domingo, 31 de março de 2019

Festival da Eurovisão 1979

por Paulo Neto

Na virtude da vitória de Netta Barzilai na edição do ano passado em Lisboa, este ano o Festival da Eurovisão realiza-se pela terceira vez em Israel, desta feita em Telavive. Por isso, faz todo o sentido recordar uma das duas edições previamente realizadas em solo israelita, em 1979 e 1999. Decidi optar pela primeira, não só porque já falei resumidamente da edição de 1999 no texto "20 coisas que aconteceram há 20 anos (1999)" como também porque ainda não tinha abordado nenhuma edição dos anos 70 e porque musicalmente gosto bem mais da edição de 1979.



O 24.º Festival da Eurovisão teve lugar no Centro Internacional de Convenções de Jerusalém, a 31 de Março de 1979. Foi a primeira vez que o certame realizou em território geograficamente não europeu e a última vez que decorreu no mês de Março (desde então foi sempre em Abril ou Maio). 
Dos vinte países participantes no ano anterior, apenas a Turquia esteve ausente porque, apesar de ter uma canção escolhida ("Seviyorum" interpretada por Maria Rita Epik & 21. Peron), esse país acabou por ceder à pressão de outros estados árabes e não viajou para Israel. (No entanto, refira-se que a Turquia participou sem problemas em Jerusalém em 1999).



A apresentação esteve a cargo de Daniel Pe'er e de Yardena Arazi, sendo que esta tinha sido representante de Israel em 1976 e voltaria a sê-lo em 1988. Antes de cada actuação, foi exibido um postal ilustrado de recorte humorístico onde um grupo de actores representava em mímica algo característico do país em questão. (No caso de Portugal, vestiram-se de pescadores que deitavam a rede a uma garrafa de vinho de Porto ao som de "Uma Casa Portuguesa"). Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Fialho Gouveia e o porta-voz dos votos de Portugal foi João Abel Fonseca. Além dos dezanove países concorrentes, o Festival foi exibido na Turquia, Islândia, Roménia, Jugoslávia e Hong Kong.

Como é hábito, segue-se uma descrição das canções por ordem inversa da classificação:

Christina Simon (Áustria)
Micha Marah (Bélgica)


Nesse ano, as dores do último lugar foram partilhadas entre dois países, cada um recebendo somente cinco pontos. A Áustria tentou apostar na diferença e no apelo aos anfitriões, com "Heute in Jerusalem" ("hoje em Jerusalém"), um tema jazz interpretado por Christina Simon, que ostentava um espectacular penteado. Porém ficou-se pelas intenções, com o último lugar e sem nenhum ponto de Israel.
Também em último ficou a Bélgica, cuja campanha até Jerusalém foi tão controversa que até o simples facto de Micha Marah subir ao palco para interpretar "Hey Nana" já foi espantoso. Isto porque a cantora (de seu verdadeiro nome Aldegonda Leppens), que tinha sido seleccionada para interpretar todas as canções da pré-selecção belga, não escondeu que tinha uma clara preferência por outra canção e o seu descontento quando "Hey Nana" foi escolhida, recusando-se a gravá-la em disco (a única gravação que existe é a do autor da canção). Diz-se que ela até tentou que a dita fosse desclassificada e fez tantas ameaças de que não iria a Israel cantar essa canção que a televisão belga chegou a recrutar outra cantora para a substituir caso Micha concretizasse as ameaças. Mas no fim, Micha Marah acabou por demonstrar o seu profissionalismo e interpretou a canção usando dois pendentes em forma de caracteres hebraicos que formavam a palavra "khai" ("viva") e pela sua cara e postura alegre em palco, ninguém diria que era uma canção que ela detestava. Mas depois de tanto mau karma, o fraco resultado foi algo evidente.

Ted Gardestad (Suécia)
Laurent Vaguener (Mónaco)


A Suécia ficou em 17.º lugar com 8 pontos. Ted Gardestad interpretou o tema "Satellit", que gerou algumas acusações de plagiar "Hold The Line" dos Toto, das as semelhanças com o solo de guitarra. Porém nenhum queixa foi levantada. Infelizmente, Gardestad faleceu em 1997 aos 41 anos.
Na posição acima ficou o Mónaco, que se fez representar pelo francês Jean Baudlot sob o pseudónimo Laurent Vaguener, com o tema "Notre vie c'est la musique". O facto de ter usado um pseudónimo terá sido por Baudlot ser mais conhecido como compositor para outros artistas como Joe Dassin. Nos anos 80 e 90, produziu música para jogos de vídeo e actualmente faz música para documentários. Esta foi a última participação do principado do Mónaco no Festival ao fim de vinte anos (incluindo uma vitória em 1971), tendo regressado apenas brevemente ao evento entre 2004 e 2006.
    
Matia Bazar (Itália)

Katri Helena (Finlândia)

A Itália é um dos países mais habituados aos lugares cimeiros mas não foi o caso nesse ano, ficando-se pelo 15.º lugar com 27 pontos (incluindo oito de Portugal). O grupo genovês Matia Bazar foi formado em 1975 e já tinha três álbuns no repertório quando chegaram a Jerusalém para interpretar "Raggio di luna", tema interpretado pelos vocalistas Antonella Ruggiero e Carlo Marrale. A actuação da Itália fez também história na Eurovisão por ser a primeira vez que não foi utilizado qualquer tipo de orquestração, apenas os instrumentos tocados pela banda. Nos anos 80, os Matia Bazar conheceram algum sucesso internacional, sobretudo com o single de 1985 "Ti Sento". Actualmente o grupo ainda existe mas já sem nenhum dos membros originais. Antonella Ruggiero tem uma carreira a solo desde 1996.
A Finlândia fez-se representar por uma das suas cantoras mais célebres, Katri Helena. Com uma carreira de mais cinquenta anos, é a intérprete feminina finlandesa que mais discos vendeu no seu país. Em Jerusalém, cantou "Katson sineen taivaan" ("vejo o céu azul"), que obteve 38 pontos e o 14.º lugar. Katri Helena regressaria a Eurovisão em 1993.

Jeane Manson (Luxemburgo)
Xandra (Holanda)

Uma vez mais, o Luxemburgo recorreu à importação para o seu representante na Eurovisão, e neste ano a escolha recaiu sobre Jeane Manson, uma americana radicada em França. Nascida em Cleveland, Manson entrou em alguns filmes e foi a Playmate de Agosto 1974 da Playboy. Nos anos seguintes, mudar-se-ia para França, onde fez carreira como cantora e actriz. O tema com que representou o grão-ducado chamava-se "J'ai dejá vu ça dans tes yeux" ("já vi isso nos teu olhos"), uma balada que ecoava influências blues e country do seu país natal, alcançando o 13.º lugar com 44 pontos. Em 1991, Jeane Manson integrou o elenco da telenovela "Riviera", uma produção de vários países europeus que pretendia emular as soap operas americanas, que passou na RTP.   
A cantora Sandra Reemer representou a Holanda pela terceira vez, depois de 1972 em dueto com Dries Holten (como Andres & Sandra) e depois a solo em 1976. Desta vez, usando o nome Xandra, esta cantora de origem indonésia interpretou "Colorado", composto pelos irmãos Rob e Ferdi Bolland que viriam a ser compositores e produtores de renome nos anos 80 e 90, ficando em 12.º lugar com 51 pontos. Sandra Reemer faleceu em 2017 de cancro da mama.

Anita Skorgan (Noruega)
Peter, Sue & Marc (Suíça)

Anita Skorgan, a representante da Noruega, também era repetente nestas andanças, tendo já representando o seu país dois anos antes, obtendo o quarto lugar. Desta vez, cantou um tema slow-disco "Oliver" envergando um vestido cor-de-rosa a fazer lembrar Karen Gorney, a protagonista de "Febre de Sábado À Noite" ao lado de John Travolta mas ficou-se pelo 11.º lugar com 57 pontos. Anita Skorgan regressaria à Eurovisão em 1982 e 1983, ao lado do seu futuro marido Jahn Teighen. 
Outros habituados à Eurovisão era o trio suíço Peter Reber, Sue Schell e Marcel Dietrich, ou simplesmente Peter, Sue & Marc. Esta já era terceira vez que participavam pelas cores da Suíça e curiosamente, sempre numa língua diferente: francês em 1971, inglês em 1976 e desta feita em alemão para cantar "Trödler und Co.", acompanhados por outro trio, Pfuri, Gorps & Kniri. Estes contribuíam fazendo sons a partir de objectos como mangueiras, ancinhos, regadores, panelas, sacos de plástico e tesouras de podar. (O que deve ter sido passar aquilo tudo pela alfândega israelita!). Obtiveram 60 pontos, valendo o 10.º lugar. Peter, Sue & Marc regressariam uma quarta vez à Eurovisão em 1981, e novamente numa língua diferente, o italiano.

Manuela Bravo (Portugal)
Elpida (Grécia)

Depois de três anos consecutivos no top 10 entre 1971 e 1973, Portugal regressou novamente a essas altitudes (que como se sabe, é algo raro para o nosso país) pela quarta vez com umas das nossas canções eurovisivas mais célebres. Na altura, Manuela Bravo tinha 21 anos e dividia-se entre a sua carreira musical e os estudos de Direito quando foi escolhida para representar as cores nacionais com "Sobe, sobe, balão sobe" da autoria de Carlos Nóbrega e Sousa. Nesse ano, Portugal foi o primeiro país a actuar e bem se pode dizer que abrimos com chave de ouro, obtendo 64 pontos* e o nono lugar. "Sobe, sobe, balão sobe" tornou-se um dos nossos maiores clássicos eurovisivos e a canção-assinatura de Manuela Bravo, que continua activa na música.
* Durante a transmissão, o quadro de pontuações mostrou Portugal com 68 pontos, devido a uma confusão com a divulgação dos votos de Espanha, que parecia ter dado dez pontos a Portugal e Israel. O erro foi corrigido depois do espectáculo, mas os quatro pontos a menos de Portugal não alteraram a classificação final. 
Elpida Karaiyannopolou foi a representante da Grécia que interpretou "Sokrati", cuja letra, como o título indica, era um louvor ao famoso filósofo Sócrates, considerando-o um superstar e lamentando a injustiça do seu julgamento e suicídio forçado. A actuação grega obteve o oitavo lugar com 69 pontos (incluindo 10 de Portugal). A versão em inglês obteve algum sucesso internacional, incluindo Portugal. Elpida regressaria à Eurovisão em 1986 representando o Chipre mas ficaria em último lugar. 
Black Lace (Reino Unido)
Tommy Seebach (Dinamarca)

Se Portugal era (é) um país pouco habituado ao top 10 na Eurovisão, na altura o Reino Unido só tinha falhado os dez primeiros lugar pela primeira vez no ano anterior. Felizmente para as terras de Sua Majestade, nesse ano voltou tudo ao normal com o sétimo lugar e 73 pontos graças ao tema "Mary Ann" interpretado pelos Black Lace (um tema que pessoalmente acho que não merecia tanto). Os Black Lace viriam obter mais sucesso nos anos 80, quando Alan Barton era o único membro de entre os que estiveram em Jerusalém que continuava na banda, com temas kitsch como "Agadoo" de 1984, que em 2003 a revista "Q" considerou a pior canção de sempre. 
A Dinamarca ficou em sexto lugar com 76 pontos com uma daquelas canções que o título explica tudo: "Disco-Tango" interpretado por Tommy Seebach. Esta fusão de tango e disco-sound até era deveras interessante. Entre os membros do coro esteve Debbie Cameron que em 1981 participaria em dueto com Seebach representando a Dinamarca. Tommy Seebach teve uma terceira participação na Eurovisão em 1993 e faleceu em 2003.

Cathal Dunne (Irlanda)

Dschinghis Khan (Alemanha)

Cathal Dunne cantou a balada "Happy Man" dando à Irlanda o quinto lugar com 80 pontos. Na altura, Dunne era sobrinho do primeiro ministro daquele país, Jack Lynch. Dunne vive actualmente nos Estados Unidos em Pittsburgh. 
Com 86 pontos, a Alemanha pode ter ficado no quarto lugar mas deixou um dos mais históricos clássicos da Eurovisão, "Dschinghis Khan" interpretado pelo grupo com o mesmo nome. Canção essa que - surprise, surprise! - era sob o mítico líder mongol Gengis Khan, enaltecendo tanto os seus dotes de guerreiro como de reprodutor (um dos versos dizia que ele fez sete filhos numa só noite). No entanto, Gengis Khan que esteve em palco (de seu verdadeiro nome Louis Hendrik Potgieter) exibiu os seus dotes de bailarino rodopiando agilmente pelo palco enquanto os restante cinco membros cantavam em uníssono. Foi também a primeira vez que se viram torsos masculinos desnudados na Eurovisão, que os quatro elementos masculinos do grupo orgulhosamente exibiram. 
"Dschinghis Khan" foi um sucesso comercial em vários países bem como o single seguinte "Moskau", que foi n.º 1 na Austrália em 1980. Potgieter, que era de origem sul-africana, faleceu de SIDA em 1993 e outro membro da banda, Steve Bender faleceu de cancro em 2006. Actualmente parece que existem duas bandas que actuam usando o nome Dschinghis Khan: uma que inclui as duas vocalistas da banda, Edina Pop e Henriette Strobel, e outra liderada por outro membro original da banda, Wolfgang Heichel. Na segunda semifinal do Festival de 2018 em Lisboa, durante um segmento de dança com as quatro apresentadoras, Sílvia Alberto dançou "Dschinghis Khan".

Anne-Marie David (França)
Betty Missiego (Espanha)

Em 1973, Anne-Marie David venceu o Festival da Eurovisão representando o Luxemburgo com "Tu te reconnaitras" e agora, seis anos volvidos, procurava nova vitória agora pelo seu país, a França. Não ganhou mas andou lá perto, chegando ao 3.º lugar com 106 pontos com "Je suis l'enfant-soleil" que contava a trágica história de amor entre uma jovem e um forasteiro que é acolhido pelo pai dela, que mais tarde vem-se a saber que é um fugitivo da prisão. Anne-Marie David retirou-se da música e da vida pública nos finais dos anos 70, mas desde 2003 que tem actuado em eventos relacionados com a Eurovisão.
Pela terceira vez na década, a vizinha Espanha ficou em segundo lugar (116 pontos) e desta vez, o sabor de uma terceira vitória espanhola esteve mesmo muito perto pois antes da última votação, precisamente o do júri espanhol, Espanha liderava sobre Israel por um ponto. Mas ao dar dez pontos a Israel, Espanha deu um tiro no pé. Nesse ano, nuestros hermanos estavam representados por Betty Missiego, cantora de origem peruana (tendo representado este país no Festival da OTI de 1972), com "Su canción". Betty surgiu em palco acompanhado por um coro de quatro crianças: Javier, Alexis, Beatriz e Rosalía, que no final da actuação empunharam faixas com a palavra "obrigado" em espanhol, francês, inglês e hebraico. Sem dúvida que a petizada foi o ponto forte da actuação, já que a postura e os movimentos robóticos de Betty Missiego faziam-na parecer mais uma bruxa má que uma fada-madrinha. 

Galit Atari e Milk And Honey (Israel)

Mas foi mesmo Israel que venceu em casa, sendo portanto o terceiro país a ganhar a Eurovisão em dois anos consecutivos (Espanha em 1968 e 1969, Luxemburgo em 1972 e 1973). E tal como "A-ba-ni-bi" do ano anterior, Israel venceu com mais uma canção que ficou para os anais do Festival da Eurovisão, "Hallelujah", um colaboração da cantora Galit Atari com o trio Milk And Honey. E era sem dúvida um tema contagiante e pegadiço, em crescendo até ao final apoteótico e mesmo quem não percebia patavina de hebraico podia facilmente trautear com alguns "aleluias" de premeio. A versão em inglês de "Hallelujah" foi n.º 1 na Irlanda, Finlândia, Suécia e Noruega. Em Portugal, a versão em português dos Maranata rivalizou em popularidade com o original. Quando o Festival da Eurovisão regressou a Jerusalém em 1999, no final todos os concorrentes, apresentadores e bailarinos reuniram-se em palco para cantar "Hallelujah" em memória das vítimas do conflito que na altura assolava as Balcãs, sobretudo no Kosovo. Galit Atari regravou a canção em 2018 com Eden Ben Zaken para as comemorações do 70.º aniversário do Estado de Israel.

Festival da Eurovisão 1979 (transmissão da TV israelita, sem comentários):





segunda-feira, 25 de março de 2019

Top Música 14 Janeiro 1989

TOP Música Singles e LPs.

Fonte: TV Guia Nº 519, de 14 a 20 de Janeiro de 1989.

Nota: Dados Fornecidos pela UNEVA. Sob Licença da RTC.




O "Top Música" do inicio de 1989 é povoado por êxitos do ano anterior. Destaque para a tripla de Tracy Chapman, com 1 LP e 2 singles na tabela. No Top de singles nem um artista nacional, ao contrário do Top dos LPs, com os Ministars e Onda Choc. Os outros êxitos portugueses da época ficaram relegados para as compilações. No Jackpot 88, Hit Parade e Superdisco encontramos UHF, Afonsinhos do Condado, Xutos e Pontapés, Trovante, Ban e mais alguns, entre uma multidão internacional.


SINGLES

1- Yes - Tim Moore (Nota: Tema Internacional da novela "Selva de Pedra", tema do par "Simone & Cristiano") [vídeo]

2- A Groovy Kind Of Love - Phil Collins (Da Banda sonora de "A Grande Golpada" ) [vídeo]

3- You Came - Kim Wilde [vídeo]

4- Desire - U2 [vídeo]

5- Fast Car - Tracy Chapman [vídeo]

6- The Only Way Is Up - Yazz [vídeo]

7- Till I Loved You - Barbra Streisand com Don Johnson. O Crockett de "Acção em Miami" [vídeo]

8- Yeke Yeke - Mory Kante. O primeiro single africano a vender mais de 1 milhão de cópias [vídeo]

9- Here I Am - Dominoe [vídeo]

10- Talkin' 'bout a Revolution - Tracy Chapman [vídeo]






LPs

1- Delicate Sound Of Thunder - Pink Floyd.

2- Jackpot 88 - Vários [vídeo]

3- Na Minha Idade - Onda Choc

4- As Mais Belas Canções Napolitanas - L. Pavarotti

5- Hit Parade - Vários

6- Love Songs - Placido Domingo

7- Money For Nothing - Dire Straits

8- É Altamente - Ministars

9- Tracy Chapman - Tracy Chapman.

10- Superdisco - Vários

Mais detalhes:
Fonte: TV Guia Nº 519, de 14 a 20 de Janeiro de 1989.





segunda-feira, 18 de março de 2019

A saga Academia de Polícia (1984-1994)

por Paulo Neto





"Academia de Polícia" é uma das mais prolíficas sagas cinematográficas da comédia americana. Decerto que quando o primeiro filme estreou em 1984 sobre um grupo de excêntricas personagens que ingressam na academia e contra todas as expectativas se tornam destemidos agentes da polícia, nunca se imaginaria que se seguiriam mais seis filmes, além de duas séries (uma de animação, que passou na RTP no início dos anos 90, e outra de live action em 1997).

Entre as várias personagens que surgiram ao longo da saga, há que destacar dez: Carey Mahoney (Steve Guttenberg), o protagonista dos quatro primeiros filmes, um vigarista matreiro de coração de ouro que é obrigado a entrar na Academia para evitar ir para a prisão e que descobre que a sua esperteza de rua é mais eficaz se utilizada no lado da Lei; Moses Hightower (Bubba Smith), um ex-florista cuja impressionante estatura e força descomunal escondem um ser extremamente bondoso; Eugene Tackleberry (David Graf), o agente obcecado por armas e como tal nunca sai à rua sem um bom arsenal a tiracolo; Zed McGlunck (Bobcat Goldthwait) o vilão do segundo filme que apesar da voz estridente e do aspecto tresloucado, no fundo até nem é mau rapaz; a diminuta e tímida Laverne Hooks (Marion Ramsey) que na hora do aperto revela sempre a sua grande coragem; a sensual e implacável Sargento Debbie Callahan (Leslie Easterbrook); o Comandante Eric Lassard (George Gaynes) que tem tanto de adorável como de pateta; o Capitão Harris (G.W. Bailey), o antagonista em cinco filmes, bruto e antipático mas que cai sempre na chacota de Mahoney e companhia e seu esbirro Carl Proctor (Lance Kinsey) que volta e meia, vai para inadvertidamente ao Bar Ostra Azul; e last but not least, o meu preferido, Larvell Jones (Michael Winslow) com a sua espantosa habilidade para imitar os mais diversos sons, que se revela muito útil não só para capturar bandidos mas sobretudo para pregar partidas.

Os seis primeiros filmes foram estreados anualmente entre 1984 e 1989, ao passo que o sétimo data de 1994. Desde 2006 que existem conversas sobre um oitavo filme, quer numa nova sequela com os mesmos actores, quer num reboot com um novo elenco, mas as coisas têm estado em águas de bacalhau. Em 2018, Steve Guttenberg anunciou que um oitavo filme vai acontecer, pelo que veremos em que moldes.

Eis os sete filmes ao momento, por minha ordem de preferência:

7.º Academia de Polícia: Missão Em Moscovo (1994)


Dirigido por Alan Metter, este é até ao momento o último filme da saga e apesar de ser o sétimo filme, a Warner Bros. achou que a saga já estava grande demais para continuar a ser numerada pelo que tecnicamente não tem o número 7 no título.
Neste tomo, o comandante policial russo Alexander Rakov (Christopher Lee) pede ao Comandante Lassard para que as autoridades americanas o ajudem a capturar o mafioso Konstantin Konali (Ron Perlman) e neutralizar o seu esquema diabólico: um jogo semelhante ao Tetris que desactiva os controlos de segurança de cada computador em que o jogo for jogado, permitindo vários roubos e esquemas de lavagem de dinheiro a nível mundial. Jones, Tackleberry, Callahan, Harris e o jovem cadete Kyle Connors (Charlie Schlatter), que quer provar o seu valor como polícia apesar do seu medo de alturas são os agentes enviados a Moscovo para capturar Konali e o seu bando.
Este foi o único filme da saga em que Marion Ramsey e Bubba Smith não apareceram como Hooks e Hightower, ao passo que George Gaynes, Michael Winslow e David Graf são os únicos actores a aparecerem nos sete filmes. Este foi também a estreia em cinema da actriz Claire Frolani como Katrina, uma agente russa e interesse amoroso de Connors.
Pergunto-me se o colapso da União Soviética foi o motivo pelo qual foi preciso esperar cinco anos pelo sétimo filme, enquanto os outros foram feitos praticamente um a seguir ao outro. Apesar de ser um dos primeiros filmes americanos a terem permissão para serem filmados na Rússia, a Warner Brothers fez uma distribuição muito escassa do filme nos cinemas pelo que é de longe o filme menos rentável da saga. E a opinião geral (incluindo a minha) é que este é o mais filme mais fraco da saga.



6.º Academia de Polícia 6: Cidade Sitiada (1989)

No sexto filme da saga, realizado por Peter Bonerz, a cidade de Wilson Heights está a ser assolado por uma onda de roubos minuciosamente calculados. Perante a incapacidade do Capitão Harris e de Proctor e sobre pressão do Governador e queixas dos munícipes, o Mayor (Kenneth Mars) da cidade decide pedir auxílio ao Comandante Lassard, para que com a ajuda do seu sobrinho Nick (Matt McCoy) e dos agentes Jones, Hightower, Tackleberry, Hooks, Callahan e Fackler (Bruce Mahler) investiguem quem está por trás desses roubos. Os agentes descobrem que os três membros do gang que tem feito os assaltos são burros demais para elaborarem crimes tão bem delineados e estarem sempre um passo à frente da polícia e que existe alguém bem superior por detrás disto tudo, uma figura misteriosa conhecida como Mastermind, que parece ter conhecimentos dos planos da polícia.
As coisas parecem perdidas quando Lassard é incriminado num roubo de jóias e a investigação dos agentes é arquivada. Ainda assim, Nick e os outros decidem continuar a investigar à revelia para limpar o nome do Comandante.
Num plot twist, fica-se a saber que o Mastermind é afinal o Mayor, que planeava baixar o valor da propriedade das zonas da cidade afectadas pelo roubo para depois obter grandes lucros na revenda.
Ausente do quarto e quinto tomos da saga, Bruce Mahler recuperou o seu papel como Douglas Fackler, um agente que inadvertidamente deixa um rasto de caos à sua volta. É também neste filme que vemos o filho de Tackleberry, Eugene Jr.




5.º Academia de Polícia 2: A Primeira Missão (1985)


No segundo filme da saga, realizado por Jerry Paris, o Capitão Pete Lassard (Howard Hesseman), irmão do Comandante Lassard, recruta Mahoney, Jones, Tackleberry, Hightower, Hooks e Fackler  para o ajudarem na sua esquadra, já que os seus agentes têm sido incapazes de deter a onda de crimes naquela zona e corre o risco de ser deposto da sua posição se as coisas não mudarem dentro de 30 dias.
Entre os crimes, os mais preocupantes são os roubos e vandalismos causados por um gang liderado por Zed McGlunck que aterrorizam os moradores locais, como o indefeso comerciante Carl Sweetchuk (Tim Kazurinsky). Além disso, o Tenente Mauser (Art Metrano) pretende sabotar os planos de Lassard para ser promovido e o novo chefe da esquadra, com a ajuda de Proctor. Entretanto, ficamos a saber que a fixação de Tackleberry por armas é um típico caso de compensação de virilidade, já que é virgem aos 28 anos. Mas felizmente, ele apaixona-se pela Sargento Kathleen Kirkland (Colleen Camp), tão obcecada por armas quanto ele, integra-se bem no seio da sua abrutalhada família e os dois casam no final do filme.
Este foi o único filme da saga em que Leslie Easterbrook não apareceu como Callahan.



4.º Academia de Polícia 3: De Volta Aos Treinos (1986)


Jerry Paris voltou a assinar o terceiro filme da saga. Devido a cortes orçamentais, uma de duas Academias de polícia - uma liderada por Lassard, outra por Mauser - será encerrada, pelo que aquela que obtiver maior sucesso no próximo curso de formação será a que vai continuar.
O Comandante Lassard chama então a Tenente Callahan e os agora Sargentos Mahoney, Jones, Hightower, Hooks, Tackleberry e Fackler para treinarem os novos recrutas. Entre eles estão Violet (Debralee Scott), a esposa da Fackler, Zed e Sweetchuk, personagens do segundo filme, Bud Kirkland (Andrew Paris), o cunhado de Tackleberry e Karen Adams (a ex-Miss Universo Shawn Weatherly) por quem Mahoney se interessa. O agente japonês Tomoko Nogata (Brian Tochi) em formação de intercâmbio chega à Academia de Mauser, mas este julgando-o incapaz, transefere-o para Academia de Lassard. Mas na verdade, não só Nogata revela-se um exímio polícia como surpreendentemente conquista Callahan. 
Para sabotar a Academia de Lassard, Mauser e Proctor conta com a ajuda de dois antagonistas do primeiro filme, os Sargentos Copeland (Scott Thompson) e Blankes (Brant von Hoffman).  Felizmente Mahoney e os outros aparam-lhe os golpes e retaliam de formas hilariantes. Mas será durante um assalto durante o baile do Governador que os cadetes formados da Academia de Lassard mostrarão a sua superioridade face aos de Mauser. 
A lendária actriz pornográfica Georgina Spelvin recuperou aqui o seu cameo do primeiro filme como uma prostituta amiga de Mahoney numa cena em que seguindo o plano deste, ela faz com que Proctor vá parar todo nu ao Blue Oyster Bar onde os clientes aparentemente costumam dançar o tango vestidos de cabedal, um gag recorrente nos quatro primeiros filmes. 



3.º Academia de Polícia 4: A Patrulha do Cidadão (1987)


Para colmatar a falta de recursos humanos e materiais das forças policiais, o Comandante Lassard decide que a sua Academia irá treinar um grupo de civis para que estes formem uma patrulha que ajude os polícias. Mahoney, Jones, Hightower, Callahan, Hooks, Tackleberry, Sweetchuk e Zed ficam encarregados de treinar os civis inscritos, que incluem a idosa Lois Feldman (Billie Bird) cujo fascínio por armas ganha a amizade imediata de Tackleberry, o obeso e sempre faminto Tommy Conklin (Tab Thacker) mais conhecido como "House", um vizinho de Hightower, dois skaters delinquentes, Kyle (David Spade) e Arnie (Brian Backer), a quem Mahoney, que reviu neles o seu passado de meliante, convence um juiz a integrá-los na formação e duas jornalistas infiltradas, Claire (Sharon Stone, sim ela!) e Laura (Corinne Bohrer) por quem respectivamente Mahoney e Zed vão se interessar. 

Já o Capitão Harris acha ridícula a ideia de uma patrulha de civis a ajudar os polícias e planeia sabotar a formação e quem sabe, tomar o posto de Lassard como o director da Academia. Aproveitando a ausência de Lassard em Londres, Harris assume o controlo da formação, mas apesar de tudo, os voluntários saem-se bem nos treinos e os agentes pregam-lhe muitas e hilariantes partidas. Contudo, o programa é suspenso quando alguns voluntários desmancham um operação policial secreta mas os civis mostram o seu valor quando inadvertidamente Proctor liberta os detidos de uma cadeia durante uma visita promovida por Harris, capturando os bandidos numa louca perseguição em balões de ar quente!
O "deus" do skate Tony Hawk participou neste filme como figurante e duplo da personagem de David Spade. Este foi o único filme de saga a ser nomeado para um Razzie, o de Pior Canção. 





2.º Academia de Polícia (1984)

1984 foi um ano antológico na cultura pop, sobretudo na música e no cinema, com o primeiro filme da saga a estrear neste ano, juntando-se a um sem-fim de filmes icónicos em vários géneros que lançados neste ano. 
Reza a lenda que o produtor Paul Maslansky teve a ideia para o filme quando viu em São Francisco um invulgar grupo de recrutas policiais que à primeira vista estariam longe de ser o tipo de pessoas que se alistariam na polícia a ser repreendido por um sargento e mais tarde veio a saber que tinha sido uma medida autárquica para criar uma força policial mais diversa. Então Maslansky pensou "e se estes polícias acabassem por ser bem-sucedidos?" e assim nasceu a ideia para o filme, longe de imaginar que se tornaria uma saga tão mítica. 
Neste primeiro filme, dirigido por Hugh Wilson, a Mayor de uma cidade não identificada resolve colmatar a falta de agentes policiais permitindo que todos os candidatos interessados se alistem, independentemente das capacidades físicas e níveis de educação. Muitos dos polícias, como o Chefe Hurst (George R. Robertson) e o Capitão Harris estão descontentes com essa decisão e esperam que muitos dos aparentemente incapazes novos recrutas falhem ou desistam da formação.
Carey Mahoney, um jovem que vive de pequenos golpes, é forçado a entrar no programa da Academia para fugir à prisão e tenta por todos os meios ser expulso de lá, mas em vão. Além dos recorrentes Jones, Tackleberry, Hightower, Hooks e Fackler (que se alista contra a vontade da esposa), entre os novos recrutas estão Karen Thompson (Kim Cattrall), uma socialite por quem Mahoney se interessa e o obeso e medroso Leslie Barbara (Donovan Scott) que quer aprender-se a defender do bullying que sofre pelo seu peso e por ter dois nomes femininos. Com a ajuda de Blankes e Copeland, dois cadetes mal-intencionados, Harris tenta forçar os novos recrutas a desistir, mas Mahoney e os outros respondem a cada reprimenda com hilariantes partidas. Hightower, por atacar Copeland que proferiu insultos racistas a Hooks, e Mahoney, ao defender Barbara durante uma briga na cantina, chegam a ser expulsos mas os dois bem como os outros recrutas mostram o seu valor quando ocorre um tumulto na cidade. 







1.º Academia de Polícia 5: Missão Em Miami (1988)


Foi um pouco difícil decidir qual o meu filme preferido da saga entre o primeiro e o quinto filme, mas acabei por optar por este, talvez por ter sido o primeiro filme da saga que eu vi e também um dos primeiros filmes que a minha família viu no nosso vídeo VHS e por isso é aquele do qual guardo memórias mais afectivas. 
Este foi o primeiro filme sem o protagonista Mahoney, uma vez que na altura Steve Guttenberg filmava "Três Homens E Um Bebé". Por isso, a sua personagem foi a modos que substituído pela de Nick Lassard, interpretada por Matt McCoy, com características semelhantes, como a astúcia e o gosto para pregar partidas. 
Neste filme realizador por Alan Myerson, o Comandante Lassard ruma a Miami acompanhado por Jones, Callahan, Hightower, Tackleberry, Hooks e House para uma convenção nacional da polícia onde vai receber o prémio de Polícia da Década e onde encontra o seu sobrinho Nick. Entretanto, o Capitão Harris descobre que Lassard passou a idade da reforma obrigatória e vê a oportunidade ideal para se mostrar como o novo líder da Academia. 
Durante a viagem, o Comandante leva inadvertidamente uma mala com diamantes roubados. Os traficantes roubaram as jóias (René Auberjonois e Archie Hahn) perseguem então os polícias para recuperar os diamantes e acabam por raptar Lassard, que julga que é tudo uma simulação policial que faz parte da convenção. Os polícias lançam-se numa perseguição aos bandidos pelos Everglades da Flórida e Lassard acaba por demonstrar a sua bravura apesar da idade e de um ou outro parafuso a menos e é dispensado da reforma obrigatória, para desespero de Harris.
Três cenas divertidas que me lembro deste filme: as bolas de golfe de Lassard a lançarem o caos no aeroporto, Hooks a levantar a voz durante uma simulação de uma manifestação ao ponto de assustar os polícias participantes e fazê-los cair numa piscina e Nick a escrever "DORK" com creme bronzeador no peito um adormecido Harris que o deixa com essa palavra marcada. 




E agora vocês, leitores, quais são os vossos filmes preferidos desta saga? Contem tudo nos comentários e/ou na página de Facebook da Enciclopédia de Cromos.

Bónus: Genérico da série animada



terça-feira, 5 de março de 2019

Ace Of Base - The Sign (1993)

Uma das que me lembro perfeitamente de gravar da rádio! Pois é crianças, já havia pirataria de música antes da Internet! Creio que foi gravada com o meu velho gravador de cassetes que ligava com um cabo a um rádio. Bons tempos! Julgo que ainda tenho cassetes com temas desta altura gravados assim, guardadas algures num canto da arrecadação.

Este tema de dança/pop foi um dos grandes êxitos dos suecos Ace Of Base, e single do premiado álbum “Happy Nation/The Sign”, de onde foram extraídos os outros massivos êxitos da banda: ”All That She Wants” e “Don’t Turn Around”. Acrescenta a Wikipedia que este álbum de debute foi o primeiro a enviar 3 singles Nº 1 para o TOP 40 da Billboard. 


Durante o seu breve reinado pareciam destinados a ser os novos ABBA. E os ABBA dos anos 90, que na sua formação original - que evoluiu de vários projectos anteriores sem grande sucesso, incluindo a fase techno que mais tarde seria substituída pela fusão de pop e raggae que foi a marca de diferenciação da banda - eram Ulf Ekberg e os três irmãos Berggren: Jonas (o mano mais velho, que começou a escrever letras aos sete anos de idade), Malin (a loura, agora a artista conhecida por Linn) e Jenny (a morena), estiveram em actividade, com menos e novos membros até 2013; para minha surpresa, que não dava por eles desde o "Cruel Summer" ás portas do novo milénio.



O videoclip oficial de "The Sign":




E se estavam convencidos que em Portugal tinham ouvido a versão do "The Sign" pelos Onda Choc, estão enganados. A versão portuguesa foi editada pelos "Malta Pop" com o título "Estou de Bom Humor", do disco homónimo de 1994, com arranjos de Mike Sergeant. Mas é uma confusão aceitável, consta que vários elementos dos Malta Pop tinham feito parte dos Onda Choc. Não confirmei, mas o site Discogs refere os seguintes intérpretes para o disco: Ana Luisa Santos, Ana Maria Ferreira, Bruno Correia, Carla Rito, João Rito, Marisa Ginja, Ricardo Fernandes, Susy Bastos e Tânia Sales.
Podem ver e ouvir um excerto neste vídeo, a partir dos 7:07 minutos:



Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos". Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".



Texto original Tumblr: The Sign - Ace Of Base" [18/05/2013].

segunda-feira, 4 de março de 2019

Caretas de Borracha Fantoches de Dedos



Caretas de Borracha.
Quem teve? Ainda tenho uma em casa que sobreviveu à minha infância, uma cara de chimpanzé. Não me recordo se comprámos nalguma feira, loja dos 150 ou como brinde nalgum produto (Detergente? Não sei, tenho uma ligeira memória de...



Quem teve destas caretas/fantoches de dedos? Ainda tenho uma em casa que sobreviveu à minha infância, uma cara de chimpanzé. Infelizmente ainda não a consegui reencontrar para fotografar, mas era muito similar a estas que encontrei no Google: 



Não me recordo se foi comprada nalguma feira, loja dos 150 ou como brinde nalgum produto (Detergente? Não sei, tenho uma ligeira memória de vir dentro de qualquer caixa com pó…Ou então é só lembrança de uma das caixas de cartão de detergente que eu reciclava para guardar os brinquedos…) 

No verso destas caretas estavam uma série de orifícios/tubos redondos para colocar as pontas dos dedos e usar a pequenina cara como um fantoche, e durante o tempo que manipulávamos as expressões e boca da figura éramos como pequenas versões mini do mestre Jim Henson a manipular as suas criações dos Marretas ou da Rua Sésamo.
Estes modelos ainda são vendidos com o nome "Flexiface, Finger Puppets":

Quem ainda tem uma destas belezas pode fotografar e enviar as fotos para a  Enciclopédia!


Texto original, Tumblr [29/06/2017].





terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Recordando 1994

por Paulo Neto






Gosto bastante de escrever os artigos sobre um determinado ano, por isso não resisti voltar à carga e pegar na máquina do tempo. Desta feita recuamos um quarto de século até 1994 e para não variar, o pré-idoso que há em mim fica de cara à banda quando pensa que já passaram vinte e cinco anos desde então, porque trata-se de um ano em que eu já não era nenhuma criança e já guardo memórias bastante sólidas. No entanto, olhando para trás, desejava ter apreciado e estar mais atento a tudo o que aconteceu em 1994 na minha vida, no país e no mundo, mas eu estava demasiado embrulhado nas minhas crises de adolescente de catorze anos e por vezes até me dá vontade de abanar o meu eu de 1994 e não deixar-se vergar pelo bullying e pelos amigos da onça - mas enfim, era uma lição que tive de aprender da maneira mais dura.
No entanto, 1994 também deu-me algumas boas memórias pessoais, como o nascimento de mais uma prima (Céus, já fazes 25 anos, Joana!), passar a ir regularmente ao cinema, ganhar uma Super Nintendo num concurso de linhas de valor acrescentado e, como já contei aqui, "ser" o Freddie Mercury na "Chuva de Estrelas" da minha escola. 
Vamos então lembrar 25 coisas que aconteceram há 25 anos.

1. As mortes de Kurt Cobain e Ayrton Senna chocaram o mundo
No espaço de menos de um mês, o mundo chorou as perdas de dois ícones: um da música e outro do desporto. No dia 5 de Abril, Kurt Cobain pôs termo à sua vida com um tiro na sua casa em Seattle. Nos anos anteriores, os Nirvana redefiniram o rock e foram o símbolo de uma geração, mas Cobain acabou por sucumbir aos seus demónios interiores e acabou por fazer parte do infame clube das estrelas rock que falecerem aos 27 anos de idade. Mas ainda antes, a 6 de Fevereiro, os Nirvana passaram por Portugal para um concerto no mítico Dramático de Cascais.
A 1 de Maio de 1994, durante o Grande Prémio de São Marino em Imola, um despiste e uma violenta colisão contra um muro a 233km por hora ceifaram a vida de Ayrton Senna. O piloto brasileiro tinha sido campeão da Fórmula 1 em 1988, 1990 e 1991 e na época de 1994 estreava-se pela equipa da Williams. Num tenebroso pronúncio, durante as qualificações do dia anterior, o piloto austríaco Roland Ratzenberger também tinha falecido. Partia assim deste mundo aos 34 anos, aquele que é considerado um dos melhores pilotos de todos os tempos e um dos maiores heróis nacionais do Brasil.
Em 1994, também faleceram: o actor Telly "Kojak" Savallas, a cantora jazz Dinah Shore, o actor cómico John Candy, o antigo presidente americano Richard Nixon, a apresentadora portuguesa Alice Cruz, o líder norte-coreano Kim Il-Sung, o brilhante e maldito escritor Charles Bukowski, a actriz britânica Jessica Tandy que recebeu um Óscar por "Miss Daisy" e o lendário músico brasileiro Tom Jobim

Gone too soon: Ayrton Senna (1960-1994) e Kurt Cobain (1967-1994)


2. Nasceram várias estrelas actuais
De entre todas as estrelas mundiais nascidas em 1994, não há como destacar aquele que veio ao mundo no dia 1 de Março no estado canadiano do Ontário: Justin Bieber. Goste-se ou não dele e da sua música, não há quem não o conheça.
Também nascidos em 1994 foi o ex-One Direction Harry Styles, a actriz americana Dakota Fanning, o cantor colombiano Maluma, o actor e cantor Ansel Elgort, a actriz americano-irlandesa Saoirse Ronan já três vezes nomeada para um Óscar e um dos novos talentos do futebol português Bernardo Silva

Geração de 1994: Justin Bieber, Harry Styles, Saoirse Ronan, Bernardo Silva


3. Nelson Mandela foi eleito presidente da África do Sul
Entre 26 e 29 de Abril, pela primeira vez cidadãos sul-africanos de todas as raças foram autorizados a votar nas primeira eleições gerais pós-apartheid, que elegeram Nelson Mandela como Presidente dessa nação africana, apenas quatro anos após ter sido libertado do seu cativeiro em Robben Island.
Na sequências dessas eleições, a África do Sul adoptou a actual bandeira e um novo hino nacional.
Mandela manteve-se na presidência do país até 1999, tendo promovido uma política de reconciliação para sarar as feridas do apartheid.






4. O último grande genocídio do século XX aconteceu no Ruanda
Enquanto a África do Sul sofria grandes transformações, outro país africano viria a ser célebre por ser o palco do último grande genocídio do século XX. O Ruanda vivia uma guerra civil desde 1990, provocado pelo confronto entre as duas etnias predominantes, os Tutsis e os Hutus, que estavam no poder. Quando a 6 de Abril o avião onde seguiam Juvenal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, respectivamente presidentes do Ruanda e do Burundi, foi abatido a tiro, terminaram todos os acordos de paz após um cessar-fogo imposto pela comunidade internacional.


A partir daí, foi levado a cabo pelas forças políticas no poder com o apoio do exército e de várias milícias um extermínio dos Tutsi e de outras etnias. Em apenas cem dias, calcula-se que quase um milhão de pessoas (cerca de 70% da população Tutsi do país) foram aniquiladas. Além disso, durante o genocídio, dezenas de milhares de mulheres foram violadas, causando um aumento galopante de infecções por HIV.  O genocídio terminou em Julho quando a força altamente armada da RPF tomou controlo da capital Kigali. 
Sem dúvida uma das páginas mais negras que a História do mundo escreveu nos anos 90.

5. Lisboa foi a Capital Europeia da Cultura e o país comemorou os vinte anos do 25 de Abril
Em Portugal, 1994 foi marcado por duas celebrações: a de Lisboa como Capital Europeia da Cultura e os 20 anos do 25 de Abril.





Lisboa foi a primeira cidade portuguesa recebeu essa atribuição de Capital Europeia da Cultura. Durante o ano, inúmeras demonstrações culturais em todas as vertentes - teatro, música, cinema, artes plásticas - tiveram lugar um pouco por toda a capital.
Entretanto, mais duas cidades já receberam essa distinção: o Porto em 2001 e Guimarães em 2012. Uma cidade portuguesa, ainda por definir, será a quarta do nosso país a ser Capital Europeia da Cultura em 2027.



Vinte anos depois da Revolução dos Cravos, a democracia em Portugal estava já bem estabelecida mas as memórias do antigo regime ainda estavam bem presentes nas mentes de muitos, como por exemplo os meus pais e tios, que sabiam muito bem o que é viver num estado repressivo. (Memórias que espero que nunca se esqueçam e caminhos a que se espera que nunca mais voltemos.)
Por isso, um pouco por todo o país, houve vários festejos de comemoração dos vinte anos de 25 de Abril. Recordo-me que em Torres Novas, na noite de 24 para 25, a minha família foi à Praça 5 de Outubro para um concerto musical onde foram tocadas várias músicas desse tempo, nomeadamente do repertório de Zeca Afonso e no dia seguinte, em que eu completava catorze anos de idade, fui a uma exposição com fotografias de como Torres Novas viveu o 25 de Abril e lembro-me de ver o meu tio Jorge à frente da parada espontânea que se realizou pelas ruas da cidade.


Foi também por alturas dos vinte anos do 25 de Abril que foi editado o disco "Filhos da Madrugada" onde várias bandas nacionais como Madredeus, Sitiados, GNR, Resistência, Mão Morta, UHF, Peste & Sida e Entre Aspas versionaram temas de Zeca Afonso. A minha faixa favorita do disco é a versão de "Canção de Embalar" dos Diva, onde Natália Casanova soava mais angelical que nunca. 
No dia 30 de Junho, todas as bandas envolvidas no disco actuaram num concerto no Estádio de Alvalade.

6. A Ponte 25 de Abril foi palco de contestação em forma de buzinão
Um dos acontecimentos de maior tensão que ocorreram no país em 1994 foi precisamente na Ponte 25 de Abril, quando vários automobilistas protestaram contra o aumento de 50% nas portagens da ponte. Lembro-me que um veículo ligeiro passava a pagar 150 escudos (75 cêntimos) em vez de 100 escudos. Para quem passava na Ponte todos os dias (sobretudo camionistas), este aumento foi um grande rombo nas suas despesas.




No noite de 24 para 25 de Junho, perante as câmaras da SIC, vários utentes da ponte iniciaram o protesto buzinando e utilizando notas de valor elevado para os pagamentos das portagens. Em poucas horas, os protestos escalaram para a violência, com manifestantes a bloquearem o acesso à ponte e atirando pedras e frutas contra os agentes da GNR, tornando-se um dos maiores casos de desobediência civil em Portugal.
A consequência mais trágica dos protestos foi a de Luís Figueiredo, de 18 anos, a quem uma bala perdida lhe deixou paraplégico. Dois dos principais impulsionadores do protesto, os irmãos Jaime e Mário Pinto, seriam condenados em 2005 por tráfico de droga.

7. A "geração rasca" mostrou o rabo a Manuela Ferreira Leite
Outro episódio de contestação nacional em 1994 veio por parte da massa estudantil. Para o ano lectivo 1993/94, mediante uma reforma na Educação implementada pelo governo na altura, uma das novidades era a implementação das provas globais para os alunos do 10.º ano. Tratava-se de uma prova sumativa de conhecimentos a realizar-se no fim do ano lectivo e que contava para 25% da nota final em cada disciplina (excepto Educação Física).



A medida foi amplamente contestada por alunos do ensino secundário por todo o país e uma greve em protesto contra Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, então respectivamente Primeiro-Ministro e Ministra da Educação, teve lugar a 5 de Maio um pouco por todo o país. A minha escola não foi excepção e embora na altura não fosse directamente afectado pelas provas globais porque ainda estava no 8.º ano, eu e os meus colegas de turma também participámos na manifestação pelas ruas de Torres Novas nesse dia. Em Lisboa, os protestos culminaram junto às escadarias da Assembleia da República, onde alguns alunos mais afoitos chegaram a baixar as calças e exibir a sua rectaguarda às objectivas dos fotógrafos e as câmaras de televisão presentes. No dia seguinte, um desses traseiros adolescentes fez a capa do jornal "Público" e o seu director Vicente Jorge Silva escreveu no seu editorial que estes jovens eram um exemplo de uma geração rasca. O tempo haveria de provar que estávamos era perante uma geração à rasca. Nem de propósito, nesse dia o único deputado do PSD que recusou apoiar a ministra foi o então líder da JSD, Pedro Passos Coelho.

8. Nasceram duas estrelas nacionais da música: Pedro Abrunhosa e Sara Tavares 
Mas sem dúvida que a figura nacional de 1994 foi Pedro Abrunhosa, pois foi neste ano que o músico portuense e os Bandemónio explodiram na cena musical com o álbum "Viagens" que arrasou no top nacional e rendeu quatro discos de platina.



Canções como "Não Posso Mais", "Socorro", "Lua", "É Preciso Ter Calma" e "Tudo O Que Eu Te Dou" andaram na boca de toda a gente e ao longo de todo ano, Abrunhosa e os Bandemónio percorreram o país de lés a lés em concertos ao rubro. Também icónico era o look de Abrunhosa, nomeadamente os óculos escuros, ainda hoje a sua imagem de marca. Tal foi a Abrunhosa-mania que até o merchandising à sua volta chegou a produtos nunca vistos no panorama nacional como um jogo de computador e um automóvel (o Volkswagen Polo Band).



Outra revelação musical de 1994 foi Sara Tavares. Então com apenas 16 anos, Sara venceu a primeira edição do "Chuva de Estrelas" imitando Whitney Houston e depois venceu o Festival da Canção desse ano, com "Chamar A Música" que obteve a proeza de ser a única canção a recolher pontuações máximas de todos os 22 júris distritais. Meses mais tarde, no Festival da Eurovisão em Dublin, a canção alcançaria o oitavo lugar, um dos melhores resultados nacionais de sempre.
Foi o início auspicioso da carreira de Sara Tavares, carreira essa que acabou por seguir por caminhos diferentes daqueles que se esperariam à partida mas que ainda assim confirmaram-na como um dos nossos maiores talentos musicais.   

9. Chuva de golos no clássico dos clássicos
Peço imensa desculpa aos leitores adeptos do FC Porto, mas a meu ver, no futebol nacional, não há rivalidade com mais mística do que os embates entre Benfica e Sporting. E em 1994, um jogo entre os dois emblemas para a segunda volta do campeonato nacional escreveu mais uma página nessa mística.
No dia 14 de Maio em Alvalade, leões e águias deram um show de bola que terminou com nove golos marcados. Jorge Cadete abre o marcador para o Sporting aos 8 minutos, João Vieira Pinto abre as contas para o Benfica aos 30, Luís Figo colocou os leões em vantagem quatro minutos depois, e passados outros três, João V. Pinto volta a empatar e aos 44 minutos faz o hat-trick e deixa os encarnados a vencer por 3-2 ao intervalo. Isaías marca duas vezes aos 48 e 57 minutos, Hélder marca o sexto golo encarnado aos 74 minutos e um penalti de Balakov aos 80 minutos fixa o resultado final em 6-3. Para muitos benfiquistas, foi a perfeita vingança do massacre sportinguista do 7-1 em 1986.
Seja como for, o triunfo em Alvalade confirmou o Benfica como campeão da época 1993/1994 (e mal sabiam os adeptos encarnados que só voltariam a celebrar outro título nacional onze depois).
No Youtube, existe um vídeo deste jogo na íntegra.

Luís Figo e João Vieira Pinto no célebre 3-6 de Alvalade


10. Fernanda Ribeiro e Manuela Machado foram campeãs da Europa
Os 16.ºs Campeonatos de Europa de Atletismo realizaram-se de 7 a 14 de Agosto de 1994 em Helsínquia e foram particularmente gloriosos para as cores portuguesas. Logo no primeiro dia, Manuela Machado venceu a maratona feminina fazendo com que Portugal continuasse a ser o único país com títulos nesta prova após o triplo triunfo de Rosa Mota em 1982, 1986 e 1990.



Seis dias depois, Fernanda Ribeiro venceu os 10000m, sendo acompanhada no pódio por Conceição Ferreira que foi segunda. Uma quarta medalha portuguesa esteve muito perto de acontecer nos 400m barreiras onde Pedro Rodrigues foi quarto.
No ano seguinte, Fernanda Ribeiro e Manuela Machado juntariam o título mundial ao europeu.

11. Francis Obikwelu veio a Portugal competir nos Mundiais Juniores de Atletismo (e por cá ficou…)
O Estádio Universitário de Lisboa acolheu os Campeonatos Mundiais Juniores de Atletismo de 20 a 24 de Julho de 1994. Participaram 1139 jovens atletas de 143 países e entre os portugueses, estavam Susana Feitor, que ganhou a única medalha nacional ao conquistar a prata nos 5000m marcha, e Nuno Lopes, filho do campeão olímpico Carlos Lopes, que correu os 800m.

O Estádio Universitário de Lisboa acolheu
os Campeonatos Mundiais de Juniores em Atletismo em 1994


Outro jovem atleta que competiu nesse evento foi um nigeriano de 15 anos que chegou às semifinais dos 400m (que foram ganhos por um compatriota seu). Esse adolescente nigeriano decidiu ficar em Portugal, trabalhou nas obras no Algarve, aprendeu português com uma inglesa radicada em terras algarvias que lhe pôs em contacto com a secção de atletismo do Belenenses, permitindo-lhe retomar e e evoluir no atletismo. Claro que estou a falar de Francis Obikwelu que a partir de 2002 passaria a representar Portugal, dando imensos motivos de orgulho ao seu país de adopção, destacando-se a medalha de prata nos 100m nos Jogos Olímpicos de 2004.   



12. Os Jogos Olímpicos de Inverno saíram da sombra dos Jogos de Verão
Em 1988 o COI tomou a iniciativa de agendar os Jogos Olímpicos de Inverno em anos diferentes dos de Verão, uma vez que os primeiros eram tradicionalmente ofuscados, já que a maioria dos países do mundo não tem muita tradição em desportos de Inverno.




Por isso, apenas dois anos após a última edição, os 17.ºs Jogos Olímpicos de Inverno tiveram lugar de 12 a 27 de Fevereiro de 1994, na pequena cidade norueguesa de Lillehammer, com a participação de 1737 atletas de 67 países (incluindo Portugal, representado pelo esquiador luso-francês Georges Mendes). O resultado foi bastante positivo com uma audiência televisiva recorde para o evento e a organização norueguesa a conseguir transmitir a atletas, espectadores e imprensa a sensação de que os Jogos decorriam numa atmosfera de lugar encantado.
Para a comunicação social, sobretudo a americana, a grande história foi a rivalidade entre as patinadoras Nancy Kerrigan e Tonya Harding, que semanas antes escalou para dimensões banditistas, como já falei aqui anteriormente. 

Dan Jansen celebra com a filha a sua vitória olímpica em Lillehammer

Como tal, prefiro destacar outra história, a do americano Dan Jansen na patinagem da velocidade. Ao longo dos últimos dez anos, Jansen foi um dos melhores atletas da modalidade nas distâncias de 500 e 1000m com vários recordes e títulos mundiais, mas parecia atacado por uma maldição que o impedia de conseguir medalhas olímpicas, saindo de 1984, 1988 (onde competiu pouco depois de saber que a sua irmã Jane tinha morrido de leucemia) e 1992 de mãos a abanar. 1994 parecia uma continuação da malapata, sendo apenas oitavo nos 500m, a sua melhor prova. Porém, na tentativa final de glória olímpica, Dan Jansen venceu os 1000m e deu uma volta de honra à pista levando ao colo a sua filha recém nascida.


13. Ano efervescente na televisão portuguesa
As televisões privadas ainda eram recentes em Portugal, mas depressa o país se deixou cativar por esse admirável mundo novo televisivo, acabando rapidamente com a homogenia da RTP.
Claro que na linha da frente estava à SIC que, arriscando o confronto directo com a televisão pública, foi somando vitórias até à liderança definitiva no ano seguinte. Em 1994, a estação (então) de Carnaxide estreou programas tão díspares mas igualmente míticos como "Muita Lôco", "A Noite Da Má Língua", "Mini Chuva de Estrelas", "Perdoa-Me", "O Juiz Decide", "All You Need Is Love", "Caça Ao Tesouro" e "Destino X".

"A Caça Ao Tesouro" com Catarina Furtado, foi um dos principais
programas estreados na SIC em 1994

Na RTP, destacam-se as estreias de "A Mulher do Senhor Ministro", "Os Andrades", a telenovela "Na Paz Dos Anjos", "Marco Paulo - Eu Tenho Dois Amores", o magazine cultural "Acontece", "Frou-Frou", "O Cabaret" e "Desculpem Qualquer Coisinha" que parodiava o "Perdoa-Me". E claro, Herman José literalmente abateu "A Roda da Sorte" a tiro para substituí-la pelo novo concurso "Com A Verdade M'Enganas".

Depois da "Roda da Sorte", Herman José e Ruth Rita
regressaram em 1994 com "Com A Verdade M'Enganas"

Na TVI, salienta-se sobretudo os programa importados por Queluz de Baixo como as séries "Marés Vivas", "Ficheiros Secretos", "Picket Fences" e "Competente e Descarada" (inicialmente com o título "Feita À Medida") mas sobretudo o concurso espanhol "O Jogo do Ganso" que chegou a ter laços directos a Portugal com dois concorrentes portugueses num dos episódios e a prova final de uma das concorrentes espanholas a ter lugar na Praça do Município em Lisboa. Na produção nacional, recordo sobretudo a sitcom "Trapos & Companhia" e o concurso "Doutores & Engenheiros".

Paula Pedregal numa cena da sitcom "Trapos & Companhia"


14. A televisão deu-nos seis novos amigos
Lá fora, de entre as séries estreadas em 1994, não há como não destacar "Friends", que nos dez anos seguintes, se afirmaria como uma das mais emblemáticas sitcoms americanas de todos os tempos. Foram dez temporadas em que acompanhámos um grupo de seis jovens nos altos e baixos da sua vida pessoal, amorosa e profissional em Nova Iorque de tal forma que era como também nós fôssemos amigos deles. O sexteto protagonista - Jennifer Aniston, Courtney Cox, Lisa Kudrow, Matt Leblanc, Matthew Perry e David Schwimmer - foi todo ele elevado ao estatuto de superestrelas. Citando Chandler Bing: Could this show be any more mythical? E venha de lá a canção: "I'll be there for you..."

"Friends" estreou a 22 de Setembro de 1994

15. O éter nacional teve uma antena mais jovem
A 26 de Abril, a Rádio Difusão Portuguesa inaugurou as emissões da Antena 3, uma nova estação de rádio dedicada ao público mais jovem. Além de passar os hits da altura, a estação também tinha a missão de dar a conhecer ao grande público promover a nova música portuguesa.
O sucesso da Antena 3 foi imediato, sendo a estação de eleição de toda a minha turma, inclusive eu. Recordo as tardes de segunda a sexta com Mónica Mendes e o Eurochart Hot 100 aos sábados de manhã.
O primeiro logótipo da Antena 3


16. Os primeiros MTV Europe Music Awards


Os The Prodigy com o seu troféu

A 24 de Novembro, a primeira edição dos MTV Europe Music Awards tiveram lugar em Berlim, precisamente nas Portas de Bradenburgo onde cinco anos antes, o Muro de Berlim tinha sido derrubado. O espectáculo foi apresentado por Tom Jones e teve actuações de George Michael, Aerosmith, Roxette, Take That, Björk, Eros Ramazzotti, Ace Of Base e Prince. Figuras como Franz Beckenbauer, Jean-Paul Gaultier, Naomi Campbell, Alexi Lalas, Dave Mustaine, Pamela Anderson, Bono, Helena Christiansen e Michael Hutchence entregaram prémios.
Entre os galardoados, contam-se "7 Seconds" de Youssou N'Dour e Neneh Cherry como Melhor Canção, Mariah Carey como Melhor Artista Feminina, Bryan Adams como Melhor Artista Masculino, Take That como Melhor Grupo, Crash Test Dummies como Melhor Revelação, Aerosmith como Melhor Grupo Rock e The Prodigy como Melhor Grupo Dance.
Berlim voltaria a receber o evento em 2009.

17. Ano de grande música
1994 foi ano de grandes álbuns: "Definitely Maybe" dos Oasis, "Parklife" dos Blur, "Music For The Jilted Generation" dos The Prodigy, "Dookie" dos Green Day, "Under The Pink" de Tori Amos, "Monster" dos R.E.M., "Bedtime Stories" de Madonna, "Mellow Gold" de Beck, "Superunknown" dos Soundgarden, "Purple" dos Stone Temple Pilots, "The Cross Of Changes" dos Enigma, "Grace" de Jeff Buckley, "Dummy" dos Portishead, "Protection" dos Massive Attack, "II" dos Boyz II Men, "CrazySexyCool" das TLC e "No Need To Argue" dos Cranberries, entre outros.




E em Portugal, além do já mencionado "Viagens" de Pedro Abrunhosa & Bandemónio, tivemos "Os Filhos Da Nação" dos Quinta do Bill, "O Espírito da Paz" dos Madredeus, "Sob Escuta" dos GNR e o homónimo dos Despe & Siga.



Mas também foi o ano em que dançámos ao som de "Saturday Night" de Whigfield (ainda se lembram da coreografia?), "Rhythm Of The Night" de Corona, "I Like To Move It" dos Reel2Real e "The Summer Is Magic" de Playahitty. 

18. Houve cinema para todos os gostos
Ele foi blockbusters de acção: "Speed - Perigo Em Alta Velocidade" com Keanu Reeves e Sandra Bullock, "Perigo Imediato" com Harrison Ford, "Velocidade Terminal" com Charlie Sheen, "O Rio Selvagem" com Meryl Streep e Kevin Bacon, "Timecop" com Jean-Claude Van Damme, "Leon - O Profissional" com Jean Reno e uma bem jovenzinha Natalie Portman, "O Especialista" com Sylvester Stallone e Sharon Stone, e "True Lies - A Verdade Da Mentira" com Arnold Schwarzengger e Jamie Lee Curtis. Ah, e "Stargate", o filme que gerou a célebre franchise de séries!




Ele foi comédias: "Quatro Casamentos e Um Funeral", Jim Carrey em dose dupla com "Ace Ventura" e "A Máscara", "Aonde É Que Para A Polícia 33 e 1/3 - O Insulto Final", "Jack, O Relâmpago", "Santa Cláusula", "Júnior", "O Caça Polícias 3" e "Adoro Sarilhos".
Ele foi dramas: "Encruzilhada", "Quando Um Homem Ama Uma Mulher", "O Cliente", "Nell", "Os Condenados de Shawshank", "Lendas da Paixão", "O Carteiro de Pablo Neruda" e sobretudo "Forrest Gump".


Ele foi clássicos do cinema independente: "Pulp Fiction", "Assassinos Natos", "Reality Bites" e "Clerks".
Ele foi filmes para toda a família: "Vontade de Ferro", "Polegarzinha", "The Little Rascals - Pequenos Marotos", as adaptações live action dos "Flintstones" e de "Riquinho", "Mulherzinhas" e "O Rei Leão", o primeiro filme da Disney dobrado em português de Portugal.





Ele foi cinema de autor: "Vermelho" de Krzysztof Kieslowski, "Balas Sobre A Broadway" de Woody Allen, "Bebé de Macon" de Peter Greenway, "Exotica" de Atom Egoyan, "O Grande Salto" dos irmãos Coen  e "A Caixa" de Manoel de Oliveira.
Um ano em cheio no grande ecrã!

19. Anna Paquin ganhou um Óscar aos onze anos



Apesar de ser ainda de 1993, outro filme que marcou 1994 foi "O Piano" que venceu a Palma de Ouro de Cannes e cuja belíssima banda sonora de Michael Nyman foi campeã de vendas em vários países (incluindo Portugal). A história de uma mulher escocesa muda que viaja para a Nova Zelândia para viver junto do colono com quem casou por procuração e que se deixa levar nos jogos eróticos de outro homem para recuperar o seu adorado piano também fez impacto nos Óscares com a protagonista Holly Hunter a ganhar o Óscar de Melhor Actriz e a realizadora Jane Campion o de Melhor Argumento Original, além de ser apenas a segunda mulher nomeada para Melhor Realização. Mais inesperado foi a estatueta de Melhor Actriz Secundária para Anna Paquin, que no filme era a filha da protagonista. Nascida no Canadá em Julho de 1982 e criada na Nova Zelândia, Paquin tinha apenas onze anos quando recebeu o Óscar, sendo a segunda mais jovem galardoada numa categoria de representação, apenas batida por Tatum O'Neal, que tinha apenas 10 anos em 1973 quando foi distinguida pelo seu desempenho em "Lua de Papel".
Anna Paquin teve uma transição bem-sucedida para uma carreira adulta, destacando-se em filmes como "Quase Famosos", "She's All That", "X-Men" (como a Rogue) e sobretudo na série "Sangue Fresco". 

20. Acontecimentos marcantes no Brasil



Quatro acontecimentos marcaram o país-irmão em 1994. No Carnaval desse ano, estalou a controvérsia quando o presidente Itamar Franco foi fotografado no seu camarote ao lado de Lilian Ramos, que envergava somente uma T-shirt e nada mais (e as objectivas dos fotógrafos tiveram uma visão privilegiada desse "nada mais"). Devastada pela condenação pública, Lilian Ramos acabaria por mudar-se para Itália onde vive até hoje, não sem antes passar por Portugal, onde deu várias entrevistas, visitou Fátima e participou no programa "Na Cama Com..."


Foi a partir de 1 de Julho de 1994 que os brasileiros começaram a fazer as suas compras e vendas com o Real, que permanece como unidade monetária do país até hoje, após quatro mudanças de divisa desde 1986.



E se por um lado, o Brasil chorou a morte de Ayrton de Senna, a 17 de Julho, o país celebrou a quarta vitória no Campeonato do Mundo de Futebol nos Estados Unidos. Após 120 minutos de jogo sem golos na final entre Brasil e Itália, a sorte foi decidida nos penaltis com um falhanço de Roberto Baggio a dar a primeira vitória desde 1970 ao escrete canarinho. Na hora das celebrações, os jogadores homenagearam Ayrton Senna.

21. A Índia venceu a Miss Universo e a Miss Mundo
País de muitas e fascinantes belezas naturais, em 1994 a Índia passou também a ser conhecida pelas suas belezas femininas, com duas indianas a ganharem os mais emblemáticos concursos internacionais de beleza. Tão fulgurantes que eram estas duas beldades que acabaram empatadas durante a eleição de Miss Índia e foi precisa uma pergunta de desempate para decidir qual delas é que iria a que concurso. 

Sushmita Sen e Aishwarya Rai
durante as respectivas coroações

A 21 de Maio nas Filipinas, Sushmita Sen foi a primeira indiana a ser coroada Miss Universo e a 19 de Novembro na África do Sul, 28 anos depois, Aishwarya Rai trouxe de novo a coroa de Miss Mundo para a Índia. Tanto Sen como Rai teriam carreiras bem-sucedidas como actrizes no seu país e ainda hoje não só são lembradas como duas das melhores detentoras desses títulos como continuam a ser duas mulheres deslumbrantes.
Nos seis anos seguintes, a Índia venceria a Miss Mundo mais três vezes e a Miss Universo mais uma vez, incluindo uma nova dobradinha no ano 2000.

22. "O Grito" foi roubado
Um dos mais quadros mais célebres do sempre, "O Grito" do pintor expressionista norueguês Edvard Munch foi uma composição iniciada em 1893, existindo quatro versões em tela (duas em tinta e uma em pastel) bem como algumas litografias. A imagem da cara angustiada numa ponte sob um céu vermelho tornou-se uma das icónicas alegorias da ansiedade do homem moderno. E claro, está foi parodiada imensas vezes em diversas artes.

As quatro versões de "O Grito"

A 12 de Fevereiro, a versão de "O Grito" patente na Galeria Nacional de Oslo foi roubada por dois homens que terão deixado uma nota a dizer "Obrigado pela fraca segurança". O quadro seria recuperado a 7 de Maio através de uma operação levada a cabo entre forças policiais norueguesas e britânicas. Em 1996, quatro homens foram acusados pelo roubo.
Em 2004, outra versão de "O Grito" foi roubada no Museu Munch e recuperada dois anos depois.

23. O rei da pop casou-se com a filha do rei do rock & roll
A 26 de Maio de 1994, o mundo ficou embasbacado ao saber que Michael Jackson se tinha casado com Lisa Marie Presley, filha de Elvis e Priscilla Presley, na República Dominicana, vinte dias depois do divórcio desta com Danny Keough.


Os dois já se conheciam desde os anos 70 e segundo consta, Jackson tinha buscado apoio em Presley durante as primeiras acusações de pedofilia de que o cantor foi alvo. A união durou 19 meses e nunca convenceu o público, apesar dos esforços do casal como por exemplo o beijo que ambos trocaram durante os MTV Video Awards de 1994, que deixou todos os presentes cheios de cringe


24. A Sony entrou na guerra das consolas


A 3 de Dezembro, o gigante da tecnologia Sony estreava-se no mundo dos videojogos ao lançar no Japão a sua primeira consola de videojogos, a Sony Playstation. Outras companhias já se tinham tentado intrometer no império dicotómico Sega/Nintendo mas a Sony seria a primeira a fazê-lo de forma concludente. Nesse mesmo ano, a Sega lançou no Japão a Sega Saturn (22 de Novembro).
Entre os jogos lançados nesse ano contam-se "Wing Commander III", "Final Fantasy VI", "Earthworm Jim" e "Sonic & Knuckles". 


25. A criação da Yahoo e da Amazon



Em 1994, a internet ainda era algo só ao alcance de muito poucos (eu próprio só o ouvi a palavra internet pela primeira vez em 1995) mas foi neste ano que dois gigantes do mundo digital foram criados. Em Janeiro, dois estudantes da Universidade de Stanford, Jerry Yang e David Filo criaram o website "Jerry's Guide To The World Wide Web" que dois meses mais tarde renomeariam como "Yahoo!" (um acrónimo de "Yet Another Hierarchically Organized Oracle") que nos anos seguintes tornar-se-ia um dos mais populares portais da internet. Após um declínio no final dos anos 2000, em 2017 a empresa foi comprada pelo grupo Verizon.


Quem começou em 1994 (5 de Julho) mas continua em alta é a Amazon. A plataforma de Jeff Bezos começou com uma livraria online mas rapidamente estendeu o negócio para outros produtos como discos, DVD, mobília, brinquedos e joalharia. Actualmente a empresa já se estendeu a outras frentes, como a produção de filmes e conteúdos para televisão. É actualmente a empresa online mais lucrativa do mundo e a segunda maior empregadora nos Estados Unidos.

Que outros acontecimentos de 1994 vocês se lembram e que não foram falados aqui? Digam nos comentários. 



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