segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A Guerra dos Mundos em Portugal (1958)

Aqui na Enciclopédia de Cromos raramente trazemos a máquina do tempo antes dos anos 70, mas há alguns assuntos que merecem a viagem longínqua:
Recupero então um artigo de 2010 para o blog Prometheus31: "Os Marcianos chegaram a Portugal, em 1958".


Ao ler um artigo no blog Vintage69 apercebi-me de que, se é sobejamente conhecida a nível internacional a versão radiofónica de "A Guerra dos Mundos" ("War Of The Worlds" livro de H.G. Wells de 1898) narrada por Orson Welles em 30 de Outubro de 1938, actualmente poucos fora de Portugal se recordarão da versão portuguesa de 1958 da invasão dos marcianos (que não passou despercebida a nível mundial pela imprensa da época). A nível nacional, ocasionalmente ainda é recordada a enorme polémica causada pelo pânico e sugestão colectiva que a emissão interpretada por Álvaro de Lemos - na Rádio Renascença ( a Emissora Católica Portuguesa) e que até tinha sido aprovada pela censura e demais autoridades - causou cá na terrinha. Depois de imensas chamadas telefónicas na rádio, jornais, Polícia e Bombeiros, a Policia interrompeu a emissão, o responsável foi preso por 3 horas e mais tarde interrogado pela PIDE (a famigerada policia política do regime Salazarista). Só horas depois do fim da emissão, a calma retornou, mas entretanto populares e Bombeiros foram até alguns dos locais onde supostamente os extraterrestres estariam a atacar, e milhares de portugueses ficaram desassossegados, enganados pelo realismo das descrições dos repórteres que narravam a "invasão dos marcianos" ao vivo.
Nada melhor que ler um artigo narrado pelo criador da emissão portuguesa de 25 de Maio de 1958,  Matos Maia: Como nasceu "A invasão dos marcianos"


Alguns excertos:

"Em meados da década de 50 li (...) um artigo sobre a "Guerra dos mundos", de Herbert Wells e algumas linhas do guião escrito por Howard Koch, o argumentista do filme "Casablanca".
Achei curioso tentar fazer uma emissão similiar em Portugal, em locais conhecidos, com nomes portugueses.
Reli "A guerra dos mundos" e elaborei uma sinopse do que seria do programa.(...)
(...)A escolha caiu sobre um colega e amigo dos Emissores Associados de Lisboa, Álvaro de Lemos.
Seguiu-se o trabalho de pedir a colegas e a amigos se tinham parentes ou colegas de trabalho que pudessem colaborar. Vozes fortes para comandantes de exército; voz pausada, mas firme para membros do Governo, etc.
Seguiu-se um trabalho de imaginação: inventar ruídos para determinadas situações (...)
Criámos os nossos próprios sons e um dos mais curiosos é o do ruído de multidão assustada e aos gritos. Esse som assim parece no contexto em que foi inserido. No entanto trata-se de uma gravação que fizemos num baile de fim-de-ano na Casa do Algarve que era vizinha dos estúdios da R.R (...)
Desde que escrevi a sinopse até o programa ficar pronto para transmitir, o trabalho durou 11 meses e algumas semanas.
Durante a transmissão começaram a "chover" os telefonemas dos mais variados: angustiantes, curiosos, insultuosos, etc"(...)
(...)um senhor super irritado, dizendo ser o comandante de piquete da PSP no Governo Civil, me ordenava que parasse a transmissão, caso contrário... me mandaria prender (...)
(...)mandou um sub-chefe e três guardas devidamente armados prender-me aos estúdios. Aí a emissão foi interrompida e passaram a transmitir discos.
No Governo Civil compreendi a histeria do graduado: um PBX com 20 linhas estava totalmente bloqueado por pessoas a saber
o que se passava, porque tinham visto incêndios em-Carcavelos (?); qual era a guerra que havia em Vila Nova de Gaia (?), etc.(...)
(...)Para "saber que não se brinca com coisas sérias!" prendeu-me numa cela, durante cerca de 3 horas, como um vulgar meliante.
No dia seguinte todos os jornais tinham manchetes sobre o assunto, uns criticando, pouquíssimos aplaudindo.(...)
Pouco mais de uma semana após a emissão fui levado à PIDE por um agente, para interrogatório.(...)Tinha dois dias para entregar uma lista completa de todos os participantes na "parvoíce" (sic) com nomes, moradas, números de telefonemas, moradas de empregos, números dos B.I., idades, etc., etc.(...)" 
Leia o artigo completo: Como nasceu "A invasão dos marcianos"

Ouça ou faça download da emissão, em 3 ficheiros de MP3:

Reacções na Imprensa da época (Clique sobre as fotos para as ver maiores):















Mais informação:


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sábado, 29 de outubro de 2016

O Nome da Rosa (1986)



"O Nome da Rosa" (lançado em 1986, 16 de Outubro), realizado por Jean-Jacques Annaud (A Guerra do Fogo) é a adaptação do romance homónimo (Il nome della rosa) de Humberto Eco. Foi concebido como uma co-produção da Alemanha Ocidental (pois é crianças, o Muro de Berlim ainda estava de pé), França e Itália. E era na Itália do século XIV que decorria a acção deste filme de assassinato e mistério. A liderar o elenco Sean Connery, como o frade franciscano William de Baskerville, e um jovem Christian Slater como o seu aprendiz Adso.



William de Baskerville é quase um Sherlock Holmes da Idade Média, e parte com Adso para investigar um estranho suicídio numa abadia. E à medida que os corpos se começam a acumular, surgem segredos, personagens duvidosos, uma rapariga selvagem, uma torre proibida. E tudo só se complica com a chegada do inquisidor Bernardo Gui (F. Murray Abraham). Ron Perlman encarna mais uma figura da sua galeria de monstros, um corcunda louco.



Trailer no Youtube: 



É um filme que vi várias vezes na TV durante a adolescência ( e revi há uns anos) e como tal lembrava-me mais dele por causas de algumas cenas, digamos assim, mais atrevidas entre Adzo e a rapariga....



No entanto, nos visionamentos mais recentes, além do fascínio do mistério entre as paredes da abadia, e da ambientação na retrógrada Idade Média (os historiadores que descansem que não vou apelidar de Idade das Trevas), destaco a crítica à hipocrisia e autoritarismo da Igreja e dos seus representantes, e temos ainda direito a mortes bizarras, autópsias, e claro, o bom trabalho do elenco.

"O Nome da Rosa" ganhou o César de Melhor filme estrangeiro, e dois BAFTAs.



No longínquo ano de 2011, antes da Enciclopédia, publiquei o texto acima no CINE31 , como a primeira parte de um artigo dividido entre mim e a minha eterna sócia Sofia Santos, que nos seus parágrafos define a sociedade da época retratada no filme.
Aconselho portanto a lerem o texto na sua totalidade no blog CINE31 para lerem a parte melhor escrita e mais interessante: "O Nome da Rosa - Mistérios e Assassinatos na Idade Média".


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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

"You Spin Me Round (Like A Record)" Dead Or Alive (1984)

por Paulo Neto

O ano de 2016 continua a reclamar mortes no mundo da música e no domingo passado foi a vez de Pete Burns, o vocalista dos Dead Or Alive, vítima de ataque cardíaco aos 57 anos de idade.
Não podendo ser considerados one hit wonders, já que tiveram quatro singles no top 20 britânico e dois no americano, a discografia dos Dead Or Alive fica indelevelmente marcada pelo seu grande sucesso "You Spin Me Round (Like A Record)", uma daquelas canções indispensáveis em festas temáticas e/ou em compilações de música dos anos 80. 



Os Dead Or Alive formaram-se em Liverpool em 1980, após um efémero projecto punk gótico denominado Nightmares In Wax. Apesar desde logo terem-se destacado na cena independente, a notoriedade só começou a surgir em 1984 com o lançamento do primeiro álbum "Sophisticated Boom Boom", que continha uma versão do clássico disco-sound "That's The Way I Like It" de K.C. & The Sunshine Band chegou ao n.º 21 do top britânico. Por esta altura, e após diversas mudanças na formação da banda, os Dead Or Alive eram compostos por Pete Burns, Stephen Coy (bateria), Mike Percy (baixo) e Tim Lever (teclas). Um quinto elemento, Wayne Hussey, deixou a banda pouco antes do lançamento do primeiro álbum. Hussey seria mais tarde guitarrista dos Sisters Of Mercy e vocalista dos The Mission.


"You Spin Me Round (Like A Record)" foi o single de apresentação do segundo álbum "Youthquake". Editado em Novembro de 1984, enveredou numa lenta mas segura escalada pelo top britânico até atingir o primeiro lugar em Março de 1985. Nada mau para uma canção que, segundo Pete Burns, a editora da banda tinha odiado, ao ponto de ter sido a própria banda a financiar a gravação e a produção do vídeo. Foi também o primeiro single n.º1 produzido pelos Stock, Aitken & Waterman que nos anos seguintes seriam a equipa de produtores de maior sucesso. 
Além do Reino Unido, "You Spin Me Round (Like A Record)" foi n.º 1 no Canadá, na Irlanda e na Suíça. Pela sua imagem excêntrica e andrógina, Pete Burns foi comparado a outros cantores da época com o mesmo estilo como Boy George e Marilyn.   
Embora algo longe do sucesso desse tema, os Dead Or Alive continuaram a ter mais algum sucesso com os singles e álbuns seguintes, com destaque para "Lover Come Back To Me", "In Too Deep" , "Brand New Lover" e "Something In My House".   

A partir de finais dos anos 80, o sucesso dos tops desvaneceu mas os Dead Or Alive continuaram sempre no activo, com várias mudanças na formação, da qual Pete Burns e Stephen Coy foram os únicos que resistiram até ao fim, editando mais três álbuns entre 1991 e 2000. Entretanto, "You Spin Me Round" continuou a girar e voltou a fazer sucesso em mais ocasiões: em 1998 pela sua inclusão no filme "The Wedding Singer - Um Casamento Quase Perfeito", em 2003 numa nova versão para promover um álbum best of e em 2006, após a participação Pete Burns numa edição do Big Brother Famosos britânico.





No entanto, nos últimos anos Pete Burns fazia notícia por motivos que nada a tinham a ver com a sua música. Nomeadamente, o seu vício por cirurgias plásticas que o deixaram completamente desfigurado, incluindo uma que rebentou os seus lábios. A sua participação no Big Brother Famosos britânico, onde ficou em quinto lugar, também gerou controvérsia por trazer para a casa um casaco alegadamente feito de pele de gorila. Mais tarde veio-se a descobrir que era na verdade feito de pêlo de outro tipo de macaco e que tinha sido importado antes de artigos com pele deste macaco ter sido considerada ilegal, pelo que não foram apresentadas queixas. 
Curiosamente apesar da sua aparência, Pete Burns esteve casado durante 26 anos com uma mulher, Lynne Corlett, que conheceu quando trabalhavam ambos num salão de cabeleireiro. Sobre a sua sexualidade, afirmou uma vez: "Querem sempre saber: sou gay, bi, trans ou o quê? Eu digo, esqueçam tudo isso. [Para mim] terá de haver uma terminologia completamente diferente e não acho que ainda a inventaram. Sou apenas o Pete."

Pete Burns pode ter morrido mas a sua música continuará viva, nomeadamente uma certa canção que continua a girar nas rádios e nas discotecas um pouco por todo o mundo. Além da versão original e regravações dos Dead Or Alive, "You Spin Me Round (Like A Record)" já foi gravado por outros artistas, como Jessica Simpson, o cantor belga Danzel e a banda de nu metal Dope. Em 2009, o hit internacional "Right Round" de Flo-Rida com a participação de uma então pouco conhecida Kesha, tinha elementos de "You Spin Me Round (Like A Record)". O tema foi também eleito em 2015 como o 17.º mais popular single n.º 1 do top britânico dos anos 80 numa sondagem nacional no Reino Unido.

"Lover Come Back To Me" (1985)



"In Too Deep" (1985)


"Brand New Lover" (1986)


"Something In My House" (1987)

 

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Cantigas da Rua (1996-1999) - Parte 2

por Paulo Neto

Há três anos, escrevi sobre o "Cantigas da Rua" (ler aqui), um dos programas que marcaram fortemente a programação da SIC nos anos 90, graças a um concurso de karaoke ao vivo em praças um pouco por todo o país (mas que imperdoavelmente nunca veio à minha cidade, e até penso eu que nem sequer ao distrito de Santarém, creio que a cidade mais perto da minha onde houve um programa foi Óbidos).



Miguel Ângelo e depois José Figueiras apresentavam o programa onde em cada semana cerca de trinta tugas revezavam-se à razão de três concorrentes por canção num palco montado num sítio chave da cidade para cantar os hits do momento ou clássicos do karaoke. Mas sem dúvida que um dos ingredientes do sucesso do programa era a participação do público em cada cidade, fosse para apoiar um concorrente em particular, fosse pela chance de aparecer na televisão ou simplesmente para viver algo diferente na sua cidade, acolhia em massa a assistir às gravações de cada programa, alguns mesmo colocando-se em cima de candeeiros de rua e outros sítios impensáveis.



E é precisamente sobre a participação do público no "Cantigas de Rua" que Teresa Guilherme escreveu duas crónicas sobre dois episódios do programa no seu livro de 2005 "Isso Agora Não Interessa Nada", que reúne crónicas sobre as suas experiências como produtora de programas de televisão, que será interessante compartilhar. 

O primeiro decorreu no ano de estreia do programa em 1996. Conta Teresa Guilherme que os doze programas da primeira série foram filmados em doze dias consecutivos, aqueles que Miguel Ângelo conseguiu disponibilizar da sua preenchidíssima agenda dos Delfins, que estavam então no auge do seu sucesso. Um processo cansativo mas pelo qual todos os envolvidos correram por gosto, como escreve a TG:

"Mal acabávamos de gravar, o palco, as luzes, o carro de exteriores e os trezentos e vinte e cinco mil apetrechos necessários para fazer um programa de televisão eram carregados em camiões, faziam-se à estrada e mudavam de terra.
No dia seguinte, às duas da tarde, lá estava tudo montado noutra praça histórica perto de si, pronto para os ensaios.
Para a nossa equipa foram horas e horas dentro de uma carrinha. Um convívio obrigatório, mas esfuziante e inesquecível. O Miguel Ângelo, habituado às tournées da sua banda, divertia-se a ver o entusiasmo destes «ratinhos» de televisão, habituados à gaiola de estúdio, a curtirem esta saborosa liberdade."  

Apenas a final da primeira série foi gravada mais perto do dia da sua exibição em Setembro de 1996.
No entanto, tal foi o sucesso do "Cantigas da Rua", que Emídio Rangel, o célebre director de programas da SIC de então, achou que não se devia deixar para o próximo Verão o que se podia fazer naquele Outono e Inverno e quis uma segunda série do programa imediatamente a seguir à primeira. E foi assim que todos aqueles envolvidos no programa voltaram à estrada, mesmo sob os frios dos últimos meses do ano. Mas mesmo não abençoado pelo sol estival, o esforço continuou a dar os seus frutos, quer em audiências quer na afluência do público às gravações do programa. Como constatou TG:

"O Emídio Rangel tinha razão. Não é só no Verão que os portugueses estão prontos para uma festa ao ar livre. Estivesse o tempo que estivesse, as praças continuavam a rebentar de público. Enregelado mas com o mesmo calor humano."

A final da segunda série de "Cantigas da Rua" iria ter lugar em Dezembro em Lisboa, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, onde tinha sido gravado o primeiro programa. Para tornar a grande final ainda mais grandiosa, vários cantores conhecidos foram convidados a entrar em dueto com os finalistas amadores que cantavam as respectivas canções, que tanto foram cantadas ao longo de todos aqueles programas pelo país fora, como por exemplo Paulo Gonzo, Olavo Bilac, Sara Tavares, Anabela, Dina e Lara Li. Mas a "estrela" nesse dia foi alguém que não tinha sido convidado mas que se fez notar por todos: o São Pedro.




"Estávamos em Dezembro e o Cantigas Da Rua ainda é do tempo em que chovia no Inverno. E choveu!!! Toda a tarde e toda a noite. Mas não pensem que foi um pinguito aqui, outro ali. A água caiu com a mesma força com que os cantores, amadores e profissionais, brilharam naquele palco.
E o público, onde é que estava? No sítio do costume, à volta do palco, aos milhares, só que com alguma dificuldade em bater palmas por causa dos chapéus-de-chuva."



Pode-se dizer que essa finalíssima foi uma autêntica serenata à chuva digna do filme com Gene Kelly.

O outro episódio do "Cantigas de Rua" que Teresa Guilherme recorda em outra crónica, passou-se em Guimarães, onde o impensável aconteceu e por pouco que um dos programa teria sido gravado sem espectadores ao vivo. Um dos programas foi gravado na encosta do castelo de Guimarães e Teresa Guilherme ficou tão fascinada por aquele local, não só pela sua beleza como também pelo facto da sua vastidão proporcionar a formação de uma enchente humana ainda maior do que era costume, que ficou assente que no ano seguinte a grande final do programa seria lá. E mais uma vez, as coisas correram tão bem que ela decidiu que a cidade-berço da nação seria de novo o palco da final no ano seguinte.  

Eis aqui um  excerto de um dos programas filmados em Guimarães:


 
Mas dessa vez as coisas foram diferentes. Chegada a Guimarães, Teresa reparou que as pessoas que a cumprimentavam também lhe perguntavam o que ela andava a fazer por lá. Ela telefonou então à SIC para saber se o sistema de promoções ao programa durante as emissões do canal estava a funcionar, ao que lhe foi dito que sim. Mas algo estava errado, pois não tardou a ser evidente que os vimaranenses não sabiam que o programa iria ser gravado naquela noite. Deixemos que Teresa Guilherme conte o final da história:

"Ás 20 horas, ninguém na praça. E eu ansiosa.
Às 20h30. Eu ainda mais ansiosa, e ninguém na praça.
Voltei a telefonar para a SIC. Foram investigar.
Às 21h00, eu quase histérica e na praça...ninguém.
E foi aí que a SIC confirmou os meus piores receios. Não tinha ido nenhuma promoção para o ar, avisando os bravos de Guimarães que queríamos o seu apoio. A partir daí, encharcaram a emissão com rodapés informativos que acabavam com um lancinate «Vá já!!!» (e onde podiam muito bem ter acrescentado: «Antes que a Teresa morra!!!»). E, finalmente, as pessoas começaram a chegar. Devagarinho, lá iam subindo a encosta e já passava das dez da noite, quando começámos a gravação com aquilo que, em gíria de espectáculo, poderíamos chamar de uma encosta composta.
Claro que a televisão tem os seus truques. Nunca se mostrou que, daquela vez, a nossa enchente habitual tinha um caudal fraquinho."  

É divertido saber destes episódios por detrás das câmaras e que por detrás do que parece ser uma transmissão irrepreensível de um programa está por vezes uma data de sobressaltos nos bastidores para que chegue aos ecrãs nas melhores condições, não é verdade?

Vídeos bónus:

Excerto de um programa de 1996 gravado no Porto na Avenida dos Aliados


Excerto de um programa em Beja:


Num programa de 1999 em Faro, ouviu-se cantar o fado:


A prestação de Maria da Piedade em Viseu e Guimarães (1999)










quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Cenas De Um Casamento (1994-1995)

por Paulo Neto

Até ao início anos 90 em Portugal, parecia que o mundo da televisão era um mundo à parte daquele em que se movimentava o português comum, como se as pessoas da televisão fossem uns chosen ones a quem lhes fora conferido a oportunidade de viver num universo paralelo e quase mitológico, qual Monte Olimpo audiovisual, e só muito ocasionalmente é que o resto da população tinha a oportunidade de ter uma amostra desse universo, sobretudo em reportagens para noticiários e nos concursos. 



Porém a partir dos anos 90, sobretudo com o aparecimento da SIC, a pequena brecha que havia entre o mundo da televisão e o dos portugueses comuns foi gradualmente aumentando, até ser completamente escancarada no início do século XXI. Isto porque a SIC (e a espaços também a RTP e a TVI) levou aos ecrãs nacionais vários programas onde os protagonistas eram os portugueses comuns: aqueles que se queixavam dos problemas da sua localidade no "Praça Pública", aqueles que vestiam literalmente outra pele em busca de um sonho musical no "Chuva de Estrelas", aqueles que tentavam resolver desaguisados da vida no "Perdoa-me", aqueles que procuravam o amor no "All You Need Is Love" ou um ente-querido de quem perderam o contacto no "Ponto de Encontro", aqueles que alinhavam nas loucuras de "Não Se Esqueça Da Escova De Dentes", e por aí fora. 
Outro programa onde portugueses comuns podiam ser os protagonistas foi "Cenas De Um Casamento", que como o nome indicava todos os momentos antes e durante as cerimónias de matrimónio de vários casais tuga um pouco por todo o país e até no estrangeiro. Todo o país ficava assim convidado para assistir a esses casamentos.



Guilherme Leite era o apresentador do programa, exibido na SIC em duas temporadas entre 1994 e 1995, adaptado de um original italiano. A estrutura do programa era mais ou menos a mesma: Guilherme Leite encontrava-se com o noivo e a noiva nas respectivas casas, os noivos contavam a história do namoro e o pedido em casamento, havia uma sequência com o parzinho em cenas românticas e fofinhas ao som de uma canção que eles consideravam marcante para a sua relação e uma visita até à casa onde os dois iriam morar após o casamento. Era nessa altura que Guilherme Leite entregava aos nubentes um cheque com uma quantia em dinheiro (acho que era 200 contos, cerca de 1000 euros) para as ajudas no começo de vida a dois. Por fim, assistia-se à cerimónia do casamento, quase sempre na igreja, e o copo-de-água. (Muito bem deve Guilherme Leite ter comido à pala do programa!) Também me recordo que o momento da chegada da noiva à igreja fazia-se ao som de "A Noiva", interpretado por Max. 





Mas se a estrutura do programa era sempre a mesma, os casamentos assim variavam a cada programa. Casais jovens ou não tão jovens como isso, primeiras ou segundas núpcias, ainda sem ou já com filhos gerados dessa ou de outras uniões, cerimónia na igreja ou no registo civil, celebrações modestas ou faustosas, houve de tudo. Por exemplo, um casamento onde o noivo tocava numa banda de heavy metal!
A cerimónia mais abastada que eu me recordo de ter visto no programa incluiu os noivos a chegarem de helicóptero ao recinto do copo-de-água e uma actuação da cantora Anabela, que obviamente cantou "A Cidade (Até Ser Dia)". 
Se não me falha a memória, o programa dava nas noites de terça-feira e mais tarde passou para as tardes de sábado.


Infelizmente os excertos de episódios deste programa no YouTube foram retirados.


Manteiga Mimosa

Uma singela publicidade a um produto singelo: manteiga. Neste caso a Manteiga Mimosa. A portuguesa Mimosa está no mercado desde 1973, começando com leite e já nos anos 80 com productos lácteos (1) como o deste reclame.

Detalhe do pacote da manteiga Mimosa da época:
Comparemos com uma embalagem actual:
A identidade base permanece identificável, mesmo com três décadas de diferença.
(1) Mimosa: Missão, Valores e História.

Publicidade retirada da revista Maria, dos anos 80. 
Imagem Digitalizada e Editada por Enciclopédia de Cromos.


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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Moulin Rouge!" (2001)

por Paulo Neto

O terceiro filme do australiano Baz Luhrmann concluía uma trilogia dedicada ao mundo do espectáculo, designada como a "Red Curtain Trilogy": depois da dança em "Strictly Ballroom" (1992) e o teatro em "Romeu + Julieta" (1996), "Moulin Rouge!" de 2001 abordava a música através de um grande número de canções bem conhecidas a serem utilizadas para contar uma história passada em finais do século XIX, protagonizada por Ewan McGregor e Nicole Kidman, com alguma inspiração na ópera "La Traviatta" e na peça "A Dama das Camélias".



Christian (McGregor) é um jovem escritor que se muda para o boémio bairro de Montmartre em Paris e rapidamente torna-se amigo dos membros da comunidade artística local, liderada por Henri Toulouse-Lautrec (John Leguizamo). Impressionado com Christian, Toulouse-Lautrec pede-lhe para convencer Harold Zindler (Jim Broadbent), o dono do cabaré Moulin Rouge, a levar a cena uma peça musical que eles têm estado a preparar. É lá que Christian conhece Satine (Kidman), a maior estrela do Moulin Rouge. 
Satine sonha deixar a vida de cabaré e tornar-se uma actriz a sério e para tal, aceita a sugestão de Zindler de seduzir o Duque de Monroth (Richard Roxburgh) para que este invista no Moulin Rouge, aproveitando o interesse que o vil aristocrata tem por ela. Satine acaba por confundir Christian com o Duque e após uma sucessão de equívocos, o Duque é persuadido a investir na peça de Christian e Toulouse. 


Com o avançar dos ensaios, Christian e Satine apaixonam-se e a peça sobre uma cortesã indiana apaixonada por um tocador de cítara porém cativa de um terrível marajá acaba por se tornar uma metáfora de Satine, Christian e do Duque. Quando este percebe isso, não olha a meios para separar os dois amantes.
Mas quando parece que, apesar de tudo, tanto a peça como o casal terá um final feliz, Satine que escondia de Christian que sofria de tuberculose, é vencida pela doença ao cair do pano. 




Se a adaptação moderna de "Romeu + Julieta" já parecia ser uma autêntica trip on acid, "Moulin Rouge!" levava essa exuberância um nível acima, numa autêntica explosão de cultura pop, mas Ewan McGregor e Nicole Kidman formaram um óptimo par romântico, impedindo que a história de amor ficasse perdida no meio de tanto excesso, e no processo, revelaram os seus dotes vocais, até então pouco conhecidos, sobretudo durante uma medley de conhecidas canções de amor, que é uma das minhas cenas favoritas do filme.





Entre as diversas canções versionadas ao longo do filme, podemos ouvir "Your Song" (Elton John), "Like A Virgin" (Madonna), "Diamonds Are A Girl's Best Friends" (Marilyn Monroe), Roxanne (The Police), "The Show Must Go On" (Queen), "One Day I'll Fly Away" (Randy Crawford) e até "Smells Like Teen Spirit" (Nirvana). Mas claro está, a versão mais famosa extraída do filme foi "Lady Marmalade", o clássico disco-soul de 1975 das Labelle, interpretada por Christina Aguilera, Lil' Kim, Mya Pink que apresentou o tema a uma nova geração. A banda sonora contém ainda a participação de nomes como David Bowie, Beck, Bono, Fatboy Slim, Rufus Wainwright e Massive Attack e como se não bastasse, o filme continha ainda um cameo de Kylie Minogue, na altura gozando de um espectacular renascimento da sua carreira, como a Fada Verde.


O único tema original é "Come What May" interpretado por Ewan McGregor e Nicole Kidman. 
Curiosamente, o CD da banda sonora de "Moulin Rouge!" foi a primeira coisa que eu comprei em euros, no início de 2002. Um segundo disco com mais canções do filmes e novas versões foi editado posteriormente.

"Moulin Rouge!" foi nomeado para oito Óscares, tendo vencido os de Melhor Guarda Roupa e Melhor Direcção Artística, bem como Globos de Ouro para Melhor Filme de Comédia ou Musical e Melhor Actriz em Filme de Comédia ou Musical para Nicole Kidman.    
Eu recordo-me de ter adorado o filme quando o vi no cinema mas, tal como Titanic, é daqueles que filmes que tenho receio de ver de novo e ficar decepcionado.    

Trailer:


Ewan McGregor e Nicole Kidman "Come What May" (Josh Abrahams remix)


Ewan McGregor e Nicole Kidman "Elephant Love Medley"




Christina Aguilera, Lil' Kim, Mya & Pink "Lady Marmalade"





terça-feira, 11 de outubro de 2016

"Deixei Tudo Por Ela" Zé Cabra (2001)

por Paulo Neto

Em 2001, estava Portugal recém-recuperado da perfect storm da música pimba dos anos anteriores, que passava por uma fase de acalmia, quando surgiu alguém que transpôs limites na música nacional como ninguém ainda o tinha feito. 




A história de Casimiro António Serra Afonso, nascido a 25 de Junho de 1965 em Gralhós, concelho de Macedo de Cavaleiros, podia a de ser de mais um português que emigrou para França em busca de melhores condições de vida e, tal como por exemplo Linda de Suza ou Tony Carreira, num desses acasos da vida descobriu o sucesso nas cantorias. Só que a sua história teve uma particularidade inédita: o seu sucesso não se deveu ao seu talento para cantar, mas sim à falta dele.  

Mas seguindo a máxima de António Gedeão, o sonho de glória musical comandou a vida de Casimiro Afonso, a que nem o facto assumido de não saber cantar lhe apagou o sonho de um dia gravar um disco e de ganhar a vida como cantor. Por isso, enquanto trabalhava em França como pintor de casas e empregado de limpeza, foi juntando dinheiro para poder gravar um disco. Reza a lenda que assim que juntou a quantia necessária para tal, contactou o cantor Luís Filipe Reis que lhe arranjou condições para gravar, tendo gravado dez temas em apenas quatro horas. E que quatro anos após a dita gravação, um grupo de amigos que viajava por Itália descobriu o disco e colocou as músicas na internet, que assim foram descobertas pela equipa do programa da manhã da Rádio Comercial.



Daí até Casimiro vir-se a actuar, sob o stagename de Zé Cabra, na televisão em programas como o Herman SIC e em concertos onde desafiava a sensibilidade dos tímpanos de quem o ouvia foi um instante. Apoiado pela editora Espacial, regravou alguns dos seus temas antigos e mais alguns inéditos para o seu álbum de estreia "Deixei Tudo Por Ela". E chegados à Páscoa de 2001, já não havia ninguém neste país que não tivesse ouvido a faixa-título nem que a trauteasse, de preferência com tanto desafinanço quanto o original: "Deixei tudo por ela, deixei, deixei./ Deixei tudo por ela, eu sei, eu sei./Deixei a minha vida tão bonita e singela./Deixei tudo o que tinha, deixei tudo por ela."




O sucesso musical de Zé Cabra coincidiu com um período de felicidade pessoal, pois poucos anos antes tinha-se casado com Alcina e sido pai de uma menina de nome Jéssica. Coincidiu também com a época das Queimas da Fitas e das Semanas Académicas por todo o país, com alguns "sortudos" a ter a chance de ver Zé Cabra a actuar ao vivo na sua Semana Académica local e com "Deixei Tudo Por Ela" a ser amplamente tocado nesses eventos. Eu na altura ainda estava a estudar em Coimbra, no meu 3.º ano da licenciatura, e era impossível escapar ao tema durante a Queimas das Fitas de 2001. Até Pedro Miguel Ramos himself, que estava na altura em alta devido ao Big Brother e que foi DJ numa das noites do Queimódromo, incluiu "Deixei Tudo Por Ela" no seu set.

O álbum acabou por vender 40 mil cópias, o que equivaleu a um galardão de disco de platina, e gerou mais um hit-single, "São Lágrimas". E mais uma vez, o povo tuga chilreou: "São láaaaaagrimas! São lágrimas caindo do meu rosto!"



Como não podia deixar de ser, o sucesso de Zé Cabra dividiu opiniões. Uns indignaram-se por se estar a dar tanta atenção e mediatismo a alguém que não tinha jeito nenhum para cantar, tendo o país tanta gente a cantar bem que passava despercebida, considerando o fenómeno como um deplorável número de circo. Outros levaram a situação pelo lado divertido da coisa e solidarizaram-se com o artista e a sua história de underdog, em muitos capítulos semelhante a de tantos outros por esse Portugal fora, para quem a vida não fora branda na sua dureza, que emigrou em busca de uma vida melhor e que agora, contra todas as probabilidades, realizava um sonho e vivia o seu momento de glória. Por entre essas discussões, Casimiro Afonso fez por aproveitar ao máximo esse momento de glória enquanto Zé Cabra, sabendo que para pessoas como ele, um momento assim, por muito fugaz e bizarro que fosse, seria algo raro de acontecer e de valor incalculável.



Zé Cabra editou mais dois discos, "Malas À Porta" em 2002 e "Vou Saltar-te Em Cima" em 2008, para além de um DVD do seu concerto de 2006 no Maxime e participou na curta-metragem "Um Homem" de Laurent Simões. Mesmo sem nunca ter-se aproximado do êxito de "Deixei Tudo Por Ela", Zé Cabra continua a actuar ocasionalmente num desses recantos mais ou menos profundos de Portugal e a ser reconhecido na rua.

Reportagem SIC "Perdidos & Achados" (2010)



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