terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Recordando 1994

por Paulo Neto






Gosto bastante de escrever os artigos sobre um determinado ano, por isso não resisti voltar à carga e pegar na máquina do tempo. Desta feita recuamos um quarto de século até 1994 e para não variar, o pré-idoso que há em mim fica de cara à banda quando pensa que já passaram vinte e cinco anos desde então, porque trata-se de um ano em que eu já não era nenhuma criança e já guardo memórias bastante sólidas. No entanto, olhando para trás, desejava ter apreciado e estar mais atento a tudo o que aconteceu em 1994 na minha vida, no país e no mundo, mas eu estava demasiado embrulhado nas minhas crises de adolescente de catorze anos e por vezes até me dá vontade de abanar o meu eu de 1994 e não deixar-se vergar pelo bullying e pelos amigos da onça - mas enfim, era uma lição que tive de aprender da maneira mais dura.
No entanto, 1994 também deu-me algumas boas memórias pessoais, como o nascimento de mais uma prima (Céus, já fazes 25 anos, Joana!), passar a ir regularmente ao cinema, ganhar uma Super Nintendo num concurso de linhas de valor acrescentado e, como já contei aqui, "ser" o Freddie Mercury na "Chuva de Estrelas" da minha escola. 
Vamos então lembrar 25 coisas que aconteceram há 25 anos.

1. As mortes de Kurt Cobain e Ayrton Senna chocaram o mundo
No espaço de menos de um mês, o mundo chorou as perdas de dois ícones: um da música e outro do desporto. No dia 5 de Abril, Kurt Cobain pôs termo à sua vida com um tiro na sua casa em Seattle. Nos anos anteriores, os Nirvana redefiniram o rock e foram o símbolo de uma geração, mas Cobain acabou por sucumbir aos seus demónios interiores e acabou por fazer parte do infame clube das estrelas rock que falecerem aos 27 anos de idade. Mas ainda antes, a 6 de Fevereiro, os Nirvana passaram por Portugal para um concerto no mítico Dramático de Cascais.
A 1 de Maio de 1994, durante o Grande Prémio de São Marino em Imola, um despiste e uma violenta colisão contra um muro a 233km por hora ceifaram a vida de Ayrton Senna. O piloto brasileiro tinha sido campeão da Fórmula 1 em 1988, 1990 e 1991 e na época de 1994 estreava-se pela equipa da Williams. Num tenebroso pronúncio, durante as qualificações do dia anterior, o piloto austríaco Roland Ratzenberger também tinha falecido. Partia assim deste mundo aos 34 anos, aquele que é considerado um dos melhores pilotos de todos os tempos e um dos maiores heróis nacionais do Brasil.
Em 1994, também faleceram: o actor Telly "Kojak" Savallas, a cantora jazz Dinah Shore, o actor cómico John Candy, o antigo presidente americano Richard Nixon, a apresentadora portuguesa Alice Cruz, o líder norte-coreano Kim Il-Sung, o brilhante e maldito escritor Charles Bukowski, a actriz britânica Jessica Tandy que recebeu um Óscar por "Miss Daisy" e o lendário músico brasileiro Tom Jobim

Gone too soon: Ayrton Senna (1960-1994) e Kurt Cobain (1967-1994)


2. Nasceram várias estrelas actuais
De entre todas as estrelas mundiais nascidas em 1994, não há como destacar aquele que veio ao mundo no dia 1 de Março no estado canadiano do Ontário: Justin Bieber. Goste-se ou não dele e da sua música, não há quem não o conheça.
Também nascidos em 1994 foi o ex-One Direction Harry Styles, a actriz americana Dakota Fanning, o cantor colombiano Maluma, o actor e cantor Ansel Elgort, a actriz americano-irlandesa Saoirse Ronan já três vezes nomeada para um Óscar e um dos novos talentos do futebol português Bernardo Silva

Geração de 1994: Justin Bieber, Harry Styles, Saoirse Ronan, Bernardo Silva


3. Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul
Entre 26 e 29 de Abril, pela primeira vez cidadãos sul-africanos de todas as raças foram autorizados a votar nas primeira eleições gerais pós-apartheid, que elegeram Nelson Mandela como Presidente dessa nação africana, apenas quatro anos após ter sido libertado do seu cativeiro em Robben Island.
Na sequências dessas eleições, a África do Sul adoptou a actual bandeira e um novo hino nacional.
Mandela manteve-se na presidência do país até 1999, tendo promovido uma política de reconciliação para sarar as feridas do apartheid.






4. O último grande genocídio do século XX aconteceu no Ruanda
Enquanto a África do Sul sofria grandes transformações, outro país africano viria a ser célebre por ser o palco do último grande genocídio do século XX. O Ruanda vivia uma guerra civil desde 1990, provocado pelo confronto entre as duas etnias predominantes, os Tutsis e os Hutus, que estavam no poder. Quando a 6 de Abril o avião onde seguiam Juvenal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, respectivamente presidentes do Ruanda e do Burundi, foi abatido a tiro, terminaram todos os acordos de paz após um cessar-fogo imposto pela comunidade internacional.


A partir daí, foi levado a cabo pelas forças políticas no poder com o apoio do exército e de várias milícias um extermínio dos Tutsi e de outras etnias. Em apenas cem dias, calcula-se que quase um milhão de pessoas (cerca de 70% da população Tutsi do país) foram aniquiladas. Além disso, durante o genocídio, dezenas de milhares de mulheres foram violadas, causando um aumento galopante de infecções por HIV.  O genocídio terminou em Julho quando a força altamente armada da RPF tomou controlo da capital Kigali. 
Sem dúvida uma das páginas mais negras que a História do mundo escreveu nos anos 90.

5. Lisboa foi a Capital Europeia da Cultura e o país comemorou os vinte anos do 25 de Abril
Em Portugal, 1994 foi marcado por duas celebrações: a de Lisboa como Capital Europeia da Cultura e os 20 anos do 25 de Abril.





Lisboa foi a primeira cidade portuguesa recebeu essa atribuição de Capital Europeia da Cultura. Durante o ano, inúmeras demonstrações culturais em todas as vertentes - teatro, música, cinema, artes plásticas - tiveram lugar um pouco por toda a capital.
Entretanto, mais duas cidades já receberam essa distinção: o Porto em 2001 e Guimarães em 2012. Uma cidade portuguesa, ainda por definir, será a quarta do nosso país a ser Capital Europeia da Cultura em 2027.



Vinte anos depois da Revolução dos Cravos, a democracia em Portugal estava já bem estabelecida mas as memórias do antigo regime ainda estavam bem presentes nas mentes de muitos, como por exemplo os meus pais e tios, que sabiam muito bem o que é viver num estado repressivo. (Memórias que espero que nunca se esqueçam e caminhos a que se espera que nunca mais voltemos.)
Por isso, um pouco por todo o país, houve vários festejos de comemoração dos vinte anos de 25 de Abril. Recordo-me que em Torres Novas, na noite de 24 para 25, a minha família foi à Praça 5 de Outubro para um concerto musical onde foram tocadas várias músicas desse tempo, nomeadamente do repertório de Zeca Afonso e no dia seguinte, em que eu completava catorze anos de idade, fui a uma exposição com fotografias de como Torres Novas viveu o 25 de Abril e lembro-me de ver o meu tio Jorge à frente da parada espontânea que se realizou pelas ruas da cidade.


Foi também por alturas dos vinte anos do 25 de Abril que foi editado o disco "Filhos da Madrugada" onde várias bandas nacionais como Madredeus, Sitiados, GNR, Resistência, Mão Morta, UHF, Peste & Sida e Entre Aspas versionaram temas de Zeca Afonso. A minha faixa favorita do disco é a versão de "Canção de Embalar" dos Diva, onde Natália Casanova soava mais angelical que nunca. 
No dia 30 de Junho, todas as bandas envolvidas no disco actuaram num concerto no Estádio de Alvalade.

6. A Ponte 25 de Abril foi palco de contestação em forma de buzinão
Um dos acontecimentos de maior tensão que ocorreram no país em 1994 foi precisamente na Ponte 25 de Abril, quando vários automobilistas protestaram contra o aumento de 50% nas portagens da ponte. Lembro-me que um veículo ligeiro passava a pagar 150 escudos (75 cêntimos) em vez de 100 escudos. Para quem passava na Ponte todos os dias (sobretudo camionistas), este aumento foi um grande rombo nas suas despesas.




No noite de 24 para 25 de Junho, perante as câmaras da SIC, vários utentes da ponte iniciaram o protesto buzinando e utilizando notas de valor elevado para os pagamentos das portagens. Em poucas horas, os protestos escalaram para a violência, com manifestantes a bloquearem o acesso à ponte e atirando pedras e frutas contra os agentes da GNR, tornando-se um dos maiores casos de desobediência civil em Portugal.
A consequência mais trágica dos protestos foi a de Luís Figueiredo, de 18 anos, a quem uma bala perdida lhe deixou paraplégico. Dois dos principais impulsionadores do protesto, os irmãos Jaime e Mário Pinto, seriam condenados em 2005 por tráfico de droga.

7. A "geração rasca" mostrou o rabo a Manuela Ferreira Leite
Outro episódio de contestação nacional em 1994 veio por parte da massa estudantil. Para o ano lectivo 1993/94, mediante uma reforma na Educação implementada pelo governo na altura, uma das novidades era a implementação das provas globais para os alunos do 10.º ano. Tratava-se de uma prova sumativa de conhecimentos a realizar-se no fim do ano lectivo e que contava para 25% da nota final em cada disciplina (excepto Educação Física).



A medida foi amplamente contestada por alunos do ensino secundário por todo o país e uma greve em protesto contra Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, então respectivamente Primeiro-Ministro e Ministra da Educação, teve lugar a 5 de Maio um pouco por todo o país. A minha escola não foi excepção e embora na altura não fosse directamente afectado pelas provas globais porque ainda estava no 8.º ano, eu e os meus colegas de turma também participámos na manifestação pelas ruas de Torres Novas nesse dia. Em Lisboa, os protestos culminaram junto às escadarias da Assembleia da República, onde alguns alunos mais afoitos chegaram a baixar as calças e exibir a sua rectaguarda às objectivas dos fotógrafos e as câmaras de televisão presentes. No dia seguinte, um desses traseiros adolescentes fez a capa do jornal "Público" e o seu director Vicente Jorge Silva escreveu no seu editorial que estes jovens eram um exemplo de uma geração rasca. O tempo haveria de provar que estávamos era perante uma geração à rasca. Nem de propósito, nesse dia o único deputado do PSD que recusou apoiar a ministra foi o então líder da JSD, Pedro Passos Coelho.

8. Nasceram duas estrelas nacionais da música: Pedro Abrunhosa e Sara Tavares 
Mas sem dúvida que a figura nacional de 1994 foi Pedro Abrunhosa, pois foi neste ano que o músico portuense e os Bandemónio explodiram na cena musical com o álbum "Viagens" que arrasou no top nacional e rendeu quatro discos de platina.



Canções como "Não Posso Mais", "Socorro", "Lua", "É Preciso Ter Calma" e "Tudo O Que Eu Te Dou" andaram na boca de toda a gente e ao longo de todo ano, Abrunhosa e os Bandemónio percorreram o país de lés a lés em concertos ao rubro. Também icónico era o look de Abrunhosa, nomeadamente os óculos escuros, ainda hoje a sua imagem de marca. Tal foi a Abrunhosa-mania que até o merchandising à sua volta chegou a produtos nunca vistos no panorama nacional como um jogo de computador e um automóvel (o Volkswagen Polo Band).



Outra revelação musical de 1994 foi Sara Tavares. Então com apenas 16 anos, Sara venceu a primeira edição do "Chuva de Estrelas" imitando Whitney Houston e depois venceu o Festival da Canção desse ano, com "Chamar A Música" que obteve a proeza de ser a única canção a recolher pontuações máximas de todos os 22 júris distritais. Meses mais tarde, no Festival da Eurovisão em Dublin, a canção alcançaria o oitavo lugar, um dos melhores resultados nacionais de sempre.
Foi o início auspicioso da carreira de Sara Tavares, carreira essa que acabou por seguir por caminhos diferentes daqueles que se esperariam à partida mas que ainda assim confirmaram-na como um dos nossos maiores talentos musicais.   

9. Chuva de golos no clássico dos clássicos
Peço imensa desculpa aos leitores adeptos do FC Porto, mas a meu ver, no futebol nacional, não há rivalidade com mais mística do que os embates entre Benfica e Sporting. E em 1994, um jogo entre os dois emblemas para a segunda volta do campeonato nacional escreveu mais uma página nessa mística.
No dia 14 de Maio em Alvalade, leões e águias deram um show de bola que terminou com nove golos marcados. Jorge Cadete abre o marcador para o Sporting aos 8 minutos, João Vieira Pinto abre as contas para o Benfica aos 30, Luís Figo colocou os leões em vantagem quatro minutos depois, e passados outros três, João V. Pinto volta a empatar e aos 44 minutos faz o hat-trick e deixa os encarnados a vencer por 3-2 ao intervalo. Isaías marca duas vezes aos 48 e 57 minutos, Hélder marca o sexto golo encarnado aos 74 minutos e um penalti de Balakov aos 80 minutos fixa o resultado final em 6-3. Para muitos benfiquistas, foi a perfeita vingança do massacre sportinguista do 7-1 em 1986.
Seja como for, o triunfo em Alvalade confirmou o Benfica como campeão da época 1993/1994 (e mal sabiam os adeptos encarnados que só voltariam a celebrar outro título nacional onze depois).
No Youtube, existe um vídeo deste jogo na íntegra.

Luís Figo e João Vieira Pinto no célebre 3-6 de Alvalade


10. Fernanda Ribeiro e Manuela Machado foram campeãs da Europa
Os 16.ºs Campeonatos de Europa de Atletismo realizaram-se de 7 a 14 de Agosto de 1994 em Helsínquia e foram particularmente gloriosos para as cores portuguesas. Logo no primeiro dia, Manuela Machado venceu a maratona feminina fazendo com que Portugal continuasse a ser o único país com títulos nesta prova após o triplo triunfo de Rosa Mota em 1982, 1986 e 1990.



Seis dias depois, Fernanda Ribeiro venceu os 10000m, sendo acompanhada no pódio por Conceição Ferreira que foi segunda. Uma quarta medalha portuguesa esteve muito perto de acontecer nos 400m barreiras onde Pedro Rodrigues foi quarto.
No ano seguinte, Fernanda Ribeiro e Manuela Machado juntariam o título mundial ao europeu.

11. Francis Obikwelu veio a Portugal competir nos Mundiais Juniores de Atletismo (e por cá ficou…)
O Estádio Universitário de Lisboa acolheu os Campeonatos Mundiais Juniores de Atletismo de 20 a 24 de Julho de 1994. Participaram 1139 jovens atletas de 143 países e entre os portugueses, estavam Susana Feitor, que ganhou a única medalha nacional ao conquistar a prata nos 5000m marcha, e Nuno Lopes, filho do campeão olímpico Carlos Lopes, que correu os 800m.

O Estádio Universitário de Lisboa acolheu
os Campeonatos Mundiais de Juniores em Atletismo em 1994


Outro jovem atleta que competiu nesse evento foi um nigeriano de 15 anos que chegou às semifinais dos 400m (que foram ganhos por um compatriota seu). Esse adolescente nigeriano decidiu ficar em Portugal, trabalhou nas obras no Algarve, aprendeu português com uma inglesa radicada em terras algarvias que lhe pôs em contacto com a secção de atletismo do Belenenses, permitindo-lhe retomar e e evoluir no atletismo. Claro que estou a falar de Francis Obikwelu que a partir de 2002 passaria a representar Portugal, dando imensos motivos de orgulho ao seu país de adopção, destacando-se a medalha de prata nos 100m nos Jogos Olímpicos de 2004.   



12. Os Jogos Olímpicos de Inverno saíram da sombra dos Jogos de Verão
Em 1988 o COI tomou a iniciativa de agendar os Jogos Olímpicos de Inverno em anos diferentes dos de Verão, uma vez que os primeiros eram tradicionalmente ofuscados, já que a maioria dos países do mundo não tem muita tradição em desportos de Inverno.




Por isso, apenas dois anos após a última edição, os 17.ºs Jogos Olímpicos de Inverno tiveram lugar de 12 a 27 de Fevereiro de 1994, na pequena cidade norueguesa de Lillehammer, com a participação de 1737 atletas de 67 países (incluindo Portugal, representado pelo esquiador luso-francês Georges Mendes). O resultado foi bastante positivo com uma audiência televisiva recorde para o evento e a organização norueguesa a conseguir transmitir a atletas, espectadores e imprensa a sensação de que os Jogos decorriam numa atmosfera de lugar encantado.
Para a comunicação social, sobretudo a americana, a grande história foi a rivalidade entre as patinadoras Nancy Kerrigan e Tonya Harding, que semanas antes escalou para dimensões banditistas, como já falei aqui anteriormente. 

Dan Jansen celebra com a filha a sua vitória olímpica em Lillehammer

Como tal, prefiro destacar outra história, a do americano Dan Jansen na patinagem da velocidade. Ao longo dos últimos dez anos, Jansen foi um dos melhores atletas da modalidade nas distâncias de 500 e 1000m com vários recordes e títulos mundiais, mas parecia atacado por uma maldição que o impedia de conseguir medalhas olímpicas, saindo de 1984, 1988 (onde competiu pouco depois de saber que a sua irmã Jane tinha morrido de leucemia) e 1992 de mãos a abanar. 1994 parecia uma continuação da malapata, sendo apenas oitavo nos 500m, a sua melhor prova. Porém, na tentativa final de glória olímpica, Dan Jansen venceu os 1000m e deu uma volta de honra à pista levando ao colo a sua filha recém nascida.


13. Ano efervescente na televisão portuguesa
As televisões privadas ainda eram recentes em Portugal, mas depressa o país se deixou cativar por esse admirável mundo novo televisivo, acabando rapidamente com a homogenia da RTP.
Claro que na linha da frente estava à SIC que, arriscando o confronto directo com a televisão pública, foi somando vitórias até à liderança definitiva no ano seguinte. Em 1994, a estação (então) de Carnaxide estreou programas tão díspares mas igualmente míticos como "Muita Lôco", "A Noite Da Má Língua", "Mini Chuva de Estrelas", "Perdoa-Me", "O Juiz Decide", "All You Need Is Love", "Caça Ao Tesouro" e "Destino X".

"A Caça Ao Tesouro" com Catarina Furtado, foi um dos principais
programas estreados na SIC em 1994

Na RTP, destacam-se as estreias de "A Mulher do Senhor Ministro", "Os Andrades", a telenovela "Na Paz Dos Anjos", "Marco Paulo - Eu Tenho Dois Amores", o magazine cultural "Acontece", "Frou-Frou", "O Cabaret" e "Desculpem Qualquer Coisinha" que parodiava o "Perdoa-Me". E claro, Herman José literalmente abateu "A Roda da Sorte" a tiro para substituí-la pelo novo concurso "Com A Verdade M'Enganas".

Depois da "Roda da Sorte", Herman José e Ruth Rita
regressaram em 1994 com "Com A Verdade M'Enganas"

Na TVI, salienta-se sobretudo os programa importados por Queluz de Baixo como as séries "Marés Vivas", "Ficheiros Secretos", "Picket Fences" e "Competente e Descarada" (inicialmente com o título "Feita À Medida") mas sobretudo o concurso espanhol "O Jogo do Ganso" que chegou a ter laços directos a Portugal com dois concorrentes portugueses num dos episódios e a prova final de uma das concorrentes espanholas a ter lugar na Praça do Município em Lisboa. Na produção nacional, recordo sobretudo a sitcom "Trapos & Companhia" e o concurso "Doutores & Engenheiros".

Paula Pedregal numa cena da sitcom "Trapos & Companhia"


14. A televisão deu-nos seis novos amigos
Lá fora, de entre as séries estreadas em 1994, não há como não destacar "Friends", que nos dez anos seguintes, se afirmaria como uma das mais emblemáticas sitcoms americanas de todos os tempos. Foram dez temporadas em que acompanhámos um grupo de seis jovens nos altos e baixos da sua vida pessoal, amorosa e profissional em Nova Iorque de tal forma que era como também nós fôssemos amigos deles. O sexteto protagonista - Jennifer Aniston, Courtney Cox, Lisa Kudrow, Matt Leblanc, Matthew Perry e David Schwimmer - foi todo ele elevado ao estatuto de superestrelas. Citando Chandler Bing: Could this show be any more mythical? E venha de lá a canção: "I'll be there for you..."

"Friends" estreou a 22 de Setembro de 1994

15. O éter nacional teve uma antena mais jovem
A 26 de Abril, a Rádio Difusão Portuguesa inaugurou as emissões da Antena 3, uma nova estação de rádio dedicada ao público mais jovem. Além de passar os hits da altura, a estação também tinha a missão de dar a conhecer ao grande público promover a nova música portuguesa.
O sucesso da Antena 3 foi imediato, sendo a estação de eleição de toda a minha turma, inclusive eu. Recordo as tardes de segunda a sexta com Mónica Mendes e o Eurochart Hot 100 aos sábados de manhã.
O primeiro logótipo da Antena 3


16. Os primeiros MTV Europe Music Awards


Os The Prodigy com o seu troféu

A 24 de Novembro, a primeira edição dos MTV Europe Music Awards tiveram lugar em Berlim, precisamente nas Portas de Bradenburgo onde cinco anos antes, o Muro de Berlim tinha sido derrubado. O espectáculo foi apresentado por Tom Jones e teve actuações de George Michael, Aerosmith, Roxette, Take That, Björk, Eros Ramazzotti, Ace Of Base e Prince. Figuras como Franz Beckenbauer, Jean-Paul Gaultier, Naomi Campbell, Alexi Lalas, Dave Mustaine, Pamela Anderson, Bono, Helena Christiansen e Michael Hutchence entregaram prémios.
Entre os galardoados, contam-se "7 Seconds" de Youssou N'Dour e Neneh Cherry como Melhor Canção, Mariah Carey como Melhor Artista Feminina, Bryan Adams como Melhor Artista Masculino, Take That como Melhor Grupo, Crash Test Dummies como Melhor Revelação, Aerosmith como Melhor Grupo Rock e The Prodigy como Melhor Grupo Dance.
Berlim voltaria a receber o evento em 2009.

17. Ano de grande música
1994 foi ano de grandes álbuns: "Definitely Maybe" dos Oasis, "Parklife" dos Blur, "Music For The Jilted Generation" dos The Prodigy, "Dookie" dos Green Day, "Under The Pink" de Tori Amos, "Monster" dos R.E.M., "Bedtime Stories" de Madonna, "Mellow Gold" de Beck, "Superunknown" dos Soundgarden, "Purple" dos Stone Temple Pilots, "The Cross Of Changes" dos Enigma, "Grace" de Jeff Buckley, "Dummy" dos Portishead, "Protection" dos Massive Attack, "II" dos Boyz II Men, "CrazySexyCool" das TLC e "No Need To Argue" dos Cranberries, entre outros.




E em Portugal, além do já mencionado "Viagens" de Pedro Abrunhosa & Bandemónio, tivemos "Os Filhos Da Nação" dos Quinta do Bill, "O Espírito da Paz" dos Madredeus, "Sob Escuta" dos GNR e o homónimo dos Despe & Siga.



Mas também foi o ano em que dançámos ao som de "Saturday Night" de Whigfield (ainda se lembram da coreografia?), "Rhythm Of The Night" de Corona, "I Like To Move It" dos Reel2Real e "The Summer Is Magic" de Playahitty. 

18. Houve cinema para todos os gostos
Ele foi blockbusters de acção: "Speed - Perigo Em Alta Velocidade" com Keanu Reeves e Sandra Bullock, "Perigo Imediato" com Harrison Ford, "Velocidade Terminal" com Charlie Sheen, "O Rio Selvagem" com Meryl Streep e Kevin Bacon, "Timecop" com Jean-Claude Van Damme, "Leon - O Profissional" com Jean Reno e uma bem jovenzinha Natalie Portman, "O Especialista" com Sylvester Stallone e Sharon Stone, e "True Lies - A Verdade Da Mentira" com Arnold Schwarzengger e Jamie Lee Curtis. Ah, e "Stargate", o filme que gerou a célebre franchise de séries!




Ele foi comédias: "Quatro Casamentos e Um Funeral", Jim Carrey em dose dupla com "Ace Ventura" e "A Máscara", "Aonde É Que Para A Polícia 33 e 1/3 - O Insulto Final", "Jack, O Relâmpago", "Santa Cláusula", "Júnior", "O Caça Polícias 3" e "Adoro Sarilhos".
Ele foi dramas: "Encruzilhada", "Quando Um Homem Ama Uma Mulher", "O Cliente", "Nell", "Os Condenados de Shawshank", "Lendas da Paixão", "O Carteiro de Pablo Neruda" e sobretudo "Forrest Gump".


Ele foi clássicos do cinema independente: "Pulp Fiction", "Assassinos Natos", "Reality Bites" e "Clerks".
Ele foi filmes para toda a família: "Vontade de Ferro", "Polegarzinha", "The Little Rascals - Pequenos Marotos", as adaptações live action dos "Flintstones" e de "Riquinho", "Mulherzinhas" e "O Rei Leão", o primeiro filme da Disney dobrado em português de Portugal.





Ele foi cinema de autor: "Vermelho" de Krzysztof Kieslowski, "Balas Sobre A Broadway" de Woody Allen, "Bebé de Macon" de Peter Greenway, "Exotica" de Atom Egoyan, "O Grande Salto" dos irmãos Coen  e "A Caixa" de Manoel de Oliveira.
Um ano em cheio no grande ecrã!

19. Anna Paquin ganhou um Óscar aos onze anos



Apesar de ser ainda de 1993, outro filme que marcou 1994 foi "O Piano" que venceu a Palma de Ouro de Cannes e cuja belíssima banda sonora de Michael Nyman foi campeã de vendas em vários países (incluindo Portugal). A história de uma mulher escocesa muda que viaja para a Nova Zelândia para viver junto do colono com quem casou por procuração e que se deixa levar nos jogos eróticos de outro homem para recuperar o seu adorado piano também fez impacto nos Óscares com a protagonista Holly Hunter a ganhar o Óscar de Melhor Actriz e a realizadora Jane Campion o de Melhor Argumento Original, além de ser apenas a segunda mulher nomeada para Melhor Realização. Mais inesperado foi a estatueta de Melhor Actriz Secundária para Anna Paquin, que no filme era a filha da protagonista. Nascida no Canadá em Julho de 1982 e criada na Nova Zelândia, Paquin tinha apenas onze anos quando recebeu o Óscar, sendo a segunda mais jovem galardoada numa categoria de representação, apenas batida por Tatum O'Neal, que tinha apenas 10 anos em 1973 quando foi distinguida pelo seu desempenho em "Lua de Papel".
Anna Paquin teve uma transição bem-sucedida para uma carreira adulta, destacando-se em filmes como "Quase Famosos", "She's All That", "X-Men" (como a Rogue) e sobretudo na série "Sangue Fresco". 

20. Acontecimentos marcantes no Brasil



Quatro acontecimentos marcaram o país-irmão em 1994. No Carnaval desse ano, estalou a controvérsia quando o presidente Itamar Franco foi fotografado no seu camarote ao lado de Lilian Ramos, que envergava somente uma T-shirt e nada mais (e as objectivas dos fotógrafos tiveram uma visão privilegiada desse "nada mais"). Devastada pela condenação pública, Lilian Ramos acabaria por mudar-se para Itália onde vive até hoje, não sem antes passar por Portugal, onde deu várias entrevistas, visitou Fátima e participou no programa "Na Cama Com..."


Foi a partir de 1 de Julho de 1994 que os brasileiros começaram a fazer as suas compras e vendas com o Real, que permanece como unidade monetária do país até hoje, após quatro mudanças de divisa desde 1986.



E se por um lado, o Brasil chorou a morte de Ayrton de Senna, a 17 de Julho, o país celebrou a quarta vitória no Campeonato do Mundo de Futebol nos Estados Unidos. Após 120 minutos de jogo sem golos na final entre Brasil e Itália, a sorte foi decidida nos penaltis com um falhanço de Roberto Baggio a dar a primeira vitória desde 1970 ao escrete canarinho. Na hora das celebrações, os jogadores homenagearam Ayrton Senna.

21. A Índia venceu a Miss Universo e a Miss Mundo
País de muitas e fascinantes belezas naturais, em 1994 a Índia passou também a ser conhecida pelas suas belezas femininas, com duas indianas a ganharem os mais emblemáticos concursos internacionais de beleza. Tão fulgurantes que eram estas duas beldades que acabaram empatadas durante a eleição de Miss Índia e foi precisa uma pergunta de desempate para decidir qual delas é que iria a que concurso. 

Sushmita Sen e Aishwarya Rai
durante as respectivas coroações

A 21 de Maio nas Filipinas, Sushmita Sen foi a primeira indiana a ser coroada Miss Universo e a 19 de Novembro na África do Sul, 28 anos depois, Aishwarya Rai trouxe de novo a coroa de Miss Mundo para a Índia. Tanto Sen como Rai teriam carreiras bem-sucedidas como actrizes no seu país e ainda hoje não só são lembradas como duas das melhores detentoras desses títulos como continuam a ser duas mulheres deslumbrantes.
Nos seis anos seguintes, a Índia venceria a Miss Mundo mais três vezes e a Miss Universo mais uma vez, incluindo uma nova dobradinha no ano 2000.

22. "O Grito" foi roubado
Um dos mais quadros mais célebres do sempre, "O Grito" do pintor expressionista norueguês Edvard Munch foi uma composição iniciada em 1893, existindo quatro versões em tela (duas em tinta e uma em pastel) bem como algumas litografias. A imagem da cara angustiada numa ponte sob um céu vermelho tornou-se uma das icónicas alegorias da ansiedade do homem moderno. E claro, está foi parodiada imensas vezes em diversas artes.

As quatro versões de "O Grito"

A 12 de Fevereiro, a versão de "O Grito" patente na Galeria Nacional de Oslo foi roubada por dois homens que terão deixado uma nota a dizer "Obrigado pela fraca segurança". O quadro seria recuperado a 7 de Maio através de uma operação levada a cabo entre forças policiais norueguesas e britânicas. Em 1996, quatro homens foram acusados pelo roubo.
Em 2004, outra versão de "O Grito" foi roubada no Museu Munch e recuperada dois anos depois.

23. O rei da pop casou-se com a filha do rei do rock & roll
A 26 de Maio de 1994, o mundo ficou embasbacado ao saber que Michael Jackson se tinha casado com Lisa Marie Presley, filha de Elvis e Priscilla Presley, na República Dominicana, vinte dias depois do divórcio desta com Danny Keough.


Os dois já se conheciam desde os anos 70 e segundo consta, Jackson tinha buscado apoio em Presley durante as primeiras acusações de pedofilia de que o cantor foi alvo. A união durou 19 meses e nunca convenceu o público, apesar dos esforços do casal como por exemplo o beijo que ambos trocaram durante os MTV Video Awards de 1994, que deixou todos os presentes cheios de cringe


24. A Sony entrou na guerra das consolas


A 3 de Dezembro, o gigante da tecnologia Sony estreava-se no mundo dos videojogos ao lançar no Japão a sua primeira consola de videojogos, a Sony Playstation. Outras companhias já se tinham tentado intrometer no império dicotómico Sega/Nintendo mas a Sony seria a primeira a fazê-lo de forma concludente. Nesse mesmo ano, a Sega lançou no Japão a Sega Saturn (22 de Novembro).
Entre os jogos lançados nesse ano contam-se "Wing Commander III", "Final Fantasy VI", "Earthworm Jim" e "Sonic & Knuckles". 


25. A criação da Yahoo e da Amazon



Em 1994, a internet ainda era algo só ao alcance de muito poucos (eu próprio só o ouvi a palavra internet pela primeira vez em 1995) mas foi neste ano que dois gigantes do mundo digital foram criados. Em Janeiro, dois estudantes da Universidade de Stanford, Jerry Yang e David Filo criaram o website "Jerry's Guide To The World Wide Web" que dois meses mais tarde renomeariam como "Yahoo!" (um acrónimo de "Yet Another Hierarchically Organized Oracle") que nos anos seguintes tornar-se-ia um dos mais populares portais da internet. Após um declínio no final dos anos 2000, em 2017 a empresa foi comprada pelo grupo Verizon.


Quem começou em 1994 (5 de Julho) mas continua em alta é a Amazon. A plataforma de Jeff Bezos começou com uma livraria online mas rapidamente estendeu o negócio para outros produtos como discos, DVD, mobília, brinquedos e joalharia. Actualmente a empresa já se estendeu a outras frentes, como a produção de filmes e conteúdos para televisão. É actualmente a empresa online mais lucrativa do mundo e a segunda maior empregadora nos Estados Unidos.

Que outros acontecimentos de 1994 vocês se lembram e que não foram falados aqui? Digam nos comentários. 



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O Diário Da Nossa Paixão (2004)

por Paulo Neto

Toda a década tem o seu grande filme romântico de amour fou ao estilo de Romeu e Julieta, onde dois jovens se apaixonam tão perdidamente que vão contra os seus pais e/ou as convenções da sociedade, numa fuga que quase inevitavelmente termina em tragédia. Nos anos 70, houve "Love Story" de 1970, mas que só foi exibido em Portugal depois do 25 de Abril, a tocar bem fundo aos jovens casais apaixonados da altura (incluindo os meus pais), que se viam livres para sonhar um amor tão arrebatador aos novos ventos da liberdade. Nos anos 80, alguns dirão "Endless Love - Um Amor Infinito" (1981) com uma lindíssima Brooke Shields recém-saída d' "A Lagoa Azul" onde um amor adolescente acaba mesmo por ultrapassar as fronteiras da sanidade mental (e nem de propósito, o filme foi realizado por Franco Zefirelli, autor da mais aclamada adaptação cinematográfica de "Romeu & Julieta") - alguns estarão mais familiarizados com o remake de 2014 - mas como nunca vi esse filme, pessoalmente eu apontaria antes "Fogo Com Fogo" (1986). Nos anos 90, a época da minha adolescência, não haverá maior referência do que "Titanic" com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet não só a lutarem pelo seu amor mas também pela sobrevivência.





E para a primeira década do século XXI, a piéce de résistance do filme romântico de amour fou é "O Diário Da Nossa Paixão", filme de 2004 realizado por Nick Cassavettes e protagonizado por Ryan Gosling e Rachel McAdams, a partir do romance bestseller de Nicholas Sparks, editado em 1996. Já falei aqui de "As Palavras Que Nunca Te Direi" (1999), a primeira adaptação cinematográfica de um livro de Sparks. Esta era a terceira, havendo entre ambas "Um Amor Para Recordar" (2002), adaptado de "Um Momento Inesquecível" (a única vez que os títulos em Portugal do livro de Sparks e respectivo filme são diferentes) com Mandy Moore e Shane West. 

A história é bem conhecida: num lar de terceira idade, um idoso que se diz chamar Duke (James Garner) faz companhia a uma senhora que sofre de Alzheimer (Gena Rowlands), narrando-lhe uma história de amor passada nos anos 40 entre uma jovem da alta sociedade e um rapaz humilde da classe operária. Uma história que rapidamente se vem a saber que é a deles os dois, embora ela não se lembre e ele não lhe diga.



Em 1940, na Carolina do Sul,  Noah Calhoun (Gosling) é um jovem operário que se interessa por Allie Hamilton (McAdams) uma rapariga da elite de Charleston e recorre a uma manobra quase literalmente suicida para a convencer a sair com ele. Apesar do início atribulado, o amor nasce imediatamente entre ambos e o romance floresce ao longo do Verão. Mas Anne (Joan Allen), a mãe de Allie, não vê com bons olhos que a filha namore com um rapaz pobre e trata de terminar a relação convencendo o marido (David Thornton) a voltarem para Charleston, deixando Allie e Noah destroçados.





Decepcionado por ela não responder a nenhuma das cartas que ele escreveu cada dia durante um ano, Noah decide seguir com a vida e alista-se para combater na Segunda Guerra Mundial, onde perde o seu melhor amigo Fin (Kevin Connolly). Em 1948, com a herança do seu falecido pai Frank (Sam Sheppard), Noah reconstruiu a casa abandonada com a qual sonhava viver com Allie e tem uma relação casual com Martha Shaw (Jamie Brown), uma viúva de guerra. Por seu turno, Allie está noiva de Lon Hammond Jr. (James Marsden) um encantador e rico advogado que conheceu quando ela ajudava a tratar os feridos da guerra. Quando os dois se reencontram, um passeio de caiaque pelo rio e uma violenta tempestade reacende ainda mais a paixão que julgavam extinta. Allie terá então de escolher entre Noah e Lon, e inesperadamente a sua mãe dará uma ajuda na sua decisão.




De volta ao lar de idosos, a Allie septuagenária reconhece brevemente Noah mas com a Alzheimer dela e os problemas cardíacos dele, a história de amor dos dois parece chegar ao fim. Ou será que não?

Eu já tinha lido o livro uns anos antes (continua a ser um dos meus preferidos do autor) e quando soube que finalmente tinha sido adaptado ao cinema, a minha expectativa era alta. No entanto, a adaptação cinematográfica tem várias diferenças em relação ao livro, pelo que ver o filme acaba por ser uma experiência diferente daquela de ler o livro. A principal diferença é que o livro foca mais no reencontro entre os dois protagonistas após a Guerra enquanto o filme aborda sobretudo o início do romance entre ambos. 



"O Diário Da Nossa Paixão" foi daqueles filmes cujo sucesso não foi retumbante ao início mas que gradualmente foi arrecadando bons e duradouros resultados de bilheteira e depressa ganhou um culto e lugar de destaque no cinema romântico, indicado pelas ainda hoje expressivas vendas e alugueres do DVD e do Blu-Ray. Os seus dois protagonistas (ambos canadianos) foram elevados a superestrelas: graças a este e outro filme icónico do ano de 2004, "Mean Girls - Giras e Terríveis", Rachel McAdams afirmou o seu talento e Ryan Gosling foi considerado um dos novos galãs de Hollywood, muito embora tenha feito tudo para se afastar desse rótulo e optado papéis bastante diversificados, que confirmaram toda a sua versatilidade e talento. (Aliás, o exemplo de Ryan Gosling fez com que outros actores, como Channing Tatum ou Joseph Gordon-Levitt, pudessem alternar entre os filmes de acção e obras mais delicodoces, sem medo dos rótulos.)  Apesar de não se terem dado bem durante o início das filmagens, Gosling e McAdams acabariam por ter uma relação amorosa durante três anos. Gena Rowlands (a mãe do realizador) e James Garner, dois actores muito em voga nos anos 50 e 60, tiveram aqui os seus mais famosos papéis da fase mais adiantada das suas carreiras. 





O legado de "O Diário Da Nossa Paixão" estendeu-se a várias vertentes: tornou-se um tema bastante popular para festas de casamentos e de noivados, e para sessões fotográficas entre casais casadouros, e as zonas costeiras da Carolina do Sul tornaram-se local de romaria para estadias de luas-de-mel e afins. Por ter estreado no advento das redes sociais, foi um dos primeiros filmes a inspirar memes e GIFs na internet. E claro está, foi o filme que sedimentou a adaptação de livros de Nicholas Sparks como um quase subgénero. No início de 2019, foi anunciado que "O Diário da Nossa Paixão" iria ser adaptado a um musical da Broadway, sob direção musical da cantora e compositora Ingrid Michaelson.    


Trailer: 


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

A Rainha da Sucata (1990)



por Paulo Neto



Voltamos a recordar telenovelas e esta é uma que me lembro de ter gostado imenso. "A Rainha Da Sucata" foi exibida no Brasil entre Abril e Outubro de 1990 e em Portugal entre 14 de Novembro de 1991 e 2 de Junho de 1992. Foi a primeira telenovela assinada por Sílvio de Abreu a passar no horário nobre no Brasil (ao contrário de Portugal, que já vira "Sassaricando" nesse horário) e talvez por isso, no país-irmão o público estranhou a dose invulgar de humor burlesco (característica das outras telenovelas do autor como "A Guerra dos Sexos" e a já referida "Sassaricando") e não haver tanto melodrama, o que levou Sílvio de Abreu a trazer mais dramatismo à história e a refrear a vertente mais cómica da trama. Em Portugal, no entanto não houve essa estranheza e o público até preferiu as tramas mais engraçadas. Foi a última telenovela do horário nobre a ser exibida na RTP1 sem a concorrência das estações privadas e como tal chegou a ter mais de 95% de share ao longo de toda a sua exibição.  



A novela era protagonizada por Regina Duarte no papel de de Maria de Carmo Ferreira, uma empresária de grande sucesso, peça fundamental em transformar o negócio de sucateira do seu pai Onofre (Lima Duarte) num império empresarial. A sede geral do seu império é o edifício Sucata na Avenida Paulista e além de ser um complexo empresarial e comercial, tem também uma casa de espectáculos frequentada pela fina flor de São Paulo.

Laurinha (Glória de Meneses), Edu (Tony Ramos)
e Maria do Carmo (Regina Duarte)

Mas apesar da sua fortuna, Maria do Carmo continua a não ser bem vista pela alta sociedade paulista devido às suas origens humildes. No pólo oposto está a família de Betinho Figueroa (Paulo Gracindo) casado em segundas núpcias com Laurinha Figueiroa (Glória Menezes), que apesar do seu prestígio, está à beira da falência. Edu (Tony Ramos), o filho do primeiro casamento de Betinho, é um playboy irresponsável que fora em tempos a paixão de Maria do Carmo até descobrir que ele esteve por detrás de uma terrível humilhação a la "Carrie" no baile de formatura. Mas quando Maria do Carmo reencontra Edu, conclui que ainda sente algo por ele e propõe casar-se com ele, para que ela aumente o seu prestígio social e a família dele se salve da bancarrota. A princípio, Edu deixa bem claro que só casou com ela por interesse mas aos poucos, os dois vão se apaixonar.
Quem não se conforma com esta união é Laurinha, não só por não aceitar uma ex-suburbana na família mas sobretudo porque é secretamente apaixonada pelo enteado e fará tudo para destruir Maria do Carmo. Mais tarde vem-se a saber que Laurinha tem origens ainda mais duvidosas do que a nora, e que os seus dois rebeldes filhos, Adriana (Cláudia Raia) e Rafael (Maurício Mattar), são fruto de uma relação com um marginal, perfilhados por Betinho após o casamento.

Onofre (Lima Duarte) e Neiva (Nicete Bruno)
Mariana (Renata Sorrah) e Renato (Daniel Filho)


Mas Laurinha não é a única ameaça para Maria do Carmo. Renato Maia (Daniel Filho), o ambicioso e pérfido braço-direito de Onofre planeia afastá-la e ser ele a assumir a liderança do império da Sucata. Durante o funeral de Onofre, vem-se a saber que ele manteve uma relação extraconjugal ao longo da vida com Salomé (Fernanda Montenegro), uma amiga da família que morre também ela pouco depois. Uma revelação que deixa Maria do Carmo e sobretudo a sua mãe Neiva (Nicete Bruno) em choque. Renato conclui que Mariana (Renata Sorrah), a filha de Salomé, é herdeira de Onofre e aproveita-se da sua ingenuidade para casar-se com ela. Após o enlace, Mariana sofre nas mãos de Renato que a manipula psicologicamente para que ela acabe morta ou internada num hospício.

Adriana (Cláudia Raia) e Caio (António Fagundes)

Os momentos mais cómicos da telenovela foram sem dúvida aqueles que provinham do romance tempestuoso entre Adriana e Caio (António Gonçalves), irmão de Mariana. Ela, uma desajeitada aspirante a bailarina e ele um paleontólogo gago passam por divertidos altos e baixos juntos e para acrescentar mais confusão, existe ainda a noiva de Caio, a fogosa Nicinha (Marisa Orth).

Dona Arménia (Aracy Balabanian) e "as suas filhas":
Gino (Jandir Ferrari), Gera (Marcelo Novaes) e Gerson (Gerson Brenner)


Outro núcleo divertido foi o da Dona Arménia Giovanni (Aracy Balabanian) que fala português de forma muito particular, referindo-se às mulheres no masculino e aos homens no feminino, como é o caso das "suas três filhas" Gerson (Gerson Brenner), Geraldo (Marcelo Novaes) e Gino (Jandir Ferrari), três viris e garbosos rapazes que na verdade são três autênticos meninos da mamã. Arménia viveu sempre em conflito com a família de Maria do Carmo pois pensa ser a legítima dona do terreno no qual a Sucata foi construída e quando consegue provar isso, ameaça demolir tudo e "botar a prédio na chon". Quando Maria do Carmo cai em desgraça vítima das armadilhas dos seus inimigos, Arménia passa a administrar as empresas, revelando-se um desastre. 
Dos irmãos Giovanni, Gerson, que começa a novela noivo de Maria do Carmo e sofre quando ela o troca por Edu, é o mais próximo da mãe. Geraldo, ou Gera, é o mais desbocado e namoradeiro. Gino é o mais sensível e durante algum tempo mantém uma ligação secreta com alguém, que se desconfiava ser outro homem, mas que na verdade se trata de Samira (Maria Helena Dias), uma turca madura que o iniciou nos prazeres da carne. No auge da trama, os três irmãos acabam a competir por Ingrid (Andréa Beltrão) uma jovem sofisticada e curiosa, filha de Isabelle (Cleide Yaconis), a requintada irmã de Betinho. No final, Ingrid não se consegue decidir e decide levar os três com ela para a Europa. O núcleo da Dona Arménia fez tanto sucesso que ela e os filhos regressaram numa telenovela posterior, "Deus Nos Acuda".

Paula (Cláudia Ohana)

Rafael (Maurício Mattar) e Alaíde (Patrícia Pillar)

Outras personagens marcantes foram Jonas (Raul Cortez), o mordomo dos Figueroa e a chave de muitos mistérios da trama; Paula (Cláudia Ohana), uma intrépida jornalista, amiga de Adriana e que no início da novela está envolvida com Edu; Alaíde (Patrícia Pillar) a bela filha de Lena (Lolita Rodrigues), a empregada dos Figueroa, que vive um romance proibido com Rafael; e Guida (Mónica Torres), secretária e cúmplice de Renato que revela certas tendências masoquistas.

Na recta final, Laurinha suicida-se saltando do tecto da Sucata mas fazendo-o de forma a parecer que foi empurrada por Maria do Carmo, incriminando-a. Mas Edu consegue provar a inocência da esposa e Maria do Carmo acaba feliz ao lado dele e recuperando o controlo das suas empresas.  

O site "Brinca Brincando" salienta que tal como outras telenovelas de Sílvio de Abreu, existiam muitas referências cinematográficas na telenovela, não só assemelhando os acontecimentos de certas personagens a cenas de certos filmes (como a já referida cena de humilhação de Maria do Carmo no baile a fazer lembrar "Carrie") mas utilizando mesmo músicas de filmes como "O Homem Elefante", "Fahrenheit 451" ou "Viagem Alucinante". 

O tema do genérico era "Me Chama Que Eu Vou", interpretado por Sidney Magal. O cantor teve uma aparição especial numa cena da novela a cantar este tema na Sucata, acompanhada por um grupo de bailarinos de lambada que incluía Adriana e Alaíde.




Genérico:




Chamada de elenco:




Para terminar, uma memória relacionada com esta telenovela que eu nunca esqueci. Além dos discos oficiais, era frequente ver-se à venda por esse Portugal fora cassetes com versões manhosas dos temas das telenovelas, e "A Rainha do Sucata" não foi excepção. Pois bem, nunca me esqueci de certa vez ter visto num expositor de cassetes do café perto do trabalho da minha mãe, uma cassete que tinha escrito "A Rainha da Chupada" num modo semelhante ao do logótipo da telenovela ao lado do desenho de uma mulher em fato de banho com um rosto semelhante ao de Regina Duarte. Vinha ainda escrito em letras pequenas "só para adultos - interpretado por Os Séxis". O alinhamento continha faixas como "Sacudindo a bunda" e "Maria do Carmo, Elu, Konas e Laurinha Filha Boa". O que eu não dava para ouvir hoje essa cassete...
     


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