segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Ana "Laranja, Laranjinha" (1985)

por Paulo Neto

No outro dia, no meio de uma das minhas várias reflexões profundamente estupidificantes, pus-me a pensar que a laranja (tanto a cor como o fruto) proliferou na década de 80. E nem sequer precisava de viver no Algarve, para ter a laranja pluripresente nos meus anos de infância.



Por acaso, até foi fruto que nunca gostei muito - o meu consumo de citrinos raramente foi além de uma ou outra tangerina ou clementina (que também conhecia com a designação "marroquina") de vez em quando - mas os meus pais sempre gostaram muito de laranja, pelo que era presença regular na fruteira lá de casa. Mas em alternativa, nos anos 80, eram inúmeros os sumos e as guloseimas com esse sabor. Recordo-me por exemplo dos sumos em pó como o ainda existente Tang e os desaparecidos Dawa e Clic e do efémero período em que o Super Maxi da Olá teve outros sabores que não o clássico creme de baunilha, incluindo o sabor a laranja.





Depois se olharmos para o futebol nos anos 80, constatamos que a principal figura do Mundial de 1982 em Espanha, é capaz de não ter sido Paolo Rossi que conduziu a Itália à vitória final, muito menos os consagrados Zico e Michel Platini, mas sim a mascote do certame, o Naranjito. Apesar de Portugal não ter participado nesse Mundial, lembro-me de ver o Naranjito em vários sítios e formas: bonecos, autocolantes e porta-chaves e ainda hoje permanece como a mais mítica mascote de um Mundial de Futebol.


Depois em 1988, a selecção holandesa de futebol, de célebre epíteto "a Laranja Mecânica", treinada por Rinus Michels, o mesmo que conduziu a revolucionária selecção holandesa dos anos 70, e onde pontificavam nomes como Frank Rijkaard, Ruud Gullitt e Marco Van Basten, chegava àquele continua a ser o seu único grande título, o do Europeu desse ano que teve lugar na Alemanha.




Falar da cor laranja em Portugal acaba por sempre resvalar no facto desta ser a cor política do PSD. E foi em 1985, que após a ascensão meteórica no congresso dos "laranjas" na Figueira da Foz, que Cavaco Silva chegou a primeiro-ministro da nação, cargo que ocuparia por dez anos.




Tudo isto para falar naquela que é a minha canção preferida da cantora Ana. A cantora nascida em Sintra em 1954 de nome Ana Bela Alves esteve bastante presente nos anos 80. Em 1985, ela já se fizera notar com temas como "Quanto Mais Te Bato" e "Sonha Comigo" e, como era hábito para qualquer cantor da época, marcou presença no Festival da Canção, a saber o de 1983, com o tema "Parabéns, Parabéns a Você", escrito por Luís Jardim (sim, esse mesmo, o júri dos "Ídolos" e de "A Tua Cara Não Me É Estranha") - destacando-se pela sua ginástica vocal e a sua capacidade invulgar para atingir notas agudas. No fundo, podia-se dizer que Ana era a Kate Bush do nacional-cançonetismo.

Mas em 1985, Ana editou um single que tomou de assalto as ondas médias nacionais e que eu não resistia em parar para ouvir assim que soava no éter. "Laranja, Laranjinha" é todo um épico de metáforas cítricas sobre uma trepidante batida electro-pop, onde não podiam faltar os indispensáveis agudos de Ana, que nem a minha vozinha imberbe de cinco anos conseguia reproduzir. Quem não se recorda do refrão:

"Sou laranja, laranjinha 
Tão corada, coradinha
Tenho o Sol do Verão em mim guardado.

Sou laranja, laranjinha
Laranjada tão fresquinha
Para matar a sede ao meu namorado!"

(Vistas bem as coisas, isto podia ser uma declaração de amor entre militantes do PSD!)

Eis Ana a interpretar o tema no programa da RTP "Deixem Passar A Música":


Ao pesquisar para este artigo, vim a descobrir que o tema é na verdade uma versão de um original em italiano, "Abbronzati Dai Miraggi", editado em 1983 pela cantora Giuni Russo, uma diva do pop-rock transalpino que infelizmente faleceu de cancro em 2004. Eis aqui o original:



Quanto a Ana, continuou a somar outros êxitos nos anos seguintes como "Tapete Voador", "Isso Já Não Se Faz", "Não Digas Mais Nada" e já nos anos 90, "Filha do Vento" e "Quando a Rádio Toca Esta Canção". Nos últimos anos, a carreira de Ana tem sido bem mais discreto ainda que continue bem activa, cantando pelo país fora. Em 2004, editou um álbum best of para comemorar 25 anos de carreira que incluiu uma gravação actualizada de "Quanto Mais Te Bato".

   

Se gostou, Partilhe: »»

Save on Delicious

2 comentários:

  1. falta os Orange Juice, Oran Juice Jones e Orange Crush dos REM

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Viva! Não conhecia esas primeiras sugestões, hei de investigar :)

      Eliminar

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...