quarta-feira, 18 de julho de 2012

Misha, a mascote dos Jogos Olímpicos de 1980

por Paulo Neto

Um dos meus primeiros peluches foi o urso Misha. Está bem que era na verdade uma imitação tosca comprada na feira mas não era por isso que foi menos adorado ao longo dos meus primeiros anos de vida.


Nunca antes como jamais depois, um evento desportivo foi tão marcado pela sua mascote oficial. (Creio que apenas o Gil da Expo 98, já saindo do âmbito desportivo, é o único exemplo mais próximo.) Mas quando o ilustrador Viktor Chizikov desenhou o simpático urso castanho com um cinto com os anéis olímpicos, vencendo em 1977 o concurso para a mascote oficial dos Jogos Olímpicos de 1980 em Moscovo, estaria decerto longe de imaginar o impacto que a sua criação iria ter na cultura popular e no coração da criançada dos anos 80. Eu iria mais longe ao afirmar que o sucesso da figura do Misha conseguiu atenuar a pálida imagem desses Jogos Olímpicos, que foram marcados irremediavelmente pelo boicote de vários países. 

A invasão da União Soviética ao Afeganistão em 1979 levou a que o presidente americano Jimmy Carter ameaçasse com um boicote aos Jogos de Moscovo. Perante a recusa soviética de retirar as tropas de território afegão, os Estados Unidos não marcaram presença na capital soviética, tendo sido acompanhados no protesto por mais de sessenta países, incluindo Canadá, Japão, Noruega, República Federal da Alemanha, Argentina, Coreia do Sul, Tailândia, Quénia, Marrocos, Egipto e Filipinas. Alguns destes países competiram mais tarde no Liberty Bell Classic em Filadélfia, uma competição alternativa que teve lugar uns dias antes dos Jogos oficiais.


Além disso, vários países competiram com delegações desfalcadas e sob a bandeira olímpica em vez da bandeira nacional. Foi o caso de Portugal, que teve uma delegação de 18 elementos, que passou por Moscovo muito discretamente. Como tal, as nações da Europa de Leste e os seus aliados como Cuba, dominaram a seu bel-prazer. Por exemplo, mais de metade de todas medalhas de ouro em disputas foram ganhas pela União Soviética e pela Alemanha de Leste. E apesar de vários resultados marcantes, como o de Vladimir Salnikov ter-se tornado o primeiro homem a nadar os 1500m livres em menos de quinze minutos ou a surpreendente vitória do Zimbabwe no primeiro torneio olímpico de hóquei em campo feminino, a opinião geral era de um duro golpe quer no valor das competições devido à ausência dos países que boicotaram quer no conceito globalizante e conciliador dos Jogos Olímpicos. 

Porém, a simpática figura do Misha e o sucesso do seu merchandising conseguiram deixar uma memória positiva duradoura aos Jogos de Moscovo, ao ponto de hoje em dia serem tão ou mais lembrados pela mascote do que pelo boicote e os outros problemas. Desde então, a mascote oficial passou a ter um lugar muito mais importante em grandes eventos, desportivos e não só. Posteriormente, surgiram outras mascotes míticas como o Naranjito (Mundial de Futebol de 1982 em Espanha), Sam (Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles),  Pique (Mundial de Futebol de 1986 no México), Cobi (Jogos Olímpicos de 1992 em Barcelona) e, evidentemente, os nossos Gil da Expo 98 e Kinas do Euro 2004. O toque final foi dado na cerimónia de encerramento quando surgiu uma lágrima no rosto do Misha, naquela que se tornaria a imagem mais icónica desses jogos.


Os produtos com a figura do Misha foram dos bonecos de peluche e PVC às canecas e pins. Houve também em Portugal uma colecção de cadernos editada pela Ambar que tinham na capa o Misha a executar cada um dos desportos que faziam parte do programa olímpico. Descobri e adquiri alguns exemplares dessa colecção numa papelaria em Coimbra e hoje arrependo-me não ter comprado toda a colecção. E na Festa do Avante ainda se vendem T-shirts do Misha.



Misha também teve uma série animada, produzida pela Nippon Animation (apesar do Japão ter boicotado os jogos), que eu recordo-me de ter visto na RTP no início dos anos 90 às quartas-feiras à tarde. (Desconheço se já tinha sido exibida antes). Nela, acompanhámos as aventuras de Misha, da sua amiga Natasha, dos seus pais e de toda a sua pandilha num aprazível cenário montanhoso, crê-se que algures na Rússia.    

Genérico de abertura:

Genérico final (canção da Natasha):



Cromo de Nuno Markl sobre o Misha: Cromo n.º 383 (20.10.2010)

  

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