quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Blocos publicitários TVI (Setembro 1994)

por Paulo Neto

Sim, é tempo para mais um texto de análise a blocos publicitários. Recentemente, o incansável canal do YouTube Lusitania TV tem desenterrado mais exemplos destes, datados de vários anos. Como até agora, estes textos eram sobretudo sobre blocos da SIC e da RTP, optei desta vez por analisar três blocos publicitários da TVI de 14 de Setembro de 1994 (uma quarta-feira), durante a transmissão do filme "A Torre do Inferno", um dos mais célebres blockbusters dos anos 70.


Na altura a TVI tinha pouco mais de ano e meio de transmissões e era ainda conhecida como "A 4". Nunca deixa de ser curioso recordar estes tempos da TVI, sobretudo sabendo-se as voltas que deu até ao canal que é nos dias de hoje. 




0:00 No dia seguinte, a TVI iria transmitir o filme de 1985 "Cocoon - A Aventura dos Corais Perdidos". Gostei muito da abordagem calminha e reconfortante desta promo para anunciar este filme que ficou célebre pela sua mescla de ficção-cientifica, comédia e melodrama.
1:06 Esta vinheta de publicidade com temática veraneante será uma constante ao longo destes blocos.
1:10 Anúncio ao iogurte líquido B Cool da Danone protagonizado por um Zé Pedro Vasconcelos adolescente (devia ter 16/17 anos nesta altura). Esta era a versão curta do anúncio pois lembro-me que na versão longa, a personagem dele era criticada pelos clichés de ser jovem. (Jeans, já o meu avô vestia. O rock tem mais de cinquenta anos. Ténis, o teu tio reformado usa. E essa cena que bebes é do do século passado!)
1:24 Mesmo quem não era de Lisboa ou foi lá nesse ano estava nesta altura careca de saber que em 1994, a capital do nosso país foi a Capital Europeia da Cultura. Entre as inúmeras actividades que tiveram lugar nesse âmbito, contou-se o projecto "Lisboa 24 Horas" com o agora defunto Cinema King a exibir três filmes sobre Lisboa que os realizadores João Botelho, Edgar Pêra e Eduardo Guedes fizeram propositadamente para o evento. (Mais tarde, estes filmes seriam também exibidos em Porto, Coimbra e Braga). 
1:41 Um anúncio all-star da cerveja Sagres com Joaquim de Almeida, a campeã de bodyboard Dora Gomes e os Xutos & Pontapés (que saudades ver ali o Zé Pedro!). Também neste caso, trata-se de uma versão encurtada pois recordo-me que na versão longa do anúncio apareciam também os futebolistas Vítor Baía e João Vieira Pinto e as actrizes Alexandra Lencastre e Rita Blanco.
2:14 António Veloso, glória benfiquista e pai do também futebolista Miguel Veloso, afirma: "O Totobola é um desafio que eu não perco nunca". Na altura, Veloso jogava a sua última época pelas águias antes de se retirar do futebol.
2:26 Na altura abundavam os anúncios a linhas de valor acrescentado, não só para aconselhamentos esotéricos ou conversações de foro erótico, mas também para ganhar prémios. Conforme eu já tinha referido no texto sobre do filme de live action dos "Flintstones" que fez furor nos cinemas nesse ano, ligando para o 0670 10 10 10 podia-se ganhar uma réplica do Flintmobil (além de material escolar). 
2:58 Anúncio ao catálogo Freeman's de venda de roupa por correspondência, uma das marcas que tentavam desafiar o domínio da La Redoute, então já a empresa líder do sector, afirmando que era possível comprar "moda como se estivesse em Londres". O dito catálogo custava 990 escudos (cerca de 4,95 euros) mas oferecia 1250 escudos (6,25 euros) de desconto na primeira encomenda. 
3:54 Uma gaivota voava, voava, asas de vento, coração de mar. E também ilustrava um anúncio aos televisores Nokia.
4:05 Um impactante anúncio da Associação Portuguesa de Médicos de Clínica Geral sobre os malefícios da diabetes (recorde-se que se trata de um substantivo feminino singular e não masculino plural) onde todo o tipo de comida pouco saudável caem literalmente sobre uns pés descalços. 
4:25 "O Jogo do Ganso" era sem dúvida um dos programas mais populares da TVI nesta altura, daí que fosse amplamente promovido nas suas transmissões. (É pá, o olhar e a pose daquela bailarina aos 4:40...)
4:55 "O Jogo do Ganso" era patrocinado pelos electrodomésticos Candy e como tal seguia-se um anúncio que já referimos aqui algumas vezes, o da mulher moderna que diz "Já escolhi. É Candy".
5:21 Vinheta
5:26 Promo à transmissão do filme "Jovem Procura Companheira" na quarta-feira seguinte. Este thriller de 1992 realizador por Barbet Schroeder ("Single White Female" no original) em que Bridget Fonda é uma jovem que procura uma rapariga com quem partilhar o seu apartamento e parece ter encontrado a pessoa ideal na personagem desempenhada por Jennifer Jason Leigh. Pelo menos até esta começar a querer copiar em tudo, desde o penteado ao lugar na cama do namorado. A promo fazia referência de que este filme seria transmitido em Pal Plus, uma das primeiras transmissões nesse formato em Portugal.




0:00 Promo ao filme de 1983 "Correntes" ("Streamers" no original) , realizado por Robert Altman, adaptado de um peça de teatro, em que quatro jovens soldados à espera de partirem para a guerra do Vietname são obrigados a conviver uns com os outros num quartel isolado e as tensões surgem porque um deles é negro e outro revela-se homossexual. O actor Matthew Modine (cujo apelido sempre se pronuncia "mo-daine" como é dito aqui, mas que eu julgava que se dizia "mo-din")  era um dos actores.
0:48 Vinheta
0:51 Um jovem homem num restaurante à espera de uma jovem mulher de chapéu inadvertidamente causa uma festa musical em seu redor e quando ela finalmente chega, já reina uma festança regada com o vinho rosé Lancers.
1:37 Um dos mais famosos anúncios de TV Shop, o da almofada Contour Pillow, vendida pela módica quantia de 3990 escudos (pouco menos de 20 euros) mais 800 (4 euros) em despesas de envio. "E sobretudo, o meu marido não voltou a ressonar!"
3:36 A Vidal Sassoon foi a marca pioneira dos champôs 2 em 1 em Portugal. E agora elevava a fasquia, apresentando uma gama de quatro champôs cada uma delas com um amaciador específico para cada tipo de de cabelo.
4:12 Dois gentlemans britânicos conversam sobre o novo carro de um deles, que sucesde ser um Renault 19. (Ainda sou do tempo em que a gama Renault usava apenas números para o seus diversos modelos).
4:41 Férias! Máximo Loucura! Em mais um anúncio de linha de valor acrescentado, era possível ganhar uma scooter ou uma bicicleta motorizada, oferta da marca IBA. Estou em crer que este foi um dos últimos anúncios a indicar um indicativo para Lisboa e Porto (506) e outro para o resto do país (0670), já que os outros anúncios já anunciam o 0670 para todo o país. (Mais tarde, o indicativo geral seria o 0641). 
5:08 Um sósia de Luciano Pavarotti (com voz do nosso grande cantor lírico Carlos Guilherme) protagoniza este anúncio a um duplo Jackpot no Totoloto onde quem acertasse nos seis números da sorte ganharia a apetecível quantia de 450 mil contos (2250 mil euros).
5:28 Outra vez o anúncio ao B Cool com Zé Carlos Vasconcelos.
5:37 Silhuetas sensuais neste anúncio à cerveja Golden Beer.
5:59 Outra vez a mulher que já escolheu Candy.
6:07 Um curioso anúncio da Coca-Cola em que uma aranha apercebe-se tarde demais da iminente ameaça de uma garrafa rolante mas é salva por passar debaixo da parte mais delgada da garrafa.
6:36 Vinheta
6:40 Uma das apostas da TVI para rentrée desse ano era "Mas Que Rita Noite", um programa talk show de variedades apresentado pela actriz Rita Ribeiro (daí o trocadilho do título). Pelas imagens da promo, os convidados do primeiro programa eram o seu pai, Curado Ribeiro e Artur Semedo. Contudo, "Mas Que Rita Noite" não convenceu e só quatro programas seriam transmitidos. (Já agora se ficaram curiosos quanto ao ano de nascimento de Rita Ribeiro - que na promo ela diz não querer revelar - o dito cujo é 1955.)
7:18 Imagens do filme "A Torre do Inferno".


0:00 Vinheta
0:03 Há já várias décadas que as pastilhas digestivas Rennie são uma valiosa ferramenta para a acabar com a azia. Eu recordo-me que a senhora que tomava conta de mim até à pré-primária e que eu considerava como uma terceira avó tinha sempre um pacote de Rennie perto do seu alcance.  
0:18 Como estávamos em época de rentrée, a revista TV Guia (nos tempos áureos em que era uma revista de televisão a sério) dessa semana era dedicada as apostas da novas grelhas de programação dos quatro canais.  
0:26 O INP (Instituto Superior de Novas Profissões) divulga as suas licenciaturas em Gestão, Turismo e Relações Públicas E Publicidade. Fundado em 1964, esta instituição de ensino superior está integrada no Grupo Lusófona desde 2006. 
0:38 Depois dos champôs 2 em 1, não tardou até que surgissem outros tipos de produtos 2 em 1. É o caso de Thera Med, produto de higiene oral que era dentífrico (pasta de dentes) e elixir num só. Este anúncio utiliza uma interessante metáfora do produto como sendo um cocktail. 
1:03 Mais um passatempo de linha de valor acrescentado pelo número 20 20 20 onde se podia ganhar uma viagem ao  Hawaii bem como pranchas de surf e de bodyboard.
1:29 Uma instituição nacional, a Domplex, a maior produtora portuguesa de produtos em plástico. E o slogan de sempre "Domplex é qualidade e utilidade." 
1:45 "9 meses era dantes. Agora o corpo humano forma-se em 14 semanas." Tantas quantos os fascículos grátis sobre o corpo humano publicados com a revista Visão
1:54 Mais um passatempo de linha de valor acrescentado (30 20 20) que, no âmbito da série "Marés Vivas" - então um dos programas de maior sucesso emitidos na TVI - oferecia uma viagem a Los Angeles
2:34 Vinheta

2:37 Depois de ter sido o protagonista da mítica série "A Balada de Hill Street", o actor Daniel J. Travanti liderava o elenco de uma nova série policial "Em Busca De..." ("Missing Persons") sobre uma unidade da polícia de Chicago especializada em resolver casos de pessoas desaparecidas. No entanto, a série só teve uma temporada de 17 episódios exibidos nos Estados Unidos entre 1993 e 1994. A série foi o primeiro papel regular em televisão da actriz Jorja Fox ("ER", "CSI") e Stephen Colbert teve uma participação especial no segundo episódio.   
3:09 Imagens do filme "A Torre do Inferno", que como já referi, foi um dos blockbusters mais célebres da década de 70 e um dos filmes que os meus pais viram no cinema quando começaram a namorar. Capitalizando na moda dos disaster movies de então, o filme de 1974 sobre um luxuoso arranha-céus onde deflagra um gigantesco incêndio que põe várias vidas em risco contava com um elenco luxuoso (Paul Newman, Steve McQueen, William Holden, Faye Dunaway, Jennifer Jones, Richard Chamberlain, OJ Simpson, Robert Wagner e Fred Astaire - cujo papel neste filme valeu-lhe a sua única nomeação para um Óscar) foi o maior sucesso de bilheteira desse ano e ganhou três Óscares.    


domingo, 23 de setembro de 2018

Rosa Mota campeã olímpica (1988)

por Paulo Neto




Atenas, 1982. Rosa Maria Correia dos Santos Mota é uma atleta determinada e batalhadora, já com bastantes barreiras quebradas. Desde problemas de asma e ciática a fazer orelhas moucas ao insultos que ouvia quando começou a competir, vinda de mentes tacanhas incapazes de aceitar a simples ideia de uma mulher praticar desporto. Mas aos 24 anos, ainda não tinha atingido o seu verdadeiro potencial. As provas de pista são-lhe demasiado curtas e limitadoras e as provas de estrada ainda não estão bem estabelecidas no panorama do atletismo feminino.

Mas eis que na capital grega, um porta se abre. Pela primeira vez numa grande competição, vai ter lugar uma maratona feminina. Algo que não deixa de ser extremamente ambicioso, até porque décadas antes acreditava-se que era impossível as mulheres correrem distâncias longas sem efeitos nocivos para a saúde e nos últimos Jogos Olímpicos, disputados dois anos antes, a prova mais longa do atletismo feminino foram os 1500m.
Depois de ter sido décima segunda nos 3000m, Rosa Mota decide tenta a sua sorte na maratona só para experimentar. O facto de ela nunca antes ter corrido mais de 20 quilómetros, nem mesmo em treino, é um mero detalhe. Mas para surpresa geral, é ela a primeira a cortar a meta no famoso Estádio Panteanaico. Já não restam dúvidas: a maratona é o espaço ideal para Rosa desabrochar e tornar-se uma lenda do desporto português e mundial. Das vinte e uma maratonas em que participará nos próximos dez anos, vencerá catorze delas. De permeio, também vencerá por seis vezes a célebre Corrida de São Silvestre em São Paulo.

Rosa Mota e José Pedrosa

Em 1983, venceu a maratona de Roterdão e foi quarta nos Campeonatos Mundiais em Helsínquia e no ano seguinte, foi terceira na primeira maratona olímpica feminina. Em 1984 venceu ainda a maratona de Chicago.
Chegados a 1986 e Rosa Mota confirma-se como a maior maratonista do mundo: não só ganhou as maratonas em que participou como fê-lo por larga margem. Tanto o seu segundo título europeu em Estugarda como o triunfo na Maratona da Tóquio foram conquistados por mais de quatro minutos face às segundas classificadas. E em 1987, nos Campeonatos Mundiais em Roma, indiferente ao calor abrasador que se fazia sentir na Cidade Eterna, Rosa vence o título mundial com mais de sete minutos de vantagem sobre a soviética Zoya Ivanova.

Com tantos argumentos, Rosa Mota era a principal favorita ao título olímpico de Seul em 1988. Mas o seu percurso teve um inesperado obstáculo: em 1987, a Federação Portuguesa de Atletismo convocou-a para o Campeonato Mundial de Estrada no Mónaco, mas a atleta recusou participar, alegando que tal iria comprometer a sua preparação para a maratona olímpica em Seul.
Não aceitando as suas razões, a FPA manteve-a sobre alçada disciplinar e Rosa chegou a estar impedida de competir, ao ponto da atleta considerar passar a representar Macau. Foi preciso o caso chegar às altas instâncias nacionais, nomeadamente Mário Soares e Roberto Carneiro (então respectivamente Presidente da República e Ministro da Educação) para que o diferendo não impedisse Rosa Mota de ir a Seul por Portugal e assim perder a sua maior hipótese de obter uma medalha para as cores nacionais na Coreia do Sul. Porém o diferendo só ficaria definitivamente resolvido em 1990.

O pódio da maratona feminina de 1988:
Lisa Martin (AUS), Rosa Mota (POR) e Katrin Dörre (RDA)


E assim Rosa Mota seguiu na comitiva portuguesa para Seul e foi uma das 69 atletas que no dia 23 de Setembro de 1988 se apresentaram na partida da segunda maratona olímpica feminina. Aos 30 quilómetros, apenas quatro atletas seguiam na frente: Rosa Mota, a australiana Lisa Martin, a leste-alemã Katrin Dörre e a soviética Tatyana Polovynska. Quatro quilómetros depois, Polovynska perdeu o contacto com a frente e tornou-se evidente que as medalhas iriam ser discutidas entre Rosa Mota, Martin e Dörre. Como a australiana e a alemã estavam relutantes em tomar a dianteira da prova, Rosa foi comandando e por volta dos 37km, num entendimento com José Pedrosa, o seu treinador e companheiro que entretanto surgiu de bicicleta, avançou para a estratégia final combinada por ambos: atacar na próxima subida e dar tudo até ao final. O golpe foi certeiro e Rosa Mota cortou a meta em primeiro lugar ao fim de 2 horas, 25 minutos e 40 segundos. Lisa Martin reagiu tarde ao ataque da portuguesa, conseguindo apenas garantir a medalha de prata e reduzir a sua desvantagem face a Rosa Mota para 13 segundos. Katrin Dörre ficou com a medalha de bronze enquanto Polovynska foi quarta a um centésimo da chinesa Zhao Youfeng.





Quatro anos depois do triunfo de Carlos Lopes em Los Angeles, "A Portuguesa" voltava a tocar em solo olímpico e a bandeira portuguesa subia ao poste mais alto de um pódio olímpico da maratona. 1990 foi o último grande ano de Rosa Mota onde não só conquistou o seu terceiro título europeu em Split (Jugoslávia) como venceu pela terceira vez em Boston, tendo também sido primeira em Osaka. Em 1991, abandonou a prova nos Campeonatos do Mundo de Tóquio mas venceu a maratona de Londres. Ainda existiam esperanças que pudesse obter a sua terceira medalha olímpica em 1992, mas desmotivada pela sua desistência da maratona de Londres desse ano e condicionada por uma lesão, acabou não só por não ir a Barcelona como também por terminar a carreira.



Desde então, Rosa Mota tem-se dedicado às causa desportivas e assumindo com bonomia o seu estatuto de lenda viva do desporto nacional. Já tive a honra de a encontrar em pessoa algumas vezes e revelou ser uma pessoa extremamente acessível e terra-a-terra.
Em 1995, foi eleita para Assembleia da República nas listas do PS para os círculos emigrantes. Desde 2013 é vice-presidente do Comité Olímpico de Portugal. O mundo do desporto internacional também não esquece os seus grandes feitos e Rosa Mota tem sido alvo de várias homenagens um pouco por todo o mundo. Por exemplo a Grécia não esquece a sua vitória nos Europeus de 1982 e já foi por duas vezes convidada a transportar a chama olímpica naquele país: em 2004 em Atenas, que acolhia os Jogos Olímpicos desse ano, e em 2016 na cidade de Maratona.
Em 2012, a Associação Internacional de Maratonas e Corridas de Longa Distância elegeu-a como a maior maratonista feminina de todos os tempos.

Com a tocha olímpica dos Jogos Olímpicos de 2016 na cidade grega de Maratona


Rosa Mota comenta a sua vitória em Seul: 


Documentário "Rosa Mota - Uma Vida de Maratonas" (RTP, Junho 1988)



   

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Morangos Com Açúcar (1.ª série) (2003-04)

por Paulo Neto




Caros leitores millenials, querem sentir-se velhos? No passado dia 30 de Agosto, fez quinze anos que a primeira temporada dos "Morangos Com Açúcar" estreou na TVI. (Esperem lá, o ano de 2003 já foi há DÉCADA E MEIA? Chiça penico!). Encorajada pelo sucesso de telenovelas como "Jardins Proibidos", "Olhos de Água" e "Anjo Selvagem", a estação da Queluz procurava alargar a sua oferta de teledramturgia nacional e para a grelha da rentrée de 2003, a sua grande aposta foi uma série virada para o público adolescente. Sem dúvida que a telenovela brasileira de longa duração "Malhação" que na altura era exibida na SIC com título de "New Wave" terá sido a grande inspiração, mas a verdade é que desde "Riscos" que não havia um produto de ficção nacional dirigido aos adolescentes e era uma lacuna que se impunha preencher. No entanto, creio que nem nas perspectivas mais optimistas da TVI imaginariam que seria o primeiro passo de uma verdadeira instituição que marcaria toda uma geração, que seria uma enorme referência da cultura popular nacional e um viveiro para novos talentos da representação em Portugal ao longo de nove temporadas (compartimentadas entre a respectiva série de ano lectivo e série de Verão). Mas para os efeitos deste texto, vamos recordar a primeira série, aquela que fundou os alicerces para o que viria depois. 

Pipo (João Catarré) e Joana (Benedita Pereira)

Catarina (Joana Solnado) e Rafa (Rodrigo Saraiva)
Ricardo (Diogo Amaral)

Filipe "Pipo" Gomes (João Catarré) é um jovem de 20 anos e o mais velho de quatro irmãos que perderam os pais num trágico acidente de viação. Quando Pipo descobre que os seus irmãos Catarina (Joana Solnado), Tiago (João Queiroga) e Susana (Carolina Castelinho) sofrem nas mãos da tia Vitória Guimarães (Carmen Santos), uma mulher interesseira e cruel, decide deixar os seus estudos na Holanda e assumir a tutela legal dos irmãos. Com a ajuda de Martim Moura Bastos (Luís Zagallo), os quatro irmãos mudam-se para Cascais, com Pipo a gerir o bar da Praia dos Rebeldes e os três irmãos a frequentar o Colégio da Barra. Martim tem um filho, Ricardo (Diogo Amaral), um velho amigo de infância de Pipo. Mas ao contrário deste, Ricardo tornou-se um rapaz presunçoso e irresponsável. E a amizade de ambos será definitivamente desfeita por causa de Joana Duarte (Benedita Pereira). 

Joana namora com Ricardo e julgava ser feliz no amor até que na festa do seu 18.º aniversário, surpreende o namorado aos beijos com uma convidada. Desnorteada, a rapariga dirige-se ao mar e é salva por Pipo. E assim começa uma história de amor que vai ter bastantes obstáculos, sobretudo porque, apesar dos seus pulos de cerca, Ricardo sente-se traído pelo amigo e fará tudo para os separar, desde seduzir Catarina a sabotar o noivado de ambos. E as coisas só pioram quando Martim morre e é revelado que Pipo é filho de um caso dele com a mãe dos irmãos Gomes e o herdeiro da fortuna em detrimento de Ricardo. 
O amor de Pipo e Joana também não é bem visto pelo pai da jovem, Daniel (Luís Esparteiro) que contava com o casamento da filha com Ricardo para os seus negócios (como o ginásio Aquabody) que já viram melhores dias. O seu casamento com Teresa (Helena Isabel) há muito que se tornou baseado em aparências e os dois já nem disfarçam os desentendimentos diante dos filhos. Joana tem um irmão mais novo, Dani (Diogo Martins), um miúdo inteligente e metediço que rapidamente se torna o melhor amigo de Susana.

Helena (Sofia de Portugal) e Sapinho (Guilherme Filipe)
Carlos Vieira (Nuno) e Madalena (Dalila Carmo)
Eduardo (Almeno Gonçalves) e Teresa (Helena Isabel)


O Colégio da Barra, do qual Martim é proprietário, é um colégio reputado pela qualidade do seu ensino e pelos seu inovadores métodos pedagógicos. A directora é Constança Meireles (Rita Salema), professora do ensino primário, que exerce as suas funções de modo exemplar, sem desconfiar que Rogério Sapinho (Guilherme Felipe), o terrível professor de Inglês, pretende o seu posto. Eduardo Nogueira (Almeno Gonçalves), o professor de Português, está nas mãos de Sapinho porque este sabe do seu terrível segredo: foi ele o culpado da morte dos pais dos irmãos Gomes. Sapinho tem ainda mais dois aliados no corpo docente: o seu sobrinho Gil (Rodrigo Menezes) e Helena Fernandes (Sofia de Portugal), a professora de História, que tem um fraco por ele. Pelo contrário, Nuno Sacramento (Carlos Vieira) é o seu principal opositor de Sapinho e o seu completo oposto: jovem, simpático, preocupado com os alunos e com um inovador método de ensino de Matemática. Nuno vai-se apaixonar por Madalena Soares (Dalila Carmo), a professora de Educação Física, e embora esta lhe corresponda, ela ainda recupera de um grande desilusão amorosa. 

Mónica (Teresa Tavares), Joana (Benedita Pereira)
e Carla (Filomena Cautela)

No Colégio da Barra, as melhores amigas de Joana são Mónica Rebelo (Teresa Tavares) e Carla Silva (Filomena Cautela). Prima de Ricardo, Mónica é aparentemente uma rapariga e aluna exemplar mas que gradualmente vai questionar a sua existência para além daquilo que os outros esperam dela e essa crise de identidade levar-lhe-à a uma obsessão doentia pelo professor Nuno mas também encontrar inesperadamente o amor em Pedro (João Baptista), um rapaz de um bairro desfavorecido. Carla esconde de todos que é pobre, chegando ao ponto de proibir a sua mãe Idalina (Ilda Roquete), a empregada do bar da escola, de revelar que ela é sua filha. Mas o pior que tudo, tem um caso com Daniel, o pai da sua amiga!  

Lara (Sofia) Arruda e Rodas (Tiago Aldeia)


Tiago é o mais tímido dos irmãos Gomes e por isso fica impressionado com a rebeldia de Rodolfo Damião (Tiago Aldeia), mais conhecido por Rodas. Os dois formam uma inesperada amizade, complementando-se um ao outro. Mas Lara Queirós (Sofia Arruda), a colega por quem ambos se vão interessar, será talvez o maior teste à amizade de Tiago e Rodas.

Dani (Diogo Martins), Patrícia (Núria Real)
e Susana (Carolina Castelinhos)


As cenas mais divertidas eram frequentemente aquelas protagonizadas por Dani, Susana e Patrícia (Núria Real) cuja imaginação infantil leva-os a várias aventuras como as de descobrir se Sofia (Ana Rocha), uma amiga de Eduardo, é uma extra-terrestre, vingarem-se da Tia Vitória fazendo-lhe um bolo com laranjas (às quais ela é alérgica) ou quererem organizar um rave para alunos da primária (onde as pastilhas consumidas são as de mastigar e nada alucinogénas)!

Outros alunos do Colégio são Rafa Brandão (Rodrigo Saraiva), o entusiasta director da rádio do colégio, Rui (Manuel Moreira), um jovem amante de cinema que se apaixona por Catarina, e Sara (Patrícia Candoso), a filha de Constança que vivia com o pai nos Estados Unidos, que, convencida pelo pai que a mãe a abandonara e nunca quis saber dela, pretende fazer a vida negra à mãe e acaba por se aliar às vilanias de Ricardo. Porém é em Portugal que ela descobre o seu talento para cantar.

A primeira temporada contou ainda com participações especiais de Sara Moniz, Maria José Pascoal, Filipe Crawford, Rogério Jacques, Jorge Corrula, Sylvie Dias, Márcia Leal e Gustavo Santos. Os diálogos eram da autoria do colectivo da Casa Da Criação, liderado por Maria João Mira, e a realização de Atílio Riccó. O tema de abertura era cantado por Berg.




O sucesso da primeira série de "Morangos Com Açúcar" tornou-se rapidamente um sucesso (para muitos jovens portugueses tornou-se um ritual diário pós-escola) e estabeleceu alguns paradigmas para as temporadas vindouras: um par romântico protagonista, a criação de uma mini-temporada para as férias de Verão que apresentaria algumas personagens para a temporada seguinte; uma banda sonora que mesclava vários hits nacionais e internacionais com futuros êxitos; aparições especiais de alguns cantores e grupos nacionais e estrangeiros (por exemplo, nesta primeira série vieram cá os alemães Reamonn e as britânicas Sugababes); a revelação de um talento musical (neste caso Patrícia Candoso cujo álbum "O Outro Lado" foi disco de ouro); todo o tipo de marcas comerciais a acotovelarem-se para ter cenas com product placement e claro está, todo o tipo de merchandising (roupas, material escolar, livros, perfumes...). O Governo chegou mesmo a aproveitar o sucesso da telenovela para promover o pedido de facturas com número de contribuinte por parte dos consumidores, pedindo aos guionistas para incluírem diálogos onde os clientes do Bar dos Rebeldes e de outros estabelecimentos pediam sempre factura.

CD da banda sonora
CD "O Outro Lado" de Patrícia Candoso


Claro que nos temporadas seguintes (sobretudo a segunda que revelou nomes como Cláudia Vieira, Pedro Teixeira, Rita Pereira e os D'ZRT e a terceira em que inclusivamente uma storyline de um vírus perigoso que assolava o Colégio gerou um dos maiores casos diagnosticados de histeria colectiva neste século) os "Morangos Com Açúcar" tornar-se-iam ainda mais estratosféricos. Mas muitos fãs ainda recordam com saudade a primeira temporada e Pipo/Joana ainda é um dos mais acarinhados casais protagonistas. (Espanta-me que a TVI nunca se tenha lembrado de recuperar a química de João Catarré e Benedita Pereira para um novo par romântico numa telenovela).   

Em 2011, o canal Panda Biggs repôs a primeira temporada  de "Morangos Com Açúcar" e em 2016, foi reposta na TVI Ficção. Chegou ainda a ser exibida ainda num canal brasileiro (com dobragem em português do Brasil!) mas foi cancelada ao fim de dois meses. Neste ano, começou também a ser exibida na TV Galicia e no final de cada episódio existe uma vinheta educativa onde se utiliza cenas da telenovela para ensinas português aos jovens galegos. (E ainda diziam que os "Morangos" era deseducativos!)

1.º episódio



Pipo e Joana in love




Músicas da banda sonora:

"Morangos Com Açúcar" Berg



"Pele Salgada" Berg



"Somebody" Belinda More


"I Thought You'd Leave Your Heart With Me" Rita Guerra


"Electric Mind" André Indiana


Ensinando português aos galegos com "Morangos Com Açúcar"


terça-feira, 4 de setembro de 2018

Knock Off (1998)





Foi com este filme que aprendi o termo em inglês para bens contrafeitos, as imitações: knock-off que deram título a este veículo de Van Damme. E décadas depois ainda vejo os coleccionadores debaterem-se online sobre qual o termo mais adequado, knock-off ou bootleg. Sinceramente recordo pouquíssimo da fita realizada por Tsui Hark, chinês nascido no Vietname. Creio que foi mais ou menos nesta época que o Canal 2 passou vários filmes de Tsui Hark e fiquei super-fã do Os Guerreiros da Montanha (1983) e dos "Era Uma Vez Na China". "Knock Off" foi o segundo filme de Hark em terras do Tio Sam, onde não trabalhou mais depois das desilusões deste e do anterior "Double Team" (também com Van Damme, em dupla com o excêntrico Dennis Rodman).
Regressando ao título, imitações abundam, mas diz a Wikipedia que knock-off é também um eufemismo para assassinato. Acção desenrola-se na Hong Kong actual de 1998, com a antiga colónia a ser devolvida aos chineses. Van Damme é apanhado no fogo cruzado entre criminosos e terroristas, há bombas escondidas em todo o tipo de aparelhos e objectos para permitir o assassinato selectivo à distância, há CIA, mafiosos, porrada e tiros a montes.

Tive que rever o trailer, e oh, entrava o Rob Schneider... Já estou a ver porque isto é tão bom que me esqueci do filme...


 Confesso que agora até fiquei com vontade de rever!


Estreou em Portugal como o título "Embate", no dia 4 de Setembro de 1998, a mesma data que estreou nos EUA. Durante muitos anos os portugueses tiveram que aguardar meses e ás vezes anos pelas estreias de filmes, mas em finais dos anos 90 o intervalo entre as estreias na América e em Portugal era cada vez menor.

Termino com o poster (knock-off) ganês de Knock Off. Até não é dos piores que já vi...



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