Houve um período em que o olhar do mundo desviou-se das passadeiras vermelhas de Hollywood para as passerelles de Paris, Milão e Nova Iorque. Nesse período, quem detinha o ideal de glamour, sensualidade e beleza eram as top models, um estatuto até então dominado pelas actrizes de Hollywood.
Mas na primeira metade dos anos 90, parecia que as actrizes de Hollywood tinham-se reunido todas e decidido que iam deixar de ser glamourosas e sexy, para serem levadas a sério e ganharem Óscares. Mesmo as mais atraentes e/ou conhecidas por papéis sensuais aderiram. Não fosse um certo cruzar de pernas de Sharon Stone e quase que se poderia dizer que a sensualidade tinha abandonado Hollywood na primeira metade dos anos 90.
Ao mesmo tempo, nos desfiles de moda, surgia em fulgor uma estirpe de mulheres belas, sensuais e magnânimas. Claro que desde os anos 60 que várias manequins tinham-se tornado celebridades e ícones de glamour, mas nunca antes como jamais depois, houve esta obsessão com as supermodelos como no período cujo auge durou sensivelmente entre 1991 e 1996. De repente, o mundo queria seguir todos os passos destas mulheres que pareciam ser os arquétipos da perfeição: sempre belas e bem vestidas, rodeadas de luxo e de brilho. Até aqueles que não percebiam de moda, deram consigo a trazer na ponta da língua uma vasta lista de nomes de top models. Mais do que nunca os media documentavam as colecções de moda dos grandes costureiros, onde nenhum desfile se fazia sem pelo menos uma meia dúzia de top models (como por exemplo, os programa de moda na SIC que davam no horário nobre). Onde antes só havia posters de estrelas de cinema e da música, as paredes dos quartos de milhões de adolescentes (de ambos os sexos) tinham agora posters de manequins. As agências de modelos floresceram como cogumelos em todo o mundo, na esperança de encontrar a próxima estrela e atendendo ao sonho de muitas jovens que sonhavam chegar aos topos do Monte Olimpo da moda. Tal como muitos rapazes sonhavam em namorar com uma top model.
Até a música e o cinema abraçavam mais do que nunca o mundo da moda. Dois vídeos de George Michael, "Freedom '90" e "Too Funky", estavam recheados de top models e o filme "Prêt-a-Porter" reuniu um elenco de luxo à volta das intrigas de bastidores do mundo da moda.
Queria destacar cinco top models neste texto, mas primeiro impõe-se uma enumeração de outros nomes ilustres. A australiana Elle MacPherson, conhecido como "The Body" por razões óbvias. As loiríssimas e altíssimas alemãs Nadja Aumermann e Tatjana Patitz. A britânica Kate Moss, líder incontestada do departamento "pauzinho de virar tripas". A italiana Carla Bruni, longe de sonhar em ver-se como a Primeira Dama de França. A holandesa Karen Mulder, uma das minhas preferidas, até porque tinha uma colega de turma parecida com ela. O charme francês de Estelle Hallyday e Laetitia Casta. A gloriosa transição de Tyra Banks das passerelles de Milão para os Segredos da Victoria. Os voluptuosos lábios de Christy Turlington. O toque de exotismo de Yasmeen Ghauri.
Na segunda metade da década, descobriu-se um viveiro de modelos na Europa de Leste, lideradas pela checa Eva Herzigová, rosto (e não só) do Wonderbra e pela eslovaca Adriana Karembeu (née Sklenariková) e as suas pernas intermináveis.
Até em Portugal criou-se um naipe de top models a nível nacional, onde destacavam-se sobretudo Sofia Aparício (apresentadora do programa "86-60-86") e Nayma.
Eis as cinco top models que quero destacar:
Helena Christensen (Copenhaga, 25 de Dezembro de 1968, 89-61-88): Nunca a expressão "o melhor dos dois mundos" se aplicou tão bem a alguém. Recolhendo o melhor dos genes dinamarqueses do pai e dos genes peruanos da mãe, uma beleza como a da Helena não poderia passar despercebida. Foi eleita Miss Dinamarca em 1986. Em 1991, subiu à primeira divisão das top models, graças ao inesquecível videoclip "Wicked Game" de Chris Isaak, ainda hoje na minha opinião o videoclip mais sexy de sempre. Namorou o malogrado Michael Hutchence dos INXS, bem como o actor Josh Hartnett sendo que o actual companheiro é Paul Banks dos Interpol. Actualmente Helena divide o seu tempo entre a sua linha de roupa, a fotografia, causas como o tráfico humano e o cancro da mama, e o seu filho de treze anos.
Linda Evangelista (St. Catherines, Canadá, 10 de Maio de 1965, 86-61-89): Filha de pais italianos imigrados no Canadá, Linda deixou para trás uma estrita educação católica quando foi descoberta num concurso regional de misses. Não tardou a ser ultra-requisitada para as griffes mais importantes. Ficou famosa por estar constantemente a mudar a cor do cabelo (a cor natural era castanho-escuro) e pela sua frase "Não acordo por menos de 10 mil dólares por dia" (frequentemente mal citado como "Não saio da cama por..."). Namorou o actor Kyle McLachlan e o futebolista Fabien Barthez, e o pai do seu filho de seis anos é o actual marido de Salma Hayek. Após um interregno no virar do século, Linda continua no activo como manequim, embora longe dos tempos em que se podia ao luxo de não sair da cama por menos de uns bons milhares de dólares.
Cindy Crawford (DeKalb, Illinóis, 20 de Fevereiro de 1966, 86-65-91): Contra os conselhos iniciais da sua agência e as remoções artificiais nas fotos no início da carreira, Cindy manteve orgulhosamente sob o seu lábio superior um sinal que se tornou a sua imagem de marca. E um pequeno sinal percorreu um grande caminho.Campanhas? Tudo desde Versace aos relógios Omega e os cosméticos Maybelline e Revlon. Capas de revista? Tudo desde Vogue e Elle à Cosmopolitan (e pousou para a Playboy). Música? Apresentou o programa "House of Style" na MTV e entrou em vídeos de George Michael e Jon Bon Jovi. Marido famoso? Foi casada entre 1991 e 1995 com Richard Gere. Cinema? Foi protagonista do filme "Presa Fácil" de 1995 (ok, não se pode dizer que tenha sido um sucesso). Retirada do métier desde 2000 (salvo algumas campanhas a título excepcional), Cindy tem-se dedicado ao design de mobiliário e à sua família (tem dois filhos).
Naomi Campbell (Londres, 22 de Maio de 1970, 86-66-90): Com um explosivo cocktail de genes (ingleses, jamaicanos e chineses), um corpo escultural e um andar inconfundível, Naomi é a mais bem sucedida manequim negra de todos os tempos. Ainda hoje no activo, reúne uma larga e gloriosa carreira como manequim, embora tenha também dedicado a várias áreas como a representação (na televisão e no cinema) e a música (lançou em 1994 o álbum "Babywoman"). Igualmente extensa é a sua lista de relacionamentos que incluem nomes como Mike Tyson, Robert De Niro, Joaquín Cortés, Adam Clayton e Flavio Briatore (actualmente vive com o milionário russo Vladislav Doronin). Mas nos últimos anos, Naomi tem sido notícia sobretudo por comportamentos agressivos e por estar a braços com a lei: não só foi alvo de dez processos por várias queixas de agressão (tornou-se lendário o hábito de atirar telemóveis às suas assistentes) como em 2010 teve de responder no julgamento do ex-presidente da Libéria por uma alegada oferta de diamantes de sangue por parte deste.
Claudia Schiffer (Rheinburg, Alemanha, 25 de Agosto de 1970, 86-61-92): Qual reencarnação de Brigitte Bardot, a alemã foi a rainha das top models e num bom espaço do tempo, a mulher mais desejada e reverenciada em todo o mundo. Não houve designer de topo que não a quisesse envergando as suas roupas, revista que não a quisesse na capa, homem que não desejasse namorar com ela. Essa sorte coube ao ilusionista David Copperfield, com quem namorou de 1994 a 1999, além de lhe terem atribuído romances com o Príncipe Alberto do Mónaco e Peter Gabriel. Embora continue a fazer alguns trabalhos como modelo, tenha dado umas ocasionais perninhas como actriz (nomeadamente em "O Amor Acontece") e seja dona de uma linha de roupa em seu nome, actualmente Claudia Schiffer dá preferência à vida familiar. É casada com o realizador Matthew Vaughan ("Stardust", "Kick Ass", "X-Men First Class"), de quem tem três filhos.
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Publicidade retirada da revista Selecções do Reader's Digest Nº 207 (Tomo XXXV) de Agosto de 1988.
Depois de "Já Tocou" e "Parker Lewis", eis que chegámos à terceira série da Santíssima Trindade de séries juvenis imperdíveis na primeira metade dos anos 90. E esta foi a mais duradoura e célebre das três, produzindo uma enorme leva de teen idols e sendo uma das séries que definiram a década de 90.
Beverly Hills 90210 estreou-se em 1990 nos Estados Unidos e em Portugal no ano seguinte. A primeira série ainda teve o título na RTP de "Febre em Beverly Hills" mas depois foi renomeada "Beverly Hills 90210" (lendo-se "noventa mil duzentos e dez"!). Ao longo de dez épocas a série, criada por Darren Starr e o lendário Aaron Spelling, seguiu um grupo de jovens da zona privilegiada de Beverly Hills a partir dos seus anos de liceu até à entrada da Universidade e o começo da vida adulta. Os protagonistas iniciais eram os gémeos Brandon e Brenda Walsh que devido a uma promoção do pai, mudam-se de Minneapolis para Beverly Hills e rapidamente se vêm integrados no ambiente glamouroso da comunidade, embora não tardem a descobrir que, por detrás das imagens perfeitas que fazem sonhar meio mundo, nem tudo é perfeito.
Apesar das dez temporadas e de várias personagens que fizeram parte do elenco, a série é essencialmente mais lembrada pelas quatro primeiras temporadas e por oito personagens principais:
Brandon Walsh (Jason Priestley) é o principal pilar que une todo o grupo, por ser o mais íntegro e sensato. Após o choque cultural inicial, ele acaba por fazer várias amizades, tornando-se no amigo a quem todos recorrem quando tinham algum problema. Sonha ser jornalista. Mas apesar das suas virtudes, Brandon também teve algumas falhas pelo caminho, nomeadamente um vício de jogo. Priestley saiu da série na nona temporada, quando a sua personagem aceitou um trabalho em Washington.
Brenda Walsh (Shannen Doherty) é irmã gémea de Brandon, com quem sempre teve uma relação muito próxima. Brenda depressa trava amizade com Kelly e Donna e inicia um namoro com Dylan. A personagem era incialmente dócil mas foi tornando-se mais rebelde e desvirtuada (reflectindo o comportamento de Shannen Doherty na vida real), ao ponto de se tornar a mais odiada da série. Com a muito pública expulsão da Doherty da série na quarta temporada, deu-se a explicação de que a personagem foi estudar representação para Londres.
Kelly Taylor (Jennie Garth) é a personagem mais desenvolvida ao longo da série, transformando-se da estereotipada miúda loura, rica, fútil e popular para uma mulher madura, através de vários problemas que vai encontrando (o alcoolismo da mãe, violação, depressão, drogas) e dos quais consegue dar a volta por cima. Além de ter namorado com Steve no início da série, Kelly tem um fraco por Dylan que reprime por este namorar Brenda e mais tarde vê-se dividida entre ele e Brandon.
Dylan McKay (Luke Perry) é o rebelde sem causa do liceu, que acaba por também integrar-se no grupo graças à amizade com Brandon e o namoro com Brenda. Mais tarde, envolve-se com Kelly e decide vingar a morte do pai, só que se apaixona pela filha do assassino. Depois de uma ausência em algumas temporadas, Dylan regressou nas duas últimas temporadas onde descobre que o pai está vivo, ao abrigo de um programa de testemunhas e reconcilia-se com Kelly.
Donna Martin (Tori Spelling) começa por ser uma versão mais burra de Kelly, mas tal como esta, vai-se revelando bem mais do que isso. Por exemplo, vem-se a saber que o seu fraco rendimento na escola vem de uma deficiência de aprendizagem. No liceu, namora com David e após separarem-se, passa por uma sucessão de más relações. Donna termina a série gerindo a boutique que abriu com Kelly e casando-se com David.
David Silver (Brian Austin Green) começa como o outsider que tenta a todo o custo juntar-se à malta popular. O que acontece quando começa a namorar Donna e o seu pai casa com a mãe de Kelly. Enquanto tenta vingar na indústria discográfica, vai tendo várias relações mas acaba sempre por voltar para Donna.
Steve Sanders (Ian Ziering) é ao início a versão masculina de Kelly, o miúdo rico, popular e superficial. A amizade com Brandon inspira-o a ser gradualmente mais maduro, embora ao longo da série, esteja sempre a armar esquemas.
Andrea Zuckerman (Gabrielle Carteris) é a geek do grupo, mais dada aos estudos do que a socializações, que nutre por Brandon uma paixão platónica que assim se manteve para bem da amizade de ambos. Andrea é o caso mais paradigmático de castings de adultos feitos para papéis adolescentes, já que Carteris tinha 29 anos no início da série (e a personagem quase metade da idade) e com o avançar da série, tornava-se cada vez mais evidente que a actriz estava longe de passar por uma adolescente. (Tal facto foi parodiado neste sketch de "Family Guy"). Talvez por isso, grande parte da história da personagem após o liceu tenha-se centrado nas atribulações da vida familiar, quando Andrea engravida e casa-se com o barman que conheceu na Universidade.
Entre o núcleo adulto, destaque óbvio para os simpáticos pais dos Walsh, Jim (James Eckhouse) e Cindy (Carol Potter) e Nat Bussichio (Joe Tata), dono do Peach Pit, o café onde o grupo se junta. Ao longo da série, também entraram nomes como Hillary Swank, Tiffani-Amber Thiessen (com uma personagem que não podia ser mais diferente da de "Já Tocou"), Jamie Walters (que chegou a ter um curto sucesso como cantor), Lindsay Price e Rebecca Gayheart.
Estendendo-se ao longo dos anos 90, a série acabou por ser um reflexo da década, ditando tendências de moda e abordando temas como violação, toxicodependência, alcoolismo, SIDA, direitos dos homossexuais, aborto, bulimia, suicídio e gravidez na adolescência.
Os actores tornaram-se rapidamente ídolos adolescentes em todo o mundo, nomeadamente Jason Priestley e Luke Perry, e todo um merchandising da série (crachats, material escolar, toalhas de banho, etc.) fez furor. Embora o factor glamour de fazer sonhar com uma comunidade onde toda a gente parece que ganhou o primeiro prémio numa lotaria de fortuna e bons genes, tão inacessível aos jovens do mundo real, tenha sido importante para o sucesso, creio que o êxito da série residiu essencialmente na complexidade da trama sob uma superfície colorida e despretensiosa e nas boas interpretações do elenco, com os actores a saberem aprofundar as suas personagens e distanciá-las dos estereótipos.
"Beverly Hills 90210" serviu igualmente como ponto de partida para outras séries como "Melrose Place" e "Models Inc.". Todos os actores têm tido uma carreira pós-série bem preenchida, entrando em vários projectos televisivos, como outras séries (por exemplo, Shannen Doherty em "Charmed"), telefilmes e até reality shows (o programa que segue a vida familiar de Tori Spelling já teve sete temporadas). Até Brian Austin Green, que tinha um dos percursos mais discretos, regressou às luzes da ribalta graças à sua relação com Megan Fox.
E além de um episódio especial em 2003, a franchise continua actualmente com uma nova série "90210" no ar desde 2008, seguindo uma nova geração de jovens residentes do célebre código postal 90210, onde Jennie Garth, Tori Spelling e Shannen Doherty fizeram participações especiais recuperando as suas personagens.