sexta-feira, 2 de maio de 2014

Festival da Eurovisão 1984

por Paulo Neto

Se no ano passado, recuámos até 1983 para falar do Festival da Eurovisão desse ano, tido como o mais cromo de sempre, uma vez que a edição deste ano está prestes a se realizar (já agora boa sorte para a nossa representante portuguesa Suzy em Copenhaga), justifica-se mais um recuo de trinta anos no tempo para analisarmos a edição de 1984, que teve lugar a 5 de Maio desse ano no Grand Theatre do Luxemburgo em pleno Kirchberg, a zona onde se situam as instituições da União Europeia.

Desirée Nosbusch

Na virtude de ter vencido no ano anterior, o grão-ducado acolhia de novo o Festival, tal como o fizera em 1966 e 1973. Foram dezanove os países concorrentes, assinalando-se o regresso da Irlanda, ausente em 1983, e as ausências da Grécia e de Israel por essa data coincidir com importantes datas religiosas desses países. A apresentadora era uma jovem cantora e apresentadora de 19 anos, Desirée Nosbusch, que como tal conduziu o certame com uma informalidade pouco vista até então. Tal como Marlene Charrell em 1983, Desirée quis exibir o seu poliglotismo fazendo a introdução em luxemburguês, francês, inglês, italiano e alemão. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Fialho Gouveia.


O Festival da Eurovisão de 1984 não teve as bizarrias da edição anterior e notou-se um pouco mais de classe quer no cenário, quer nas sonoridades. Porém, ou não estivéssemos em plenos anos 80, por lá se desfilaram algumas roupas e penteados que decerto os respectivos intérpretes hoje se arrependem. Foi também o primeiro Festival que eu me recordo ter visto. O palco também foi um dos melhores da década, com várias cores e motivos geométricos que mudavam sempre que um novo país actuava. 
Vamos analisar as 19 canções por ordem inversa de classificação, ou seja do último para o primeiro classificado.

 









Anita (Áustria) e Vlado & Izolda (Jugoslávia) 

Nesse ano a fava calhou à Áustria que se viu no último lugar com meros cinco pontos. A jovem Anita  de cantou "Einfach Weg" ("vai-te embora apenas") vestida de rosa pálido, mas não convenceu a Europa. A canção até não era má, mas era sem dúvida pouco memorável. Um dos cantores do coro, Gary Lux, seria o representante austríaco no ano seguinte.
A Jugoslávia recebeu cinco vezes mais pontos que a Áustria mas não conseguiu melhor do que o penúltimo lugar. A bonita sérvia Izolda Baruzja participava no Festival pelo terceiro ano consecutivo, depois de ter integrado o grupo Aska em 1982 e ter apoiado Daniel em 1983 a dançar e a fazer coro. Desta vez, ela fez dueto com o croata Vlado Kalember no tema "Ciao amore", que como o título indica era um tema bem romântico. A voz forte e rouca de Vlado sobrepunha-se à de Izolda, mas esta compensava movimentando-se de forma sensual à volta do parceiro, visivelmente tenso com os avanços da beldade. Esta tensão sexual já tinha sido explorada no videoclip de apresentação da canção.











Dollie De Luxe (Noruega) e Rainy Day (Suíça)






A proposta neo-romântica veio da Noruega, com o duo feminino Dollie De Lux, composto por Benedicte Adrian e Ingrid Bjornov e o tema "Lenge leve livet" ("longa vida à vida"). Era um tema pop bem anos 80, e as duas apresentaram-se com roupas e penteados a condizer, numa actuação bem descontraída.
Em 16.º lugar ficou a Suíça com o trio Rainy Day e uma balada bem calminha em alemão, "Welche Farbe hat der Sonneschein?" ("Que cor tem o brilho do Sol?").











Mary Roos (Alemanha) e Andy Paul (Chipre)

Na posição seguinte ficou Chipre com o Marco Paulo lá do sítio, Andy Paul, que cantou "Anna Maria Lena". Destaque para a coreografia das cantoras de coro.
A Holanda e a Alemanha ficaram empatadas no 13.º lugar. A alemã Mary Roos já tinha representado o seu país em 1972 tendo sido terceira, mas nesse ano deixou-se dominar pelos nervos e o 13.º lugar foi o melhor que conseguiu. O tema "Aufrecht geh'n" - que se pode traduzir como "andar de cabeça de erguida" - tinha uma particular ressonância na vida da cantora, que na altura passava por uma separação.



Maribelle (Holanda) e Bes Yil Onçe, On Yil Sonra (Turquia)

Na mesma posição, muito injustamente, ficou a Holanda. Além da canção portuguesa e da canção vencedora desse ano de 1984, a minha outra memória do Festival da Eurovisão mais antiga é a de Maribelle com uma flor no cabelo e um vestido com um laçarote a cantar esta comovente balada, "Ik hou van jou" ("eu amo-te"). Apesar do escasso resultado, continua a ser uma das canções holandesas mais populares. 
O 12.º lugar que a Turquia alcançou esse ano foi suficiente para ser o melhor resultado desse país até então. Durante imenso tempo, podia-se esperar da Turquia algo exótico e fora do baralho. E este ano não foi excepção com um número de ethno-disco interpretado pelo quarteto Bes Yil Onçe, On Yil Sonra ("5 anos antes, 10 anos depois"), que surgiu com uma coreografia estudada e uns fatinhos azuis que mais faziam parecer que eles iam passear ao jardim após a missa de domingo do que cantar num palco. Ao que parece, a canção "Halay" levou uma grande transformação, com a versão eurovisiva a ser bem mais mexida que a original e adicionando um refrão que fazia lembrar o "Voulez Vous" dos ABBA.


Maria Guinot (Portugal)

Mesmo à beirinha do top 10 ficou Portugal, com aquela que é amplamente considerada uma das nossas melhores canções da Eurovisão. Como já disse anteriormente, o Festival da Canção desse ano esteve recheado de estrelas, mas mesmo assim Maria Guinot venceu de forma categórica com "Silêncio e Tanta Gente". Pela primeira vez, a canção portuguesa foi a última a actuar e foi daqueles anos em que a nossa canção não podia ser mais diferente da canção vencedora. Maria Guinot teve uma prestação irrepreensível, acompanhada no coro por uma cantora, da qual só se sabe o primeiro nome: Inês. É consensual que Portugal merecia um pouco melhor que o 11.º lugar, mas teríamos de esperar até 1991 para conseguirmos uma melhor posição no Festival. Nos anos 60, 70 e 80, era bastante usual que cantores por essa Europa fora versionassem canções da Eurovisão nos seus próprios idiomas, e foi o que sucedeu com "Silêncio e Tanta Gente" que teve direito a uma versão em finlandês gravada por Anneli Saaristo (com o título "Jos Joskus"). A canção também gerou um dos nossos mais criativos videoclips de apresentação, com Guinot envolvida numa espécie de thriller psicológico na Madeira.



Sophie Carle (Luxemburgo) e Kirka (Finlândia)

Em 10.º lugar, ficou a canção de casa. Dada a pequenez do grão-ducado, o Luxemburgo costumava recorrer a intérpretes estrangeiros para o representar na Eurovisão, mas neste ano apostaram na prata da casa com uma luxemburguesa de gema, a bonita e jovem Sophie Carle. Apesar de ter um tema bem moderno e alegre, "100% d'Amour" a actuação ficou na história pelos desafinanços de Sophie. Não é de admirar que ela tenha depois tenha deixado as cantorias de lado e apostado numa carreira de actriz.
O tema mais esgrouviado foi o da Finlândia, interpretado por Kirka, que além de cantar, ainda teve tempo para tocar harmónica e para interagir com os três membros do coro, cada um vestido à sua maneira: uma com um vestido formal, outra com um vestido de boneca e o rapaz vestido como se fosse um dos membros dos Duran Duran. Porém a aposta kitsch resultou, com "Hengailaan" ("vamos andar por aí"), a conseguir o nono lugar. Kirka, que era de ascendência russa, era um dos cantores mais populares da Finlândia e infelizmente faleceu em 2007.




Annick Thomazeau (França) e Belle & The Devotions (Reino Unido)

Na altura, com uma simples balada a França nunca se comprometia e a voz canora de Annick Thomazeau, a cantar "Autant d'amoureux que des étoiles" rendeu o oitavo lugar. 
A actuação mais controversa foi a do Reino Unido, não porque as três integrantes do grupo Belle & The Devotions surgiram em palco com uns cabelos e umas roupas de cores tão garridas e fluorescentes que agrediam a retina dos telespectadores, mas porque durante a actuação foram vaiadas pelo público presente, em resposta aos distúrbios que os hooligans ingleses tinham causado no Luxemburgo em Novembro de 1983. Apesar do look das britânicas não poder ser mais anos 80, a canção em si, "Love Games", soava a anos 60, parecendo uma canção das Supremes e apesar de tudo, ficou em sétimo lugar.



Jacques Zegers (Bélgica) e Alice & Franco Batiatto (Itália)

Bélgica e Itália partilharam o quinto lugar. A Bélgica, representada por Jacques Zegers e o tema "Avanti la vie", teve uma actuação bastante curiosa pois embora o espírito positivo da canção, Jacques e as cantoras do coro permaneceram juntinhos e quietos, como se quisessem passar despercebidos.  
A Itália teve indubitavelmente uma das melhores canções nesse ano. O duo Alice & Franco Batiatto cantou "I treni di Tozeur" e se não houve dúvidas quanto à qualidade da canção e da interpretação, o vestido de Alice parecia uma gabardina para a chuva e Franco tinha um ar tão escanzelado que se houvesse uma corrente de ar no teatro, ele seria arrastado.

Hot Eyes (Dinamarca) e Bravo (Espanha)

A Dinamarca ficou em quarto lugar com o tema "Det lige det" ("é só isso"), na primeira de três participações eurovisivas do duo Hot Eyes, composto por Soren Bundgaard e Kirsten Siergaard. Na altura, Kirsten estava grávida do primeiro filho e curiosamente quando voltou em 1988, surgiu grávida do segundo, dessa vez num estado tão avançado que poderia eventualmente dar à luz logo ali no palco.
Com 12 pontos de Portugal, a Espanha ultrapassou a Dinamarca e conseguiu alcançar o pódio ficando em terceiro lugar (pessoalmente acho que não merecia tanto). Os representantes de nuestros hermanos eram o grupo Bravo, liderado por Amaya Saizar, com o tema "Lady Lady", sobre uma balzaquiana agarrada às suas ilusões amorosas de juventude.


Linda Martin (Irlanda)

Nos dois primeiros lugares ficaram duas canções que não podiam soar mais a 1984. A Irlanda ficou em segundo lugar com o tema "Terminal 3" interpretado por Linda Martin e escrito por Johnny Logan, que ficaria na história como o cantor que venceu duas vezes o Festival da Eurovisão em 1980 e 1987. A Irlanda esteve muito perto da vitória, mas em 1992, obteria mais um triunfo precisamente com Linda Martin.
Dez anos depois dos ABBA, a Suécia voltava de novo a vencer o Festival da Eurovisão com o alegremente kitsch "Diggiloo Diggiley", interpretado pelos Herreys, três irmãos - Per, Richard e Louis - que como seria de esperar eram todos altos e louros. Não foi das vitórias mais consensuais, mas a verdade é que o tema era um a perfeita ilustração do que era uma canção da Eurovisão nos anos 80: um tema animado e filho do seu tempo, um título sem significado e os três manos, vestidos com camisas de poliéster, calças brancas e botas douradas, todos muito certinhos nas vozes e nas coreografias.


The Herreys (Suécia)

Para terminar, há ainda a referir que nesse ano, os postais ilustrados que antecediam a actuação de cada país eram sketches em que uma trupe de actores encarnava um grupo de turistas a viajar virtualmente por cada país. Era vê-los a voar num tapete a simbolizar a Turquia ou numa sauna a representar a Finlândia. Pessoalmente acho que havia melhores maneiras de representar Portugal do que pôr todos estes turistas embriagados com Vinho do Porto...    

Festival da Eurovisão 1984 (comentários em alemão):




  
          
    

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