sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Colectâneas de dance music da Vidisco (anos 90)

por Paulo Neto 
em memória de Pedro Borges (1980-2003)

A editora Vidisco, fundada em 1986 e sediada na Pontinha, tornou-se nos anos 90 a maior editora discográfica somando sucessos em várias frentes. Uma delas era na música nacional, quer aproveitando o boom da música "pimba" e promovendo artistas do género como Emanuel (autor do hit que deu nome ao fenómeno), o pequeno Saúl ou o Agrupamento Diapasão, quer em grupo de pop-rock como os Íris, o Império dos Sentados, os Anjos ou os Santamaria. Outra foi promovendo artistas brasileiros radicados em Portugal como a dupla sertaneja Lucas & Matheus e sobretudo, Iran Costa cujo seu "Album Dance" vendeu mais de duzentas mil cópias em 1995, graças ao inescapável "É o Bicho". (Presumo que haja hoje em dia duzentas mil pessoas que preferem esquecer que compraram esse disco).
Mas sem dúvida que onde a Vidisco era a líder incontestada em Portugal era na dance music. Primeiro porque possuíram a label Kaos Records pela qual assinaram projectos que colocaram Portugal no mapa da música de dança, como os Underground Sound of Lisbon (dos lendários DJ Vibe e Rui da Silva) ou os LL Project. Mas também sobretudo pelas colectâneas que reuniam os principais êxitos do eurodance, que eram inevitáveis campeãs de vendas, disparando para o n.º 1 dos tops (o que promoveu a necessidade da criação de uma tabela de vendas só para as compilações, que surgiu em 1995). Numa quase dependência psicotrópica, vários portugueses compravam a mais recente compilação em CD ou cassete e consumiam-nas para os mais diversos fins: para simular raves nas festas de anos, para tocar nos carrinhos de choque, para ouvir no carro com o volume no máximo a caminho da praia ou da discoteca ou, como eu, simplesmente para ouvir  e dançar no quarto com a maior  pujança e (des)elegância. E quando as canções já passavam de prazo de validade, esperava-se ansiosamente pela próxima dose, ou seja, a próxima colectânea. E felizmente havia várias ao longo do ano, sendo estas as seis principais.

Começava-se no início do ano com a "Electricidade", cujo nome vinha do mítico programa da Rádio Cidade (o primeiro volume data de 1994).

"Electricidade" de 1995

Na Primavera, surgia a Dance Mania (primeiro volume editado em 1993)

"Dance Mania 95"

Com o Verão vinha o Dance Power (primeiro volume editado em 1994)

Primeiro volume Dance Power (1994)

A chegada do Outono era comemorada com os "16 Top World Charts" (primeiro volume é de 1990)

16 Top World Charts 1995


Anúncio "16 Top World Charts 1994":


E no auge do sempre proveitoso mercado natalício, dose dupla com o Supermix (cujo primeiro volume produzido em Portugal é o n.º 5 de 1990, os quatro tomos anteriores eram importações espanholas) e o Top Star (primeiro volume editado em 1990).

Supermix 9 (1994)
Top Star 1994/95


Todas estas colectâneas continham a esmagadora maioria dos vários êxitos eurodance que pululavam nas pistas de dança e nos carrinhos de choque. Entre os nomes mais assíduos e famosos estavam Whigfield, 2 Unlimited, Corona, Outhere Brothers, Twenty 4 Seven, Cappella, Fun Factory, Faithless, Ice MC, Double You, Technotronic e E-Rotic. E para colmatar a ausência de hits originais do género que pertenciam a outras editoras, havia covers mais ou menos fiéis, como por exemplo, Vany, uma voz da Rádio Cidade, a versionar os êxitos dos 20 Fingers como "Lick it" e sobretudo, "Short Dick Man". E por falar em covers, havia também amiúde versões dançáveis dos hits da altura, como "Zombie" dos Cranberries por Venus e "Think twice" de Céline Dion por Rochelle.

ACTUALIZAÇÃO 1: Importa ainda referir a série 100% Dream, iniciada em 1997, dedicada à música de dança e techno mais ambiental.



Outros dos atractivos das compilações era os megamixes dos principais hits contidos no disco. A título de exemplo, eis o Megamix do Top Star 94/95, da autoria do DJ Nuno Miguel:



A febre das compilações de dance music era tal que várias editoras também tentaram a sua sorte com colectâneas como "Alta Tensão" e "Climax" (da Edison), "Radioactividade" e "Madmix" (da BMG) e "Mega Dance" (da Sony Music), mas nenhuma delas sem roubar o trono das colectâneas da Vidisco. Até a principal editora do género em Espanha, a Blanco Y Negro Music, editou algumas das suas colectâneas no mercado português.

Para quem não tinha dinheiro para estar sempre a adquirir as colectâneas, havia sempre a alternativa de pedir emprestado a um colega (havia sempre um que tinha comprado) para gravar em cassete. Recordo com saudade os tempos em que eu e um colega meu do 9.º ano combinávamos entre nós qual é era a colectânea que cada um comprava para depois emprestar ao outro para gravar. (É a esse meu colega, a quem um acidente de viação roubou-lhe a vida demasiado cedo, que dedico este texto.)

O auge destas sucessões de colectâneas durou entre 1994 e 1997, se bem que a maioria delas tenha continuado pelo resto da década de 90 e princípios do século XXI. Actualmente, a Dance Mania e o Dance Power são os únicos títulos sobreviventes (sem contar com o Supermix recentemente ressuscitado), e os outros títulos foram dando lugar a outros como o "Anual Mix" e o "Orbital Mix", que têm contribuído para manter a Vidisco como a líder nacional das colectâneas de música de dança.

  
ACTUALIZAÇÃO 2: Para os fãs deste género, recomendamos uma visita ao blogue M.D.A. 90s que tem informação mais detalhada sobre estas e outras colectâneas e que tem precisamente este texto da minha autoria na sua introdução.

ACTUALIZAÇÃO 3: Grande parte destas colectâneas estão disponíveis no Spotify. Para (re)aguçar o apetite deixo aqui o link da "Dance Mania 94".



Anedotas - Patrões e Empregados

O trabalho e as relações entre entidade patronal e empregados sempre foram fonte de humor. Os anos cromos não foram diferentes, como provam estas anedotas que circulavam de mão em mão, fotocopiadas ou pacientemente copiadas em máquinas de escrever.

As Leis do Chefe:

Requisitos dum Chefe: Uma analogia do corpo humano com o funcionamento de uma empresa:

Novo Contrato Laboral: O contrato de sonho para o trabalhador. A Troika devia dar uma olhada nestas sugestões:

Mais uma vez, agradeço ao Carlos Silvério por compartilhar estas pérolas com a comunidade online!
Mais posts com a colaboração do Carlos, aqui: "Carlos Silvério" - Enciclopédia de Cromos

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Quatro por Quatro (1994-1995)

por Paulo Neto

Ao contrário da RTP, que nos anos 80 fazia questão de apresentar uma telenovela à hora de almoço (como por exemplo "Cambalacho" e "A Gata Comeu"), esse hábito só a espaços é que foi preenchido na SIC assim que a estação de Carnaxide adquiriu a exclusividade das telenovelas da Rede Globo, e normalmente com a reposição de telenovelas antigas. Daí que "Quatro por Quatro" exibida na SIC em 1995 tenha ficado na memória como a mais popular telenovela da hora do almoço nos anos 90. Sucesso aliás que vinha já do Brasil, onde estreara no ano anterior, ao ponto de ter sido esticada para um total de 233 episódios, sem dúvida uma das mais longas telenovelas da Globo fora do horário nobre.



Escrita por Carlos Lombardi e realizada por Ricardo Waddington e Alexandre Avancini, o sucesso vinha de uma história cheia de humor, ao estilo sitcom com um pouco de nonsense e de um par romântico cuja química contagiou o público e estendeu-se para a vida real.

Mas primeiro a história: Abigail (Bete Lago), Auxiliadora (Elisabeth Savalla), Babalú (Letícia Spiller) e Tatiana (Cristiana Oliveira) são quatro mulheres sem quase nada em comum, excepto num aspecto: cada uma delas quer vingar-se de um homem. Abigail "Bibi" desistiu da sua carreira de psicóloga para se tornar a mulher troféu do famoso médico Gustavo (Marcos Paulo), um homem cruel que humilha a mulher e o filho de ambos, Ralado (Marcelo Faria). Auxiliadora ajudou o seu marido Alcebíades (Tato Gabus Mendes) a tornar-se um bem-sucedido empresário da panificação para ver-se trocada pela jovem e interesseira Elisa Maria (Lizandra Souto). Tatiana é uma mulher tímida que é abandonada no altar pelo seu noivo, o meliante Fortunato (Diogo Vilela). Babalú é uma manicure perdidamente apaixonada pelo mecânico bonitão Raí (Marcello Novaes). Só que Raí não consegue resistir às atenções de outras mulheres e Babalu jura vingança quando o apanha na cama com outra mulher.

Babalú, Auxiliadora, Tatiana e Bibi
Raí e Babalu
Bruno e Tatiana


As quatro mulheres conhecem-se na prisão, por se verem envolvidas num incidente de trânsito e fazem um pacto de entreajuda para os seus planos de vingança. Alguns deles envolvendo disfarces: Bibi faz-se passar por Calpúrnia, irmã de Alcebíades, para azucrinar Elisa Maria e expô-la como interesseira e também pela loira Sharon para seduzir Raí. Auxiliadora também tem um disfarce hilariante como a mulata Maria do Socorro enquanto Babalú faz-se passar por uma mulher fatal que namora Ralado para impressionar Gustavo.


Gustavo e Babi
Ralado

Ângela


Com o avançar da trama, as quatro mosqueteiras vão vendo os seus planos tomarem rumos inesperados e com alguns obstáculos: Bibi cruza-se com o espião secreto Samuel (Kadu Moliterno) que se interessa por ela; Auxiliadora quase sucumbe aos encantos de Gustavo; Babalú não consegue deixar de amar Raí e Tatiana, depois de uma transformação de visual e de ganhar confiança para se livrar de Fortunato, apaixona-se por Bruno (Humberto Martins)
Bruno é um homem bondoso mas amargurado, que não se perdoa por não ter conseguido salvar a sua esposa Mércia após ter dado à luz, tendo-se refugiado na Amazónia. Bruno regressa ao Rio para conquistar  o amor da filha Ângela (Tatyane Goulart) que foi criada por Gustavo e que é a única pessoa por quem este sente algum afecto. Tatiana tenta ajudá-lo a conquistar o amor da filha mas também terá de lutar contra Suzana (Helena Ranaldi), a irmã de Mércia, que usa as suas grandes parecenças com a irmã e as culpas de Bruno para o seduzir e manipular.

Suzana


Apesar de inicialmente o principal par romântico ser Bruno e Tatiana, o casalinho que encantou o público e que acabaria por ganhar mais protagonismo foi Raí e Babalú (alguns ainda recordam "Quatro por Quatro" como "a novela da Babalú"). A química escaldante entre Marcelo Novaes e Letícia Spiller fez com que o público se deliciasse com os altos e baixos da relação, entre discussões tormentosas e cenas de tórrida paixão, entre rupturas e reconciliações. A química entre ambos acabaria por passar para a vida real já que os dois actores apaixonaram-se, casaram-se e tiveram um filho. A união durou cinco anos. 

Entre as outras personagens, destacam-se Dona Fátima (Bete Mendes) e Seu Santinho (Jorge Dória), mãe e padrasto de Babalú; Danilo (Marcelo Serrado) a quem várias mulheres da novela causam-lhe um constante "volume" sob a sua calça de pijama; a rebelde Duda (Luana Piovani) por quem Ralado se apaixona e Maria Bataglia (Tássia Camargo), a falsamente casta filha de Seu Santinho. 
A banda sonora estava repleta de êxitos internacionais como "Short Dick Man" dos 20 Fingers, "Always" dos Bon Jovi, "It's a rainy day" de Ice MC e "Goodnight girl" dos Wet Wet Wet. O tema do genérico era "Picadinho de Macho", interpretado por Sandra de Sá.



Para terminar, a jeito de curiosidade, refira-se que nenhuma das actrizes protagonistas tinha sido a primeira escolha para o seu papel. Inicialmente estava previsto que Abigail, Auxiliadora, Babalú e Tatiana fossem interpretadas respectivamente por Vera Fischer, Regina Duarte, Adriana Esteves e Malu Mader, mas por vários motivos, todas acabaram por declinar. Mas sem dúvida que as quatro suplentes fizeram um óptimo trabalho, mesmo sendo esta a primeira telenovela de Bete Lago e Letícia Spiller, e de Elisabeth Savalla ter andado vários anos afastada de trabalhos em televisão.

Genérico de abertura:







  
      

Quitoso


"Piolhos? Lêndeas? Quitoso elimina-os totalmente!" é a frase ditada por uma senhora, enquanto na imagem se vê um rapaz na escola a coçar a farta cabeleira. O  anúncio (de 1993) é um dos clássicos da era croma, e está no Youtube por cortesia do excelente canal LusitaniaTV:




O Quitoso é nome que permanece durante décadas como o sinónimo do maior pesadelo das lêndeas e piolhos (nome cientifico: Pediculus humanus capitis) que infestam (pediculose) as cabeças das crianças (principalmente)!

Outro anúncio ao Quitoso, de 1987:


Este reclame espanhol era bem mais fofinho:


Pode ver outro aqui: "Tanda Comercial TVN (Mayo 1989)" aos 7 minutos do vídeo.

Nuno Markl já cromou este medicamento clássico na Caderneta de Cromos:

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O Tal Canal (1983-84)

por Paulo Neto



"O Tal Canal" é o melhor programa de sempre da televisão portuguesa. A sério. Foi o que ditou uma votação promovida pelo Diário de Notícias, a revista Time Out e as Produções Fictícias em 2007, com os portugueses a darem mais votos ao programa que elevou Herman José ao posto de maior humorista nacional onde permaneceu anos a fio. Votações como esta valem aquilo que valem mas a verdade é que esse pesado título não fica mal entregue a "O Tal Canal", que foi um dos primeiros programas (sem ser desenhos animados) que me lembro de acompanhar com regularidade.  

Escrito por Herman José, António Avelar Pinho (este senhor estava em todas!), Tozé Brito e António Tavares Teles e realizado por Nuno Teixeira, o programa foi a grande novidade na rentrée televisiva de 1983. Foram exibidos doze episódios entre Outubro de 1983 e Janeiro de 1984. Além do Herman, o elenco incluía Helena Isabel, Lídia Franco, Manuel Cavaco, Margarida Carpinteiro, Natália de Sousa e Vítor de Sousa.

O elenco de "O Tal Canal" nas suas personagens da telenovela "O Diário de Marilú"

Tratava-se de um novo canal de televisão, cujo dono e director era o Professor Doutor Oliveira Casca que oferecia aos portugueses, nove anos antes do aparecimento das privadas, uma programação alternativa à RTP1 e à RTP 2. E só o genérico em rap (e que proporcionava um trocadilho badalhoco com o título do programa) era sinal que estávamos perante algo bem inovador.



No início de cada emissão, uma locutora de continuidade (Helena Isabel) recebia os telespectadores e indicava quais os programas que teríamos oportunidade de assistir. Eis uma lista:

- "O Esférico Rolando Sobre a Relva": onde Herman introduziu o emblemático José Estebes e onde apareceram alguns dos jogadores mais famosos da altura como Diamantino, Jordão e até o Eusébio himself.
- "Informação 3": bloco noticiário conduzido por Carlos Filinto Botelho, Beleza de Sousa , Flávio Portugal e Manuel Freio sempre com uma ficha técnica sui generis.
- "Momento Infantil": programa de pedagogia infantil onde o pequeno Nelito põe a Dra. Palmira Peres de cabeça em água.
- "Cozinho para o Povo": programa de culinária apresentado por Filipa de Melo e Castro Bragança Sousa Dias e a sua serviçal Emília onde preparam pratos com imensa paprika. O episódio mais famoso é aquele em  que Filipa e Emília terminam a atirar panquecas contra a parede.
- "Tempo dos Mais Velhos": programa para os jovens com mais de setenta anos. (Paródia de "Tempo dos Mais Novos")
- "Estamos Nesta": magazine musical para novos valores musicais como Tozé, o líder da banda rock Creolina  com o hit "Socorro, Tirem-me da Garagem!" (Paródia de "Estamos Nessa")
-  "Jaquina, Jaquina, Jaquina": magazine de moda onde Jaquina, modista emigrada em França, mostra a Jaquina-doméstica e Jaquina-assalariada rural peças da sua colecção "Crise '84 (quatre-vingts-quatre)". (Paródia de "Maria Maria Maria")
- "O Tal Rural": com o Engenheiro Sousa Viscoso. (Paródia de "TV Rural")
- "Tony Silva Show": com o sucesso no "Passeio dos alegres", o "el creador de toda a música ró" ganhou o seu próprio programa onde recebia estrelas das música como Sérgio Godinho, José Cid, Heróis do Mar e as Doce e onde a sua assistente/coelhinha indicava com cartazes como é que a plateia devia reagir.
- e last but not least, a telenovela "O Diário de Marilú": onde pudemos acompanhar os tormentos da personagem-título como sofredora criada da "Condensa" da Penha de França (a do bordão "Não me chame condensa que me põe tensa!"). Embora (aparentemente) apaixonada pelo professor de francês John Smith, ela não se coibia de alguns contactos próximos com a filha da "Condensa", Cilinha, de quem é amiga e confidente. Por sua vez, Cilinha ama o másculo jardineiro Inácio, sem imaginar que ele é amante da sua mãe. E Marilú nem sonha que o terrível Fabricius tem um plano maquiavélico para a matar, com a cumplicidade de espia Maria do Céu e da capelista Graciete, ambas suas amantes... No último episódio, vem-se a saber que Marilú é afinal Augusto, que se transvestira para se aproximar de Cilinha, a sua paixão de infância. E num bom velho happy ending, Augusto e Cilinha casam-se e são felizes para sempre. (Ou será que Fabricius levou finalmente a sua avante?)

Jaquina e a sua colecção "Crise quatre-vingts-quatre"

A Dona Palmira explicando os psitacismos do Nelito

José Estebes e o seu "Esférico rolando sobre a relva"

Filipa de Melo e Castro de Bragança Sousa Dias e Emília em "Cozinho para o povo"

Carlos Flinto Botelho em "Informação 3"

Sérgio Godinho, convidado no Tony Silva Show


Pelo meio, havia hilariantes anúncios, alguns parodiando os anúncios mais populares da época, outros anunciando fantásticos produtos como o limpa-sanitas Antrax (com sabor a laranja) ou os pensos Vilaças para a tosse. Mas aquele que eu guardei sempre na memória foi o anúncio dos sabonetes Flávio, onde uma Lídia Franco, de olhos vendados, devora um sabonete que confunde com um pastel de bacalhau.

Com uma boa dose de humor nonsense, "O Tal Canal" marcou o seu tempo ao distanciar-se do humor televisivo que se fazia então, baseado no teatro de revista. Por vezes, os sketches praticavam autênticos exercícios de autodesconstrução como por exemplo, um sketch do "Informação 3" que termina logo depois de ter começado. Além de ter elevado o Herman a génio do humor nacional, o legado do "Tal Canal" foi de tal modo marcante que o programa chegou a ser reposto em horário nobre em 1997 e, como foi referido ao início, ter sido eleito o melhor programa de sempre da televisão portuguesa numa votação pública em 2007.
Em 2008, por ocasião do 25.º aniversário, a série foi finalmente editada em DVD, que vim a adquirir dois anos depois. O programa ainda hoje mantém muito do seu humor bem conservado. E apesar de também beneficiar do efeito "cápsula do tempo dos anos 80", a verdade é que certas piadas sobre a crise que Portugal atravessava em 1983 soam bem actuais em 2012...Dá a ideia que quanto mais as coisas mudam, mais as coisas ficam na mesma.


Apesar do sucesso de "O Tal Canal" ter sido indiscutível, Herman José tem sido categórico em afirmar que o projecto tinha sido rejeitado ou amplamente editado (leia-se "censurado") pela direcção da RTP, e só com a mudança do poder político e a entrada de José Niza para director de programas é que o programa pôde ser concretizado. Mas Herman confessaria que toda a escrita e elaboração do programa fora um processo tão extenuante que, apesar de pedidos da RTP e do público para uma segunda série, ele preferiu não dar continuidade e optou por um projecto menos elaborado, que viria a ser o "Hermanias".

Cromo da "Caderneta de Cromos" de Nuno Markl  sobre "O Tal Canal", com a participação de Herman José: (n.º 604, 8.4.2011)        

Alguns episódios:







  


Blue Thunder / Raio Azul (1984)


A série teve origem com a película homónima, "Blue Thunder (Operação Thor)" [ver trailer], de 1983. Além do nome, a  série de 1984 reutilizou filmagens do filme. Em Portugal, na RTP, teve o nome "Raio Azul" (não confundir com o desenho animado), no Brasil "Trovão Azul". Curiosamente, recordo-me melhor do título espanhol: "El Trueno Azul", provavelmente vi alguns episódios na TVE.

O nome "Blue Thunder" referia-se ao helicóptero "protagonista", modelo Aérospatiale SA-341G Gazelle modificado, que tinha uma série de características especiais de alta tecnologia, que incluíam câmaras de infravermelhos e visão nocturna, vigilância sonora e um "modo silencioso", e claro, grande velocidade e armamento poderoso. Esta máquina militar, um "Big Brother voador" estava ao serviço da Policia de Los Angeles, supervisionado por uma equipa do Departamento de Justiça.


No elenco, James Farentino (Frank Chaney, o pouco ortodoxo piloto do "Blue Thunder"), Dana Carvey (Clinton Wonderlove, aka "JAFO", o génio da electrónica, novato na policia). A equipa de apoio terrestre era interpretada por Bubba Smith ("Bubba" Kelsey), Dick Butkus ("Ski" Butowski). Também Sandy McPeak (Captain Braddock),  e Ann Cooper (J.J. Douglas) faziam parte do elenco.

O genérico inicial:

Antes de ser cancelada, apenas 11 episódios foram produzidos. Além da baixa audiência (contra o êxito Dallas), outro canal tinha em exibição uma série de tema similar: "Airwolf" (1984 - 1987).
Como curiosidade, o helicóptero "Blue Thunder" apareceu brevemente no episódio piloto da série MacGyver [fonte]:

Capa de uma edição em DVD.

Apesar da curta duração,o site "Classic Articulation" tem fotos de um raro brinquedo do "Blue Thunder", que retrata bem o belo design do helicóptero:


domingo, 29 de julho de 2012

Postal - Ilha da Armona

Agora em pleno Verão, foi bom recordar este local, que conheço bem, e que aconselho a visitar: a Ilha da Armona, em Olhão.
Alguns postais com imagens capturadas na Ilha da Armona, clique nas fotos para aumentar:

Ilha da Armona - Olhão - Algarve - Portugal - 1233
[Francisco Más Lda. Editores e Artes Gráficas]


Ilha da Armona - Olhão - Algarve - Portugal - 920
[Francisco Más Lda. Editores e Artes Gráficas]


 A praia recheada de veraneantes , no canto inferior direito do postal o mítico "Tolinhas Bar", ao lado da ponte. Não sei o ano dos postais, nem das fotos, mas arrisco final dos anos 80/inicio dos 90, porque foi nesta época que frequentei mais a ilha.



Ilha da Armona - Olhão - Algarve - Portugal - 5304
[Francisco Más Lda. Editores e Artes Gráficas]


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ai, os Homens (1996-1999)

por Paulo Neto

Continuamos a viagem pela produção nacional televisiva nos anos 90. Na área do entretenimento, um dos programas mais recordados da época é o "Ai, os Homens", que a SIC exibiu em cinco temporadas entre 1996 e 1999. O programa era apresentado por José Figueiras e produzido por Teresa Guilherme, adaptado de um formato australiano que já fazia sucesso em vários países .




Tratava-se de um concurso onde dez candidatos teriam de impressionar uma audiência composta por 150 mulheres, incluindo uma convidada famosa presente em cada sessão, ao longo de uma série de provas. No final de cada prova, elas davam os seus votos e os concorrentes eliminados eram atirados a uma piscina pelas assistentes. 
Era crucial causar uma boa primeira impressão, pois logo à partida três concorrentes eram logo eliminados.






Seguia-se a prova livre onde os concorrentes davam largas à imaginação para impressionar a assistência: cantar, dançar, representar, contar anedotas, exibir as suas capacidades físicas, valia de tudo. Como exemplo, eis o concorrente Vítor Grade que colocou no YouTube a sua prova onde encarnou Lionel Richie e Diana Ross num verdadeiro dueto 2 em 1!



Depois de se eliminarem mais dois candidatos, avançava-se para a prova de dança, onde cada concorrente tinha de dançar com uma das assistentes um determinado estilo de dança. Após mais um concorrente eliminado, era a vez da prova de declaração de amor, onde os concorrentes teriam de gastar o latim para impressionar a convidada VIP. Alguns optavam por palavras românticas, outros por abordagens mais cómicas.
Tomemos como exemplo este vídeo onde os concorrentes galantearam Alexandra Lencastre





O programa teve outras provas que com o avançar das temporadas foram descontinuadas, como a prova de canto, uma prova onde tinham de responder a perguntas das mulheres na assistência e uma prova de role-play onde tinham de interagir com as assistentes numa determinada situação.

Depois de mais um concorrente eliminado, os três finalistas seguiam para a dupla prova mais ansiada pelas cento e cinquenta juradas e pelas telespectadoras: primeiro, os candidatos subiam ao palco com um disfarce para fazerem um strip-tease e depois teriam de comparar o seu belo caparro com o do bodybuilder residente. O mais famoso foi o Ulisses  cujo vocabulário consistia apenas da palavra: "NÃO!" A personagem era desempenhada por Joaquim Guerreiro que desde então tem feito alguns trabalhos como actor, por exemplo nas telenovelas "Terra Mãe" e "Anjo Meu". Mas também houve por exemplo, o Hércules, encarnado por Victor Júnior (Viktor-Viktor), que curiosamente tinha participado previamente como concorrente, e que mais tarde entraria no primeiro Big Brother Famosos e que chegou a tentar a sua sorte como cantor.








Igualmente mítica era a personagem do Johnny Bigode, interpretada pelo saudoso António Feio. Johnny Bigode costumava interromper o programa com as suas pretensões de possível concorrente e ilusório conquistador de corações femininos, deixando para a histórias dois famosos bordões: "Eh, carapau!" e "Ariops!" 
À parte o Tony da "Conversa da Treta", foi a mais popular personagem interpretada por António Feio. Um dos autores destes sketches era um então ainda desconhecido Nuno Markl.

O vencedor de cada sessão ganhava mil contos em dinheiro (como se pode ver neste vídeo onde o concorrente João Véstia documenta o momento da sua vitória) e qualificava-se para a finalíssima da temporada, onde a convidada VIP era Teresa Guilherme. O vencedor absoluto da primeira temporada foi nada mais nada menos que Jorge Kapinha, que também viria a integrar os D'Arrasar. 

Além de Kapinha e de Jimmy, seu colega nos D'Arrasar, outros concorrentes que viriam a tornar-se posteriormente conhecidos do grande público foram Fernando Melão dos Excesso e Sérgio Vicente da segunda edição do Big Brother. 



Regra geral, as juradas tendiam a eleger aqueles que primassem mais por um palminho de cara e de corpo, mas recordo-me da sensacional vitória de Pedro Feio numa sessão da segunda temporada. Com cabelo desgrenhado, óculos de massa, um princípio de barriga e pelos do peito mal semeados, este concorrente fazia jus ao apelido mas acabou por cativar tudo e todas com o seu sentido de humor e talento musical, vencendo a sua sessão e chegando ao top 3 da finalíssima.

Mas o programa também tinha motivos para o público masculino regalar a vista, uma vez que entre as belas assistentes do programa estavam beldades como Marta Pereira, Sónia Antão, Mónica Sofia, Raquel Loureiro, Vera Deus, Adriana Iria e a britânica Joanne Iverson

Para terminar, de referir que uma sessão especial do programa com famosos foi para o ar durante a passagem de ano 1996/97. Entre esses destemidos VIP estavam Guilherme Leite, Camacho Costa, Nuno Graciano, Luís Esparteiro e Carlos Areia. 

No seu livro "Isso Agora Não Interessa Nada" de 2005, que reúne crónicas que ela escreveu para a TV Guia sobre os bastidores dos programas que apresentou e produziu, Teresa Guilherme conta um episódio tragicómico sobre um concorrente do "Ai Os Homens" que quase ia desta para melhor durante o programa devido ao seu orgulho de macho. 
Uma das perguntas que figurava no questionário de inscrição no programa que os candidatos a concorrentes era se eles sabiam nadar. Uma resposta negativa ditava a eliminação automática, porque a piscina do programa não tinha pé. Porém, cientes de que por vezes o ego masculino fala mais alto do que a voz do bom-senso, os elementos da produção voltavam a repetir essa pergunta aos concorrentes, desde os castings até aos momentos antes do provável banho forçado. E de vez em quando, alguns, vendo a profundidade da piscina, acabavam por admitir que as suas habilidades de nadador deixavam muito a desejar e desistiam.  
Porém, ao fim de tantos programas e tantas temporadas, a produção foi relaxando e confiando na palavra dos concorrentes. Até que certo dia… Conta a TG:

"Tinham acabado as provas livres. Estavam todos perfilados à beira da piscina e aguardavam o veredicto supremo das cento e cinquenta juízas. Era sempre um momento de grande tensão. Mas nem nós imaginávamos que para um dos dez a tensão era mais profunda que a piscina do estúdio.
Depois de todas as mulheres dizerem da sua justiça, as lindinhas (…) salvam com um beijo os preferidos da maioria da plateia e atiram para a piscina o que tem menos votos.
Cheio de ritmo, o José Figueiras apresenta desde logo a próxima prova. As meninas aplaudem e todos os olhos se fixam no palco que fica no lado oposto da piscina.
Nos bastidores, sigo atentamente tudo o que se passa dentro do estúdio, até que sinto alguém a puxar-me timidamente a manga. Era a senhora da limpeza: "Dona Teresa, a senhora desculpe, mas aquele rapaz que atiraram mesmo agora para dentro da piscina ainda não saiu!"
Sem parar a gravação, discretamente, fui até à beirinha da piscina preparada para dar um raspanete ao concorrente eliminado e perguntar-lhe se tinha vindo a banhos. Quando olhei para dentro de água, lá estava o rapaz todo vestidinho. Ora vinha à tona, ora ia ao fundo. Não foi difícil perceber que ele não estava armado em parvo, estava era armado em afogado. 
Esqueci-me por um momento que era a responsável máxima por aquela produção e gritei como grita qualquer mulher que vê uma pessoa a afogar-se: «ACUDAM QUE ELE AFOGA-SE!» Ora quando uma mulher grita com altivez, gritam logo duas ou três...ou cento e cinquenta.
Foi um verdadeiro pandemónio."   

Episódio do "Tudo Incluído" (2017):




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