domingo, 9 de dezembro de 2012

Barriga de Aluguel (1990-91)

por Paulo Neto

Pela primeira vez, vou falar de uma telenovela que não vi. E não vi porque até ao Natal de 1992, em minha casa não havia RTP2. Apesar dos meus constantes protestos, os meus pais nunca se preocuparam muito com isso. Não sei se era por não saberem como sintonizar o segundo canal, se achavam que estávamos bem aviados só com a RTP 1 ou se por entre as azáfamas dos respectivos trabalhos e de criar dois filhos, pura e simplesmente nunca conseguiram ter a dose de pachorra necessária para tal. Seja como for, vivi a minha infância praticamente limitada a um só canal de televisão. O que eu conseguia ver da RTP 2 foi em casa alheia. Lembro-me de ir a casa de vizinhos ver as provas dos Jogos Olímpicos de Barcelona, de acompanhar os primeiros programas da SIC em casa da minha avó e de lamentar a minha santa ignorância quando na escola falavam de séries que davam no Canal 2 como por exemplo, o "Manimal". E como é óbvio, a era em que em Portugal apanhava-se livremente a televisão espanhola passou-me quase completamente ao lado.
Foi preciso esperar até ao Natal de 1992, quando o meu Pai presenteou a família com uma antena parabólica, para ter por fim a RTP 2 e a SIC, já que os senhores que vieram instalá-la também aproveitaram para por fim pôr as televisões lá em casa a dar uso à banda UHF. E só tivemos TVI quase um ano depois, já depois de termos mudado de casa, porque eu resolvi dar uma olhadela às instruções e sintonizar o canal que na sua génese era também conhecido como "a Quatro" para podermos usufruir da companhia de "A Amiga Olga" e da restante programação. 

Tudo isto para falar sobre a telenovela "Barriga de Aluguer" (ou "aluguel" no original), da autoria de Glória Perez que foi exibida no Brasil entre 1990 e 1991 e em Portugal em 1992, na RTP 2, durante um espaço deste canal, que tal como no Canal 1, exibia telenovelas de segunda a sexta em horário nobre na primeira metade dos anos 90. Nesse espaço também foram exibidas, por exemplo, o "Pantanal" e "Deus Nos Acuda", uma espécie de sequela da popular novela "A Rainha da Sucata".


Como o próprio indica, a telenovela abordava o polémico tema da maternidade de substituição. Ana (Cássia Kiss) é uma famosa jogadora de voleibol que vive um casamento feliz com Zeca (Victor Fasano), excepto por um detalhe: ela não pode ter filhos. Esgotadas as tentativas por tratamento de fertilidade, o casal decide optar por recorrer a uma mãe de aluguer. A escolhida é Clara (Cláudia Abreu), uma jovem humilde que trabalha como recepcionista de dia e bailarina de boîte à noite. 
Inicialmente, Clara vê a cedência do seu útero por 20 mil dólares como um simples negócio, que lhe poderá aliviar os problemas financeiros. Mas à medida que a gravidez vai avançando, ela vai ficando cada vez mais absorvida pelo seu sentimento maternal e após um parto complicado que a deixa estéril, acaba por recusar dar o recém-nascido.


Segue-se então uma intensa disputa legal entre Ana e Clara pela guarda do menino. A primeira argumenta que o óvulo é dela e o esperma do seu marido e a segunda que gerou o bebé dentro dela e o deu à luz. Pelo meio, as duas sofrem duros revés. Ana sofre consequências a nível pessoal e profissional e a sua imagem pública fica arrasada. Clara acaba por ser expulsa pelo seu pai Ezequiel (Leonardo Villar), um homem doente e muito religioso e é obrigada a viver com Yara (Lady Francisco), uma ex-prostituta. 
Clara também vive um triângulo amoroso com João (Humberto Martins), um rude camionista e Tadeu (Jairo Mattos), um jovem idealista. 

O elenco contava ainda com nomes conhecidos como Beatriz Segall, Vera Holtz, Paulo César Grande, Eri Johnson, Wolf Maya, Mário Lago e Tereza Seiblitz.



Tal como no Brasil, a exibição da telenovela em Portugal levou a vários debates sobre as questões éticas da maternidade de substituição, inclusivamente se esta prática, ilegal em Portugal, devia ser despenalizada. No final da telenovela, Ana e Clara acabam por desistir do processo jurídico e decidem encontrar, fora dos tribunais, uma forma de criar em conjunto o filho que uma germinou e a outra gerou. 
A autora Glória Perez viria a recuperar duas personagens, os doutores Álvaro Baronni (Adriano Reys) e Penelope Brown (Beatriz Segall) para a telenovela "O Clone". 

O genérico de abertura mostrava um corpo nu de uma grávida, ao som de "Aguenta Coração" de José Augusto, que no final abria as pernas e o ecrã era invadido por um feixe de luz, numa alegoria ao parto.

Genérico:



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3 comentários:

  1. Que bom recordar outros tempos. Nos quais só existia um canal de televisão. E mesmo que existissem mais, os velhotes não os sintonizavam. Bastava-lhes o primeiro. Fazia-lhes até confusão que tivessem de levantar para carregar noutro botão para mudar o canal. Então ficava sempre no primeiro. E quando apareceu a SIC, sofreu de um gigante preconceito e as pessoas de educação mais clássica preferiam continuar a deixar a TV sintonizada na RTP1, ignorando tudo o resto. Mas aí vieram os programas popularuchos e dinâmicos da SIC, que conquistaram uma parcela do público. Depois agarraram o exclusivo das telenovelas da Globo, conquistado outro tipo de público. E finalmente, o futebol. Aos poucos transformaram o panorama televisivo português naquilo que ele é hoje. Um pouco oco. A RTP falhou por viver no século 15 quando todos pediam modernidade, arrojo e cor.

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    1. Quem sabe se a RTP tivesse evoluído mais rapidamente, mas sem imitar a concorrência, como seria hoje a TV? Mas é difícil concorrer contra programação popularucha, e hoje em dia basta ver que boa parte da programação da manhã, tarde e fim de semana são clones em todos os canais, excluindo a RTP2 que ainda vai resistindo

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    2. Tem piada que também me lembro dessa desconfiança do pessoal "mais velho" em relação aos canais privados quando apareceram :)

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