domingo, 25 de abril de 2021

Óscar de Melhor Canção Original (1980-1989)

 por Paulo Neto


Depois das categorias principais (Filme, Realizador e as quatro categorias de representação), creio que a categoria dos Óscares que suscita mais interesse é o de Melhor Canção Original. E como os anos 80 foram a década onde a música teve um papel determinante no cinema como nunca o tivera até então, tive a ideia de analisar os vencedores e os nomeados de cada ano dessa década.

Antes de começar, há que referir duas coisas: primeiro, o ano que vou usar no texto é referente ao ano em que os filmes foram estreados e não o do ano em que cerimónia se realizou (por exemplo, a cerimónia referente de 1980 teve lugar a 31 de Março de 1981); segundo, o galardão nesta categoria é entregue aos autores e compositores da canção e o intérprete só o recebe se fez parte da sua composição. É por isso que por exemplo, Madonna e Céline Dion nunca ganharam um Óscar nesta categoria apesar de ambas terem interpretado cada uma duas canções que venceram o prémio.  

1980 "Fame" (Fama)





O filme que acompanha o percurso académico de um grupo de jovens alunos de uma escola de artes em Nova Iorque foi um dos filmes de maior sucesso de 1980 e claro, deu origem a uma série televisiva de ainda maior sucesso. No filme, o tema principal é tocado numa cena em que o pai taxista de Bruno Martelli (Lee Currieri) põe-o a tocar no meio da rua, e os alunos decidem dançar ali mesmo causando o pânico no trânsito. O tema era interpretado por Irene Cara, no papel da ambiciosa Coco Hernandez, cujos sonhos de fama a fazem cair em algumas armadilhas.
Apesar de, ao contrário de muito do elenco, Irene Cara não ter transitado para a série de televisão (o seu papel foi aí desempenhado por Erica Gimple), também interpretou a versão utilizada no genérico.
O Óscar foi entregue ao letrista Dean Pitchford e ao compositor Martin Gore, irmão da estrela dos anos 60 Lesley Gore, a cantora de "It's My Party" e "You Don't Own Me". Quanto a Irene Cara, não seria a última vez que cantaria uma canção oscarizada.

Outra canção de "Fama", também interpretada por Irene Cara, "Out Here On My Own", também esteve nomeada, assim como "9 To 5" (do filme Das Nove Às Cinco), uma das canções mais emblemáticas de Dolly Parton, "On The Road Again" do filme "Honey Suckle Road - Música Pelo Caminho" com Willie Nelson e "People Alone" de "A Competição" com Richard Dreyfuss e Amy Irving, composta por Lalo Schiffrin, famoso pelo tema de "Missão:Impossível"

1981 "Arthur's Theme (The Best You Can Do)" (Arthur - O Alegre Conquistador)



Christopher Cross é considerado a última grande estrela musical pré-MTV, quando ainda se podia ser um popstar tendo o aspecto do vizinho do terceiro esquerdo. O seu álbum homónimo de estreia de 1980, com um flamingo na capa, tornou-se um clássico do soft-rock e foi um campeão de vendas, graças a faixas como "Sailing" e "Ride Like The Wind", tendo até conquistado o Grammy de Álbum do Ano contra "The Wall" dos Pink Floyd. 
Mas no mesmo ano em que 1981 marcou o início da era musical onde imperavam os mais vistosos, Cross teve mais um fogacho de glória com "The Best You Can Do", tema principal do filme "Artur, O Alegre Conquistador" com Dudley Moore e Liza Minnelli. Além do n.º 1 do top americano e lugar cativo nos "Oceanos Pacíficos" dessas rádios pelo mundo fora, a canção valeu a Cross também o Óscar, que compôs em parceria com os lendários Burt Bacharach, Carol Bayer Sager e Peter Allen.

Christopher Cross, Burt Bacharach e Carol Bayer Sager


Os outros nomeados foram: "Endless Love" de Lionel Richie e Diana Ross (do filme "Um Amor Infinito" com Brooke Shields), "For Your Eyes Only", na voz de Sheena Easton, foi o segundo tema de um filme da saga 007 ("Missão Ultra Secreta") a ser nomeado para o Óscar, quatro anos depois de "Nobody Does It Better", o lendário Randy Newman foi nomeado para "One More Hour" do filme "Ragtime" e Joe Raposo, o luso descendente autor do tema da "Rua Sésamo", foi nomeado por "The First Time It Happens" de "Os Marretas Contra-Atacam".

1982 "Up Where We Belong" (Oficial E Cavalheiro)



O filme "Oficial E Cavalheiro" foi um dos filmes de 1982 e a sequência final em que Richard Gere carrega Debra Winger ao colo enquanto toca a balada "Up Where We Belong" tornou-se lendária.
Interpretada por Joe Cocker e Jennifer Warnes, "Up Where We Belong" venceu o Óscar que foi entregue a Jack Nietzsche e Buffy Sainte-Marie pela música e Will Jennings pela letra. (Jennings receberia outro Óscar em 1997 por "My Heart Will Go On".) "Oficial E Cavalheiro" também valeu um Óscar de Melhor Actor Secundário para Louis Gossett Jr. no papel do severo sargento instrutor. 

Os outros nomeados foram: "How Do You Keep The Music Playing" ("Loucuras De Um Casal"), "Eye Of The Tiger" ("Rocky III"), "It Might Be You" ("Tootsie") e "If We Were In Love" ("Yes, Giorgio" onde Luciano Pavarotti tentou dar uma de actor.)

1983 "What A Feeling" (Flashdance)



Um daqueles filmes que definiram a década de 80, "Flashdance" é tido como o primeiro filme (não baseado numa peça musical) pensado para uma banda sonora em vez do contrário. De entre as várias cenas de antologia, a mais emblemática é aquela em que a protagonista, interpretada por Jennifer Beals, faz a sua audição para entrar numa escola de dança ao som de "What A Feeling". Uma cena em que além de Beals, foram utilizados três duplos: Marine Jahan, que a substituiu em todas as sequências de dança do filme, a ginasta Sharon Shapiro para o plano de voo com cambalhota e Crazy Legs para o movimento de breakdance. "What A Feeling" era excepcionalmente interpretado por Irene Cara que assim cantava uma segunda canção oscarizada. E desta vez, co-creditada como autora da letra, Irene Cara recebeu a estatueta em conjunto com Keith Forsey e Giorgio Moroder.


O outro grande hit de "Flashdance", "Maniac" de Michael Sembello também foi nomeado, assim como duas canções do filme "Yentl", "Papa Can You Hear Me" e "The Way He Makes Me Feel" interpretadas por Barbra Streisand, que protagonizou e realizou o filme. A quinta nomeada foi "Over You" do filme "Amor E Compaixão" 

1984 "I Just Called To Say I Love You" (A Mulher De Vermelho)



A meu ver, 1984 é um dos anos mais lendários da cultura pop, com uma extensa quantidade filmes e canções icónicas que saíram nesse ano. Como tal, não é de admirar que as cinco canções fossem grandes hits desse ano, vindas da banda sonora de quatro filmes que fizeram sucesso. Mas a vitória foi indiscutivelmente para "I Just Called To Say I Love You" do filme "A Mulher De Vermelho". Mesmo para alguém que já tinha uma carreira tão gloriosa como Stevie Wonder, o tema foi todo um sucesso estrondoso, chegando ao primeiro lugar de tudo o que era top. 



Os outros nomeados foram dois temas de "Footloose", o tema-título de Kenny Loggins e "Let's Hear For The Boy" na voz de Deniece Williams, "Against All Odds (Take A Look At Me Now)" (de "Vidas Em Jogo") um marco no repertório baladeiro de Phil Collins e o tema de "Os Caça Fantasmas" interpretado por Ray Parker Jr. "Who you gonna call? Ghostbusters!"

1985 "Say You, Say Me" (O Sol Da Meia-Noite)



Abordando temas como a dança, a Guerra Fria e espionagem política, "O Sol Da Meia-Noite" era protagonizado por Mikhail Baryshnikov, Gregory Hines, Helen Mirren e Isabella Rossellini. Algumas cenas do filme foram filmadas em Lisboa. A sua banda sonora produziu dois temas que foram n.º1 nos Estados Unidos e ambos nomeados para o Óscar, tendo a vitória ido para "Say You, Say Me", escrito e interpretado por Lionel Richie, que toca nos créditos finais do filme. O outro nomeado de "O Sol Da Meia-Noite foi "Separate Lives", um dueto entre Phil Collins e Marilyn Martin.


Os outros três nomeados foram "The Power Of Love" de Huey Lewis & The News ("Regresso Ao Futuro"), "Miss Celie's Blues (Sister)" ("A Cor Púrpura" que celebremente não ganhou nenhum dos onze Óscares para que foi nomeado) e "Surprise Surprise" da adaptação cinematográfica do musical "A Chorus Line".  

1986 Take My Breath Away (Top Gun - Ases Indomáveis)



Contactado pelo produtor Jerry Bruckheimer para contribuir com uma canção para um tal filme chamado "Top Gun", Giorgio Moroder escreveu "The Danger Zone" para ser interpretado por Kenny Loggins e, sendo-lhe proposto também criar um canção para uma cena romântica. Essa canção seria "Take My Breath Away" que Moroder escreveu em parceria com letrista Tom Whitlock (que Moroder conheceu quando Whitlock, que trabalhava também como mecânico, arranjou os travões do seu Ferrari). A banda rock Berlin gravou a canção que foi um sucesso global e que se tornou um clássico da baladaria dos anos 80. Infelizmente, o seu sucesso ditaria o fim da banda, já que só a vocalista Terri Nunn gostava da canção e os outros membros achavam que não tinha nada a ver com o resto do seu repertório nem com o som da banda.  

As outras canções nomeadas foram "Somewhere Out There" ("Fievel - Um Conto Americano"), "Glory Of Love" ("O Momento Da Verdade 2"), "Mean Green Mother From Outer Space" ("A Lojinha Dos Horrores") e "Life In A Looking Glass" ("A Vida É Assim")

1987 "(I've Had) The Time Of My Life" (Dirty Dancing - Dança Comigo)



Apesar da acção do filme se passar em 1963 e de incluir várias canções dos anos 60, a banda sonora de "Dirty Dancing" também tinha algumas canções que soavam claramente a anos 80. Mas mesmo com esses anacronismos, ou se calhar por causa deles, essa fusão resultou, sobretudo na apoteótica sequência na final ao som de "(I've Had) The Time Of My Life", interpretado por Bill Medley (a metade mais grave dos Righteous Brothers, em contraponto com a metade aguda de Bobbie Hatfield que cantou "Unchained Melody") e Jennifer Warnes (que assim cantava mais uma canção oscarizada). A estatueta foi entregue aos três compositores da canção: Frank Previte (que também assinou a letra), John De Nicola e Donald Markowitz

Os outros nomeados foram "Shakedown" ("O Caça-Polícias 2"), "Cry Freedom" ("Grita Liberdade"), "Nothing's Gonna Stop Us Now" ("Manequim") e "Storybook Love ("A Princesa Prometida").

1988 "Let The River Run" (Uma Mulher De Sucesso)



Um olhar feminino sobre Wall Street, "Uma Mulher De Sucesso" foi nomeado para seis Óscares mas só venceria o de Melhor Canção, com "Let The River Run", escrita e interpretada por Carly Simon, que se ouve na belíssima sequência inicial que mostra vários trabalhadores na sua comuta diária para os seus diversos empregos em Nova Iorque.


Todas as canções que venceram o Óscar de Melhor Canção Original nesta década também venceram o correspondente Globo de Ouro, mas neste ano, "Let The River Run" partilhou o Globo de Ouro com "Two Hearts" do filme Buster, protagonizado por Phil Collins, na única vez que se registou um empate nesta categoria.
Estranhamente nesse ano, em vez das habituais cinco nomeações nesta categoria, houve apenas três, sendo que a terceira canção nomeada foi "Calling You" do filme "Café Bagdade"

1989 "Under The Sea" (A Pequena Sereia)



Depois de anos de tensões internas, flops de bilheteira e crises financeiras, "A Pequena Sereia" deu início àquela que seria conhecida como a Era do Renascimento da Disney, que se prolongaria pelos anos seguintes. Marcou também o início do domínio dos filmes da Disney nesta categoria do Óscar. "Under The Sea" a canção com a qual o caranguejo Sebastião tenta convencer a Ariel a deixar de lado o seu fascínio pelos humanos e apreciar a vida no fundo do mar foi a vencedora neste ano. Aqueles que cresceram com a versão dobrada em português do Brasil já estão a trautear: "Aqui no mar, aqui no mar, até a sardinha entra na minha e vem cantar…"

Outra canção de "A Pequena Sereia", "Kiss The Girl" foi nomeada, assim como "After All" ("Como O Céu Se Enganou"), "I Love To See You Smile" ("Lar Doce Lar... Às Vezes"), "The Girl That Used To Be Me" ("Shirley Valentine") 

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Os Smoggies (1991)

por Paulo Neto

Há dias lembrei-me desta série que não parece ser muito recordada hoje em dia, mas que eu me lembro de achar piada. "Os Smoggies" era uma série animada de 52 episódios de produção franco-canadiana e o seu tema principal era a protecção do ambiente. Em Portugal, passou na RTP entre 1991 e 1992 no espaço "A Hora Do Lecas".



Apesar de darem título à série, os Smoggies eram os vilões, um grupo de gananciosos caçadores de tesouros em confronto com os Suntots, os pequenos e simpáticos habitantes da Ilha do Coral, que utilizam energias não poluentes no seu dia-a-dia e que defendem a ilha dos constantes ataques poluidores dos Smoggies. (Talvez para se evidenciar o facto que, apesar do título, os Smoggies serem os vilões e que não se devia torcer por eles, nos Estados Unidos, a série foi exibida com o título "Stop The Smoggies!")

Emma, Clarence e Polluto


Os Smoggies, que vivem no altamente poluidor barco movido a carvão, o SS Stinky Poo são três: Emma, a vaidosa e malvada líder obcecada com o seu aspecto e com medo de envelhecer; Clarence, o capitão do barco e marido pau-mandado de Emma por quem é totalmente embeiçado; e Polluto, que apesar de pouco inteligente (e de sabe-se lá como, comer carvão e petróleo) bem lá no fundo até nem é mau tipo. Polluto tem um pássaro de estimação, Ralph Robin, que anda sempre em cima da cabeça dele e cujos piares só ele entende. 



De entre os Suntots, dois têm principal destaque: a Princesa Lila que costuma liderar os seus súbditos nas acções para neutralizar os ataques poluidores dos Smoggies, e Speed (na legendagem portuguesa  teve o nome de Rápido), um corajoso Suntot de cabelo azul, com a capacidade de nadar com rapidez, que é o principal aliado da Princesa. Outros Suntots incluem Chip, o engenhocas da ilha, Little, o mais pequeno dos Suntots, Miss Doctor, a médica/veterinária da ilha e Uncle Boom, o mais velho dos Suntots e autoproclamado presidente da Câmara de Suntot Town, que adora fazer discursos formais.

Speed e a Princesa Lila


Um dos principais motivos do confronto entre os Suntots e os Smoggies é devido ao Coral Mágico, que Emma acredita ter o poder de a tornar eternamente jovem e que quer encontrar a todo o custo, embora a Princesa Lila tente em vão convencer-lhe que tal não existe e não passa de uma lenda.

Como já referi, em Portugal a série passou na versão em inglês com legendas em português. O tema da série na versão anglófona era da autoria de Joe Raposo (1937-1989), compositor americano lusodescendente, sobretudo conhecido por ter composto o tema da "Rua Sésamo". 


Alguns episódios:





quinta-feira, 8 de abril de 2021

Blocos Publicitários RTP 1 (Abril 1987)

por Paulo Neto

Regressando a uma das nossas rubricas preferidas, a análise a blocos publicitários de antanho, desta feita recuamos a 8 de Abril de 1987 para analisar três blocos de intervalo da RTP1 emitidos durante a exibição do filme "My Fair Lady" no famoso espaço "Lotação Esgotada", disponibilizado do YouTube pelo canal Máquina Do Tempo com conteúdo facultado por Afonso Gageiro
Eu estava então a dezassete dias de completar sete anos e numa fase atribulada em termos de saúde, pois em meados do mês anterior eu tinha sido atropelado (felizmente sem mais do que um enorme susto e umas quantas nódoas negras) e semanas depois eu apanhei papeira, o que significou passar o meu sétimo aniversário doente. 
Seja como for, vamos então embarcar numa viagem pela publicidade dos anos 80, (re)descobrindo anúncios e produtos da época.  




0:00 Excerto de "My Fair Lady" e Vinheta RTC
0:05 Este um dos muito raros anúncios televisivos a testes de gravidez de que me lembro, a saber o  Predictor Color, com uma mulher pensativa à janela a desenhar um ponto de interrogação, em que a mudança de cor de roxo para branco indicava uma gravidez. 
0:26 Um dos primeiros anúncios ao WC Pato, com um pato de verdade e um senhor de bigode com ar respeitável. E não era a tua que tinha aquele embalagem com uma extremidade a fazer lembrar a cabeça e o pescoço de um pato, já que essa forma permitia um maior acesso aos recantos escondidos da sanita "onde mais nenhum chega".  
0:45 Num escritório, vários empregados com um ar enfastiado são surpreendidos pela chegada de um senhor que chega com um maço de livros e declara: "Tudo o procuram está no Guia-Mor." Suponho que esse Guia-Mor era um conjunto de livros especializados no apoio às diversas actividades profissionais, pois além do volume de "Escritório", vêem-se também outros dedicados a áreas como agricultura e pecuária, electroténica ou têxteis e confecção. Gostei sobretudo do slogan: "Não fala mas diz tudo!"
1:16 Anúncio da Camport, uma das mais célebres marcas do calçado nacional com duas mãos com luvas brancos segurando um sapato da marca, surgindo no fim uma etiqueta em forma de pé onde está escrito "Garantia". Fundada em 1955 pelo grupo têxtil Campeão Português, a Camport foi durante anos a fio o maior fabricante e exportador nacional (como é dito no anúncio) mas em 2014, esse grupo declarou insolvência e a marca foi adquirida pelo grupo Valerius no ano seguinte.  
1:31 O produto Vim mais célebre é o Vim Limão em pó, utilizado para limpar banheiras e outros tipos de cerâmicas, mas também esta variante do Vim Líquido
1:39 Os anos 80 foram os anos da ganga com muitas marcas a pontificar como a eterna Levi's, mas também a Lois, a Marlboro e a Wrangler, que neste anúncio emulava a iconografia da capa do álbum "Born In The USA" de Bruce Springsteen, ouvindo-se o hino americano e vendo-se ao fundo as riscas da bandeira americana. Na altura, na compra de um par de calças ganhava-se um estiloso isqueiro.
1:48 Momento ternurento entre mãe e filha fazendo um bolo com os preparados da Oetker. E rejubila a petiza: "Hmm, eu e a minha mãe fazemos bolos tão bons!"
1:57 Um tipo de anúncio já extinto, em frame estático, neste caso às Páginas Amarelas (também elas em vias de extinção), apenas com o célebre logótipo, as palavras "Pense Amarelo…" e uma versão instrumental do jingle. 
2:05 Lendária marca de cerveja, a Carlsberg apostava então também na ginger ale
2:11 Um dos primeiros anúncios da gama Studio Line da L'Oreal com lacas e gel para dar aquele estilo à trunfa. E claro, o mítico jingle: "Studio Line, esculpindo o seu cabelo ao seu estilo."
2:41 Brise Mar, as fragrâncias da brisa marinha. Ainda se vendem ambientadores Brise?
2:50 Na altura, a margarina Pastora tentava romper com o triunvirato Flora/Planta/Becel. Neste anúncio, ao pegar numa embalagem, uma mulher embarca numa tripe alucinogénia onde a visão de um senhor que surge na embalagem lhe fala sobre o concurso onde seriam sorteadas viagens à Terra Santa e dezenas de eletrodomésticos. 
3:05 O disco "Simon And Garfunkel Collection" que reunia dezassete dos mais famosos êxitos desta dupla, podendo-se ouvir no anúncio temas como "El Condor Pasa (If I Could)", "Mrs. Robinson" e "Cecilia". 
3:27 António Ribeiro Cristóvão, então o apresentador do "Domingo Desportivo" num espaço de autopromoção ao programa, enaltecendo o esforço de todos aqueles envolvidos na sua produção. Serve esta autopromoção para uma campanha que a RTP promovia na altura para os telespectadores actualizarem os pagamentos das suas taxas, onde se destacava este boneco animado com fato futurístico montando numa câmara voadora que dizia: "Ponha a sua taxa em dia, custa tão pouco por dia." Isto porque até ao início dos anos 90, a taxa da televisão era paga em separado. Taxa essa que regressou em 2003, como  a Taxa de Contribuição Audiovisual, incluída na factura da electricidade. 
4:13 Uma das mais famosas vinhetas da RTP1 com formas geométricas, estreada a 13 de Outubro de 1986 e que duraria até à rentrée de 1988, sendo adicionado o logótipo do 30.º aniversário da RTP. 
4:18 Vinheta Lotação Esgotada
4:26 Vinheta de agradecimento a Afonso Gageiro.



0:00 Após um breve excerto de "My Fair Lady", um corte algo demorado até à...
0:09 Vinheta RTC
0:14 Lembro-me deste anúncio do Braz & Braz, com uma bailarina vestida como dona de casa. Desde 1777 que vende produtos para a casa: cutelaria, objectos de cozinha, material de decoração, têxteis-lar, electrodomésticos…"Braz & Braz tem!". Actualmente existem três lojas Braz & Braz em Lisboa (na Rua dos Anjos), São João da Talha e Almancil.
0:35 Outro clássicos dos anos 80, o Dystron! Venha de lá a ladainha: "Na sua higiene íntima, a mulher moderna usa Dystron. Em casa, Dystron líquido. Fora de casa, Dystron em toalhetes. PAM!"
0:44 Este anúncio à Gilette Blue II grita "ANOS 80!", não grita? Um homem barbeia-se com a dita lâmina antes de se encontrar com uma babe bem eighties de vestido azul que o espera num bar. E logo quando a babe se cansa de esperar, eis que ele surge a correr ao seu encontro. Tudo isto enquanto canta o rei dos jingles nacionais Gustavo Sequeira. 
1:05 Este não é o mítico anúncio do Quitoso, com uma sala de aulas repleta de petizes até que se vê um deles a coçar a cabeça com ar inquieto, mas sim apenas com um miúdo no canto de uma sala a coçar a cabeça. Mas a famosa ladainha é ouvida: "Piolhos? Lêndeas? Quitoso elimina-os totalmente. Quitoso, loção e champô."
1:13 No outro bloco tivemos o WC Pato, neste temos uma marca rival, Express, afirmando "onde os outros param, Express continua".
1:33 Um jovem Miguel Guilherme neste anúncio à Maionese Hellmann's.
1:54 A inconfundível voz da actriz Lídia Franco neste anúncio aos chocolates Favorita.
2:15 Num artigo que fizemos sobre anúncios a tintas, referimos este das Tintas Dyrup protagonizado por um arlequim rodopiante. A Dyrup nesse ano comemorava "40 anos a pintar Portugal".
2:45 Um animado anúncio da Coca-Cola, numa livre recriação de uma cena do filme "Os Amigos Do Alex", em que um grupo de amigos prepara todo o tipo de comida numa cozinha enquanto todos dançam ao som de "Freeway of Love" de Aretha Franklin e, claro, vão bebericando o referido néctar.  
3:13 Trailer ao filme "Over The Top - O Lutador" onde Sylvester Stallone faz de um camionista que aspira a tornar-se campeão de luta braço de ferro. Claro está, com a inconfundível voz de João David Nunes. E a estreia deste filme nos cinemas portugueses foi em grande, pois a mítica frase "Sexta-feira estreia" não se limitava a Lisboa e Porto mas incluindo isso sim um então invulgar número de outras cidades: Coimbra, Setúbal, Vilamoura, Portimão, Évora, Braga, Mem Martins e Torres Vedras! 
3:35 Outro clássico da publicidade dos anos 80, os anúncios a produtos de tratamento agrícola. Claro que a marca (e o anúncio) mais célebre era o Rubigan 12, mas também Bayfidan, do grupo Bayer, prometia a eliminação do oídio por essas vinhas de Portugal adentro. 
3:49 Vinheta RTP1 30 Anos
3:52 Vinhetas Lotação Esgotada e Afonso Gageiro



0:00 A gargalhada do actor Rex Harrison em "My Fair Lady" (filme pelo qual ganharia o Óscar de Melhor Actor) antes da...
0:04 Vinheta RTC
0:10 Um anúncio ao Martini com o glamour dos anos 80, que começa por uma beldade a passear numa praia até que encontra uma televisão no areal que parece funcionar mesmo sem aparentemente haver tomadas eléctricas por perto e até quando uma onda percorre o ecrã. 
0:40 Outra vez o anúncio aos jeans Wrangler.
0:49 E outra vez o anúncios aos preparados para bolos da Oetker.
0:56 Já tivemos o anúncio à Carlsberg em modo ginger ale, agora temos um à cerveja Carlsberg propriamente dita. E este é um dos mais famosos, que se passa durante a representação da cena da célebre ópera "Carmen". 
1:18 Alguns champôs são apenas suaves, outros são apenas de tratamento. Mas qual Hannah Montana dos produtos capilares, a Elséve apresentava um champô que prometia o melhor dos dois mundos. E claro, com uma beldade morena a mostrar os resultados. 
1:50 Mais um anúncio a um produto de tratamento agrícola, desta vez o Polycur para combater o míldio e fazer crescer deliciosas batatas, com um coro de batatinhas a cantar: "Polycur, Polycur, não há cá míldio que dure."
2:00 Anúncio ao vinho do Porto Offley, em que um senhor de farta barba aplica um ferro em brasa em forma do logótipo numa pipa. 
2:29 O sabão Migo torna-se um boneco animado para mostrar que lava bem a roupa, ao ponto de uma camisola o vir abraçar depois. E por fim, o rotundo slogan: "Migo, dá cabo do sujo."
2:38 Numa biblioteca, o espirro de uma jovem mulher perturba o silêncio do local. Felizmente, o homem a seu lado tem  Halls Mentolypthus
3:09 Um senhor com um ar muito british afirma em inglês e com as legendas em português: "Se aprecia o que está dentro da garrafa, peça um Grant's" e logo a seguir uma voz-off repete precisamente o mesmo, o que torna a legendagem inútil. 
3:19 Mais um anúncio de autopromoção da RTP inserido na campanha de actualização das taxas de televisão, desta vez  sobre o programa "7 Folhas" apresentado pela saudosa Alice Cruz, que na altura ia aos sábados à tarde e que apresentava os principais destaques da programação da RTP para a semana que se seguia. Nele pode ser ver a tecnologia de ponta utilizada em televisão na altura. 
4:11 Em garrafa, meia-garrafa ou à taça, havia muita maneira de apreciar o espumante Danúbio das Caves Aliança.
4:19 E para terminar este bloco especialmente dedicado a anúncios a bebidas alcoólicas, este anúncio à Cerveja Sagres, uma das grandes instituições da cervejaria nacional, com vários homens tuga a assobiar o famoso jingle num bar.  
4:39 Vinheta RTP1 30 Anos
4:42 Vinhetas Lotação Esgotada e Afonso Gageiro

No canal PT Archive, existe ainda um outro bloco mas este só tem um anúncio aos televisores Singer. (O espectáculo da cor!)



Espero que tenham gostado desta análise. Eu pessoalmente recordei muitos anúncios dos quais já não me lembrava. Deixem os vossos comentários! E uma vez mais, obrigado ao PT Archive e a Afonso Gageiro. 


domingo, 4 de abril de 2021

Festival da Eurovisão 1981

por Paulo Neto



Dez anos depois, Dublin voltou a receber o Festival da Eurovisão. A 26.ª edição do evento teve lugar na capital irlandesa, no RDS Simmonscourt a 4 de Abril de 1981. As dimensões do recinto, que costumava receber certames hípicos e agrícolas, proporcionou a criação de três áreas no palco: uma para as atuações, outra para a orquestra e outra para o quadro das votações, conduzidas pela apresentadora  Doireann Ni Bhriain.     


Este foi o primeiro Festival da Eurovisão da minha existência, já que nasci seis dias depois da edição do ano anterior.
Vinte países participaram, com destaque para a estreia de Chipre e os regressos de Israel e da Jugoslávia, enquanto Itália ficou de fora e Marrocos não mais regressou após a sua única participação no ano anterior. Antes da actuação de cada canção, foi exibido um breve filme dos respectivos intérpretes a descobrirem por vários recantos de Dublin. (Por exemplo, o nosso Carlos Paião e o seu coro foram passear num jardim.) No intervalo entre as actuações e as votações foi exibido um número de bailado chamado "Timedance", dedicado à música e dança tradicional irlandesa.  
Os comentários da RTP estiveram a cargo de Eládio Clímaco e a porta-voz dos votos de Portugal foi Margarida Mercês de Melo (então conhecida como Margarida Andrade).       

Como é habitual, analisaremos as canções por ordem inversa à classificação. 

Finn Kalvik (Noruega)


Nesse ano, a fava calhou à Noruega que ficou em último lugar, corrida a zeros. Finn Kalvik cantou "Aldri I Livet" ("nunca na minha vida") e este insucesso não fez mossa na sua carreira, que conhecia bastante sucesso no seu país desde o início dos anos 70. Aliás, a versão em inglês, "Here In My Heart" teve nos coros nada menos que Agnetha e Frida dos ABBA.

Aysegül Aldinç & Modern Folk (Turquia)


Com nove pontos, Turquia e Portugal partilharam o 18.º lugar. Na sua quarta participação, a Turquia fez-se representar por uma colaboração entre o trio Modern Folk Üçlüsu e cantora e actriz Aysegül Aldinç com a canção "Dönme Dolap" ("o carrossel"), uma interessante fusão entre folk turco e disco.

Carlos Paião (Portugal)


Este foi mais um ano em que a canção portuguesa não foi ouvida com ouvidos de ouvir pela Europa, não angariando mais do que 8 pontos da Alemanha e 1 ponto da Grécia. O que é lamentável pois o "Playback" de Carlos Paião não só tinha uma sonoridade bem moderna como era um ácida crítica às estrelas manufaturadas desta vida para quem basta ter bom ar e ser forte no lipsync, para não falar na performance irreverente e colorida (mas infelizmente outra actuação irreverente e colorida imediatamente antes de Portugal é que encheu o olho aos júris europeus). Em palco, Carlos Paião foi acompanhado no coro por Ana Bola, Pedro Calvinho, Cristina Águas (sim, filha desse José e irmã desses Rui e Lena) e o nórdico Peter Peterson e a orquestração esteve a cargo de Shegundo Galarza. "Playback" foi o primeiro grande marco na carreira de Carlos Paião, que quer no seu próprio repertório quer no que compôs para outros, soube navegar com genialidade a linha entre o erudito e o popularucho. Carreira essa que foi cruelmente interrompida em 1988 quando Carlos Paião perdeu a vida num acidente de viação com apenas 30 anos. Aliás, não deixa de ser curioso como até 2017, ano em que Portugal finalmente ganhou a Eurovisão, Carlos Paião era o único falecido dos nossos intérpretes eurovisivos, como se a Divina Providência apiedando-se de tão trágica perda nacional, fez com que os restantes vivessem o suficiente para ver Portugal ganhar. 
Ah! E convém não esquecer que no Festival da Canção, desse ano Carlos Paião bateu concorrência ilustre como José Cid, Maria Guinot, Carlos Alberto Moniz & Maria Do Amparo, Samuel, Cocktail e o "Ali Babá" das Doce.   
Marty Brem (Áustria)

Depois de ano anterior ter representado a Áustria como parte do grupo Blue Danube, Marty Brem regressou por este país, agora a solo, sendo parte da actuação mais bizarra da noite. Não por causa da canção em si, já que "Wenn Du Da Bist" ("quando tu estás aqui") era uma simples balada romântica, mas por causa da coreografia executada pelas quatro bailarinas em palco, uma delas vestida de odalisca e outra, que também fazia coro, com um capacete de futebol americano, um fato de banho e perneiras. A Áustria ficaria em 17.º lugar com 20 pontos. Entretanto Marty Brem virou-se para o ramo empresarial da indústria musical no seu país.

Riki Sorsa (Finlândia)


Evocando ares de Rod Stewart, Riki Sorsa representou a Finlândia com "Reggae OK", provavelmente a única canção reggae com um solo de acordeão. Mas a Europa não achou que estava lá muito OK e a Finlândia ficou-se pelo 16.º lugar com 27 pontos. Riki Sorsa faleceu em 2016.  

Seid Memic Vajta (Jugoslávia)


Ausente desde 1976, a Jugoslávia regressou ao Festival neste ano, representada pelo cantor bósnio Seid Memic Vajta com "Lejla" que ficou em 15.º lugar com 35 pontos. Após a guerra na ex-Jugoslávia, Vajta mudou-se para a Alemanha, onde vive desde então embora ainda actue ocasionalmente nos Balcãs. 
Curiosamente, o melhor resultado da Bósnia-Herzegovina independente na Eurovisão foi com uma canção igualmente intitulada "Lejla", que ficou em terceiro lugar em 2006.
Durante as votações houve um momento caricato quando após alguns problemas na ligação à Jugoslávia, Doireann Ni Bharain perguntou à porta-voz Helga Vlahovic pelos votos jugoslavos e esta respondeu "Eu não os tenho", para gargalhada geral da assistência. 

Bachelli (Espanha)

José Maria Bachelli foi o representante da vizinha Espanha com o tema "Y Solo Tu", no qual eu não consigo deixar de ouvir o "A Veces Tu, A Veces Yo" de Julio Iglesias. Espanha ficou no 14.º lugar com 38 pontos. Quando a sua carreira posterior não descolou em Espanha, Bachelli mudou-se para o Equador no início dos anos 90, onde chegou a entrar numa telenovela. 

Emly Starr (Bélgica)

Em 1981, o disco-sound queimava os seus últimos cartuchos, mas ainda esteve em evidência na actuação da Bélgica, representada pela rainha do disco da Flandres, Emly Starr (verdadeiro nome Marie-Christine Mareels). E foi trajada como uma Dalila que cantou "Samson", ficando em 13.º lugar com 40 pontos.  

Tommy Seebach & Debbie Cameron (Dinamarca)


E o disco foi também o ritmo da canção da Dinamarca, "Kroller Eller Ej" ("com ou sem caracóis") interpretado por Tommy Seebach e Debbie Cameron. Seebach já tinha sido o representante dinamarquês em 1979 com "Disco Tango", no qual Cameron, americana radicada na Dinamarca, fizera coro. A meio da actuação, Debbie Cameron mostrou também os seus dotes para a dança, acompanhada por duas bailarinas. A Dinamarca ficou em 11.º lugar com 41 pontos.

Jean-Claude Pascal (Luxemburgo)


Com os mesmos pontos ficou o Luxemburgo, que se fez representar pelo francês Jean-Claude Pascal. Em 1961, Pascal tinha alcançado a primeira vitória para o grão-ducado com "Nous Les Amoureux" (que o próprio viria admitir que falava sobre uma relação homossexual). Vinte anos depois cantou "C'est Pas Peut-Être L'Amérique" ("poderá não ser a América"). Jean-Claude Pascal faleceu em 1992. Além da música, teve uma longa carreira como actor tento contracenado com Anouk Aimée e Romy Schneider. 

Björn Skifs (Suécia)


A Suécia foi o último país a actuar, tendo ficado no 10.º lugar com 50 pontos. Tal como em 1978, o seu representante foi Björn Skifs  que cantou "Fangad I En Dröm" ("apanhado num sonho"). Além de uma longa carreira a solo, Skifs foi vocalista de várias bandas, nomeadamente os Blue Swede que em 1974 chegaram ao n.º1 do top americano com uma versão de "Hooked On A Feeling". 

Linda Williams (Países Baixos)


Os Países Baixos ficaram na posição acima com mais um ponto. Linda Williams cantou "Het Is Een Wunder" ("é uma maravilha"). Aparentemente na final holandesa, era outro cantor que era suposto defender esta canção, e Williams foi uma substituição de última hora, acabando por ser ela a representar o país em Dublin. Após a sua participação, Linda Williams não teve grande sucesso na sua carreira, mas voltaria à Eurovisão em 1999 com a sua filha Eva no coro da canção belga desse ano.

Yannis Dimitras (Grécia)


A Grécia apostou no romantismo, com a balada "Fegari Kalokerino" ("lua de Verão"), interpretada por Yannis Dimitras, acompanhado ao piano por Sofia Houndra. Os arranjos faziam lembrar a banda sonora de "Love Story". A Grécia ficou em oitavo lugar com 55 pontos, o seu melhor resultado desde 1977.  

Hakol Over Habibi (Israel)


Depois da ausência no ano interior, Israel regressou ao Festival, fazendo representar-se pelo grupo Hakol Over Habibi. Ao que consta, foi a eles que foi originalmente oferecido "Hallelujah" a canção vencedora do Festival da Eurovisão de 1979. Em Dublin, cantaram "Halayla"("esta noite"), que ficou em sétimo lugar com 56 pontos. Na altura, Shlomit Aharon, a parcela feminina do grupo, estava grávida. O grupo ainda actua junto ocasionalmente. 

Island (Chipre)

Chipre participou pela primeira vez nesse ano, representado pelo grupo Island que cantou "Monika", obtendo um impressionante sexto lugar com 69 pontos. (Melhor que o melhor resultado de Portugal até então!) Alexia Bassilou, um dos componentes do grupo, voltaria a representar Chipre a solo em 1987.

Sheeba (Irlanda)


O país-anfitrião, a Irlanda, ficou em quinto lugar com 105 pontos (embora a certa altura o quadro das pontuações registasse 310 pontos!). A representá-lo esteve o grupo Sheeba, composto por Frances Campbell, Marion Fossett e Irene "Maxi" McCoubrey (que já representara a Irlanda em 1973). Vestidas com uns trajes a lembrar o filme "Flash Gordon", elas cantaram "Horoscopes", mas apesar do título e da menção a dez dos doze signos do zodíaco (de fora ficaram Gémeos e Sagitário), a letra não era apologista da astrologia, afirmando que o nosso destino depende de nós próprios e não dos astros.

Peter, Sue & Marc (Suíça)


O trio Peter, Sue & Marc representou pela quarta vez a Suíça e depois do francês em 1971, o inglês em 1976 e do alemão em 1979, voltaram a apostar numa outra língua, desta feita o italiano, cantando "Io Senza Te". Era uma balada romântica com um solo de flauta de pan. O trio igualou o quarto lugar obtido em 1976, mas com mais pontos: 121. Aliás a Suíça foi o país que mais 12 pontos recebeu, num total de cinco.

Jean Gabilou (França)

E chegámos ao pódio. Em terceiro ficou a França com 125 pontos, representada por Jean Gabilou, cantor natural do Tahiti. O tema "Humanhum" falava de uma galáxia distante algures no ano 3000, onde um ancião conta a um grupo de crianças a história de um belo planeta cheio de vida, mas que foi sendo completamente destruído quando as suas gentes inventaram a guerra. Claro que esse tal planeta era a Terra! 

Lena  Valaitis (Alemanha)


A votação esteve bastante renhida e quando só faltavam votar dois países, Alemanha, Reino Unido e Suíça estavam empatados com 120 pontos. No final das contas, a Alemanha repetiu o segundo lugar do ano anterior com 132 pontos, incluindo 12 de Portugal. A sua representante, Lena Valaitis, nasceu no então território alemão de Memel, mas que hoje pertence à Lituânia sob o nome de Klaipeda. O tema "Johnny Blue" falava de um rapaz cego que sofria bullying das outras crianças por causa disso, mas que graças ao seu talento musical alcança o sucesso e inspira os outros. Os autores desta canção também criaram aquela que no ano seguinte traria finalmente a vitória à Alemanha.

Bucks Fizz (Reino Unido)

Mas nesse ano, a vitória foi pela quarta vez para o Reino Unido, com o grupo Bucks Fizz, composto por Mike Nolan, Robert Grubby, Jay Aston e Cheryl Baker (que fizera parta do grupo Co-Co que representou o Reino Unido em 1978), com "Making Your Mind Up". A sua actuação tornou-se uma das mais icónicas da história do Festival da Eurovisão no momento em que Nolan e Gubby puxaram as saias às suas companheiras, revelando as saias mais curtas que elas tinham por baixo. Apesar de só ter tido 12 pontos de dois países (Israel e Países Baixos), o Reino Unido reuniu 136 pontos suficiente para bater a Alemanha, até porque foi o único país a receber pontos de todos os outros países. Entre aqueles que competiram com os Bucks Fizz na final britânica desse ano, esteve o grupo Headache, liderado por nada menos que Luís Jardim! Os Bucks Fizz viriam a conhecer mais sucesso nos anos seguintes, com os singles "My Camera Never Lies" e "Land Of Make-Believe" a chegarem ao primeiro lugar no top britânico. Actualmente existem duas versões do grupo: uma com Bobby Grubby e outros três membros que mantém o nome Bucks Fizz, e outra com os outros três membros originais que actua sob o nome The Fizz. 

Mike Nolan, Cheryl Baker, Jay Aston e Robert Grubby 
celebrando a vitória.

Festival da Eurovisão de 1981 (comentários em inglês):



sexta-feira, 26 de março de 2021

Promoção O Sucesso Nescafé - I can see clearly now

Nota: O Paulo Neto já dedicou um cromo a este clássico da cafeína televisiva, mas enquanto passeava pelos antigos rascunhos da Enciclopédia resolvi aproveitar o texto e a imagem que encontrei numa revista de 1991:
Passaram pela televisão portuguesa dois anúncios a café épicos e que perduram na memória passadas décadas: "Bom dia com Mokambo" e o "I can see clearly now" da campanha "Nescafé. Um Amanhecer Diferente". (Nota: "Brasa é a bebida que aquece o coração" e do Café Nicola com o Bocage também são inesquecíveis)
Naturalmente, a Nescafé lançou em 1991 uma promoção para tentar capitalizar o êxito do anúncio: "Promoção O Sucesso Nescafé".
"Peça já o Sucesso Nescafé!
O sensacional disco de Johnny Nash "I can see clearly now" um tema original da banda sonora do filme Nescafé.
Uma oferta Nescafé, completamente grátis.
Basta enviar num envelope, com o seu nome e morada completos, 1 rótulo de 100 g ou de 2 de 50 g de qualquer embalagem Nescafé, para:
"Promoção O Sucesso Nescafé"
Apartado 5071, 1702 LISBOA CODEX.

E receberá em sua casa, sem mais despesas, este sucesso Nescafé."


O mítico anúncio "Nescafé, um amanhecer diferente" (1991):


Uma jovem chega no seu clássico Carocha da Volkswagen junto ao mar, triste (um desgosto amoroso, um exame em que chumbou? Nunca saberemos.), mas nada que um chávena quentinha de Nescafé e o bonito por do sol não resolvam. Desde essa época fiquei intrigado com a resistência com que ela aquece o café, nunca tinha visto nada do género nos carros de família. E uma tia tinha um carocha! Tenho saudades dessa viatura que parecia pequena mas levava uma enorme quantidade de tios e sobrinhos todos ao molho lá para dentro, quase como no Mini do Júlio Isidro no "Passeio dos Alegres".

Tenho impressão de há uns anos ter lido alguém dizer que no anúncio a música que se ouvia era o cover de Jimmy Cliff, mas como essa só foi gravado mais tarde em 1993 (da banda sonora de "Jamaica Abaixo de Zero")... E a capa do disco no anúncio da revista diz claramente "Johnny Nash - I Can See Clearly Now" mas com o subtítulo remix. Tentei ouvir vários reclames mas a má qualidade do som não me deu a certeza de ter sido usada a mesma versão em todos os países...

Eu nem gosto de café, mas este anúncio foi uma tentação para me iniciar no mundo da cafeína. Iniciações essas sempre falhadas...


Imagem digitalizada e editada por Enciclopédia de Cromos. Retirada da revista "SETE" Nº 666, com data de 14 de Março de 1991.


terça-feira, 23 de março de 2021

"Patchouly" Grupo De Baile (1981)

 por Paulo Neto

O breve mas fulguroso movimento cultural que foi o rock português no inicio dos anos 80 fez com que várias bandas deixassem a sua marca na música nacional, mesmo que a sua chama se apagasse tão depressa como brilhou. E entre elas, a mais lendária foi sem dúvida o legado deixado pelo Grupo De Baile com apenas um célebre single editado em 1981.




Como o nome indica, o Grupo De Baile começou por ser apenas um grupo de amigos no Seixal, membros da filarmónica local, que formou uma banda para actuar em festas e bailes nas redondezas (começando aliás com o nome de SUS Music). Eram eles Carlos Tavares (voz), Vicente Andrade (guitarra), Luís Rosado (bateria), António Manuel (baixo), Luís Landeiroto (órgão), Marcelino Guerreiro (saxofone alto), João Mário (saxofone tenor) e José Manuel Raminhos (trompete). A popularidade da banda foi crescendo até que em 1981, tiveram a oportunidade de gravar um single editado pela Valentim De Carvalho: esse single tinha como lado A "Patchouly" e lado B "Já Rockas À Toa".



Não sei se a letra de "Patchouly" tem algum significado mais transcendente do que parece, ou é só mesmo sobre um semi-indigente que tenta engatar "as miúdas das escolas secundárias", com o seu odor corporal a funcionar estranhamente como uma eficaz feromona. Mas o que é certo, é que não tardou que o povo tuga trauteasse "Patchouly" nem que fosse só os "uóuóuó". Para ainda acentuar o frisson, o disco foi editado em duas versões: uma com a canção completa, e outra que colocava um piiiiiii em vez da palavra pintelho, que surgia no terceiro verso. (Já tinham passado sete anos do 25 de Abril, mas aparentemente as mentalidade ainda não tinham mudado assim tanto.)

O Grupo De Baile editou em 1982 mais dois singles, "Vocalista Rock" e "Estória Linda", e podiam ter sido os Madness portugueses mas não só o sucesso se repetiu como, igual a tantas outras bandas da altura, a vida meteu-se no caminho, a banda desfez-se e os membros regressaram aos seus empregos principais. Por exemplo, Carlos Tavares é ainda hoje funcionário da Câmara Municipal do Seixal.

Contudo o Grupo De Baile ainda se reuniu algumas vezes esporadicamente, como por exemplo em 1988 para esta actuação no programa "A Quinta Do Dois", onde fica claro que Carlos Tavares tinha tudo para ser um rockstar de arrastar multidões.



Entre outras ocasiões em que a banda se reuniu contam-se em 1999 para o Festival Seixal Rock desse ano e em 2006 para o programa Febre De Sábado De Manhã, onde se homenageou esse mítico programa de rádio de Júlio Isidro. Carlos Tavares colaborou em discos dos Corvos e dos Alcoolémia. 

"Patchouly" também já teve várias versões e paródias. Recordo-me sobretudo de "Chulézi", do programa "Ora Bolas, Marina" da SIC, onde Marina Mota, na pela da desinibida vocalista da banda rock Us-Batná-Vó, cantava:

Lava bem esses presuntos com sabonete
E as peúgas não as deixes por aí
Porque senão ainda alguém morre com o pivete
Pois tresandam ao teu perfume chulézi
Uó uó, uó uó, uó uó, uó uó, uó uó, uó uó

"Já Rockas À Toa"





 "Estória Linda"

"Vocalista Rock"


"Dança"


 
Actuação em 2006



  


domingo, 14 de março de 2021

Sétimo Direito (1988-89)

por Paulo Neto 

Filho do incomparável Vasco Santana, Henrique Santana (1924-1995) seguiu as pisadas do pai no mundo do espectáculo. A sua estreia no cinema foi em "Fado, A História De Uma Cantadeira", ao lado do pai e de Amália Rodrigues. Porém foi nos anos 80, através da televisão, que Henrique Santana teve os seus desempenho mais marcantes. Primeiro na adaptação para TV da divertida peça "Aqui Há Fantasmas", depois na série  "Os Homens Da Segurança" no papel de Vítor Mesquita e como protagonista da sitcom "Sétimo Direito" (também denominada como "7.º Direito").


Exibida na RTP 2 em 18 episódios entre Outubro de 1988 e Fevereiro de 1989, "Sétimo Direito" mostrava as desventuras dos moradores de um prédio na Avenida de Roma em Lisboa, nomeadamente o da família Pimentel que mora no andar do título. Alberto Pimentel (Henrique Santana), que amigos e familiares tratam por Beto, é o patriarca, dono de uma fábrica de concentrados e que tem o seu escritório no 1.º Direito. Com ele vivem a sua esposa Esmeralda (Lia Gama), a sua filha Isabel (Cláudia Cadima) e o genro Fernando (Luís Aleluia) e há também a espevitada empregada Celeste (Noémia Costa). 


Entre os outros moradores do prédio está o casal do 2.º Direito, Luís (Carlos Quintas) e Laura Tavares (Rita Ribeiro), um casal moderno e bem-sucedido mas cujo ciúme de ambos os cônjuges faz amiúde estalar o verniz, bem como a D. Eulália (Alda Pinto), a cartomante do 5.º esquerdo, e o Sr. Sequeira (Henrique Santos), o administrador de condomínio que mora no 3.º esquerdo. E sempre atenta a tudo está Rufina (Maria Helena Matos, na vida real casada com Henrique Santana e filha da lendária Maria Matos), a porteira do prédio. 

Como eu já referi aqui algumas vezes, eu vivi os meus primeiros doze anos de vida sem a RTP2 sintonizada na minha casa, por isso eu não vi esta série na altura, nem me recordo de a ver reposição na RTP1 em 1994, pelo que o meu contacto com "Sétimo Direito" foi evidentemente na RTP Memória. Um dos episódios que eu gostei mais foi o da "Noite De Natal" em que Esmeralda, supersticiosa com o facto de haver treze pessoas à mesa para a Consoada na casa dos Pimentel, obriga Beto a convidar mais uma pessoa. E essa pessoa acaba por ser Maria Do Céu (Linda Silva) a.k.a. "A Licas dos Anjos", uma prostituta. Após as inevitáveis confusões que isso gera, todos acabam por simpatizar com ela e Maria Do Céu vive um Natal inesquecível. Outro episódio divertido foi o intitulado "Está Um Homem A Dormir Cá Em Casa" com a participação de Carlos Miguel no papel de Ernesto Talião, um homem que chega a casa dos Pimentel para falar com Fernando, só que este, a mulher e os sogros chegam tarde a casa e Talião acaba por adormecer enquanto esperava no escritório. Até que Isabel, sem conseguir dormir, dá com ele e a confusão instala-se. A série contou ainda com participações especiais de nomes como Nicolau Breyner, Cristina Homem de Melo, Cristina Oliveira, Lena Coelho, Luís EsparteiroNuno Melo e Carlos Areia

Como já foi referido, além da sua exibição original na RTP2, "Sétimo Direito" foi reexibido em Setembro de 1994 na RTP1 à tarde, mas segundo o site "Brinca Brincando", essa reposição foi incompleta porque a meio do mês entrou em vigor a nova grelha do canal. O "Brinca Brincando" também revela que não era por acaso que a acção da série se passava no andar 7.º Direito do n.º 43 da Avenida de Roma. Na realidade, essa morada correspondia a um apartamento propriedade da família de Henrique Santana. Actualmente, a série está disponível no site de arquivos da RTP.

Henrique Santana faleceu a 1 de Julho de 1995.    

Alguns episódios no YouTube:

Episódio 4: "A Parabólica"


Episódio 9: "A Tragédia Grega"


Episódio 13: "Frente-A-Frente"




domingo, 7 de março de 2021

Festival da Canção 1991

por Paulo Neto

Tempo para recordar mais uma edição do Festival da Canção, desta vez recuando trinta anos até à edição de 1991, que se realizou nas antigas instalações da FIL. Como era habitual, o Festival teve lugar a 7 de Março, o dia de aniversário da RTP.



A apresentação esteve a cargo de Júlio Isidro e Ana Paula Reis e o tema da edição foi o cinema português. Antes da apresentação de cada canção foi apresentado um excerto de um filme português dos anos 30/40 e entre o desfile das canções e as votações, houve uma medley de canções do cinema português onde participaram António Pinto Basto (cantando "O Fado Do Estudante" de "A Canção De Lisboa"), Marina Mota (cantando "Cantiga Da Rua" de "O Costa Do Castelo), Lena D'Água (com "Sonhos De Amor" de "A Menina da Rádio), Luís Filipe, Nucha, Olívia e Paulo de Carvalho.  

Nesse ano as oito canções foram selecionadas pelo convite da RTP a quatro editoras (Discossete, EMI, Namouche e Ovação), cada qual submetendo duas canções ao concurso. Vamos recordá-las pela ordem inversa à classificação.


Em último lugar, ficou precisamente a última canção a actuar, "Com Muito Amor" interpretada por Emanuel. Sim, esse Emanuel. De seu verdadeiro nome Américo Monteiro, já levava uma década no mundo da música, como produtor e compositor, atravessando diversos géneros (como por exemplo o synth-pop, no projecto Flash que em 1982 editou o single "Música Electrónica") e em 1991 dava os seus primeiros passos como cançonetista, usando o célebre stagename. Escusado será dizer que anos mais tarde, a carreira de Emanuel explodiu, sobretudo em 1995 quando lançou a canção que daria o termo utilizado para explicar o estilo de música sob o qual se albergaram sonoridades da música popular portuguesa, da música brejeira e do antigo nacional cançonetismo: a música pimba, que foi toda uma perfect storm no panorama musical português. Porém na altura Emanuel ainda estava a alguns anos da sua consagração e a canção que cantou ficou na cauda da tabela com 38 pontos. A actuação teve ainda a particularidade de ter em palco dois bailarinos de danças de salão dos Alunos de Apolo.     


Em sétimo lugar ficou a canção n.º 6 "Sem Adeus", cantada por Paula Monteiro e Pedro Chaves. Paula Monteiro tinha tido alguma notoriedade em 1986 ao ser a voz e a cara do projecto Spunky que editou o single "Latino Americano", com o qual actuou em alguns programas de televisão como por exemplo o "Clube Amigos Disney", onde a certa altura apareceu o Zé Carioca para dançar com ela. "Sem Adeus" era uma balada romântica mas as vozes de Pedro Chaves e Paula Monteiro não conjugavam muito bem, daí o penúltimo lugar com 67 pontos.

Tal como Emanuel, Toy é hoje um household name. Mas na altura, o artista nascido com o nome de António Ferrão ainda estava no início da sua ascensão. Toy tinha-se iniciado na música quando esteve emigrado na Alemanha integrando vários grupos, regressando a Portugal em meados dos anos 80 dividindo-se entre compor para outros intérpretes e gravar as primeiras canções como solista. Toy era o único repetente desta edição no Festival da Canção, tendo participado no ano anterior com "Mais E Mais", tendo ficado em terceiro lugar e recebido o prémio de interpretação. Já com esta canção, n.º 2, "E Até Quando?", falando de temas mais sérios, não foi além do sexto lugar com 75 pontos (com a pontuação máxima do júri de Évora). Mas este seria apenas um mero fait divers na carreira de Toy que não tardaria a acumular sucessos. 

Além da canção que o próprio interpretou, Emanuel também escreveu a canção n.º1, "No Teu Sorriso" para a voz de Mariel. Pouco ou nada mais se sabe sobre Mariel, que acusou o nervosismo na sua actuação, mas ainda assim a sua canção superaria a do seu mentor, ficando em 5.º lugar com 85 pontos.


A canção n.º 3, "Bye, Lili, Bye" foi interpretada por T&Gus, que é como quem diz, Tó Leal e Gustavo Sequeira. No início dos anos 90, estes dois cantores eram requisitadíssimos para vários trabalhos, desde espectáculos musicais a genéricos de programas e jingles publicitários e já tinham participado anteriormente no Festival, Sequeira em 1985 e Leal em 1988. Não esquecer que Gustavo Sequeira é voz que nos cantou "Selvagem, uma dentada em Lion" e "Gilette, o melhor para o Homem" e que eles os dois, juntamente com Nucha e uma senhora da qual se falará mais adiante, cantariam o hino da SIC no ano seguinte. E tal como essa mesma senhora da qual se falará mais adiante, Tó Leal era um dos cantores residentes do programa "Regresso Ao Passado" conduzido por Júlio Isidro e que na altura ia para o ar na RTP1 nas tardes de Domingo. A canção que os dois defenderam foi sem dúvida a mais bem-disposta e descontraída das oito a concurso e continha uma ilustre surpresa em palco: entre aqueles que acompanhavam Tó e Gustavo, estava nada menos que a lendária Ruth Rita de "A Roda Da Sorte" atrás de um teclado! A certa altura, Tó Leal aproximou-se dela e Ruth deu-lhe um beijo marcando a face dele com batom. No final, "Bye, Lili, Bye" ficou em quarto lugar com 126 pontos. 


E chegamos ao pódio, e em terceiro lugar ficou a canção n.º 7 "Te Amo E Não Pensei", na voz de Carla Sofia. Segundo o livro "Portugal, 12 Pts. - Festival da Canção", Carla Sofia tinha-se participado em 1990 na revista "A Grande Festa" que marcou a reabertura do Teatro Variedades no Parque Mayer. A sua canção, uma das mais mexidas a concurso, obteve 146 pontos (incluindo a pontuação máxima do meu distrito, Santarém), vindo a ser incluída no seu álbum "Amor Exagerado" editado pela Discossete (sendo esta uma das duas canções submetidas por essa editora no certame) no ano seguinte. 



Em segundo lugar, temos a canção n.º 4, "Fazer Uma Canção", interpretada pelo grupo Blocco composto por Carla Burity, Fernanda Lopes, Luísa Fumaça, Octávio de Sousa, Paulo Brissos e Ricardo Carriço. Sim, esse Ricardo Carriço, que não tardaria a afirmar-se como actor. Paulo Brissos também participaria a solo no Festival de 1993 e o seu álbum de 1997 "A Criação" teve alguma notoriedade, sobretudo com o tema "Serás Tu", enquanto Fernanda Lopes, além de concorrer a solo no Festival de 1994, foi cantora de coro em sete participações de Portugal na Eurovisão e alternou com Lúcia Moniz como a voz feminina na banda residente do programa "Não Se Esqueça Da Escova De Dentes". De referir ainda que esta foi a primeira participação de Rosa Lobato Faria como letrista no Festival da Canção, sendo mais tarde a autora da letra de quatro canções vencedoras nos anos seguintes. "Fazer Uma Canção" obteve 155 pontos, menos onze que a canção vencedora, que era a favorita indiscutível. 



Efectivamente, seria quase impensável haver outra canção vencedora no Festival da Canção de 1991 que não a canção n.º 5 de seu título "Lusitana Paixão", na voz de Dulce Pontes, escrita por José da Ponte, Jorge Quintela e Fred Micaelo. A cantora natural do Montijo já era uma cara conhecida do público. Começou no teatro, cantou para jingles publicitários e genéricos de programas (como a versão portuguesa da série animada "A Ilha Do Tesouro") e era uma das cantoras residentes do programa "Regresso Ao Passado" de Júlio Isidro, então em exibição na RTP1. Mas sem dúvida que a vitória no Festival foi o seu primeiro grande momento áureo numa carreira que a tornaria numa das cantoras portuguesas mais reconhecidas internacionalmente. Além da vitória, Dulce Pontes venceu também o prémio de interpretação e realmente "Lusitana Paixão" foi uma canção que demonstrava perfeitamente todo o seu talento. 



No igualmente mágico e caótico Festival da Eurovisão desse ano em Roma, Dulce Pontes obteria o oitavo lugar, o primeiro top 10 de Portugal desde 1980 e ainda hoje um dos nossos melhores resultados eurovisivos. Em 1994, por alturas do 30.º aniversário do Festival da Canção, a RTP promoveu uma votação pública para a melhor canção vencedora de sempre e "Lusitana Paixão" foi a vencedora destacada. Ainda em 1991, Dulce Pontes representou Portugal no Festival da OTI, com "A Sul Da América" que tal como "Lusitana Paixão" viria a ser incluída no seu primeiro álbum "Lusitana" de 1992, ano onde juntamente com Tó Leal, Gustavo Sequeira e Nucha empresta a voz ao hino da SIC. Mas seria o álbum seguinte "Lágrimas" de 1993, que conheceria um sucesso sem pretendentes aquém e além fronteiras. Seguiram-se também "A Brisa Do Coração" (1995), "Caminhos" (1997) e "O Primeiro Canto" (1999) bem como a colaboração com Ennio Morricone no disco "Focus" (2003) que incluía "O Amor A Portugal".  

Versão em inglês:


Videoclip



O agradecimento ao site Festivais Da Canção e a João Carlos Calixto e Jorge Mangorrinha, autores do livro "Portugal, 12 Pts. - Festval da Canção". 

O Festival da Canção de 1991 está disponível para visualização na RTP Arquivos.
Parte 1: atuações das oito canções concorrentes
Parte 2: intervalo entre-actos dedicado ao cinema português 
Parte 3: votações. entregas de prémios e reprise da canção vencedora

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