terça-feira, 23 de agosto de 2016

Locutoras de Continuidade da RTP

por Paulo Neto

Nos tempos onde a oferta televisiva em Portugal estava limitada aos dois canais da RTP, parecia que tudo que dava na televisão ficavam impresso nas nossas memórias. E nem sequer falo dos programas em si ou até mesmo dos anúncios publicitários, mas até coisas como as vinhetas separadoras, os genéricos de abertura de emissão, o hino tocado no fecho da mesma e a própria mira técnica.

E claro está, algo que ficou para memória daqueles cresceram com apenas dois canais de televisão foram os pequenos espaços de locução de continuidade, onde surgia uma locutora sentada diante de uma câmara a informar sobre os programas que seriam transmitidos a seguir, geralmente destacando um filme que iria passar na RTP nesse dia ou a estreia de um outro programa, fazendo uma síntese desse programa a destacar. Também era hábito aparecerem no final da emissão anunciando a programação para o dia seguinte ou para pedir desculpas em nome da RTP após alguma avaria ou falha na transmissão.

Por exemplo, neste vídeo de 1985, Ana Maria Cordeiro anuncia a exibição na RTP2 do filme turco "O Rebanho".


Segundo o site "Brinca, Brincando", em 1978 houve um concurso público para a admissão de trabalhadores para esta função de locução, tendo sido admitidos treze candidatos: Ana Maria Cordeiro, Cândida Gerardo (que também apresentou as primeiras transmissões dos sorteios do Totoloto), Fátima Medina, Fernanda Garcia, Helena Pinto, Helena Ramos, Isabel Ayres, Isabel Bahia, Manuela Matos (mais tarde Moura Guedes), Margarida Andrade (mais tarde Mercês de Melo) e Teresa Cruz (que foi a primeira capa da TV Guia), bem como dois homens, João Abel Fonseca e Miguel Rocha. Porém, no caso destes, creio que só terão feito locução de continuidade em voz off, pois não me lembro de ter visto nenhum homem a fazer a locução em presença como as suas colegas.
Margarida Andrade/Mercês de Melo

Também desempenharam essas funções, duas apresentadoras conhecidas pela sua condução dos programas matinais nos estúdios do Porto: Ivone Ferreira e Maria João Carreira (mãe da amiga da Enciclopédia de Cromos Ruby Kruss).

Maria João Carreira

Mais tarde, surgiram outros rostos como Ana Paula Reis, Valentina Torres, Lúcia Soares, Serenella Andrade, Vera Roquette, Ana Cristina Valente, Cristina Esteves (que apresentou o bloco de 1991 dissecado neste texto), Cristina Lebre, Carolina Ferreira, Cecília Penteado, Isabel Martins, Maria João Freire e Susana Santos.

Vera Roquette


Regra geral, estes pequenos bloco de locução de continuidade consistiam numa locutora sentada em frente a uma câmara num cenário onde geralmente poderia ser visto ao lado ou atrás da locutora o logótipo então vigente da RTP 1 ou da RTP 2. Outra particularidade era que embora várias destas locutoras fossem mulheres atraentes, elas surgiam sempre vestidas de forma sóbria, quando não mesmo pesada, como se houvesse na RTP um esforço para reduzir senão mesmo eliminar qualquer sex-appeal que elas pudessem transmitir. Mas mesmo vestidas como funcionárias de repartição de finanças abotoadas até ao queixo, as locutoras não deixaram de fazer parte do imaginário de muitos, inclusivé do mais libidinoso. 

A partir de 1990, os blocos de locução de continuidade presencial ficaram limitados ao fecho da emissão até pura e simplesmente deixarem de existir alguns anos mais tarde, substituídos pela locução em voz off. Nos primórdios da TVI em 1993, a função de locução de continuidade foi brevemente recuperada com nomes como Sofia Carvalho, Rita Stock e Cristina Caras Lindas. A locução de continuidade também foi usada posteriormente na RTP Internacional e na RTP África. Actualmente, essa nobre função é alvo de tributo na RTP Memória, com várias celebridades e até cidadãos anónimos a desempenhar a função para recordar os programas a serem exibidos nesse canal.

Sem desprimor para todas as outras, mas pretendo falar em pormenor sobre aquelas cinco que considero as mais míticas locutoras de continuidade da RTP.



Um pouco antes de entrar para a RTP, Ana Paula Reis também tinha aspirações musicais, tendo lançado o single "Utopia" em 1984. Além de locução de continuidade, também apresentou na RTP o concurso "Com Pés Em Cabeça", onde conduzia as provas disputadas no Pavilhão do Sacavenense e os Festivais da Canção de 1991 e 1994. Mais tarde dedicou-se sobretudo à psicologia, a sua área de formação académica, envolvido-se em vários projectos sobretudo relacionados com psicologia infantil e ao efeito terapêutico das artes. Desde 2013 que está integrada no gabinete executivo da Câmara Municipal de Cascais. Ainda assim, tem aparecido esporadicamente na televisão: em 1999 apresentou o concurso "Um Por Todos" na TVI com Nuno Homem de Sá e em 2007, conduziu um programa dedicado à psicologia na SIC Mulher.



Neste vídeo de 1988, Ana Paula Reis aconselha os telespectadores mais impressionáveis a não verem o filme "À Beira da Loucura".


Neste vídeo de 12 de Junho de 1986, antes do fecho da emissão Ana Paula Reis anuncia a programação da RTP 1 e da RTP 2 para o dia seguinte, onde se destaca a transmissão de dois jogos do Mundial de Futebol de 1986 no México.





Nascida a 13 de Agosto de 1955, Fátima Medina era estudante de Língua e Literaturas Modernas quando concorreu ao concurso para novos apresentadores da RTP. Com o seu rosto redondo, olhos brilhantes e voz rouca, tornou-se desde logo uma das mais populares locutoras da RTP. Entre a locução, a apresentação e o jornalismo, Fátima Medina permaneceu nos quadros da RTP até 2006. Desde então trabalhou para uma empresa de sinalética internacional e foi adjunta do gabinete do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.



Neste vídeo de 1985, Fátima Medina anuncia a transmissão na RTP 2 o filme "O Chefe da Orquestra" do polaco Andrzej Walda.





Natural de Vale de Cambra, Helena Ramos é uma das sobreviventes da RTP, integrando ainda os quadros da estação pública, sendo vista essencialmente na RTP Memória (na rubrica "Tributo"). Mantém ainda a sua imagem de marca, o penteado bob louro e a sua voz também é inconfundível sobretudo quando carrega nos R. Para além da locução e da apresentação, tem também uma paixão não tão secreta pela música, tendo cantado por exemplo no projecto televisivo e discográfico "Abbacadabra" onde fez de Cinderela, em alguns discos do Pirilampo Mágico e no programa "Todos Ao Palco" de Filipe La Féria. Só foi vista na televisão fora da RTP em 1997 no programa da SIC "Era Uma Vez", protagonizado por Marina Mota, que parodiava as conhecidas histórias infantis onde desta vez Helena Ramos desempenhou uma vilã, a madrasta da Branca de Neve.



Neste vídeo de 1986, entre os vários destaques da programação referidos por Helena Ramos, há que salientar a apresentação de cinco das canções concorrentes ao Festival da Eurovisão de 1986 e o concurso "1, 2, 3" que tinha como tema a guitarra.



E neste vídeo de 1988, Helena Ramos anuncia a transmissão da Gala do Filme Europeu, um evento recheado de estrelas.  





Isabel Bahia (sim com H, não Baía como o Vítor) era a locutora da voz zen, de tal forma que até acho que passou ao lado de uma grande carreira como hipnotizadora. Além da locução, Isabel Bahia apresentou os programas "Muito, Pouco, Nada", "Uma Boa Ideia", "Elogio da Leitura" e "Canal Aberto". Foi também a comentadora do Festival da Eurovisão de 1993 e no ano seguinte, o primeiro em que os porta-vozes dos votos surgiam em videoconferência, foi ela que deu os pontos de Portugal não sem antes mencionar que nesse ano de 1994, Lisboa era a Capital Europeia da Cultura. Fez ainda a narração da mini-série "A Morgadinha dos Canaviais". Não sei se Isabel Bahia continua nos quadros da RTP, mas sei que ela continua a dar bom uso à sua voz zen em anúncio publicitários e narração de documentários.

Neste vídeo de 1990, Isabel Bahia explica o fim súbito de uma transmissão do concerto dos 3 tenores, José Carreras, Luciano Pavarotti e Plácido Domingo.



Também de 1990, é este vídeo onde Isabel Bahia anuncia a série "Chefe Mas Pouco" e o filme "Cerimónia Solene" de Nagisa Oshima, uma das primeiras obras do realizador de "O Império dos Sentidos".





Valentina Torres é outra incontornável, célebre pelo seu sorriso e pela sua voz. Segundo a própria, o seu nome é uma homenagem à primeira mulher no espaço, a soviética Valentina Tereshkova. Começou na RTP Porto e em 1983 apresentou com Eládio Clímaco o Festival da Canção desse ano que teve lugar na Cidade Invicta. E foi lá que Armando Gama deu-lhe uma balada que resultou numa união de 26 anos que gerou dois filhos. Voltou a apresentar o Festival da Canção em 1988. Em 1991, participou no programa "Hermanias Especial Fim de Ano" no sketch da fadista castiça russa. Nos anos 90, dedicou-se à música em parceria com Armando Gama, destacando-se o hit "Cenas De Um Casamento" ("a gente já não fala, só grita, só grita") e a participação no colectivo épico "Mãe Querida". Em 2005, foi concorrente no reality show da TVI "1.ª Companhia" e mais tarde foi comentadora da "Tertúlia Cor-de-Rosa" no programa "Fátima".

Neste fim de emissão de 1988, Valentina Torres refere o programa "História de Cidades" dedicado a Évora na RTP1. Curiosamente, aqui não é visto o hino nacional do fim da emissão, passando de um pensamento de Addison directamente para Mira Técnica. Provavelmente o hino foi deixado de fora da edição do canal Lusitania TV para o YouTube, mas prefiro pensar que Valentina Torres carregou num botão que fez desligar tudo. 


Também de 1988 é este vídeo onde Valentina Torres anuncia a transmissão do filme "Superman 2: A Aventura Continua" em Lotação Esgotada, onde não faltava a menção aos desenhos animados que precediam a emissão desse mítico espaço de cinema da RTP e depois regressa para as despedidas de fim de emissão (e desta vez há direito a hino com imagens do nosso país). 





Para terminar e para provar que na RTP não havia apenas solenidade, um divertido vídeo de outtakes com Margarida Mercês de Mello e Manuela Moura Guedes.



  
     

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3 comentários:

  1. Lembro-me do João Abel Fonseca a "locutar". Não sei se a Ana Zanatti e a Alice Cruz terão exercido as mesmas funções bem como outros. [Gomes Ferreira, Manoel Caetano, Isabel Wolmar, Maria Fernanda, Fialho Gouveia, Carlos Cruz, Maria Margarida, Eládio Clímaco, Ana Zanatti... - See more at: http://www.rtp.pt/programa/tv/p17298/e3#sthash.vDs3YFRa.dpuf] Tricas: A Ana Paula Reis é casada com o Domingos Piedade. Os pais são a Terezinha Reis e o Zuzarte Reis (Reporter da História) é o nome dos pais. Foi candidata num concurso de misses. Um dos filhos escreveu uns livros. Também era conhecido que a Maria João Carreira era casada com o jogador do FC Porto Eduardo Luis. A Isabel Bahia foi namorada do Paulo de Carvalho e colaborou em algumas letras dos álbuns "Abracadabra"(1981) e "Cabra Cega" (1982). Lembro-me que apareceu num dos programas "nomes de rua" por causa de um familiar. A Teresa Cruz foi correspondente da RTP na Alemnanha. A Isabel Ayres produziu uns programas de música clássica ou semelhantes. Etc

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    1. Figuras incontornáveis dos anos cromos. :)

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  2. http://www.ardinas.pt/index.php/2016/05/02/pelas-ruas-da-memoria-locutores-de-continuidade/ https://issuu.com/firstclassemagazines/docs/eles___elas_287__low_

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