A par de um catálogo com um respeitável número de artistas que iam do fado à música ligeira portuguesa (que anos mais tarde seria absorvida pelo complexo fenómeno a que se convencionou chamar de música pimba), alguns bem conhecidos outros nem tanto, a editora Discossete editou algumas compilações, como por exemplo de medleys de músicas dos anos 60, que durante anos a fio podiam ser vistas nos escaparates das lojas de discos ou nos expositores de cassetes das tabacarias e bombas de gasolina.
Mas em 1990, a Discossete reuniu alguma da prata da sua casa para um projeto que tentava apelar tanto ao patriotismo tuga como a um pé de dança. A qualidade do resultado final era discutível, mas não foi por isso que deixou de ter sucesso nem de animar bailaricos por esse país fora.
Inspirado pelas medleys com batidas eurodisco como "Balla Balla" de Francesco Napoli ou os volumes "Max Mix" de Toni Peret e José Maria Castells, "Portugal Mix" reunia várias temas conhecidos do nosso cancioneiro popular com ritmos eurodisco e vários efeitos sonoros à mistura.
Ao leme do projeto estava Ricardo Landum, hoje um credenciado e prolífico compositor para um sem-fim de artistas nacionais, mas que na altura tanto na sua carreira a solo como na sua ligação aos Da Vinci (foi o compositor do incontornável "Conquistador") assinava apenas como Ricardo tout court. Além dele no primeiro volume de "Portugal Mix", colaboraram nomes conhecidos como José Malhoa, Ana e Manuela Bravo, bem como António Passão, Deolinda Maria, Alexandre Calisto e Lígia.
No segundo volume, também editado de 1990, juntaram-se também Toy, Anabela, Ilda de Castro e, com um lado A dedicado sobretudo ao fado, fadistas como António Severino, Fernanda Maria,Lena Silva e até a icónica Cidália Moreira.
Mas apesar de todas as manhosices incluídas no produto final, creio que a grande maioria dos artistas envolvidos conseguir dar dignidade à sua interpretação, sobretudo os mais veteranos. Até porque estou em crer que o projeto não recuperou gravações anteriores e os artistas fizeram novas gravações expressamente para o efeito. Pergunto-me qual foi, por exemplo, a reação de Cidália Moreira ao ouvir a sua rendição de "Quem Me Dera Ter Outra Vez Vinte Anos" ser acompanhada daqueles efeitos sonoros a fazer lembrar os Chipmunks.
Seja como for, os dois volumes de Portugal Mix tiveram um sucesso considerável. Não sei se foram editados mais volumes, creio que em vez disso, a Discossete aproveitou as medleys de canções portuguesas para uma nova série, Popular Mix.
Além de outras utilidades dos dois discos, como por exemplo para encher chouriços nas emissões das rádios locais, lembro-me de ter lido certa vez nos comentários da página de Facebook da "Caderneta De Cromos" o relato de uma pessoa cujo trabalho incluía acompanhar grupos de idosos em excursões, e que descobriu em "Portugal Mix" a solução ideal para animar as viagens no autocarro, com os idosos a cantar e bater palmas alegremente ao som da medley.
Eis uma série animada dos anos 80 que nunca esqueci. "A Princesa Insensível" é uma série animada francesa de treze episódios de quatro minutos cada, criada por Michel Ocelot, tendo estreado na televisão francesa em 1983.
Em Portugal, foi exibida duas vezes: em Fevereiro de 1987 diariamente no "Brinca Brincando" e depois em 1990, no espaço "A Hora Do Lecas" às segundas-feiras.
A história é bastante simples: a titular princesa insensível parece ser totalmente indiferente a tudo, apresentando sempre a mesma cara impávida. Como tal, foi lançado o repto de que o príncipe que lhe conseguir impressionar de alguma forma casará com ela. Treze pretendentes aceitam o desafio, mostrando os seus talentos, esperando assim alcançar a admiração e a mão da princesa.
Nos doze primeiros episódios, a narrativa era sempre a mesma: a princesa chegava ao teatro para assistir à apresentação do episódio, um arauto (voz de Eládio Clímaco) anuncia: "O príncipe X, que tentará agradar à nossa amada princesa!". Cada príncipe fazia o seu número, que invariavelmente falhava em obter qualquer reação da princesa. E um após um, cada príncipe saía de palco frustrado. Por fim, o arauto advertia: "Mas outro príncipe se seguirá, para agradar à nossa amada princesa!" (No final do penúltimo episódio, ouve-se o arauto a acrescentar: "Talvez...") Essas falas do arauto eram as únicas falas dos doze primeiros episódios, que não tinham mais nenhum diálogo.
Por ordem de episódios, os príncipes que se apresentaram foram: o Príncipe Domador, o Príncipe Jardineiro, o Príncipe Metamorfoseador, o Príncipe Vedor, o Príncipe Mimo, o Príncipe Meteorologista, o Príncipe Submarino, o Príncipe Voador, o Príncipe Decorador, o Príncipe Mágico, o Príncipe Pinto e o Príncipe Pirotécnico.
Lembro-me que no episódio do Príncipe Pintor, este desenhou um retrato gigante da Princesa. Mas perante a apatia deste, ele, furioso, desmanchou o retrato, começando por lhe pintar um bigode na cara.
Por fim, no último episódio, o Príncipe Estudante resolve o mistério: aproximando-se da Princesa, verifica que afinal ela via mal (provavelmente sofria de astigmatismo) e por isso não podia admirar as maravilhas à sua volta. Ele oferece-lhe então um par de óculos e a Princesa pode por fim se maravilhar com as atuações dos outros príncipes. A Princesa outrora Insensível e o Príncipe Estudante ficam então noivos.
Segundo o site "Brinca Brincando" (mais um agradecimento), o aspeto bem particular da animação devia-se ao facto do autor Michel Ocelet ter usado um misto de celuloide e papel recortado. Em 2008, a série foi incluída num DVD que reunia os melhores trabalhos de Ocelet.
A série está disponível na íntegra no YouTube, mas creio que com uma nova dobragem de Eládio Clímaco.
O "Império Contra-Ataca" da saga Spider-Man, (a seguinte entrega é definitivamente o "Regresso de Jedi") "Spider-Man 2" constrói, desenvolve e melhora sobre o estabelecido no primeiro capitulo de Toby Maguire como o Cabeça de Teia: "Spider-Man" (2002). A premiere na América aconteceu em 22 de Junho de 2004, com grande sucesso e aceitação da crítica e do público, que quase unanimemente considera o filme uma melhoria em relação ao capítulo original, com mais emoção e personagens interessantes. O elenco principal regressou, mas sem o Green Goblin, surge outro grande da galeria de vilões do Homem Aranha: o icónico Doctor Octopus aka o brilhante cientista Octo Octavius, humanizado e desempenhado com gosto por Alfred Molina ("Species", "Boogie Nights", etc). Regressaram também o realizador, Sam Raimi ("Darkman"), o compositor Danny Elfman, e John Dykstra que foi galardoado com o Oscar pelos efeitos especiais nesta sequela do êxito de 2002. Deste vez, a cinematografia ficou á responsabilidade de Bill Pope ("The Matrix", "Scott Pilgrim vs The World" e muito mais). O plot gira em redor do choque entre a vida de superherói e a vida profissional e amorosa de Peter Parker que gera um crescente distanciamento entre Peter e Mary Jane (Kirsten Dunst); a busca de Harry Osborn (James Franco) para vingar a morte do pai; e a transformação do benevolente cientista Octo Octavius num amoral o e obcecado super criminoso, controlado pela sua própria criação.
Em 2004, por altura da estreia na Lusitânia descrevi essa chegada com grande entusiasmo:
"Finalmente chegou aos nossos écrans a aguardadíssima sequela de Spiderman. Confesso que quando vi o primeiro no cinema fiquei um pouco desiludido, devido ao excesso de publicidade e antecipação(tal como X-Men1), mas depois já em formato caseiro tornou-se um dos meus filmes de acção favoritos (também como X-Men1).
Relativamente ao recém estreado, é mais divertido e tem mais acção do que o primeiro, um excelente filme, com actores bem dirigidos. Momento cómico: A sequência no elevador é hilariante. Pouco mais me resta dizer a não ser: vaiam ver o filme, já!"
A "analise" foi curta, mas no essencial continuo a aconselhar o visionamento. É um belo e equilibrado capítulo da história das adaptações de super-heróis ao grande écran, concentrado nas relações pessoais mas sem fugir das batalhas épicas, que parecem saltar das páginas dos comics, com arte, coração e visuais coloridos sem vergonha do que é.
Um clássico obrigatório dos filmes de acção dos anos 80s, mais concretamente 1987, o ano que nos deu a conhecer outras pérolas como Robocop, Evil Dead 2, Spaceballs, Dirty Dancing, Full Metal Jacket, Bad Taste, Prince Of Darkness, etc.
A sinopse é simples, mas o que com outros realizadores, ou actores poderia ser apenas um banal "Rambo vs Alien": Um esquadrão de soldados de elite em missão nas profundezas da floresta tropical da América Central torna-se a presa de um implacável caçador alienígena.
Os líderes do grupo de perseguidos é Arnold Schwarzenegger (Dutch) no seu auge, e Carl Weathers ("Dillon, your son of a bitch") como o seu contraponto. Mas a estrela principal nem sequer está presente na maioria da metragem, visto que o nosso extraterrestre (Kevin Peter Hall) possui armamento e equipamento tecnologicamente avançado, incluindo a habilidade de se tornar invisível e assim camuflar-se no inferno verde enquanto caça um a um, seguindo um duvidoso código de moral.
O realizador que aceitou ir filmar para o meio da selva foi John McTiernan, à época um nome quase desconhecido, depois de serem feitas propostas a cineastas conceituados como James Cameron, Ridley Scott ou Brian De Palma. McTiernan estreou um ano depois o lendário "Die Hard" (Assalto ao Arranha-Céus).
O Trailer de "PREDATOR":
Estreou nos EUA no dia 12 de Junho de 1987, chegou a Portugal a 11 de Setembro do mesmo ano com o título nacional de "O Predador" e a classificação "Para Maiores de 16 Anos".
A primeira vez que o vi foi nalguma sessão de cinema na RTP ou uma das privadas. O meu palpite é que foi na TV, devo tê-los gravados nalguma cassete de video VHS. Fiquei fã desde logo, e papei o Predator 2 (1990), que na época me desiludiu uma pouco, mas após um recente binge da franquia Alien e Predator, fiquei sinceramente agradado com dois primeiros Predator, envelheceram muito bem. O original ainda tem muitos fãs, e gerou uma série de one-liners que perduram em memes e na cultura pop: quem nunca viu uma paródia ao "GET TO THE CHOPPA!"?
Em suma, uma película minimalista, dinâmica e directa ao ponto, repleto de personagens carismáticos e falas icónicas, efeitos especiais incríveis, e a batalha de um grupo unido de homens contra uma besta desconhecida – que a cena de abertura já revela ser um alienígena.
O espiritismo é sempre um tema complicado de abordar na teledramaturgia, mas em 1994, uma telenovela brasileira abordou a temática de forma bastante frontal mas sem perder os ingredientes habituais de qualquer novela que se preze.
"A Viagem" foi uma telenovela brasileira da autoria da Ivani Ribeiro, auxiliada por Solange Castro Neves devido aos seus problemas de saúde, exibida na Rede Globo em 1994 na faixa das 19 horas. Na verdade, tratava-se de um remake de uma telenovela de 1975 da Rede Tupi escrita pela mesma autora. Este remake foi aliás a última telenovela assinada por Ivani Ribeiro que faleceu em 1995. Em Portugal, "A Viagem" passou na SIC entre 1994 e 1995, substituindo "Mulheres De Areia" no horário nobre.
Segundo a autora, a principal inspiração foram os livros psicografados do médium Chico Xavier que abordavam o tema da vida após a morte como "E A Vida Continua…" e "O Nosso Lar".
Diná e Alexandre
Diná Toledo Dias (Christiane Torloni) é uma mulher bonita e elegante, proprietária de um clube de vídeo. É casada com Téo (Maurício Mattar), um arquiteto doze anos mais novo, de quem tem uma filha, Paty (Viviane Pinheiro). A sua mãe, Dona Maroca (Yara Cortes), também vive com eles.
Diná, Paty e Téo
Embora tenha bom fundo, Diná tem dois grandes defeitos. Um é o ciúme doentio que sente pelo marido, ao ponto de perder as estribeiras sempre que o vê perto de outras mulheres, se bem que Téo nada faz para refrear a situação e esteja sempre meter-se com outras mulheres, o que leva a frequentes discussões entre o casal. O outro é a sua incapacidade de ver que o seu adorado irmão mais novo, Alexandre (Guilherme Fontes), é um homem imoral e violento, constantemente envolvido no banditismo, mesmo diante das evidências mais evidentes.
Otávio Jordão
Durante uma tentativa de assalto, Alexandre acaba por matar um homem. Denunciado pelo seu cunhado Téo e seu irmão Raul (Miguel Falabella), Alexandre é preso e acusado de homicídio. Desesperada, Diná procura o advogado criminal Otávio Jordão (António Fagundes) para que este defenda Alexandre em tribunal, mas Otávio recusa, sobretudo porque a vítima era um amigo seu. Mas apesar da animosidade entre Diná e Otávio, ambos começam a sentir uma ligação inexplicável um por outro, como se conhecessem numa vida anterior. Otávio é viúvo e tem dois filhos: Tato (Felipe Martins), que pretende seguir Direito como o pai, e Dudu (Daniel Ávila).
Estela e Bia
Além de Alexandre e Raul, Diná também é irmã de Estela (Lucinha Lins), com quem sempre teve uma ligação telepática. Estela tem uma filha adolescente, Bia (Fernanda Rodrigues), que criou sozinha desde que o seu marido Ismael (Jonas Bloch) a abandonou. Ignorando que ele é um homem de péssimo caráter, Bia sonha em reencontrar o pai.
Lisa
Alexandre tem uma namorada, Lisa (Andréa Beltrão), uma jovem humilde e sofrida que trabalha como cabeleireira. É ela o principal rendimento da família, uma vez que o seu pai Agenor (John Herbert) não se aguenta em nenhum emprego e o seu irmão Zeca (Irving São Paulo) só quero saber da sua música. Lisa vê em Alexandre um escape à sua vida triste e maçadora, mas quando se vê comprometida pelos atos criminosos do rapaz, decepciona-se e afasta-se dele.
A melhor amiga de Lisa é Carmen (Suzy Rêgo), que trabalha no clube de vídeo de Diná onde se apresenta com uma aparência mais feia para não suscitar a animosidade da patroa.
Andrezza e Raul
Alexandre acaba por ser condenado pelo crime e suicida-se na prisão. Num recanto do Além denominado o "Vale dos Suicidas", Alexandre planeia a sua vingança contra aqueles que culpabiliza pela sua desgraça. Para começar, decide destruir a relação de Raul com a sua esposa Andrezza (Thaís de Campos), manipulando a mente da mãe desta, Guiomar (Laura Cardoso) e de repente, a antes simpática senhora que tratava o genro como um filho, começa agir de forma raivosa e cruel.
Entretanto, Diná separa-se do marido quando ela e Otávio assumem que estão apaixonados, enquanto Téo apaixona-se por Lisa. Isso aumenta a fúria de Alexandre que passa a atormentar o ex-cunhado, controlando também Tato, que deixa os estudos e resvala para a delinquência.
Alberto e Estela
Quando a família Toledo se apercebe que o espírito de Alexandre pode estar por detrás deste acontecimentos inexplicáveis, recorrem ao auxílio do Dr. Alberto (Cláudio Cavalcanti), um médico amigo da família e que se interessa pelo espiritismo. Alberto e Estela acabam por se apaixonar, mas a relação vai passar por muitas dificuldade, até que Ismael regressa disposto a prejudicar a ex-mulher e a manipular Bia.
O mascarado Adonay e Carmen
Outro grande mistério da telenovela é o mascarado Adonay (Breno Moroni), uma estranha figura que surge no bairro onde mora a família de Lisa. Mais tarde é revelado que se trata do antigo noivo de Carmen, que ficou com o rosto desfigurado após um acidente e que fugiu dela com medo que ela o rejeitasse. Já numa onda mais divertida existe um divertido triângulo amoroso na terceira idade, com Agenor e o tímido Tibério (Ary Fontoura) a disputarem o coração de Cininha (Nair Bello), a dona da pensão do bairro.
Diná no "Nosso Lar"
Na reta final, Otávio acaba por morrer num acidente provocado por Alexandre. Diná mergulha em depressão e só a sua vontade de encontrar a sobrinha Bia, entretanto desaparecida, a mantém viva. Quando a encontra, Diná tem um ataque fulminante e morre. Ela vai parar a um local semelhante ao Céu conhecido como o Nosso Lar, que a princípio crê ser um retiro espiritual, apenas percebendo que está no Além quando reencontra Otávio. Novamente juntos, os dois lutam para restabelecer a paz aos seus entes queridos e neutralizar os poderes malignos de Alexandre.
Por fim, Alexandre arrepende-se do mal que causou e ganha uma oportunidade de redenção ao reencarnar como o filho de Téo e Lisa. Raul e Andrezza reconciliam-se, assim como Bia e Estela, que pode finalmente ser feliz ao lado de Alberto. Ismael acaba tetraplégico e desprezado por todos. Dona Maroca morre feliz e reencontra a filha no Nosso Lar, e os espíritos de Diná e Otávio renovam-se para se poderem encontrar novamente numa próxima vida.
Do elenco fizeram ainda parte nomes como Eduardo Galvão (Mauro), Denise Del Vecchio (Glória), Ricardo Petraglia (Queiroz), Lolita Rodrigues (Fátima), Danton Mello (Johnny Bala) e Solange Couto (Zulmira). Cláudio Correa Castro, que na versão original fez de Daniel, o mentor de Diná no Nosso Lar, fez um cameo como o advogado de Alexandra.
No Brasil, "A Viagem" foi uma das telenovelas de Globo da faixa das 19 horas de maior sucesso nos anos 90. Em Portugal, apesar das queixas de alguns espetadores quanto às temáticas espiritistas e às cenas mais chocantes (lembro que a minha mãe não quis acompanhar a novela porque as cenas mais impressionáveis deixavam-na muito perturbada), "A Viagem" também acabou por consolidar a liderança no horário nobre da SIC, onde as telenovelas brasileiras seriam o bastião do canal durante largos anos, fazendo face às duas telenovelas concorrentes da RTP, "Mandala" e "Fera Ferida".
Para os portugueses, que tinham acabado de ver o ator Guilherme Fontes como o protagonista romântico Marcos Assunção em "Mulheres de Areia" foi algo chocante vê-lo depois encarnando um vilão tão maligno como o Alexandre.
O papel de Diná fora inicialmente pensado para Regina Duarte, mas após a recusa desta, acabou para por ir parar a Christiane Torloni, que assim regressava às telenovelas brasileiras, após uns anos em que se refugiou em Portugal após a morte do seu filho Guilherme. (Nesse período, ela fez alguns trabalhos pontuais de apresentação para a SIC.) Reza a lenda que Torloni aceitou o papel por ter ficado com a ideia de que se tratava de uma personagem cómica.
Dona Cininha
Outro papel marcante foi o de Andréa Beltrão como Lisa. Apesar de já ter então 31 anos e vir de um papel mais maduro em "Mulheres de Areia", a atriz foi bastante convincente no papel da jovem heroína romântica, e o guarda-roupa da personagem fez bastante sucesso por incluir várias tendências da moda de meados dos anos 90: colares choker, saias curtas com meias altas, tops conjugados com camisas.
Por outro lado, um Felipe Martins de 34 anos não convenceu praticamente como um jovem Tato de vinte e poucos anos, ainda para mais fazendo par com uma Fernanda Rodrigues de apenas 15.
Outro elemento bem curioso que assinalava que estávamos nos loucos anos 90 era o facto da personagem de Nair Bello, a Dona Cininha, ser frequentemente vista envergando uma T-shirt com uma imagem de Madonna a chupar o dedo do meio!
A banda sonora da telenovela também fez sucesso, nomeadamente com o tema de abertura da novela, também intitulado "A Viagem", interpretado pelos Roupa Nova e hits internacionais como "Linger" dos The Cranberries, "I Miss You" de Haddaway e "I'll Stand By You" dos Pretenders.
O Portugal da primeira metade dos anos 80, já recuperado da ressaca da Revolução mas ainda a braços com diversos tormentos (a começar por uma severa crise económica) antes da entrada da CEE abrir rumo a tempos mais prósperos, exerce um fascínio sobre mim. Primeiro porque foi nesse Portugal que eu vim a este mundo e depois porque, apesar dos diversos espinhos, foi um tempo em que, uma vez assimilada a liberdade, havia um desejo de ousadia e diferença, sobretudo nas artes. Ou não fosse essa a época, por exemplo, do boom do rock português.
É também nesse Portugal que nasce a "Crónica dos Bons Malandros", primeiro o livro, escrito por Mário Zambujal, originalmente editado em 1980. E quatro anos mais tarde, a adaptação cinematográfica, realizada por Fernando Lopes e com um elenco de primeira apanha, que incluía João Perry, Lia Gama, Nicolau Breyner, Maria do Céu Guerra e Paulo de Carvalho. E tendo eu visto recentemente pela primeira vez o filme de fio a pavio durante uma transmissão na RTP2 e também lido o livro, impunha-se este artigo.
Edição de 2011
A história fala sobre a desventura da quadrilha de Renato, O Pacífico (Perry) que se reúne regularmente no Bar do Japonês e se dedica a pequenos golpes no Bairro Alto. Renato é conhecido pela alcunha de Pacífico pela sua aversão a armas, pelo que os assaltos da sua quadrilha são efetuados sem armas, sejam elas de fogo ou brancas, e acontecem quando não está ninguém nos sítios que vão roubar. A quadrilha é também composta por Marlene (Gama), a inseparável companheira de Renato; Pedro, o Justiceiro (Breyner), hábil arrombador de portas e fechaduras; Flávio, o Doutor (Pedro Bandeira-Freire), o cérebro das operações; a melancólica Adelaide Magrinha (Guerra); o irascível Arnaldo Figurante (Carvalho); e Silvino Bitoque (Duarte Nuno), ardiloso cleptómano.
Certo dia, a quadrilha é contratada por um italiano para um golpe monumental: roubar as joias da coleção Lalique expostas no Museu da Gulbenkian.
Tanto no livro, como no filme, enquanto o plano vai sendo elaborado, dá-se a conhecer o background de cada um dos elementos da quadrilha. Renato e Marlene conheceram-se no Circo Internacional ainda crianças e tornaram-se inseparáveis para a vida. Após um brutal ato de vingança após as crueldades da sua professora da quarta classe, Pedro fugiu e viu o seu destino traçado para o banditismo. A um ano de completar o seu curso de Direito, Flávio perdeu-se de amores por Zinita (Ariana), com quem foi obrigado a casar e armar desvios na empresa onde trabalhava para satisfazer os seus caprichos. Adelaide apaixonou-se por Carlos (Virgílio Castelo) num baile mas quando ele foi preso pela polícia e ela se viu sem nada, tentou a prostituição pela mão de Lina, a Despachada (Zita Duarte), mas logo se viu numa enrascada com dois clientes que meteu a polícia ao barulho. Arnaldo sonhou com a fama e a glória, primeiro no boxe e depois no cinema, quando foi figurante numa prestigiada produção luso-francesa. Silvino desde muito cedo deitava a mão a tudo que podia, desde a chupeta do irmão gémeo a um rádio em forma de lata de Coca-Cola, e até ludibriou o FBI na América.
Surge um contratempo quando Adelaide desaparece, deixando um carta onde explica que decidiu fugir para fora do país com Carlos, recém-saído da prisão. Ainda assim, o plano segue em marcha, com uma ideia astuciosa: para afugentar os visitantes e os seguranças da Gulbenkian e ludibriar as vigilâncias, lançarão um enxame de abelhas escondido debaixo do assento de uma cadeira de rodas.
Chega o dia do assalto e o plano parece resultar em cheio até que se descobre que Silvino traiu a quadrilha, apoderando-se das joias roubadas e preparando-se para escapar disfarçado de polícia. Dá-se então uma desenfreada perseguição de Renato e do resto do grupo atrás do traidor e da polícia atrás deles, com um desfecho trágico em plena Baixa Pombalina.
"Crónica dos Bons Malandros" foi um grande sucesso editorial, com inúmeras reedições até aos dias de hoje. Mário Zambujal era conhecido do grande público como jornalista da RTP, apresentando o "Domingo Desportivo", além do seu marco na rádio com o programa "Pão Com Manteiga" na Rádio Comercial, co-apresentado com Carlos Cruz. Desde então, Mário Zambujal continuou a escrever mais livros como "À Noite, Logo Se Vê", "Histórias Do Fim Da Rua", "Já Não Se Escrevem Cartas De Amor" e "Cafuné". Também escreveu guiões para séries como "Lá Em Casa Tudo Bem" e "Nós, Os Ricos".
Quanto à adaptação cinematográfica, dá para descrever numa só palavra: castiça. Não sendo muito bom, sobretudo devido à falta de meios mas também por algumas escolhas menos acertadas, o filme ilustra bem o espírito do Portugal da época, com o desejo de fazer mais e diferente, apesar das várias restrições, sobretudo económicas.
Famosamente, não foi obtida autorização para filmar dentro da Gulbenkian, pelo que em seu lugar, houve uma bizarra sequência animada onde se misturavam stills das obras expostas no museu, gráficos a fazer lembrar o jogo do Pacman, desenhos das personagens e até um plano de pés a correr.
Mas pessoalmente, eu achei que o principal problema do filme é o ritmo, que é quebrado de algumas vezes. Claro que fazia sentido, tal como no livro, haver sequências sobre os backgrounds dos sete protagonistas, mas a forma como foi feita foi meio desigual: algumas foram feitas de forma interessante (como o recurso de fantoches para a história de Pedro e as referências cinematográficas para Arnaldo) mas por outro lado a sequência musical na história de Adelaide é desnecessariamente longa e a de Renato e Marlene meio aborrecida. Além disso, com tanto tempo do filme destinado a essas histórias, não dá tempo para o espetador se conectar com as personagens e as suas relações intercaladas no primeiro acto, e não há quase nenhum buildup rumo ao momento do assalto. Até as cenas das perseguições parecem mais focadas nas acrobacias dos carros da polícia no Rossio do que em dar fio à meada.
Por outro lado, o elenco faz o melhor que pôde com o pouco que lhe foi dado e existem vários momentos engraçados: a Lina Despachada de Zita Duarte rouba toda a cena na esquadra da polícia, a folha picotada em forma de Rato Mickey quando o FBI procura por Silvino e o piscar de olho da imagem do General Ramalho Eanes num mural. Existem também vários cameos como António Assunção, Artur Semedo, o próprio Mário Zambujal (que quebra o fourth wall para se identificar como narrador) e, sobretudo, um jovem Manuel Luís Goucha como um dos clientes caloteiros de Lina e Adelaide.
Ainda assim, o filme foi um assinalável sucesso de bilheteira.
A música do filme, além de um proeminente uso da 5.ª Sinfonia de Beethoven, teve a contribuição de Rui Veloso e Jony Galvão, para além do tema "O Malandro" de Paulo de Carvalho, que vinha do seu álbum de 1981 "Cabra Cega".
A "Crónica dos Bons Malandros" também já foi adaptada como peça musical em 2011, e como série da RTP em 2020. Marco Delgado, Maria João Bastos, José Raposo, Adriano Carvalho, Rui Unas, Manuel Marques e Joana Pais de Brito foram respetivamente Renato, Marlene, Pedro, Flávio, Silvino, Arnaldo e Adelaide.
Hoje proponho mais um exercício de arqueologia televisiva, mas desta vez vamos fazer algo um pouco diferente porque, uma vez mais graças ao canal do YouTube Máquina do Tempo e o preciosíssimo acervo de Afonso Gageiro, não ficaremos somente pela análise a blocos publicitários.
Recuando 41 anos até ao dia 28 de Abril de 1984 (três dias depois de eu completar quatro anos), além de dois blocos publicitários, observaremos outros vídeos com a programação e a continuidade, ao longo dessa noite, onde foram transmitidos um especial musical do Trio Odemira e o filme "O Caçador" de 1978.
E para começar, eis os momentos finais desse especial, filmado no Cinema Europa e, como se impunha, no concelho de Odemira.
E para o mês seguinte estava previsto um outro especial musical, desta vez como o fadista Rodrigo. Rodrigo Ferreira Inácio, ou simplesmente Rodrigo, foi um dos fadistas mais proeminentes nos anos 80, sendo presença regular em vários programas de televisão da altura. Na sua carreira pontificam hits como "Fado 31" e "Coentros E Rabanetes". E como só a partir da minha geração que esse nome começou ser mais comum, ele terá sido certamente durante muito tempo o Rodrigo mais famoso de Portugal. Na escola primária, eu tive um colega de turma chamado Rodrigo e ouvi várias vezes gente a perguntar-lhe se ele também cantava o fado, como o seu famoso homónimo.
Desde meados dos anos 90 que as aparições televisivas de Rodrigo têm sido raras, mas ainda continuo mais uns anos no ativo. Em 2012, aquando da declaração do fado como património imaterial da Humanidade, foi um dos cinquenta homenageados pela Câmara de Lisboa, recebendo a Medalha Municipal de Mérito (Grau Ouro). Rodrigo tem até à data 83 anos de idade e reside há mais de quarenta anos em Cascais. (Infelizmente o Rodrigo que foi meu ex-colega da escola primária faleceu de doença oncológica no ano passado com apenas 43 anos.)
E agora sim, vamos aos intervalos:
0:00Vinheta da RTP1 (o background parece ser o cenário do Festival da Canção desse ano)
0:04 Santix, empresa têxtil sediada em Coimbra, comemorava 84 anos e sorteava um automóvel de entre os compradores dos seus fatos. Pelo que pesquisei, em 2018, a empresa declarou insolvência.
0:16"Hum, que cheirinho!" Era o aroma do sabão Clarim, que ainda me lembro de ver em casa da minha avó.
0:26 Num tempo em que as ciências e atividades laboratoriais ainda eram algo assaz transcendente para a maioria da população, este anúncio ao champô Pantenealudia a esse universo científico para promover o seu champô vitaminado, anunciado confiantemente como o "champô perfeito". Fiquei um pouco surpreendido por ver um anúncio a esta marca em 1984, pois só me lembro dos champôs Pantene a partir de uma campanha publicitária no início anos 90, quando se deu o boom dos champôs 2 em 1, pelo que não sabia que já existira essa marca anteriormente em Portugal.
0:55 Um daqueles anúncios que gritam "ESTAMOS NOS ANOS 80!" por todos os poros, este onde uma beldade desliza em patins pelas ruas de Los Angeles transportando uma bandeja com um copo e uma garrafa de Martini. A rapariga chega depois a um edifício onde interrompe uma reunião de yuppies para servir a bebida a um deles. (O plano da moça no elevador enquanto as portas do dito se fecham foi depois aproveitado para outro anúncio do Martini, aquele onde vai se lá saber como, existe uma televisão a funcionar no meio da praia.)
1:26 Um momento de coreografia e uma breve aparição de duas crianças num cenário espacial são suficientes para ilustrar este anúncio à Hiperjeans.
1:35 Claro que testes de gravidez, de mais diversas formas, ainda são um artigo procurado, mas só me lembro de ver anúncios a esses produtos nos anos 80. Como este do teste Predictor, onde uma jovem mulher questionando sobre o seu estado vai uma farmácia e depois faz o teste. No anúncio, não se chega a saber se ela está mesmo grávida ou não, mas o sorriso da mulher no final indicia que ela ficou contente com o resultado.
1:55 Um momento de ligeira ousadia neste anúncio à Triumph, onde uma cantora famosa chega de descapotável ao local de um concerto, onde finta os fãs e os fotógrafos para correr pelos bastidores até o palco. Tudo isto enquanto, da cintura para cima, tem apenas um colar choker e um soutien branco.
2:25 Para vários usos, a película aderente Glad. (Num tom quase ASMR).
2:35 Como no Portugal de 1984, as pizzarias ainda eram um conceito relativamente recente e limitado aos grandes centros urbanos, a maneira mais acessível de comer uma pizza era em modo ultracongelado, como esta pizza Bella Napoli da Iglo.
3:05 Para limpar os fogões sem correr o risco de os riscar, nada como Cif Amoniacal.
3:26 Um dos vários anúncios dos anos 80 à prova de sabor da margarina vegetal Planta, com muitas mulheres a provar e a deixar o seu testemunho de consumo. (Não, não é este o célebre anúncio da Planta em que uma senhora confessava ser "uma lambona".)
3:56 As máquinas de lavar louça ainda eram então sobejamente inacessíveis para muitos, senão a maioria, dos agregados familiares portugueses. Mas para aqueles que as tinham, já nessa altura uma das marcas líquidas de detergente para a máquina era Sun, tanto em pó como líquido.
4:16 Vinheta RTP1
0:00 Um momento do filme "O Caçador", vinheta "Última Sessão" e vinheta RTP1
0:26 Planos bem próximos de umas calças de ganga da marca Miura. "Molda o seu corpo!"
0:41 Duas escovas Reach à sua escolha. Reach normal e Reach Plus.
1:10 Bagaceira velha Caipirinha. "Finíssima..."
1:20 As plantas da casa rejubilam quando são alimentadas com Substral.
1:28 Para lavar bem e com economia, Skip Otimizado, recomendado por 63 marcas de máquinas.
1:49 Silkience, outra marca de champô que recorria a argumentos científicos e tecnológicos, e que "conhece os cabelos de Susana e os cabelos de Inês"!
2:23 Contra inesperados ataque de azia, as pastilhas Rennie. (Lembro-me de ver sempre um pacote no armário em casa da Dona Corina, a senhora que foi para mim como que uma terceira avó.)
2:36 Num cenário paradisíaco, uma beldade de reduzido biquini vai a banhos enquanto ao longe, um senhor do qual só vemos o braço e os pés ao alto, observa-a ao longe enquanto saboreia uma cerveja Tuborg. (A avaliar pelos sapatos do senhor, que me fazem lembrar os filmes de gangsters, imagino que se trata um gangster que após um bem-sucedido assalto, fugiu para aquela a ilha, possivelmente acompanhado pela beldade.)
2:57 Uma versão maior do anúncio à Santix visto no bloco anterior, com um elegante senhor vestido com o fato confeccionado por aquela marca movimentando-se numa discoteca.
3:16 Um estilosíssimo anúncio aos jeans Lois (uma marca bem anos 80) cheio de gente bonita e um jingle que adaptava o hit de 1982 "Da Da Da" do grupo alemão Trio.
3:38 Blaupunkt, uma outrora popular marca de televisões e vídeos, declarou insolvência em 2015.
3:45 Para comprar um Renault, um crédito com condições especiais!
4:00 Com a internet, as enciclopédias caíram em desuso. Neste anúncio, anunciava-se a Enciclopédia Polis especializada em temáticas de sociedade e do Estado, como antropologia, direito, economia e ciência política.
4:08 Novamente as vinhetas da RTP1 e da Última Sessão antes do início da segunda parte do filme.
Entre o programa musical e o filme, houve espaço para um último bloco informativo, "Últimas Notícias", com Teresa Cruz. Ba altura, e ao contrário do que já era hábito no "Telejornal", não eram mostradas imagens filmadas, pelo que este bloco noticioso funcionava apenas com a pivô a ler as diversas notícias e uns slides a ilustrarem cada notícia, geralmente imagens da personalidade envolvida na notícia. Curiosamente, uma das notícias falava que Mário Soares tinha admitido candidatar-se às então próximas eleições presidenciais em 1986, nas quais viria efetivamente a ser eleito.
Após o genérico da "Última Sessão" ao som do tema "Resident" de Eddie Jobson, Valentina Torres faz um preâmbulo para apresentar o filme a ser exibido. "O Caçador" ("The Deer Hunter"), filme de 1978 realizado por Michael Cimino, foi nomeado para nove Óscares, do quais venceu cinco, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Actor Secundário para Christopher Walken. O filme contou ainda no elenco com Robert DeNiro e Meryl Streep (ou, segundo Valentina Torres, "Roberto Dimiro" e "Merli Streep"). O filme deu a Streep a primeira das suas inúmeras nomeações para o Óscar e foi o último filme do seu primeiro marido, John Cazale, que o rodou já sofrendo de um cancro terminal.
Valentina Torres fez ainda duas advertências: de que a direção de programas da RTP defendia que o filme não deveria ser visto pelos mais jovens, devido às cenas de violência, e que devido à sua longa duração (três horas), a emissão nesse dia iria terminar às 2 horas e 45 minutos, o que era algo inabitual na altura.
Após a exibição de "O Caçador" e antes do final da emissão, Valentina Torres anunciava a programação para o dia seguinte. Nesse Domingo, a programação da RTP1 incluía as séries "Fama", "Os Três Duques", "No Mundo Dos Fraggles" e "Tudo Em Família", o programa de Júlio Isidro "A Festa Continua" (um dos sucedâneos do "Passeio Dos Alegres"), o último de três programas de apresentação prévia das canções concorrentes ao Festival da Eurovisão desse ano e o "Domingo Desportivo". Já na RTP2, destaque para a transmissão do Grande Prémio da Bélgica em Fórmula 1 e o filme "A Morte Levantou-lhe A Mão" ("La commare secca"), o primeiro filme de Bernardo Bertolucci, o célebre realizador de "O Último Tango Em Paris" e "O Último Imperador".
Por fim, o hino nacional e eu confesso que não me lembrava deste fecho com a nossa bandeira em close-up, pois pensava que o fecho da bandeira a esvoaçar num poste sob o céu azul tinha sido sempre utilizado desde meados dos anos 70 até à nova grelha da RTP de Outubro de 1986, onde o hino passava ao som de imagens da Praia da Adraga.
A maior força é paradoxalmente a maior fraqueza de "Spider-Man 3", ou pelo menos o factor responsável pela quebra de ritmo de um grande filme que podia ser extraordinário, isto é, o próprio esforço da produção para escapar aos estereótipos presentes na maioria das adaptações de BDs minou o equilíbrio de uma película que pedia mais acção. A solução teria passado por não incluir tantas linhas narrativas paralelas, optar por apenas um vilão: Homem-Areia ou Venom. Ao incluir as histórias dos dois vilões não conseguiram desenvolver satisfatoriamente as histórias desses homens, cujos destinos se acabam por unir na conclusão da película, onde estão presentes ainda Harry – o novo Duende Verde – e Mary Jane Watson.
Encontramos um Peter Parker/Homem-Aranha mais confiante e um pouco deslumbrado pela fama e reconhecimento que alcançou em Nova Iorque. Depois da simbiose com a gosma alienígena (que convenientemente, caiu do espaço a alguns metros de Peter e Mary Jane) os seus poderes aumentam, assim como os traços mais negativos da sua personalidade, nomeadamente a agressividade. E pois, em Hollywood, quando alguém fica “mau” passa a vestir-se sempre de negro.
O Homem-Areia – Flint Marko, um ladrão que se descobre ser o real assassino do tio Ben – protagoniza o momento mais emocionante do filme, quando se esforça para materializar com areia o corpo desintegrado instantes antes numa experiência científica.
Quanto ao Venom, temos um monstro menos musculoso que na versão da BD, que é mais interessante em forma humana – antes da união ao alienígena rejeitado por Peter – o inescrúpuloso repórter fotográfico Eddie Brock, rival de Peter no jornal Daily Bugle (dirigido pelo tempestuoso e divertido J.J.Jameson).
Em relação a Harry Osborn (filho de Norman Osborn, o Duende Verde original) foi conseguida uma boa resolução para esta personagem, a clássica história de redenção. Confronta novamente Peter em busca da vingança pela morte do pai, mas no final ajuda na batalha contra os vilões que (surpresa!) raptaram Mary Jane. A bela Gwen Stacy foi uma adição interessante ao elenco, mas um pouco subaproveitada.
Mary Jane, a eterna amada de Peter, atravessa uma fase de frustração profissional ao mesmo tempo que se sente carente de atenção, procurando conforto junto de Harry.
O carismático actor Bruce Campbell (a estrela de Army of Darkness), a exemplo das entregas anteriores da saga do aracnídeo, protagonizou um cameo divertidíssimo, o melhor dos três filmes, no papel de um maître de um restaurante chique.
O pior: A aparição especial de Stan Lee. O Homem-Aranha a aterrar em frente de uma ENORME bandeira dos E.U.A. Demasiados momentos de humor. Nem vou referir todas as coincidências, porque é de esperar isso mesmo que histórias baseadas em BDs.
O melhor: As cenas de acção. A aparição de monsieur Bruce Campbell. A bela Gwen Stacy.
O veredicto: um bom filme, com demasiadas personagens e situações explicadas, que relegou a acção para segundo plano.