sexta-feira, 6 de maio de 2016

Festival da Eurovisão de 1991

por Paulo Neto





Hoje recuamos até ao ano de 1991 para a 36.ª edição do Festival da Eurovisão que teve lugar a 4 de Maio desse ano no estúdio 15 da Cinecittá em Roma, na virtude da Itália ter vencido no ano anterior. Inicialmente o evento estava previsto ter lugar em San Remo, onde se realiza anualmente o famoso festival de música, mas com a Guerra do Golfo e as tensões crescentes na Jugoslávia, foi mudado para Roma, considerado um local mais seguro.
Vinte e dois países concorreram, com destaque para o regresso de Malta que não participava desde 1975. Já no ano anterior, Malta quis participar mas como na altura as regras limitavam o número de países participantes em 22, tal não foi possível. Mas a ausência da Holanda (porque no dia do Festival o país celebrava a recordação dos mortos da Segunda Guerra Mundial) permitiu o regresso de Malta. Esta foi também a última participação da República Socialista Federal da Jugoslávia que nesse ano começaria a desmembrar-se e a embrenhar-se num sangrento conflito armado e a primeira da Alemanha após a reunificação.



Foi uma edição que ficou na história por ter tido uma organização bastante caótica, com um palco que parecia uma acumulação de vários elementos de cenários de filmes, uma orquestra impreparada, vários problemas de som (que felizmente não foram sentidas na transmissão televisiva), uma realização deficiente (a certa altura nas votações, deixaram de mostrar o quadro das votações, logo quando havia uma interessante luta pela liderança) e uma dupla de apresentadores aos arames. Mas em compensação, foi uma edição com colectivamente talvez um dos conjuntos de canções concorrentes com maior qualidade. 

A apresentação esteve a cargo de Toto Cutugno e Gigliola Cinqueti, os cantores responsáveis pelas duas vitórias italianas no Festival: ele no ano transacto e ela no então já longínquo ano de 1964 com o clássico "No Ho L'Etá". Acusando a sua inexperiência nas lides da apresentação, Toto e Gigliola tiveram algumas dificuldades, sobretudo para se fazerem entender fora da língua italiana. De vez em quando, antes da actuação de alguns países, Toto  trocou algumas palavritas com os intérpretes como foi o caso da nossa Dulce Pontes (a quem Toto chamou de "belissima"). Cutugno e Cinqueti também tiveram uma boa dose de calinadas durante a hora das votações, o que levou a várias intervenções do escrutinador da EBU, Ralph Naef. 
No início da transmissão foi emitido um videoclip do tema "Celebration" de Sara Carlson, cantora americana radicada em Itália, filmado nas ruínas de Tivoli. Os comentários para a RTP estiveram a cargo de Ana do Carmo e a porta voz dos votos de Portugal foi Maria Margarida Gaspar.

Outra particularidade desta edição foram os postais ilustrados que consistiam nos intérpretes de cada país a cantarem uma conhecida canção italiana, enquanto imagens de locais italianos surgiam no ecrã bem como a bandeira do respectivo país. Por exemplo, Dulce Pontes cantou "Dio Come Ti Amo" de Domenico Modugno e a grega Sofia Vossou o famosíssimo "Caruso" de Lucio Dalla. No início da transmissão foi exibido o videoclip "Celebration" de Sara Carlson, uma cantora americana radicada em Itália, filmado nas ruínas romanas do Tivoli.

Como é habitual, vamos recordar as canções por ordem inversa da classificação.

Thomas Forstner (Áustria)


Baby Doll (Jugoslávia)


Nesse ano, o sempre indesejado último lugar foi para a Áustria, com zero pontos. Em 1989, Thomas Forstner tinha conseguido um dos melhores resultados do seu país, um quinto lugar com uma canção escrita por Dieter Bohlen dos Modern Talking. Mas dois anos, sofreu um revés da fortuna ao não conseguir convencer a Europa com a canção "Venedig im Regen" ("Veneza à chuva"). O facto de estar vestido como se fosse patinar no gelo não ajudou.
Em 21.º lugar, com apenas um ponto  ficou a Jugoslávia que, apesar do magro resultado, teve sem dúvida uma das actuações mais memoráveis. O tema "Brazil" foi interpretado por Baby Doll, nome pelo qual era conhecida a cantora sérvia Dragana Saric que fazendo jus ao stagename, surgiu em palco como se fosse a materialização da boneca Barbie. E além de duas bailarinas e duas cantoras do coro, Baby Doll também fez-se acompanhar por um Ken dançarino que mostrou alguns dos seus movimentos de breakdance durante o solo de guitarra. Não deixa de ser curioso que a Jugoslávia tenha enviado um tema tão alegre e descomplexado no mesmo ano onde o país viria a implodir numa terrível guerra (e para aumentar a ironia, a final nacional jugoslava desse ano tinha sido realizada em Sarajevo).

Kaija (Finlândia)

Anders Frandsen (Dinamarca)

Em 20.º lugar com seis pontos ficou a Finlândia. Kaija Kärkinen interpretou "Hullu yö" ("noite louca"), uma balada rock que pessoalmente acho que não merecia tão fraco resultado mesmo se a coreografia dos três elementos do coro fosse algo embaraçosa.
A Dinamarca classificou-se na posição acima com 8 pontos. "Lige der hvor hjertet lar" ("onde o coração bate" era um balada ultra-romântica interpretada por Anders Frandsen. Lamentavelmente Frandsen foi encontrado morto em 2012, com 51 anos.

Atlantis 2000 (Alemanha)

Just 4 Fun (Noruega)



A recém-reunificada Alemanha ficou em 18.º com 10 pontos. O tema "Dieser Traum darf niemals sterben" ("este sonho nunca deve morrer") foi interpretado pelo grupo Atlantis 2000, um sexteto no qual se destacavam a loiríssima Jutta Niedhart e o Harry Potter de meia-idade Alfons Weindorf. A canção falava das mudanças da reunificação da Alemanha e as esperanças acarretadas por esse acontecimento.
A Noruega apostava forte com o colectivo Just4Fun que incluía dois repetentes nestas andanças: Hanne Krogh que tinha sido a representante do país em 1971, ainda muito jovenzinha, e sobretudo em 1985 como metade do duo Bobbysocks que alcançou a primeira vitória norueguesa; e Eirikur Hauksson, de farta melena ruiva, que além de ser uma figura conhecida do rock nórdico, fez parte do trio ICY que em 1986 foram os primeiros representantes da Islândia no Festival da Eurovisão. Os outros membros do quarteto eram Marianne Antonsen e Jan Groth. Esta foi a única vez que a Noruega escolheu uma canção directamente, sem fazer o Festival da Canção lá do sítio, mas a ideia não compensou até porque o tema "Mrs. Thompson" não correspondia à soma das partes e ficou-se pelo 17.º lugar com 14 pontos.

Clouseau (Bélgica)


Stefan & Eyfi (Islândia)

Na posição seguinte ficou a Bélgica, que se fez representar pelos Clouseau (como o inspector da Pantera Cor-de-Rosa), uma banda rock flamenga liderada pelos irmãos Koen e Kris Wauters. A banda era muito popular na Bélgica e na Holanda e a Roma trouxeram o tema "Geef het op" ("deixa-te disso") que teve 23 pontos. (Ana do Carmo comentou que o refrão tinhas muitas parecenças com "Proud Mary".) Os Clouseau continuam a editar discos e a actuar no seu país.
A Islândia ficou em 15.º lugar com 26 pontos, com a balada "Draumur um Nínu" ("um sonho com Nina"), também conhecida apenas como "Nina". Os intérpretes foram o duo Stefan & Eyfi, que é como quem diz Stefan Hilmarsson e Eyjólfur Kristiansson (o da bandana roxa que também era o autor e compositor da canção). Stefan já representara a Islândia em 1988, como parte de outro duo Beat-Hoven. Apesar do seu resultado discreto, "Nina" acabaria por se tornar uma das canções mais amadas na Islândia, daquelas que ainda hoje põe toda a gente a cantar em uníssono nos bares de Rejkjavik.

Sarah Bray (Luxemburgo)

Sofia Vossou (Grécia)

Izel, Can & Reyhan (Turquia)


Ao longo da sua história no Festival, era costume o Luxemburgo fazer-se representar por cantores de outros países. Mas nesse ano recorreu a uma cantora natural do grão-ducado, Sarah Bray (de seu verdadeiro nome Monique Wersant), que interpretou um tema com letra da sua autoria, "Un baiser volé" ("um beijo roubado"), que ficou em 14.º lugar, com 29 pontos.
Um lugar acima, com 36 pontos ficou a Grécia. Sophia Vossou interpretou "I Anixi" ("primavera") um interessante tema pop com influências de ópera e jazz, mas a actuação ficou celebremente prejudicada pelo desafinado solo de saxofone. Apesar de uma carreira musical prolífica, Sophia Vossou tornar-se-ia mais conhecida no seu país como apresentadora de rádio e televisão.  
Nos anos 80 e princípios dos anos 90, havia sempre de se esperar algo fora "out of the box" por parte da Turquia no Festival da Eurovisão. 1991 não foi excepção, com esse país a trazer uma espécie de "Grease" à moda de Istambul com o tema "Iki dakika" ("dois minutos"), interpretado pelo trio formado por Izel Çeliköz, Reyhan Karaca e Can Ugurluer. Com 44 pontos, obtiveram o 12.º lugar, suficiente para ser um dos melhores resultados da Turquia até então, apenas suplantado pelo nono lugar de 1986. Nos anos seguintes, Izel teve uma bem-sucedida carreira a solo.

Kim Jackson (Irlanda)


Samantha Janus (Reino Unido)

Elena Patroclou (Chipre)

Com 47 pontos, a Irlanda e o Reino Unido empataram no 10.º lugar. A representante irlandesa foi Kim Jackson que interpretou "Could it be that I'm in love", uma canção escrita por Liam Reilly, que tinha representado a Irlanda precisamente no ano anterior.
O Reino Unido fez-se representar pela loiríssima Samantha Janus e o tema "A message to your heart" cuja letra lembrava as desigualdades entre os países desenvolvidos e os do terceiro mundo. Este acabou por ser o único momento notório de Samantha Janus como cantora, já que viria a ser bem mais conhecida no seu país como actriz em várias séries como "Game On" (exibida na RTP2), na telenovela "Eastenders" e em filmes como "Kingsman".
Depois ter estado presente três vezes como cantora de coro, nesse ano Elena Patroclou finalmente teve a oportunidade de representar Chipre como intérprete principal. Fê-lo com "S.O.S.", canção de temática ecológica que obteve um respeitável nono lugar com 60 pontos.

Dulce Pontes (Portugal)
Peppino Di Capri (Itália)

Pela primeira vez em onze anos, Portugal ficou entre os dez primeiros e durante algum tempo na votação, chegou a andar no top 5, acabando por ficar em 8.º lugar com 62 pontos. A canção "Lusitana Paixão" dispensa comentários, sendo sem dúvida uma das melhores canções que levámos ao Festival da Eurovisão. Dulce Pontes era então sobretudo conhecida por fazer parte do grupo de cantores residentes do programa "Regresso Ao Passado" de Júlio Isidro mas nos anos seguintes, a cantora natural do Montijo tornar-se-ia uma das nossas vozes com maior sucesso internacional.
No lugar acima, com 89 pontos, ficou a canção de Itália,"Comme è ddoce o'mare" interpretado em dialecto napolitano por Peppino Di Capri. Nascido Giuseppe Faiella em Nápoles e criado na célebre ilha de Capri (daí o nome artístico), Di Capri era já um grande nome da canção italiana e um dos percursores do rock transalpino. O seu tema mais conhecido internacionalmente é "Champagne", que aliás foi o que ele cantou no postal ilustrado. 

Georgina & Paul Giardimaina (Malta)
Sandra Simó (Suíça)

O pequeno arquipélago de Malta tinha participado três vezes no Festival nos anos 70 sem grande sucesso, mas o seu regresso dezasseis anos depois da sua última participação foi auspicioso, obtendo o sexto lugar com 106 pontos. A canção "Could it be" era uma balada num dueto entre Georgina Abela e Paul Giordimaina, e foi escrita por Paul Abela, marido de Georgina.
Se Portugal impressionou com a sua lusitana paixão, a Suíça não brilhou menos com a sua paixão helvética na voz da bonita Sandra Simó, conquistando o quinto lugar com 118 pontos. Apesar de ser natural de Zurique, do alemão ser a sua língua materna e de ter uma mãe espanhola, grande parte do seu repertório em musical era em italiano e foi neste idioma que actuou em Roma com "Una canzone per té". Actualmente, é mais conhecida no seu país como apresentadora de televisão sob o seu verdadeiro nome Sandra Studer, tendo inclusivamente sido comentadora do Festival da Eurovisão para televisão da Suíça germânica.

Sergio Dalma (Espanha)


Duo Datz (Israel)

A Espanha era uma das favoritas à vitória com o baladão "Bailar Pegados", interpretado por Sergio Dalma, nome artístico do catalão Josep Capdevilla. E lembro-me nesse ano de torcer tanto por Espanha como por Portugal. A canção espanhola ficaria no quarto lugar com 119 pontos. Sergio Dalma tornou-se a partir de então um dos mais populares cantores no país vizinho, já se perdendo a conta aos seus discos de platina.
Com 139 pontos, Israel alcançou a medalha de bronze, graças ao bem alegre tema "Kan" ("aqui") interpretado pelo Duo Datz, formado pelo casal Moshe e Orna Datz, que eram a modos como que os Broa De Mel lá do sítio. Mas os contrário dos nossos Gorgal que continuam juntos, os Datz separaram-se em 2006 ao fim de 21 anos de casamento.

A luta pela vitória em 1991 acabou por ser mais renhida de sempre, pois deu-se um empate no primeiro lugar com 146 pontos entre França e Suécia. Como ambos os países também tiveram o mesmo número de 12 pontos, o desempate acabou por ser pelo maior número de 10 pontos atribuídos dando a vitória à Suécia, que assim somava o terceiro triunfo dos seis que este país actualmente conta. (Se as actuais regras de desempate se aplicassem na altura, pelo maior número de países a pontuar cada canção, teria ganho a França). Mas apesar da disputa renhida, as duas canções não podiam ser mais diferentes. 

Amina (França)



Carola (Suécia)

A França tinha uma proposta exótica no tema "C'est le dernier qui a parlé qui a raison" ("quem fala por último é que tem razão") interpretado pela franco-tunisina Amina Annabi, um tema de forte inspiração magrebina. Além de uma celebrada carreira musical, Amina também tem uma activa carreira como actriz, tendo entrado por exemplo no filme "Um Chá No Deserto" de Bernardo Bertolucci. Quando a Tunísia participou nos Jogos Sem Fronteiras em 1992, utilizou esta canção nos filmes das cidades tunisinas que competiram no programa.


Oito anos depois da sua primeira participação em 1983 onde foi terceira, Carola Hagqvist voltou a representar a Suécia e venceu desta vez, com a canção "Fangad av en stormvind" ("apanhada num vendaval"), um tema pop dançável. Carola actuou acompanhada por dois enérgicos bailarinos, mas o principal marco da actuação foi uma ventoinha apontada à sua cara durante toda a performance. Mais tarde veio-se a saber que houve um problema de som durante a actuação que fez com que as pessoas presentes no local não ouvissem a voz de Carola, mas tal não aconteceu na transmissão televisiva.
Uma das cantoras mais populares do seu país e também uma das mais controversas, sendo sempre muito seguida pela imprensa cor-de-rosa e pelo seu envolvimento num controverso culto evangélico, Carola continua bem activa na música e é considerada uma das mais célebres estrelas do universo do Festival da Eurovisão. Em 2006, voltou a representar a Suécia no Festival da Eurovisão desse ano tendo ficado em quinto lugar.     



Festival da Eurovisão 1991 completo (transmissão RTP):








terça-feira, 3 de maio de 2016

Tetralogia "Reckless" de Bryan Adams (1984-85)

por Paulo Neto

Em 1984, Bryan Adams já conhecia algum sucesso além das fronteiras do seu Canadá, mas com o seu quarto álbum "Reckless" foi elevado ao estatuto de superestrela, ou não fosse o disco que continha quatro dos seus temas mais lendários. Portugal é um dos países onde Bryan Adams foi sempre particularmente acarinhado talvez por ser visto um pouco como sendo um bocadinho português, devido ao facto de ter vivido quatro anos em Cascais.



Como já disse, "Reckless" continha quatro dos maiores hits da carreira de Adams, todos eles clássicos do rock e que ainda hoje se ouvem com o mesmo agrado da altura: "Summer Of 69", "Somebody", "Heaven" e "Run To You". Além disso, existe a particularidade de haver um elo comum entre estas quatro canções: os respectivos vídeos eram co-protagonizados pela actriz britânica Lysette Anthony.


Nascida em Londres a 28 de Setembro de 1963, Lysette decidiu seguir o exemplo do pai, que também era actor, e trocar o apelido de nascença Chodzko, herdado de antepassados polacos, pelo apelido artístico Anthony. Depois de uma curta carreira como modelo, ela começava a dar os primeiros passos na representação e quando foi escolhida para entrar nos quatro vídeos, estava longe de imaginar que iria fazer parte de uma tetralogia histórica. Alinhando os quatro vídeos pela ordem supra-referida (que não é a mesma do lançamento dos singles ou dos vídeos), dá para contar a história em que Bryan e Lysette vão aos poucos recuperando uma paixão antiga.




Bryan Adams escreveu "Summer of '69" em parceria com Jim Vallance. Embora o vídeo mostre Adams a recordar as suas loucuras de adolescente, na verdade a canção é inspirada pelo Vallance e a sua banda dos tempos de liceu e os seus verões de sexo e rock & roll, daí que o 69 do título não fosse uma alusão inocente. A Jody do verso "Jody got married" é Jody Perpick, a engenheira de som que se casara durante a gravação do álbum "Reckless".


Lysette Anthony surge pela primeira vez para acordar Adams que adormeceu num drive-in. Os dois dirigem-se para um descampado e trocam olhares intensos, até que ele olha para a câmara e vai andando, deixando a rapariga para trás imobilizada na mesma posição como se tivesse virado estátua.
No final do vídeo, ao ver Bryan e a sua banda a tocar enquanto passa de carro com o namorado, Lysette esboça um sorriso, para irritação do namorado, interpretado pelo actor Garwin Stanford (que mais tarde foi visto em duas séries da franchise "Stargate").




"Somebody" era outra canção com um refrão inesquecível. (Quem nunca apontou o dedo à miúda mais gira enquanto cantava ou fazia playback do verso "somebody like you"? Ninguém? Pronto, fui só eu). O tema teve dois videoclips, um com Bryan Adams em concerto que termina com ele a ser puxado do palco pelas groupies da primeira fila e o outro era o capítulo da saga Lysette Anthony, que começa precisamente com o final do vídeo de "Summer Of '69". Zangada com o namorado, Lysette sai do carro dele e fica a recordar os momentos com Bryan, que enquanto isso aparece a cantar no meio de um campo, apenas acompanhado por um cão. Contrariada, ela acaba por voltar para o pé do namorado e acompanhá-lo até a um estádio de futebol americano, onde para espanto dela e de toda a gente presente, Adams surge no meio do campo para o grande final da canção.





Antes de ser incluída no álbum, "Heaven" já tinha aparecido em 1983 na banda sonora do filme "One Night In Heaven" onde Christopher "A Lagoa Azul" Atkins fazia de stripper. Um dos grandes baladões de Bryan Adams, "Heaven" foi n.º 1 nos Estados Unidos. Em Portugal, o tema teve um ressurgimento de interesse em 1990, por estar incluído na banda sonora da telenovela brasileira "A Gata Comeu", exibida na altura pela RTP. Em 2001, uma pastilhosa porém agradável versão techno da autoria do espanhol DJ Sammy interpretada pela cantora holandesa Dominique van Hulst (ou simplesmente Do), foi um inesperado sucesso em vários países, tendo sido mesmo n.º 1 no Reino Unido.
Tal como "Somebody", "Heaven" teve dois videoclips, e neste caso confesso que gosto mais daquele sem Lysette Anthony, onde Bryan Adams actua numa sala de espectáculos mas ele é o único que está lá em pessoa, pois tanto os membros da banda como os espectadores estão dentro de ecrãs de televisão. Quanto ao capítulo da saga de Lysette, o namorado foi apanhado pela polícia a conduzir sobre efeito do álcool, e enquanto ele é autuado, ela repara que Bryan Adams está a dar um concerto numa sala de espectáculos naquela rua e resolve dar uma espreitadela. Mas quando Adams repara finalmente nela, Lysette dá meia volta e foge, e ele vai atrás dela.




O vídeo de "Heaven" termina com Bryan a abrir uma porta onde se vê uma queda de neve, um indício do vídeo "Run To You". Esta foi a primeira canção que me lembro ouvir de Bryan Adams e também recordo do videoclip passar na RTP bastantes vezes, quer nos programas dedicados à música, quer para encher chouriços entre espaços vazios de emissões. Por isso, uma das minhas primeiras imagens de Adams é a de ele a tocar nesse vídeo contra todas as intempéries e elementos (chuva, queda de neve, tempestade de areia e queda de folhas outonais), sobretudo a cena em que ele desenterra uma guitarra por debaixo de um monte de folhas. E se na canção, Adams canta que pretende deixar a namorada de longa data e correr atrás de uma nova e intensa paixão, o vídeo termina com Lysette Anthony a correr para junto de Bryan, pronta a reavivar a chama antiga. 

Lysette Anthony afirmou que na altura não fazia ideia de quem era Bryan Adams e encarou a filmagem dos videoclips como mais um trabalho, ainda que os dois tivessem ficado amigos, uma amizade que segundo ela perdura até hoje. Foi só quando Adams convidou-a para acompanhá-lo nuns concertos no Canadá é que ela percebeu que ele já era um grande rockstar na América do Norte.

Bryan Adams continuaria a somar mais êxitos, sobretudo com uma tal canção num tal filme do Robin dos Bosques.
Lysette com Woody Allen e Sidney Pollack em "Maridos e Mulheres"
Já Lysette Anthony tem tido uma prolífica carreira como actriz em cinema, televisão e teatro, em que os seus momentos mais destacados foram os seus papéis nos filmes "Maridos E Mulheres" (1992) de Woody Allen e "Olha Quem Fala Agora" (1993). Também entrou nos filmes "Krull", "Na Pele De Uma Loura" e "Drácula - Morto Mas Contente". Também gravou uma cena do filme "Reservoir Dogs" que viria ficar fora do filme e onde seria a única personagem feminina com uma fala nesse filme. E também entrou em outros videoclips como "I Feel You" dos Depeche Mode.

Lysette Anthony na actualidade

segunda-feira, 2 de maio de 2016

“1492: Cristóvão Colombo” (1992)


Podia jurar que em Portugal o filme “1492: Cristóvão Colombo” tinha estreado com a tradução directa de “1492 - A Conquista do Paraíso” do original “1492: Conquest of Paradise”, mas isso deve ter acontecido devido à grande quantidade de revistas brasileiras que eu consumia nos anos 90, ou a cada uma das vezes dos milhões que o videoclip passava na TV ter o nome do filme em inglês.



E falando no videoclip, só mesmo quem viveu numa caverna durante a década de 90 não foi exposto a “Conquest of Paradise”  este grandioso tema de Vangelis (Blade Runner, Momentos de Glória) acompanhado de imagens do filme. Em Portugal existe uma relação diferente com esta música, que desde 1995 ficou associada à campanha eleitoral de António Guterres e o Partido Socialista. Acredito que esta sobre-exposição do tema acabou por estragá-lo para muitos, como estragou para mim…Vá, ainda me dá arrepios ver o vídeo …




A película foi uma dirigida por Riddley Scott (Alien, Gladiador, Blade Runner), com Gerard Depardieu a encabeçar o elenco da co-produção europeia e norte-americana, uma epopeia sobre a figura mais famosa dos Descobrimentos, Cristóvão Colombo, o navegador genovês (ou português, ou outras nacionalidades, conforme a teoria da conspiração que preferirem) que “descobriu” as Américas 500 anos antes da estreia do filme. Na estreia (23 Outubro 1992) nos EUA, além das maioria de críticas negativas, o público nas salas nem deu para cobrir o orçamento gasto. E mesmo com as bilheteiras do resto do Mundo quase não se recuperava o investimentos de certa de 47 milhões de dólares….
Segundo o IMDB o filme desembarcou na nossa costa a 20 de Novembro do mesmo ano.

Trailer de “1492: Cristóvão Colombo”:


Curiosamente, nesse ano ainda houve outro filme da mesma temática “Cristóvão Colombo: A Descoberta” realizado por John Glen e com Georges Corraface como Colombo e Marlon Brando como Torquemada, e que estreou um mês antes do de Riddley Scott.

Baseado no texto publicado originalmente no Tumblr da Enciclopédia de Cromos: “1492: Cristóvão Colombo”.

Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos"Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

sexta-feira, 29 de abril de 2016

O Bar Da TV (2001)

por Paulo Neto

A SIC cedo se apercebeu que cometeu um enorme erro ao recusar a proposta de Endemol para adaptar o "Big Brother" para Portugal, que acabou por ir para a TVI com o sucesso que se sabe, e a estação de Carnaxide tentou correr atrás do prejuízo e contra-atacar no ano de 2001 com outros reality-shows baseados na convivência forçada de um grupo de cidadãos anónimos. Primeiro foram os "Acorrentados" logo em Janeiro fazendo frente à estreia da segunda edição do "Big Brother", e quando esta queimava os últimos cartuchos, com "O Bar Da TV" que elevaria a faceta voyeurista e escandalosa deste tipo de programas a alturas ainda então por atingir.







Ao contrário do que seria de esperar, a versão original de "O Bar Da TV" não é holandesa e com chancela da Endemol, mas sim de uma produtora sueca, Strix. Desde a primeira edição na Suécia em 2000, o programa já foi adaptado em vários países como por exemplo Argentina, Cambodja, Eslovénia, Geórgia, Hungria, México e Polónia, onde chegou a haver uma edição em 2005 com concorrentes de vários países da Europa (tendo ganho um inglês). A única edição portuguesa foi transmitida pela SIC entre 13 Maio e 12 de Agosto de 2001 e foi das poucas que não foram produzidas pela Strix mas sim pela produtora de Ediberto Lima. A apresentação esteve a cargo de Jorge Gabriel, enquanto Lili Caneças, que na altura fez furor na imprensa cor-de-rosa por ter feito um peeling que lhe retirou grande parte das rugas, era a comentadora oficial.





A dinâmica do programa era a seguinte: doze concorrentes teriam de viver numa casa em regime de isolamento e com câmaras por todo o lado enquanto trabalhavam num bar nas Docas de Lisboa, pelo que a grande diferença em relação ao "Big Brother" é que os concorrentes não só não estavam completamente isolados do mundo como aliás qualquer pessoa podia ir ao bar durante as horas de funcionamento e ver e falar com os concorrentes. Aliás o slogan do programa era "A novela da vida real em que você pode entrar". Os concorrentes estavam portanto mais cientes do que se passava no exterior e de quais eram as afinidades do público. Enquanto estavam a trabalhar no bar, os concorrentes tinham de seguir várias regras, como não chegarem atrasados, não consumir álcool e não retirar dinheiro da caixa para outros motivos que não pagamentos. As nomeações às quartas-feiras eram feitas pelo seguinte sistema: cada concorrente atribuía um ponto negativo a um colega e um ponto positivo a outro. O concorrente com mais pontos negativos seria o primeiro nomeado, o concorrente com mais pontos positivos apontava o segundo nomeado. Os dois nomeados eram depois sujeitos a votos e o mais votado para sair era expulso em cada domingo.




Antes da estreia do programa, 18 concorrentes pré-seleccionados foram revelados na revista TV Mais e no Big Show SIC. No primeiro programa os doze concorrentes escolhidos foram: Ana Raquel, 21 anos, brasileira residente em Braga; Carla Gonçalves, 22 anos,  de Lisboa; Eduardo Mendes, 26 anos, de Alhos Vedros; Francisco Véstia, 21 anos, de Santarém; Hoji Fortuna, 26 anos, angolano residente no Porto; João Vinagre, 27 anos, de Lisboa;  Leonel Lage, 27 anos, de Lisboa; Leonor Figueiredo, 24 anos, de Porto; Margarida Gomes, 22 anos, de Borba; Paulo Horta, 19 anos, de Lisboa; Raquel Barbosa, 19 anos, de Vilamoura; e Rita Brito, 22 anos, natural de Tomar e residente no Porto.
Com as saídas extra-competição de Ana Raquel e Leonor, estas foram substituídas por Sofia Borges, 24 anos de Lisboa e Rute Azevedo, 26 anos, de Barcelos. 

Como é habitual, encontrei pouquíssima informação na net, pelo que eis aquilo que recordo de memória e aviso que possivelmente algumas recordações podem não estar correctas.

- O tema do programa era interpretado por Hugo Piló, cantor nazareno ex-concorrente do "Chuva de Estrelas" e que integrou em finais dos anos 90 o grupo Santa Claus que teve algum sucesso com uma versão de "Lilás" de Djavan.

Hoji Fortuna

- Um pouco à semelhança do Zé Maria no "Big Brother", Hoji afigurou-se desde muito cedo como o grande favorito à vitória, com o público a ser novamente sensível ao concorrente "outcast". Com a sua vitória, o angolano tornou-se no primeiro vencedor estrangeiro de um reality-show português.
- Além do mais famoso incidente do programa, a primeira semana foi bastante atribulada. Além de ser dona do objecto que terá causado esse famoso incidente, Ana Raquel foi a primeira concorrente a ser expulsa do programa por violação das regras. Se não estou em erro, teria conseguido infiltrar o namorado dentro da casa e ter sexo com ele.
Leonor, que era a única concorrente que já tinha sido casada e mãe, recebeu no terceiro dia a notícia que o ex-marido teria aproveitado a entrada dela no programa para desaparecer com a filha de ambos, pelo que a portuense teve de desistir do programa para esclarecer essa situação e lidar com a disputa da custódia da sua filha.



Eduardo Mendes

Sofia Borges

João Vinagre



- A desinibição era aliás uma característica geral dos concorrentes, sobretudo os masculinos, que protagonizaram algumas cenas de nudez, até porque ao contrário do "Big Brother" que tinha as câmaras ao alto nos chuveiros, nos chuveiros da casa do Bar a câmara estava de frente pelo que não deixava muito para a imaginação. Leonel, João e Eduardo eram os mais ousados.  

- Como não podia deixar de ser, alguns casalinhos formaram-se entre os concorrentes nomeadamente João com Carla e Eduardo com Sofia. (ACTUALIZAÇÃO: Entretanto a própria Sofia disse-nos que não houve envolvimento com o Eduardo.) Também houve alguma proximidade entre Francisco e Raquel, que motivou algum "shipping" por parte do público.

Francisco Véstia




- Apesar de não ter nenhum concorrente que pudesse considerar o meu favorito, aqueles que me lembro de gostar mais eram Francisco e Raquel.  Como temos um amigo em comum, por vezes aparece no meu Facebook alguns posts de Francisco. E Raquel era para mim a rapariga mais bonita do programa, uma prova de que há pessoas que são mais sexys com óculos do que sem eles. (Além de mim, claro!)

Carla Gonçalves


- Quanto a inimizades, a mais célebre foi aquela entre Carla e Rute. A lisboeta e a minhota tiveram vários momentos tensos, como aquele em que Rute terá inadvertidamente (?) atirado um chinelo a Carla.

Paulo Horta

- Paulo Horta foi o primeiro concorrente assumidamente homossexual de um reality-show português. 

- A meio do jogo, quatro concorrentes previamente eliminados - João, Margarida, Raquel e Sofia - foram eleitos pelo público para regressarem ao programa. Tendo sido o segundo eliminado, João conseguiu conquistar depois forte apoio do público para voltar ao programa e acabou por ser o outro finalista. À parte das saídas de Ana Raquel e Leonor, creio que a ordem de eliminações do programa terá sido a seguinte: Rita, João, Margarida, Rute, Paulo, Raquel, Sofia, novamente Margarida e Sofia, Eduardo, novamente Raquel, Carla, Francisco e Leonel, com Hoji a vencer João na final.



- Na fase final do programa, o bar era gerido por duas equipas, cada uma liderada pelos dois finalistas e com três ex-concorrentes escolhidos por estes. Hoji escolheu Margarida, Rita e Sofia e João optou por Carla, Eduardo e Raquel.  

Margarida Gomes

- Mas como é evidente, o incidente pelo qual todos ainda recordam "O Bar da TV" foi aquele que envolveu a concorrente Margarida Gomes e os seus pais, Miquelina e Teodomiro. Jovem religiosa, recatada, dedicada aos estudos e à música e assumidamente virgem, Margarida parecia um peixe fora de água e a antítese de todos os outros concorrentes. No entanto, a jovem alentejana não pareceu incomodar-se com isso e nem com as farras iniciais da casa, que terão passado por alguns strip-teases masculinos e femininos. Durante uma delas, terá mesmo visto um vibrador, que Ana Raquel trouxera para a casa, a ser-lhe passado na cara. E terá sido esse o motivo que fez com que os seus pais se tivessem deslocado desde Borba até Lisboa para convencerem a filha a desistir do programa, indignados com o nível de depravação e alegando que estavam a sofrer na pele a indignação da população de Borba. Mas o que poderia ser apenas um acto de excesso de zelo por parte dos pais que não souberam bem ao que a sua filha tinha ido (tinham afirmado que aceitaram a participação da filha para que ela trouxesse cultura e religião ao programa - pois...), acabou rapidamente por se tornar algo bem surreal que suscitou indignação geral dos telespectadores por dois motivos. Um deles era o simples facto da SIC transmitir em directo uma conversa privada entre uns pais e uma filha apenas para ganhar audiências com essa exploração gratuita. E outro foi o teor da conversa propriamente dita com a mãe de Margarida a recorrer a chantagem emocional, deixando para a história frases como "Já não podemos viver em Borba", "Já não posso ir ao supermercado, já não posso ir à missa", "O teu pai não fez a barba" e "Ele traz uma gravata preta porque está de luto", enquanto a filha chorava baba e ranho. A certo ponto, o próprio Ediberto Lima interveio a favor de Margarida para acalmar os ânimos. Mas o incidente marcaria o início de fim da parceria entre o produtor brasileiro e a SIC bem como até do próprio Emídio Rangel, o homem que nos anos 90 levara a estação de Carnaxide a uma fulgurante ascensão. Mas no fim de contas, Margarida continuou no programa, tendo inclusivamente participado na fase final na equipa de Hoji e até a dona Miquelina acabou por comparecer regularmente nas galas de domingo. Actualmente não existe na net as imagens desse infame episódio, mas existe uma faixa em que frases proferidas pela dona Miquelina Gomes surgem sob batida techno, numa composição criada por alguém que responde pelo nome de DJ Porco.


Eu não acompanhei "O Bar Da TV" com o entusiasmo fervoroso com que segui os dois primeiros "Big Brothers", até porque eu encarei o programa como quase toda a gente - uma forma desesperada da SIC de correr atrás do prejuízo, tentando esgravatar por baixo para ganhar audiências (algo que hoje por hoje infelizmente parece ser a regra), mas admito que via quando calhava. Pelo que me recordo, as audiências do programa até não eram más mas ainda assim longe das dos "Big Brother", pelo que por isso, aliado a todas as polémicas, não se avançou para mais edições.

Aliás, hoje em dia, serão muitos poucos que se lembram dos nomes dos concorrentes, além da Margarida de Borba. A grande maioria deles regressou alegremente ao anonimato depois do final do programa e só alguns foram vistos no pequeno ecrã posteriormente. Sofia Borges foi concorrente na rubrica "Vou Ser Uma Estrela" do programa "SIC 10 Horas" que foi ganha pela futura concorrente dos Ídolos, Raquel Guerra. Reparei em Francisco Véstia no papel de um dos vilões num dos episódios da série "Uma Aventura" e em 2007, quando foi finalista do casting para o novo apresentador da MTV que viria a ser ganho por Ana Luísa Barbosa. E o vencedor Hoji Fortuna dedicou-se à representação, tendo sido visto em "Os Malucos Do Riso" e em pequenos papéis em telenovelas ("Morangos Com Açúcar", "A Outra", "Fascínios") e desde 2008 que prossegue a sua carreira de actor nos Estados Unidos.


Excertos do 1.º programa

Excertos do programa:





Excerto de uma das galas:





Vídeo onde Lili Caneças, a propósito do 20.º aniversário da SIC, fala da sua participação em "O Bar Da TV" com imagens não só do episódio da Margarida e seus pais, mas também o do vibrador.






terça-feira, 26 de abril de 2016

Desastre Nuclear de Chernobyl (1986)





26 de Abril de 1986. Uma data marcada em fogo atómico na memória colectiva do Mundo: o desastre nuclear de Chernobyl. Numa década em que a Guerra Fria ainda lançava a sua sombra de medo de uma eventual guerra nuclear, o que se passou em Chernobyl (ou Chernobil) foi a maior amostra - até ao momento, e excluindo os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki décadas antes - do que poderia ser a ameaça atómica.





Classificado 7 na Escala Internacional de Acidentes Nucleares ( o topo da escala, tal como o mais recente acidente nuclear de Fukushima), tudo aconteceu durante uma experiência para testar a redução de potência nos reactores 3 e 4. Este teste contra as normas de segurança causou um mal funcionamento do reactor 4 e uma grande explosão de vapor que destruiu a cobertura de protecção, que conduziu a um incêndio, novas explosões e ao sobreaquecimento do reactor (mais de 2000ºC) que causou o temível derretimento nuclear. Durante a catástrofe, 31 pessoas morreram, mas ao longo dos anos contabilizam-se milhares de mortes e casos de cancro e deformidades causados pela radioactividade libertada para o ambiente, com gravíssimas consequências para os habitantes ( e os seus descendentes ) de Chernobyl, Pripyat (onde moravam os trabalhadores da Central Nuclear) e muitas vilas circundantes da então República Socialista Soviética da Ucrânia - actual Ucrânia - que são ainda hoje zonas desertas onde o fantasma da radioactividade está bem presente.



Na altura, o governo da União Soviética tentou abafar o caso, mas admitiu o que se passou quando outros países detectaram aumento de radioactividade na atmosfera. Nos dias seguintes, mais de uma centena de milhares de pessoas foram evacuadas.



As recordações deste desastre são daquelas inesquecíveis para quem viveu a época, como a tragédia do Challenger (link) por exemplo.


Um pormenor fascinante é que - excluindo a zona do reactor - a catástrofe é invisível ao olho humano que apenas pode captar o abandono dos edifícios (recheados dos pertences deixados para trás na pressa da evacuação) e áreas urbanas - envelhecidas por falta de manutenção e por acção da natureza - e não a nociva radioactividade e a sua contaminação, que deverão demorar vários séculos a desaparecer. 





Curiosamente, um artigo de 2016, por altura do 30º aniversário do acidente, revela que na Ucrânia o lobby a favor da energia nuclear ganha força. Parece que nem o testemunho das ruas vazias e doentes é suficiente para enterrar de vez a roleta russa...

A imprensa nacional, tal como a maioria do Mundo, só começou a falar do assunto alguns dias depois.
Naturalmente, uma das preocupações era se a radiação poderia alcançar e afectar Portugal.
Como hábito, clique sobre as imagens para as aumentar e facilitar a leitura:

Excerto da capa do "Diário de Lisboa" de 29 de Abril de 1986: "Acidente nuclear na URSS"

O desenvolvimento:



Excerto da capa do "Diário de Lisboa" de 30 de Abril de 1986: "Chernobyl: O maior acidente nuclear até hoje".
 A continuação na mesma edição adiantava que "poderão ter morrido cerca de duas mil pessoas".


Suplemento "Sete Ponto Sete" do "Diário de Lisboa" de 06 de Maio de 1986 com 3 páginas dedicadas ao desastre:






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sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Tragédia de Hillsborough (1989)



A Tragédia de Hillsborough [15/04/1989] foi um dos maiores desastres mundiais relacionados com futebol, e o maior do género na Inglaterra. A tragédia saldou-se em 96 mortos e quase 800 feridos no Estádio Hillsborough, em Sheffield, durante o jogo Liverpool FC e Nottingham Forest. 

Na altura os relatórios oficiais apontavam a culpa dos esmagamentos para os comportamentos impróprios dos fãs, mas revisões recentes confirmam que a tragédia ocorreu por sobrelotação do estádio Hillsborough e falta de controle das autoridades para a impedir.

Uma descrição bastante detalhada de todos os acontecimentos e repercussões na Wikipédia: “Hillborough Disaster” (em inglês).

Uma pequena reportagem:



Um documentário da BBC (de 2014) "Hillsborough - How They Buried The Truth":

 Novamente recorro ao inestimável acervo online do "Diário de Lisboa" para conhecer a reacção da imprensa nacional da época:

Excerto da capa do "Diário de Lisboa" [17/04/1989]
 Além do obrigatório espaço na primeira capa, o "Diário de Lisboa" publicou um texto emotivo pela mão de Neves de Sousa: "Para onde vais, Futebol?"
"Diário de Lisboa" [17/04/1989]
"...subitamente, a festa futebolística transmudou-se para tragédia, o riso deu lugar às lagrimas, a alegria virou (em cada rosto) amargura e a mais forte das tristezas".
Podem clicar na foto acima para ler melhor, além dos poucos factos ainda conhecidos, Neves de Sousa comenta a violência, a rivalidade que transbordam dos campos de jogo para o quotidiano da sociedade. Um pouco de generalização, é certo, mas algumas das situações apontadas continuam relevantes na actualidade.




Texto original: "Mini-Cromos - A Tragédia de Hillsborough [15/04/1989]".

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