segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Gam Gam" Mauro Pilato & Max Monti (1994)

por Paulo Neto

Nem só de memórias é feita a Enciclopédia de Cromos, mas também de algumas descobertas de sons e imagens de outros tempos ao vasculhar o vasto espaço cibernético. Foi o que aconteceu quando acedi a um canal de Youtube de um DJ italiano que publica vídeos com as suas 100 canções preferidas de um dado ano (à data, estão disponíveis tops de 1979 a 1995, mais 2016). Quando ele publicou a sua lista referente ao ano de 1994, no n.º 93 houve um tema que me chamou a atenção. Tratava-se de um tema de dança com um coro de crianças e quando mais descobri sobre ele, mais fiquei fascinado. Eu nunca tinha ouvido este tema antes, até porque o seu sucesso esteve basicamente limitado ao seu país de origem, a Itália. Trata-se de "Gam Gam", tema de 1994 dos DJ/produtores Mauro Pilato e Max Monti.


Em boa verdade, até não é dos mais bem produzidos temas da cena techno-house italiana dos anos 90, as batidas e os drops são algo básicos e convencionais para a altura, pelo que o grande trunfo é sem dúvida as vozes infantis que parecem conferir uma aura espiritual. E é ao descobrir mais sobre isso que as coisas ficam mais interessantes.

A língua em que canta o coro de crianças é hebraico e as palavras são retiradas do Salmo 23 da Bíblia, adaptado musicalmente por Elie Botbol e interpretado pelo coro infantil franco-israelita Chevatim

Gam-Gam-Gam Ki Elekh (Mesmo se eu caminhar)
Be-Beghe Tzalmavet (Pelo vale da escuridão)
Lo-Lo-Lo Ira Ra (Não temo nenhum mal)
Ki Atta Immadì (Por que Tu* estás sempre comigo)

Šivtekhà umišantekhà (Porque Tu serás minha bengala, meu apoio)
Hema-Hema yenahmuni (Contigo sinto-me tranquilo)

* Este"Tu" refere-se obviamente a Deus


E então, onde é que Pilato e Monti foram buscar a ideia de fazer um tema dance a partir de um coro infantil a cantar um salmo bíblico em hebraico? Literalmente ao filme italiano de 1993 "Jona che visse nella balena" (em português "Jonas que viveu na baleia", se bem que o título oficial em Portugal seja um rotundo e menos poético "Sobreviver Ao Nazismo") realizado por Roberto Faenza, baseado na biografia do escritor e físico holandês Jona Oberski que em criança viveu todos os horrores da segregação racial e dos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial, aos quais sobreviveu embora tendo perdido os seus pais. A música é do lendário Ennio Morricone.



"Gam Gam" é cantado numa cena de uma aula de música no campo de concentração, em que o pequeno Jona (Luke Petterson) confessa em voz-off que não conseguia cantar os cânticos ensinados porque não percebia as palavras em hebraico por isso por vezes improvisava relutantemente um playback a abrir e fechar a boca. E é precisamente esta cena que Mauro Pilato e Max Monti samplaram para o seu tema, incluindo a fala voz-off em italiano. 


"Gam Gam" não teve videoclip, existindo apenas esta algo bizarra actuação na televisiva italiana com um grupo de crianças a fazer playback.


A versão original de Elie Botbol tornou-se entretanto um dos mais famosos hinos das comunidades judaicas nas celebrações das memórias do Holocausto, durante o qual faleceram mais de um milhão e meio de crianças, ao passo que a versão dance de Pilato e Monti tem permanecido com uma espécie de clássico underground que teve um inesperado ressurgimento nos últimos tempos quando foi escolhida para a banda sonora do jogo "Pro Evolution Soccer 2017". Essa inclusão motivou uma vaga de novos remixes de "Gam Gam" este ano, como este de Joe Berté e Daniel Tek.




Já em 2003, o tema tinha remisturado por Gabriele Ponte, famoso por ser um dos membros dos Eiffel 65.



Max Monti (foto do Twitter)

Mauro Pilato (foto do Twitter)


Acima de tudo, a descoberta deste tema fez-me reflectir sobre o mundo nos anos 90, nos quais eu fiz a minha travessia da infância, adolescência e inícios da maioridade, e a comparação com o mundo actual. Nos tempos actuais do politicamente correcto, de fúrias cibernéticas e de gritos de indignação por dá-cá-aquela-palha, não duvido que se hoje alguém se lembrasse de fazer uma tema dance baseado num coro infantil a cantar uma passagem bíblica em hebraico, ainda para mais retirado de um filme sobre o Holocausto, haveriam de se levantar vozes a gritar um alegado desrespeito e ofensa às vítimas do Shoah.
Mas em 1994, não consta que tivessem havido muitas vozes indignadas com esta versão e devem ter sido muitos mais aqueles que dançaram entusiasticamente ao som dela nas discotecas italianas e além-fronteiras. Talvez porque na altura, mais do que infelizmente na actualidade, era mais fácil acreditar que a Humanidade tinha aprendido a lição e que os horrores do Shoah eram algo impossível de se repetir.

"Gam Gam" cantado pelo coro "Voci Liberi"


Versão de Ennio Morricone para o filme "Jona che visse nella balena"


Trailer do filme (versão dobrada em inglês)

domingo, 3 de dezembro de 2017

The Beastmaster (1982)


"The Beastmaster", "O Guerreiro Sagrado" em Portugal e o muito melhor "Senhor das Feras / O Príncipe Guerreiro" no Brasil. Estreou nos EUA a 20 de Agosto de 1982 e em Portugal só em 1 de Junho de 1984, (segundo o IMDB, só encontrei registo a partir da semana seguinte, em dois cinemas da capital) com classificação de 12 anos, idade de sobra para ver cadáveres empalados e marmelinhos ao léu.

A sinopse deste épico filmado na California é um mix da Jornada do herói ao estilo "Choque de Titãs" (1981) e "Conan e os Bárbaros" (1982), e as mitologias do mundo real que inspiraram estes filmes de fantasia. Aliás, "The Beastmaster" estreou alguns meses depois do ícone realizado por John Milius e ás vezes parece uma versão contrafeita do mesmo.


As parecenças não serão inocentes visto que a produção da famosa franquia Conan para imagem real foi demorada e só não estreou antes por recortes na violência feitos à ultima da hora. "The Beastmaster" é uma adaptação extremamente livre de "The Beast Master", um livro de ficção científica dos anos 50 que nem foi mencionado nos créditos, segundo a Wikipedia. 

Um poster mais fiel aos visuais da fita.



Resumindo, umas bruxas boazonas em bikini mas com cara de ameixa seca mutante têm a profecia que o filho por nascer do Rei Zed vai matar no futuro o maléfico sacerdote Maax e destruir a sua seita de fanáticos que adoram o deus Ar. Um dos seus enviados transfere o bebé do ventre da rainha para o ventre uma vaca e depois de fugir da cidade, retira a criança do animal e marca-o com um ferro em brasa. 





O sacrifício é interrompido por um aldeão que foge com o bebé e o cria como seu filho. 
Já adulto, Dar é o único sobrevivente da aldeia, massacrada pelos selvagens Jun, seguidores de Tulsa Doom, perdão, Maax. 



Parte então numa viagem rumo à cidade em busca de vingança. Graças aos seus poderes de comunicação com animais, Dar vai conquistando aliados na forma de uma águia (Sharak), um par de fuinhas ou furões (Kodo e Podo) e o tigre Ruh



Como qualquer jovem, mas todo bombado em esteróides (não vi nenhum ginásio na aldeia), a primeira coisa a fazer é ordenar a Kodo e Podo que roubem a roupa a uma escrava - Kiri - que se banhava no rio e depois tentar impressioná-la e viola-la. Um sábado à tarde, portanto. 

Obviamente além de se vingar dos Jun e de Maax, Dar agora tem também que libertar a escrava. E as tarefas ainda não acabaram...






Logo de arranque a banda sonora dos créditos - da autoria de Lee Holdridge - parece um mix da "Battlestar Galactica" clássica e Indiana Jones, uma impressão que se mantém ao longo da metragem.


Como do filme só conhecia  é praticamente o poster (muito  ao estilo de John  Carter de Marte) quase metade do filme estive à espera que surgisse a pantera negra do poster. Um tigre pintado de preto também serve.




Portanto, na falta do grande Eusébio, o Pantera Negra, a quota de diversidade foi preenchida por um individuo de alto índice de melanina, grande e musculoso que também corria pelo ecrã envergando a bela da tanga de cabedal fantasia-medieval, o actor John Amos ("Raízes"). Outra cara e voz familiar é a do vilão de serviço Maax, o actor Rip Torn ("Aeroplano II", "MIB - Homens de Negro").



O protagonista Marc Singer participou em vários episódios da série "The Beastmaster" de 1999 noutro papel. A investigar para este artigo reparei que a cara dele não me era estranha devido à sua participação como "Mike Donovan", um dos líderes da resistência humana nas séries mini-séries e série de "V". Várias vezes esperei que Dar, o personagem de Singer, erguesse a espada no ar, gritasse "Eu tenho o PODER!!" e cavalgasse o seu tigre qual He-Man de baixo orçamento.



A beldade da fita, Tanya Roberts (1955-2021), a escrava/ninja Kiri, andou desfilando em trajes menores por vários filmes, ou até sem trajes, como "Sheena, a Rainha da Selva" (1984), foi Bond Girl em "A View To A Kill" (1985) e foi um Anjo de Charlie na última temporada da série . "The Beastmaster" foi realizado por Don Coscarelli, o artesão da saga de terror Phantasm.


A falta de química, as coreografias manhosas e actuações de qualidade duvidosa, levaram a que para mim os momentos mais emocionantes fossem as mortes dos animais. Qualquer contador de histórias que se preze já há muito aprendeu que podem mostrar a destruição e massacre de uma aldeia inteira, mulheres e crianças empaladas e queimadas just for fun, que o espectador só deita a lagrimita solitária se um animal queriducho for magoado pelos maus da fita, autorizando moralmente o protagonista a proceder a uma limpeza de sarampo geral até eliminar da face da terra a espécie dessa bandidagem.
Assim que terminei o visionamento, escrevi no Letterboxd que "The Beastmaster" é uma fita de "sword and sorcery" (espadas e feitiçaria) com muitas sequências patetas, compensadas por algumas cenas mais atrevidas.

Depois, dormi sobre o assunto e contextualizando a época e os meios, mesmo as cenas mais bizarras já me parecem fazer mais sentido, no universo da fita, e é de louvar a utilização de miniaturas! E devem ter gasto boa parte do orçamento a construir aquela pirâmide dos sacrifícios humanos e a miniatura da cidade.



Já disse que sou fã de miniaturas, por mais óbvias que sejam? E não faz mal a ninguém alguma violência gratuita. O que seria de um filme de vingança sem uma aldeia destruída para dar motivo ao protagonista?

Se eu tivesse visto isto em plenos anos 80 teria delirado e de certeza desgastado a fita VHS em certas cenas... É fácil perceber como se tornou um filme de culto no género, apesar do fraco retorno de bilheteira. Tornou-se um clássico exibido na TV e gerou duas sequelas; "Beastmaster 2: Through the Portal of Time" (1991) e "Beastmaster III: The Eye of Braxus" (1996) com Singer a repetir a personagem Dar; e uma série com 3 temporadas: "BeastMaster" (1999-2002).

Mini-texto por altura da estreia em Portugal, "uma aventura épica onde um musculoso herói combate as forças do mal numa terra lendária."
"Diário de Lisboa" [08-06-1984]
"Mais um filme ''culturista'', uma onda americana que em Portugal não tem feito grande sucesso."

Publicado originalmente no blog "Cine31 - The Beastmaster (1982)".

sábado, 25 de novembro de 2017

Retro TV - Per7ume


Depois de anos a esperar ingloriamente que o Nuno Markl lançasse alguma canção ao estilo do "Creci en los ochenta", finalmente em Portugal uma canção nostálgica (se excluirmos a que toca na RTP Memória) sobre a televisão das gerações dos anos 70 e 80, para quem ainda conheceu a TV a preto-e-branco e com apenas um canal, ou quando a emissão começava tarde e acabava cedo, porque no dia seguinte era dia de escola ou trabalho e quem imaginava que pessoas podiam querer ver TV depois da meia-noite e do Hino Nacional?
A canção é do banda portuense "Per7ume", que está em actividade desde 2007, e já coleccionaram êxitos como "Intervalo" ou "Mudo", e já no plano nostálgico participaram com a versão de "Versos de Amor" no álbum "Tributo a Carlos Paião".  O videoclip é divertido, intercalando imagens da banda tocando trajada ao estilo dos anos 60/70 com sequências dos membros do grupo a assistir numa moderna televisão aos programas que marcaram as décadas de 70 e 80.


O teledisco de "Retro TV":


É possível ver também uma versão ao vivo no site da RTP: "Per7ume - Retro TV".
Conseguiram captar todas as referências?

Gostava que mais artistas dedicassem trabalhos á cultura popular portuguesa das últimas décadas. Conto em breve traduzir aqui no blog o tema "Creci en los ochenta", que vai mais além da televisão dos anos 80. 

domingo, 19 de novembro de 2017

Festival da Eurovisão 1992

por Paulo Neto

Já passaram seis meses desde que o impensável aconteceu e Portugal finalmente venceu o Festival da Eurovisão. Enquanto os preparativos para a edição do próximo ano em Lisboa seguem a bom ritmo, nada como voltar a recordar uma edição passada do certame, a saber a que teve lugar há 25 anos atrás em 1992.



O 37.º Festival da Eurovisão decorreu a 9 de Maio de 1992. Em virtude da sua vitória no ano transacto, a Suécia recebia o certame pela terceira vez, e depois da capital Estocolmo em 1975 e de Gotemburgo em 1985, cabia agora Malmo acolher o evento no centro de exposições e convenções MalmoMassan. O palco tinha no meio uma espécie de barco viking.


A apresentação esteve a cargo de Lydia Capolicchio e Harald Treutiger. Foi também a segunda edição a ter uma mascote: um pássaro. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Eládio Clímaco e Ana Zanatti foi a porta-voz dos votos de Portugal.

Além dos vinte e dois países que participaram em 1991, registou-se o regresso da Holanda, ausente no ano anterior, num total de 23 países participantes. No entanto, esta seria a última participação da Jugoslávia (que na altura já estava efectivamente reduzida às repúblicas da Sérvia e do Montenegro) sob esta designação.

Como é habitual, vamos ver as canções por ordem inversa à classificação:

Pave Maijanen (Finlândia)
Christer Bjorkman (Suécia)

E começamos com um país habituado à cauda da tabela, a Finlândia. Depois de ter feito coros para as canções finlandesas de 1982 e 1983, Pave Maijanen tinha agora oportunidade de mostrar o seu valor com "Yamma Yamma", que falava sobre as alegrias de ouvir música na rádio, com a letra mesmo a referir Frank Sinatra e John Lennon. Mas apesar do seu refrão repetitivo e pegadiço, a Finlândia não convenceu os júris europeus, e obteve somente quatro pontos, quedando-se no último lugar.
Já a Suécia não está lá muito habituada ao fundo da tabela, mas nesse ano os santos da casa não fizeram milagres e o país anfitrião não foi além do penúltimo lugar com apenas 9 pontos. A balada "I morgon är en annan dag" ("amanhã é outro dia") foi interpretada por Christer Bjorkman, que desde 2002 exerce a função de supervisor do MelodiFestivalen, o equivalente sueco Festival da Canção. 

Marion Walter (Luxemburgo)


Morgane (Bélgica)

O Luxemburgo levou uma canção cantada em luxemburguês, "Sou fräi" ("tão livre") na voz de Marion Welter, acompanhada pelo grupo Kontinent. Recebeu 10 ponto de Malta, ficando-se pelo 21.º lugar.
A Bélgica apostou na jovem Morgane, de apenas 16 anos, para defender as suas cores cantando "Nous on veut des violons" ("nós queremos violinos"). A letra era uma espécie de manifesto contra o conceito de geração rasca, declarando que há muito mais sob o ar de indiferença desta juventude. Porém com 11 pontos, a Bélgica não foi além do 20.º lugar. Segundo a Wikipedia, após vários anos no anonimato durante os quais teve três filhos, Morgane regressou à música em 2009 via rock gótico.

Aylin Vatankos (Turquia)


Merethe Troan (Noruega)

Aylin Vatankos foi a intérprete da canção da Turquia, "Yaz Biti" ("o Verão acabou"), uma balada sobre amores de Verão. Ficou em 19.º lugar com 17 pontos.
"Visjoner" ("visões") foi a canção que representou a Noruega, uma tema bem animada marcado pela muito boa disposição da intérprete Merethe Troan, que deixou mesmo escapar uma gargalhada espontânea a meio da actuação. A Noruega ficaria em 18.º lugar com 23 pontos. Mais tarde, Merethe Troan fez carreira como "voice actress", sendo a voz da Belle noruguesa em "A Bela e O Monstro".

Dina (Portugal)
Wind (Alemanha)

E chegámos a canção de Portugal, que nesse ano ficou em 17.º lugar com 26 pontos (8 pontos de Israel e Alemanha, 5 da Jugoslávia, 2 de Grécia e Finlândia e 1 de Itália). Mas a canção é daquelas que toda a gente conhece, "Amor de Água Fresca", uma autêntica salada de frutas musical servida com letra de Rosa Lobato de Faria e a voz de Dina, que também compôs a música. Quem é que nunca cantou "Peguei, trinquei e meti-te na cesta/ Ris e dás-me a volta à cabeça /Vem cá, tenho sede./Quero o teu amor de água fresca"? (Até a própria J.K. Rowling declarou, após a vitória de Portugal na Eurovisão em Maio passado, que ainda hoje sabe este refrão de cor, que decerto terá aprendido quando a autora da saga "Harry Potter" dava aulas no Porto.) Igualmente inesquecível foi o videoclip desta canção em que Dina surgia como uma espécie de Carmen Miranda por entre cenas de Ricardo Carriço e Sofia Aparício num jogo de sedução.
"Amor de Água Fresca" foi o ponto alto da carreira da cantora nascida em Carregal do Sal sob o nome de Ondina Veloso, que também nos deu canções como "Há Sempre Música Entre Nós" e "Pérola Rosa Verde Limão Marfim". Infelizmente em 2016, Dina anunciou o fim da sua carreira devido a problemas de saúde. (ACTUALIZAÇÃO: Infelizmente, Dina faleceu em Abril de 2019)
A Alemanha foi mais um país que apostava forte nesse ano mas que teve resultados aquém do esperado. E não era para menos, pois o grupo Wind já tinha representado o país em 1985 e 1987, tendo ficado em segundo lugar em ambas as ocasiões. No entanto, somente a vocalista Petra Scheeser e o percussionista Sami Kalifa foram os únicos membros de grupo a estar presentes nas três participações. Desta vez, levaram a balada "Traumen sind fur alle da" ("os sonhos são para todos") e tal como as canções alemãs dos dois anos anteriores, também aludia aos ventos de esperança na Alemanha reunificada. Mas ao contrário das outras duas prestações, desta vez os Wind não foram além do 16.º lugar com 27 pontos.


Daisy Auvray (Suíça)



Serafin (Espanha)

A canção que representou a Suíça em Malmo não foi a vencedora nacional. A pré-selecção helvética tinha sido ganha pelo tema "Soleil, Soleil" interpretado por Géraldine Olivier. No entanto, foi descoberto que os autores da canção violaram as regras ao submeter a canção a concurso duas vezes: primeiro pela parte francófona onde não foi escolhida, depois pela parte alemã com a versão em alemão que ganhou a final nacional. Como tal, esse tema foi desclassificado e a canção que tinha ficado em segundo lugar "Mister Music Man", interpretada por Daisy Auvray, é que seguiu para a Suécia, obtendo o 15.º lugar com 32 pontos, incluindo um 12 da Islândia.
A Espanha foi o primeiro país a actuar, representada por Serafín Zubiri que assim se tornou o primeiro cantor invisual a participar no Festival da Eurovisão. A sua canção "Todo esto es la musica" obteve 37 pontos, o que lhe valeu o 14.º lugar. (Pessoalmente, acho que merecia um pouco mais). Serafín voltaria à Eurovisão em 2000.

Extra Nena (Jugoslávia)

Kenny Lübcke e Lotte Nilsson (Dinamarca)

Como já referi antes, em 1992, a Jugoslávia estava agora reduzida à Sérvia e ao Montenegro após as proclamações de independência das restantes repúblicas que, à excepção da Macedónia, foram feitas à custa de sangrentos conflitos, sobretudo na Bósnia-Herzegovina, que levaram a um embargo da ONU. Ainda assim, fez-se representar pela cantora folk sérvia Snezana Beric que respondia pelo espectacular nome artístico de Extra Nena, no tema "Ljubim te pesmama" ("eu beijo-te com canções") ficando em 13.º lugar com 44 pontos. Este território só regressaria à Eurovisão em 2004, já sob a designação de Sérvia & Montenegro. 
Volta e meia, a Dinamarca gosta de levar um dueto entre uma voz masculina e uma voz feminina  e foi isso que sucedeu em 1992, com este país a ser representada por Kenny Lübcke e Lotte Nilsson com o tema "Alt dem som ingen ser" ("o que mais ninguém vê"), que ficou em 12.º lugar com 47 pontos. Kenny Lübcke regressaria à Eurovisão como membro do coro em 1999, 2002 e 2005.

Evridiki (Chipre)
Tony Wegas (Áustria)

Chipre trouxe a proposta mais sensual da noite. Evridiki já tinha feito várias vezes nos coros de várias canções cipriotas mas estreava-se este ano como solista na Eurovisão com "Teriazoume" ("somos parecidos"). A actuação foi marcada por duas peripécias: um movimento brusco por parte de Evridiki fez abanar o suporte do microfone e o público, não se apercebendo que a canção tinha uma pausa silenciosa mesmo antes do fim, começou a aplaudir antes de tempo. Chipre ficou em 11.º lugar com 57 pontos.
A minha favorita pessoal do Festival desse ano foi a Áustria, que ficaria em 10.º lugar. "Zuhsammen geh'n" ("caminhar juntos") era uma romântica balada com música de Dieter Bohlen (sim, o dos Modern Talking) e interpretada por Tony Wegas. Obteve 63 pontos, incluindo um 12 da Irlanda. 
Mas existe um grande motivo que fez com que eu nunca tivesse esquecido esta canção. Na altura, ainda era habitual a RTP transmitir os videoclips das canções concorrentes após o Telejornal umas semanas antes do Festival. Pois recordo-me bem que durante esses blocos, de ver o videoclip da canção da Áustria que intercalava planos de Tony Wegas a fazer playback da canção com cenas em que um casal de actores protagonizava cenas de erotismo softcore, algumas das quais dignas das "50 Sombras de Grey". Nada de super vulgar mas ainda assim era sem dúvida das coisas mais puxadas que o meu eu de 12 anos tinha visto até então na televisão. Tony Wegas voltou a representar a Áustria no ano seguinte.  


Humphrey Campbell (Holanda)

Kali (França)

Ausente no ano anterior, a Holanda regressou à Eurovisão e foi este país que encerrou o desfile das canções com "Wijs me de weg" ("mostra-me o caminho"), interpretado por Humphrey Campbell, cantor natural do Suriname. Como tal, o tema continha matizes de sonoridades caribenhas e também de r&b. Campbell interpretou este tema em coreografia com os seus irmãos Carlo e Ben e deu aos Países Baixos o nono lugar com 67 pontos.
Os sons das Caraíbas também estiveram bem presentes na canção da França, representada por Jean-Marc Monnerville, de nome artístico Kali, artista oriundo da ilha de Martinica. Como tal o tema "Monté lá rivié" ("sobe o rio") era interpretado em francês e crioulo franco-caribenho. Ficou no 8.º lugar com 73 pontos.

Heart 2 Heart (Islândia)
Dafna (Israel)

A Islândia trouxe um dos temas mais animados, "Nei eda já" ("não ou sim") do grupo Heart 2 Heart, que ficou em sétimo lugar com 80 pontos. Curiosamente dois dos elementos do grupo, Sigga Beinteinsdottir e Gretar Orvasson tinham representado este país dois anos antes como o duo Stjornin e tinham obtido o melhor resultado islandês até então, um quarto lugar, pelo que havia esperanças de conseguirem ainda melhor em 1992. Sigga voltaria a representar a Islândia dois anos depois, desta vez a solo. 
Igualmente animada foi a canção que representou Israel, "Ze rak sport" ("é só desporto") que com os seus ritmos latinos, bem que podia passar por uma música espanhola não fosse interpretada na língua hebraica por Dafna Dekel. Israel ficou em sexto lugar com 85 pontos. Dafna viria a apresentar o Festival da Eurovisão de 1999 em Jerusalém. 

Kleopatra (Grécia)



Mia Martini (Itália)

Cleopatra Pantazi foi a representante da Grécia, que nesse ano conseguiu igualar o melhor resultado desse país até à altura, um quinto lugar com 94 pontos. O tema "Olou tu kosmo i elpida" ("a esperança de todo o mundo") reflectia sobre a incerteza do mundo moderno e era inspirada pelo facto de nesse ano decorrer no Brasil a primeira grande cimeira internacional sobre as questões ecológicas que o mundo atravessava. 
Mia Martini (nome verdadeiro Domenica Berté) já tinha representado a Itália quinze anos antes com o tema disco-pop "Libera". Desta feita, ela trazia uma canção bem diferente, "Rapsodia", cuja letra falava sobre o reencontro de dois velhos amantes. Recordo-me que o Paulo de 1992 não gostou lá muito da interpretação de Mia Martini (parecia-me que lhe estava a doer qualquer coisa), mas o Paulo de 2017 já tem maturidade suficiente para apreciar a imensa qualidade desta canção e o sentimento impresso na voz da intérprete. A Itália ficou em quarto lugar com 111 pontos. Infelizmente, Mia Martini faleceu três anos mais tarde. 

Mary Spiteri (Malta)

Regressado a Eurovisão no ano anterior após dezasseis anos de ausência, o pequeno arquipélago de Malta obteve em 1992 o seu melhor resultado até então, ao conseguir o terceiro lugar com 123 pontos (incluindo 12 de Portugal). O tema "Little Child" foi defendido por Mary Spiteri. Durante um segmento do Festival da Eurovisão de 2014, esta canção foi referida como sendo aquela com a nota mais longa aguentada por um cantor no evento (13 segundos).

Michael Ball (Reino Unido)
   
O Reino Unido ficou em segundo lugar (139 pontos) com o tema "One Step Out Of Time", interpretado por Michael Ball, naquele que é o mais notória incursão na música pop desta grande vedeta dos musicais do West End londrino. O Reino Unido ficava assim com a medalha de prata pela 12.ª vez. 

Linda Martin (Irlanda)

Mas a vitória acabou por ir para a Irlanda, que assim vencia o Festival pela quarta vez. Linda Martin esteve muito perto da vitória oito anos quando obteve o segundo lugar na edição de 1984 com "Terminal 3". Mas à segunda, o triunfo (com 155 pontos) não lhe escapou, interpretando a balada "Why me", que foi escrita por nada menos que Johnny Logan, vencedor do Festival da Eurovisão por duas vezes em 1980 e 1987, provando que não há duas sem três.  


Festival da Eurovisão 1992 (comentários da BBC):


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