terça-feira, 14 de agosto de 2012

A Lagoa Azul (1980)

por Paulo Neto



"A Lagoa Azul" permanece como a principal referência de um sub-género muito pouco explorado: o filme erótico para toda a família. É muito provável que tenha sido o primeiro filme algo puxadote em termos de "cenas de amor" que muitos de nós vimos, provavelmente em família.
Isto porque quando os videogravadores começaram a massificar-se em Portugal no final dos anos 80, "A Lagoa Azul" era um dos filmes mais alugados, e foi num serão em família que o vi pela primeira vez, um pouco antes de fazer dez anos, no recém-adquirido vídeo lá de casa. Na altura ainda era suficientemente ingénuo para o ver o casalinho do filme no acto amoroso e pensar "Que giro, estão a namorar!". Mas uns anos mais tarde, já em gloriosa puberdade, revi o filme quando deu na televisão - num sábado à tarde- e aí a minha reacção foi "Ena pá!".


O filme realizado em 1980 por Randall Kleiser (que vinha do sucesso de "Grease") era uma adaptação do romance homónimo de Henry DeVere Stacpoole, publicado pela primeira vez em 1908. (O livro já tinha sido adaptado para o cinema duas vezes, em 1923 -ainda na era do cinema mudo- e em 1949.) Os protagonistas eram Brooke Shields que, apesar de na altura ter somente catorze anos, já era um sex-symbol (e lindíssima!) e Christopher Atkins, que fora escolhido entre quatro mil candidatos para o principal papel masculino. Apesar das extensas carreiras de Shields e Atkins em cinema e televisão, este permanece o momento mais célebre dos seus repertórios. 

A história passa-se na era victoriana e narra a história de duas crianças, os primos Richard e Emmeline Lestrange, que são salvas de um naufrágio no Pacífico Sul por Paddy Button (Leo McKern), o rude cozinheiro do navio onde seguiam. Chegados a uma ilha paradisíaca, Paddy toma conta dos dois pequenos e ensina-os a caçar, pescar, cozinhar e a sobreviver na ilha. Tendo encontrado vestígios de sacrifícios humanos no outro lado da ilha, ele proíbe-os de irem para lá, prevenindo-os igualmente contra as bagas venenosas que florescem na ilha. Quando ele morre depois de beber demasiado, Richard e Emmeline vêm-se entregues a eles próprios, mas tendo aprendido a desenvencilharem-se, sobrevivem na abundância da ilha e os anos vão passando.


À medida que vão crescendo, vão sendo confrontados com as mudanças dos seus corpos e os sentimentos de amor e desejo que surgem entre eles. Após os desentendimentos iniciais, os dois acabam por consumar a paixão e Emmeline acaba por engravidar, embora só o descubram quando ela dá à luz um rapaz a quem chamam Paddy. O filho de ambos só vem prolongar o idílio adâmico e a felicidade dos dois jovens, até que um passeio em família termina em tragédia, mesmo antes do iminente reencontro de Arthur Lestrange (William Daniels) com o filho e a sobrinha.



Tal como o livro conseguiu habilmente retratar o delicado tema da sexualidade rodeando-o de inocência e felicidade amorosa ("Um acto totalmente natural, sem qualquer culpa e sem pecado. Um casamento segundo a Natureza, sem festa nem convidados", diz a obra), também o filme é eficiente retirar qualquer eventual sordidez às cenas de sexo, ainda que sejam ligeiramente mais explícitas do que era costume ser visto em filme.

Por exemplo, a montagem é tão hábil que mal se dá para notar em que plano estão os actores ou os duplos.
A beleza extasiante da ilha (magnífica a fotografia de Nestor Almendros, nomeada para um Óscar) e a atmosfera de idílio e inocência simulam um verdadeiro Jardim do Éden, e Christopher Atkins e Brooke Shields encorporam, com a química mútua e desempenhos convincentes, tornam-se verdadeiras reencarnações de Adão e Eva. Por isso e apesar de ter tido a classificação etária "R" (equivalente aos nossos "Maiores de 16") na América do Norte, este seja um filme que se possa ser visto em família sem complexos e que as televisões facilmente programaram para o horário da tarde.
Para qualquer outra actriz menor de idade, seria um papel bastante controverso mas Brooke Shields vinha de um papel ainda mais precoce e chocante em "Menina Bonita" (1978) e de várias campanhas ousadas como modelo da Calvin Klein, por isso e apesar da sua idade, já estava habituada a nudez e a cenas ousadas. Ainda assim, por razões óbvias, a treinadora dos golfinhos do filme também assumiu o papel de sua body double. Shields também revelou que filmou a maior parte do tempo com o cabelo colado sobre os seios, de forma a cobri-los. Christopher Atkins também revelou que a sua célebre melena encaracolada foi resultado de várias permanentes que lhe fizeram antes das filmagens!





Em 1991, surgiu uma sequela, "O Regresso à Lagoa Azul", com Milla Jovovich e Brian Krause nos principais papéis. Apesar de dar seguimento ao filme, não era uma adaptação do segundo livro da trilogia escrita por Stacpoole. Embora tenha conhecido algum sucesso nas bilheteiras sobretudo devido à curiosidade de quem era fã de "A Lagoa Azul", ficou bastante aquém deste. (Para não falar que as cenas de amor foram bem mais comedidas...)    



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