quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O Barco do Amor (1977-86) Parte 2



Não confundir com "O Cacilheiro do Amor". Agora a sério:



The Love Boat” (1977-86)
Ah, “O Barco do Amor” ou o “Barco das DST” como seria conhecido caso existisse no mundo real, tal a quantidade de marotice desprotegida a acontecer nas cabines do barco mais famoso a seguir ao “Titanic”. Curiosamente, a série foi baseada no tele-filme homónimo de 1976 e as sequelas “The Love Boat II” e “The New Love Boat”. 

Este ultimo serviu de episódio piloto para o “The Love Boat” que todo o Mundo conhece: 249 episódios das aventuras românticas e divertidas da tripulação e passageiros do cruzeiro “Pacific Princess”. Ainda mais curioso é que tudo teve origem no livro de não ficção “Love Boats” de Jeraldine Saunders, uma ex-directora de cruzeiros. O LA Times descrevia o livro assim: “Portos exóticos e jogos eróticos num mar de Sol, sexo e bebida”.

O genérico com o famoso tema:


É uma canção mesmo orelhuda, desde que comecei a pesquisar para este cromo não me sai da cabeça…
Os convidados especiais da série ao longo das nove temporadas, quatro especiais e um tele-filme é tão extensa que tem uma página dedicada na Wikipédia: “List of Love Boat guest stars”.
Sendo produzida por Aaron Spelling, “The Love Boat” cruzou-se com outras séries do mesmo produtor: “Os Anjos de Charlie”, “A Ilha da Fantasia”; e ainda rendeu várias continuações.


Publicado originalmente em 2016 no Tumblr da Enciclopédia “The Love Boat” (1977-86)".

Entretanto, o Paulo Neto publicou um artigo bem completo sobre a mecânica e elenco da série, e não posso evitar abordar o tema do episódio filmado em Portugal, com direito a tourada no campo pequeno. Por coincidência, alguns dias depois, a página "Voyeur da Tela" (que recomendo vivamente) partilhou com os internautas um cartaz a anunciar o evento. Sabendo a data, foi simples encontrar um exemplar no arquivo do "Diário de Lisboa":

Fonte: Diário de Lisboa [31 maio 1985]
  
"Grandiosa corrida com filmagens de um episódio da série Barco do Amor". Não vi o episódio, mas decerto terão usado imagens dos animais a ser agredidos, perdão, "lidados". Enfim, tempos menos civilizados, hoje Portugal no estrangeiro é sinónimo de Cristiano Ronaldo e ondas gigantes da Nazaré; nos anos 80 devia ser touradas e praias. Ou se calhar não, mas as séries americanas sempre gostaram de dar um gostinho das "tradições" dos exóticos destinos onde encenam a acção. Confesso que fiquei admirado não terem filmado a tourada na Espanha, com uma legenda "Lisboa" por cima da imagem. Geralmente o público só se recorda dos filmes filmados por cá como "A Casa dos Espíritos", "A Casa da Rússia" ou o James Bond "007 ao Serviço de Sua Majestade." mas afinal até a TV dos camones veio cá à terrinha.

terça-feira, 20 de novembro de 2018

Mulan (1998)

por Paulo Neto


Um dos principais traços da era dourada do Renascimento da Disney (que durou de 1989 a 1999) foi a preocupação de não retratar as heroínas das suas novas histórias como frágeis donzelas em apuros como em algumas das suas histórias iniciais. Assim sendo, vimos uma Bela sem medo do Monstro, uma Pocahontas determinada a impedir o conflito entre índios e colonos ou uma Esmeralda que se recusava a ceder mesmo sob cruel perseguição. Mas em 1998, a Disney revelaria uma das suas mais emblemáticas e corajosas heroínas na personagem titular de "Mulan".





Baseado na lenda chinesa de Hua Mulan, uma mulher que terá servido durante doze anos no exército disfarçada de homem durante a Dinastia Han e que se destacou pela sua bravura, o filme contava a história de Fa Mulan, uma jovem cujo temperamento irrequieto choca com os padrões esperados de uma mulher na China daquele tempo, impedindo o desejo da família de que ela encontre um marido e se torne uma boa esposa. Um desastroso com uma casamenteira autoritária ainda complica mais as coisas.

Entretanto a China é assolada pela invasão dos Hunos. Um dos líderes, Shan-Yu, é praticamente cruel e está disposto a destruir tudo e todos em seu caminho. Por ordem do Imperador, um homem de cada família deverá combater na guerra contra os Hunos. Temendo pela saúde e idade avançada do seu pai, Mulan decide ser ela a alistar-se no exército disfarçada de homem e tomando o nome de Ping. Os seus antepassados decidem enviar-lhe um espírito dragão como protecção mas por engano, quem acaba por ir com ela é um pequeno e desastrado dragão chamado Mushu.



No campo de treinos para soldados, Mulan/Ping tem várias dificuldades para se adaptar aos duros treinos comandados pelo garboso mas severo capitão Li Shang e pelo arrogante e misógino conselheiro Chi-Fu, mas eventualmente acaba por se destacar ao mesmo tempo que trava amizade com três outros inicialmente desastrados soldados, Yao, Ling e Chien-Po. Durante uma batalha, Mulan é ferida no peito por Shan Yu e Chi-Fu acaba por descobrir a sua mentira. Em vez de a executar, como manda a lei, Shang decide poupar-lhe a vida mas expulsa-a do exército.
Mas quando os Hunos ameaçam a Cidade Imperial, será a coragem e astúcia de Mulan que salvará a China.


Na versão original, as vozes de "Mulan" incluíam Ming Na Wen (Mulan), BD Wong (Li Shang), Eddie Murphy (Mushu), Miguel Ferrer (Shan Yu) e Pat Morita (Imperador da China). Na versão portuguesa, Mulan foi dobrada por Carla de Sá (Anabela nas canções), Shang por Carlos Macedo (Telmo Miranda nas canções), Mushu por Rui Paulo, Yao por Carlos Vieira D'Almeida e Ling por André Maia. Jackie Chan foi a voz de Shang nas três versões chinesas (Mandarim, Cantonês e Taiwanês).

"Reflection" Christina Aguilera




"True To Your Heart" 98 Degrees & Stevie Wonder



"Mulan" conseguiu superar crítica e comercialmente as duas anteriores longas metragens da Disney, "O Corcunda de Notre-Dame" e "Hércules" e a sua partitura musical de Jerry Goldsmith foi nomeada para o Óscar e o Globo de Ouro. Entre as canções destaque óbvio para "Reflection" interpretado por Christina Aguilera que lhe valeu um contrato discográfico que a lançaria como uma nova estrela pop no ano seguinte. Mas também há que destacar "I'll Make A Man Out Of You" na voz de Donny Osmond e "True To Your Heart" pelos 98 Degrees e Stevie Wonder.





"Mulan" teve um sequela em 2004 directamente editada em vídeo e uma longa-metragem em imagem real está prevista para estrear em 2020, com Yifei Liu no principal papel.   




quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Lessons In Love - Level 42 [1986]



A minha lista mental de "Músicas que já ouvi mas desconheço nome ou artista" dos anos cromos é bem extensa, afinal não tínhamos o Google na ponta dos dedos e nem sempre apanhávamos o videoclip/emissão na rádio de inicio, com essa preciosa informação. Uma recente campanha da EDP foi agitar as nebulosas águas da memória com o tema que escolheram para o anúncio de TV. Reconheci a canção apesar de no video criado pela agência  Solid Dogma usarem uma versão produzida pelo DJ Xinobi, com vozes de Gundelach e Ana Miró, e só com uma intensa busca no Google com excertos da canção e vários falsos alarmes depois cheguei a "Lessons In Love" da banda "Level 42" lançado em 1986.

O teledisco oficial:



Capa do single:

Os Level 42 desta época - já com 6 anos de carreira - eram Mark King, Mike Lindup (ambos ainda na formação actual) e os irmãos Philip e Rowland "Boon" Gould
Esta banda britânica não é um caso de one-hit wonder ao contrário do que pensei antes de pesquisar, mas apesar de vários singles de sucesso, "Lessons in Love" permaneceu o maior êxito dos Level 42. O álbum de onde a canção foi extraída, "Running in the Family", o sétimo álbum de estúdio dos Level 42, deu origem a mais 4 singles, lançados durante 1987: "Running in the Family" cujo refrão também me parece familiar, "To Be With You Again", "It's Over" e "Children Say".
Como curiosidade, a versão da banda polaca Pslednja Igra Leptira, "Taksi" (Taxi):



Partilhe Memórias!

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Feras Luminosas da Matutano




Houve uma altura em que Portugal foi invadido por feras. E de muitas espécies diferentes! O pais ficou cheio de elefantes, avestruzes, zebras, búfalos e leões! Mas não fugiram do Jardim Zoológico, foram libertadas dos pacotes das batatas-fritas e dos snacks Matutano. E tal como os fantasmas luminosos, esta colecção de pequenos autocolantes fluorescentes, "Feras Luminosas" brilhavam no escuro.

Mas contrário dos fantasmas anónimos, definidos pelas ocupações aparentes, as feras todas tinham nome, como o urso Piurso, a girafa Giraça, etc


Foto: Filipe Ramalho (Facebook).

Foto: Hugo Fernandes.



Foto: Catarina Baptista.


No verso das feras encontrávamos as "instruções" para as fazer brilhar no escuro:
"Chega a fera à luz por uns instantes e logo verás como brilha no escuro! Repete quantas vezes quiseres.
Colecciona as terríveis feras da Matutano! Há 30 diferentes, todas coloridas."



Os nomes de algumas das feras: Girafa Giraça, papagaio Louro, urso Piurso, tigre Tareco, leopardo Pintas, Xim-Pa-Zé, Lobo Maurício, Giboa, papa-formigas Pencas, Leónidas, Zé Brado, Sapudo, Búfalo Bill, abutre Píu-Píu, Caguinchas, Pascoalino, Trombinhas, Peixoto, Courato, Turbo-Lento, Raposódia, Omeleta, etc.

Muito obrigado aos leitores Hugo Fernandes, Catarina Baptista e Filipe Ramalho, que partilharam algumas fotos das suas feras.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O Barco Do Amor (1977-1987)

por Paulo Neto


Por incrível que pareça, a Enciclopédia ainda não tinha abordado esta mítica série que tanto encantou espectadores nos anos 70 e 80 (e depois) um pouco por todo o mundo. Isto porque tratava-se de uma série que misturava habilmente humor e romance num cenário tão apetecível como era o de um navio de cruzeiro e das paisagens por onde ele passava.



"O Barco do Amor" começou com um telefilme em 1976 inspirado no livro de memórias de Jeraldine Sanders, uma directora de cruzeiro. Mais dois telefilmes seguiram-se nesse ano até que em 1977 a cadeia americana ABC ter decidido converter o formato em série. Série essa que duraria nove temporadas até 1987 mas que ainda gerou mais quatro telefilmes entre 1987 e 1990. Em Portugal, a série passou na RTP em vários horários nos anos 80 (incluindo durante o "Agora Escolha"), na TVI nos anos 90 e na SIC Gold e SIC Comédia já neste século.

Genérico de abertura da 2.ª temporada (1979)



Genérico de abertura  da 5.ª temporada (1982) já com a Vicki no elenco fixo:



Em cada episódio "O Barco do Amor" tinha três histórias diferentes, cada uma escrita pela sua equipa de guionistas. Regra geral, uma das histórias passava-se entre os membros do elenco fixo, isto é da tripulação do navio (normalmente a mais cómica); outra entre um membro de tripulação e um dos passageiros; e a terceira (geralmente a mais dramática) entre passageiros da respectiva viagem. 



Os membros do elenco fixo eram: o Capitão Pacific Princess Merrill Stubing (Gavin McLeod); o médico do navio Adam Bricker (Bernie Kopell), Doc para os amigos; o camareiro Burl Smith (Fred Grander), mais conhecido como Gopher; o barman Isaac Washington (Ted Lange) e a directora do cruzeiro Julie McCoy (Lauren Tewes). A partir da terceira temporada, a filha do capitão Vicki (Jill Whelan) passou a integrar o elenco fixo, bem como o fotógrafo Ace Evans (Ted McGinley) na sétima temporada. Ainda na sétima temporada, com a saída de Lauren Tewes, Patricia Klous assumiu o papel de Judy McCoy, irmã de Julie, que a substituiu nas suas funções.   


Claro que a minha personagem preferida era a Vicki e o meu eu petiz achava-a que era a miúda mais sortuda do mundo por poder andar pelo mundo no navio. Mas também achava imensa graça ao Gopher e ao Doc que apesar de não serem lá muito atraentes, acabavam sempre a namoriscarem as passageiras. Até porque uma piada recorrente da série era a fama de mulherengo de Doc, que apesar do seu aspecto, já tinha sido várias vezes casado e não raras vezes as suas pacientes sucumbiam ao seu charme. (E serei o único achar que o actor era parecido com o  Willie do "Alf"?).
Outro mítico ingrediente da série era o tema do genérico interpretado por Jack Jones, que foi editado em single em 1979.



E claro está, a série teve um sem-fim de participações especiais ao longo dos seus 249 episódios. Eis aqui alguns exemplos: Kirstie Alley, Richard Dean Anderson, Kathy Bates, Sonny Bono, Joan Collins, Billy Crystal, Jamie Lee Curtis, Tony Danza, Patrick Duffy, Linda Evans, Michael J. Fox, Eva e Zsa Zsa Gabor, Pam Grier, Tom Hanks, David Hasselhoff, Janet Jackson, Gene Kelly, Janet Leigh, Heather Locklear, Leslie Nielsen, Ginger Rogers, Mickey Rooney, Frank Sinatra Jr., Jaclyn Smith, Lana Turner, Andy Warhol, Betty White, Vanessa Williams, Jane Wyman e muitos, muitos mais. Alguns como o actor Lorenzo Lamas, chegaram a fazer vários episódios em papéis diferentes. A própria Patricia Klous teve uma aparição num episódio da sétima temporada (num papel diferente) antes de entrar para o elenco fixo na temporada seguinte.

Geralmente os episódios decorriam durante cruzeiros na costa ocidental da América do Norte (Puerto Vallarta, no México, era o destino mais recorrente). Mas costumavam haver episódios, geralmente com duas partes, que decorriam noutras partes do mundo. Houve também alguns episódios de outras séries como "Os Anjos de Charlie" e "A llha Da Fantasia" que interligaram as suas narrativas com a de "O Barco do Amor".



A nona e última temporada teve algumas particularidades: o tema de abertura era agora cantado por Dionne Warwick, o navio passou a ter uma trupe residente de bailarinas, "The Love Boat Mermaids", que incluía Teri Hatcher, um dos episódios foi considerado em 1997 pela revista "TV Guide" um dos cem melhores episódios de séries de sempre e a segunda parte de um dos episódios teve cenas filmadas em Lisboa, mais concretamente na praça do Campo Pequeno, onde se encenou uma tourada (e só de escrever isto já consigo ouvir o David Martins a bufar). Isto porque uma das histórias era a de um neto (Lorenzo Lamas) de um famoso toureiro (César Romero) que hesita em seguir as pisadas do seu avô ao mesmo tempo que se interessa por uma escritora (Mary Crosby).

Lorenzo Lamas e Mary Crosby
numa cena filmada no Campo Pequeno
Eis um texto no site do Correio da Manhã: https://www.cmjornal.pt/tv-media/detalhe/quando-o-barco-do-amor-atraca-em-lisboa 

Genérico da 9.ª temporada (1986) com o genérico cantado por Dionne Warwick:



Para além das nove temporadas, a série teve ainda mais quatro episódios especiais entre 1986 e 1990. Um reboot da série "The Love Boat - The Next Wave" foi exibido nos Estados Unidos em duas temporadas entre 1998 e 1999, e incluiu um episódio de reunião do elenco da série anterior.

Reunião do elenco em 2017

Em 2014, foi concluída a demolição do navio Pacific Princess na Turquia, adquirido por uma empresa especializada em demolições navais, após os seus custos de manutenção inviabilizarem a sua utilização como navio de cruzeiros.

Pacific Princess ou MS Pacific (1971-2014)

terça-feira, 6 de novembro de 2018

"Voyage Voyage" Desireless (1986)

por Paulo Neto

Eu sou suspeito por ser licenciado em Estudos Franceses e Ingleses, mas adoro a língua francesa e a sua sonoridade. Até gosto do facto de a pronúncia de grande parte das suas palavras ser diferente daquela que as letras que as compõem sugerem (pelo menos aos olhos portugueses). Apesar de só ter começado a estudá-la no 7.º ano, já tinha algumas noções de língua de Voltaire através de um livro que os meus pais me compraram no Círculo de Leitores que ensinava algumas frases e palavras em francês e inglês. Confesso que o meu domínio do francês não é tão forte como o do inglês mas sempre que tenho oportunidade para falar, ouvir ou ler em francês, tento aproveitá-la ao máximo. 
E claro está, aprecio bastante a música francófona desde os tempos de ícones como Edith Piaf e Jacques Brel até à actualidade. E sendo um filho dos anos 80 tenho um carinho especial pelas três canções em língua francesa que se tornaram sucessos internacionais nessa década: a pop de sangue azul em "Ouragon" na voz da Princesa Stéphanie do Mónaco; "Joe Le Taxi" chilreada por uma muitíssimo jovem Vanessa Paradis; e "Voyage Voyage" interpretada pela parisiense Claudie Fritsch-Meintrop sob o nome de Desireless




Nascida na Cidade-Luz no dia de Natal de 1962, Claudie trabalhou como estilista nos anos 70 até que em 1982, uma viagem à Índia inspirou-a a enveredar pela música. Em 1984, integrou o grupo Air 89 que lançou um álbum e em 1986, lançou-se numa carreira a solo com o nome Desireless, compondo uma personagem andrógina e fria, sempre vestida de negro. Mas o seu aspecto mais marcante era sem dúvida o penteado com o cabelo todo em pé. 



Editado no final de 1986, o seu primeiro single "Voyage Voyage", um contagiante tema electro-pop. Na altura, eu ainda não percebia patavina de francês mas lembro-me de gostar de ouvir a música sempre que dava na rádio ou o videoclip na televisão. Ainda que o dito cujo, realizado pela famosa fotógrafa Bettina Reims, me metesse um pouco de medo: num salão de casarão mal iluminado (quiçá um manicómio), Desireless mostra slides com imagens de todo o mundo a um grupo de personagens bizarras incluindo três senhoras entretidas num frenético jogo de cartas, um casalinho de jovens que namora a um canto, um senhor alto que abana incessantemente a cabeça enquanto brinca com uma bola insuflável com o desenho do mapa-mundo com um senhor mais baixo e uma mulher que devora algo que nunca percebi bem o que era (batatas fritas? bolinhos?) que tem numa tigela. Essas estranhas personagens a princípio parecem desinteressadas nos slides até que de repente algo lhes chama a atenção e reúnem-se todas a ver as imagens que surgem no ecrã.  





Mais tarde, quando já dominava o idioma e quis saber o significado da letra, descobri que se tratava de um belíssimo poema sobre como viajar não só nos dá a conhecer o mundo mas como também nos conduz numa viagem ao nosso interior. Daí que quando Desireless canta "Voyage...et jamais ne reviens", não está a dizer para nunca mais regressarmos a casa mas sim para não voltarmos a ser quem éramos antes da viagem. Eis a minha tradução da letra:

No cimo do velhos vulcões
Desliza as asas pelos tapetes de vento
Viaja, viaja,
Eternamente.

Das nuvens aos pantanais,
Dos ventos de Espanha às chuvas do Equador,
Viaja, viaja,
Voa nas alturas. 

No alto das capitais, 
Das ideias fatais
Observa o oceano.

Viaja, viaja, 
Mais longe que a noite e que o dia.
Viaja
No espaço inaudito de amor.
Viaja, viaja
Sobre a água sagrada de um rio indiano.
Viaja
E nunca mais regresses.

Sobre o Ganges ou o Amazonas
Entre os negros, entre os sikhs, entre os asiáticos
Viaja, viaja
Por todo o reino.

Sobre as dunas do Sahara
Das ilhas Fiji ao Fujiyama
Viaja, viaja, 
Não te detenhas.

Sobre os arames farpados, 
Os corações bombardeados,
Observa o oceano. 

Viaja, viaja, 
Mais longe que a noite e que o dia.
Viaja
No espaço inaudito de amor.
Viaja, viaja
Sobre a água sagrada de um rio indiano.
Viaja
E nunca mais regresses.

Em França, "Voyage Voyage" ficou-se pelo n.º 2 do top nacional, bloqueado no topo por "T'en Va Pas" da estrela adolescente Elsa Lunghini. Mas o tema era tão poderoso que não tardou a quebrar a  barreira linguística e fazer sucesso fora dos países francófonos, tendo chegado ao n.º 1 na Alemanha, Áustria, Noruega e Espanha ao longo de 1987. Em 1988, uma edição com remistura dos PWL  ajudou "Voyage Voyage" a tornar-se um dos raros temas cantados em francês a chegar ao top 10 no Reino Unido. Por essa altura, Desireless já tinha editado um novo single, "John", uma tema que falava sobre guerra e religião.


Com o prolongado sucesso de "Voyage Voyage" que levou Desireless a percorrer toda a Europa a promover o tema, o seu primeiro álbum, "François" (o nome do seu marido, François Meintrop), só veria a luz do dia em 1989, já quando o interesse na cantora tinha esmorecido. 
No entanto, mesmo sem nunca ter sequer aproximado o sucesso de "Voyage Voyage", Desireless nunca mais deixou de fazer música e actuar ao vivo. Desde 2012 que tem feito a sua carreira em dueto com o compositor Antoine Aureche e o seu disco mais recente, "Desirless Chante Apollinaire", é de 2017. Entretanto "Voyage Voyage" continua a ser incluído em várias festas e compilações dos anos 80 por esse mundo fora.  





Desireless "L'expérience humaine" (2011)



De entre as versões do tema, destaque para a cover de 2008 da cantora belga Kate Ryan e a versão em espanhol de 1991 da boyband mexicana Magneto com o título "Vuela Vuela".  







terça-feira, 30 de outubro de 2018

Armageddon (1998)

por Paulo Neto

Volta e meia, sucede surgirem dois filmes semelhantes no mesmo ano. Por exemplo, duas adaptações de "Les Liaison Dangereuses" de Chorderlos de Laclos em 1989 ("Ligações Perigosas" e "Valmont"), duas bio-pics de Cristóvão Colombo em 1992 ("1492 - A Conquista" e "Cristóvão Colombo - A Descoberta"), dois filmes de animação 3D sobre insectos em 1999 ("A Formiga Z" e "Vida De Insecto") ou duas comédias românticas sobre amizades coloridas em 2011 ("Amor Sem Compromisso" e "Amigos Coloridos"). No ano de 1998, Hollywood providenciou dois filmes sobre um asteroide prestes a colidir com a Terra: "Impacto Profundo" e "Armageddon". Ainda não vi o primeiro que muitos dizem ser melhor e cientificamente mais verosímil mas sem dúvida que o segundo é o mais popular.



Hoje em dia, o realizador Michael Bay é tido como sendo o realizador que acha que efeitos especiais, explosões, movimentos frenéticos de câmara e planos sensuais de corpos femininos fazem por si só um filme. Mas na altura, Bay estava a criar status como realizador de blockbusters após o sucesso de "O Rochedo" e "Os Bad Boys", depois de ter-se iniciado com anúncios publicitários e videoclips (sendo o mais famoso deles "I'd Do Anything For Love" de Meat Loaf). Por isso, a expectativa era grande para "Armageddon", não só por causa de "Impacto Profundo" como também porque contava no elenco com nomes como Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Steve Buscemi, Michael Clarke DuncanOwen Wilson, Liv Tyler e um recém-oscarizado (como argumentista) Ben Affleck. Isto para não falar noutro factor de antecipação, quiçá o mais importante.  



A NASA descobre que um asteroide do tamanho do estado do Texas está perto de colidir com a Terra o que certamente significará a extinção da raça humana, senão mesmo a destruição total do planeta. A equipa de cientistas da NASA, liderada por Dan Truman (Thornton), elabora um plano que consiste em recrutar uma equipa de experientes estivadores de perfuração petrolífera, liderada por Harry Stamper (Willis), para viajar no espaço até ao asteroide e perfurá-lo para lançar uma bomba que o fará partir-se em duas partes, que continuarão a sua rota longe da Terra. A equipa de Harry é composta por Chick (Will Patton), Oscar (Wilson), Bear (Duncan), Rockhound (Buscemi), Noonan (Clark Brolly), Max (Ken Campbell) e A.J. Frost (Affleck). Este último namora com Grace (Tyler), a bela filha de Harry, que não aprova a relação pois quer um futuro melhor para a filha do que o de esposa de um estivador.  

  

A equipa de Harry passa por um treino intensivo para a missão, na qual serão acompanhados por uma equipa de astronautas e que inclui uma passagem pela estação espacial russa habitada pelo cosmonauta Lev Andropov (Peter Stormare). Quando meteoritos provenientes do asteroide começam a atingir gravemente algumas cidades como Xangai ou Paris, o mundo aguarda ansiosamente pela salvação da Terra. E após uma série de acontecimentos trágicos durante a missão, a salvação final fica nas mãos e (possíveis sacrifícios) de Harry e AJ. 





O Paulo de 1998 viu "Armageddon" no cinema e gostou bastante, mas o Paulo de 2018 reviu-o recentemente e achou a parra bem maior que a uva, com os clichés apontados nos filmes de Bay bem presentes. A crítica também não foi nada favorável ao filme. No entanto, "Armageddon" foi o maior sucesso comercial de 1998 (sem contar com "Titanic" estreado ainda no ano anterior) e ganhou lugar cativo entre os maiores blockbusters de aventura e acção dos anos 90. 

Porém, está claro é que impossível falar de "Armageddon" sem falar no seu tema principal, "I Don't Want To Miss A Thing", interpretado pelos Aerosmith e escrita pela prolífica compositora Diane Warren. A escolha dos Aerosmith era por demais evidente não só pelo facto do vocalista Steven Tyler ser pai de Liv Tyler como por Michael Bay ter realizado um videoclip para a banda no ano anterior. 
Não só a épica powerballad tornou-se um dos hits do ano como deu à veterana banda o seu primeiro e único n.º 1 nos Estados Unidos. Foi ainda nomeada para o Óscar de Melhor Canção (e para o Razzie de Pior Canção). 
O videoclip de "I Don't Want To Miss A Thing" foi lançado umas semanas antes do filme, servindo como um trailer musical, que terá porventura sido maior chamariz junto do público para ver o filme, como foi o caso do Paulo de 1998. Em alguns países, incluindo Portugal, a edição em VHS de "Armageddon" incluía o videoclip na cassete, numa espécie de antevisão do que seriam os extras de DVD. 

Trailer:


Aerosmith "I Don't Want To Miss A Thing"


Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...