quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Destino X (1994)

por Paulo Neto

Nos anos 90, a SIC empenhava-se em trazer novos conceitos de programas de televisão, diferentes daqueles a que o nosso país estava até então habituado. E na rentrée de 1994, por entre estreias de programas como "All You Need Is Love" e a segunda edição do "Chuva de Estrelas", a estação de Carnaxide incluiu na nova grelha um programa cuja primeira parte começava em Portugal e a segunda se passava num país bem distante, geralmente uma apetecível destino turístico.

"Destino X" passou às terças-feiras à noite entre Outubro e Dezembro de 1994, com apresentação e produção de Teresa Guilherme. Infelizmente (e como é frequente no espólio da SIC dos anos 90 e inícios dos anos 2000), encontrei muita pouca informação sobre o programa, e muito menos excertos do programa. O máximo que consegui foram promos ao programa de Hong Kong e ao último programa com os melhores momentos perdidas no meio de vídeos de blocos publicitários da SIC. 
Por isso, muito deste texto sobre o programa vai ter como base aquilo que me lembro dele, mas também uma das crónicas do livro "Isso Agora Não Interessa Nada" de Teresa Guilherme. (Já agora, posso referir que algumas das crónicas desse livro estão também no mais recente livro editado por TG, "Cheguei Aonde Me Esperavam".) 



Como referi, a primeira parte do programa passava-se em Portugal num estúdio, onde duas equipas compostas por um elemento feminino e outro masculino, geralmente um casal de esposos ou namorados, competiam pela oportunidade de viajarem ao destino turístico onde seria gravada a segunda parte, através de um conjunto de vários jogos. Lembro-me que o primeiro jogo era precisamente descobrir qual era o destino, seguindo-se várias provas tanto de exigência física como de perguntas e respostas.Entre os assistentes do programa estava uma então desconhecida Adelaide de Sousa, à qual os operadores de câmara pareciam focar com maior frequência do que às outras, mas também Patrícia Henrique, que passou por outros programas como "Ai Os Homens" e "Paródia Nacional" como assistente/bailarina e a brasileira Valéria Carvalho, que ficaria conhecida na sitcom "Não Há Pai" e que actualmente integra o elenco da telenovela "Espelho de Água".  


Na segunda parte gravada já no respectivo destino, os concorrentes faziam vários desafios que os permitiam conhecer mais a cultura do país. Lembro-me por um exemplo que um dos desafios do programa de Macau era ver se os autóctones respondiam quando os concorrentes lhes falavam em português o que não era muito fácil, pois apesar de na altura ainda ser território português, a língua de Camões já praticamente era só utilizada sobretudo nos órgãos governativos e nos tribunais locais. Na Cidade do México, o rapaz teve que aprender uma dança tradicional de um ritual azteca. E um dos desafios do programa de Hong Kong foi, dada a multiculturalidade do então ainda território britânico na China, foi tentar encontrar pessoas de 10 nacionalidades diferentes em menos de uma hora...e não é que encontraram lá um português? 

Entre os países onde o programa foi gravado, dois deles tiveram direito a dois episódios: o Brasil teve um programa na Baía e outro no Rio de Janeiro, enquanto o México teve um programa em Cancún e outro na sua cidade capital. Outros países e territórios pelos quais o programa passou foram Filipinas, Hong Kong, Macau, Tailândia, Peru, Chile e República Dominicana. 



Mas se estes destinos eram de sonho para serem visitados, segundo conta Teresa Guilherme, eram quase de pesadelo para serem gravados:

"Nas Filipinas chovia, chovia e voltava a chover, apesar dos autóctones no garantirem que não estávamos na época das chuvas.
No Brasil apanhámos uma caloraça e não foi do sol, mas sim de andar a fugir à polícia. Para nos deixarem gravar fosse onde fosse queriam sempre uns trocadinhos, ou dois, ou mesmo vinte, para um "chope".
No México os agentes da alfândega apreenderam-nos todo o material técnico por causa de um mal-entendido qualquer, que apenas se esclareceu em inglês, ou melhor em americano. Não há nada mais eficaz que a linguagem universal dos dólares.
No Peru a altitude, em vez de nos elevar o espírito, baixou-nos a tensão e lá nos andámos a arrastar.
Na Tailândia, fomos escoltados por um polícia que tinha de visionar tudo o que gravávamos. Provavelmente, tinha receio de que filmássemos "segredos" que as outras televisões do mundo já estão fartas de mostrar.
O único sítio onde tudo correu bem foi em Macau, que ainda era território nacional. Tirando o pequeno detalhe de os concorrentes terem sido apanhados numa greve em Frankfurt e terem chegado três dias depois da data marcada, com o coração nas mãos e as malas sabe-se lá onde."

As dificuldades fizeram-se logo sentir no primeiro programa a ser gravado nas Filipinas, que começou logo com uma grande molhada, e não foi só da chuva.

"Deus deu-nos um sinal das dificuldades que tínhamos pela frente logo no primeiro dia de gravações nas Filipinas.
O local chamava-se Pacsanjan. Era lindo. Um rio que desaguava em duas cascatas maravilhosas. Para quem se lembra do Apocalypse Now, basta dizer que foi ali filmada a verdejante cena com Marlon Brando. O desafio do concorrentes era descer o rio em canoas muito modestas, passar por detrás das cascatas que escondiam uma gruta e recolher o troféu.
Quando, uns meses antes, eu tinha estado nesse local a fazer a visita técnica (...), o rio era calminho, apenas com uma correntezita. As cascatas eram grandes, mas domesticadas. Só que no dia das gravações o cenário não era bem esse. Chovia a potes, a corrente era feroz e as cascatas rugiam assustadoramente.
Uma apresentadora, um operador de câmara, muito material técnico e uma valente tempestade, tudo metido dentro de uma canoazita, estávamos mesmo a pedi-las.
A canoa virou-se e foi tudo por água abaixo: a câmara, as cassetes, o microfone, o operador e eu. Nós lá nos salvámos, agora o material é que foi desta para melhor e ainda está a banhos nas Filipinas.
Foi um princípio que mais parecia um fim. Claro que tínhamos material para usar em caso de emergência. O que não imaginávamos é que íamos começar logo por uma emergência."

Daquilo que me lembro, acho que o sítio que me deu mais vontade de ir foi Cancún, no México, com tantas praias e paisagens de encher o olho. Ficou-me especialmente na retina, uma imagem de Teresa Guilherme e os concorrentes num bar que ficava...no meio de uma piscina!
Eu acho que, numa altura mais financeiramente favorável e com as devidas actualizações, "Destino X", seria um programa que poderia ser recuperado para os tempos actuais.


sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Robin Hood - Príncipe dos Ladrões (1991)

por Paulo Neto


A figura folclórica da Inglaterra medieval de Robin de Locksley, mais conhecido como Robin dos Bosques, como exímio arqueiro e justiceiro que roubava dos ricos para dar aos pobres, tem sido amplamente retratada na literatura, no teatro, na televisão e no cinema. 
Por exemplo, foi um dos papéis mais icónicos de Erroll Flynn que encarnou a personagem na adaptação cinematográfica de 1938 e que estabeleceu a célebre indumentária do chapéu com penacho e leggings verdes que ficou associada a Robin Hood. Por sua vez em 1977, Sean Connery deu corpo a um Robin na pré-reforma em "Robin e Mariam", passando pela adaptação animada de Disney de 1973 com o herói a ser retratado como uma raposa antropomórfica. 




Mas o Robin dos Bosques da minha geração é sem dúvida aquele interpretado por Kevin Costner no filme de 1991 "Robin Hood - O Príncipe dos Ladrões", realizado por Kevin Reynolds. Recém consagrado pelo sucesso de "Danças Com Lobos", Costner trouxe a figura mítica para os anos 90, dispensando os leggings verdes (e o sotaque britânico!) e o filme foi um dos maiores sucessos do ano, apenas ultrapassado pelo "Exterminador Implacável 2". 




Robin de Locksley (Costner) é um jovem nobre que se juntou ao Rei Ricardo Coração de Leão (Sean Connery) nas Cruzadas. Capturado no Médio-Oriente, Robin consegue escapar do cativeiro com a ajuda do mouro Azeem (Morgan Freeman). O seu amigo Peter Dubois não sobrevive à fuga e Robin promete-lhe que tomará conta da sua irmã Marian (Mary Elizabeth Mastrantonio) quando voltar a Inglaterra. 


Mas quando regressa às suas terras, Robin descobre que o seu pai está morto e a sua casa em ruínas. A região é agora controlada pelo pérfido Xerife de Nottingham (Alan Rickman) e pelos seus aliados Guy Of Gisborne (Michael Wincott), o bispo corrupto Hereford (Harold Innocent) e a bruxa Mortianna (Geraldine McEwan). O Xerife oprime o povo com a sua crueldade e pesados impostos. 
Robin e Azeem juntam-se então a um grupo de proscritos da Floresta de Sherwood, entre os quais Little John (Nick Brimble) e Will Scarlett (Christian Slater), que nutre uma animosidade por Robin. 
O grupo dedica-se a roubar a nobreza e distribuir o seu saque pelos pobres. Frei Tuck (Mike McShane), um dos alvos do grupo, acaba por se tornar aliado. Lady Marian também se junta à causa e o romance rapidamente desabrocha entre ela e Robin. 
Mas quando o Xerife captura vários homens de Sherwood e rapta Marian, pretendendo casar-se com ela, Robin infiltra-se no palácio para um confronto final. 





Esta adaptação que, segundo vários envolvidos, é inspirada na série britânica "Robin Of Sherwood" (1983-1986) tem a particularidade de não incluir a personagem do Príncipe João, que ocupava interinamente/usurpou o trono de Ricardo Coração de Leão durante a ausência deste nas Cruzadas, que nas outras adaptações partilha o antagonismo com o Xerife de Nottingham. Como tal, o Xerife é o vilão-mor nesta adaptação, e talvez por isso Alan Rickman consegue o desempenho mais carismático. (Rickman declarou ter recusado duas vezes o papel até lhe dizerem que tinha toda a permissão para fazer o que quisesse com a sua interpretação da personagem.) Freeman e Mastrantonio foram também muito elogiados nos seus papéis. Já eu recordo-me de achar a Mortianna assustadora como o caraças quando vi o filme pela primeira vez no VHS alugado. Por outro lado, simpatizei com Wulf, o puto do filme, interpretado por Daniel Newman.





Mas o verdadeiro legado de "Robin Hood - Príncipe dos Ladrões" foi sem dúvida o seu tema principal, "Everything I Do (I Do It For You)", interpretado por Bryan Adams e foi de longe o grande hit do ano, vendendo mais de 15 milhões de cópias em todo o mundo, escalando ao n.º 1 dos tops de tudo o que era país (Portugal incluído) e ainda hoje se mantém como o single que ficou mais semanas consecutivamente em n.º1 no top do Reino Unido (16 semanas). Tudo isto propagou a carreira do cantor canadiano a outro nível, fazendo do seu álbum "Waking Up The Neighbours" um campeão de vendas. Curiosamente, Bryan Adams foi para aí a sexta ou sétima escolha dos produtores para compor e interpretar um tema para o filme, depois da recusa de nomes como Kate Bush e Annie Lennox. Em Portugal, a canção teve um breve ressurgimento no ano 2000 quando a TVI decidiu ilustrar as tropelias horizontais da Marta e do Marco do primeiro "Big Brother" com essa canção. 

Trailer:


"Everything I Do (I Do It For You)" Bryan Adams

 


   

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Robin Hood - Caderneta de Cromos (1986)




Publicidade à Caderneta de Cromos da animação Disney "Robin Hood", o filme "Robin dos Bosques" de 1973. Esta colecção Panini era composta por 360 cromos autocolantes. O precioso catálogo JuvenilBase - do Mistério Juvenil - adianta que o preço da caderneta era de 50 escudos e cada carteirinha (com 4 cromos) custava 15 escudos.
A própria publicidade incluia o aspecto da capa da caderneta de cromos:


Imagem Digitalizada da revista "Mickey" Nº 68 (1985) e Editada por Enciclopédia de Cromos.

Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos"Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Homem Que Mordeu O Cão (1997-...)

Parece que foi ontem que começámos a ouvir na rádio esta rubrica criada por Nuno Markl ("Caderneta de Cromos") mas "O Homem Que Mordeu o Cão" lançou a sua primeira edição no éter no dia 6 de Outubro de 1997

Na segunda metade dos anos 90 eu passava muito tempo a ouvir a Rádio Cidade para gravar os êxitos musicais do momento, mas muitas vezes mudava para a Rádio Comercial para ouvir este programa de insólitos (e mais tarde tornei-me mesmo fã ferrenho do "Há Vida Em Markl"). O site da Rádio Comercial tem uma boa definição do programa: "Casos da vida real, bizarrias do mundo e observações aleatórias sobre tudo e sobre nada.", um "...noticiário bizarro,composto pelas notícias que os noticiários a sério deitam fora." tudo narrado pelo próprio Nuno Markl, que também recolhia essas bizarrices de uma Internet a que a maioria dos portugueses não tinha acesso regular.
E através dessa mesma Internet, o programa "levaria a interactividade com os ouvintes a novos patamares; em poucos meses havia grupos de fãs e, daí a poucos anos, uma digressão nacional de espectáculos ao vivo, vários livros, um programa de televisão e, 20 anos depois, choque dos choques, indivíduos adultos de barba rija que vêm hoje ter com o autor da rubrica a dizer que costumavam ouvir O Homem Que Mordeu o Cão a caminho da escola primária." lê-se no artigo sobre as comemoração do 20º aniversário da rubrica que inclui um espectaculo ao vivo no Coliseu de  Lisboa para "para celebrar 20 anos de notícias bizarras, Desbloqueadores de Conversa, enormes seios, cabras que gritam como pessoas e outros insanos pedaços da História da Rádio em Portugal". Confesso aqui que não sou particularmente fã dos segmentos "cabras que gritam como pessoas" da iteração mais recente do programa, que regressou à antena da Comercial em 2013. Mas ouvir falar em "Desbloqueadores de Conversa" e "enormes seios" realmente revive muitas memórias!


O primeiro livro da trilogia, "O Homem Que Mordeu O Cão" foi colocado à venda em 2002 e foi um êxito de vendas, com mais de 150000 exemplares vendidos nesse ano. Só consegui o meu exemplar mais tarde, nalguma feira de velharias.
Em 2003, por altura do lançamento do segundo livro "O Regresso D'O Homem Que Mordeu O Cão: A Irmandade do Canídeo" a rúbrica com Nuno Markl, Pedro Ribeiro e Maria de Vasconcelos estava a ser emitida na malograda rádio "Best Rock FM".

Na capa deste segundo volume, podia ler-se:
"novas toneladas de notícias bizarras envolvendo enguias domesticadas, sexo, pensionistas, frascos de pickles e ainda teorias complexas sobre coisas da vida como ser VIP, flagelos da humanidade como bandas que cantam canções pop em canto gregoriano ou transmissões de patinagem artística na televisão e ainda a última palavra em conversas com taxistas sobre futebol...". Realmente as conversas com taxistas são um tema recorrente na obra de Markl.
"Nuno e Anabela Markl mostram-nos a sua última infiltração de humidade na casa de banho" ou "Nuno Markl passeia-se em cuecas e camisola interior de alças pelo seu apartamento de Benfica" são duas das manchetes que Nuno Markl antecipava se tivesse cedido aos pedidos de uma revista de famosos para fotografá-lo em casa. [in "O Regresso D'O Homem Que Mordeu O Cão"]
No livro o autor ainda recorda com carinho a digressão "O Homem Que Mordeu O Cão Ao Vivo" com os colegas Pedro Ribeiro e Maria de Vasconcelos no Villaret e por boa parte do país, totalizando "vinte e tal mil pessoas" que foram expostas ao vivo e a cores á agora famosa teoria que a cantora Dina e o actor Orlando Costa ("Zé Gato") são "uma e a mesma pessoa". O espectacúlo "HQMOC ao Vivo" incluiu adicionar um frondoso bigode numa foto de Dina. Coisas que não se podem fazer na rádio...
Escolho agora um exemplar aleatório de um "Desbloqueador de Conversa", ideal para longas viagens de elevador:
"Você: Pois é, pois é...
O Vizinho: Cá estamos...
Você: Cansado...
O Vizinho: Pois...
Você: Pois é, pois é, pois é...
O Vizinho: Ou não...

Você: Ah, é verdade: sabia que a primeira bicicleta foi fabricada em 1817?

ISTO É UM...DESBLOQUEADOR DE CONVERSA!"

O volume que fechou a trilogia HQMOC foi "O Homem Que Mordeu O Cão: A Revolução" inspirado pelo volume que fechou a trilogia Matrix. Tenho algures numa caixa, não encontrei a tempo de tirar fotos.
E o livro mais recente, depois do regresso à comercial, lançado em 2014 com o sucinto título "O Novo, Incrível, Definitivo, Arrebatador, Estrondoso, Monumental e Titânico Livro d'O Homem Que Mordeu o Cão".


Não acompanhei regularmente as aventuras do HQMOC na TVI, mas deixo aqui um episódio:




E claro, o vídeo de "Um Dia na Vida do Homem Que Mordeu O Cão":

Tenho impressão que tenho isto gravado nalguma cassete VHS....

No dia que se assinalou o 20º aniversário da estreia de HQMOC, Nuno Markl redigiu um longo texto em que recorda o arranque do projecto, o sucesso, o intervalo e o regresso:
"Mas havia aquela ideia de que isto poderia ser diferente.
E, em poucos meses, e em parte graças a essas inovações bombásticas chamadas Internet e e-mail, o diálogo com os ouvintes tornou-se mais intenso que nunca.
A WWW era também a ferramenta ideal para sacar material para a rubrica - O Homem Que Mordeu o Cão não era possível anos antes, só com os telexes da Lusa... Até porque a Lusa não ligava lá muito às notícias bizarras.
Foi a tempestade perfeita. Primeiro foi o reconhecimento na rua por via da voz (“Você tem a voz parecida com aquele gajo do Homem Que Mordeu o Cão...”). De repente havia material suficiente (e interesse suficiente) para juntar as melhores notícias num livro. De repente, o livro vende 150 mil exemplares. E há espectáculos marcados pelo país. E a TVI acha boa ideia transformar os espectáculos num programa de TV.
Entretanto houve hiatos, uma passagem cheia de boas memórias pela Antena 3, profissionais e pessoais; um regresso à Comercial com a Caderneta de Cromos... 
... e depois, o inevitável regresso - O Homem Que Mordeu o Cão é sobre contar histórias, e contar histórias (e ouvi-las) é coisa que talvez não tenha prazo de validade."

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Hino da SIC (1992)

por Paulo Neto

A SIC, Sociedade Independente de Comunicação, faz 25 anos, um quarto de século. E no entanto, para muitos como eu, parece que foi ontem. Ainda tenho bem presente algumas imagens e programas dos primórdios da SIC e assisti atentamente à ascensão fulgurante do canal de Pinto Balsemão no panorama audiovisual nacional nos anos 90, oferecendo a Portugal todo um admirável mundo novo de fazer televisão, diferente daquele a que o país estava habituado ao longo do monopólio de 35 anos da RTP, e respondendo a desejos do país tinha, ainda que aparentemente não soubesse que os tinha, como por exemplo, os de programas onde o português comum era o protagonista.



Aos 25 anos, a SIC actual enfrenta vários problemas, desde a perda da liderança para a TVI que nunca mais conseguiu recuperar (ter deixado escapar o "Big Brother" para Queluz acabou por se revelar um erro fatal) às dificuldades gerais das televisões generalistas um pouco por todo o mundo face ao crescimento de outras plataformas audiovisuais, e os seus tempos áureos não só parecem distantes como até irreais. Mas para quem viveu intensamente esses tempos como espectador (ou não tivesse esse período coincidido com a minha puberdade e adolescência), essas memórias mantêm-se bem vivas.


Seja como for, desde que a SIC iniciou as suas emissões às 16 horas do dia 6 de Outubro de 1992, num bloco informativo apresentado por Alberta Marques Fernandes, mesmo sem um sucesso instantâneo (embora não tardaria a chegar), a estação foi logo dando alguns indícios aos portugueses que estavam perante um admirável mundo novo em televisão. E o primeiro sinal terá sido sem dúvida o genérico de abertura da emissão. 



O genérico ultra-colorido em animação 3D foi criado por Hans Donner, o designer alemão radicado no Brasil que foi responsável pela maioria dos genéricos dos programas da Rede Globo nos anos 80 e 90 e ao longo dois minutos da sua duração, tocava o hino da SIC, com música de Zé da Ponte e letra de Carlos Paulo Simões, interpretado por quatro vozes que na altura cantavam tudo o que era jingle em Portugal: Nucha, Dulce Pontes, Tó Leal e Gustavo Sequeira.       


Eis a letra:

Era Outubro, despertei
Era dia e gostei
Olhando à volta descobri
A íris de mil cores
Mais mil amores
E três odores
Que nunca conheci

Então gritei
Aconteceu
Aconteceu

Os segredos que sabemos
E as palavras escondidas
São promessas transformadas
São desejos desvendados
Não serei eu mas tu
A tua força, o teu acordar
Que vai dar lugar enfim
Ao vibrar de todos nós

Os segredos revelados
E as imagens coloridas
São realidades nossas
São vitórias conseguidas
Não serei eu mas tu
A tua garra, o teu despertar
Que vai dar lugar enfim
À SIC de todos nós

Não serei eu nem tu
Seremos nós
A sua televisão independente
SIC, SIC, SIC, SIC...

Três pontos altos para mim na cantiga: primeiro, Dulce Pontes (na altura já em vias de levar a sua carreira como cantora a outros níveis) com a sua voz inconfundível a explodir no verso "Então gritei!"; segundo, o riff da guitarra; terceiro, o final algo anticlimático mas nem por isso menos eficaz com a repetição em eco do nome do canal: SIC, SIC, SIC, SIC... (Só não percebo a parte dos "três odores que nunca conheci". Será que foi só para propósitos de rima e métrica?)




Versão instrumental:




Lembro-me de no Verão de 1993, esperar ansiosamente às quatro horas da tarde pelo início das emissões da SIC para ver os "Gladiadores Americanos" e outros programas e quando surgia o genérico, era aquela alegria até me lembro que por vezes até fazia uma coreografia ao som do hino da SIC. Enfim, outros tempos.

Este genérico foi emitido na abertura e no fecho das emissões da SIC até a estação começar a emitir continuamente 24 horas por dia (creio que em 2001). 

Por ocasião do seu 25.º aniversário, a SIC regravou o seu hino interpretado pelas várias caras da estação e cantores revelados pelos concursos de talentos, com todos a aparecerem no videoclip.

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Making off:


ACTUALIZAÇÃO: No dia do seu 25.º aniversário, foi também apresentada uma nova versão do hino da SIC, interpretada por crianças.




EXTRA 1: Em 2012, por altura do 20.º aniversário, a SIC criou um novo hino, mas não vingou, tal o peso do original.


EXTRA 2: Excerto do programa de comemoração do primeiro aniversário da SIC (1993) conduzido por Rodrigo Guedes de Carvalho


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner - Perigo Iminente (1982)



Pela sinopse "agente caça androides renegados num futuro sombrio" estariamos na presença de algum filmeco feito com cinco tostões, o guarda roupa e cenários roubados do Mad Max ou algum spaguetti italiano.
É lento, com várias camadas de complexidade e necessita que o espectador lhe preste atenção. É o meu filme favorito de sci-fi de todos os tempos? Não. Mas reconheço as qualidades e os motivos porque plateias que habitualmente desprezam o género de ficção cientifica colocaram "Blade Runner" no pedestal. Um pouco como "2001: Odisseia no Espaço". Tecnicamente é uma maravilha visual e sonora, criando um universo futurista-noir credível na Los Angeles do ano 2019, uma data muito distante na estreia da fita, 25 de Junho de 1982. Era bem mais novo quando vi o filme, mas incomodou-me os problemas com o ritmo e o desenrolar da narrativa, ora lenta ora brusca e confusa. Planeio rever novamente, mas na versão final - por agora - de entre as diversas versões e cortes existentes no mercado nas ultimas décadas. 
Antes do filme conheci o tema da icónica banda sonora de Vangelis nalguma daquelas compilações de clássicos de músicas para cinema. Por altura da estreia, apesar de encabeçado por uma das maiores estrelas de cinema, o público não se interessou e a crítica dividiu-se, mas rapidamente o filme se tornou objecto de culto, pela experiência e pelos temas que aborda.
Harrison Ford é Rick Deckard, um "blade runner" reformado, um agente caçador de andróides (como no título brasileiro), as criações não robóticas mas orgânicas que parecem humanos e que começam a questionar e protejer a sua curta existência como seres vivos inteligentes escravizados pelos humanos. A missão de Deckard é encontrar e eliminar grupo de androides que fugiu para a Terra em busca do seu criador na Tyrell Corporation. A Los Angeles da segunda década do século XXI é uma cidade sobrepopulada, suja e iluminada por neons publicitários. A estética dos arranha-céus e pirâmides gigantes casa bem com os carros voadores. Reina a poluição e degradação por um lado e multiculturalidade, e exploração espacial por outro. Fora as sequências aéreas de L.A., a cena mais famosa porventura será os ultimos momentos do andróide Roy Batty (Rutger Hauer) e o seu monólogo "I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhauser gate. All those moments will be lost in time... like tears in rain... Time to die." [Vídeo], criado pelo actor e aprovado pelo realizador Ridley Scott ("Alien").

"Diário de Lisboa" [25-02-1983]
Segundo este poster, estreou em Portugal no dia 25 de Fevereiro de 1983, (algúm tempo depois da sua exibição no Fantasporto 83 onde foi nomeado para "Prémio Internacional de Melhor Filme Fantástico") com o selo "Filme de Qualidade" e interdito a menores de 13 anos
"Los Angeles, 2019.
O Homem criou o seu próprio semelhante...
Destrui-lo é agora o seu problema."
Além dessa sinopse este cartaz nacional incluia uma chamada de atenção para o seu actor protagonista:
"Harrison Ford. Foi capitão em "A Guerra das Estrelas", foi um "Salteador da Arca Perdida", agora é: Blade Runner - Perigo Iminente."

A crítica de Jorge Leitão Ramos aponta as fraquesas do argumento e da filosofia metida a martelo num filme visionário, mas acaba por declarar que "Blade Runner é um filme inesquecível. Embora seja um filme falhado.". "A gente, na memória, não guarda histórias, guarda imagens.".

Na ficha técnica é feita referência á origem do argumento, a novela "Do androids dream of electric sheep?" (1968) do inimitável Philip K .Dick, o responsável de livros como "We Can Remember It for You Wholesale" (adaptado mais tarde como "Desafio Total"), "Minority Report", "O Homem do Castelo Alto" ou "Ubik". P.K.D. não imaginava decerto a influência que um filme baseado na sua história influenciaria tantos realizadores, criativos e espectadores várias décadas depois da sua chegada ao grande ecrã. Em 2017 viu finalmente a luz do dia uma continuação, "Blade Runner 2049".

Entre as minhas gravações, recuperei um excerto sobre o filme no programa dos anos noventa "Não me lembro, era pequeno...":


No nosso país, a clássica revista de banda desenhada dedicou a capa e uma página do "Mundo de Aventuras Nº 496" á adaptação do filme a histórias de quadradinhos, desenhada por Al Williamson:



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sábado, 30 de setembro de 2017

Crime, Disse Ela (1984-96)


Crime, Disse Ela ( alias "Murder She Wrote")
Nascimento: 30/09/1984.

Morte: 19/05/1996.
Causa de morte: Cansaço e mudança para um horário fatal.

Enquanto a maioria das avozinhas cuidado dos netos e da vida dos outros nas esplanadas dos cafés ou centros de saúde, Jessica Fletcher (Angela Lansbury, a actriz com nacionalidades britânica, americana e irlandesa; "Se a Minha Cama Voasse..." (1971), "A Bela e o Monstro" (1991), "O Retrato de Dorian Gray" (1945), etc) dedicava-se a matar pessoas - no papel - e a resolver mistérios e assassinatos que aconteciam onde quer que fosse, tanto na sua cidadezinha Cabot Cove ou nas visitas a Nova Iorque. Ficam avisados, se virem esta professora reformada, escritora de novelas policiais e detective nas horas vagas, mudem de cidade imediatamente. E foram muitas as vítimas ao longo de  12 temporadas com 264 episódios [estimadas em cerca de 2% dos habitantes de Cabot Cove] e ainda 4 tele-filmes ["South by Southwest" (1997), "A Story to Die For" (2000), "The Last Free Man" (2001) e "The Celtic Riddle" (2003)], um crossover num episódio de "Magnum P.I." (1980-88) com Tom Selleck e até um spin-off (uma série derivada) que fracassou: "The Law & Harry McGraw (1987-88)".
Além do carisma da protagonista, a actriz mais bem paga da época (e nomeada para 12 Emmys e 10 Golden Globes pela série), outro elemento gravado a fogo na memória dos espectadores: o tema do genérico inicial:

Genérico inicial da 4ª Temporada:


Exemplo do genérico final de um dos episódios:


Com qualquer série de sucesso também gerou algum merchandising, mas se não tivemos direito a figuras de PVC Maia e Borges de Jessica e dos cadáveres - por exemplo a RTC (Rádio Televisão Comercial) e Editorial Publica editaram uma colecção de livros "Crime, Disse Ela.". Abaixo a capa do nº2, da minha colecção pessoal:

"Viva O Crime!", escrito por James Anderson, que adaptava os episódios "Hooray for Homicide" e "Deadly Lady", os episódios 3 e 2, respectivamente.

O jogo de tabuleiro de 1985:

Apesar da protagonista acusar cansaço de estar presa à personagem ao fim de quatro anos de episódios, mudanças foram feitas e a série continuou. Em duas temporadas Angela Lansbury só aparecia como Jessica a modos de anfitriã, no inicio e final de cada episódio protagonizados por vários dos seus amigos. Em 1991 voltou-se ao esquema habitual e no final de 1995 a 12ª - e ultima - temporada mudou de dia e de horário no alinhamento da CBS e não conseguiu competir com as sitcoms e dramas do canal rival NBC e foi cancelada em 1996. Na época os fãs em fúria acusaram a CBS de querer sabotar a série, imagino a tempestade se já existisse Facebook e Twitter nessa época!

A estreia em Portugal deu-se no dia 20 de Setembro de 1985, nas sextas à noite, antes do Último Jornal.
Curiosamente, no "Diário de Lisboa" a estreia anuncia-se como "Cíume, Disse Ele".
"Diário de Lisboa" [20/09/1985]

"Diário de Lisboa" [27/09/1985]
Abaixo uma critica pouco abonatória de Mário Castrim, que estava longe de imaginar que uma série "grotescamente simplória" durasse 12 temporadas! Pessoalmente, acredito que esse elemento de simplicidade tenha sido um dos factores de sucesso.
"Diário de Lisboa" [2/10/1985]


Texto original: "Enciclopédia de Cromos Tumblr: Crime, Disse Ela".

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quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Que Loucura de Mulher (1985)



"Weird Science"  ["Que Loucura de Mulher" em Portugal, "Mulher Nota 1000" no Brasil], escrito e realizado por John Hughes estreou alguns meses depois [02-08-1985] do mais conceituado "O Clube" ("The Breakfast Club" ) mas esta comédia trapalhona é bem distante do estilo do anterior, apesar de um dos protagonistas Gary (Anthony Michael Hall) ter pelo menos um diálogo que ecoa a sua personagem em "O Clube". Wyatt (Ilan Mitchell-Smith) é o comparsa mais abastado de Greg e ambos são nerds introvertidos sem sucesso com o sexo oposto.

Em épocas de grande desenvolvimento tecnológico tudo parece possível. Numa década com gravadores vídeo, walkmans, e os computadores pessoais com as seus acessórios provavelmente o utilizador comum podia pensar que não estava longe o dia em que podiam criar tudo o que desejassem na sala de estar aos comandos do ZX Spectrum ou Amiga (neste caso concreto um Memotech MTX 512). E não estou a falar de impressoras 3D.

No filme graças à invasão das bases de dados militares dos EUA, velas, uma boneca, soutiens na cabeça e uma tempestade espontânea, dois putos do secundário criam a sua mulher de sonho. O nome atribuído pelo duo a essa bomba sexual é Lisa (Kelly LeBrock). Aliás, até ter visto o filme a única cena que conhecia é a épica entrada de Lisa, envergando apenas cuecas azuis e uma minúscula blusa branca. Esta imagem perdoa os outros figurinos e penteados horríveis que enverga ao longo da fita.



Como diz a letra da canção dos Oingo Bongo [a banda que na época tinha como vocalista Danny Elfman mais conhecido como o compositor de das bandas sonoras de "Batman" e outros filmes de Tim Burton e muitos mais], "Weird Science" (que se mete na cabeça!!), "magic and technology" e "fantasy and microchips". Magia que aprenderam não sei onde, porque o filme onde se inspiram, o Frankenstein até é mais cientifico. Mas, numa comédia nem tinha que fazer sentido. Voltando ao "Frankenstein" (de 1931), se estranharam as cenas coloridas, o IMDB esclarece que esses clipes foram feitos propositadamente para o filme. O videoclip da canção tema dos Oingo Bongo também usou a estética do velhinho Frankenstein:





Depois de todas as tropelias e das miúdas - Deb (Suzanne Snyder) e Hilly (Judie Aronson) - uma loura e outra morena, que os protagonistas desejavam no inicio da fita se "apaixonarem" por eles, a festa termina e toda a confusão é limpa. E os bullies Ian (Robert Downey Jr.) e Max (Robert Rusler) que até antes eram namorados delas, e que as largaram pela chance que Wyatt e Greg lhes construíssem uma mulher de sonho como Lisa ... e que raio lhes aconteceu? Não reparei se fugiram quando começou o caos da magia descontrolada. E aos avós em estado catatónico guardados num armário? Assumimos que tudo voltou magicamente ao normal mas com tanto destaque anterior a esses personagens, esperava que... Entretanto, li num artigo que Hughes escreveu o argumento em 2 dias. 'nuff said.



O comportamento e o propósito de Lisa são tão inconsistentes que até parece bipolar ou um produto com defeito. O mais consistentemente divertido é Chet, o bully irmão de Wyatt, desempenhado por Bill Paxton. O actor que já foi caiu vítima de um Predador, um Alien e um Exterminador, neste filme apesar de vivo tem um destino bem mais...malcheiroso. Depois de acabar de ver o filme é que confirmei na Wikipedia que a cena dos motards "mutantes" era literalmente saída de "Mad Max 2", com o actor Vernon Wells a fazer um personagem do género do seu Wez no êxito de 1981.
O sucesso do filme originou uma série de cinco temporadas entre 1994 e 1998"Weird Science" [video].

"Que Loucura de Mulher" estreou nas salas portuguesas (pelo menos nos cinemas da capital) com classificação para maiores de 6 anos (dias depois já com a indicação maiores de 12, pelo menos no "Diário de Lisboa") no dia 15 de Janeiro de 1987, altura em que estavam em exibição por exemplo "Howard e o destino do Mundo", "Duelo Imortal", "As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim", "Nove Semanas e Meia" e "Aliens: O Recontro Final", estreados no final de 1986.

"Diário de Lisboa" [15-01-1987]
 Uma das críticas mais curtas que já vi no jornal: "De são e de louco todos os filmes têm um pouco..."
"Diário de Lisboa" [17-01-1987]

Em suma, tem um conceito divertido, mas a execução é uma confusão, salvando-se algumas cenas quase desligadas do tom do filme, a criminosa sub-utilização de Kelly LeBrok, uma boa trilha sonora e a ruptura casual da quarta parede.



quinta-feira, 21 de setembro de 2017

The Breakfast Club (1985)

O Paulo Neto já tem o artigo do "The Breakfast Club" (1985) desde 2012 no blog, e eu finalmente resolvi ver o filme, já se tornava vergonhoso o "fundador" de uma página de nostalgia não ter visto ainda um dos obrigatórios da década de 80. Reproduzo então o texto para o Cine31 de "O Clube" (1985):




"Breakfast Club", somente "O Clube" em Portugal, porque os Deuses das Traduções não conseguiam passar do "O Clube do Pequeno-Almoço". Os manos do Brasil foram brindados com uma nova aventura de Enid Blyton: "O Clube dos Cinco". Traduções à parte, finalmente decidi-me a ver este clássico que integra todas as listas de filmes obrigatórios da década de oitenta. E como nos meus anos de juventude sempre fugi de recomendações para ler, ver ou ouvir, aqui estou eu, mais de três décadas depois da estreia da fita (7-2-1985 nos EUA, 5-9-1985 em Portugal) a tentar perceber porque é tão famoso.


A sinopse é extremamente simples, um grupo de cinco jovens estudantes oriundos das várias tribos indígenas das escolas norte-americanas (e não só). Os populares Claire (Molly Ringwald) e Andrew (Emilio Estevez), a menina rica e o desportista; os outsiders John (Judd Nelson), Allison (Ally Sheedy) e Brian (Anthony Michael Hall), respectivamente o bad boy pequeno delinquente, a maluca anti-social e o marrão (que não é gordo e nem tem óculos) estão todos condenados a passar um longo sábado de castigo na escola a escrever uma composição sobre eles e o que os levou a ser castigados. Obviamente, nada corre como planeado pelo professor Vernon (Paul Gleason) e além de quebrar as regras da escola e do castigo, o grupo vai conviver e partilhar os seus problemas e ver além da máscara que cada um usa quotidianamente.

Creio que o único filme do John Hughes que assisti anteriormente foi "O Rei dos Gazeteiros" que só apreciei devidamente ao segundo visionamento, e fiquei fã do estilo de realização, do mise en place, da cinematografia, que não é banal nem artificial. Levei boa parte do filme a antecipar como um realizador ou argumentista tarefeiro teria previsivelmente abordado cada um dos actos da fita. Não temos propriamente um 'obstáculo final' a vencer, a não ser o relógio que vai ditar a separação do grupo, e no entanto tudo funciona. Imagino o outrage da comunidade cibernauta se o filme estreasse em 2017 e um dos primeiros diálogos de um dos protagonistas fosse uma proposta de violação em grupo.

Nota: Descobri agora mesmo que "O Meu Tio Solteiro" e "Antes Só Que Mal Acompanhado" também são dele. Como eu abominava estes filmes que me parecia passar na TV 500 vezes.

Trailer:



Ironicamente, mas não acidentalmente, o elemento mais ausente é o mais debatido: os pais (apenas vistos de relance), e a relação do "clube dos cinco" com eles. Mas alcançando fora dos muros caseiros, aborda também a prisão e dependência dos estereótipos, grupos e expectativas na escola. Todo o filme caminha na fina linha entre o divertido e o ridículo, entre o dramático e o choradinho. Sem julgar. O momento mais convencional será porventura o previsível recurso a estupefacientes para facilitar a partilha de sentimentos. Surpreende por resistir a fazer do professor um vilão total, e claro, a banda sonora ajuda  o espectador a imergir na época. Recomendo totalmente, e estou ansioso para o rever.

Texto Original: Cine31 de "O Clube" (1985):

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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

"I'm Too Sexy" Right Said Fred (1991)

por Paulo Neto

Após a épica revelação do novo single de Taylor Swift, "Look What You Made Me", os fãs de música pop mais atentos notaram que a parte do refrão em que o título é repetido tinha o mesmo padrão rítmico do clássico de 1991 "I'm Too Sexy" dos Right Said Fred. Embora essas semelhanças não eram suficientes para levantar acusações de plágio, só para evitar chatices, foi atribuído também créditos de composição aos irmãos Richard e Fred Fairbrass, que assim vêem aumentar o valor dos royalties proveniente da canção que os tornou famosos e que é um clássico incontornável da música de dança do inícios dos anos 90.



"I'm Too Sexy" é daquelas ideias tão básicas (alguns diriam mesmo "parvas") que dão a volta e ficam interessantes. E claro que uma canção em que a letra fala de alguém que se acha sexy demais para tudo só podia ser interpretada por dois irmãos carecas e musculados a mostrar o caparro no videoclip.



Porém antes de falar da história da banda e da canção, há que desfazer duas ideias arreigadas sobre os irmãos Fairbrass: apesar do nome da sua banda, que canta é o Richard, não o Fred (o nome da banda vem de uma canção de 1962 de Bernard Cribbins) e eles não são gémeos: o Richard é o irmão mais velho, nascido a 22 de Setembro de 1953 e o Fred (que na verdade chama-se Christopher) o mais novo, a 2 de Novembro de 1956. Na altura do sucesso de "I'm Too Sexy", havia um terceiro membro da banda, o guitarrista Rob Manzoli, que ao contrário dos manos, tinha uma farta cabeleira e mantinha-se completamente vestido. 

Os irmãos Fairbrass começaram a carreira em finais dos anos 70 na banda The Actors. Durante os anos 80, os dois trabalharam como session musicians para outros artistas. Por exemplo, Richard tocou baixo para nomes como Boy George, Mick Jagger e David Bowie (aparecendo mesmo no videoclip de "Jazzin' For Blue Jean")  e Fred tocou guitarra para Bob Dylan. Em 1989, formaram os Right Said Fred e após algumas flutuações na formação, a banda ficou consolidade com a entrada de Robert Manzoli e em 1991, editaram o álbum de estreia "Up", que continha o hit que os marcaria para a posterioridade. 

Segundo Richard Fairbrass, a ideia para "I'm Too Sexy" ocorreu-lhe durante uma ida ao ginásio, onde observou muitos dos frequentadores em poses narcisistas. Então para fazer troça, resolveu tirar a T-shirt e cantarolar "I'm too sexy for my shirt" diante de um espelho e o resto foi história, com a letra a evoluir para uma paródia do mundo da moda, que na altura estava a ganhar uma notoriedade mediática nunca antes vista.

Os Right Said Fred originalmente gravaram a canção como um tema indie-rock, que foi rejeitado por várias editoras. Um radialista sugeriu-lhes que regravassem como uma canção dançável e eles aceitaram a ideia. O DJ Tommy D reconstruíu a faixa em torno dos arranjos vocais originais e Rob Manzoli adicionou um riff de guitarra emprestado de "Third Stone From The Sun" de Jimmy Hendrix. 


Graças à sua nova roupagem dançável, o recorte humorístico e o videoclip,  esta nova versão de "I'm Too Sexy" acabou por se tornar um hit global, chegando ao n.º 1 dos tops de países como Áustria, Austrália, Irlanda e Estados Unidos. No Reino Unido, ficou seis semanas no n.º 2, "bloqueado" pelo épico "Everything I Do (I Do It For You)" de Bryan Adams. Desde então, "I'm Too Sexy" tem sido utilizado e adaptado das mais diversas formas, desde anúncios de rebuçados a bandas sonoras de filmes e séries. Inclusivamente, e não sem ironia, foi adoptado pelo mundo da moda que parodiava, com várias marcas a utilizarem o tema em desfiles ou campanhas publicitárias. O tema valeu também à banda o primeiro de dois prestigiados prémios Ivor Novello.   

O sucesso porém foi agridoce para a banda. Richard Fairbrass referiu algumas vezes que o sucesso de "I'm Too Sexy" teve um lado negro, como o constante assédio dos media (chegaram a ter paparazzis constantemente à porta das suas casas) e o facto de toda a sua carreira ser reduzida apenas por essa canção. Por vezes, os Right Said Fred chegaram mesmo a contrariar os fãs que iam aos seus concertos tocando somente os primeiros acordes de "I'm Too Sexy", ou então a versão de 12 minutos. Mas entretanto, os Right Said Fred (que desde a saída de Rob Manzoli em 1997, passaram a ser basicamente somente os irmãos Fairbrass) parecem já ter abraçado o legado de "I'm Too Sexy", reconhecendo que é graças a esse tema que ainda hoje continuam activos na sua carreira musical.


Embora para muita gente seja difícil lembrar-se de outra canção da banda, a verdade é que os Right Said Fred estão longe de ser "one hit wonders". Aliás em 1992, obtiveram o n.º 1 no Reino Unido que lhes tinha sido negado por "I'm Too Sexy" com o terceiro single "Deeply Dippy" (pelo qual receberam o segundo prémio Ivor Novello). O segundo single "Don't Talk Just Kiss" teve a participação da consagrada cantora soul Jocelyn Brown. 
Pessoalmente, a minha canção preferida dos Right Said Fred é "Wonderman", do segundo álbum "Sex And Travel", que é sobre o Sonic The Hedgehog.
Em 2001, obtiveram um êxito inesperado em países como a Alemanha com "You're My Mate" e o seu single de 2002 "Stand Up (For The Champions)" tem sido utilizado em vários eventos desportivos.

"Don't Take Just Kiss" (com Jocelyn Brown) (1991)



"Deeply Dippy" (1992)



"Wonderman" (1993)



"You're My Mate" (2001)


"Stand Up (For The Champions)" (2002)



Richard e Fred Fairbrass em 2015

À parte da carreira musical, Richard Fairbrass apresentou alguns programas de televisão, como o concurso "Desert Forges". Abertamente bissexual, é também activo na defesa das comunidades LGBT. Em 2007, ele e o irmão foram agredidos na Rússia por um militante ultra-nacionalista. 





domingo, 10 de setembro de 2017

O Circo - Grande Concurso do Leite Chocolatado Gresso (1985)

 Mais um concurso para recortar letras para formar a palavra da marca. O concurso era "O Circo - Grande Concurso do Leite Chocolatado Gresso". A primeira página do anúncio tem o cupão e explica os detalhes, e a segunda página expõe os prémios: computadores, bicicletas, relógios digitais e jogos.

Além da quantia de "200.000$00 a dividir pelas mães dos 5 primeiros contemplados". Se os meus olhos não me falham os prémios eram "ZX Spectrum 48K" e bicicletas BMX. Os outros  premiados levavam jogos de tabuleiro e relógios digitais de que não consigo reconhecer marca ou modelo, mas fazem lembrar aqueles Cásio com calculadora. A senhora do reclame também me parece familiar...


As 6 embalagens de temática circense do leite achocolatado Gresso, e a a parte frontal da embalagem com a vaquinha de flor na boca:


Imagem Digitalizada da revista "As Melhores Histórias" Nº 7 (9 Agosto 1985) e Editada por Enciclopédia de Cromos.

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sábado, 9 de setembro de 2017

Sumos Fresky (1985)

Anúncio em formato de um jornal dos sumos de frutos "Fresky", variedades laranja e ananás, com chancela Agros. O jornal tinha conselhos para acampar, brincar e esperar três horas para terminar a digestão antes de mergulhar. A linguagem do primeiro "artigo" é suspeitamente semelhante à que podíamos encontrar nas revistas brasileiras: "Hum! com aquele gostinho de que Você tanto gosta. E pode escolher, aquela gostosura boa da laranja ou o gostinho óptimo do ananás. ai é só colocar bastante gelo e curtir aquele saborzinho bem geladinho. Mas para transar esta delícia, use sempre os sumos de frutos FRESKY, naturalmente." Transar? Se as novelas brasileiras me ensinaram bem, transar tem pouco que ver com sumos de fruta! ..."que delícia!".

Imagem Digitalizada da revista "As Melhores Histórias" Nº 7 (9 Agosto 1985) e Editada por Enciclopédia de Cromos.

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