quarta-feira, 28 de maio de 2014

A Turma da Mónica

por Paulo Neto

Quem foi criança nos anos 70 e 80 decerto passou por um período em que se questionou se o português do Brasil era melhor que o português de cá, havendo mesmo quem, como eu, achasse que fazia por exemplo mais sentido dizer papai e mamãe do que papá e mamã e que palavras e expressões como ué?, puxa!, nossa! e que legal eram perfeitamente aplicáveis em Portugal. Também não era para menos: entre as telenovelas da Globo que víamos e as bandas desenhadas que líamos, a sensação de achar o nosso Português, comparado com o do Brasil, meio sem graça era quase irresistível. O meu pai se comprazia em relembrar uma certa vez em que fomos almoçar a um restaurante na Golegã, tinha eu seis anos, e quando os meus pais queriam chamar o empregado, eu antecipei-me espetando o dedo no ar e exclamando a plenos pulmões: "GARÇON!"
Como a esmagadora maioria da banda desenhada que chegava ao nosso país vinha importada do Brasil (geralmente através das míticas Editora Abril e Editora Morumbi), impressas em português do Brasil, ficávamos com a ideia de que o país irmão era a origem de todos os nossos heróis da BD. Mas brasileiros mesmo, só os heróis de que falaremos hoje mas que em nada ficavam atrás nos nossos corações àqueles que vinha da América.


Se havia um grupo de personagens e histórias que rivalizavam com os heróis do universo Disney no meu coração e no de muitos outros, era sem dúvida a Turma da Mónica. (Mesmo com tanta contaminação do português do Brasil, um ponto em que não cedíamos era no acento do O, que no original era circunflexo). As histórias foram criadas por Maurício de Souza em 1959 e ao início, tinham como protagonistas o Franjinha, o menino-cientista inspirado no próprio autor em criança, e o seu cão Bidu. Mas quando em 1970 surgiu as primeira revistas de BD, o protagonismo acabou recair sobre Mónica.



Cascão, Mónica, Bidu, Cebolinha, Magali
Inspirada na filha de Maurício de Souza com o mesmo nome, a Mónica era a rapariga que gostaríamos de ter como amiga, mas nem pensar em tê-la como inimiga, até porque ela fervia em pouca água. E se alguém se atrevesse a proferir a troika de insultos "Gorducha, baixinha, dentuça!" o mais certo era levar com o coelho Sansão na cara. Nunca percebi como é que um coelho de peluche podia causar tantos estragos, será que tinha um tijolo lá dentro, tipo a mala da velhota do "Duarte & Companhia"?
Magali, também foi inspirada noutra filha homónima do autor, era a melhor amiga da Mónica e era famosa pelo seu apetite voraz, sobretudo em doces e melancias, que devorava num ápice. Felizmente que também era abençoada com um óptimo metabolismo, pois ela nunca engordava. Quando não estava obcecada com comida, Magali tinha geralmente um papel conciliador nos conflitos entre os amigos e em refrear os ânimos de Mónica, embora por vezes a fúria desta atingia Magali como dano colateral.

Cascão e Cebolinha foram inspirados em amigos de infância do autor. Cascão é o divertido hidrófobo que fugia de água e de qualquer tipo de higiene como o Diabo da cruz, chegando ao ponto de acções sobre-humanas como voar sobre um riacho. Por ironia, Chovinista, o seu porco de estimação, era super asseado.
Mas eu tenho que admitir que o meu plefelido do qualteto plotagonista ela o Cebolinha, que ela famoso por só ter cinco cabelos e por tlocar os R pelos L e que nunca desistia de engendlar planos infalíveis pala delotar a Mónica do seu estatuto de dona da lua, muito embola acabasse semple por telminar de olho neglo e a ver estlelas. Tal ela o meu fascínio pelo Cebolinha que eu tive uma fase em que falava como ele, com lesutados cómicos como quando eu chamava pelo meu plimo Licaldo. Também lecoldo o seu cão, o Floquinho, um estlanho canídeo velde do qual não se sabia onde tinha a cabeça ou a cauda.
Franjinha e Bidu


Anjinho
Xaveco


Entre outras personagens, havia a destacar os já referidos Franjinha e Bidu (que era um cão normal quando interagia com as crianças e antropomórfico nas suas próprias histórias), Xaveco, Jeremias, Titi, Cascuda (a namorada do Cascão) e o Anjinho, o querubim louro que velava pelo grupo de amigos (e dos poucos que forçosamente nunca apanhou pancada da Mónica).

Chico Bento


Rolo
Jotalhão
Piteco
Penadinho


Astronauta
Horácio
Pelezinho


Mas o universo de Maurício de Souza também se estendia a outros núcleos, cujas histórias também tinham personagens bastante míticas. A mais célebre era o simpático caipira Chico Bento (que inexplicavelmente, embora andasse sempre descalço como Mónica, Cascão e Magali, ao contrário destes tinha dedos dos pés). Mas também destaco o Rolo, o hippie de uma farta trunfa azul que não se sabia onde começava o cabelo e acabava a barba, o Bugu, a criatura chata que surgia de rompante nas histórias do Bidu a gritar "Aló, Mamãe", o Jotalhão, um dengoso elefante verde, o Astronauta e o seu fato tipo ovo Kinder surpresa, Piteco, o homem das cavernas, o Horácio, um simpático dinossauro, o Penadinho, o fantasma mais fofucho desde o Gasparzinho e o Pelézinho, o decalque júnior do astro Pelé. Outras personagens têm aparecido desde que eu deixei de ser um leitor habitual dessas histórias, com destaque para a artística Marina (inspirada numa outra filha de Maurício de Souza) e o portuga Quinzinho. 

O merchandising do universo da Turma da Mónica já era vastíssimo nos anos 80, com filmes (incluindo a longa-metragem de 1983 "A Princesa e o Robô"), peluches, bonecos PVC, material escolar, livros de colorir e puzzles. Entretanto já houve um jogo produzido pela SEGA para Master System e Mega Drive e até um parque de diversões em São Paulo. Em 2008, foi também criado uma banda desenhada tipo manga com as personagens da Turma agora em modo adolescente.  


Não há dúvida que o sucesso das histórias da Turma da Mónica devia-se sem dúvida por serem personagens intemporais com as quais podíamos nos identificar - quer nas situações que eles enfrentavam como as brigas, as partidas, as brincadeiras, as zangas com os pais e os primeiros namoricos, quer na sua capacidade de imaginação que também nos convidava a expandir a nossa. Por isso, nós sentíamos que Mónica, Cebolinha, Cascão e Magali eram nossos amigos de verdade.   


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