Na transição para dos anos 80 para os anos 90, parecia que o cinema britânico estava entalado entre os filmes de época e os kitchen sink dramas e que já não havia lugar para o humor britânico. Os anos gloriosos dos filmes do Monty Python já pareciam distantes e desde "A Educação de Rita" em 1984 que nenhuma comédia britânica tinha tido notoriedade a nível global. Até a vizinha Irlanda já contava na altura com alguns sucessos nesse sector, em especial com os "The Commitments" em 1991.
Mas em 1994, um filme bem divertido e bem british, conquistou tudo e todos. Falo, é claro, de "Quatro Casamentos e Um Funeral", realizado por Mike Newell e escrito por Richard Curtis, um homem responsável por uma boa parte da renovação do humor britânico nos anos 90. Ou não fosse ele o argumentista de "Mr. Bean" e "Black Adder" (e nesse mesmo ano de 1994, criador de "A Vigária de Dibley").
O filme segue a história de Charles (Hugh Grant), um desajeitado mas adorável jovem e do seu grupo de amigos, que estão sempre a ser convidado para casamentos. São eles: Tom (James Fleet), cuja timidez impede-o de ser, apesar da sua imensa fortuna, um solteiro cobiçado; Fiona (Kristin Scott-Thomas), sempre super chique e elegante, e secretamente apaixonada por Charles; Scarlett, (Charlotte Coleman), a "flatmate" de Charles e ainda mais desastrada que ele; Gareth (Simon Callow), o mais velho do grupo, sempre com um comentário sarcástico na ponta da língua e Matthew (John Hannah) com quem Gareth está discretamente envolvido. A estes ainda se pode juntar David (David Bower), o irmão mais novo de Charles, que apesar de surdo, é muito mais eloquente que ele. Entre entediados com o constante aparato das cerimónias e secretamente frustrados por não terem a sua vida amorosa resolvida, estes amigos adoptaram um postura algo cínica face aos casamentos. Mas ao longo de quatro casamentos e um funeral, a vida deles vai inesperadamente mudar.
O primeiro casamento começa desastrosamente para Charles, que chega atrasado e descura das suas funções de padrinho. Mas é então que Charles conhece Carrie (Andie MacDowell), uma bonita e elegante americana, por quem ele fica logo encantado. A atracção e o entendimento são mútuos e imediatos, e os dois acabam por dormir juntos. Embora ela parta para a América no dia seguinte, Charles não consegue esquecê-la.
O segundo casamento acaba por ser um pesadelo para Charles. Primeiro desilude-se com Carrie, que chega acompanhada pelo seu noivo Hamish (Corin Redgrave). Depois, em vez de ficar na mesma mesa que os amigos, é obrigado a sentar com as suas ex-namoradas, em especial a temperamental Henrietta (Anna Chancelor), com quem teve uma relação particularmente difícil e a quem os seus amigos chamam de Cara de Pato. Porém, depois de outros desaires (como ver-se obrigado a assistir a uma rapidinha dos noivos!), Charles acaba por dormir de novo com Carrie. Os dois acabam-se por encontrar mais tarde quando Carrie anda às compras para o casamento, mas o reencontro, que termina com uma declaração tardia de Charles, acaba por acentuar a impossibilidade de que algum dia possa haver algo entre os dois.
Durante o terceiro casamento, o de Carrie e Hamish na Escócia, Charles deprime-se ao ver a mulher que ama casar com o outro. Os seus amigos compartilham do seu pesar e concluem que chegou à altura de porem o orgulho de lado e arranjarem alguém para casar. Mas é só durante o funeral de um deles que eles finalmente ganham coragem para seguir em frente.
E eis-nos chegados ao quarto casamento. Charles, por desespero, aceitou casar com Henrietta. Mas eis que mais uma vez aparece Carrie. E está separada do marido...
O sucesso do filme, no box office e na crítica (nomeação para o Óscar de Melhor Filme), adveio sobretudo de dois factores. Primeiro o argumento e a realização, cheios de humor de ponta a ponta, sensível e refinado mas sem recusar uma pitada de brejeirice (a f-word é largamente repetida no início do filme) mas também hábeis nos momentos mais trágicos. Depois o excelente elenco, todo ele magistral, dos actores principais aos mais efémeros (como por exemplo o velho senil do primeiro casamento) a construir personagens irresistíveis e que o espectador acompanha com delícia.
Mas é claro que quem mais brilha é Hugh Grant que com este filme foi catapultado para uma carreira estrelar entre Hollywood e a Velha Albion, que nem o escândalo Divine Brown em 1995 beliscou. Grant constrói aqui um novo arquétipo de galã, até então pouco visto no cinema e que perpetuou em vários dos seus outros trabalhos: desastrado, vulnerável e até um bocadinho cobarde, mas apesar disso (ou por causa disso), cheio de charme.










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