Aproxima-se mais uma edição do Festival da Eurovisão e como é de tradição, recordamos mais uma edição antiga. Desta feita, recuamos 25 anos até ao dia 3 de Maio de 1997 e até Dublin, capital da Irlanda.
O 42.º Festival da Eurovisão teve lugar no Point Theatre de Dublin, tal como em 1994 e 1995. Devido a quatro vitórias da Irlanda nos últimos cinco anos, a televisão irlandesa RTÉ já estava um bocado estafada demais por ter de organizar tantos certames (para não falar dos custos dos ditos). A princípio até foi equacionada uma organização conjunta com a BBC da Irlanda do Norte. A apresentação esteva a cargo de Carrie Crawley e Ronan Keating, da célebre boyband irlandesa Boyzone que fazia muito sucesso na altura. Aliás foram os Boyzone que estiveram na actuação de intervalo entre o desfile das canções e as votações, com um tema inédito "Let The Message Run Free". Carlos Ribeiro fez os comentários para a RTP e Cristina Rocha foi a porta-voz dos votos de Portugal.
Uma das razões pelas quais eu ainda não tinha feito um artigo sobre esta edição foi porque eu tinha guardado más memórias dela, devido ao aziago resultado de Portugal. Mas durante o confinamento, eu revi esta edição e, ultrapassando esse espinho, tive de concordar que foi uma edição muito bem conseguida a vários níveis. Na altura, a Irlanda vivia um tempo de prosperidade e queria ser vista como um país moderno, já para além dos tradicionais clichés culturais. Além disso na altura, a tecnologia dava importantes avanços, pelo que foi interessante e premonitório ver ecrãs a dominarem esta edição, do palco ao genérico inicial, passando pelos postcards. E se no início da década, parecia haver um certo desfasamento entre as canções do Festival e os sons que dominavam na altura, aqui as canções concorrentes reflectiam bem vários tipos de sonoridades dos anos 90.
Outra particularidade desta edição foram as mensagens de vários antigos participantes do Festival da Eurovisão a recordarem a sua passagem pelo certame e a desejar boa sorte aos intérpretes: Benny Andersson e Bjorn Ulaveus dos ABBA (Suécia 1974), Céline Dion (Suíça 1988), Julio Iglesias (Espanha 1970), Cliff Richard (Reino Unido 1968 e 1973), Bucks Fizz (Reino Unido 1981), Sandra Kim (Bélgica 1986), Bobbysocks (Noruega 1985), Johnny Logan (Irlanda 1980 e 1987), Secret Garden (Noruega 1995) e os responsáveis pelas quatro últimas vitórias da Irlanda, Linda Martin (1992), Niamh Kavanagh (1993), Charlie McGettigan & Paul Harrington (1994) e Eimear Quinn (1996).
25 países participaram neste ano: ausentes no ano anterior, Alemanha, Dinamarca, Hungria e Rússia regressaram neste ano bem como a Itália, que não participava desde 1993. Já Bélgica, Finlândia e Eslováquia, participantes em 1996, ficaram de fora este ano. Era também suposto Israel regressar em 1997, mas como a data do Festival coincidia com a de uma data religiosa dedicada às vítimas do Holocausto, declinou a participação pelo que Bósnia & Herzegovina ocupou a vaga. Importa ainda referir que pela primeira vez foi introduzido o televoto popular no Festival da Eurovisão, mas em apenas cinco países (Áustria, Alemanha, Reino Unido, Suécia e Suíça) e por causa disso, pela primeira vez foi exibido um resumo das actuações de todos os países onde seriam indicados nos países com voto telefónico os números correspondentes a cada canção, algo que rapidamente viria a tornar-se comum no Festival da Eurovisão.
Como habitualmente, vamos rever as canções por ordem inversa da classificação.
Célia Lawson (Portugal)
E o melhor é arrancar logo o penso: nesse ano, pela primeira vez desde a sua participação inaugural em 1964, Portugal não recebeu qualquer ponto. Sem dúvida um resultado deveras injusto para a nossa canção "Antes Do Adeus" na voz de Célia Lawson, que estava a longe de ser a pior canção das que desfilaram nesse ano. Contudo, também não era das mais memoráveis e como tal acabou por passar despercebida aos júris e televotos europeus. Célia Lawson ficou conhecida pela sua participação na terceira edição do "Chuva De Estrelas" onde chegou à grande final com uma imitação de Oleta Adams, (tal como o seu irmão Paulo imitando Jim Kerr dos Simple Minds) e tinha acabado de lançar o seu primeiro álbum "First". A acompanhá-la em palco estava um coro de quatro vozes, a fazer lembrar os agentes do Matrix (um deles, o mais alto, era nada menos que Mico da Câmara Pereira). A música e a orquestração estiveram a cargo de Thilo Krassmann e a letra (que mencionava Pedro Abrunhosa e José Saramago) era de Rosa Lobato Faria, na quarta e última vez que assinara uma letra para uma canção eurovisiva. Célia Lawson também escreveu a letra de "Eu Sou Aquele" dos Excesso. Em 2017, participou no "The Voice".
Tor Endersen (Noruega)
Mas pelo menos, Portugal não provou sozinho a amargura dos nul points, já que a Noruega foi também corrida a zeros. O que também foi um choque para este país que vinha de uma vitória em 1995 e de um segundo lugar em 1996. Ainda por cima, Tor Endersen finalmente conseguira ir à Eurovisão depois de ter tentado sete vezes antes (fez parte do coro da canção norueguesa de 1988). Contudo, apesar dos zeros e devido a um novo sistema de relegação que apurava a média de pontos de cada país no últimos cinco anos, Portugal e Noruega puderam participar em 1998.
Barbara Berta (Suíça)
Mrs. Einstein (Países Baixos)
Mais acima, Suíça e Países Baixos repartiram o 22.º lugar com 5 pontos. Barbara Berta representou as cores helvéticas com uma canção em italiano da sua autoria, "Dentro Di Me". Já os Países Baixos levaram o quinteto feminino Mrs. Einstein com a canção "Niemand Heeft Nog Tijd" ("já ninguém tem tempo"). O grupo que na altura era formado por Linda Snoeij, Suzanne Venneker, Marjolein Spijkers, Saskia van Zutphen e Paulette Willemse estava no activo desde 1990, e embora só tenham editado um disco por ocasião da participação na Eurovisão, as Mrs. Einstein continuam a actuar por terras holandesas, com Spijkers, van Zutphen e Willemse ainda na formação actual.
Bettina Soriat (Áustria)
A Áustria foi representada por Bettina Soriat, que esteve no coro da canção austríaca do ano anterior. Com uma larga experiência como cantora e bailarina, tendo participado em vários musicais do meio teatral de Viena, Soriat levou a Dublin o tema "One Step" onde evidenciava os seus dotes de dançarina, que ficou em 21.º lugar com 12 pontos.
Paul Oscar (Islândia)
A Islândia foi o último país a actuar e ficou em 20.º lugar com 18 pontos, mas a sua actuação foi uma das mais marcantes da noite e bastante ousada para a época. Paul Oscar cantou "Minn Hansti Dans" ("minha dança final") sentado num sofá branco, acompanhado por quatro bailarinas vestidas de cabedal. Com uma carreira artística desde infância e abrangendo vários estilos, Paul Oskar tinha-se também notabilizado no seu país como DJ e figura de proa da comunidade LGBT. A sua canção era um tema techno-pop que não destoaria numa Eurovisão da década seguinte. Há que notar que três dos quatro países que deram pontos à Islândia foram os que tinha televoto, pelo que fica a ideia que se a maioria dos países tivesse voto popular nesse ano, quem sabe se o resultado não teria sido melhor.
Bianca Schomburg (Alemanha)
Alma Cardzic (Bósnia & Herzegovina)
A Alemanha e a Bósnia & Herzegovina ficaram em 18.º lugar com 22 pontos. A representante alemã foi Bianca Schomburg, que no ano anterior, vencera a primeira final europeia do "Chuva de Estrelas" imitando Céline Dion (com Portugal em segundo lugar com Rui Faria como Elton John). Em Dublin, cantou "Zeit" ("tempo"). Aproveitando uma nova regra que permitia uma faixa gravada completa, a Alemanha foi um dos quatro países que não recorreram à orquestra.
Já a Bósnia & Herzegovina foi representada por Alma Cardzic, que já tinha representado o país em 1994 (também em Dublin) em dueto com Dejan Lazarevic, que agora a solo cantou "Goodbye".
ENI (Croácia)
Como se lembram, em 1997, as cinco mulheres mais famosas dos planeta eram as Spice Girls, por isso não era admirar que algum país apostasse em trazer algum do espírito das raparigas especia(r)i(a)s para a Eurovisão. E esse país foi, algo surpreendentemente, a Croácia que com o grupo ENI e a canção "Probudi Me" ("desperta-me"), era impossível não associar à estética e sonoridade das Spice Girls: Elena Tomecek evocava a sensualidade de Geri Halliwell e Ivona Maricic a inocência de Emma Bunton, enquanto Nikolina Tomljanovic surgiu desportiva como Melanie C. e Iva Mocibob representaria talvez um elo perdido entre Melanie B. e Victoria Beckham. A Croácia ficar-se-ia pelo 17.º lugar com 24 pontos. Mas ao contrário das Spice Girls, as ENI têm continuado juntas no activo no seu país desde então.
Kolig Kaj (Dinamarca)
A Dinamarca também apostou na diferença com um tema rap, "Stemmen I Mit Liv" ("a voz na minha vida") interpretado por Thomas Laegard Sorensen, aliás Kolig Kaj, sobre um homem obcecada sobre uma voz feminina que ele ouviu por acaso num chamada de sondagens, ficando em 16.º lugar com 25 pontos. A Dinamarca só voltaria a levar um tema completamente em dinamarquês à Eurovisão em 2021.
Alla Pugacheva (Rússia)
Na sua terceira participação, a Rússia foi representada por uma das maiores cantoras do país desde os tempos da União Soviética. Com uma carreira iniciada em 1965, Alla Pugacheva já vendera mais de 200 milhões de discos e gravara em várias línguas e em 1991, foi condecorada como a "Artista do Povo da URSS". Com tanta consagração, fazia sentido que Pugacheva tivesse cantado um tema intitulado "Prima Donna". Curiosamente na altura, ela era casada com Philipp Kirkorov, o representante russo em 1995. Apesar da primorosa interpretação, a Rússia ficou em 15.º lugar com 33 pontos e só voltaria a participar na Eurovisão em 2000.
Blond (Suécia)
Na altura, também as boybands estavam em alta e não foi de estranhar que dois países tivessem sido representados por uma boyband. Um deles foi a Suécia com o trio Blond, que como o nome indicava, era composto por três membros bem loirinhos: Jonas Karlhager, Gabriel Forss e Patrick Lundstrom. Os três cantaram "Bara Hon Älskar Mig" ("se ao menos ela me amasse"), alcançando o 14.º lugar com 36 pontos.
VIP (Hungria)
O outro país que levou uma boyband foi a Hungria. Os VIP cantaram "Miért kell, hogy elmenj?" ("porque tiveste de partir?"), uma balada que se fosse em inglês, não destoaria no repertório dos Backstreet Boys. O grupo era composto Jozsa Alex, Imre Rakonczai, Viktor Rakonczai e Gergo Racz, com estes dois últimos a terem mais tarde sucesso a solo no seu país. No Festival, a canção húngara ficou em 12.º lugar com 39 pontos.
Marianna Zorba (Grécia)
Na mesma posição e com os mesmos pontos ficou a Grécia. Marianna Zorba cantou "Horepse" ("dança") um tema que não destoaria numa aula da dança do ventre.
Anna-Maria Jopek (Polónia)
A Polónia ficou em 11.º lugar com 54 pontos. Anna-Maria Jopek cantou "Ale Jestem" ("mas eu sou"), um tema folk. Jopek viria a ter uma bem-sucedida carreira como intérprete de jazz e world music, colaborando com nomes sonantes como Pat Metheny, com quem editou um álbum conjunto em 2002.
Tanja Ribic (Eslovénia)
Com uma canção num estilo semelhante à da polaca, a Eslovénia ficou em décimo lugar com "Zbudi Se" ("acorda"), cantada pela loiríssima Tanja Ribic. Este será porventura o momento mais notório de Tanja Ribic como cantora, já que tem trabalhado mais como actriz de teatro e cinema.
Debbie Scerri (Malta)
Debbie Scerri foi a representante de Malta, cantando "Let Me Fly", obtendo o nono lugar com 66 pontos, incluindo um doze da Turquia. Mas o que ficou sobretudo para história desta participação maltesa foi o facto de Debbie Scerri ter sido a primeira recipiente do Prémio Barbara Dex (o nome da representante belga de 1993), o prémio para o participante mais mal vestido, devido ao seu vestido largueirão roxo e azul turquesa. A partir de 2022, o prémio foi renomeado You're A Vision e agora distingue o look mais original de entre os participantes de cada edição. Debbie Scerri é hoje por hoje sobretudo conhecida no seu país como apresentadora.
Maarija (Estónia)
Duas cantoras que tinham participado em 1996, voltaram nesse ano a representar novamente o seu país. Uma delas foi Maarija-Liis Ilus que representava a Estónia pelo segundo ano consecutivo. Se em 1996 fê-lo em dueto como Ivo Linna, desta vez apresentou-se a solo (e sob o nome de Maarija, simplesmente) cantando "Keelatud Maa" ("terra proibida"). Ficou em oitavo lugar com 82 pontos um pouco aquém do quinto lugar do ano transacto, mas ainda assim, um bom resultado.
Fanny (França)
Fanny Biascamano foi a representante da França, e apesar de ter apenas 17 anos, já era uma cantora de grande sucesso desde a pré-adolescência quando em 1991 teve um hit com uma versão de "L'homme à la moto" de Edith Piaf. Em Dublin, cantou "Sentiments Songes" ("sentimentos sonhados") alcançando o sétimo lugar com 95 pontos.
Marcos Llunas (Espanha)
A vizinha Espanha obteve o sexto lugar em 1996 com a powerballad "Sin Rencor" na voz de Marcos Llunas. Filho do célebre cantor romântico Dyango, Llunas estava habituado a este tipo de competições pois ganhara o Festival da OTI de 1995 com "Eres Mi Debilidad". O seu disco mais recente data de 2012 é um tributo ao repertório do seu pai. Se virem esta actuação no YouTube, prestem atenção ao momento em que Marcos Llunas olha para a câmara com um esgar de quem apanhou um choque eléctrico.
Hara Konstantinou (Chipre)
Chipre foi o primeiro país a actuar, o que sem dúvida deu sorte já que repetiu o melhor resultado do país até então, ao alcançar o quinto lugar, tal como em 1982, posição que também seria repetida em 2004 e apenas ultrapassada com o segundo lugar de 2018. Os representantes cipriotas foram os irmãos Hara e Andreas Konstantinou, que cantaram "Mana Mou" ("terra mãe"), com uma participação muito activa dos quatro cantores do coro.
Jalisse (Itália)
Ausente desde 1993, a Itália regressava à Eurovisão, mas segundo consta foi um regresso meio contrariado. Isto porque na altura, caso um país não estivesse interessado em participar, era obrigatório informar disso atempadamente à EBU, mas aparentemente a RAI não o fez dentro da data prevista e para não pegar pesada multa, a Itália acabou por participar, levando a canção vencedora do Festival de San Remo desse ano: "Fiumi Di Parole" ("rios de palavras") interpretada pelo duo Jalisse. O duo era composto pelo casal Alessandra Drusian e Fabio Ricci. Tanto em San Remo como na Eurovisão, foram apontadas semelhanças da canção italiana com "Listen To Your Heart" dos Roxette. Porém, nenhuma acção foi tomada quanto a isso e a Itália alcançou o quarto lugar com 114 pontos (incluindo 12 de Portugal). Mas nem este bom resultado alentou a Itália a continuar a participar na Eurovisão, só regressando ao certame em 2011.
Sebnem Paker (Turquia)
Antes de 1997, o historial da Turquia no Festival da Eurovisão não era muito famoso, com apenas um resultado no top 10 em 1986. Mas nesse ano, a Turquia conseguiu um brilhante terceiro lugar com 121 pontos e nos anos vindouros obteria outros grandes resultados, nomeadamente a vitória em 2003. Sebnem Paker já tinha sido a representante turca em 1996, onde ficou em 12.º lugar, e regressava um ano depois com o Grup Etnik e o tema "Dinle" ("escuta"), um tema com sonoridades bem turcas a que a assistência presente respondeu batendo palmas animadamente no refrão. Sebnem Paker ainda tentou representar o país por um terceiro ano consecutivo em 1998, mas não venceu a final nacional. Actualmente é professora do ensino secundário.
Marc Roberts (Irlanda)
Com quatro vitórias nos últimos cinco anos, a Irlanda foi de longe o país dominante do Festival da Eurovisão nos anos 90. E em 1997, obteve mais um excelente resultado ao ficar em segundo lugar com 157 pontos. Marc Roberts cantou "Mysterious Woman" sobre alguém que fica fascinado após cruzar olhares com uma mulher misteriosa no aeroporto.
Os Katrina & The Waves obtiveram a quinta vitória do Reino Unido
Contudo, rapidamente ficou claro que a vitória nesse ano não escaparia ao Reino Unido, com um esmagador total de 227 pontos, mais setenta que a Irlanda. A banda rock Katrina & The Waves, composta por dois britânicos (Kimberley Crew e Alex Cooper) e dois americanos radicados na Britânia (Katrina Leskanich e Vince De La Cruz), deixara a sua marca nos anos 80 com o hit "Walking On Sunshine". Porém embora a banda tivesse continuado a dar concertos e a lançar discos desde então, nunca conseguiu repetir esse sucesso, pelo que esta vitória na Eurovisão foi o segundo pico de notoriedade para a banda. "Love Shine A Light" foi composta pelo guitarra Kimberly Rew e foi o único membro da banda que não esteve em palco, com Phil Nicol a tocar guitarra em seu lugar, sendo ainda acompanhados no coro por Miriam Stockley e Beverly Skeete. Contudo, estes novo fogacho de fama durou pouco e os Katrina & The Waves terminaram em 1999. Katrina Leskanich tem contudo continuado a actuar a solo desde então e eu vi-a ao vivo em 2012 na Eurovision Party de Setúbal. Aliás, Katrina nunca deixou de abraçar o seu legado na Eurovisão e por exemplo, apresentou a gala dos 50 anos da Eurovisão em 2005 e em 2017 foi a porta-voz dos votos do Reino Unido (que deu um dos muitos 12 a Portugal). Em 2020, quando o Festival da Eurovisão foi cancelado devido à pandemia de Covid-19, os representantes do diversos países que iriam participar nesse ano (excepto os da Bélgica) cantaram "Love Shine A Light".
Recuamos hoje ao Verão quente de 1999, o último Verão do milénio! (Sim, eu sei muito bem que na verdade o términus do século XX e do segundo milénio depois de Cristo foi em 2000, mas na altura a Humanidade decidiu que o Milénio acabava a 31 de Dezembro de 1999 e quis lá saber de exatidões matemáticas.) Nesse Verão de 1999, quando Portugal respirava prosperidade e esperança como nunca se atrevera a sentir, quando a Expo 98 deu alento à candidatura ao Euro 2004 e quando a luta de Timor Leste pela independência levou a uma mobilização e solidariedade no nosso país em níveis raramente vistos desde o 25 de Abril, entre os diversos sons que compuseram a banda sonora desse Verão, houve um destaque para os ritmos latinos. Ricky Martin e Enrique Iglesias, já bem consagrados nos mercados latino-americano, deram o salto para o sucesso global, Jennifer Lopez dava o salto dos filmes para a música, Carlos Santana lançou o seu álbum mais celebrado "Supernatural" e até foi então que se descobriu que "el único fruto del amor es la banana, es la banana!"
E foi também em 1999 que um jovem alemão deu ao mundo um hit tão esmagador que parecia ao mesmo tempo tão retro e tão a gritar "ESTAMOS EM 1999!", que tão rapidamente ficou datado como se tornou um evergreen, e que redefiniu o mambo para toda uma nova geração. Não que fosse um mambo genuíno, mas o certo é que a partir de então, quando se ouve a palavra "Mambo", aposto que para muito boa gente a primeira coisa que virá à cabeça será este tema.
A teoria mais consensual sobre a origem do mambo é que terá derivado de dois estilos musicais cubanos: o danzón e o montuno. Nos anos 30, a orquestra Arcaño Y Sus Maravillas popularizou um novo estilo chamado de danzón de nuevo ritmo, mais tarde conhecido como danzón-mambo. Em 1949, o músico cubano Damaso Perez Prado mudou-se para o México onde reinventou a sonoridade do mambo, imprimindo-lhe influências do swing e do jazz americano. Essa nova sonoridade acabou por também ganhar popularidade nos Estados Unidos, dando origem a vários conjuntos de mambo made in USA e até alguns na Europa. O auge comercial do mambo durou até ao início dos anos 60.
A obra completa de Perez Prado continuou a ser reconhecida e redescoberta nas décadas seguintes, destacando-se temas como "Guaglione" (que chegou ao 2.º lugar do top britânico em 1995 devido a um anúncio da cerveja Guinness), "Patricia" e "Mambo N.º 5". (Ao que parece não existem os Mambos n.º 1, 2, 3 e 4, mas existe sim um "Mambo N.º 8"!)
Entretanto, a 13 de Abril de 1975, nascia em Munique um filho de mãe siciliana e pai ugandês, a quem foi dado o nome de David Lubega. Inicialmente, o jovem David Lubega queria ser rapper, tendo feito parte alguns grupos de hip hop desde a adolescência e gravou o primeiro disco em 1990. Em 1997, integrou o grupo Balibu cujo single "Let's Come Together (Holiday Shout)" pretendia claramente ser o novo "Coco Jamboo".
Mas então como é que um alemão aspirante a rapper se reinventou como um ícone do mambo? Há duas versões da história: o próprio Lubega afirma que descobriu a música latina numa viagem a Miami e decidiu então reinventar-se como cantor latin-pop, enquanto o seu manager Goar Biesenkamp tem declarado que, após os Balibu, ele é que lhe sugeriu essa reinvenção.
Seja como for, David Lubega lá se aperaltou com o fato às riscas, o chapéu Fedora e o bigodinho para se metamorfosear em Lou Bega e a persona do latin lover. E em Abril de 1999, o seu primeiro single "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" foi editado na Alemanha. A canção era trabalhada à volta de "Mambo N.º 5" de Perez Prado, com Bega a enumerar as suas conquistas amorosas na letra. No refrão havia a Monica, a Erica, a Rita, a Tina, a Sandra, a Mary e a Jessica, e na primeira estrofe ainda havia mais a Angela e a Pamela. Na altura, Bega afirmava que estas mulheres eram todas reais, mas acho que até então o consenso foi de que era apenas ele a viver a personagem.
Seja como for "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of...)" foi rapidamente um hit na Alemanha e à medida que o Verão de 1999 foi chegando, o tema foi sendo lançado internacionalmente e foi escalando os tops de todo o mundo, tendo sido n.º 1 em praticamente todos os países europeus, Austrália, Canadá e Nova Zelândia e chegado ao 3.º lugar nos Estados Unidos, com Lou Bega actuando alegremente pelo globo. O álbum "A Little Bit Of Mambo" foi então editado, sendo também um campeão de vendas.
Lou Bega é ocasionalmente referido como um one-hit wonder mas o single seguinte "I Got A Girl" ainda foi um sucesso assinalável em vários países, nomeadamente na Finlândia onde chegou ao segundo lugar do top. Recordo-me que em 2000, ambos os temas foram usados no genérico do concurso da RTP "Só Números". Mas os single seguintes "Tricky Tricky" e "Mambo Mambo" passaram mais despercebidos bem como o segundo álbum de Lou Bega, "Ladies And Gentlemen", de 2001, onde há a destacar uma versão de "Just A Gigolo".
Após um breve hiato, Lou Bega voltou ao activo em 2005 e desde então que tem editado discos e actuado com regularidade, agora sobretudo nos circuitos de nostalgia dos anos 90 (aliás o seu mais recente álbum é de versões de temas dos anos 90). Em 2010, teve um hit assinalável na Alemanha com "Sweet Like Cola". E em 2019, num verdadeiro recontro de hits titãs dos anos 90, saiu o single "Scatman vs. Hatman".
A par de isso "Mambo N.º 5 (A Little Bit Of)" continuou o seu legado. Não só Lou Bega fez novas versões para certas ocasiões (como concerto de André Rieu) e anúncios publicitários (lembro-me de ter sido usado por exemplo num anúncios das Pringles), como regressou ao n.º 1 do top britânico numa versão de… Bob O Construtor em 2001 (aliás, era o single que estava em n.º 1 no Reino Unido aquando do 11 de Setembro) e a BBC usou o tema na sua cobertura de jogos de críquete. É caso para afirmar que um bocadinho de mambo chegou muito longe.
E vamos a mais um capítulo da saga "Filmes que eu vi na Sessão Da Noite da RTP1", esse mítico espaço de cinema das sextas feiras à noite que durou de Setembro de 1990 a Abril de 1994 e que se tornou essencial na minha formação como cinéfilo. (Se alguém tiver conhecimento de uma lista de todos os filmes exibidos nesse espaço, por favor entre em contacto comigo.)
"Cuidado Com As Gémeas" (de título original, "Big Business"), comédia de 1988, era uma adaptação livre e modernizada de "A Comédia de Erros", com Bette Midler e Lily Tomlin no papel de dois pares de gémeas trocadas à nascença. A realização esteve a cargo de Jim Abrahams, no seu primeiro filme fora da tríplice aliança com os irmãos Zucker, com produção pela Touchstone, a chancela da Disney para filmes menos infantis.
Em 1948, dois casais dão entrada num hospital na pequena cidade de Jupiter Hollow na Virgínia Ocidental, com as esposas em trabalho de parto. Um deles são os Shelton, um casal rico de Nova Iorque que por lá estava de passagem, e os Ratliff, um casal local. As duas mulheres dão à luz duas meninas gémeas praticamente ao mesmo tempo. Os Shelton decidem chamar as suas filhas Rose e Sadie, e o Sr. Ratliff, que ouviu a conversa, sugere à esposa dar os mesmos nomes às suas filhas. Os Shelton partem no dia seguinte, mas o que ninguém sabe é que no meio da confusão com os dois partos, a idosa enfermeira do hospital trocou as bebés e na verdade, cada casal teve gémeas idênticas: as duas Sadies (Midler) são filhas dos Shelton e as duas Roses (Tomlin) dos Ratfliff.
Quarenta anos depois, as irmãs Shelton herdaram a Moramax, o império empresarial do pai. Sadie Shelton tornou-se uma implacável mulher de negócios, negligenciando o filho rebelde Jason (Seth Green), para frustração do seu ex-marido Michael (Barry Primus). Já Rose Shelton sempre sonhou com uma vida no campo e não tem muito jeito para a gestão, deixando todas as decisões nas mãos da irmã.
Sadie Shelton pretende vender a Hollowmade, uma fábrica de móveis em Jupiter Hollow, que o seu pai comprou aquando do seu nascimento e marca uma reunião para convencer os acionistas. O seu subalterno Graham Sherbourne (Edward Herrmann) avisa-a que R. Ratliff, o líder dos trabalhadores da fábrica, está a caminho de Nova Iorque para impedir a venda e Sadie encarrega-o de tentar descobri-lo para o impedir de interferir.
Rose e Sadie Ratliff
Rose e Sadie Shelton
R. Ratliff é na verdade Rose Ratliff, que ruma a Nova Iorque com a sua irmã Sadie, que sempre sonhou conhecer a cidade. Uma série de confusões faz com que as Shelton e as Ratliff se instalem no Hotel Plaza. Também lá se instala Fabio Alberici (Michele Placido), um magnata italiano e um dos potenciais compradores da fábrica, que arrasta a asa às duas Sadies, ignorando que são duas mulheres diferentes. Ao Plaza também vai parar Roone Dimmick (Fred Ward), o namorado de Rose Ratliff, que Graham e o seu assistente (e namorado) Chuck (Daniel Geroll) creem ser R. Ratliff.
Roone pretende pedir Rose Ratliff em casamento mas é Rose Shelton que se encanta com ele. Já Sadie Ratliff conhece Jay num incidente que a levou a dominar Jason amarrando-o, e embora deduzindo logo que aquela não é a ex-mulher, Jay fica impressionado. As confusões e os desencontros entre as quatro mulheres e seus pretendentes sucedem-se até que as quatro se encontram na casa de banho. Ao descobrir que, ao contrário do que tinha dito, Sadie Shelton não pretende cancelar a venda da fábrica, Rose Ratliff fecha-a num armário, e Sadie Ratliff faz-se passar por ela, e com a ajuda de Rose Shelton, convence os acionistas a impedir a venda.
No final, cada uma das quatro mulheres sai do hotel acompanhada: Rose Shelton com Roone, Sadie Shelton com Fabio, Sadie Ratliff com Michael e Rose Ratliff entende-se com o Dr. Jay Marshall (Michael Gross), um pretendente de Rose Shelton. Enquanto isso, um mendigo que costuma rondar o Plaza (e que a certa altura diz: "Há dois de toda gente lá dentro!") dá de caras com um executivo engravatado igualzinho a ele e o recepcionista do hotel, ainda mal refeito de todas as confusões, desmaia ao ver umas trigémeas que pretendem fazer o check-in!
Quando eu vi o filme já estava familiarizado com o trabalho de Bette Midler, tanto como actriz (este foi um dos seus cinco filmes na Touchstone entre 1986 e 1988, juntamente com "Por Favor Matem A Minha Mulher", "Um Vagabundo Na Alta Roda", "Que Sorte Danada!", que também passaram na "Sessão Da Noite" da RTP1, e "Beaches - Eternamente Amigas") como cantora (com os seus hits "Wind Beneath My Wings" e "From A Distance"), mas foi o primeiro filme de Lily Tomlin que eu vi. Curiosamente, os papéis foram inicialmente escritos para Barbra Streisand e Goldie Hawn, que seriam respectivamente Sadie e Rose. O actor brasileiro José Wilker foi equacionado para o papel de Roone.
"Cuidado Com As Gémeas" foi um sucesso modesto de bilheteira mas teve melhor desempenho no mercado de vídeo. Apesar de algumas falhas no argumento (sobretudo quanto às relações das quatro protagonistas com os seus interesses românticos que são abordadas demasiado apressadamente) e algumas inconsistências no ritmo da trama, é um filme que entretém e arranca umas quantas gargalhadas. Uma das minhas cenas preferidas é quando as duas Sadies, que na altura estão a usar o mesmo vestido, sentam-se a tomar pequeno-almoço cada uma com a Rose que não é a sua irmã, e as quatro falam entre si sem saber que a outra não é aquela com quem julgam estar a falar.
Além do desempenho de ambas (embora Midler e Tomlin sejam significativamente melhores como Sadie Shelton e Rose Ratliff) e dos imenso gags, um dos pontos fortes do filme são os efeitos especiais que para a época são bem conseguidos: em vez de se recorrer a duplas, as cenas com cada gémea em duplicado foram construídas em cinco meses de pós-produção.
E como a realidade é muitas vezes mais estranha que a ficção, segundo o IMDB, no ano em que o filme foi lançado surgiu a notícia de dois pares de gémeos na Colômbia que tinham sido trocados à nascença num hospital de Bogotá e que cresceram em meios diferentes pensando que cada um a pensar que tinha um gémeo falso e que só descobriram da troca (e que tinham na verdade um gémeo idêntico) quando os quatro já tinham vinte e tal anos.
Se vocês são da minha idade, à primeira impressão 1992 não parece um ano assim tão distante. Mas a verdade é que já passaram trinta anos desde 1992. Sim, pessoas nascidas em 1992 já são trintonas! Em 2022, estamos mais longe de ano de 1992 do que por exemplo, estávamos em 1992 de 1969, o ano da chegada do Homem à Lua.
Em 1992, eu completei uma dúzia de anos de vida e vivia a pré-adolescência em todos os altos e os baixos (sobretudo os baixos, já que foi nessa altura que mais sofri com o bullying na escola). Mas claro que tive momentos bons e, apesar de na altura eu ainda não ter desenvolvido os meus gostos e conhecimentos musicais e cinematográficos, foi um ano com os seus pontos marcantes na cultura pop. Por isso, hoje recuamos trinta anos e vamos recordar algumas coisas do ano de 1992.
Portugal presidiu pela primeira vez à União Europeia Entre 1 de Janeiro e 30 de Junho, Portugal assumiu pela primeira vez a presidência rotativa da União Europeia, na altura ainda denominada Comunidade Económica Europeia. Até agora, Portugal assumiu esse papel semestral mais três vezes, de Janeiro a Junho de 2000 e 2021 e de Julho a Dezembro de 2007. Esta primeira presidência europeia de Portugal teve como sede o Centro Cultural de Belém.
O Centro Cultural de Belém sediou a primeira presidência de Portugal da UE em 1992
Aliás foi esse o ano em que a CEE deu grandes passos a tornar-se cada vez mais uma federação europeia, com uma unidade monetária comum e maior mobilidade de pessoas e mercadorias entre os países-membros com o famigerado Tratado de Maastricht.
Profundas transformações na Europa Mais a Leste, a Europa passava por profundas transformações. A União Soviética colapsara no final de 1991 e doze das suas quinze ex-repúblicas (Estónia, Letónia e Lituânia já tinham obtido a independência anteriormente) tornaram-se estados independentes. Enquanto estes tentavam alicerçar a sua autonomia, foi criada a Comunidade de Estados Independentes para um auxílio mútuo, designação essa que também foi utilizada para fins desportivos, como por exemplo no Europeu de Futebol e nos Jogos Olímpicos de Verão e Inverno, enquanto alguns desses novos países não tinham as suas próprias federações desportivas.
Conflitos sangrentos na ex-Jugoslávia
Também a República Socialista Federal da Jugoslávia se desmembrara nos anos anteriores com Eslovénia, Croácia, Macedónia e Bósnia-Herzegovina a declararem independência, enquanto o território composto por Sérvia e Montenegro manteve a denominação de Jugoslávia até 2003. Mas se a Macedónia conquistou a independência sem sangue derramado e os conflitos na Eslovénia foram breves, na Croácia e sobretudo na Bósnia-Herzegovina travou-se uma guerra violenta que se arrastaria pelos três anos seguintes. Devido às agressões do governo de Belgrado no conflito, a 30 de Maio de 1992 a ONU instaurou um embargo banindo todas as transições económicas, científicas, culturais e desportivas com a República Federal da Jugoslávia que duraria até 1995, com novas sanções instauradas em 1998 durante o conflito no Kosovo.
O assassinato de Daniella Perez chocou o Brasil A 28 de Dezembro de 1992, a actriz brasileira Daniella Perez foi brutalmente apunhalada até à morte. A actriz fazia então parte da telenovela "De Corpo E Alma", que estava a ser exibida na Rede Globo e na SIC. Depois de "Barriga de Aluguer" e "O Dono Do Mundo", Perez, de 22 anos e casada com o actor Raúl Gazzola, entrava agora numa telenovela da autoria da sua mãe, Glória Perez, no papel de Yasmin, irmã da protagonista Paloma (Cristiana Oliveira). Mas ao choque da sua morte sucedeu-se o da descoberta que o autor do crime era o actor Guilherme de Pádua, que fazia para romântico com Perez na telenovela, com a cumplicidade da esposa deste, Paula Thomaz. O assassinato de Daniella Perez chocou de tal forma o país irmão que ofuscou o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Uma vez que a telenovela estava a ser exibida e sendo a Rede Globo um dos seu accionistas, a SIC também fez uma cobertura do caso. A Rede Globo nunca mais repôs a telenovela "De Corpo E Alma" mas a SIC reexibiu-a em 1997. Guilherme de Pádua e Paula Thomaz foram condenados a 19 anos de prisão mas só cumpriram seis anos da pena em regime fechado. Pádua é agora pastor evangélico.
Daniella Perez (1970-1992)
Também foi em 1992 que nos despedimos do Capitão Salgueiro Maia, um dos principais rostos da Revolução do 25 de Abril, do autor Isaac Azimov, dos actores Dick York ("Casei Com Uma Feiticeira") e Anthony Perkins ("Psico"), do comediante Benny Hill, da lenda do cinema Marlene Dietrich, da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva e de Branca Santos, a famigerada Dona Branca.
Nasceram várias estrelas Mas foi neste ano que nasceram várias estrelas. No futebol, o astro brasileiro Neymar e o dinamarquês Christian Eriksen. Os actores Freddie Highmore (de "Charlie E A Fábrica de Chocolate" e da série "The Good Doctor"), Taylor Lautner (o Jacob da saga "Crepúsculo"), Logan Lerman ("Percy Jackson" e "As Vantagens De Ser Invisível"), Ezra Miller ("Temos de Falar Sobre Kevin" e também de "As Vantagens De Ser Invisível") e dos novos tomos de "A Guerra Das Estrelas", Daisy Ridley e John Boyega. Na música, Sam Smith, Nick Jonas, a rapper Cardi B e as ex-estrelas da Disney Miley Cyrus, Demi Lovato e Selena Gomez. E ainda no desporto, a jamaicana Elaine Thompson, pluricampeã olímpica do atletismo.
Made in 1992: Demi Lovato, Selena Gomez e Miley Cyrus
A tragédia do voo 495 Martinair no Aeroporto de Faro A nível nacional, a maior tragédia de 1992 aconteceu a 21 de Dezembro quando um avião da companhia holandesa Martinair, partindo de Amesterdão, se despenhou na pista 11 do Aeroporto de Faro. Apanhado nas más condições atmosféricas, com uma tempestade e túneis de vento, e com visibilidade quase nula, o avião DC-10 aterrou violentamente na pista. O impacto fez o avião partir em dois e causou uma explosão no tanque de combustível da asa direita.
Das mais de trezentas pessoas a bordo, 56 faleceram (incluindo dois tripulantes) e 106 ficaram gravemente feridas. A rápida intervenção dos serviços de emergência ajudou a minorar o número de vítimas.
A tragédia do voo Martinair 495 foi tema de conversa e notícia para muitos dias, não só em Portugal como nos Países Baixos, de onde era proveniente o avião, e que meses antes fora palco de outro acidente de aviação. E para muitos algarvios, foi a primeira vez que viriam um desastre de tamanhas dimensões ali tão perto, como foi o caso do David Martins, que morava a poucos quilómetros e se lembrava de ver ao longe dos destroços.
O início do futebol moderno 1992 é visto como o primeiro ano do futebol moderno. Entre os vários motivos para tal, destacam-se dois.
Na época 1992/93, a Taça dos Campeões Europeus deu lugar à Liga do Campeões. Contratado pela UEFA, o empresário alemão Klaus Hempel reinventou a competição, concentrando todos os direitos de transmissão de jogos e os patrocinadores sob a sua alçada e fixando os horários das partidas. Como tal, as receitas subiram vertiginosamente: se em 1992, as receitas das transmissões televisivas foram de 85 mil francos suíços, em 2002, já ascendiam a mil milhões! Já na época 1991-92, a Taça dos Campeões Europeus tinha sofrido uma grande mudança, introduzindo uma fase de grupos em que as oito equipas que chegavam aos quartos de final foram divididas em dois grupos de quatro, cujos vencedores se apurariam para a grande final. Como tal, as principais equipas europeias disputavam agora mais jogos. O Benfica foi uma das oito equipas dessa primeira era com dois grupos, ficando em terceiro lugar no grupo que apurou o Barcelona para a final no Estádio de Wembley em que bateu a Sampdoria. Já a final da Taça das Taças foi disputada no Estádio da Luz com o Werder Bremen a vencer o Mónaco enquanto o Ajax conquistou a Taça UEFA.
Desde então a Liga dos Campeões passou por várias transformações, mas o inconfundível tema composto por Tony Britton (inspirado na ária utilizada na coroação dos monarcas britânicos) mantém-se o mesmo.
Pela mesma altura, após mais de uma década marcada por hooliganismo, infraestruturas em ruínas e parcos dividendos, a liga inglesa sofreu uma profunda transformação. Os principais clubes ingleses chegaram a um lucrativo acordo de transmissões televisivas com a Sky Sports, que ao jeito americano, transformou os jogos muito além das partidas disputadas, com debates e análises de jogo. Para a promoção da nova Premiere League, a Sky Sports levou a cargo uma campanha utilizando o hit dos Simple Minds "Alive And Kicking". Nos anos seguintes, o futebol inglês tornou-se uma marca importante, melhorando os estádios e atraindo jogadores de outros países e outros países europeus não tardaram a seguir o exemplo. O Manchester United seria o campeão da época inaugural da Premier League (1992-93).
Em Portugal, o FC Porto ganhou o Campeonato e o Boavista a Taça de Portugal.
O milagre dinamarquês no Euro 1992
1992 foi também ano de Europeu de Futebol, que resultaria numa das maiores surpresas da história do torneio. Além da Suécia, o país anfitrião, apuraram-se a então campeã mundial Alemanha, os Países Baixos detentores do título (e que mediram forças com Portugal na qualificação), a Inglaterra, a Escócia, a França (o único grande torneio de selecções em que Eric Cantona jogou), a recém-dissolvida União Soviética sob o nome de Comunidade Estados Independentes e a Dinamarca, em substituição da Jugoslávia, impedida de disputar a prova devido ao embargo das Nações Unidas.
E não é que foi a Dinamarca a levantar o caneco? Após uma fase de grupos morna, com um empate face à Inglaterra, uma derrota com a Suécia e assegurando as meias-finais após vitória contra a França, os dinamarqueses empataram com holandeses na semifinal, onde uma defesa de Peter Schmeichel ao remate de Marco Van Basten nos penáltis os colocou na final de Gotemburgo, onde bateram a Alemanha por 2-0 para espanto global.
De eliminados a campeões europeus
Rezou a lenda que quando se soube que a Dinamarca iria disputar o Europeu em vez da Jugoslávia, muitos dos jogadores já estavam a gozar as férias, mas consta que afinal não foi bem assim e que a federação dinamarquesa estava preparada para essa eventualidade.
Santos da Península não fizeram milagres nos Jogos Olímpicos 1992 foi ano de Jogos Olímpicos, o último a ter em simultâneo Jogos de Inverno e de Verão.
Os Jogos Olímpicos de Inverno decorreram de 8 a 23 de Fevereiro na localidade francesa de Albertville, com a participação de 1801 atletas de 64 países (Portugal não participou). Pela primeira vez, houve provas de patinagem de velocidade em pista curta, de esqui freestyle (moguls) e biatlo feminino. Também houve provas de demonstração de curling, ballet em esqui e esqui de velocidade, ficando estas infelizmente manchadas pela morte do atleta suíço Nicolas Bochatay ao colidir com um veículo gerador de neve durante um treino. Pela primeira vez, a China, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia ganharam medalhas em Jogos Olímpicos de Inverno e a esquiadora Blanca Fernandez Ochoa foi a primeira mulher espanhola a conquistar uma medalha olímpica (Verão ou Inverno).
Barcelona acolheu os primeiros Jogos Olímpicos disputados na Península Ibérica, que tiveram lugar de 25 Julho a 9 e Agosto. Mais de 9300 atletas de 169 países competiram em 25 desportos, incluindo pela primeira vez o basebol, o badmington e o judo feminino. A África do Sul participou pela primeira vez desde 1960, após décadas de exclusão devido ao regime de apartheid, a Alemanha competiu unificada pela primeira vez desde 1964, as antigas repúblicas da União Soviética competiram como uma única equipa sob a bandeira olímpica (excepto Estónia, Letónia e Lituânia que competiram novamente como países independentes). Croácia, Eslovénia e Bósnia-Herzegovina participaram como países independentes enquanto os atletas das restantes repúblicas ex-jugoslavas (Sérvia, Montenegro e Macedónia) competiram como atletas neutros.
Entre os principais feitos, destaque para a Dream Team americana de basquetebol, composta por estrelas da NBA como Michael Jordan e Magic Johnson, que dominaram como quiseram; para o ginasta bielorrusso Vitaly Scherbo que obteve seis medalhas de ouro e para as as vitórias do britânico Linford Christie nos 100m, do americano Kevin Young nos 400m barreiras, da argelina Hassiba Boulmerka nos 1500m e do russo Alexander Popov nos 50 e 100m livres da natação.
Entre os momentos mais dramáticos, houve a determinação do britânico Derek Redmond em querer acabar a sua corrida apesar da lesão, apoiado pelo seu pai que desceu da bancada até à pista, e o infortúnio da nadadora sincronizada canadiana Sylvie Fréchette, prejudicada por um acidental erro de pontuação de uma juíza brasileira.
Galvanizada pelo factor casa, Espanha alcançou 22 medalhas, incluindo 13 de ouro, de longe o melhor medalheiro olímpico de nuestros hermanos.
Já Portugal, apesar de levar a maior delegação de sempre com mais de 100 atletas, saiu de Barcelona sem medalhas. Nem sequer a equipa do hóquei em patins, que era modalidade de demonstração, foi além do quarto lugar. Os melhores resultados portugueses foram o sexto lugar do canoísta José Garcia e o sétimo de Manuela Machado na maratona (lesionada, Rosa Mota não pôde defender o título olímpico e ficou em Portugal).
Ano dourado do rock em Portugal
Em Portugal, dois discos dominam as atenções. "Palavras Ao Vento", lançado mesmo no final de 1991, marcou a estreia dos Resistência, um verdadeiro projecto all-star com nomes como Miguel Ângelo, Tim, Olavo Bilac, Pedro Ayres Magalhães ou Fernando Cunha, e rapidamente foi campeão de vendas graças aos seus dois hits, dando uma nova roupagem a "Nasce Selvagem" dos Delfins e "Não Sou O Único" dos Xutos & Pontapés. Aproveitando o momento, ainda em 1992 sairia o segundo álbum "Mano A Mano", destacando-se a versão de "A Noite" dos Sitiados.
Mas o disco nacional do ano é "Rock In Rio Douro" dos GNR. O Grupo Novo Rock de Rui Reininho e companhia já vinha somando vários hits e álbuns memoráveis, mas foi este álbum elevou-os a um novo nível de sucesso, sendo então um dos raros discos a atingir quatro vezes platina. Temas como "Sangue Oculto", em colaboração com Javier Andreu da banda espanhola La Frontera, "Pronúncia Do Norte" com Reininho em dueto com Isabel Silvestre, "Sub-16" e "Ana Lee" rapidamente andaram na boca de toda a gente e a 10 de Outubro, os GNR tocaram no Estádio de Alvalade para 40 mil pessoas, na altura a maior audiência de sempre num concerto de uma banda portuguesa.
Mas 1992 foi também o ano de outros grandes hits nacionais como "Vida De Marinheiro" dos Sitiados, "Easy Come & Go" dos Joker, "Tudo Ou Nada" dos Zero (um projecto spin-off dos Ban) e "Chuva Dissolvente" dos Xutos & Pontapés.
Mais grande música
1992 viu também surgir álbuns marcantes como aquele que é o meu álbum preferido de sempre: "Automatic For The People" dos R.E.M. Mas também saíram discos seminais como "Fear Of The Dark" dos Iron Maiden, "Keep The Faith" dos Bon Jovi, "Adrenalize" dos Deff Leppard, "Diva" de Annie Lennox, "Seven" dos James, "Hormonally Yours" das Shakespear's Sister, "Funky Divas" das En Vogue, "Kerplunk" de Green Day, "Dirty" dos Sonic Youth, "Bigger! Better! Faster! More!" dos 4 Non Blondes e "Love Deluxe" de Sade.
E nas pistas de dança bombaram forte "It's My Life" de Dr. Alban, "Rhythm Is A Dancer" dos Snap!, "Please Don't Go" dos Double You e "I Love Your Smile" de Shanice, e os grandes êxitos dos ABBA foram reavivados graças ao EP "Abba-Esque" dos Erasure e à compilação "ABBA Gold".
Madonna mais "Erotica" que nunca Quem também tem teve álbum novo em 1992 foi Madonna. A rainha da pop nunca se fez rogada em imprimir boas doses de sensualidade e sexualidade nos seus opus, mas o lançamento simultâneo do álbum "Erotica" e do livro "Sex" demonstravam Madonna no seu mais explícito até então. Até mesmo hoje, alguns dos ensaios de "Sex", como a famosa fotografia de Madonna nua a pedir boleia na estrada, seriam considerados demasiados ousados para uma estrela de topo. (Isto para não falar em várias outras imagens onde ela podia ser vista em cenas sadomasoquistas e em poses sensuais com várias pessoas, incluindo celebridades como Naomi Campbell, Isabella Rossellini e Vanilla Ice.)
Mas apesar das boas vendas de "Erotica" e de "Sex" ter esgotado rapidamente o milhão e meio de exemplares da sua única edição, este período foi marcado por uma enorme animosidade da opinião pública por Madonna, recebendo duras críticas de vários quadrantes desde os habituais grupos ultrahipócritasconservadores a líderes feministas como Camille Paglia.
Será que Madonna tinha mesmo ido longe demais e agora não passava uma estrela desvairada que só queria chocar? O tempo viria mostrar que não era bem assim, e que este marco de Madonna contribuiria não só para que outras artistas de vários ramos explorassem mais livremente a sua sensualidade na sua obra como para abrir mentalidades.
Regressos de Batman, do Alien e de Kevin McAllister ao cinema
No cinema, filmes para todos os gostos. Michael Keaton voltou a ser o Homem-Morcego às voltas com uma Michelle Pfeiffer Catwoman e um Danny DeVito Pinguin em "Batman Regressa"; Macaulay Culkin voltou a enfrentar os Wet Bandits em "Sozinho Em Casa 2: Perdido em Nova Iorque"; as sagas "Alien" e "Arma Mortífera" chegaram ao terceiro tomo; Jack Nicholson achou que não aguentaríamos a verdade em "Uma Questão De Honra"; Francis Ford Coppola ressuscitou "Drácula"; Richard Gere e Kim Basinger cederam aos "Desejos Finais"; Whoopi Goldberg mudou-se "Do Cabaret Para O Convento"; Geena Davis e Madonna jogaram na "Liga De Mulheres", "Beethoven" deu um recital de gargalhadas e amaremos sempre Whitney Houston e Kevin Costner em "O Guarda-Costas". Para não falar que também em 1992 saíram "Aladino", "Imperdoável", "Horizonte Longínquo", "A Morte Fica-vos Tão Bem", "A Mão Que Embala O Berço", "Regresso A Howard's End", "Perfume De Mulher", "Chaplin", "Jovem Procura Companheira", "Querida, Ampliei O Miúdo" e, em Portugal, "Aqui D'El Rei", "O Dia Do Desespero", "Vertigem" e "Retrato de Família".
A viagem do Lusitânia Expresso para alertar o mundo contra a luta do povo timorense As imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz em Dili em Novembro de 1991 chocaram Portugal e gerou uma onda de revolta contra a opressão do governo da Indonésia, que desde 1975 ocupara a ex-colónia portuguesa. Porém, esse acontecimento não teve grande repercussão no resto do mundo.
No início de 1992, a equipa da revista Fórum Estudante teve a ideia de viajar até Timor no ferryboat Lusitânia Expresso para depositar uma coroa de flores no cemitério de Santa Cruz e alertar os media internacionais sobre a luta do povo timorense pela liberdade e contra o jugo da Indonésia.
Com o apoio do governo e donativos de várias empresas e cidadãos anónimos, o projecto ganhou forma e no dia 6 de Março, após várias conferências na Austrália, mais de 120 pessoas de 23 países embarcaram no Lusitânia Expresso a partir de Darwin. Eram na grande maioria estudantes, mas também jornalistas como José Rodrigues dos Santos para a RTP e o ex-Presidente Ramalho Eanes.
Mas ao entrar nas águas territoriais de Timor, o barco foi cercado por quatro navios de guerra indonésios e vários aviões militares, sendo impedido de continuar a viagem. Como tal, a homenagem das vítimas de Santa Cruz foi feita no barco e a coroa de flores foi lançada ao mar.
Pot-pourri de outros acontecimentos de 1992
- Bill Clinton foi eleito presidente dos Estados Unidos impedindo a reeleição de George W.H. Bush.
- A Disneyland Paris é aberta ao público a 29 de Abril.
- A Rainha Isabel II completou 40 anos de reinado mas uma sucessão de acontecimentos embaraçosos para a coroa britânica (o divórcio da Princesa Ana, a separação do Príncipe André e de Sarah Ferguson, fotos desta em topless com outro homem, o lançamento do livro sobre a Princesa Diana que revelava os problemas do seu casamento com o Príncipe Carlos e detalhes do relacionamento deste com Camilla Parker-Bowles, um incêndio no Castelo de Windsor) fez com que a monarca definisse 1992 como um "annus horribilis".
- A Irlanda venceu o Festival da Eurovisão em Malmö na Suécia com tema "Why Me" interpretado por Linda Martin e escrito por Johnny Logan, vencedor do certame em 1980 e 1987. Portugal ficou em 17.º com o "Amor de Água Fresca" de Dina.
- Aos 18 anos, Marisa Cruz é eleita Miss Portugal. A namibiana Michelle McLean é coroada Miss Universo e a russa Yulia Kurotchkina é eleita Miss Mundo.
- A cidade de Los Angeles foi palco de seis dias de motins após a absolvição dos quatro polícias que agrediram Rodney King, causando 63 mortos e mais de mil milhões de dólares em prejuízos. - Apanhado num escândalo de corrupção, o Presidente do Brasil Fernando Collor de Mello abdicou do cargo a 29 de Dezembro. - A Super Nintendo chega finalmente à Europa e são lançados jogos de antologia como "Sonic 2", "Super Mario Kart" e "Ecco The Dolphin". - Estrearam séries como "Picket Fences", "Doido Por Ti", "Melrose Place", "Absolutamente Fabulosas" e "California Dreams". A MTV estreou "The Real World", considerado o percursor do "Big Brother", e na animação, surgiu a "Sailor Moon". É também lançado o Cartoon Network.
RTP preparando ventos de mudança
Muito provavelmente já a pensar em se precaver face ao início das televisões privadas, foi em 1992 que a RTP estreou programas marcantes como "Isto Só Video", "Parabéns", "Marina Marina", "Apanhados", "Olha Que Dois!!" e "Sons De Sol". Estrearam também as telenovelas "Meu Bem, Meu Mal", "Pedra Sobre Pedra", "Barriga De Aluguer" e a portuguesa "Cinzas".
A 14 de Setembro, a RTP2 foi renomeada TV2, apresentando uma programação especialmente focada na cultura e no desporto.
E a 10 de Junho, foi lançada a RTP Internacional via satélite para chegar às comunidades portuguesas em todo o mundo.
"A sua televisão independente SIC, SIC, SIC..." Mas 1992 em Portugal é marcado pelo fim do monopólio televisivo da RTP. Projectos para estações de televisão privada em Portugal remontam ao final dos anos 70, mas só com a alteração em 1989 a uma lei da Constituição que limitava as licenças de televisão ao sector público é que esses projectos podiam ser viabilizados. A 6 de Fevereiro, o Governo de Cavaco Silva atribuiu as duas licenças para emissão de televisão privada à Sociedade Independente de Comunicação (SIC) e à Televisão Independente (TVI). De fora ficou o projecto TV1 liderado por Daniel Proença de Carvalho.
Liderada por Francisco Pinto Balsemão, ex-Primeiro Ministro de Portugal entre 1981 e 1983, a SIC tinha como principais accionistas a TV Globo, Expresso, Lusomundo, Grupo Impala, Costa do Castelo Filmes, Interpress e a seguradora Império e instalou o seu centro de emissões em Carnaxide, onde ficaria até à mudança em 2019 para Paço D'Arcos.
Com as emissões da TVI previstas para se iniciarem em 1993, coube à SIC a honra de quebrar o monopólio televisivo de 35 anos da RTP. No dia 6 de Outubro às 16:30, a SIC arrancou as suas emissões com um bloco informativo conduzido por Alberta Marques Fernandes, que ficaria para a posterioridade como a primeira cara da televisão privada portuguesa.
De entre a programação dos primeiro três meses da SIC, destacam-se programas informativos como "Praça Pública", o magazine desportivo "Portugal Radical", o concurso "Encontros Imediatos", a já referida telenovela "De Corpo E Alma", emissões da MTV, a série nacional "A Viúva Do Enforcado", séries internacionais como "Cuidado Com As Aparências", "Justiça Negra", "Cosby Show" e "Raven" e sobretudo o célebre concurso italiano "Il Colpo Grosso", que teve o título português de "Água Na Boca".
Durante os seus primórdios, a SIC voou baixinho sem levantar muitas ondas para o domínio da RTP. Mas gradualmente, a SIC soube corresponder aos desejos de mudança que o país não sabia que queria e os portugueses foram se deixando conquistar por esse admirável mundo novo audiovisual e em menos de três anos atingiria a liderança. Uma ascensão que seria caso de estudo em toda a Europa. Guardo muitas boas memórias destes primeiros anos da SIC e tenho muito pena na dificuldade de rever na SIC actual o espírito inovador da sua génese.
Que outras memórias e acontecimentos de 1992 que não foram mencionados neste texto é que se recordam? Contem nos comentários!
Depois da telenovela "Palavras Cruzadas", a produtora Atlântida decidiu que estava na altura de dar um passo em frente na ficção nacional e criar uma série de acção, inspirada por sucessos como "Miami Vice"; pelo menos dentro dos meios possíveis no Portugal dos anos 80, onde ainda tudo andava a uma velocidade bem menos vertiginosa. Felizmente, existia em Portugal um lugar que emanava um forte misticismo veraneante: Troia, com os seus aldeamentos turísticos, como os já extintos complexos da Torralta e do J. Pimenta, e o seu ponto de encontro entre o rio Sado e o Oceano Atlântico, era local de romaria de férias para muita gente vinda de todo país e até alguns estrangeiros, e parecia o sítio ideal para aí se inventar uma Miami portuguesa.
E foi assim que surgiu a série "Homens Da Segurança", cujos 13 episódios foram exibidos na RTP1 entre Julho e Outubro de 1988 nas noites de sábado. Além de recuperarem os cargos de respectivamente produtor e realizador, tal como em "Palavras Cruzadas", Tozé Martinho e Nicolau Breyner protagonizavam a série no papel de dois agentes de uma empresa se segurança que formam uma dupla intrépida no combate ao crime em Troia e arredores. Foi também a estreia do autor Manuel Arouca em escrita para televisão.
Carlos Jorge ou "Cajó" (Breyner) é um ex-agente da Polícia Judiciária, sem papas na língua e com pelo na venta. Filipe Sarmento (Martinho) é mais sofisticado e os seus jeitos de sedutor não são indiferentes ao sexo feminino. Os dois trabalham na mesma empresa mas não se conheciam e, claro está, a primeira impressão é uma antipatia mútua com os diferentes feitios, mas rapidamente descobrem que se complementam como dupla e acabam por ficar amigos. Os dois são contratados por Tomás Mendonça (Baptista Fernandes), dono de um hotel e ex-sogro de Filipe, para proteger os clientes de uma crescente onda de criminalidade, uma decisão que não agrada muito a Vítor Mesquita (Henrique Santana), o empertigado sub-director e relações públicas do hotel, que acha a ideia uma "americanice". Entre um e outro affair, Filipe vai-se encantando com Luísa (Manuela Marle), a funcionária do rent-a-car do hotel.
Outros empregados do hotel são Catarina (Cristina Homem De Melo), a recepcionista; Irene (Noémia Costa), telefonista; Quim (Carlos Areia), barman; Cecília (Filipa Cabaço), empregada de quarto; e Toni (Ivan) um rapaz órfão que faz uns trabalhos de paquete no hotel. Geralmente no seu trabalho, Cajó e Filipe cruzam-se com o do inspector da PJ Humberto Fernandes (Morais e Castro) e do seu assistente Pais (Licínio França), com quem costumam ter vários desentendimentos. De referir ainda que Mafalda Bessa, que em 2006 viria a casar-se com Nicolau Breyner, teve um pequeno papel na série como Paula, a outra funcionária do rent-a-car, creditada como Mafalda Amorim. Este foi também o último trabalho em televisão da actriz Filipa Cabaço, célebre pelo seu papel de Ana do Mar em "Chuva Na Areia", que viria depois a deixar a representação.
A série teve algumas particularidades então ainda pouco vistas na ficção nacional como a participação de vários actores estrangeiros e de haver bastante diálogos da série em inglês. A série também teve participações especiais de nomes como o treinador de futebol Luís Norton de Matos e da sua então esposa Xana, que eram um casal socialite da altura, Luís Esparteiro, Cila do Carmo, António Feio, Carlos Quintas, Felipa Garnel, Tareka, Linda Silva, Rogério Paulo, Filomena Gonçalves, Rui Luís, Luís Aleluia, Rita Ribeiro e Ruy de Carvalho. Os filhos de Tozé Martinho, António e Rita Martinho, também entraram na série, inclusivamente com Rita no papel de Marta, filha de Filipe.
Houve dois episódios que quando eu vi na altura se destacaram para mim: um em que Filipe e Cajó acabam a proteger uma inglesa que fugiu com a filha do marido que as maltratava (sobretudo a cena em que ela mostra as costas da miúda cheias de nódoas negras) e outro em que Felipa Garnel é uma bandida portuguesa que se faz passar por americana para seduzir um empresário árabe, interpretado por Carlos Quintas. A página do Facebook do Brinca Brincando (a quem vai um enésimo agradecimento pelas imagens aqui utilizadas) tem um vídeo da cena em que a loura Cristina/Kim tenta matar o árabe após uns momentos de paixão, sendo detida com uma bala certeira de Filipe numa lancha!
Apesar de acusar os sinais que é de um tempo em que os meios eram menos e tudo andava a uma velocidade bem menor, como o genérico de um minuto e meio e vários planos meio supérfluos de personagens a andarem por corredores e algo assim, a verdade é que "Homens De Segurança" ainda vê bem. Nicolau Breyner e Tozé Martinho tinham boa química como o Crockett e o Tubbs portugueses e era divertido vê-los a combater o crime por essa Troia fora, de corrida, de lancha ou conduzindo um bem português jipe UMM!
A série está disponível para visualização na RTP Arquivos e alguns episódios estão no YouTube.