terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Canções das Eleições Presidenciais de 1986

por Paulo Neto

Estamos actualmente em campanha eleitoral para a Presidência da República onde Portugal elegerá o seu próximo chefe de Estado para um mandato de cinco anos. Na democracia portuguesa, a regra geral foi um candidato ser eleito ou reeleito à primeira volta. A grande excepção foram as eleições presidenciais de 1986, que sem dúvida que foram um dos actos eleitorais mais espectaculares de sempre. Essas também foram as primeiras eleições de qualquer tipo que me lembro de acompanhar e de saber para o que eram. E também foram as primeiras eleições em que eu votei, apesar de só ter na altura cinco anos. Já falo disse mais adiante. 

As eleições presidenciais de 1986, ano em que Portugal entrou para a CEE, tiveram quatro candidatos: Diogo Freitas do Amaral (candidato CDS e apoiado pelo PSD), Mário Soares (pelo PS), Francisco Salgado Zenha (candidato do PRD e com algum apoio do PCP) e Maria de Lurdes Pintassilgo, como candidata independente. Depois de ter sido a primeira (e até agora única) mulher a chefiar um governo em Portugal entre Agosto de 1979 e Janeiro de 1980, Pintassilgo tornava-se assim também a primeira mulher candidata à Presidência, algo que só se verificaria de novo nestas eleições de 2016, com as candidaturas de Maria de Belém e Marisa Matias. Um quinto candidato, Ângelo Veloso do PCP, desistiria em favor de Salgado Zenha.

  
 



A primeira volta realizou-se a 26 de Janeiro de 1986 com Freitas do Amaral em primeiro lugar com 46,31 %, falhando por pouca a vitória à primeira volta. Mário Soares ficou em segundo lugar com 25,43%, apurando-se assim para a segunda volta, até ao momento a única vez que tal aconteceu em eleições presidenciais em Portugal. 

Foi aí que a campanha tornou-se mesmo interessante, dividindo o país quase em metade entre os Team Freitas e os Team Soares, havendo relatos de várias escaramuças entre apoiantes de ambos os candidatos um pouco por todo o país e de amigos e parentes que cortaram relações por defenderam facções rivais. Aliás o próprio Soares foi alvo de um episódio de agressão durante uma acção de campanha na Marinha Grande. Por outro lado, Freitas Do Amaral ditou uma moda com o sobretudo verde que envergava durante a campanha. 
E lembro-me que na altura, era habitual ouvir na rua  alguém gritar "P'rá Frente Portugal", o slogan de Freitas do Amaral e "Soares É Fixe", o slogan de Mário Soares. Para não falar que havia autocolantes das duas campanhas colados em tudo o que era sítio.



A segunda volta realizou-se 16 de Fevereiro de 1986. Nesse dia, acompanhei os meus pais ao local de voto, na Escola Secundária Maria Lamas, e a minha mãe levou-me com ela até à cabine de voto e ela deixou-me pôr a cruz no quadrado correspondente a Mário Alberto Nobre Lopes Soares, pelo que posso dizer que esta foi a primeira vez em que votei. (Oficialmente, o meu primeiro voto como cidadão eleitor foi no referendo de 1998 sobre a regionalização.)
Beneficiando de uma união da esquerda à segunda volta (até Álvaro Cunhal foi forçado a engolir um sapo e apoiar Soares) e - dizem - do episódio da Marinha Grande, Mário Soares acabaria por vencer com 51,18%, somente mais 140 mil que Freitas do Amaral. Apenas três meses após ter deixado de ser primeiro-ministro e com apenas 5% de intenções de votos aquando a entrega da sua candidatura, Mário Soares tornava-se o 16.º Presidente da República Portuguesa, tendo sido reeleito em 1991. Tentou ainda uma terceira candidatura em 2006. 

Outro campo onde a campanha das eleições presidenciais de 1986 foi na música, tal como foi falado em três cromos da "Caderneta de Cromos" da Rádio Comercial.



Freitas do Amaral tinha o seu grande hino com o título do seu slogan "P'rá Frente Portugal" que me lembro de ser absolutamente épico, cantado pelo Coro de Santo Amaro de Oeiras e vários artistas como Nicolau Breyner, com letra de Torquato da Luz, música de Rui Ressurreição e arranjos de Thilo Krassman. O refrão era assim: "País do Sol/ Terra do sal/ Pátria do Sul/P'rá frente Portugal/Pela paz, pela riqueza em Portugal/ Para à frente, para à frente Portugal!" 
Infelizmente, não achei a versão original, apenas esta versão soul-jazz, cantada por Diogo Ribeiro para a candidatura de Paulo Freitas do Amaral - sim, aquele primo de Diogo Freitas do Amaral que participou em "A Quinta" - à Câmara Municipal de Oeiras em 2013.


Além disso, foi editado um álbum, "O Povo Canta Freitas do Amaral" onde foram adaptadas cantigas populares para incluir o nome de Freitas do Amaral, disco esse em que Nicolau Breyner também participou. Por exemplo, no disco era possível ouvir algo como "Todos o querem, queremos só um, queremos o Freitas, não queremos mais nenhum!"

Esse método foi também aplicado na campanha de Mário Soares, que teve a sua adaptação da mais famosa canção das Janeiras (de seu verdadeiro título "O Natal dos Simples", versionado por Zeca Afonso, entre muitos outros), algo que depois foi recuperado para a sua campanha de reeleição de 1991. Recordo-me que a parte do "pa rara riri pa rara riri pom pom pom" rezava assim em 1986: "Vamos votar nele, vamos notar nele/ Vamos votar/ Para Presidente, para Presidente/ Mário Soares" e em 1991: "Vamos votar nele, vamos notar nele/ E quando votares/ Volta à Presidência, volta à Presidência/ Mário Soares".



Mas o grande hino da campanha de Soares, a fazer jus ao slogan "Soares É Fixe", foi o "Rock Da Liberadade", cantado e composto por Rui Veloso, com letra de António Pedro Vasconcelos (sim, o realizador de cinema), que foi disco de prata. Na capa do disco, vinha escrito: "Aí está o nosso hino! Uma batida para curtir!" (Gostava de imaginar Mário Soares a dizer isso!)



Enquanto Mário Soares foi presidente durante dez anos, Freitas do Amaral deixou o CDS em 1990 e foi Presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas entre 1995 e 1996. Em 2005, provando que são muitas as voltas a vida dá, acabaria por ser eleito deputado pelo... PS.

Caderneta de Cromos - Eleições Presidenciais 1986: 1.ª parte:
Caderneta de Cromos - Eleições Presidenciais 1986: 2.ª parte - "Rock da Liberdade: http://podcastmcr.iol.pt/rcomercial/cdc02_0308.mp3 
Caderneta de Cromos - Eleições Presidenciais 1986: 3.ª parte - "O Povo Canta Freitas do Amaral"http://podcastmcr.iol.pt/rcomercial/cdc_260710_1.mp3

Entretanto o David Martins descobriu no arquivo do Diário de Lisboa este cartaz de 29 de Novembro de 1985 anunciando uma convenção nacional de apoio a Freitas do Amaral que contava com a presença de muitos nomes conhecidos.





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1 comentário:

  1. Belos documentos históricos, que demonstram como a música era bem utilizada na propaganda política de 1986, independentemente do partido que fosse.
    Assim se fazia a propaganda política de 1986, e assim se iludia o povo português.

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