terça-feira, 10 de abril de 2018

Festival da Eurovisão 1993

por Paulo Neto

No ano em que Portugal recebe pela primeira vez o Festival da Eurovisão, continuamos a recordar edições passadas e desta vez recuamos 25 anos até ao Festival de 1993.



O 38.º Festival da Eurovisão realizou-se a 15 de Maio de 1993. A Irlanda recebeu pela quarta vez o evento em virtude da sua vitória no ano anterior, mas ao contrário das outras três edições que tiveram lugar na capital Dublin, desta vez o certame realizou-se na pequena vila de Millstreet, que com apenas 1500 habitantes é até hoje a localidade mais pequena de sempre a acolher o Festival. Mas porquê a realização de tão grande evento numa pequena e remota vila irlandesa? Porque na mesma noite que a Irlanda venceu a edição de 1992, Noel C. Duggan, proprietário de um centro equestre nessa vila (Green Glens Arena) contactou a televisão irlandesa RTE, oferecendo a infraestrutura para a realização do Festival no ano seguinte. Satisfeita com o grande e bem-equipado centro hípico e por poupar imenso dinheiro por não ter de alugar a propriedade, a RTE aceitou o repto de Duggan. Com grande apoio das autoridade locais e nacionais e das empresas da região, Millstreet equipou-se com as infraestraturas necessárias para receber um evento desta escala e engalanou-se com as suas ruas decoradas com flores, as 25 lojas locais a apoiarem cada uma um dos países concorrentes e foi erguido um mural com as bandeiras dos 25 países participantes, que ainda hoje pode ser visitado, criando uma atmosfera única para todos aqueles envolvidos no projecto, sobretudo os cantores e os visitantes. Pessoalmente, esta também é uma das minhas edições preferidas, repleto de excelentes canções e sem nenhuma que eu desgoste particularmente.



Alguma semanas antes do evento principal, e atendendo ao interesse dos países do Leste da Europa em participarem no Festival da Eurovisão, realizou-se a 3 de Abril de 1993 em Ljubljana, capital da Eslovénia, uma pré-eliminatória onde sete países disputaram as três vagas disponíveis para a competição na Irlanda, juntando-se aos países que participaram no ano anterior, excepto a Jugoslávia - então já reduzida apenas à Sérvia e ao Montenegro, e impedida de participar devido ao embargo internacional. Ironicamente, foram precisamente três antigas repúblicas jugoslavas recém-independentes - Eslovénia, Croácia e Bósnia-Herzegovina - que conseguiram os três primeiros lugares na pré-eliminatória no fim de um votação bem renhida, deixando de fora as canções da Eslováquia, Estónia, Hungria e Roménia.

A apresentadora Fionnuala Sweeney

Foram portanto 25 países - o maior número de participantes até então - que competiram no Festival da Eurovisão em Millstreet, apresentado por Fionnuala Sweeney. O espectáculo arrancou com a recriação de uma lenda celta, enquanto o intervalo teve a actuação de dois dos vencedores irlandeses do Festival da Eurovisão, Johnny Logan (1980 e 1987) e Linda Martin (1992). Antes da actuação de cada país, foi mostrado um pequeno filme em que o respectivo intérprete descobria um sítio ou uma actividade da Irlanda rural: por exemplo, a nossa Anabela visitou a Universiade de Cork onde teve algumas lições de irlandês gaélico e descobriu um café chamado...The Old Lisbon. Isabel Bahia fez os comentários para a RTP e Margarida Mercês de Melo foi a porta-voz dos votos do júri português, no último ano em que os mesmos foram revelados por telefone. (A partir do ano seguinte, passaram a ser dados por videoconferência). 

Como é habitual, vamos recordar as canções concorrentes por ordem inversa à classificação final.

Barbara Dex (Bélgica)

Alguém tem sempre de ficar em último e neste ano, foi a Bélgica, que ficou-se pelos 3 pontos atribuídos pela Alemanha. Pessoalmente, achei este resultado injusto para a terna balada "Iemand als jij" ("alguém como tu"), interpretada por Barbara Dex, então com 19 anos. Mas como se não bastasse ter sido última, Barbara foi criticada pelo vestido com que actuou (feito por ela própria) ao ponto de inspirar o site House Of Eurovision a criar o Prémio Barbara Dex que desde 1997 premeia através de votos no site o intérprete mais mal vestido de cada edição do Festival da Eurovisão (Portugal foi o "vencedor" desse prémio em 2006 graças às vestimentas de inspiração Moulin Rouge com que  Non Stop se apresentaram esse ano em Atenas). Apesar disso, Barbara Dex continua com a sua carreira musical até aos dias de hoje. Em 2004 e 2006 tentou voltar a representar a Bélgica na Eurovisão.

Lahakat Shiru (Israel)

Israel não conseguiu muito melhor, somando apenas quatro pontos (3 de Portugal), ao ser representado pelo grupo Lahakat Shiru com o tema..."Shiru" ("canta"), palavra essa que era largamente repetida ao longo do refrão. O grupo era liderado por Sarah Le Sharon que começava sentada ao piano mas que depois se juntava aos outros quatro vocalistas. Mas nem mesmo com um excerto cantado em inglês a actuação israelita convenceu os júris europeus, ficando-se assim pelo 24.º e penúltimo lugar. Pessoalmente, também acho que Israel não merecia tão parco resultado.

1XBand (Eslovénia)

E o mesmo se aplica aos países que ficaram em empatados em 22.º lugar, a Eslovénia e sobretudo a Dinamarca. Embora alguns cantores eslovenos já tivessem representado a Jugoslávia anteriormente, era a primeira vez que a Eslovénia se apresentava na Eurovisão como país independente. E apesar da independência recente (Junho de 1991) e da guerra nas Balcãs, a delegação eslovena fez questão de afirmar à imprensa que o país tinha condições para acolher um Festival de Eurovisão (algo que ainda não aconteceu). O país foi representado pela 1X Band, liderada pelo vocalista Cole Moretti, com a canção "Tih dezeven dan" ("um calmo dia de chuva") mas quem se destacou foram as cantoras de coro com as suas vestes, duas delas com vestidos curtos e a do meio com umas grandes calças à boca de sino. Mas apesar de a Eslovénia ter sido o país mais votado na pré-eliminatória, foi o pior classificado de entre os três seleccionados, com o 22.º lugar e nove pontos.

Tommy Seebach (Dinamarca)

A mesma posição e pontos foi a que teve a canção da Dinamarca, "Under stjernerne pa himlen" "sob as estrelas do céu", interpretada pela Tommy Seebach Band. Seebach participava assim pela terceira vez, tendo anteriormente representado a Dinamarca em 1979 e 1981. A actuação dinamarquesa teve a particularidade de ter Seebach, os membros da banda  e as duas cantoras do coro a formarem um círculo no palco, com a câmara a rodar por entre eles ao longo da canção. Devo dizer que gosto muito da canção e foi pena ter ficado numa posição tão baixa (apesar deste ser um ano muito competitivo). O fraco resultado foi bastante criticado pela imprensa dinamarquesa, o que, aliado a um declínio na sua carreira, terá levado Seebach a piorar os seus problemas de alcoolismo. Tommy Seebach faleceu em 2003, e esta canção foi tocada durante o seu funeral. O seu filho Rasmus é actualmente um dos cantores mais populares na Dinamarca.

Burak Aydos (Turquia)

A canção que menos gosto deste ano será a da Turquia, e mesmo assim está longe de ser do pior que já passou pelo Festival da Eurovisão, o que só prova a qualidade da edição de 1993. A canção turca chamava-se "Esmer yarim" ("minha querida morena"), escrita e interpretada por Burak Aydos, da qual se destaca sobretudo o solo de saxofone. A Turquia obteve 10 pontos, ficando no 21.º lugar.

Modern Times (Luxemburgo)

Uma posição acima, com mais um ponto ficou o Luxemburgo, que nesse ano se fez representar pelo grupo Modern Times, composto por Jimmy Martin e Simone Weis, com o tema "Donne-moi une chance" ("dá-me uma oportunidade"), interpretado em francês com uma estrofe em luxemburguês. Além do look de Jimmy e do baterista que parecia saídos de um banda rock dos anos 80 e do casaco de borboletas de Simone, recordo a cantora de coro de vestido vermelho e que também tocava uma guitarra. Esta veio a ser última participação até agora do grão-ducado do Luxemburgo na Eurovisão, que venceu por cinco vezes. 

Zymboulakis & Van Beke (Chipre)

Com 17 pontos (10 dos quais da pátria-irmã Grécia), Chipre ficou em 19.º lugar com a canção "Mi Stamatas" ("não pares") interpretada pelo duo composto por Kyriacos Zymboulakis e Demos Van Beke. Os dois regressaram ao Festival no ano seguinte fazendo coro na canção cipriota.

Münchener Freiheit (Alemanha)

As canções da Alemanha entre 1990 e 1993 foram de certa forma inspiradas pela queda do Muro de Berlim e a reunificação da Alemanha Ocidental e da RDA. O tema "Viel zu weit" ("longe demais") aludia aos sonhos de liberdade e prosperidade dos habitantes da Alemanha Oriental que antes da queda do Muro pareciam tão distantes. O grupo Münchener Freiheit, que como o nome indica é originário de Munique, já gozava de algum sucesso além-fronteiras, nomeadamente com o tema de 1988 "Keeping The Dream Alive" e segue no activo até aos dias de hoje, mesmo com saída do vocalista Stefan Zauner em 2012. Em Millstreet, a Alemanha ficou em 18.º lugar com 18 pontos.

Katri Helena (Finlândia)

Os 20 pontos conquistados pela Finlândia valeram-lhe o décimo sétimo lugar. Katri Helena já tinha representado este país em 1979 onde tinha conseguido um melhor resultado (14.º). Uma das maiores estrelas da música finlandesa desde os anos 60, a sua segunda participação na Eurovisão marcava o regresso ao activo de Katri Helena depois de alguns anos fora da vida pública após a morte do seu marido. Em Millstreet, cantou o tema folk "Tule luo" ("vem ter comigo"). 

Fazla (Bósnia-Herzegovina)

A estreia da Bósnia-Herzegovina na Eurovisão fez-se ainda no auge da guerra que assolou o país na primeira metade dos anos 90. A comitiva bósnia partiu do avião rumo à Irlanda literalmente debaixo de balas, já que na altura aconteciam tiroteios. Inclusivamente, o orquestrador acabou por não poder viajar e foi o maestro irlandês Noel Kelehan que acabou a dirigir a orquestra durante a actuação da canção da Bósnia, defendida pelo cantor Muhamed Fazlagic, simplesmente conhecido como Fazla. E como era inevitável, a sua canção "Sva bol svijeta" ("toda a dor do mundo") falava da guerra e da dor do povo bósnio. Claro que a actuação da Bósnia-Herzegovina foi das mais aplaudidas em Millstreet, bem como o momento em que o porta-voz dos votos do país disse "Hello Millstreet, Sarajevo calling." No final das votações, a Bósnia-Herzegovina somou 27 pontos (incluindo um 12 da Turquia) e ficou em 16.º lugar.

Put (Croácia)
A Croácia foi o país estreante que conseguiu o melhor resultado, obtendo 31 pontos e o 15.º lugar. Este país também fora atingido pela guerra nos Balcãs e como tal a sua canção falava na guerra, mencionando a morte de um jovem de 18 anos (presumivelmente um soldado) chamado Ivan. O tema "Don't Ever Cry" foi cantado em croata com refrão em inglês a seis vozes pelo grupo Put.

Tony Wegas (Áustria)

Tony Wegas tinha sido o representante a Áustria no ano anterior e voltava a fazê-lo pelo segundo ano consecutivo. Em vez da romântica balada que cantou em 1992, desta vez interpretou um tema mais animado "Maria Magdalena", que como o nome indica, era uma alusão à mítica personagem bíblica. No entanto, a Áustria ficou aquém do top 10 do ano transacto, quedando-se pelo 14.º lugar com 32 pontos (12 da Bósnia-Herzegovina). A vida de Tony Wegas sofreria duros reveses nos anos seguintes, devido à sua dependência do álcool e das drogas, pela qual até chegou a ir parar à prisão. Mas felizmente conseguiu recuperar e regressar à vida artística.

Inga (Islândia)
Ingibjörg Stefansdóttir ou simplesmente Inga, então com 20 anos, foi a beldade que representou a Islândia, com a canção "Pa veistu svarid" ("então saberás a resposta"). A balada de recorte jazz (mais uma com um saxofone proeminente) ficou em 13.º lugar com 42 pontos.

Enrico Ruggeri (Itália)

A Itália fez-se representar pelo cantor milanês Enrico Ruggeri, que começara nos anos 70 na banda punk Decibel, mas que desde 1981 tinha uma carreira a solo que dura até hoje. Na Irlanda, defendeu a balada rock "Sole D'Europa", ficando em 12.º lugar com 45 pontos (Portugal foi o país que mais pontuou a canção italiana, com 10). Depois desta participação, a Itália só voltaria ao Festival da Eurovisão quatro anos mais tarde e depois ficaria mais 14 anos de fora, só regressando em definitivo em 2011.
Eva Santamaria (Espanha)

A vizinha Espanha levou sem dúvida uma das propostas mais arrojadas. Andaluza de gema, Eva Santamaria começou nas coplas e no flamenco, mas na altura aventurava-se na música pop, com a ajuda de Carlos Toro, gravando um álbum em Los Angeles. Reza a lenda que foi nessa cidade, durante uma discussão entre Eva e Carlos Toro sobre os defeitos-clichés do sexo masculino, que surgiu a ideia para "Hombres", a canção que levou à Eurovisão. Além da letra mordaz, o tema destacava-se por ter algumas partes cantadas em rap e por ter sido a primeira canção da Eurovisão a mencionar a palavra "sexo" em qualquer língua. Eva Santamaria actuou acompanhada por três bailarinos e dois cantores de coro americanos. A Espanha ficou em 11.º lugar com 58 pontos.

Anabela (Portugal)

60 pontos foram suficientes para que Portugal obtivesse o seu (apenas) sétimo resultado no top 10. Aos 16 anos, Anabela era a intérprete mais jovem em Millstreet mas desde muito nova que estava activa nas lides artísticas, do fado ao pop, e tendo inclusivamente uma incursão como actriz na telenovela "Cinzas". "A Cidade (Até Ser Dia)", composta por Pedro Abrantes, Marco Quelhas e Paulo Dacosta (na verdade, Paulo de Carvalho), é uma das nossas melhores canções eurovisivas, devidamente impressa no disco rígido do povo tuga. Mas não foi só por cá que a canção fez furor, já que pela primeira vez desde 1976, ouviu-se a frase "Portugal, 12 points!", primeiro por parte do júri holandês e depois do espanhol. Nas redes sociais, tenho volta e meia descoberto testemunhos de fãs eurovisivos holandeses que dizem ainda hoje gostar muito desta canção e que acham que Portugal devia ter ganho nesse ano. Anabela prosseguiu a sua bem activa carreira, por entre discos, concertos, musicais de Filipe La Feria e participações em televisão. Neste ano de 2018, Anabela regressou ao Festival da Canção, com "Para Te Dar Abrigo" apurando-se para a final onde ficou em sexto lugar. 

Katerina Garbi (Grécia)

A Grécia levou uma proposta bem patriota com o tema "Ellada, hora tou photos" ("Grécia, terra de luz") e embora a letra refira a este país como "uma terra escolhida por Deus", "o vinho do mundo" e invoque Platão e Aristóteles, também menciona que a Grécia contemporânea está algo apática e que é tempo de fazer face aos tempos difíceis (algo que soa premonitório dada a situação da Grécia nos últimos dez anos). No entanto, Katerina Garbi interpretou a canção com garra e sensualidade, com o seu vestido azul com grandes aberturas lateriais a não deixar ninguém indiferente, e a Grécia obteve o nono lugar com 64 pontos.

William Mangion (Malta)
O arquipélago de Malta ficou em oitavo lugar, com a canção "This time", interpretada por William Mangion, cuja voz fazia lembrar a de Joe Cocker, obtendo 69 pontos. Duas das cantoras do coro seriam também elas representantes maltesas em edições vindouras, Moira Starface em 1994 e Debbie Scerri em 1997. William Mangion reside actualmente nos Estados Unidos.

Arvingarna (Suécia)

A Suécia foi representada pelos Arvingarna, banda de Gotemburgo formada em 1989, composta por Casper Jannebrink, Lars Larsson e os irmãos Kim e Tommy Larsson. Na Irlanda, interpretaram o tema "Eloise", que ficou em sétimo lugar com 89 pontos. Os Arvingarna (em português, "os herdeiros") continuam no activo apesar do seu mais recente disco ser já de 2009. 

Ruth Jacott (Holanda)

Uma das canções que eu mais gosto deste ano é a da Holanda, intitulada "Vrede" ("paz"). Natural do Suriname, Ruth Jacott começou no teatro musical e tinha recentemente enveredado por uma carreira na música pop. Jacott teve uma relação até 2011 com Humphrey Campbell, o representante holandês no ano anterior (tendo ambos feito coro nas respectivas canções defendidas pelo parceiro). Apesar do animado ritmo pop/r&b, "Vrede" falava de temas sérios, como a preocupação pelo futuro, já que a tecnologia criou tanta coisa mas a paz continua por ser alcançada. A canção holandesa era uma das principais favoritas, mas ficou em sexto lugar com 92 pontos.

Silje Vige (Noruega)

Nesse ano, a Noruega foi o último país a actuar e tirou partido disso para causar boa impressão. Depois da nossa Anabela, Silje Vige era intérprete mais jovem, estando então prestes a completar 17 anos. "Alle mine tankar" ("todos os meus pensamentos") era um tema étnico bastante melancólico e durante a actuação, quando Vige cantava o refrão, alguns membros na assistência (presumivelmente todos os noruegueses presentes) batiam palmas dentro do ritmo. No final das votações, a Noruega obteve um honroso quinto lugar com 120 pontos.

Patrick Fiori (França)

Com mais um ponto e uma posição acima ficou a canção da França, "Mama Corsica" interpretada por Patrick Fiori, a quem o júri de Portugal atribuiu os seus 12 pontos. Como o título deixa adivinhar, o tema era uma homenagem à bela ilha da Córsega, da qual a mãe de Fiori era natural, cantada em francês mas com alguns versos em dialecto corso. Patrick Fiori continuou a ter uma bem-sucedida carreira no seu país, destacando-se o seu papel de Febo no musical "Notre Dame de Paris".   

Annie Cotton (Suíça)

Cinco anos antes, a Suíça tinha vencido o Festival na Irlanda com uma cantora canadiana (uma tal de Céline Dion). Em 1993, a nação helvética quis repetir a fórmula fazendo-se representar por outra jovem cantora canadiana, Annie Cotton, então com 17 anos com a canção "Moi, tout simplement". Porém desta vez, a Suíça teve de se contentar com o terceiro lugar num total de 148 pontos. Este acabou por ser o maior momento de destaque de Annie Cotton como cantora, tendo depois trabalhado mais como actriz.

Sonia (Reino Unido)

E pelo segundo ano consecutivo, a luta pela liderança foi disputada pelo Reino Unido e a Irlanda, com a vitória a ir parar à nação esmeralda. Os 23 pontos de diferença podem induzir que a vitória irlandesa foi evidente mas na verdade que foi só durante a última votação, a do júri de Malta (que não pôde dar os seus votos durante a sua vez devido a problema técnicos), é que o triunfo foi confirmado. 
Pelo Reino Unido esteve a cantora Sonia Evans, natural de Liverpool, que tinha obtido assinalável sucesso no seu país, sobretudo com o single de 1989 "You'll Never Stop Me From Loving You", produzido pelos famosos Stock, Aitken & Waterman, que chegou ao primeiro lugar do top britânico. Em Millstreet, interpretou "Better The Devil You Know" (nada a ver com a canção do mesmo título de Kylie Minogue), ficando em segundo lugar com 164 pontos. Este foi o último fogacho de grande popularidade de Sonia como estrela pop, tendo-se dedicado desde 1994 mais à representação, quer no teatro, quer na televisão.

Niamh Kavanagh (Irlanda)

Mas uma vez mais, a Irlanda assegurou a vitória (e não ficaria por aqui ao longo da década de 90), a quinta na sua história, e tornou-se o quarto país (e até agora último) a vencer em dois anos consecutivos depois de Espanha (1968-1969), Luxemburgo (1972-1973) e Israel (1978-1979).

Niamh Kavanagh e os seus cantores do coro
celebram a vitória

Desta vez o triunfo surgiu na voz de Niamh Kavanagh com a balada "In Your Eyes". Niahm (pronuncia-se "niv") era uma vocalista bastante versátil, cantando em vários estilos desde música tradicional irlandesa ao jazz e soul. Apesar de não entrar no filme, foi uma das vocalistas na banda sonora do filme de 1991 "The Commitments" de Alan Parker. "In Your Eyes" chegou ao n.º 1 do top irlandês e em 2005, ganhou uma votação dos fãs eurovisivos irlandeses como a melhor canção da Irlanda. 

Niamh Kavanagh fez uma pausa na carreira para de dedicar à maternidade mas regressou em 2010 para representar novamente a Irlanda no Festival da Eurovisão desse ano com "It's For You", onde apesar de ter conseguido o primeiro apuramento do país para a final desde 2006, ficou-se pelo 23.º e antepenúltimo lugar. Eu próprio já a vi cantar ao vivo em Setúbal, no Eurovision Live Concert de 2011. Em 2017, venceu o Masterchef Celebridades irlandês.
Em 2013, quando convidada a reflectir sobre as memórias da sua vitória vinte anos antes, Kavanagh referiu a atmosfera mágica em Millstreet, onde se vivia e respirava a Eurovisão, como decerto não aconteceria se o certame tivesse sido realizado numa grande cidade como Dublin e que adorou o facto de, mesmo dentro do seu país, ter tido hipótese de viajar e descobrir um lugar que não conhecia, tal como os outros intérpretes. 

Festival da Eurovisão 1993 (transmissão RTP):




Pré-eliminatória (comentários em esloveno)




"A Cidade (Até Ser Dia)" Anabela (videoclip):





quarta-feira, 4 de abril de 2018

Por Amor (1997-98)


por Paulo Neto





Já algum tempo que não falamos de telenovelas, por isso hoje recordamos "Por Amor", a telenovela brasileira onde as actrizes Regina Duarte e Gabriela Duarte desempenharam na ficção os papéis que já faziam na vida real, o de mãe e filha. A telenovela exibida no Brasil e em Portugal entre 1997 e 1998 teve várias outras particularidades: Regina Duarte voltou a ser uma Helena numa telenovela de Manoel Carlos, autor que dá sempre esse nome às protagonistas das suas novelas, depois de já o ter feito antes em "História de Amor" (e voltaria em 2006 para uma terceira Helena em "Páginas Da Vida"); foi a telenovela que na altura que estreou em Portugal (10 de Novembro 1997) com menos tempo de diferença da estreia no Brasil (13 de Outubro do mesmo ano); e no mesmo dia da sua estreia em Portugal, a SIC estreou outra telenovela "Anjo Mau". Porém ao contrário do Brasil, "Por Amor" começou no horário da tarde e "Anjo Mau" no horário nobre. No entanto, devido ao sucesso da telenovela por cá e também por abordar algumas temáticas algo pesadas para uma telenovela da tarde, "Por Amor" acabaria por transitar também para o horário da noite.

Como o título indica, a premissa da telenovela era sobre tudo aquilo que se pode fazer por amor, levantando questões como se o amor justifica certo actos extremos, que se podem considerar imorais e sem ética, se demasiado amor pode ser prejudicial ou onde se traça a linha entre o amor e a obsessão. Questões essas com que várias personagens se deparam ao longo da trama.

Helena e Maria Eduarda (Regina e Gabriela Duarte)


Helena (Regina Duarte) e Maria Eduarda (Gabriela Duarte) são mais que mãe e filha, são verdadeiras amigas, companheiras e confidentes. Mulher independente e batalhadora, Helena gere um atelier de decoração. Maria Eduarda herdou a inteligência e ternura da mãe, porém é imatura e insegura. Para além de renegar o seu pai Orestes (Paulo José) devido ao seu alcoolismo, a jovem sofre de ciúmes na sua relação com o seu noivo Marcelo (Fábio Assunção). Se bem que tenha alguns motivos por isso, pois Laura (Viviane Pasmanter), a ex-namorada de Marcelo, não se conforma com o fim da relação e faz de tudo para separar o casal.

Marcelo (Fábio Assunção) e Edurda (Gabriela Duarte)
Atílio (António Fagundes) e Helena (Regina Duarte)

Meg (Françoise Fourton) e Laura (Viviane Pasmanter)

César (Marcelo Serrado)



Antes do casamento com Marcelo, Eduarda viaja com a mãe para Veneza onde conhecem o arquiteto Atílio (António Fagundes). Entre este e Helena surge logo uma grande paixão, e os dois casam-se. Mãe e filha acabam por engravidar ao mesmo tempo e dar à luz no mesmo dia, mas enquanto Helena, apesar da idade, dá à luz um filho saudável, o parto de Eduarda corre mal: o bebé não sobrevive e o seu útero tem de ser removido, impedindo-a de voltar a engravidar. É então que Helena toma uma decisão que vai marcar toda a telenovela: para poupar a filha do choque de nunca poder voltar a ser mãe, decide trocar os bebés com a ajuda de César (Marcelo Serrado), um médico e eterno apaixonado de Eduarda. Esta acaba por criar o seu irmão, a quem dá o nome do marido, como se fosse seu filho. Mas esta decisão acaba por ser fatal para o casamento de Helena e Atílio.

Branca (Suzana Vieira)
Leonardo (Murilo Benício) e Arnaldo (Carlos Eduardo Dollabella)


Além de Isabel (Cássia Kiss), por quem Atílio trocou por Helena, quem não se conforma com esta união é Branca (Suzana Vieira), mãe de Marcelo, que é a vilã principal. Apesar do longo casamento de aparências com Arnaldo (Carlos Eduardo Dollabella), Branca foi sempre apaixonada por Atílio com quem teve no passado uma relação secreta. Por detrás da sua imagem de mulher elegante e refinada, existe uma mulher amarga e cruel com aqueles de que não gosta, como Helena e Eduarda. Além disso, não esconde que Marcelo é o seu filho preferido e despreza os outros dois, a rebelde Milena (Carolina Ferraz) e sobretudo o sensível Leonardo (Murilo Benício). O seu favoritismo é devido à certeza de que Marcelo é filho de Atílio, mas mais tarde vem-se descobrir que na verdade ele é pai de Leonardo.

Milena (Carolina Ferraz) e Nando (Eduardo Moscovis)


O par romântico que mais apaixonou o público foi o de Milena com Nando (Eduardo Moscovis), um piloto de helicópteros. Os dois enfrentam as diferenças de classe social e todos os esforços de Branca para os separar (chegando a fazer mesmo com que o rapaz seja incriminado por tráfico de droga) em nome desse amor, que acabará por vencer. (Contudo na vida real, Carolina Ferraz acabou a namorar com Murilo Benício, que fazia de seu irmão.)

No final, Eduarda descobre a verdade sobre a troca dos bebés e revolta-se contra a mãe. No entanto, a cena final mostra Helena reconciliada tanto com a filha como com Atílio. Além de adoptarem uma menina, Eduarda e Marcelo acabam por ficar com a guarda dos filhos de Laura. Esta, cada vez mais tresloucada, aproveitou uma noite de embriaguez de Marcelo para engravidar dele, dando a luz um casal de gémeos, aproveitando-os para infernizar ainda mais Eduarda. No entanto, Laura e Nando têm um acidente de helicóptero do qual apenas o rapaz se salva. Já Branca acaba sozinha e abandonada por todos, menos pela sua fiel empregada Zilá (Stella Maria Rodrigues).

Orestes (Paulo José) e Lídia (Regina Braga)


Sandrinha (Cecília Dassi)
Juliana (Larissa Queiroz), Rafael (Odilon Wagner)
e Virginía (Ângela Leal)


Entre outras tramas paralelas, existe o drama de Orestes, que casou novamente com Lídia (Regina Braga), mãe de Nando, de quem teve outra filha, a adorável e precoce Sandrinha (Cecília Dassi), só que nem com o apoio e devoção da mulher e da filha consegue vencer o alcoolismo, ou o de Márcia (Maria Ceiça), uma jovem negra que enfrenta o preconceito do seu namorado Wilson (Paulo César Grande) a quem nem o facto de estar numa relação inter-racial o demove de atitudes racistas. Particularmente marcante foi a história de Virgínia (Ângela Vieira), irmã de Helena, que vê o seu sólido e apaixonado casamento com Rafael (Odilon Wagner) desmoronar quando o marido se apaixona por Alex (Beto Nasci), um homem mais novo, revelando a sua bissexualidade.

Catarina (Carolina Dieckman), Márcia (Maria Ceiça)
e Sirléia (Vera Holtz)

Outras personagens de destaque são a ambiciosa Catarina (Carolina Dieckman) que sonha em ser modelo e actriz, Flávia (Maria Zilda Bethlen), amiga e sócia de Helena e secretamente também interessada em Atílio, e Genésio (Ricardo Macchi) o jardineiro galã que deixa toda as mulheres do bairro em polvorosa, em especial a acesa Magnólia (Elizângela). Do elenco ainda fizeram parte nomes como Otávio Augusto (Pedro), Rosane Gofman (Tadinha), Françoise Forton (Meg), Ricardo Petraglia (Trajano), Vera Holtz (Sirleia), Marco Ricca (Nestor), Heloísa Mafalda (Leonor) e Ângelo Paes Leme (Rodrigo). Foi também a primeira vez que Júlia Almeida, filha do autor, participou como actriz numa telenovela do pai, no papel de Natália, irmã de Laura.

Apesar do sucesso da telenovela, sobretudo devido ao excelente elenco e à trama cativante de Manoel Carlos, "Por Amor" teve a sua dose de críticas, sobretudo devido ao acontecimento mais marcante da história, a troca dos bebés. Grande parte do público achou o acto de Helena e César tinha mais de caso de polícia do que de acto de amor. Também foram apontadas as inverosimilhanças sobre o facto de mais ninguém no hospital ter dado pela troca ou por Helena escrever os seus segredos, incluindo o da troca, num diário sem cadeado que estava à vista de todos.
Mas a principal antipatia do público foi contra a personagem Maria Eduarda, cuja imaturidade e prepotência irritou bastante as audiências no início da telenovela, ao ponto de ter sido criado um site chamado "Eu Odeio a Eduarda" e de ter havido petições a pedir a morte da personagem ao autor. Este porém optou pelo amadurecimento e desenvolvimento da personagem, que acabou por convencer na recta final.

De referir ainda que a banda sonora da telenovela não só continha o tema "Se Eu Fosse Um Dia O Teu Olhar" de Pedro Abrunhosa na versão espanhola como em Portugal, o genérico final era transmitido ao som de "Brincando Com O Fogo" de Rita Guerra e Beto, que o genérico continha fotos reais de Regina e Gabriela Duarte ao longo dos anos e que foi a última telenovela do célebre realizador Paulo Ubiratan, que faleceu quando "Por Amor" estava a ser rodada.


Genérico:





quinta-feira, 29 de março de 2018

Knight Rider ZX Spectrum (1986)



A série original do "O Justiceiro" (Knight Rider) [1982-86] foi um sucesso internacional, e claro que entre as toneladas de produtos de merchandising tinha que constar videojogos! No artigo que escrevi há uns anos para a Enciclopédia coloquei uma foto da adaptação das aventuras de KITT e Michel Knight para o NES. Hoje troco os cartuchos pelas cassetes e vou recordar o jogo para ZX Spectrum. Tenho um exemplar na minha magra colecção de videojogos, mas como infelizmente não tenho uma máquina para o experimentar socorri-me de vídeos do Youtube. Produzido pela "Ocean Software", "Knight Rider" para ZX Spectrum foi lançado no mercado em 1986.

Comecemos por apreciar a ilustração do loading screen e o famoso tema de abertura, adaptado ás capacidades musicais de um ZX Spectrum:
  




A cassete da minha colecção, creio que não é original, mas tem capinha a cores e tudo, 'adaptado' da caixa que podem ver aqui.



O pormenor da cassete ser em preto, é bonito. Com a fita vermelha faz mesmo (quase) lembrar o KITT.



Neste vídeo podem ver o percurso das quatro missões do jogo, onde a bordo do K.I.T.T. podemos aniquilar helícópteros inimigos, enquanto conduzimos o carro em vista de primeira pessoa; o com a perspectiva estilo Bomberman percorrer a base terrorista sem ser capturado pelos bandidos, e... basicamente é isto, atravessar mapas de casas e explodir helicópteros, com o objectivo de impedir que  terroristas instiguem a Terceira Guerra Mundial


Tem jeito de ser monótono, mas decerto eu na altura teria delirado com a possibilidade de conduzir o carro mais fantástico da TV!

Está giro o pormenor de trocarem o nome de Devon por Deven!

Nesta publicidade da época também podemos ver indicação de versões para Commodore 64 e Amstrad CPC:

Foto: World Of Spectrum.

Top 5 Canções de Kim Wilde

por Paulo Neto

É bom saber que existem vários cantores que fizeram sucesso nos anos 80 não foram tragados pelo vortex da obscuridade e que, mesmo longe do auge do sua fama, continuam a ter uma carreira bem activa na música, editando discos e dando concertos um pouco por todo o mundo, para gáudio nostálgico dos mais velhos e para a descoberta dos mais novos.




Um desses casos é o de Kim Wilde, que aliás acaba de editar um novo álbum "Here Come The Aliens", o seu primeiro em cinco anos. Nascida Kim Smith a 18 de Novembro de 1960, adoptou o apelido artístico do seu pai, o cantor Marty Wilde quando iniciou a carreira em 1980, tornando-se a artista feminina britânica que mais discos vendeu nessa década. Ao longo de quase quatro décadas de carreira, Wilde vendeu mais de 10 milhões de álbuns e 20 milhões de singles em todo o mundo. Desde 1998, em simultâneo com a música, Kim Wilde tem tido uma carreira paralela na jardinagem, tendo editado alguns livros sobre jardinagem e arquitectura paisagística.
Apesar de não fazer parte da santíssima trindade das minhas cantoras preferidas durante os "meus" anos 80 (Madonna, Tina Turner e Belinda Carlisle), era uma das cantoras que mais eu gostava de ouvir nessa altura, sobretudo por causa das canções que figuram no 1.º e 2.º lugar desta lista. E sem dúvida que Kim Wilde era uma das cantoras mais atraentes dos anos 80, não recusando umas esporádicas mostras de sensualidade sem porém cair na agressividade de Madonna ou na pespinice de Samantha Fox. 
Como é hábito, houve várias canções que tiveram de ficar de fora desta lista e eu queria referia seis menções honrosas: Chequered Love (1981), The Second Time (1984), Say You Really Want Me (1987), Never Trust A Stranger (1988), Love Is Holy (1992) e Breakin' Away (1995).



#5 Cambodia (1981)
Escrita pelo seu pai Marty Wilde e o seu irmão Ricky, "Cambodia" foi o primeiro single de Kim extraído do seu segundo álbum "Select", marcando uma mudança de sonoridade face aos sons "new wave" do seu álbum de estreia.
Aludindo à Operação Menu, onde o Cambodja foi bombardeado pelas forças norte-americanas durante a Guerra do Vietname, através do ponto de vista da esposa de um soldado da força aérea, "Cambodia" conjuga um instrumental synth-pop com alguma percussão oriental. A parte mais famosa é sem dúvida o solo de sintetitzador que parece emitir um cântico asiático.
Apesar de se ter ficado pelo n.º 12 do top britânico "Cambodia" teve particular sucesso na Europa Continental, tendo mesmo chegado ao n.º1 na Suécia e na Suíça.
Consta que em 2009, quando Kim Wilde actuou no Pavilhão Atlântico num festival de antigas estrelas dos anos 80 (onde também estiveram nomes como Belinda Carlisle, Rick Astley e Nik Kershaw), ela comoveu-se quando a assistência entoou em uníssono os "oooh" do coro. 





#4 If I Can't Have You (1993)
Esta é a única canção do meu top 5 de Kim Wilde que foi lançada na década de 90 e um das duas na lista que são covers. No entanto, em ambos os casos, eu na altura não conhecia as versões originais pelo que foram estas covers de Kim Wilde o meu primeiro contacto com essas canções.
"If I Can't Have You" foi uma das canções compostas pelos Bee Gees para o filme "Febre de Sábado À Noite" e embora estes tenham gravado uma versão própria para o lado B de "Stayin' Alive", a versão que foi incluída no filme foi aquela interpretada por Yvonne Elliman (famosamente a Maria Madalena do filme "Jesus Cristo Superstar") que foi n.º 1 nos Estados Unidos.
A versão de Kim Wilde, condimentada com uma batida house, foi um dos dois temas inéditos do seu álbum best of, "The Singles Collection 1981-1993", e foi o seu último single a chegar ao top 20 britânico. Destaque para o videoclip que segue a arreigada storyline "mulher sozinha num apartamento dá em maluca com tanta solidão e desata a partir tudo".





#3 Kids In America (1981)
Impressionado pela voz de Kim numa demo do seu irmão Ricky (e pela sua beleza), o produtor e dono da editora RAK Records Mickie Most, revelou interesse em trabalhar com ela. O clã Wilde agarrou a oportunidade, deitou mãos à obra e nesse mesmo dia, compuseram "Kids In America" na sala de estar da casa da família com um sintetizador WASP. Most gostou da canção e deu os retoques finais na mistura e em Janeiro de 1981, a canção foi o primeiro single de Kim Wilde, então com 20 anos, e o sucesso não se fez esperar, chegando ao n.º2 do top britânico e n.º1 na Finlândia e na África do Sul e até ao top 30 nos Estados Unidos, numa altura onde ainda era relativamente raro cantores britânicos terem sucesso imediato. O tema foi incluído no filme "Reckless - Jovens Sem Rumo" com Aidan Quinn e Daryl Hannah e no jogo "Grand Theft Auto: Vice City".
"Kids In America" já foi versionado imensas vezes por nomes como The Muffs (cuja versão foi incluída no filme "Clueless"), Bloodhound Gang, Dave Grohl, Jonas Brothers e Electric Six, além de que a própria Kim Wilde regravou o tema em 1994 para um álbum de remisturas e em 2006. 





#2 You Keep Me Hangin' On (1986)

"Kids In America" pode ser a canção mais emblemática de Kim Wilde, mas  a sua versão de "You Keep Me Hangin' On" é capaz de ser o seu maior sucesso comercial, tendo sido n.º 1 nos Estados Unidos e na Austrália, n.º 2 no Reino Unido, Suíça e Irlanda. 
Originalmente gravado pelas Supremes em 1966, a versão de Wilde de  "You Keep Me Hangin' On" foi a primeira amostra do seu quinto álbum "Another Step". Kim e o seu irmão Ricky Wilde não estavam muito familiarizados com o original, pelo que decidiram tratar esta cover como se fosse uma música nova. 
E de facto, ao converter o clássico da Motown num poderoso tema Hi-NRG quase parece uma canção diferente, mas sem contudo perder a força, até porque a interpretação de Kim Wilde reflecte bem o espírito da letra que fala sobre uma paixão que não há meio de atar ou desatar. O respectivo videoclip que mostra Kim num cenário escuro no meio de um vendaval com uma silhueta masculina ao fundo reforça ainda mais essa atmosfera instável. 

   



#1 You Came (1988)
Depois de "Kids In America" e "You Keep Me Hangin' On", poucos discordarão que a terceira canção mais famosa de Kim Wilde é "You Came" do seu sexto álbum "Close", editado enquanto abria a parte europeia da digressão "Bad" de Michael Jackson no Verão de 1988 (o videoclip mostra aliás imagens dos bastidores digressão). No entanto para mim, é indubitavelmente a minha canção n.º1 de Kim Wilde.

"You Came" (não, nada de fazer trocadilhos sexuais com o título!) é para mim daquelas canções que me trazem um sorriso logo às primeiras notas, daquelas canções que fazem o sol brilhar mais e o céu ficar mais azul e trinta anos mais tarde, ainda adoro ouvir tanto como na altura. 
Aliás lembro-me que comprei uma colectânea de músicas dos anos 80 só por ter esta canção incluída bem como meia-dúzia de outras que eu queria ter no leitor de mp3 como por exemplo "Together In Electric Dreams". 

"You Came" foi mais outro grande hit internacional para Kim Wilde, nomeadamente chegando ao n.º 1 na Dinamarca. Em 2006, Kim Wilde gravou uma nova versão com uns arranjos mais rock para o álbum "Never Say Never" que continha várias regravações dos seus êxitos e essa nova versão teve algum sucesso em países como a Alemanha. 



Eu estive quase, quase, quase a incluir também esta canção na minha lista, mas achei que não era elegível não só porque Kim Wilde é a artista convidada como também porque basicamente esta é sobretudo uma canção de Nena. A colaboração entre estes dois ícones dos eighties, "Any Place, Anywhere, Anytime", editada em 2003, é uma regravação de "Irgendwie, Irgendwo, Irgendwann", a canção mais famosa de Nena, à parte aquela dos balões vermelhos. Mas fica a menção e o vídeo:



"Pop Don't Stop" (novo single 2018)




sexta-feira, 23 de março de 2018

1986 (2018)


por Paulo Neto

À primeira vista pode parecer estranho eu estar a falar aqui sobre uma série actualmente em exibição, mas sendo a série que é, faz bastante sentido falar dela aqui na "Enciclopédia de Cromos".



Não é segredo para ninguém que este blogue foi inspirado pelo valiosíssimo trabalho de arqueologia cultural levado a cabo por Nuno Markl entre 2009 e 2012 na "Caderneta de Cromos" da Rádio Comercial relembrando tantas memórias dos anos 70, 80 e 90. Além disso, eu e o David Martins somos grandes admiradores do trabalho de Markl pré e pós-"Caderneta", por isso quando ele anunciou nas redes sociais que um dos seus próximos projectos era uma série da RTP de título "1986" que pretendia capturar o Portugal desse referido ano, ficámos bastante entusiasmados e sabíamos que iria ser algo grandioso. Foi também com grande entusiasmo que fomos recebendo cada informação disponibilizada sobre a série através das redes sociais, desde excertos do guião a imagens de bastidores das filmagens, passando por reflexões de Markl sobre o andamento do projecto. A cada novo detalhe divulgado, eu só pensava "Tenho de ver isto. TENHO. DE. VER. ISTO! JÁ!". A expectativa chegava a ser dolorosa, ainda por cima com os sucessivos adiamentos da estreia.



Mas por fim no passado dia 13 de Março de 2018, o primeiro episódio de "1986" foi para o ar na RTP1 e logo a seguir, os 13 episódios que compõem a série ficaram disponíveis na RTP Play. Não, não vi todos os episódios de enfiada, mas foi a minha primeira experiência de poder aceder a uma série inteira e vê-la na íntegra em poucos dias. E as minhas expectativas quanto à série, embora altas, foram largamente superadas.



Sim, "1986" é uma cápsula do tempo a transbordar de referências e reminiscências dos anos 80. Sim, é a recordação de um Portugal que ainda lambia as profundas feridas do passado mas que olhava para o futuro com um optimismo nunca antes visto. Sim, é um tributo de Nuno Markl às suas paixões cinematográficas, musicais e literárias da sua adolescência que o moldaram enquanto autor. Mas "1986" ainda é mais do que tudo isso.


A trama já é sobejamente conhecida: no início de 1986, quando Mário Soares e Freitas do Amaral avançam para a segunda volta das eleições presidenciais, o país está dividido entre os dois candidatos e o bairro lisboeta de Benfica não é excepção. É aí que vive Tiago (Miguel Moura e Silva), um jovem de 17 anos, apaixonado pelos jogos do Spectrum e fã dos Smiths, filho de Eduardo (Adriano Carvalho), um fervoroso militante comunista que vai ter de engolir o sapo de votar Soares. Como se ser um adolescente órfão de mãe, ouvir os constantes sermões ideológicos do pai, levar caldunços do presunçoso Gonçalo (Henrique Gil) na escola e aturar a obsessão do amigo metaleiro Sérgio (Miguel Partidário) em perder a virgindade bem como o negrume da amiga gótica Patrícia (Eva Fisahn) já não fossem complicações suficientes, Tiago está apaixonado por Marta (Laura Dutra), uma miúda gira e popular que é muito mais do que a betinha que aparenta ser. Tal como ele, Marta carrega sonhos para lá das estrelas. O problema é que este princípio de uma bela amizade (e quiçá algo mais) parece condenado à partida porque o pai de Marta, Fernando (Gustavo Vargas), é acérrimo apoiante de Freitas do Amaral e abomina Mário Soares e o comunismo, entrando em rota de colisão com Eduardo.
Pelo meio, há Alice (Teresa Tavares), a professora de Português da turma de Tiago, que se envolve com Eduardo apesar de ainda estar a ressacar de uma paixão mal resolvida, Maria de Lurdes (Mafalda Santos), a extremosa esposa de Fernando e mãe de Marta prestes a soltar um grito de Ipiranga contra a condição de submissa dona de casa para a qual sente que foi remetida à força, a Dona Conceição (Ana Bola), a sogra de Fernando que adora provocar o genro, a mãe hippie de Patrícia (Anabela Teixeira) que nem sonha que a filha se veste de preto da cabeça aos pés, Zé (Simon Frankel) um professor homossexual que se torna uma espécie de guia espiritual para Marta e Tó (Tiago Garrinhas), o estouvado funcionário do clube de vídeo de Fernando e dono da rádio pirata Boa Onda, que é como que a principal ligação entre o mundo dos adultos e o dos adolescentes.



Por entre turbulências familiares, conflitos políticos, explosões de aeronaves, falsos atentados bombistas, disfarces do Naranjito, discos do "Tarzan Boy", revistas "Gina" e pastilhas Super Gorila, poderão alguma vez Tiago e Marta ficar juntos?

Claro que a série terá as suas falhas e inconseguimentos. Vários espectadores já indicaram certos anacronismos (o mais famoso, o do Sérgio ter uma t-shirt com a capa de álbum dos Iron Maiden de 1993), glitches e inverosimilhanças. Pessoalmente eu achei que o motor da história só arrancou devidamente a partir do quarto episódio e que faltou profundidade a personagens como Fernando e Tó, que quase não saíam da caricatura. Mas nada que ensombre a saborosa experiência que é assistir à série, quase idêntica à de devorar um pacote de "Joaninhas". E para mim, existem quatro ingredientes que tornam "1986" tão delicioso.



Primeiro, a escrita de Nuno Markl, em parceria com a sua irmã Ana Markl e Filipe Homem Fonseca. Os diálogos são deliciosos e altamente "quotable", existe um bom equilíbrio entre as vertentes cómica e trágica da história e mesmo noutro espaço temporal, os apontamentos de humor surreal estão bem inseridos e aborda com franqueza temas intemporais como o fosso entre gerações e os dramas da adolescência. Quem é fã de Nuno Markl, reconhecerá o seu cunho pessoal e até mesmo situações semelhantes àquelas que o próprio já relatou na "Caderneta de Cromos" e em outras ocasiões. Mas também existe aqui um lado da sua escrita com que muitos não estarão familiarizados.
De referir ainda o apoio de consultoria histórica por parte de Joana Stichini Vilela, autora da excelente trilogia olissipográfica "LX-60", "LX-70" e "LX-80"* e a realização de Henrique Oliveira, ele próprio um ícone dos anos 80 como guitarrista dos Táxi .
* Este volume cita o meu artigo sobre as canções das Eleições Presidenciais de 1986 como uma das suas fontes, o que muito me honra. 

Segundo, o desempenho do elenco é muito bem conseguido. Os cinco jovens protagonistas foram bem-sucedidos em revelar todas as nuances das suas personagens e em fazer os espectadores identificarem-se com elas. A principal revelação será Eva Fisahn, como a icónica Patrícia: todos os seus timings e expressões são absolutamente certeiros. Não admira que a sua personagem já seja uma "fan favourite".


Do elenco mais adulto, destaco Adriano Carvalho, Teresa Tavares (que estranho vê-la a fazer de professora quando me lembro tão bem dos seus papéis de aluna), Mafalda Santos (adorei a evolução da sua personagem) e Ana Bola (dando o seu twist inconfundível à personagem).

Terceiro, a banda sonora original, concebida por João Só, Nuno Rafael e Hélder Godinho. Os oito temas originais convivem muito bem por entre os vários sucessos eighties (e alguns de outras décadas) que se ouvem na série, sem deixarem de soar também a 2018. Do refrão eufórico de "Electrificados", o tema do genérico interpretado por João Só, Catarina Salinas e Lena D'Água, à invocação Cyndi Lauper-iana de Ana Bacalhau, passando por Samuel Úria a dar uma no cravo dos Supertramp e outra na ferradura dos Iron Maiden. Isto para além de David Fonseca, Miguel Araújo, Márcia, Tatanka e Rita Redshoes.



        
Quarto, a razão mais pessoal. Durante as filmagens da série, Nuno Markl pediu através das redes sociais que os seus seguidores enviassem fotos suas de circa 1986 para o genérico da série a ser criado por João Pombeiro. Eu enviei uma das minhas fotos de infância de preferidas, datada de 1985 em que o meu eu de 5 anos estava a fazer broas de Todos-Os-Santos com a minha Avó Ana, enquanto por detrás de nós vê-se o quadro com a cabeça do Rato Mickey onde aprendi as escrever as letras.
Claro que tinha esperança que esta fotografia fosse incluída para o genérico, mas com tantos cibernautas a enviar fotografias, estava ciente de que a minha podia não ser uma das eleitas. Por isso, foi com imensa alegria que vi a foto da Avó Ana e o Paulo de 1985 no genérico inicial do primeiro episódio. Fiz logo printscreen e avisei os meus familiares no Facebook, que ficaram comovidos. 


A minha Avó Ana faleceu em 2002 e estou profundamente agradecido por ver este nosso momento imortalizado no genérico de "1986". 





Para quem já andava por este pequeno rectângulo à beira do Atlântico no dito ano, "1986" será um belo exercício de viagem no tempo e de regresso uma época onde se vivia a outra velocidade e com outra intensidade. Para aqueles que nasceram depois, será uma divertida descoberta de um período tão diferente daqueles que conheceram mas que afinal também é bastante semelhante.  

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