaram em todos os episódios (ou quase todos, também segundo a Wikipedia...). Doyle desempenhou Bosley, o assistente de Charlie e dos anjos e ocasional comic relief e contraponto á elegância e sex appeal das protagonistas. Como curiosidade, Kate Jackson foi contratada para interpretar Kelly Garrett mas pediu para trocar para Sabrina. Conta a lenda que John Forsythe apenas consegui o trabalho de gravar a voz de Charlie depois do actor Gig Young chegar bêbado demais para gravar.
O genérico da temporada 1 de "Anjos de Charlie":

Apesar do êxito da anterior, na segunda temporada, Fawcett quebrou o contrato e só regressou como personagem secundário para evitar sanções. Para completar o trio de anjos entra a irmã mais nova de Jill: Kris Munroe (a actriz Cheryl Ladd) .

Já na quarta temporada sai Sabrina e entra Tiffany Welles (Shelley Hack):

E na temporada final Julie Rogers (Tanya Roberts) substitui Tiffany:

Como ainda era hábito na maioria das séries da época, principalmente do género de crime da semana,a  estrutura de cada episódio era a mesma: Bosley e Charlie apresentavam os detalhes do caso e geralmente os anjos iam investigar disfarçadas e depois do crime resolvido eram congratuladas por Charlie na sede da agência. Apesar da ajuda ocasional de Bosley, o conceito  de três mulheres a resolver problemas sozinhas era diferente e  agradou ao público. Aliás, a ideia original era conceber uma mistura de "Os Vingadores" (que dispensa apresentações") e "Honey West"(série baseada nos livros de mistérios dos anos 50, protagonizada por uma das primeiras mulheres detectives da ficção) que foi evoluindo até resultar no filme/episódio piloto que foi um sucesso de audiências, e com alguns pequenos ajustes encontrou a fórmula para mais de uma centena de episódios.
Em 2000 e 2003 a franquia foi ressuscitada para o grande ecrã com uma gigantesca dose de adrenalina, explosões, comédia e acção mirabolante: "Charlie's Angels" e "Charlie's Angels: Full Throthle". O trio de actrizes consistia de Cameron Diaz (Natalie Cook), Drew Barrymore (Dylan Sanders) e Lucy Liu (Alex Munday). Entre os dois filmes foi exibida online uma série animada de 6 episódios: "Charlie's Angels: Animated Adventures". O primeiro filme é um dos meus guilty pleasures favoritos e adoro a versão moderna (para 2000) dos Apollo 440 do clássico tema de abertura [video], entre o som de carrinho de choques e a homenagem ao original.
Em 2019 os anjos regressaram ao grande ecrã com novas caras e um fracasso de bilheteiras: "Charlie's Angels". Já em 2011 tinha estreado uma série terrível, com apenas 7 de 8 episódios exibidos: "Charlie's Angels".


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Roger Ramjet - O Roger A Jacto (1965-69)

por Paulo Neto

Não me recordo se esta série deu antes ou depois, mas lembro-me muito bem de quando foi exibida pela RTP1 algures no início dos anos 90 numa altura em que antecedendo o Vitinho e quejandos (ou até às vezes em vez dos ditos), o primeiro canal exibia um episódio de desenhos animados à hora dos mais pequeninos se irem deitar. Foi também nesse espaço que vimos por exemplo algumas séries clássicas da Hanna-Barbera como "Pepe Legal", "Wally Gator" e "A Tartaruga Touché".


"Roger Ramjet", ou em português "O Roger A Jacto", era uma série já antiga, produzida nos anos 60 mas que ainda entretinha bastante e eu e o meu irmão gostávamos de ver. Até porque, como o meu irmão chama-se Rogério (como o nosso pai), ele sempre sentiu alguma afinidade em relação a personagens ou celebridades com o equivalente anglo-saxónico do seu nome (por exemplo, o actor Roger Moore). Aliás creio que só o categórico patriotismo bem americanista da personagem principal é que terá impedido o aportuguesamento total do nome para Rogério A Jacto.



A personagem-título da série é um herói justiceiro bem patriota que combate vários malfeitores e os seus planos malvados para dominar o mundo. No entanto, Roger Ramjet não prima pela inteligência e por vezes cai que nem um patinho nas armadilhas dos vilões. Felizmente ele tem como apoio um grupo de jovens assistentes, o American Eagle Squadron (em português "os Águias da América"), composto por três rapazes que tal como ele guiam aviões: Yankee, Doodle e Dan, e uma rapariga, Dee, que assistia na base das operações ao lado do General Grassbottom. (Os nomes dos quatro provém da famosa cantilena patriótica americana "Yankee Doodle Dandy", da qual a canção do genérico é adaptada). Apesar de serem bem mais espertos que o seu líder e geralmente serem eles a resolver a alhada, estes quatro jovens admiram Roger Ramjet e no fim de contas, costumava ser ele próprio a dar o toque final, tomando uma pílula que lhe dava a força de vinte bombas atómicas durante vinte segundos, que chegava e sobrava para dar uma valente coça nos inimigos.







Ao todo, foram produzidos 165 episódios de cerca de cinco minutos ao longo de cinco temporadas, originalmente exibidos nos Estados Unidos entre 1965 e 1969. Apesar da animação já parecer muito tosca para os meus olhos de telespectador no início dos anos 90, o humor subversivo e o ritmo acelerado da acção de cada episódio tornavam na série ainda boa de ser ver. Outro aspecto da série foi a forma como parodiou celebridades da época ou personagens cinematográficas, geralmente nas personagens vilãs, como Zsa Zsa Gabor, Burt Lancaster, Bela Lugosi, Boris Karloff e os Beatles.



O blogue Desenhos Animados Esquecidos refere um episódio na dobragem portuguesa em que um dos vilões chama o protagonista de "Roger a Jeto", ao que este corrige para "A Jacto!" e a certa altura o narrador fica baralhado e começa também a referir-se a ele como "Roger A Jito" e outras pronúncias erradas para grande irritação do herói.

Não encontrei nenhum episódio com a dobragem em Português de Portugal por isso seguem-se alguns episódios em inglês:










sábado, 22 de fevereiro de 2020

Caçadores no Espaço (1983)





Numa galáxia muito próxima, nos anos 80, continuava a vontade de ordenhar o filão da Guerra das Estrelas, ou pelo menos de aventuras espaciais. Este "Spacehunter: Adventures in the Forbidden Zone" foi mais um a tentar a sorte, com resultados mistos.



"Spacehunter: Adventures in the Forbidden Zone" é de 1983 e estreou como "Caçadores no Espaço" em Portugal (em 16 de Março de 1984), enquanto no Brasil se manteve o subtítulo: "Caçador do Espaço: Aventura na Zona Proibida". Foi realizado por Lamont Johnson e produzido por Ivan Reitman (o realizador dos "Caça-Fantasmas"), com a banda sonora a cargo de Elmer Bernstein ("Os 10 Mandamentos", "Os 7 Magníficos"). O filme foi originalmente exibido com algumas sequências naquela tecnologia do futuro, o 3-D!

Fiquei com vontade de ver o filme quando há uns anos encontrei o poster num anúncio nos arquivos do extinto jornal "Diário de Lisboa". E até no ano anterior à estreia em Portugal, o suplemento "Sábado" do Diário de Lisboa dedicou uma página ao filme, com base na expectativa pelo regresso dos filmes em 3-D, o "renascer da Fénix" nos anos 80.

 Como ainda faltava para a estreia portuguesa, é usado a semi-tradução literal do filme como "Spacehunter: Aventuras na Zona Proibida".



O plot é simples, uma nave é destruída por um incidente astronómico, e três mulheres aterram no planeta mais próximo. Imediatamente encontram estranhos nativos sobreviventes da epidemia que devastou a colónia de humanos. Tudo foi para o raio que o parta e o planeta está cheio de rejeitados do Mad Max, mais algumas criaturas bizarras que incluem uma espécie de anões que cantam em coro e atiram cocktails Molotov, vampiros obesos ("vestidos" como vieram ao mundo ) a descer os tubos do Aquaparque, mini-dragões... 
Equivalentes do Han Solo e Lando Calrissian vão competir para encontrar as miúdas e devolvê-las para receber a recompensa. Vão ser ajudados pelo trapalhão Jar Jar Binks, que depois de um banho forçado numa poça imunda se "transforma" na futura namoradinha dos anos 80: Molly Ringwald pré-"Sixteen Candles" e "Breakfast Club". Quer dizer, acho que foi mais ou menos isto, já era tarde quando comecei a ver a fita. Obviamente, o overlord do planeta é o Overdog (Michael Ironside), um gajo muito mau, que está sempre a mandar fazer experiências genéticas e químicas nos sobreviventes, quando não está ocupado com atirar pessoas para labirintos mortais. Aliás, é das sequências que conseguiu melhor criar alguma tensão, quando a Molly, perdão, Niki tenta sobreviver no labirinto cheio de armadilhas. Imagino as lágrimas que o Michael Ironside verteu no interior da sua máscara de latex, enquanto gesticulava e exclamava "Ha" de dentro da fatiota que parece o resultado de uma noite de amor do Barão Harkonnen com um Go-Bot (os primos pobres dos Transformers). Provavelmente ele depois limpou as lágrimas com o cheque. Melhor momento dramático do filme: o Overdog é apresentado ás novas cativas, e ordena a um dos capangas: "Despe-a!" para surpreender todos quando segundos depois acrescenta, vigorosamente: "Devagar...". Um Óscar retro-activo para o modo pervertido mas sensível como um homem envolto em latex e maquinaria com braços de robot industrial conseguiu actuar assim. A espécie de Han Solo, Wolff (tipo, "lobo solitário", cappice?) foi interpretado por Peter Strauss, que levei o filme todo a pensar que era uma cara conhecida, mas não me recordava de onde. Continuo na mesma. O seu mercenário rival e mas amigo da malta foi desempenhado pelo Caça-Fantasma que ninguém se lembra o nome (racistas!), Ernie Hudson.

Em suma, não envelheceu graciosamente, mas para o que é, vê-se bem.



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Começar De Novo (1999-2002)

por Paulo Neto

Ainda hoje quando duas pessoas tomam a decisão de se casarem, certamente acreditam que é algo que pretendem levar para o resto das suas vidas. Mas entretanto a vida vai dando voltas, as pessoas mudam e às vezes nem todo o amor e a determinação do mundo podem evitar o fim de um casamento e o divórcio é algo cada vez mais comum. (Segundo os mais recente dados, 58 em cada 100 casamentos em Portugal acabam em divórcio.) Claro que muitas vezes o amor oferece uma segunda oportunidade, mas começar de novo com toda uma história de casamentos anteriores e filhos neles gerados é tudo menos fácil.



Foi essa premissa, cada vez mais habitual na nossa sociedade, que deu o mote à série "Começar De Novo" ("Once And Again" no original) exibida nos Estados Unidos em três temporadas entre 1999 e 2002. Em Portugal passou na RTP2 entre 2001 e 2004. Um dos criadores da série foi Edward Zwick, realizador de filmes como "Lendas Da Paixão" e "Diamante de Sangue".
A série passava-se numa cidade do estado de Illinois não muito longe de Chicago e contava a história de amor que nasce entre dois divorciados e as suas consequências não só nas suas vidas, mas também dos seus filhos, dos ex-cônjuges e de outros familiares. 



Lily Manning (Sela Ward) está recém-separada do marido Jake (Jeffrey Nordling), após ter descoberto as infidelidades deste. Os dois têm duas filhas, a insegura Grace (Julia Whelan) de 14 anos e a precoce Zoe (Meredith Deane) de 9 anos. Lily tem uma livraria chamada "My Sister's Bookstore" que gere com a sua irmã Judy (Marin Hinkle). Entre a mágoa pelas traições do marido, as pressões dos seus pais, as crises de adolescência de Grace, as inconstâncias amorosas de Judy e a esquizofrenia do irmão Aaron (Patrick Dempsey), Lily acredita que não teria tempo nem oportunidade para se apaixonar de novo.
Mas é isso precisamente que acontece no dia em que conhece Rick Sammler (Billy Campbell) durante uma reunião de pais. Rick é um arquitecto divorciado há três anos de Karen (Susanna Thompson) uma advogada pública de quem teve dois filhos: Eli (Shane West) de 16 anos, um rapaz popular do mesmo liceu de Grace que tem dificuldades de aprendizagem e Jessie (Evan Rachel Wood), de 12 anos que ainda sofre com a separação dos pais. 


À medida que Rick e Lily vão assumindo a paixão, vão se apercebendo que essa decisão afecta todos à sua volta, dos filhos (Grace e Jessie ainda sonham com a reconciliação dos respectivos pais) aos colegas de trabalho.    



O que eu mais gostava na série, e que aliás era o que a distinguia das outras, eram as cenas tipo confessionário, filmadas a preto e branco, num cenário neutro em que as personagens falavam das suas memórias e revelavam os seus pensamentos mais íntimos. A princípio essas cenas eram só com os dois protagonistas, mas aos poucos as outras personagens foram tendo essas cenas e às vezes apareciam mais que uma.



Entre as storylines que atravessaram os 63 episódios da série destaque para: quando Rick se deixa tentar pelo projecto megalómano de um cliente milionário (uma personagem que também apareceu na série "Os Trintões") e que põe em risco a sua carreira e as suas relações familiares; quando Jessie se apaixona por uma colega, Katie (Mischa Barton), naquele que foi um dos primeiros romances adolescentes lésbicos numa série americana; o envolvimento de Judy com Sam Blue (Steven Weber), um sócio de Rick, que termina quando ele lhe confessa que é casado, e que mais tarde é recuperado quando ele está divorciado; a luta de Karen contra a depressão; o crush algo obsessivo de Grace por um professor (Eric Stolz) e Jake a ser de novo pai quando Tiffany (Ever Carradine), uma das suas amantes, lhe revela que está grávida. A série terminou com um final em aberto que Rick e Lily, entretanto já casados, a terem de tomar decisões que pode mudar o rumo das suas vidas, já que ele tem uma oferta de trabalho na Austrália e ela para apresentar um programa nacional de rádio. Na cena final, Lily anuncia que está grávida.



"Começar de Novo" recebeu nomeações para diversos prémios, tendo Sela Ward ganho um Globo de Ouro e um Emmy para Melhor Actriz em Série Dramática em 2000. Este foi também o papel mais reconhecido de Billy Campbell após ter protagonizado o filme "As Aventuras de Rocketeer" e a série  revelou jovens talentos como Evan Rachel Wood e Shane West, actualmente já com larga carreira em televisão e cinema.

Genérico:


Alguns episódios com legendas em Português (do Brasil):



   

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

1995 foi há 25 anos

por Paulo Neto

Eu gosto muito de fazer estes artigos de retrospectivas de anos passados e como tal, hoje vamos recordar o ano de 1995, que por incrível que pareça foi há 25 anos. É algo estonteante para mim olhar para um ano da década de 90, nos qual eu já não era uma criança e perceber que um quarto de século ou mais passou desde então. Foi em 1995 que completei 15 anos e olhando para trás, posso dizer que foi um ano relativamente tranquilo na minha vida pessoal, sem grandes acontecimentos. Assim de repente, só me lembro da minha passagem para o ensino secundário, ao entrar no 10.º ano na área de Humanidades, com uma turma nova onde fiz algumas das mais importante amizades da minha adolescência (muitas que continuam até hoje apesar do tempo, da vida e distância se terem intrometido) e da minha família ter ido férias em Altura, o local das minhas férias de infância no Algarve, pela primeira vez em cinco anos.



Vamos então relembrar algumas coisas que, incrivelmente, aconteceram há já 25 anos.

- Áustria, Finlândia e Suécia aderiram à União Europeia
Nove anos depois de Portugal e Espanha aderirem à CEE (e quando ainda nem se sonhava com Brexits), a entretanto renomeada União Europeia integrou a 1 de Janeiro de 1995 mais três países: a Áustria, a Finlândia e a Suécia. Eu lembro-me de pensar que a bandeira da União Europeia iria passar a ter quinze estrelas, mas manteve-se as doze originais. Com este alargamento, a UE passou geograficamente a centrar-se mais na Alemanha do que na França. A Áustria e a Finlândia também viriam a integrar o grupo de países que adeririam ao Euro daí a quatro anos. A Noruega também se tinha candidatado à adesão da UE mas recuou após a maioria dos noruegueses ter votado contra tal num referendo.  




- Despedimo-nos de muitas estrelas.
Foi em 1995 que faleceram as estrelas de Hollywood Ginger Rogers, Lana Turner, Eva Gabor e Dean Martin, a actriz de "Casei Com Uma Feiticeira" Elizabeth Montgomery, o rapper Eazy-E, o ás argentino do volante Juan Manuel Fangio, Hugo Pratt, o criador de "Corto Maltese" e um dos nomes maiores das letras, Miguel Torga.
1995 foi também o ano de dois trágicos assassinatos. A 31 de Março, a cantora Selena, que fazia enorme sucesso na comunidade mexicana nos Estados Unidos com a sua música tejana, de apenas 23 anos, foi assassinada por Yolanda Saldivar, a presidente do seu clube de fãs que tinha sido acusar de desviar fundos do clube e da linha de boutiques da cantora. Saldivar seria condenada a prisão perpétua. Antes da sua morte, Selena tinha gravado o seu primeiro álbum em inglês que seria editado postumamente e que muitos acreditam que a teria transformado numa estrela internacional.
A 4 de Novembro de 1995, o primeiro ministro israelita Yitzhak Rabin foi assassinado em Telavive. Rabin tinha-se destacado pelos acordos de paz de 1993 negociados em Oslo com Yasser Arafat, o líder da Organização da Libertação da Palestina, pelos quais ele e Arafat receberam em 1994 o Prémio Nobel da Paz. Esses acordos criaram a Autoridade Nacional que teria o controlo de algumas zonas da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. Yitzhak Rabin assinou também um tratado de paz com a Jordânia. Rabin foi assassinado durante um comício por Yigal Amir, um extremista radical que se opunha a negociações com a Palestina, sendo este depois condenado a prisão perpétua. A praça em Telavive onde foi assassinado passou a ter o seu nome de Praça Yitzhak Rabin.

RIP em 1995: Ginger Rogers, Miguel Torga, Elizabeth Montgomery, Yitzhak Rabin, Selena


- E acolhemos outras tantas a este mundo
Foi em 1995 que nasceram algumas estrelas do momento como os campeões olímpicos Mikaela Shiffrin (esqui), Ester Ledecka (esqui e snowboard), Missy Franklin e Joseph Schooling (ambos na natação), os futebolistas Gelson Martins, André Silva e Ada Hegerberg, as manequins Gigi Hadid e Kendall Jenner, os cantores Troye Sivan, Post Malone, Melanie Martinez e Dua Lipa e os actores Nick Robinson, Timothée Chalamet e Marina Ruy Barbosa.


Geração de 1995: Gigi Hadid, André Silva, Dua Lipa, Timothée Chalamet



- Portugal passou do laranja ao rosa.
Após dez anos de governação do PSD, nas eleições legislativas de 1 de Outubro de 1995, o poder governativo em Portugal passou para o PS, com António Guterres a ser o novo primeiro-ministro. Eleito líder do PSD após a saída de Cavaco Silva, Fernando Nogueira não conseguiu travar a mudança do eleitorado. Carlos Carvalhas e Manuel Monteiro eram então os líderes da CDU e do CDS-PP.

Como já referi noutro texto, as eleições legislativas de 1995 foram umas das mais cromas de sempre. Foram as primeiras a serem acompanhadas pelas televisões privadas e geraram muitos incidentes cómicos como a SIC a anunciar as suas projecções quando ainda as urnas estavam abertas, Valentim Loureiro a ter um deslize e gritar por Guterres e "O Bicho" de Iran Costa (já vamos falar dele) a ser a banda sonora dos comícios do CDS.   



- Portugal teve o mais parecido com um casamento real no século XX.
Portugal era uma república há quase 85 anos, mas no dia 13 de Maio de 1995, o casamento de Dom Duarte de Bragança, tido como aquele que mais provavelmente seria o nosso chefe de estado caso ainda o país fosse uma monarquia, com Isabel de Herédia, foi transmitido na televisão com a pompa de um casamento real e muita gente acorreu para assistir à chegada dos noivos. Chegou-se a criar algum merchandising relacionado com o casamento, como a comercialização em cassete VHS do vídeo da cerimónia.
Os Duques de Bragança à saída da cerimónia do seu casamento

Na altura, ouvia-se algumas piadas sobre a natureza sui generis do casal nubente, sobretudo quanto à diferença de idades (ele casou a poucos dias de fazer 50 anos, ela tinha 28) mas Dom Duarte e Dona Isabel continuam casados e nos anos seguintes à sua união tiveram três filhos: Afonso, Maria Francisca e Dinis.   



- Pedro Abrunhosa algemou-se ao Coliseu do Porto
Fundada em 1977 no Rio de Janeiro, o culto evangélico Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) chegou a Portugal em 1989 e não tardou a angariar seguidores no nosso país e a concretizar negócios de vulto, como a compra do Cinema Império na Alameda Afonso Henriques em Lisboa, que permanece ainda hoje como a sua sede e templo-matriz em Portugal. Entre 1993 e 1995, também ganhou um espaço na televisão antes das emissões da SIC. Mas desde logo a IURD também levantou várias suspeitas de charlatanismo, de negócios sujos e de extorsão aos seus fiéis, a quem lhes ordenava a doação de 10% dos seus rendimentos.


Mas no Verão de 1995, estalou a polémica quando foi anunciado que a IURD estava em negociações para a aquisição do Coliseu do Porto, a principal sala de espectáculos da Cidade Invicta. Essa notícia gerou grande indignação por parte das gentes do Porto, em especial personalidades ligadas à autarquia e às artes. Uma dessas personalidades foi Pedro Abrunhosa, que no ano anterior ascendera como uma das maiores estrelas da música portuguesa, que durante uma manifestação de repúdio à eventual transacção, algemou-se ao portão do Coliseu como gesto simbólico. Também nesse Verão, houve alguns conflitos entre as populações e os seguidores da IURD em vários pontos do país, o mais grave em Matosinhos que resultou na destruição do centro da IURD local. A Câmara Municipal do Porto acabaria por vetar a transacção e criou uma organização para aquisição e gestão do edifício como espaço de interesse cultural.
A IURD foi mantendo as suas actividades e campanhas no nosso país de forma mais discreta, mudando o seu líder eclesiástico em Portugal após os incidentes de 1995, mas em 2017 foi alvo de nova polémica pela sua alegada rede de adopções ilegais.   


- Portugal qualificou-se para o Euro 1996.
No futebol nacional, o FC Porto conquistou o primeiro de cinco campeonatos consecutivos (o famoso "penta") ao passo que o Sporting bateu o Marítimo na final da Taça de Portugal conquistando primeiro troféu para Alvalade deste a Supertaça de 1987. Depois de vencer os Mundiais de 1989 e 1991 (e de uma fraca prestação em 1993), a selecção sub-20 obteve um honroso terceiro lugar no Mundial da categoria desse ano, disputado no Qatar num colectivo que contava com nomes como Nuno Gomes, Beto, Quim e Dani (que se tornaria rapidamente um ídolo teen). A selecção de sub-17 (de onde o nome mais sonante seria Marco Caneira) foi menos bem sucedida no Mundial do escalão no Equador, batida nos quartos de final pela eventual equipa vencedora, o Gana.

O sportinguista Iordanov durante a final da Taça de Portugal
Sporting vs. Marítimo

Já nos séniores, houve também razões para celebrar quando a 15 de Novembro, a selecção nacional venceu a República da Irlanda por 3-0 no Estádio da Luz, garantindo a qualificação para o Euro 1996 em Inglaterra. Era a segunda vez que a equipa das quinas se apurava para um Europeu depois de 1984 em França e a primeira vez desde o Mundial de 1986 que Portugal estaria numa grande competição sénior. O grande destaque do jogo foi o primeiro golo de Rui Costa, um antológico chapéu ao guardião irlandês Alan Kelly. (Longe de imaginarmos que seria de chapéu -checo- que Portugal sairia do Euro 1996). Os outros golos foram marcados por Hélder e Jorge Cadete.





- Fernanda Ribeiro e Manuela Machado foram campeãs mundiais.
Aos títulos europeus de 1994, Fernanda Ribeiro e Manuela Machado juntaram os títulos mundiais nos Campeonatos do Mundo de Atletismo que se disputaram em Gotemburgo (Suécia) entre 5 e 13 de Agosto. Depois da prata em 1993, Manuela Machado subiu ao lugar mais ao alto do pódio na maratona feminina, vencendo com quase um minuto de distância para a segunda classificada, a romena Anuta Catuna. As 32 atletas que concluíram a prova acabaram todas por correr menos 400 metros do que a distância regulamentar da maratona devido a um erro dos juízes que não avisaram as atletas que à partida teriam de dar uma volta ao estádio antes de seguirem para o exterior.

Manuela Machado e Fernanda Ribeiro no momento das suas vitórias em Gotemburgo


Nos 10000m, Fernanda Ribeiro controlou a pressão da etíope Derartu Tulu (a campeã olímpica em título) e da queniana Tegla Laroupe para conquistar o ouro, obtendo ainda a prata nos 5000m (distância onde era a recordista mundial), perdendo apenas para a irlandesa Sonia O'Sullivan.
As glórias portuguesas em Gotemburgo foram ainda aumentadas com a medalha de bronze de Carla Sacramento nos 1500m.

- Recordes mundiais pulverizados no triplo salto
Mas os Mundiais de Atletismo de Gotemburgo iriam ficar para a posterioridade sobretudo devido ao triplo salto, pois foram batidos recordes do mundo em ambos os sexos de forma espectacular e que perduram até hoje.
Na altura, a disciplina ainda era recente na vertente feminina mas estava em franco desenvolvimento. O recorde do mundo estava fixado desde 1993 em 15,09m, por parte da russa Anna Biryukova. Esta viria a passar a barreira dos 15 metros pela segunda vez ao terceiro ensaio com 15,08m mas entretanto a ucraniana Inessa Kravets pulverizaria o recorde do mundo para 15,50m e Biryukova viria a ser relegada para terceira, com a búlgara Iva Prandzheva a saltar 15,18m no quinto ensaio. Vice-campeã olímpica em 1992 no salto em comprimento, Kravets tornar-se-ia a primeira campeã olímpica do triplo salto em 1996.

A ucraniana Inessa Kravets e o britânico Jonathan Edwards pulverizaram
os recordes do mundo do triplo salto feminino e masculino.



Ainda mais espectacular foi o recorde do mundo na prova masculina. Antes de Gotemburgo, o britânico Jonathan Edwards tinha conseguido acrescentar um centímetro (17,98m) ao anterior recorde mundial que durava desde 1985. Mas no dia da final da prova, logo ao primeiro ensaio, Edwards tornou-se o primeiro homem a atingir os 18 metros, que durante muito tempo se julgou ser uma barreira inatingível, ao saltar 18,16m e ao segundo ensaio alargou a marca para uns estrondosos 18,29m. Com esses dois saltos, o inglês deu de tal forma cabo da competição que se deu ao luxo de só saltar mais uma vez (17,49m na quinta ronda). O segundo classificado, Brian Wellman das Bermudas, ficou uns largos 67 centímetros.
O quão espectacular foi o recorde de Edwards? Não só a sua marca dura até hoje, como desde então apenas mais cinco homens conseguiram passar a marca dos 18 metros (um deles foi o ex-cubano e agora português Pedro Pichardo) e apenas um conseguiu saltar mais do que o primeiro salto de Edwards em Gotemburgo. Foi também em 1995 que Jonathan Edwards que também efectuou o triplo salto mais longo de sempre de que há registo (18,43m), embora mas com vento superior à velocidade regulamentar (2 metros por segundo), o que impede a homologação dos recordes. Edwards viria a ser campeão olímpico em 2000. 

- A África do Sul pós-apartheid foi campeã mundial de râguebi.
O terceiro campeonato mundial de râguebi decorreu entre 25 de Maio e 24 de Junho na África do Sul, naquele que foi o primeiro grande evento desportivo realizado no país após a queda do apartheid. Aliás o então presidente Nelson Mandela aproveitou o mundial de râguebi como um meio de unificar os sul-africanos numa altura em que as feridas deixadas pela segregação racial ainda estavam bem vivas e que havia um crescendo de violência e criminalidade, o que era algo complicado pois o râguebi era visto como um símbolo da supremacia branca e a selecção só tinha um jogador negro, Chester Williams. Mas por entre várias acções promovidas por Mandela e o capitão da equipa, François Pienaar, os Springboks passaram gradualmente a ser um símbolo de toda a África do Sul. 

Nelson Mandela e François Pienaar

Na final, a África do Sul bateu a Nova Zelândia no prolongamento por 15-12 em Joanesburgo. Desde então os Springboks voltaram a ser campeões mundiais em 2007 e 2019.
A história dos acontecimentos desse mundial foi imortalizada no filme "Invictus" de 2009.



- Mais um ano de grande cinema



No cinema de 1995, não há como não destacar "Toy Story", a primeira longa-metragem de animação por computador, produzida pelos estúdios da Pixar e distribuído pela Walt Disney, marcando um antes e um depois no cinema de animação. A história das aventuras de um grupo de brinquedos que ganham vida quando os humanos não estão por perto gerou toda uma franquia com mais três sequelas, séries spin-off e um interminável merchandising (brinquedos, jogos de vídeo, têxteis, material escolar, cadernetas de cromos...) 

Outros filmes de destaque nesse ano foram o regresso da saga 007, "Goldeneye", com Pierce Brosnan como o novo James Bond; Bruce Willis encarnando John McClane pela terceira vez em "Die Hard - A Vingança"; Mel Gibson como o guerreiro escocês William Wallace em "Breaveheart - O Desafio do Guerreiro", a sua estreia como realizador; "Batman Para Sempre" com Val Kilmer como o homem-morcego; e aquele que é pessoalmente o meu filme favorito "Antes do Amanhecer".
Outros "blockbusters" desse ano foram "Os Bad Boys", "Gasparzinho", "Apolo 13", "Sete Pecados Mortais", "Doze Macacos", "Os Suspeitos do Costume",  "Judge Dredd", "Power Rangers - O Filme", "Mentes Perigosas", "Mortal Kombat", "Desperado"e "Jogos Quase Perigosos".

Cena de "O Carteiro de Pablo Neruda"

Foi também o ano de comédias clássicas dos anos 90 como "Clueless - As Meninas de Beverly Hills", "Enquanto Dormias", "Nove Meses", "O Beijo", "Ace Ventura em África" e "Os Malucos do Supermercado"; de obras de autor como "Casino" de Martin Scorcese, "Exotica" de Atom Egoyan, "Poderosa Afrodite" de Woody Allen, "Kids" de Larry Clarke, "Disposta A Tudo" de Gus Van Sant, "Nixon" de Oliver Stone e "A Flor Do Meu Segredo" de Pedro Alomodovar;  dos filmes da Disney "Pocahontas" e "Pateta - O Filme"; de romances como "As Pontes de Madison County", "Um Passeio Nas Nuvens", "Quatro Mulheres Apaixonadas" e "Sensibilidade E Bom Senso"; de dois grandes flopes que agora são uma espécie de filmes de culto trash: "Waterworld" e "Showgirls"; e o "O Carteiro de Pablo Neruda" que seria o primeiro filme de sempre a ficar mais de um ano em cartaz num cinema em Portugal (Cinema Mundial em Lisboa).

Maria de Medeiros em "Adão e Eva": "Vai tu!"

Quanto ao cinema português, estrearam "O Convento" de Manoel de Oliveira, "A Comédia De Deus" de João César Monteiro, uma "Lisbon Story" filmada por Wim Wenders ao som dos Madredeus, mas sobretudo 1995 foi o ano de "Adão e Eva", um dos maiores êxitos de bilheteira do cinema português, muito graças à co-produção e hábil promoção da SIC.

- Blur e Oasis bateram-se na batalha da britpop.
1995 foi sem dúvida um ano de grandes discos: "Garbage" de Garbage, "Cracked Rearview" dos Hootie & The Blowfish, "Maxinquaye" de Tricky, "The Bends" dos Radiohead, "Jagged Little Pill" de Alanis Morissette, "Medusa" de Annie Lennox, "Made In England" de Elton John, "Nobody Else" dos Take That, "Post" de Bjork, "These Days" dos Bon Jovi, "Brown Sugar" de D'Angelo, "HIStory: Past, Present & Future" de Michael Jackson, "Melon Collie & The Infinite Sadness" dos Smashing Pumpkins, "The Ghost Of Tom Joad" de Bruce Springsteen, "Life" dos Simply Red, "Different Class" dos Pulp, "New Beginning" de Tracy Chapma, "Daydream" de Mariah Carey e "Made In Heaven" dos Queen, entre vários outros.
Em Portugal, foram editados "Fora D'Horas" de Paulo Gonzo, "Black Out" dos Black Out, "Tá-se Bem" dos Kussondulola, "Lado Lunar" de Rui Veloso, "Ao Vivo Na Antena 3" de Xutos & Pontapés, "Dou-lhe Com A Alma" dos Da Weasel, "Expedição" dos Pólo Norte, "Onde Estás" dos Santos & Pecadores, "A Brisa do Coração" de Dulce Pontes, "Ainda" dos Madredeus, "Geração Rasca" dos Black Company e o multi-platinado álbum best of dos Delfins "O Caminho da Felicidade".

Cena do videoclip "Country House" dos Blur



1995 foi também o ano da batalha da britpop entre as duas bandas mais emblemáticas do género, os Blur e os Oasis, batalha acirrada pelos "mimos" trocados entre as bandas na imprensa e que culminou em Agosto com ambas as bandas a lançarem um novo single na mesma semana, gerando expectativas nos media e no público sobre qual deles seria o n.º 1. A vitória sorriria aos Blur com "Country House" a chegar ao n.º1 do top, remetendo "Roll With It" de Oasis para o segundo posto. (Verdade seja dita, o tema dos Blur era muito mais apelativo.) Mas se os Blur venceram a batalha dos singles, os Oasis venceriam a guerra dos álbuns com o seu álbum "(What's The Story?) Morning Glory" a vender bem mais, tornando-se o disco mais emblemático da banda, com alguns dos seus temas mais emblemáticos como "Wonderwall" ou "Don't Look Back In Anger", enquanto "The Great Escape" do Blur ficou algo aquém do sucesso comercial e crítico do seu álbum anterior "Parklife". 

- Portugal foi mordido pelo "Bicho"
1995 foi também o ano em que dançámos ao som de "guilty pleasures" como "Boom Boom Boom" dos Outhere Brothers, "Scatman" de Scatman John, "Baby Baby" de Corona, "Cotton Eye Joe" dos Rednex, "Dreamer" dos Livin' Joy e a versão de "Stayin' Alive" dos N-Trance. Em Portugal tivemos ainda o clássico one-hit wonder "Estou Na Lua" de Os Lunáticos.
Mas por muito hoje não queiramos admiti-lo, dançar em Portugal em 1995 significou para quase todos nós movermo-nos ao som de "O Bicho" de Iran Costa.


Pois simplesmente foi impossível escapar à versão eurodance que o brasileiro natural do Maranhão radicado em Portugal desde o final dos anos 80 criou de uma cantiga popular brasileira. Estava em todo o lado: na rádio, na televisão (com o mítico videoclip que agigantava Iran Costa), nas discotecas, nos bailaricos de província e até nos comícios do CDS-PP durante a campanha eleitoral.


O álbum que incluía "O Bicho", intitulado "Álbum Dance Music", tornou-se um dos mais vendidos de sempre, vendendo mais de 250 mil unidades e obtendo seis discos de platina!
Iran Costa ainda obteve algum sucesso com outros discos subsequentes com hits como "É O Tchan", "O Pimpolho" e "Eu Tô Maluco" e ainda hoje continua bem activo na sua carreira e tendo o ocasional tema notório como "A Dança do Quadrado".

- Foi ano da consolidação do fenómeno pimba.
Os anos anteriores já o vaticinavam mas foi em 1995 que o fenómeno da música pimba conheceu o seu grande auge, ou não fosse este ano que Emanuel editou "Pimba Pimba", o hit com o termo que ajudou a definir este complexo conceito que resultou da aglutinação de várias vertentes da música popular nacional, da música brejeira aos resquícios do antigo nacional cançonetismo. Além de Emanuel, outros artistas que foram encaixados neste género editaram alguns dos seus temas mais marcantes como Ágata ("Maldito Amor" e "Sou Mãe Solteira), Tony Carreira ("Ai Destino"), Chiquita ("Festa Na Cama") e Fernando Correia Marques ("O Burrito").


Graças a factores como uma prosperidade nunca antes no visto no mercado discográfico nacional, um público com mais poder de compra, autarquias um pouco por todo o país que requisitavam cada vez mais estes artistas para as suas festividades locais e programas como "Made In Portugal" e "Big Show SIC" gerou uma tempestade perfeita em que os artistas conotados com o termo "pimba" fossem campeões de vendas e tivessem preenchidas agendas de concertos por todo o Portugal e comunidades emigrantes.
Desde então, a dita música pimba foi tendo os seus picos de alta popularidade e exposição mas é consensual que o seu auge foi nos meados dos anos 90.

Uma canção praticamente instrumental venceu o Festival da Eurovisão
O 40.º Festival da Eurovisão teve lugar a 13 de Maio em Dublin. Portugal foi representado por Tó Cruz com a canção "Baunilha e Chocolate" com letra de Rosa Lobato Faria e música de António Vitorino D'Almeida ficou-se por um modesto 21.º lugar com 5 pontos.


De entre as canções apresentadas destaque para o tema rap do Reino Unido, o segundo lugar da Espanha na voz de Anabel Conde e a fusão etno-lírica da Croácia. Já a Irlanda levou uma canção bem fraca só para garantir que o país não ganhava pela quarta vez consecutiva, tais eram dores de cabeças financeiras da televisão irlandesa em ter de organizar três Festivais consecutivos!


Mas a vitória foi a Noruega com aquele que era sem dúvida o tema mais marcante da edição e hoje considerado um dos clássicos da Eurovisão: "Nocturne" do grupo Secret Garden. Tratava-se de um tema quase instrumental onde as únicas partes cantadas (interpretadas por Gunnhild Tvinnereim) vinham no início e no fim da canção, com o violino da irlandesa Fionnuala Sherry a liderar a música pelo meio. Foi a segunda vitória da Noruega no certame, dez anos depois da vitória do duo Bobbysocks com "Let It Swing". Curiosamente, apesar das duas canções serem muito diferentes, tiveram o mesmo compositor, Rolf Lovland. 

- Estreias na TV
Já falamos dele mas foi em 1995 que estreou um dos programas, para o melhor e para o pior, mais icónicos da televisão nacional dos anos 90, o "Big Show SIC" que consagrou João Baião, então conhecido apenas como actor, como uma figura televisiva. Entre várias renovações, o programa duraria até 2002. Na SIC, estrearam também nesse ano programas como "Camilo & Filho Lda.", o "Bueréré" da era Ana Malhoa, "Não Se Esqueça da Escova de Dentes", "Os Malucos do Riso", "Surprise Show" e "Os Trapalhões Em Portugal".


Na RTP, destaque para a "Praça da Alegria", o magazine cultural "Acontece", a telenovela "Desencontros", os concursos "Selecção Nacional" (que decidira os intérpretes para o Festival da Canção desse ano), "Selecção de Esperanças" e "Casados de Fresco" e a sitcom "Tudo Ao Molho e Fé Em Deus".
Ricardo Carriço e Sofia Alves fizeram
par romântico na telenovela "Desencontros"

Na América, estrearam neste ano algumas séries que passariam mais tarde em Portugal como "Xena - A Princesa Guerreira", "Masked Rider" e "Arrepios" na SIC, "Carolina e os Homens" e "O Jogo da Vida" na RTP2 e "Dr. Katz" "Live Shot - Notícia Escaldante" e "VR5" na TVI, bem como cartoons como "Pinky And The Brain", "Aeon Flux" e "Timon e Pumba".


Além de adaptação no cinema de "Sensibilidade e Bom Senso", outra obra de Jane Austen, "Orgulho e Preconceito", foi adaptada em série para a BBC, naquela que é considerada por muitos como a melhor adaptação da obra.

- Terramotos e terrorismo Japão
O Japão foi assolado por duas tragédias em 1995. A 17 de Janeiro, sofreu o terramoto mais forte desde 1923 (de magnitude 6.5 da escala de Richter) que afectou sobretudo a cidade de Kobe, causando mais de seis mil vitimas mortais.
E a 20 de Março, o metro de Tóquio foi alvo do maior ataque de terrorismo interno no país. Em cinco diferentes ataques, dez pessoas lançaram gás sarin em três diferentes linhas do metro em plena hora de ponta, causando cerca de 13 mortos, 50 feridos e 1000 pessoas com problemas temporários de visão.

Os autores do ataque eram membros da seita Aum Shinirikiyo (Verdade Suprema), fundada em 1984 por Shoko Asahara, que na altura que contava então com mais de 20 mil membros. Os membros da seita acreditavam que o Apocalipse estava perto e só eles sobreviveriam: quem não fosse membro do culto estaria condenado para sempre ao inferno a não ser que fossem mortos pelos membros.
A polícia japonesa não demorou em ligar o ataque do metro de Tóquio à seita e descobriu que esta tinha levado a cabo outros ataques semelhantes em várias partes do Japão desde 1992.

Shoko Asahara, o líder do culto

Ao todo cerca de 200 membros da Verdade Suprema foram acusados pelo seu envolvimento nos diferentes ataques. Treze homens ligados à liderança do culto foram condenados à pena de morte, incluindo Ashara, executado por enforcamento em 2004.
A seita ainda existe no Japão sob o nome de Aleph mas os seus actuais líderes garantem que o culto renunciou ao seu passado violento.
Em 1997, o escritor Haruki Murakami publicou um livro em que entrevistava sobreviventes do
ataque e usou algumas características da Verdade Suprema para a trama da sua trilogia "1Q84".

- A cidade de Oklahoma foi palco do maior ataque de terrorismo interno na América
Os Estados Unidos também sofreram em 1995 aquele que foi o seu maior ataque de terrorismo interno e o mais mortal até ao 11 de Setembro.
No dia 19 de Abril, pouco depois das 9 da manhã, uma bomba explodiu no edifício federal Alfred P. Murrah na cidade capital do estado do Oklahoma, destruindo cerca de um terço do prédio. A explosão foi tão forte que vários prédios e carros num raio de 16 quarteirões sofreram danos. Pelo menos 168 pessoas morreram e 680 ficaram feridos.


A princípio suspeitou-se que o bombardeamento tivesse sido obra de grupos radicais islâmicos como no ataque ao World Trade Center de Nova Iorque em 1993. Mas para choque da opinião pública, os autores eram americanos.
Timothy McVeigh

Timothy McVeigh, um ex-combatente da Guerra do Golfo envolvido no movimento das milícias radicais nos Estados Unidos, detonara a bomba dentro de uma carrinha estacionada em frente ao edifício. 90 minutos depois da explosão, McVeigh foi preso por conduzir sem matrícula e posse de armas ilegais. As provas recolhidas pela polícia relacionaram-no com o bombardeamento e concluíram que McVeigh fabricou a bomba com o auxílio do seu cúmplice Terry Nichols. Timothy McVeigh pretendia demonstrar o seu descontentamento com o governo americano, sobretudo na forma como lidou incidentes como cerco do Waco dois anos antes. (Aliás, o ataque foi no mesmo dia em que se completavam dois anos da tragédia de Waco.) Em 1997, McVeigh foi condenado à morte, tendo sido executado em 2001. Terry Nichols foi condenado a prisão perpétua.
Um monumento às vítimas foi inaugurado em 2000 no quinto aniversário do ataque de Oklahoma City. Em 1998, foi feito um telefilme sobre o ataque protagonizado por Kathy Baker que eu me lembro de ver na TVI.

- Hugh Grant foi apanhado com a boca na botija
O actor britânico Hugh Grant tinha se tornado uma estrela mundial graças ao filme "Quatro Casamentos e Um Funeral" e após uma consagrada carreira no cinema britânico, aventurava-se agora em Hollywood e tinha prestes a estrear um novo filme que protagonizou "Nove Meses".
Mas foi outro tipo de aventuras em Hollywood que o lançaram para as páginas dos jornais e que quase ameaçaram a sua carreira. A 27 de Junho, a polícia de Los Angeles apanhou Grant a receber sexo oral de uma prostituta, Estella Thompson, que usava o nome "profissional" de Divine Brown, dentro do seu BMW em Sunset Boulevard. Ambos foram presos por acto indecente e condenados a uma multa e pena suspensa. Divine Brown, que afirmou não saber na altura quem era o seu cliente, declarou que eles chamaram a atenção da polícia porque durante o acto, Grant carregava involuntariamente no travão do carro, fazendo acender as luzes.


Claro que o caso deu pano para mangas para todo o tipo de piadas e paródias, os mugshots correram mundo, sendo que a opinião pública ficou espantada sobretudo pelo facto de Grant ter recorrido a Brown quando ele tinha uma relação de longa data com a bela modelo e actriz Elizabeth Hurley. Após algumas declarações de mea culpa, a carreira de Hugh Grant acabaria por não ser afectada, embora não seja de estranhar que desde então ele tenha trabalhado sobretudo no cinema britânico e a sua relação com Hurley acabou por durar até ao ano 2000.
Quanto a Estella Thompson/Divine Brown, graças ao incidente, conseguiu ganhar dinheiro suficiente não só para deixar a prostituição, mas para comprar uma casa em Beverly Hills e pôr as suas filhas numa escola privada. Calcula-se que entre entrevistas para televisão, sessões fotográficas, campanhas publicitárias e algumas incursões na pornografia (incluindo um filme que recriava o incidente que a tornou famosa), terá ganho mais de um milhão e meio de dólares. Actualmente vive em Atlanta e está envolvida na cena musical local. 


- O Super Homem ficou paralisado
O actor Christopher Reeve está para o Super Homem como Johnny Weissmuller está para o Tarzan. Muitos actores já deram vida ao emblemático herói, mas quando se pensa no actor que é O Super Homem, pensa-se Reeve que interpretou a personagem em quatro filmes. Claro que a carreira de Christopher Reeve não se resumia só a esses filmes, tendo também entrado em filmes como "As Mulheres de Boston", "Linhas Trocadas" e "Os Despojos Do Dia".
Mas se no ecrã, ele podia ser o homem mais forte do mundo, na vida real, tratava-se de um ser humano como todos nós. E o mundo ficou em choque quando a 27 de Maio se soube da notícia de que Christopher Reeve tinha ficado quadruplégico durante uma competição de equitação, quando o seu cavalo recusou saltar um obstáculo e projectou-o para uma cerca, fracturando a espinha dorsal, forçando-o a passar o resto da vida numa cadeira de rodas e ligado a um ventilador portátil.

Christopher Reeve numa entrevista quatro meses depois do acidente

No entanto, provando que tinha algo de Super-Homem dentro dele, Reeve recuperou o suficiente para continuar a sua carreira como actor e até também se estrear na realização. Em 1998, venceu um Globo de Ouro, pela sua interpretação de um telefilme que adaptava o clássico de Hitchcock "A Janela Indiscreta" e em 2003, entrou em dois episódios da série "Smallville", que relatava os anos da juventude do Super Homem. Reeve também-se tornou activista em prol dos cuidados e qualidade de vida das pessoas com lesões na espinha dorsal e dos tratamentos com células estaminais. 
Christopher Reeve viria a falecer em 2004 aos 52 anos.    


- Jogámos aos Tazos



Foi em 1995 que a Matutano lançou os brindes mais emblemáticos para os seus produtos desde os Pega-Monstros: os MatuTazos. Estes eram círculos de plástico que vinham nas embalagens das batatas fritas e snacks da Matutano que inicialmente traziam imagens com personagens dos "Tiny Toons" para serem utilizados na seguinte brincadeira: os diferentes Tazos eram empilhados com o lado das imagens para baixo, alguém lançava um tazo com força suficiente para fazer o monte de Tazos saltar e os ditos cujos que estivessem com o lado da imagem para cima ficavam para esse alguém. Portanto mais do que a vertente física, havia o frisson de um jogo de azar. Lembro-me que também havia os Mega Tazos, que eram mais grossos e de um plástico mais duro, pelo que faziam virar mais Tazos e chegou a haver outros objectos à venda como o Porta Tazos e uma pasta com bolsas para guardar os Tazos. O meu irmão chegou a ter tudo isso e, embora eu não coleccionasse e achasse uma brincadeira demasiado infantil para o alto dos meus 15 anos, eu joguei algumas vezes com ele.



- Abriram-se novas janelas na informática.

Em termos de tecnologia em 1995, não há como não referir o lançamento do Windows 95 pela Microsoft que tornaram os computadores bem mais fáceis de usar, não sendo preciso digitar códigos computacionais como no MS-DOS. E foi aqui que pela primeira vez termos como "botão começar", "caixa de reciclagem", "ambiente de trabalho", "Wordpad" e "Paint" passaram a fazer parte do glossário de todos aqueles que utilizavam um PC.

Bill Gates e Jay Leno no lançamento do Windows 95



O Windows 95 foi lançado ao público a 24 de Agosto numa campanha publicitária ao som de "Start Me Up" dos Rolling Stones, tendo também sido feito um filme promocional com os actores de "Friends" Matthew Perry e Jennifer Anniston. Cerca de quarenta milhões de cópias do Windows 95 foram vendidas no mundo inteiro só nos primeiros doze meses e eram precisas pelo menos treze disquetes para instalar!
Foi também em 1995 que, quando a internet ainda dava firmes mas ainda tímidos passos, foi fundado o Ebay.

Quanto aos videojogos, foi em 1995 que a Playstation e a Sega Saturn chegaram à Europa e foram lançados jogos como "Street Fighter Alpha", "Mortal Kombat 3", "Star Wars - Dark Forces", "Super Mario 2: Yoshi's Island", "Tekken 2", "Rayman", "Worms" e "Time Crisis".

E quanto a vocês, leitores, que memórias guardam de 1995? Que acontecimentos recordam e que não foram incluídos aqui? Deixem os vossos comentários aqui no blogue e na nossa página do Facebook.





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