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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Blocos Publicitários SIC (Novembro 1995)

Atualização do artigo originalmente publicado em 2016





Aqui na Enciclopédia de Cromos, adoramos analisar blocos publicitários dos anos 80 e 90, graças aos vídeos dos mesmos disponibilizados no YouTube. É sobretudo interessante analisar os que são exibidos durante a quadra natalícia, habitualmente recheados de todo o tipo de potenciais presentes que miúdos e graúdos poderiam querer receber no Natal desse ano.
Neste artigo, analisaremos três blocos publicitários da SIC de 27 de Novembro de 1995, disponibilizados no YouTube, como não podia deixar de ser, pelo canal Lusitania TV, sem dúvida o maior especialista em desenterrar este tipo de artefactos audiovisuais. Como esse dia era uma segunda-feira, estes blocos foram exibidos durante os intervalos do espaço de cinema da segundas à noite na SIC, "Noite De Estreia", que nesse dia exibiu o filme "Royce" com James Belushi.
Embora embora só haja uma referência explícita ao Natal, pois ainda estávamos em Novembro, estes blocos já continham anúncios a vários produtos tipicamente vendidos como presentes de Natal, como brinquedos, perfumes, whiskys, relógios e discos. Ao mesmo, tempo vamos redescobrindo alguns programa exibidos na SIC na altura, dos mais lembrados como "Não Se Esqueça Da Escova De Dentes" a outros mais esquecidos.





0:00 Cena do filme "Royce"
0:13 Luís Nobre Guedes, uma das figuras mais notórias do CDS e então deputado do Parlamento Europeu, era o convidado da semana do programa "Crossfire", espaço de informação onde a cada semana uma figura da política nacional era entrevistada por Margarida Marante e Miguel Sousa Tavares. Nobre Guedes seria Ministro do Ambiente durante o governo de Durão Barroso.
0:40 "Crossfire" era patrocinado pelo whisky Chivas Regal. (E eis que surge a única referência natalícia com uma iluminada árvore de Natal).
0:45 Os anos 90 são tidos como tempos de prosperidade em Portugal, porém uma parte significativa da população nacional ainda vivia em extremas dificuldades. É o caso dos moradores de um pátio que vivem em casas sem água canalizada, numa situação que se arrastava há vários anos, uma situação a ser denunciada no programa "Praça Pública".
1:33 Um televisor Grundig Megatron 100mhz estava então na vanguarda da tecnologia. Mas duvido que, ao contrário do que se mostra no anúncio, seria possível que as coisas saíssem foram do ecrã, nomeadamente a bocarra de um crocodilo.
1:53 Imagens de um alegre jantar em família para ilustrar a qualidade da Carne Alentejana.
2:03 Um divertido anúncio aos telemóveis Nokia (do tempo em que ainda eram algo volumosos) onde um frade vê desvanecer a sua auréola de santidade diante da visão de uma bela mulher de branco.
2:24 Uma multiplicação de ecrãs ilustra este anúncio do whisky Cutty Sark. Não deixa de ser curioso a referência às alternativas audiovisuais de então (4 canais, parabólica, TV por cabo, clube de vídeo). Já agora, sabiam que o veleiro Cutty Sark, hoje um ex-libris da zona de Greenwich em Londres, pertenceu a uma empresa portuguesa entre 1895 e 1922? Durante esse período teve o nome de "Ferreira", e depois de uma recuperação dos estragos num acidente de marítimo em 1916, foi renomeado "Maria do Amparo", mas a sua tripulação chamava-lhe o "Pequena Camisola", que é a tradução literal do termo escocês cutty sark.
2:40 Imagens ternurentas de uma mulher, desde os seus tempos de criança até ela própria ser mãe, ilustram este anúncio às câmaras de vídeo Sony, ao som de "Days" de Kirsty McColl.
3:00 Ao contrário dos dias de hoje, a banca nacional parecia respirar saúde, como era o caso do agora defunto Banif. Neste anúncio, publicitava-se o seu crédito habitação, protagonizado pelo actor Philippe Leroux.
3:15 Um anúncio à cerveja Super Bock por entre várias das belas paisagens do nosso país. De referir que a voz do anúncio é a do recentemente falecido Jaime Fernandes.
4:00 Perante as aflições do pai com a canalização, três miúdos decidem construir uma arca de Noé com peças de Lego Duplo.
4:21 Os anúncios aos perfumes são um must desta época. Neste caso, um curto mas sensual anúncio em preto e branco a Eternity de Calvin Klein, com a top model Christy Turlington.
4:31 Também não podiam faltar as sugestões discográficas. E decerto que no Natal de 1995, a segunda colectânea N.º 1 do ano esteve no sapatinho de muitos portugueses, incluindo eu. Este volume não tinha a presença do Fido Dido na capa, mas estava recheado de vários sucessos da altura como "Over My Shoulder" dos Mike & The Mechanics, "Country House" dos Blur, "Dançam No Huambo" dos Kussondulola, "Scatman's World" de Scatman John e "Abreu" dos Black Company, além de que o rodapé indicava também a inclusão de temas de Céline Dion, Take That, Santos & Pecadores, Shaggy e Annie Lennox. (Playlist com todas as músicas da coletânea AQUI.)
4:50 Mais um anúncio a bancos, desta vez ao Crédit Lyonnais, com imagens do velocista americano Leroy Burrell que nesse ano de 1995 tinha batido o recorde do mundo dos 100m, correndo a distância em 9 segundos e 85 centésimos. No final, imagens de adeptos da selecção sueca de futebol, quiçá porque o azul e o amarelo também eram as cores deste banco. 
5:06 Um divertidíssimo anúncio à campanha de brinquedos dos hipermercados Jumbo, em que os adultos portam-se como crianças diante de tanto brinquedo, para grande espanto das verdadeiras crianças ali presentes. Onde era possível adquirir uma Sega Mega Drive por apenas 19 990 escudos (menos de 100 euros).
5:41 O célebre Mimo, imagem de marca dos anúncios da TMN (actual MEO) nos anos 90.
5:48 Um artístico anúncio com espetaculares e precisos movimentos coreográficos, tal como a precisão dos relógios Raymond Weil.
6:18 Videocontos, uma colecção da Planeta Agostini que reunia em VHS adaptações animadas de várias histórias infantis.
6:31 Promo à telenovela "A Próxima Vítima"...
7:14 …que era patrocinada pelo leite Mimosa Especial Cálcio.
7:20 Anúncio à Grande Gala do Dia Mundial contra a SIDA, a ter lugar no Centro Cultural Belém no dia 1 de Dezembro, com a presença de grandes nomes da música nacional como Sara Tavares, Rui Veloso, Luís Represas, Lena D'Água, Helena Vieira, Rita Guerra e Luís Portugal.
7:52 Início da segunda parte do filme "Royce" em "Noite de Estreia", espaço então patrocinado pela Samsung.


 
0:00 Cena de "Royce"
0:07 O programa de documentário e investigação "Toda A Verdade" dessa semana era dedicado ao mais notório serial killer da União Soviética, com o título "A Alma da Besta". Andrei Chikatilo, um aparente cidadão exemplar, era o "carniceiro de Rostov" que terá assassinado, violado e até praticado canibalismo a mais de cinquenta mulheres e crianças entre 1978 e 1990. Condenado por 52 homicídios, Chikatilo foi executado em 1994. Nem seria preciso a advertência da voz off para se saber que esta reportagem continha imagens chocantes e que representava uma descida às profundezas da crueldade humana. 
0:56 Promo a outro mítico programa da SIC da altura, o "Não Se Esqueça de Escova de Dentes". Como o Natal é quando a mulher quiser, Teresa Guilherme decidiu ter um programa especial de Natal em Novembro. Programa esse que conteve aquele que foi, tanto para mim como para Teresa Guilherme, um dos mais bizarros momentos do "Escova" quando um grupo de concorrentes vestido como figuras do presépio desataram à pancadaria no palco para ganhar uma viagem ao Brasil. (Ler sobre isto aqui). De referir ainda que Alexandra era a convidada musical e a aparição no fim de uma Lúcia Moniz pré-fama.
1:39 "Não Se Esqueça da Escova de Dentes" tinha patrocínio dos preservativos Control (o que de certa maneira fazia todo o sentido).
1:46 Baume & Mercier, uma das conceituadas marcas da relojoaria suíça. 
1:51 Os atores Luís Aleluia e Margarida Marinho protagonizam este anúncio ao cartão de crédito BES Classic Duo, como um casal que não se entende sobre se o dito cartão é para economizar ou gastar. (Será que anos mais tarde, este casal seria um dos inúmeros lesados BES?)
2:22 As imagens ternurentas de um bebé dando os seus primeiros passos neste anúncio às câmaras de filmar da Samsung.
2:51 "Não achas que o teu decote é muito…?", é o que perguntam à beldade protagonista deste anúncio à roupa interior da Dim que apenas levanta a camisola interior para revelar o soutien e sorri.
3:02 Neste anúncio ao jogo "Party & Co.", o chefe, os futuros sogros e a ex-psicóloga de um jovem homem chamado Eduardo dão a sua opinião sobre ele, sendo que decerto ficariam surpreendidos ao ver a personalidade de Eduardo quando joga o respetivo jogo.
3:22 Outro Eduardo protagoniza este anúncio, desta feita ao perfume Havana. O dono cego de um bar consegue reconhecer os clientes graças aos seus outros sentidos, mas comete sem querer um faux-pas ao anunciar que o marido de uma cliente, que supostamente teria ficado a trabalhar até tarde, acaba de chegar ao bar, sentindo o cheiro do perfume dele. Mas na verdade, quem acaba de entrar é uma bela jovem, que provavelmente ficou impregnada com o cheiro do tal marido da cliente em contactos muito próximos. 
3:42 "O meu namorado não me liga!", queixa-se Francisca. "Os mais velhos não me ligam!", reclama Miguel. "Os meus pais não me ligam!", confidencia António. "A mim ninguém me liga!" suspira Filipa (na verdade uma Paula Neves pré-"Riscos"). Mas a Banca Jovem Sub-30 dos Bancos Borges & Irmão e Fomento & Exterior, entre outras vantagens, oferecia ligação à internet! E para quem não tinha computador, os ditos bancos davam um mega crédito 100%! 
4:14 Na promoção de Natal da Telecel, a outra rede móvel em Portugal na altura, podia-se comprar um telemóvel Ericsson por 89 900 escudos. (Pouco menos de 450 euros.)
4:20 Outro anúncio aos relógio Baume & Mercier.
4:50 Imensas vantagens ao adquirir uma carrinha Porter Diesel da Piaggio.
5:05 Fernando Mendes na pele de um típico alentejano, confiante de que a sua vida vai mudari, porque vai jogar na Lotaria Popular(i), onde toda a gente pode ganhari!
5:13 A deslumbrante Elizabeth Hurley vestida de noiva num jardim, rodeada por um grupo de criancinhas, neste anúncio ao perfume "Beautiful" de Estée Laduer.
5:29 Uma garrafa do whisky Logan dissecada.
5:59 Colado às montras, a sonhar com o que gostaria de comprar? Pois bem, estávamos em plenos anos 90 onde reinava a ilusão de haver vários rios de dinheiro a correr em Portugal, por isso havia o crédito UBP (União de Bancos Portugueses) para entrar na loja e comprar tudo!
6:24 Um duplo CD com os grandes sucessos do cantor Neil Diamond, onde não podia faltar hits como "Sang Song Blue" e "Sweet Caroline". 
6:45 Agora também havia uma versão do perfume XS de Paco Rabanne para elas!
6:55 No ano em que se comemoravam os 100 anos do cinema, a série documental "O Cinema Americano" produzida por Steven Spielberg com depoimentos de vários realizadores.
7:45 Na época em que havia linhas de valor acrescentado para tudo e mais alguma coisa, também não faltava uma para informações sobre a telenovela "A Próxima Vítima". 
8:13 Voltando ao filme "Royce", com um avião a aterrar na Ucrânia.



0:00 "Nada que uma aspirina não cure", diz James Belushi em "Royce" antes de irmos para intervalo.
0:05 Promo à série "Camilo & Filho", a sitcom que marcou o regresso de Camilo de Oliveira aos ecrãs nacionais, sendo a primeira de várias séries protagonizadas por Camilo, sempre com o seu nome no título. Mas ainda assim esta foi a mais marcante, tendo sido inesquecíveis as desventuras do sucateiro Camilo e o seu filho Alberto, interpretado por Nuno Melo. Infelizmente, os dois já não se encontram entre nós.
0:44
Os brinquedos Chicco patrocinavam "Camilo & Filho"
0:50 Novamente a promo ao programa "Não Se Esqueça Da Escova De Dentes" dedicado ao Natal e o patrocínio da Control.
1:41 Um curtíssimo anúncio ao perfume Acenti da Gucci.
1:46 O então próximo ano de 1996 seria um ano para esquecer? Talvez comprando um Peugeot 106 ou 306, já que havia a possibilidade de se pagar a primeira prestação em 1997.
2:01 Outra vez o divertido anúncio à campanha de brinquedos do Jumbo.
2:36 Nova dissecação ao whisky Logan.
3:06 Os Rolling Stones editavam na altura o álbum "Stripped" que consistia em versões acústicas e ao vivo dos seus temas durante a digressão "Voodoo Lounge". Duas das faixas do álbum foram gravadas em Lisboa. Além de vários temas conhecidos dos Stones, havia também uma versão de "Like A Rolling Stone" (não podia ser mais apropriado!) de Bob Dylan.
3:28 Em vez de cavalgar até ao estábulo, um senhor de grandes posses decide no último momento  conduzir um Opel Astra, para aflição do motorista.
3:58 Imagens de cenas cómicas do tempo do cinema mudo ilustram o anúncio ao Dicionário do Português Básico, que podia ser adquirido em fascículos às quartas feiras com o Correio da Manhã.
4:19 Já falámos noutro texto de análise sobre este anúncio ao whisky Jack Daniels, onde os funcionários da destilaria se entretêm a jogar com rolhas enquanto o whisky envelhece.
4:49 O mercado discográfico natalício é sempre a ocasião perfeitas para vários cantores e bandas lançarem um álbum de greatest hits. Foi o caso dos Roxette que nesse ano de 1995 o seu álbum best of com o título "Don't Bore Us, Get To The Chorus" que reunia catorze dos maiores sucessos do famoso duo sueco como "The Look", "Dressed For Sucess", "Sleeping In My Car" e "It Must Have Been Love", para além de quatro temas inéditos. Eu tive este disco em cassete meses mais tarde.
5:09 Teresa Guilherme apresenta este anúncio ao Seat Cordoba onde a dita viatura é recebida em apoteose por uma multidão.
5:39 Nessa semana estreava em Portugal o filme "O Beijo" ("French Kiss"), comédia romântica com a então rainha das comédias românticas Meg Ryan e Kevin Kline.
5:53 Mais um anúncio ao Cutty Sark, desta vez parodiando os anúncios às chamadas de valor acrescentado.
6:14 Promo ao programa de apanhados "Minas E Armadilhas", apresentado por Júlio César e na altura com a presença da francesa Marlène Mourreau, uma actriz, pin-up e apresentadora que nesse ano foi candidata presidencial em França pelo Partido do Amor(!). Apesar de francesa e deste breve périplo em Portugal, Marlène fez a maior parte da sua carreira em Espanha. A promo termina em beleza com um trocadilho de trazer por casa.
6:38 Início da 4.ª parte do filme "Royce"




0:00 Após o final do filme, a meteorologia apresentada por Cristina Möhler, de chapska na cabeça. Ao contrário do resto da Europa, a Península Ibérica vivia um final de Novembro ameno e ensolarado, se bem que estava prevista chuva para o dia seguinte. 
3:07 Um relembrar do que restava da programação para esse dia: o  "Último Jornal", a série animada "Comportamento Animal" (da qual se verá um episódio mais adiante) e o espaço de debate político "Flashback" (um antepassado da "Quadratura do Círculo").
4:01 Outra vez o anúncio dos televisores Grundig com o crocodilo.
4:22 Uma criativa dobragem a uma dramática cena com Jacqueline Bisset para publicitar as condições especiais para os clientes da Renault.
4:46 Outra vez o anúncio do Crédit Lyonnais com Leroy Burrell.
5:02 Anúncio ao segundo volume da colectânea do programa "All You Need Is Love", outro disco recheado de temas românticos como "Tell It Like It Is" de Don Johnson (sim, o Sonny Crockett também cantava!), "Toy Soldiers" de Martika, "I Want You To Want Me" dos Cheap Trick e "We're All Alone" de Rita Coolidge.
5:23 Mais um anúncio a whisky, desta vez à marca escocesa Grant's.
5:53 Vilamoura receberia entre 7 e 9 de Dezembro desse ano o 8.º Torneio de Golfe Grande Troféu Vilamoura.
6:01 Outra sugestão discográfica, desta vez vinda de Itália: "Paradiso" de Luciano Bruno, um cantor italiano radicado no Brasil, onde este interpretava vários temas conhecidos da "canzone italiana". Gosto do facto da voz-off dizer "Garanto que é bom".
6:22 Mais um anúncio do Crédit Lyonnais, desta vez com o atleta ucraniano Sergey Bubka, a grande lenda do salto à vara, que nesse ano de 1995 tinha sido campeão mundial pela sétima vez e batido o último dos seus 14 recordes mundiais.
6:37 E mais um anúncio ao Cutty Sark, desta vez subvertendo os créditos finais dos filmes. Se repararem com atenção, notarão muitas trocas e baldrocas nos nomes escritos como por exemplo, Martin Lucas e George Scorcese ou Geena Ryder e Winona Davis.
6:52 "Vamos Curtir", o novo disco dos Starkids, uma espécie de herdeiros dos Ministars, onde estes versionaram temas como "Think Twice" ou "O Bicho".
7:13 De novo anúncio ao Opel Astra.


Último Jornal (27-11-1995) com Alberta Marques Fernandes:




Programa "Flashback"
com transmissão simultânea na SIC e na TSF, conduzido por Carlos Andrade e a participação de Pacheco Pereira, Jaime Magalhães e Nogueira de Brito.





quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Blocos Publicitários RTP2 (Agosto 1992)

por Paulo Neto

NOTA: Recuperação de um artigo originalmente publicado em 2017. 

Regressamos hoje a uma das nossas favoritas rubricas aqui na "Enciclopédia de Cromos": analisar os blocos de publicidade que passaram nas nossas televisões nos anos 80 e 90. Neste caso, existe a particularidade de analisarmos pela primeira vez blocos da RTP 2, uma vez que se tratam dos espaços publicitários emitidos durante a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 1992 em Barcelona. Jogos Olímpicos esses que, apesar de imensos grandes feitos desportivos e da excelência da organização por parte da capital da Catalunha, não deixaram nenhumas saudades a Portugal. 
 

 
Como eu já referi algumas vezes, vivi a minha infância sem ter a RTP 2 sintonizada em minha casa até ao Natal de 1992, pelo que tudo aquilo que via do segundo canal até então fora em casa alheia, e as transmissões dos Jogos Olímpicos de Barcelona não foram excepção, pois eu lembro-me de ir ver o bloco das provas da tarde em casa de vizinhos. Recordo-me que foi aí, por exemplo, que vi uma japonesa (Kyoko Iwasaki) de 14 anos ter ganho os 200m bruços na natação e pensei: "Bolas! Ela é só dois anos mais velha que eu, algumas raparigas da idade dela ainda brincam com bonecas, e ela ganhou a medalha de ouro!"

Como já disse os blocos publicitários que se seguem foram emitidos pela RTP2 durante a cerimónia de encerramento dos Jogos de Barcelona a 9 de Agosto de 1992.




Um apresentador da programação desportiva da RTP cujo nome não me recordo. É ele que faz o preâmbulo antes do início da transmissão da cerimónia, referindo que mais de uma dezena de milhar de atletas "percorreram o caminho da glória", mas como é natural apenas uns quantos viram esse caminho terminar no pódio.
Com o cair do pano dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992, o apresentador do início do primeiro bloco faz o epílogo, referindo que para as cores portuguesas, estes foram os "Jogos do nosso descontentamento", uma vez que apesar de Portugal ter apresentado a sua maior delegação de sempre, não conseguiu obter uma medalha. Nem mesmo no hóquei em patins, que foi modalidade de demonstração nestes Jogos, onde Portugal era o campeão europeu e mundial em título, queando-se por um quarto lugar. O inesperado sexto lugar de José Garcia na canoagem e o sétimo lugar de Manuela Machado na maratona não disfarçaram uma prestação nacional algo medíocre. O apresentador despediu-se com um "Até Atlanta 1996!" (onde as coisas correriam bem melhor para Portugal).




0:01 Vinheta RTC
0:03 Durante as transmissões dos Jogos Olímpicos de 1992, recordo-me que a RTP teve estes breves spots de perguntas e respostas sobre os Jogos, chamados de "Curiosidades Olímpicas" e ilustrados por sequências de animação de temática desportiva. Neste caso, com imagens de natação, devido à pergunta: "Quando foi a primeira vez que um nadador português participou nas Olimpíadas?"
(Aproveito a ocasião para elucidar que, ao contrário do que é referido nesse spot, Olimpíadas não é sinónimo de Jogos Olímpicos. Entende-se por Olimpíada o espaço de quatro anos entre Jogos Olímpicos, tal como sucedia na Grécia Antiga. Porém, cada edição dos Jogos Olímpicos é oficialmente designada consoante a Olimpíada previamente decorrida. Por exemplo, os Jogos Olímpicos de 1992 de Barcelona tiveram a designação oficial de Jogos da XXV (25.ª) Olimpíada.)
0:13 A Danone foi um dos patrocinadores dos Jogos de Barcelona, e como tal, os seus anúncios da altura tinham temática desportiva. É o caso deste em que duas mãos passam entre si uma colher, como que a reproduzir uma corrida de estafeta, completa com uma música muito semelhante à daquela do filme "Momentos de Glória". O David Martins já publicou aqui um anúncio sobre um concurso promovido pela Danone que encorajava os seus jovens consumidores a criar uma banda desenhada de temática olímpica, cujos prémios principais eram viagens à então recém-inaugurada Disneyland Paris e a Barcelona para ver os Jogos.
0:32 Anúncio à Gilette Sensor que possuía a então avançada tecnologia das lâminas gémeas sobremóveis para melhor se adaptarem às curvas do rosto daquele que as iria usar. E claro está, o mítico slogan "O melhor para o homem"!
1:02 Confesso que tenho um fraco por este tipo de anúncios de bebidas onde um grupo de malta jovem faz uma grande farra em clima de canícula, deixando-me com vontade de saltar também lá para dentro do anúncio. Há que louvar o facto de a Unicer não ter poupado esforços (e dinheiro) para produzir este anúncio que parece 100% americano (até o jingle cantava "In America"...) para a Snappy, aquela que é a eterna resposta nacional às gigantes marcas de bebidas gaseificadas de sabor a lima-limão como a Seven Up e a Sprite. Lembro-me também de ter visto na altura cartazes outdoors e calendários com o frame dos 2:10, onde uma moça faz um espectacular movimento capilar enquanto se encharca num jacto de água.
1:33 As Lojas Singer estavam em todo o lado nas nossas televisões, dos patrocínios a tudo o que era concurso aos anúncio criativos como este em que o protagonista de postura direita serve também para fazer o 1 de um gigante número 10. Isto para dizer que era possível comprar nas lojas Singer em dez prestações mensais sem juros. Gosto sobretudo do movimento de cabeça que o actor faz antes de repetir "Dez!".
1:48 Já falámos anteriormente deste anúncio da Dentagaard com um diálogo entre o castor animado e um campista em boxers.
2:09 Uma mulher misteriosa conduz habilmente o seu Citroen ZX e no fim ainda faz cheque aos seus perseguidores, cujo carro é apanhado por uma grua com um íman gigante.
2:39 Cenas de corridas de vela ilustram este anúncio da Omega, uma das mais míticas marcas da relojoaria suíça.
2:54 Anúncio ao iogurte líquido Yop da Yoplait som do clássico "I Got You (I Feel Good)" de James Brown. Se bem se lembram, o Yop foi o primeiro iogurte líquido a ser comercializado em Portugal numa embalagem em formato de garrafinha, algo que agora é lugar-comum no mercado dos iogurtes líquidos.
3:10 Um escritor redige uma cena do seu livro em que o protagonista encontra uma mulher no bar pela primeira vez. Ele não consegue decidir se ela era morena ou loura, ou vestida de vermelho ou de azul. Mas uma coisa é certa: o protagonista bebia cerveja Buckler sem álcool. (E agora reparo que o actor deste anúncio é o mesmo do célebre anúncio dos produtos Insignia).
3:40 Outro marca mítica da publicidade dos anos 80 e 90: os produtos Domplex ("É qualidade e utilidade"), Pélebre marca de produtos em plástico criada em 1967 pela empresa Plastidom.
3:55 Outra vez o anúncio da Omega.
4:11 Mais um divertido anúncio das Lojas Singer, em que dois lutadores de sumo se lançam num combate mas um deles fica mais interessado nas imagens de um televisor Sony. O outro é que não parece tão entusiasmado.
4:26 Anúncio da série discográfica "O Melhor De..." da EMI-Valentim de Carvalho dedicada à obra de nomes da história da música portuguesa como é o caso de Carlos Ramos (ouvindo-se a sua canção-assinatura "Não Venhas Tarde"), Max (com "Pomba Branca) e Carlos Paião (ao som de "Pó De Arroz"). Os meus pais tiveram este disco do Carlos Paião em cassete.
4:41 E a resposta à pergunta do spot animado do início do bloco: "Nas 8.ªs Olimpíadas em Paris em 1924". (Acrescento que esse primeiro nadador olímpico português chamava-se Mário Silva Marques e nadou os 200m bruços).





0:00 Imagens da cerimónia antes da vinheta RTC
0:05 Mais um anúncio da Danone de inspiração desportivo, com um lançamento da colher a fazer lembrar o lançamento do dardo.
0:25 E mais uma vez o anúncio da Gilette Sensor.
0:55 Também já falei sobre este vistoso anúncio ao Porto Ferreira Tawny, num texto anterior.
1:41 Além de ser marca líder na lingerie feminina, pelos vistos na altura a Triumph apostava também na roupa desportiva.
1:50 No Portugal de 1992, anúncios com animação 3D ainda eram raros pelo que este anúncio das Tintas Barbot deve ter sobressaído na altura.
1:58 Mais uma variação numa série dos anúncios aos desodorizantes Axe em que uma mulher fica inebriada com o cheiro a Axe do garboso desconhecido de quem inadvertidamente se aproxima e dá uma snifada. Neste caso, havia a particularidade de que agora já estava disponível a variedade de desodorizante em stick.
2:19 Anúncio à Renault ilustrado por dois carros de Fórmula 1.
2:49 E como não há duas sem três, eis de novo o anúncio à Omega.
3:03...e outra vez o anúncio do YOP
3:20 A Coca-Cola também é um patrocinador olímpico de longa data (desde 1928) e por alturas dos Jogos de Barcelona, emitiu este anúncio com imagens de várias crianças a praticarem desporto. Porque como diz a voz off, nem todas verão o interior de um estádio olímpico ou saberão o que é ser o melhor do mundo, mas todas as crianças podem descobrir o que têm de melhor.
3:51 Anúncio do champô Vidal Sassoon protagonizado pelo atleta olímpico Manuel Barroso onde este é visto a praticar quatro dos cinco desportos da sua modalidade, o pentatlo moderno (esgrima, tiro, natação, equitação e corrida). Manuel Barroso participou em quatro Jogos Olímpicos entre 1984 e 1996, e em Barcelona 1992 fez um brilharete ao vencer a prova de corrida, o que porém não fez com que conseguisse melhor que o 53.º lugar final.
4:20 E como não há três sem quatro...
4:36 O cantor brasileiro radicado no nosso país (e dono de uma espectacular mullet encaracolada) João Marcelo editava o novo álbum "Quando Fala Um Coração". João Marcelo ficou sobretudo conhecido pela sua versão de "Aguenta Coração", tema da telenovela "Barriga de Aluguer" originalmente interpretado por José Augusto.
4:56 Em 1992, a Sega Mega Drive era a consola de topo com os seus "revolucionários" 16 bits!




0:00 Bandeiras de Espanhas e dos Estados Unidos antes da Vinheta RTC
0:05 Este anúncio também já foi mencionado num texto anterior. Uma elegante senhora chega a um aeroporto e fica rapidamente na mira de homens de várias nacionalidades. No entanto, um cavalheiro misterioso já a esperava no bar com um whiskey Ballantines.
0:34 Anúncio à revista "Basquetebol" dedicada ao mundo do basquetebol. (Obviamente!)
0:45 Vários rostos sorridentes ilustram o anúncio ao iogurte líquido da Mimosa, que então era designado por You. (Que pelo nome e pelo formato em garrafa, parecia um ataque de concorrência directa ao Yop).
1:15 Várias imagens desportivas ilustram o anúncio à bebida Isostar. Embora nunca tenha sido um grande praticante desportivo e adepto da exercício, lembro-me de beber algumas vezes esta bebida.
1:35 Novamente o anúncio à Triumph Sportswear
1:45 E novamente o anúncio das Tintas Barbot
1:59 Anúncio ao desodorizante Nivea, protagonizado por uma pena.
2:07 Mais um pot-pourri de imagens desportivas, desta vez para um anúncio ao relógios Seiko. Gostava de destacar aos 2:06 a imagem da corredora mexicana Enriqueta Basilio, que acendeu a pira olímpica nos Jogos Olímpicos de 1968 na Cidade do México, a primeira vez que uma mulher teve tal honra.
2:27 Se não estou em erro, este foi o primeiro anúncio ao gelado Magnum ( ainda antes do famoso anúncio do "é meu, é meu e só meu até ao fim") em que uma mulher que come um Magnum ajuda um empregado de uma joalharia a decidir qual o colar a pôr na montra, elegendo o colar mais simples.
2:57 De novo o anúncio infanto-olímpico da Coca-Cola
3:28 Foi no início dos anos 90 que o mercado nacional dos champôs recebeu a revolução dos champôs 2 em 1 com amaciador, com a Vidal Sassoon na proa dessa revolução. Recordo-me bem deste anúncio num ginásio, onde uma jovem desespera com o seu cacifo emperrado onde tem o seu champô e amaciador lá dentro. Mas basta um empréstimo do Vidal Sassoon da amiga para ela se converter aos 2 em 1.
3:58 E como não há quatro sem cinco...
4:14 Sapong, o jogo que fez sucesso nas praias nacionais no Verão de 1992! (Só que não.)
4:24 Já falei noutro tópico sobre o cantor brasileiro radicado em Portugal Jorge Luís, que nesse ano de 1992 conseguiu algum sucesso com o álbum "Paz Na Cama" em que versionava populares canções de terras de Vera Cruz, como o tema-título, "Pense Em Mim" e "É O Amor", para além de versão brasileira do megahit "Borbujas De Amor" ("Quem me dera ser um pei-chi!").
4:44 Breve excerto de um número coreográfico durante a cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de 1992.




Extras

Excerto da cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992






Anúncio Sega Mega Drive

Anúncio Coca-Cola




Programa "Barcelona Hoje" (RTP1, 9-8-1992)
 

 

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Aqua "Barbie Girl" (1997)

Se me dissessem que o primeiro filme que eu iria ver ao cinema pós-pandemia COVID era o filme da Barbie, eu responderia "O QUÊ?", mas foi o que aconteceu há dias. (Curiosamente o último filme que fui ver ao cinema pré-pandemia foi "As Mulherzinhas", também da Greta Gerwig.) 



Seja como for, o filme está a ser um fenómeno e, talvez inevitavelmente, trouxe de volta memórias de uma canção que, embora não faça parte da banda sonora (pelo menos não na versão original), tem sido indelevelmente associada com a boneca mais famosa do mundo desde que escalou os tops pelo mundo afora nos idos de 1997. Falo obviamente de "Barbie Girl" da banda pop dinamarquesa Aqua. Goste-se ou deteste-se, não há como negar que esta é uma das canções mais icónicas da segunda metade dos anos 90 e que é um must nas festas temáticas dedicadas a esse decénio.  



Aliás, a primeira vez que ouvi "Barbie Girl" foi uns meses antes do seu sucesso internacional, quando a popularidade ainda estava basicamente circunscrita ao reino da Dinamarca. Foi quando estava a ver na RTP o concurso de manequins Elite Model Look de 1997 (cuja vencedora foi uma muito jovem Soraia Chaves) e um dos convidados musicais eram precisamente os Aqua, com os apresentadores (não me recordo quem) a descreverem o seu estilo musical como "happy pop". Foi aí que ouvi pela primeira vez "Barbie Girl" onde certas partes como "I'm a Barbie girl, in a Barbie world" e "Come on, Barbie, let's go party" ficaram-me logo no ouvido. Lembro-me de achar que, apesar da combinação bizarra de um Ken careca com voz de Monstro das Bolachas e de uma Barbie bem menos comedida e angelical que a prototípica boneca (se bem que igualmente atraente) com voz de balão de hélio, ou talvez precisamente por causa disso, era uma canção extremamente divertida com o seu quê de subversiva, pelo que não fiquei surpreendido quando meses mais tarde "Barbie Girl" rodava nas rádios e na MTV e afins, rumo ao sucesso planetário. 

Mas comecemos pelo princípio. Corria o ano de 1994, quando dois jovens compositores e amigos de infância, Soren Rasted e Claus Norreen, foram encarregados de criar a banda sonora para um filme infantil dinamarquês: "Fraekke Frida og de frygtlose spionner" (traduzindo, é qualquer coisa como "Frida Marota e os Espiões Temerários"). Para algumas das canções, recrutaram a colaboração de um DJ de seu nome René Dif, que andava pelo mesmo estúdio. Os três gostaram de trabalhar juntos e começaram a congeminar a ideia de formar uma banda juntos. Foi então que Dif sugeriu que também entrasse no projecto uma jovem norueguesa que ele tinha conhecido quando a viu a cantar num ferry que fazia a travessia entre a Noruega e a Dinamarca, e com quem viria a namorar pouco depois. Essa jovem era Lene Nystrom, que conjugava a sua carreira de cantora com trabalhos como manequim e assistente de concursos televisivos (ao que uma vez li, chegou a ser uma das Ruth Ritas da versão norueguesa de "A Roda Da Sorte"). Rasted e Norreen acederam e em 1995, o quarteto lançaria o seu primeiro single sob o nome de Joyspeed, uma versão da cantilena infantil "Itsy Bitzy Spider". 




Contudo foi no ano seguinte, com um novo contrato e a mudança de nome para Aqua, que o grupo iniciou o seu caminho rumo ao sucesso. O seu primeiro single, "Roses Are Red", foi n.º 1 do top dinamarquês e valeu-lhes uma nomeação para os prémios da música dinamarquesa. O single seguinte "My Oh My" e o álbum "Aquarium" saíram no início de 1997 mas seria o terceiro single "Barbie Girl" a catapultá-los para um sucesso além-fronteiras. Sim, havia a irresistível batida eurodance, havia a bizarra mas eficaz química entre essa Barbie e esse Ken inconvencionais (ainda que por esta altura Lene e René já não namorassem), mas claro que o ingrediente especial era a provocação a todo o imaginário dessa instituição que é a boneca Barbie. Um imaginário e uma instituição tão presentes na cultura pop que até aqueles como eu que nunca tiveram nenhum interesse em brincar com Barbies (nem sequer para as despir ou danificar) estão bem cientes deles.   

Desde praticamente a sua criação que Barbie tem sido alvo de vários ataques desde as suas medidas corporais irrealistas ao apelo ao consumismo, passando pelo alegado feminismo performativo. Também praticamente desde a mesma altura que a sua empresa criadora e fabricante, a Mattel, tem feito o possível para desmentir ou menorizar as críticas à sua joia da coroa e conferir-lhe toda a dignidade. E com versos como "you can brush your hair, undress me everywhere" ou "I can act like a star, I can beg on my knees", dignidade não era bem o que "Barbie Girl" pretendia elevar em relação à sua boneca-musa e claro que isso enfureceu a Mattel.

A Mattel já movera no passado acções judiciais contra artistas que fizeram intepretações subversivas da Barbie (como por exemplo a cantora luso-belga Lio nos anos 80) mas o processo que moveu contra os Aqua via a sua editora nos Estados Unidos foi de longe o mais famoso, arrastando-se até 2002 com a decisão judicial a favor do grupo. 

Mas se o processo acabou por refrear o sucesso dos Aqua nos Estados Unidos, no resto do mundo "Barbie Girl" foi n.º 1 dos tops de inúmeros países. Por exemplo, contando apenas vendas tradicionais, é ainda hoje o 16.º single mais vendido de sempre no Reino Unido. E na verdade, a maioria das pessoas esteve-se nas tintas para as conotações sexuais e miúdos e graúdos trauteavam, uns alegremente, outros como ironia, a canção. Uma das minhas memórias mais ternas com a "Barbie Girl" foi no baile de Carnaval da minha escola secundária: quando tocava a canção, os rapazes gritavam de um lado "Come on Barbie, let's go party!" ao que as raparigas respondiam com "Ah ah ah yeah!" e "Uh oh uh, uh oh uh!".


Tudo isto sem ainda termos falado do icónico videoclip filmado no maior estúdio cinematográfico de Copenhaga, com a cenografia a recriar deveras fielmente, pese uma ou outra subversão, o universo da Barbie à escala humana. Creio mesmo que estaria muita próxima da cenografia que teria a Barbie Land se o filme da Barbie tivesse sido feito em 1997.  


Em 1998, os Aqua tiveram mais dois singles no primeiro lugar do top britânico: o single subsequente "Doctor Jones" e aquela que é para mim de longe a obra-prima dos Aqua, a sublime balada "Turn Back Time", incluída na banda sonora do filme "Sliding Doors - Instantes Decisivos". Isto para além de outros hits como o reeditado "My Oh My", "Lollipop (Candyman)" (o seu único outro hit nos Estados Unidos) e "Good Morning Sunshine". Paralelamente, o álbum "Aquarium" foi campeão de vendas e colecionou discos de ouro e platina por todo o mundo (Portugal incluído). É o terceiro álbum mais vendido de sempre na Dinamarca, com 350 mil cópias - impressionante se pensarmos que na altura este país tinha basicamente metade da população de Portugal. 

Em 2000, saiu o segundo álbum dos Aqua, "Aquarius", e mesmo sem o sucesso estrondoso do primeiro, também gerou alguns hits como "Cartoon Heroes", "Around The World" e "We Belong To The Sea".  Em 2001, no Festival da Eurovisão desse ano em Copenhaga, os Aqua (acompanhados pelos Safri Duo) foram os convidados especiais, interpretando uma medley dos seus hits, destacando-se alguma linguagem profana por parte Lene Nystrom.

Nos anos seguintes, a banda fez um hiato. Num rasgo à la Fleetwood Mac, em 2001 Lene Nystrom casou-se com Soren Rasted e os dois mudaram-se para Londres onde tiveram dois filhos (a união durou até 2017). Em 2003, Lene lançou o álbum a solo "Play With Me", do qual o single "It's Your Duty" teve alguma rotação no Sol Música e na Rádio Cidade. Por altura dos MTV Europe Music Awards em 2006 em Copenhaga, vi num programa da MTV que René Dif era então o dono da discoteca mais chique da capital dinamarquesa. 

Os Aqua em 2016


Por fim em 2009, os Aqua reuniram-se para promover um álbum best of com o single inédito "Back To The 80's" e desde então têm actuado ao vivo e lançado música intermitentemente, com o terceiro álbum de originais "Megalomania" a sair em 2011. Desde 2016, os Aqua têm actuado como trio depois da saída de Claus Norreen. 

Entretanto, "Barbie Girl" manteve-se um clássico incontornável. Eventualmente a Mattel até utilizou variações do tema (obviamente com outra letra) em algumas suas campanhas da Barbie e multiplicaram-se várias versões por parte de nomes tão díspares como Faith No More, Kelly Key e Ludacris. Recordo-me também, ainda nos anos 90, de passar um videoclip no Sol Música, de um cantor nórdico, cujo nome não recordo, a cantar uma versão em estilo de bossa nova.
E claro, foi actualmente samplado para um dos temas da banda sonora do filme da Barbie, "Barbie World" de Nicki Minaj e Ice Spice que, ao creditar os Aqua, trouxe-os de novo para os tops.  

Selecção de temas dos Aqua e relacionados

"Doctor Jones"



"Turn Back Time"


"Cartoon Heroes"


"Around The World"


"Back To The 80's"


Lene "It's Your Duty"



Nicki Minaj & Ice Spice with Aqua "Barbie World"


quarta-feira, 24 de agosto de 2022

EDtv (1999)

Há uns tempos, relembraram-me deste filme no grupo de Facebook Saudade Nostálgica (que recomendamos que passem por lá e digam que vêm da nossa parte - não sem antes seguir também a Enciclopédia de Cromos no Facebook, claro está!) e a opinião generalizada foi a de que é um filme algo subvalorizado, em parte devido às circunstância em que saiu.

De vez em quando acontece que Hollywood produz dois filmes de temas semelhantes num curto espaço de tempo, algumas vezes intencionalmente (como os dois filmes sobre Cristóvão Colombo que saíram em 1992), outras vezes nem por isso (por exemplo, "AntZ" e "Vida de Insecto" ou "Impacto Profundo" e "Armageddon"). E foi o caso de dois filmes sobre um homem cuja vida é seguida 24 horas por dia através da televisão: "The Truman Show - A Vida Em Directo" em 1998 e "EDtv" em 1999. 




Apesar do sucesso de "The Truman Show", que provou que Jim Carrey tinha mais talento do que se lhe dava crédito (que crime não ter sido sequer nomeado para um Óscar), "EDtv" também tinha os seus argumentos, como um realizador consagrado e experiente em Ron Howard, um bom elenco com nomes como Matthew McConaughey, Woody Harrelson, Ellen DeGeneres, Jenna Elfman, Sally Kirkland, Martin Landau, Dennis Hopper, Rob Reiner e Elizabeth Hurley, e uma premissa que se veio a provar bastante realista. Na verdade tratava-se de um remake do filme franco-canadiano "Louis 19, Le Roi Des Ondes" de 1994.  

Cynthia Reed (DeGeneres), uma produtora de uma estação de televisão sediada em São Francisco apresenta à direcção um projecto inovador: "TrueTV" em que se vai seguir a vida de um cidadão comum 24 horas por dia. Entre os candidatos entrevistados para o programa estão os irmãos Ray (Harrelson) e Ed Pekurny (McConaughey). Ray é o que está mais desejoso de ser famoso mas Cynthia intui que Ed tem mais potencial e é ele o escolhido.



O programa vem virar do avesso a vida estagnada de Ed, que aos 31 anos trabalha num clube de vídeo e não tem mais actividades além de sair com o irmão ou estar com a mãe Jeanette (Kirkland) e o padrasto Al (Landau), que ele vê como uma figura paterna depois do seu pai os ter deixado e que está numa cadeira de rodas num estado de saúde periclitante. Ed também é secretamente apaixonado por Shari (Elfman), a namorada de Ray que trabalha como entregadora da UPS. 



A princípio, o programa, agora renomeado EDtv, começa timidamente com alguns percalços, como Ed a acordar e quase perto de uma… satisfação matinal até que ele dá por conta das câmaras. As coisas começam a aquecer quando Ed descobre que Ray traiu Shari, que acaba com ele a revelar que gosta dela e os dois passam a namorar. O programa vai tendo cada vez mais sucesso, tornando-se mais nacional e com maiores receitas publicitárias e Ed torna-se uma celebridade, sendo mesmo convidado para vários eventos, nomeadamente para o programa de Jay Leno onde ele conhece Jill (Hurley), uma atraente modelo e actriz que demonstra interesse nele. No entanto, tudo isto acaba por condenar o namoro de Ed e Shari, a quem o público rejeita por achá-la desinteressante, e que acaba por sair da cidade. Também a relação entre os irmãos Pekurny fica deteriorada, com Ray ressentido da fama de Ed e por ele ter ficado com Shari. 


Para animar as audiências, a produção decide chamar Jill para convidar Ed para um jantar. Nessa noite, o clima entre ambos aquece e as audiências disparam na expectativa de poder haver sexo em directo. Mas um tórrido beijo entre ambos em cima da mesa acaba em desastre com dolorosas consequências, sobretudo para o gato de Jill.
Outro drama acontece quando Hank (Hooper), o pai de Ed que abandonou a família quando ele era adolescente, aparece aliciado pela estação e revela que a principal razão pela qual se foi embora foi por ter descoberto que Jeanette estava a ter um caso com Al. Ed fica decepcionado com a mãe, mas o maior choque chega quando ele recebe a notícia de que o seu pai morreu durante o sexo com a sua mãe. A princípio ele julga-se tratar de Al, mas acaba por descobrir que se trata do pai biológico. 

A produção do programa torna-se cada vez mais intrusiva e inescrupulosa, ao ponto de Cynthia deixar o projecto, por se desviar da sua ideia original. Também Ed revolta-se contra a produção, sobretudo quando descobre a nova ideia da estação: devido aos contratos que assinaram, Ray, Shari, Jeanette e Al são também agora seguidos pelas câmaras dos programa.

Farto do programa e com saudades de Shari, Ed quer acabar com tudo mas está impossibilitado devido às exigências do contrato que assinou. É então que Ed tem uma ideia: oferecer 10 mil dólares ao telespectador que lhe comunicar o segredo mais escabroso de um dos membros da produção ou da direcção da estação. Anonimamente, Cynthia revela-lhe que Whittaker (Reiner), o director da estação, tem um problema de disfunção eréctil que só é resolvido com uma bomba de líquido. E tal como Ed previa, Whittaker ordena o encerramento do programa antes do seu nome ser divulgado. Assim que as câmaras saem, Ed reconcilia-se com Shari e a família. O filme acaba com uns comentadores televisivos a afirmar que a EDtv e programas similares vão rapidamente cair no esquecimento.   

Além de Jay Leno, o filme tinha cameos de outros apresentadores, em especial de Michael MooreRuPaul que na altura tinha o seu próprio talk show, e que após o acidente em casa de Jill, comenta: "All that boy did was hurt that girl's pussy. I mean the cat!".

Apesar de alegadamente os produtores não estarem preocupados com as comparações com "The Truman Show", sobretudo por este ser sobretudo um drama e "EDtv" uma comédia satírica, mas foi tal o sucesso do primeiro junto do público e da crítica que as comparações acabaram mesmo por prejudicar o segundo, resultando num fracasso de bilheteira. Mas eu lembro-me de ter visto os dois filmes no cinema e de achar que eram suficientemente distintos para que argumentos de que um era o decalque do outro não fazerem sentido.

E apesar do argumento de "EDtv" não ser o mais sólido, o filme tem os seus méritos e merece uma reavaliação mais atenta. O elenco não deslumbra mas cumpre plenamente, nomeadamente com Ellen DeGeneres e Elizabeth Hurley a se destacarem nos seus papéis mais periféricos. E claro está, mais do que "The Truman Show", "EDtv" previa uma realidade que não tardaria a se materializar. Basta lembrar que foi nesse mesmo ano de 1999 que foi para o ar nos Países Baixos o primeiro tomo do colosso "Big Brother" e que nos anos seguintes, a barreira mitológica que separava o mundo da televisão e das celebridades do cidadão comum desabaria para sempre.  

Destaque ainda para o tema principal do filme, "Real Life" dos Bon Jovi.    

Trailer:


 

 "Real Life" Bon Jovi





 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

Manequim (1987)

 Recordamos hoje mais um daqueles filmes que só podiam ter existido nos anos 80. "Manequim" é uma comédia romântica de 1987 realizada por Michael Gottlieb e protagonizado por Andrew McCarthy e Kim Cattrall, sobre um jovem que se apaixona por um manequim, ou melhor, pelo espírito da jovem mulher aprisionada nesse manequim. (Dito assim, até parece que é um filme sobre essa vertente da objectofilia mais fielmente abordada no filme "Lars e o Verdadeiro Amor".) 



Jonathan Switcher (McCarthy) é um jovem escultor de Filadélfia cuja sensibilidade artística leva-o a ser constantemente despedido dos seus empregos, já que isso o torna demasiado lento para o trabalho, e é deixado pela sua namorada Roxie (Carole Davis), que não compreende a sua veia artística. 
Numa noite chuvosa, Jonathan para diante da montra dos armazéns Prince & Company e repara que está lá um dos manequins que ele criou. No dia seguinte, Jonathan salva Claire Timkin (Estelle Getty), a dona da Prince & Company, de ser atingida pela queda do letreiro da loja e como agradecimento, ordena ao seu gestor Daryl Richards (James Spader) que lhe dê emprego. É então que Jonathan passa a colaborar com Hollywood Montrose (Meshach Taylor), o exuberante e divertido vitrinista dos armazéns. 



Certa noite, enquanto Jonathan vai compondo uma montra, fica estupefacto ao ver o manequim que admirara na noite chuvosa ganhar vida, falando e andando como uma mulher a sério (Cattrall). Ela explica que se chama Ema Hesire, ou Emmy, e nasceu no Antigo Egipto, onde um dia, na iminência de ser forçada a um casamento arranjado, refugiou-se numa pirâmide e rogou aos deuses que lhe ajudassem a encontrar o verdadeiro amor. Desde então o seu espírito tem contactado com vários artistas a quem serviu de musa, mas embora tenha conhecido grandes artistas e feito bons amigos, ainda não encontrou o verdadeiro amor que lhe fará novamente ser uma mulher de carne e osso. Emmy previne também que os deuses só a permitem estar na forma humana enquanto ela e Jonathan estiverem sozinhos. 


Com a ajuda de Emmy, as montras criadas por Jonathan dão um renovado sucesso à Prince & Company, para mal de Richards (que na verdade é pago pelos armazéns rivais Illustra para arruinar e depois comprar a Prince & Company) e do Capitão Felix Maxwell (G.W. Bailey, num decalque do Tenente Harris de "Academia De Polícia), que sempre antipatizou com Jonathan. Já Hollywood por vezes apanha Jonathan com Emmy (em manequim) e conclui que o amigo tem um relação especial com o manequim, mas não o julga.  



BJ Wert (Steve Vinovich), o dono da Illustra, pede a Roxie que convença o ex-namorado a vir trabalhar para eles, mas Jonathan, cada vez mais apaixonado por Emmy e feliz por trabalhar num local onde é valorizado, recusa. Enquanto isso, descontente com as suas atitudes, Claire despede Richards e Maxwell e promove Jonathan a vice-presidente da loja. Certa noite, Jonathan leva Emmy a passear pela cidade na sua mota, indiferente ao facto de ela se transformar em manequim assim que alguém os vir. Só que sucede que Richards e Maxwell os observam e descobrem a fixação de Jonathan pelo manequim. Como tal decidem roubar todos os manequins da Prince & Company.

Ao saber do roubo, Jonathan dirige-se à Illustra com a ajuda de Hollywood para salvar Emmy. Esta está prestes a cair dentro de uma máquina trituradora quando no instante final, Jonathan salva-a e ela torna-se definitivamente humana, sinal de que ele é o seu verdadeiro amor. Wert e Richards ordenam à polícia que prendam Jonathan mas Claire intervém com provas de filmagens de videovigilância do roubo dos manequins. (Quando Jonathan lhe pergunta sobre se ela viu imagens dele com Emmy, Claire diz-lhe para não se preocupar com isso.) No final, Jonathan e Emmy casam-se na montra da Prince & Company, com Hollywood e Claire como padrinhos.      


Segundo consta, foi o próprio realizador Michael Gottlieb que teve a ideia para o filme quando um dia viu na montra um manequim, que devido a uma ilusão com luzes, parecia que se mexia. Foram utilizados no filme seis manequins com diferentes expressões, criados por um escultor para o qual Kim Cattrall pousou durante seis semanas. O papel de Jonathan foi inicialmente pensado como sendo o de um homem mais velho, para tentativamente ser interpretado por Dudley Moore, até que se optou por ser reescrita como uma personagem mais jovem. (Aliás na altura Andrew McCarthy tinha 24 anos e Kim Cattrall tinha 30.) 

Apesar de ter sido arrasado pela crítica, "Manequim" foi um sucesso de bilheteira, e mais tarde, de aluguer de vídeo. Outro factor importante para o sucesso foi o tema principal, "Nothing's Gonna Stop Us Now" da banda rock Starship, que se tornou um hit global e foi nomeado para o Óscar de Melhor Canção Original. Kim Cattrall teve aqui o seu primeiro grande  papel de protagonista (e ainda estávamos a onze anos daquele que seria o seu papel mais célebre em "O Sexo e A Cidade").
Mas o grande destaque é Meshach Taylor, um scene stealer no papel de Hollywood Montrose, que à primeira vista parece ser todo um estereótipo do gay extravagante e colorido (até a cobertura do seu carro é azul com bolinhas vermelhas!) mas numa altura em que a homossexualidade era mostrada em Hollywood ora em meias-tintas ora de forma trágica, um filme onde uma personagem gay confortável na sua pele, que não é julgada (excepto pelos vilões), que tem vida amorosa (ele refere várias vezes o seu namorado Albert) e amigos que o defendem, e que não vira a cara à luta ("As duas coisas que eu mais gosto de fazer é lutar e beijar rapazes!") era algo inovador. 


Em 1991, surgiu a sequela, "Manequim de Carne e Osso", que apesar da trama se passar na mesma loja em Filadélfia, entraram apenas dois actores do primeiro filme: Meshach Taylor de novo como Hollywood Montrose e Andrew Hill Newman, que no primeiro filme era o empregado de limpeza que, ao ver Emmy ganhar vida quando Jonathan a salva da máquina trituradora, começa a beijar os outros manequins para ver se alguma deles também se transforma em mulher, e que no segundo é um segurança da loja. 

Trailer:


"Nothing's Gonna Stop Us Now" Starship:





terça-feira, 3 de maio de 2022

Festival da Eurovisão 1997


Aproxima-se mais uma edição do Festival da Eurovisão e como é de tradição, recordamos mais uma edição antiga. Desta feita, recuamos 25 anos até ao dia 3 de Maio de 1997 e até Dublin, capital da Irlanda.


O 42.º Festival da Eurovisão teve lugar no Point Theatre de Dublin, tal como em 1994 e 1995. Devido a quatro vitórias da Irlanda nos últimos cinco anos, a televisão irlandesa RTÉ já estava um bocado estafada demais por ter de organizar tantos certames (para não falar dos custos dos ditos). A princípio até foi equacionada uma organização conjunta com a BBC da Irlanda do Norte. A apresentação esteva a cargo de Carrie Crawley e Ronan Keating, da célebre boyband irlandesa Boyzone que fazia muito sucesso na altura. Aliás foram os Boyzone que estiveram na actuação de intervalo entre o desfile das canções e as votações, com um tema inédito "Let The Message Run Free". Carlos Ribeiro fez os comentários para a RTP e Cristina Rocha foi a porta-voz dos votos de Portugal. 



Uma das razões pelas quais eu ainda não tinha feito um artigo sobre esta edição foi porque eu tinha guardado más memórias dela, devido ao aziago resultado de Portugal. Mas durante o confinamento, eu revi esta edição e, ultrapassando esse espinho, tive de concordar que foi uma edição muito bem conseguida a vários níveis. Na altura, a Irlanda vivia um tempo de prosperidade e queria ser vista como um país moderno, já para além dos tradicionais clichés culturais. Além disso na altura, a tecnologia dava importantes avanços, pelo que foi interessante e premonitório ver ecrãs a dominarem esta edição, do palco ao genérico inicial, passando pelos postcards. E se no início da década, parecia haver um certo desfasamento entre as canções do Festival e os sons que dominavam na altura, aqui as canções concorrentes reflectiam bem vários tipos de sonoridades dos anos 90. 

Outra particularidade desta edição foram as mensagens de vários antigos participantes do Festival da Eurovisão a recordarem a sua passagem pelo certame e a desejar boa sorte aos intérpretes: Benny Andersson e Bjorn Ulaveus dos ABBA (Suécia 1974), Céline Dion (Suíça 1988), Julio Iglesias (Espanha 1970), Cliff Richard (Reino Unido 1968 e 1973), Bucks Fizz (Reino Unido 1981), Sandra Kim (Bélgica 1986), Bobbysocks (Noruega 1985), Johnny Logan (Irlanda 1980 e 1987), Secret Garden (Noruega 1995) e os responsáveis pelas quatro últimas vitórias da Irlanda, Linda Martin (1992), Niamh Kavanagh (1993), Charlie McGettigan & Paul Harrington (1994) e Eimear Quinn (1996).

25 países participaram neste ano: ausentes no ano anterior, Alemanha, Dinamarca, Hungria e Rússia regressaram neste ano bem como a Itália, que não participava desde 1993. Já Bélgica, Finlândia e Eslováquia, participantes em 1996, ficaram de fora este ano. Era também suposto Israel regressar em 1997, mas como a data do Festival coincidia com a de uma data religiosa dedicada às vítimas do Holocausto, declinou a participação pelo que Bósnia & Herzegovina ocupou a vaga. Importa ainda referir que pela primeira vez foi introduzido o televoto popular no Festival da Eurovisão, mas em apenas cinco países (Áustria, Alemanha, Reino Unido, Suécia e Suíça) e por causa disso, pela primeira vez foi exibido um resumo das actuações de todos os países onde seriam indicados nos países com voto telefónico os números correspondentes a cada canção, algo que rapidamente viria a tornar-se comum no Festival da Eurovisão. 

Como habitualmente, vamos rever as canções por ordem inversa da classificação.  

Célia Lawson (Portugal)

E o melhor é arrancar logo o penso: nesse ano, pela primeira vez desde a sua participação inaugural em 1964, Portugal não recebeu qualquer ponto. Sem dúvida um resultado deveras injusto para a nossa canção "Antes Do Adeus" na voz de Célia Lawson, que estava a longe de ser a pior canção das que desfilaram nesse ano. Contudo, também não era das mais memoráveis e como tal acabou por passar despercebida aos júris e televotos europeus. Célia Lawson ficou conhecida pela sua participação na terceira edição do "Chuva De Estrelas" onde chegou à grande final com uma imitação de Oleta Adams, (tal como o seu irmão Paulo imitando Jim Kerr dos Simple Minds) e tinha acabado de lançar o seu primeiro álbum "First". A acompanhá-la em palco estava um coro de quatro vozes, a fazer lembrar os agentes do Matrix (um deles, o mais alto, era nada menos que Mico da Câmara Pereira). A música e a orquestração estiveram a cargo de Thilo Krassmann e a letra (que mencionava Pedro Abrunhosa e José Saramago) era de Rosa Lobato Faria, na quarta e última vez que assinara uma letra para uma canção eurovisiva. Célia Lawson também escreveu a letra de "Eu Sou Aquele" dos Excesso. Em 2017, participou no "The Voice". 

Tor Endersen (Noruega)

Mas pelo menos, Portugal não provou sozinho a amargura dos nul points, já que a Noruega foi também corrida a zeros. O que também foi um choque para este país que vinha de uma vitória em 1995 e de um segundo lugar em 1996. Ainda por cima, Tor Endersen finalmente conseguira ir à Eurovisão depois de ter tentado sete vezes antes (fez parte do coro da canção norueguesa de 1988). Contudo, apesar dos zeros e devido a um novo sistema de relegação que apurava a média de pontos de cada país no últimos cinco anos, Portugal e Noruega puderam participar em 1998.    

Barbara Berta (Suíça)

Mrs. Einstein (Países Baixos)

Mais acima, Suíça e Países Baixos repartiram o 22.º lugar com 5 pontos. Barbara Berta representou as cores helvéticas com uma canção em italiano da sua autoria, "Dentro Di Me".
Já os Países Baixos levaram o quinteto feminino Mrs. Einstein com a canção "Niemand Heeft Nog Tijd" ("já ninguém tem tempo"). O grupo que na altura era formado por Linda Snoeij, Suzanne Venneker, Marjolein Spijkers, Saskia van Zutphen e Paulette Willemse estava no activo desde 1990, e embora só tenham editado um disco por ocasião da participação na Eurovisão, as Mrs. Einstein continuam a actuar por terras holandesas, com Spijkers, van Zutphen e Willemse ainda na formação actual. 

Bettina Soriat (Áustria)

A Áustria foi representada por Bettina Soriat, que esteve no coro da canção austríaca do ano anterior. Com uma larga experiência como cantora e bailarina, tendo participado em vários musicais do meio teatral de Viena, Soriat levou a Dublin o tema "One Step" onde evidenciava os seus dotes de dançarina, que ficou em 21.º lugar com 12 pontos.

Paul Oscar (Islândia)

A Islândia foi o último país a actuar e ficou em 20.º lugar com 18 pontos, mas a sua actuação foi uma das mais marcantes da noite e bastante ousada para a época. Paul Oscar cantou "Minn Hansti Dans" ("minha dança final") sentado num sofá branco, acompanhado por quatro bailarinas vestidas de cabedal. Com uma carreira artística desde infância e abrangendo vários estilos, Paul Oskar tinha-se também notabilizado no seu país como DJ e figura de proa da comunidade LGBT. A sua canção era um tema techno-pop que não destoaria numa Eurovisão da década seguinte. Há que notar que três dos quatro países que deram pontos à Islândia foram os que tinha televoto, pelo que fica a ideia que se a maioria dos países tivesse voto popular nesse ano, quem sabe se o resultado não teria sido melhor.

Bianca Schomburg (Alemanha)

Alma Cardzic (Bósnia & Herzegovina)

A Alemanha e a Bósnia & Herzegovina ficaram em 18.º lugar com 22 pontos. A representante alemã foi Bianca Schomburg, que no ano anterior, vencera a primeira final europeia do "Chuva de Estrelas" imitando Céline Dion (com Portugal em segundo lugar com Rui Faria como Elton John). Em Dublin, cantou "Zeit" ("tempo"). Aproveitando uma nova regra que permitia uma faixa gravada completa, a Alemanha foi um dos quatro países que não recorreram à orquestra. 
Já a Bósnia & Herzegovina foi representada por Alma Cardzic, que já tinha representado o país em 1994 (também em Dublin) em dueto com Dejan Lazarevic, que agora a solo cantou "Goodbye". 

ENI (Croácia)

Como se lembram, em 1997, as cinco mulheres mais famosas dos planeta eram as Spice Girls, por isso não era admirar que algum país apostasse em trazer algum do espírito das raparigas especia(r)i(a)s para a Eurovisão. E esse país foi, algo surpreendentemente, a Croácia que com o grupo ENI e a canção "Probudi Me" ("desperta-me"), era impossível não associar à estética e sonoridade das Spice Girls: Elena Tomecek evocava a sensualidade de Geri Halliwell e Ivona Maricic a inocência de Emma Bunton, enquanto Nikolina Tomljanovic surgiu desportiva como Melanie C. e Iva Mocibob representaria talvez um elo perdido entre Melanie B. e Victoria Beckham. A Croácia ficar-se-ia pelo 17.º lugar com 24 pontos. Mas ao contrário das Spice Girls, as ENI têm continuado juntas no activo no seu país desde então. 

Kolig Kaj (Dinamarca)

A Dinamarca também apostou na diferença com um tema rap, "Stemmen I Mit Liv" ("a voz na minha vida") interpretado por Thomas Laegard Sorensen, aliás Kolig Kaj, sobre um homem obcecada sobre uma voz feminina que ele ouviu por acaso num chamada de sondagens, ficando em 16.º lugar com 25 pontos. A Dinamarca só voltaria a levar um tema completamente em dinamarquês à Eurovisão em 2021.  

Alla Pugacheva (Rússia)

Na sua terceira participação, a Rússia foi representada por uma das maiores cantoras do país desde os tempos da União Soviética. Com uma carreira iniciada em 1965, Alla Pugacheva já vendera mais de 200 milhões de discos e gravara em várias línguas e em 1991, foi condecorada como a "Artista do Povo da URSS". Com tanta consagração, fazia sentido que Pugacheva tivesse cantado um tema intitulado "Prima Donna". Curiosamente na altura, ela era casada com Philipp Kirkorov, o representante russo em 1995. Apesar da primorosa interpretação, a Rússia ficou em 15.º lugar com 33 pontos e só voltaria a participar na Eurovisão em 2000.    

Blond (Suécia)

Na altura, também as boybands estavam em alta e não foi de estranhar que dois países tivessem sido representados por uma boyband. Um deles foi a Suécia com o trio Blond, que como o nome indicava, era composto por três membros bem loirinhos: Jonas Karlhager, Gabriel Forss e Patrick Lundstrom. Os três cantaram "Bara Hon Älskar Mig" ("se ao menos ela me amasse"), alcançando o 14.º lugar com 36 pontos. 

VIP (Hungria)

O outro país que levou uma boyband foi a Hungria. Os VIP cantaram "Miért kell, hogy elmenj?" ("porque tiveste de partir?"), uma balada que se fosse em inglês, não destoaria no repertório dos Backstreet Boys. O grupo era composto Jozsa Alex, Imre Rakonczai, Viktor Rakonczai e Gergo Racz, com estes dois últimos a terem mais tarde sucesso a solo no seu país. No Festival, a canção húngara ficou em 12.º lugar com 39 pontos.

Marianna Zorba (Grécia)

Na mesma posição e com os mesmos pontos ficou a Grécia. Marianna Zorba cantou "Horepse" ("dança") um tema que não destoaria numa aula da dança do ventre.  

Anna-Maria Jopek (Polónia)

A Polónia ficou em 11.º lugar com 54 pontos. Anna-Maria Jopek cantou "Ale Jestem" ("mas eu sou"), um tema folk. Jopek viria a ter uma bem-sucedida carreira como intérprete de jazz e world music, colaborando com nomes sonantes como Pat Metheny, com quem editou um álbum conjunto em 2002.

Tanja Ribic (Eslovénia)

Com uma canção num estilo semelhante à da polaca, a Eslovénia ficou em décimo lugar com "Zbudi Se" ("acorda"), cantada pela loiríssima Tanja Ribic. Este será porventura o momento mais notório de Tanja Ribic como cantora, já que tem trabalhado mais como actriz de teatro e cinema. 

Debbie Scerri (Malta)

Debbie Scerri foi a representante de Malta, cantando "Let Me Fly", obtendo o nono lugar com 66 pontos, incluindo um doze da Turquia. Mas o que ficou sobretudo para história desta participação maltesa foi o facto de Debbie Scerri ter sido a primeira recipiente do Prémio Barbara Dex (o nome da representante belga de 1993), o prémio para o participante mais mal vestido, devido ao seu vestido largueirão roxo e azul turquesa. A partir de 2022, o prémio foi renomeado You're A Vision e agora distingue o look mais original de entre os participantes de cada edição. Debbie Scerri é hoje por hoje sobretudo conhecida no seu país como apresentadora.  

Maarija (Estónia)

Duas cantoras que tinham participado em 1996, voltaram nesse ano a representar novamente o seu país. Uma delas foi Maarija-Liis Ilus que representava a Estónia pelo segundo ano consecutivo. Se em 1996 fê-lo em dueto como Ivo Linna, desta vez apresentou-se a solo (e sob o nome de Maarija, simplesmente) cantando "Keelatud Maa" ("terra proibida"). Ficou em oitavo lugar com 82 pontos um pouco aquém do quinto lugar do ano transacto, mas ainda assim, um bom resultado.

Fanny (França)


Fanny Biascamano foi a representante da França, e apesar de ter apenas 17 anos, já era uma cantora de grande sucesso desde a pré-adolescência quando em 1991 teve um hit com uma versão de "L'homme à la moto" de Edith Piaf. Em Dublin, cantou "Sentiments Songes" ("sentimentos sonhados") alcançando o sétimo lugar com 95 pontos.   

Marcos Llunas (Espanha)

A vizinha Espanha obteve o sexto lugar em 1996 com a powerballad "Sin Rencor" na voz de Marcos Llunas. Filho do célebre cantor romântico Dyango, Llunas estava habituado a este tipo de competições pois ganhara o Festival da OTI de 1995 com "Eres Mi Debilidad". O seu disco mais recente data de 2012 é um tributo ao repertório do seu pai. Se virem esta actuação no YouTube, prestem atenção ao momento em que Marcos Llunas olha para a câmara com um esgar de quem apanhou um choque eléctrico. 

Hara Konstantinou (Chipre)

Chipre foi o primeiro país a actuar, o que sem dúvida deu sorte já que repetiu o melhor resultado do país até então, ao alcançar o quinto lugar, tal como em 1982, posição que também seria repetida em 2004 e apenas ultrapassada com o segundo lugar de 2018. Os representantes cipriotas foram os irmãos Hara e Andreas Konstantinou, que cantaram "Mana Mou" ("terra mãe"), com uma participação muito activa dos quatro cantores do coro.  

Jalisse (Itália)

Ausente desde 1993, a Itália regressava à Eurovisão, mas segundo consta foi um regresso meio contrariado. Isto porque na altura, caso um país não estivesse interessado em participar, era obrigatório informar disso atempadamente à EBU, mas aparentemente a RAI não o fez dentro da data prevista e para não pegar pesada multa, a Itália acabou por participar, levando a canção vencedora do Festival de San Remo desse ano: "Fiumi Di Parole" ("rios de palavras") interpretada pelo duo Jalisse. O duo era composto pelo casal Alessandra Drusian e Fabio Ricci. Tanto em San Remo como na Eurovisão, foram apontadas semelhanças da canção italiana com "Listen To Your Heart" dos Roxette. Porém, nenhuma acção foi tomada quanto a isso e a Itália alcançou o quarto lugar com 114 pontos (incluindo 12 de Portugal). Mas nem este bom resultado alentou a Itália a continuar a participar na Eurovisão, só regressando ao certame em 2011. 

Sebnem Paker (Turquia)


Antes de 1997, o historial da Turquia no Festival da Eurovisão não era muito famoso, com apenas um resultado no top 10 em 1986. Mas nesse ano, a Turquia conseguiu um brilhante terceiro lugar com 121 pontos e nos anos vindouros obteria outros grandes resultados, nomeadamente a vitória em 2003. Sebnem Paker já tinha sido a representante turca em 1996, onde ficou em 12.º lugar, e regressava um ano depois com o Grup Etnik e o tema "Dinle" ("escuta"), um tema com sonoridades bem turcas a que a assistência presente respondeu batendo palmas animadamente no refrão. Sebnem Paker ainda tentou representar o país por um terceiro ano consecutivo em 1998, mas não venceu a final nacional. Actualmente é professora do ensino secundário. 

Marc Roberts (Irlanda)

Com quatro vitórias nos últimos cinco anos, a Irlanda foi de longe o país dominante do Festival da Eurovisão nos anos 90. E em 1997, obteve mais um excelente resultado ao ficar em segundo lugar com 157 pontos. Marc Roberts cantou "Mysterious Woman" sobre alguém que fica fascinado após cruzar olhares com uma mulher misteriosa no aeroporto. 


Os Katrina & The Waves obtiveram a quinta vitória do Reino Unido


Contudo, rapidamente ficou claro que a vitória nesse ano não escaparia ao Reino Unido, com um esmagador total de 227 pontos, mais setenta que a Irlanda. A banda rock Katrina & The Waves, composta por dois britânicos (Kimberley Crew e Alex Cooper) e dois americanos radicados na Britânia (Katrina Leskanich e Vince De La Cruz), deixara a sua marca nos anos 80 com o hit "Walking On Sunshine". Porém embora a banda tivesse continuado a dar concertos e a lançar discos desde então, nunca conseguiu repetir esse sucesso, pelo que esta vitória na Eurovisão foi o segundo pico de notoriedade para a banda. "Love Shine A Light" foi composta pelo guitarra Kimberly Rew e foi o único membro da banda que não esteve em palco, com Phil Nicol a tocar guitarra em seu lugar, sendo ainda acompanhados no coro por Miriam Stockley e Beverly Skeete. Contudo, estes novo fogacho de fama durou pouco e os Katrina & The Waves terminaram em 1999. Katrina Leskanich tem contudo continuado a actuar a solo desde então e eu vi-a ao vivo em 2012 na Eurovision Party de Setúbal. Aliás, Katrina nunca deixou de abraçar o seu legado na Eurovisão e por exemplo, apresentou a gala dos 50 anos da Eurovisão em 2005 e em 2017 foi a porta-voz dos votos do Reino Unido (que deu um dos muitos 12 a Portugal). Em 2020, quando o Festival da Eurovisão foi cancelado devido à pandemia de Covid-19, os representantes do diversos países que iriam participar nesse ano (excepto os da Bélgica) cantaram "Love Shine A Light".   

Festival da Eurovisão 1997 (transmissão da RTP)

 



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