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sexta-feira, 18 de março de 2016

Olha Que Dois!! (1992-93)

por Paulo Neto

O termo "showmance", usado nos media para definir uma pretensa relação amorosa como chamariz para um filme ou um programa de televisão (sobretudo nos reality shows), é relativamente recente, mas o conceito já era bastante antigo. Por exemplo, o filme "Serenata À Chuva" girava em torno de uma dupla de actores da era do cinema mudo cujo sucesso devia em grande parte a um especulado romance na vida real entre os dois, quando na verdade os dois não se davam lá muito bem.




Em Portugal, um dos mais badalados "showmances" do audiovisual nacional foi aquele que envolveu Teresa Guilherme e Manuel Luís Goucha, que ganhou proporções de lenda urbana. 
No livro "Isso Agora Não Interessa Nada", Teresa Guilherme explica como tudo começou:
"Este casamento começou no Eterno Feminino. O Manuel Luís cozinhava no programa, semanalmente num rubrica de culinária, onde fazia tudo para me adoçar a boca. E também foi de boca em boca que começou a correr que, para além daqueles encontros televisivos, a nossa história era outra.
Ambos solteiros, em idade casadoira, tínhamos os nossos empregozitos e muita gente começou a achar que éramos feitos um para o outro e quiseram dar-nos o nó. Também mandavam dinheirinho, peças para o enxoval e até propostas de nomes para os futuros rebentos. 
Quanto mais negávamos qualquer envolvimento, mais as pessoas nos envolviam nas teias do casamento.
O Manuel Luís começou a achar graça à brincadeira e a incentivar os defensores do casório. (...) e a ideia de que éramos mesmo casados mergulhou definitivamente no espírito de muitos portugueses. Logo a seguir, partilhámos um programa chamado Olha Que Dois. E aí é que as pessoas deixaram de ter dúvidas. Aqueles dois, que éramos nós, eram mesmo um só."



Genérico: "Olha Que Dois!!"



De facto foi o programa "Olha Que Dois!!" (sim, com dois pontos de exclamação) que perpetuou o pseudo-casamento entre Teresa e Goucha, já que era notória a química entre os dois. Promovido como uma das apostas para a nova grelha da RTP para rentrée 1992/93, o programa era um talk-show emitido para o ar nas tardes de domingo. No total, foram 41 programas, exibidos entre Setembro de 1992 e Junho de 1993. Todos os programas (à excepção de dois), giravam em torno de um convidado especial e na plateia estavam presentes várias figuras, públicas e anónimas, relacionadas com esse convidado. No primeiro programa a convidada central foi Maria Cavaco Silva, quando o seu marido era primeiro-ministro, naquela que foi a sua primeira participação num programa de entretenimento. Entre outros convidados especiais do programa estiveram José Hermano Saraiva, Marco Paulo, Amália Rodrigues, Nívea Maria (que na altura era vista na telenovela "Pedra Sobre Pedra"), Eusébio, António Sala, Simone de Oliveira, Ana Salazar, José Maria Tallon, Luís Represas, Fafá de Belém, Tônia Carreiro (que veio a Portugal para promover a estreia da produção luso-brasileira "Cupido Electrónico"), Fernando Tordo, Maluda, Carlos do Carmo, Ruy de Carvalho, Ramalho Eanes e Herman José.



O terceiro programa foi dedicado ao casamento, que contou com a presença de alguns casais de longa data como Armando Cortez e Manuela Maria e o 25.º teve como tema o 36.º aniversário da RTP. 
Inicialmente o programa continha uma rubrica fixa onde os espectadores eram convidados a exibir algum talento em particular, mas essa rubrica foi descontinuada.    

Foi no primeiro programa que apareceu a agente da PSP Isabel Silva, que anos mais tarde, viria a ser a protagonista de um dos mais famosos "Tesourinhos Deprimentos" dos Gato Fedorento. Com ajuda de dois colegas seus, a agente fez uma demonstração de técnicas de defesa pessoal em caso de ataques contra mulheres, mas o resultado acabou por roçar o surreal. Além de que popularizou a expressão "Toma, bandido!".



Outra curiosidade do programa foi a premonição de Manuel Luís Goucha de que um jovem Pedro Passos Coelho, então líder da JSD e presente no programa que tinha convidado Paulo de Carvalho, que disse que ele haveria de ser primeiro-ministro. Quando essa premonição ressurgiu na internet em 2013 devido à reposição de "Olha Que Dois!!" na RTP Memória, Manuel Luís Goucha declarou nas redes sociais: "Mais valia eu estar calado".



O site Brinca, Brincando notou ainda a presença de um igualmente jovem José Sócrates no programa centrado na sua co-partidária Edite Estrela.



O programa do qual eu tenho mais memórias foi o que teve como convidado central o general Ramalho Eanes, que aí revelou um lado mais emotivo, já que enquanto Presidente da República sempre fez por cultivar uma imagem de homem sério e estóico, ao expressar o seu amor pela esposa e pelos filhos. Também me recordo de ficar espantado com o look de um dos filhos, que tinha todo o ar de um rapaz que poderia aparecer no "Portugal Radical".



   

Estava previsto que o casal Teresa-Goucha regressasse à RTP na rentrée seguinte, mas em separado, com programas diferentes, mas o "divórcio televisivo" também se aplicou à RTP. Manuel Luís Goucha fez a sua primeira incursão na TVI para apresentar "Momentos de Glória" e Teresa Guilherme rumou à SIC para o talk-show vespertino "E O Resto É Conversa" e o concurso "Labirinto".

Mas mesmo assim, o mito do casal Teresa-Goucha não se desvaneceu. Escreve Teresa Guilherme:

"Pensávamos que, com o tempo, este casamento imaginário se ia desvanecendo. Mas não. Quanto mais o tempo passava, mais as pessoas acreditavam neste matrimónio. Até as nossas próprias mães acabaram por desistir de tanto negar a relação e assumiram os respectivos «genro» e «nora». 
Com a ida do meu pseudomarido para o Porto, os comentários passaram ainda mais calorosos. «Coitadinhos, agora estão separados. Ele teve de emigrar para o Porto para ganhar a vida e deixou a pobrezinha em Lisboa.»"
Ela conta ainda o comentário acalorado que um produtor da "Praça Da Alegria" ouviu um café perto dos estúdios da RTP Porto no Monte da Virgem.
"Uma quarta-feira de manhã, a seguir a um directo do Big Brother, estava o Manuel na televisão e um cliente, de cimbalino na mão, comentava as imagens com um ar ofendido: «Olhem-me para aquele infeliz. Ali a trabalhar feito corno e a mulher lá em Lisboa no Big Brother. Ainda ontem à noite confessou que ela, como todas as mulheres, também já fingiu um orgasmo. Uma maluca, Esta gente da televisão é tudo uma corja.»"

Mais tarde, Teresa Guilherme casou-se com Henrique Dias e Manuel Luís Goucha assumiu a sua relação com Rui Oliveira, enterrando por vez a ideia de que eram ou alguma vez tivessem sido um casal. Mas para sempre ficaram como os protagonistas de um dos mais míticos showmances nacionais. E como diz Teresa Guilherme: "O Manuel Luís Goucha não é o amor da minha vida, mas é um amigo para toda a vida."            

terça-feira, 1 de março de 2016

Diana Pereira - Super Model Of The World 1997

por Paulo Neto

Dizer que a indústria da moda em Portugal sofreu um enorme boom nos anos 90 é dizer pouco. Nesta década, a moda nacional e internacional deixou de ser um nicho que só interessava a uma certa elite para ser algo de interesse do grande público. A par dos estilistas consagrados surgiram novos nomes e os passos das modelos portuguesas mais conhecidas, como Sofia Aparício, Nayma, Fernanda Serrano e Luísa Beirão, eram tão acompanhados pela imprensa nacional quanto a imprensa mundial seguia aqueles das top models internacionais. Na televisão, destacavam-se programas dedicados à moda como "86-60-86", "Moda Roma" e a cobertura da SIC das semanas da moda em Paris. A ModaLisboa afirmou-se como o grande evento da moda nacional e o Portugal Fashion no Porto trouxe ao nosso país top models famosíssimas como Claudia Schiffer, Elle McPherson, Karen Mulder, Helena Christiansen e Linda Evangelista.
E se bem que a eleição da Miss Portugal ainda fosse então um acontecimento, nos anos 90 também os concursos de manequins reuniam a mesma atenção. Um deles era o Supermodel Of The World, o evento em que se elegia a representante portuguesa no concurso internacional do mesmo nome, promovido pela reputada agência de modelos Ford.

A edição do ano 1997, transmitida pela SIC, foi um grande acontecimento. O certame teve lugar no Museu da Electricidade, com apresentação de Catarina Furtado e actuações das maiores bandas nacionais da altura como GNR, Delfins, Ritual Tejo e Pólo Norte. A produção esteve a cargo de Teresa Guilherme
Numa passadeira em forma de S, doze candidatas desfilaram várias vezes em vários trajes, cada uma esperando ser aquela eleita para viajar até Los Angeles para representar Portugal na final internacional do "Super Model Of The World". Pelo menos quatro delas tornaram-se sobejamente conhecidas posteriormente, e não só apenas no domínio da moda: a candidata n.º 1 era Anabela Moreira, hoje uma das melhores actrizes da nossa praça, presença regular na televisão e no cinema (vimo-la por exemplo na nova versão de "O Pátio Das Cantigas" no papel de Susana), a n.º 4 era a luso-sueca Anna Westerlund, casada há já vários anos com o actor Pedro Lima e a n.º 7 era Liliana Aguiar (na altura concorrendo simplesmente como Liliana), que viria a ser concorrente na terceira edição do Big Brother e presença regular na imprensa cor-de-rosa desde então. Mas a candidata n.º 2 era um diamante em bruto que faria Portugal resplandecer de orgulho, pois não era outra senão Diana Pereira, então uma adolescente de 14 anos, que frequentava as aulas do 9.º ano e as actividades dos escuteiros em Coimbra, antes de ver o seu sonho de se tornar manequim cumprir-se da forma mais espectacular. Isto porque algum tempo depois, Diana Pereira viria a vencer a final internacional do Supermodel Of The World, provando que no nosso país havia beldades capazes de ombrear com as manequins de outros países nas passerelles internacionais.



Por causa disso, é fácil pensar que a vitória de Diana Pereira na final nacional de Super Model Of The World foi por demais evidente. Porém, segundo Teresa Guilherme, o triunfo da muito jovem conimbricense foi bastante inesperado para muitos. No seu livro "Isso Agora Não Interessa Nada", Teresa Guilherme escreve que a equipa de produção do programa era da opinião geral que seria outra candidata, "uma lindinha de 18 anos, com um bonito palminho de cara, despachadinha" (quem seria?) seria a representante ideal de Portugal para a final mundial do concurso. Porém a decisão estava a cargo de um painel de especialistas de vários países, liderado por um italiano habituado a correr o mundo em busca dos futuros talentos que irão brilhar nas passerelles internacionais. 
Por isso, quando foi necessário divulgar de antemão o resultado à equipa de produção, a surpresa foi geral para TG e a sua equipa. Conta Teresa Guilherme:
"Para que tudo fosse perfeito, combinei com o tal especialista italiano que, cinco minutinhos antes de a apresentadora revelar quem era a vencedora, eu ficaria a saber a notícia em primeira mão. Era a única forma de assegurar que todas as câmaras estariam prontas para mostrar ao mundo a carinha de surpresa e as primeiras lágrimas da vencedora.
Quando ele me comunicou o número da eleita, tive de ir verificar quem era a felizarda, porque não me lembrava sequer da sua cara. O mesmo aconteceu com os meus colegas depois de eu ter dito através do intercomunicador; «Quem ganha é a número 2.» A confusão foi mais que muita: «Ganhou quem? Qual é a número 2? Têm a certeza? Importas-te de repetir?» Foi um verdadeiro sururu. Tive mesmo de ir ao carro de exteriores confirmar a informação, ao vivo e a cores, de quem é que realmente tinha ganho, porque ninguém queria acreditar."



E de facto, o tal olheiro italiano tinha mesmo olho para a moda, uma vez que Diana venceria a final mundial de entre 50 candidatas de todo o mundo. Porém, apoiada pelos pais, Diana decidiu ficar em Portugal e recusar o prémio monetário do concurso que implicava a obrigação de viver dois anos em Nova Iorque. Ainda assim, não só desde logo Portugal elevou-a a nova princesa da moda nacional como foi requisitada para vários trabalhos além fronteiras. Nos anos que se seguiram, a carreira de Diana foi seguida bem de perto pela comunicação social nacional e até os seus pais e o irmão mais novo eram reconhecidos na rua. Devido à sua parca idade, também gerou-se algum discussão sobre se seria prejudicial uma jovem iniciar uma tão activa carreira de manequim desde tão cedo. Recordo-me que Herman José uma vez fez uma piada sobre isso, dizendo que Diana Pereira era a única manequim que podia "desfilar com lingerie de Ana Salazar e fraldas de José António Tenente."

O triunfo de Diana Pereira, aliado à qualidade da produção da final nacional, fez com que no ano seguinte, fosse Portugal o país organizador da final internacional do Super Model Of The World 1998 que teve lugar no Coliseu dos Recreios e cuja vitória sorriu à britânica Katie Burrell.



No próximo dia 1 de Abril, Diana Pereira fará 33 anos. Embora ainda faça algum trabalho ocasional como manequim, está hoje por hoje mais dedicada à família e aos seus negócios pessoais. Uma eventual paixão pelo automobilismo, tendo participado em provas de todo o terreno e ralis, juntou-a ao seu marido, o às do volante Tiago Monteiro, de quem tem dois filhos. Publicou três livros infantis, lançou uma linha de jóias e outra de roupa fitness e em 2015, estreou-se como apresentadora na RTP Internacional.


Quando eu fui para Coimbra estudar na universidade no final dos anos 90, confesso que tive uma certa esperança de encontrar Diana Pereira na sua cidade natal. Acabei por vê-la certa vez, ainda no meu primeiro ano de faculdade, na baixa de Coimbra, por entre um grupo de pessoas que conversava em círculo no meio da Rua Ferreira Borges, não sei se amigos, se gente envolvida em algum trabalho de moda. Não fosse o seu inconfundível rosto, e mal daria por ela. Vestida com um kispo largueirão e fato de treino, sem maquilhagem evidente e longe do glamour com que aparecia na televisão e nas revistas, Diana parecia uma adolescente de quinze anos como tantas outras. Mesmo assim, e embora não tivesse sequer abrandasse o passo ao passar por ela, foi um dos meus primeiros momentos starstruck da minha vida, pois se no meu exterior não houvesse senão um ligeiro sorriso, por dentro eu gritava "VI A DIANA PEREIRA!".        

Vídeo com todos os desfiles e actuações musicais do "Super Model Of The World 1997 Portugal" (muito obrigado ao canal de Marco Lopes)


  
        

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Não Se Esqueça Da Escova De Dentes - parte 2 (1995-1996)

por Paulo Neto

O David Martins já falou aqui sobre este célebre programa da SIC que marcou a televisão dos anos 90. Mas sendo um programa tão mítico e cheio de situações surpreendentes, merece ser abordado de novo aqui na Enciclopédia.



"Não Se Esqueça Da Escova De Dentes" era uma adaptação de um original britânico, "Don't Forget Your Toothbrush", foi exibido na SIC em duas temporadas entre 1995 e 1996, apresentado por Teresa Guilherme, assistida por Humberto Bernardo e por vezes também por uma petiza chamada Patrícia Calado que não devia ter mais de dez anos. Até então, embora já tivesse anteriormente apresentado concursos na SIC como "Labirinto" ou "Destino X", foi este programa que afirmou Teresa Guilherme como apresentadora de entretenimento já que então ainda era mais conhecida pelos talk-shows "Eterno Feminino" e "Olha Que Dois" na RTP e "E O Resto É Conversa" já na SIC.




O título aludia ao facto de um dos objectos mais esquecidos em casa quando se vai de viagem é a escova de dentes. O prémio final era portanto uma viagem, que qualquer um dos pares concorrentes presentes na assistência (com escovas de dentes nas mãos) estavam habilitados a ganhar na recta final do programa. Consoante o êxito ou o fracasso dos concorrentes no quiz final, estes seguiam directamente viagem numa limusina ou para um cobiçado destino internacional ou para uma localidade portuguesa de nome semelhante (por exemplo: Rio de Janeiro ou Rio Maior, Seychelles ou Seixal, Costa Rica ou Costa da Caparica). Era recorrente ao longo do programa, Teresa Guilherme perguntar à audiência "Para onde querem ir?" ao que respondiam em uníssono o destino paradisíaco, para depois TG perguntar "Para onde é que não, não querem ir?" e a resposta unânime era o destino nacional. Por aquilo que eu recordo, acho que só por duas vezes é que o par contemplado acabou por viajar em solo nacional.




Mas obviamente que em cada semana, até chegar a esse quiz final, tudo podia acontecer. Aliás outro gag recorrente do programa era Teresa Guilherme surgir em palco em cada programa de uma forma diferente: de pára-quedas, de tractor, numa empilhadora, num carro de bombeiros, numa marcha popular, no trenó do Pai Natal e por aí fora.

Claro está, o momento mais icónico do programa foi aquele em que um jogo onde os concorrentes tinham de tirar uma peça de roupa em jeito de leilão com a melhor oferta a levar uma mala com 300 contos (cerca de 1500 euros) terminou com dois homens completamente nús e uma mulher em topless. Uma situação que espantou toda a produção sobretudo Teresa Guilherme, que viria a declarar mais tarde que nem na mais mirabolante das hipóteses imaginou que a ousadia dos portugueses iria chegar a tal ponto. Até porque segundo a mesma, na versão britânica do concurso, a vitória nesse jogo e o máximo da ousadia tinha ido para uma mulher que tinha retirado o soutien sem despir a camisa. A partir daí, depois de transposta essa barreira tão nua e crua, surgiram mais jogos ao longo das duas temporadas onde outros concorrentes também se viram em pelota para ganhar algum prémio. Podem ler AQUI as palavras de Teresa Guilherme na primeira pessoa sobre esse famoso episódio. 

Além do quiz final, a rubrica mais recorrente do programa era o quiz Superfan, onde o convidado musical de cada programa competia com um dos seus maiores fãs. A maioria das vezes os fãs acabavam por saber mais coisas dos ídolos que os próprios. Outro hábito do programa era o convidado musical cantar duas canções: uma do seu repertório e uma versão de uma canção que não a sua. Recordo-me sobretudo de Simone De Oliveira ter-se atirado ao "Without You" de Harry Nilsson, na altura repopularizado por Mariah Carey. E no YouTube, temos Carlos do Carmo a dar uma de Sinatra e a interpretar "I've Got You Under My Skin". De referir ainda que nos coros da banda residente do programa liderada por Armindo Neves, estavam uns ainda pouco conhecidos Beto e Lúcia Moniz (esta alternando com Fernanda Lopes).

Outro gag recorrente do programa consistia em destruírem objectos muito queridos de alguns concorrentes como mobílias, instrumentos musicais ou até carros para no fim oferecerem uns substitutos novinhos em folha. Mas como conta Teresa Guilherme no seu livro "Isso Agora Não Interessa Nada", que reúne as suas crónicas para a revista TV Guia sobre memórias e segredos por detrás programas que produziu e apresentou, uma dessas situações foi particularmente dramática: um Sr. Asdrúbal hesitava bastante em aceitar o desafio de poder vir a perder o seu querido barco que tinha o nome dos filhos e só a muito custo aceitou, para no fim ver o seu barco acabar à machadada e afundado no lago do Campo Grande. O que o Sr. Asdrúbal e os telespectadores não sabiam é que o afundamento do barco tinha acontecido em diferido, antes da gravação do programa, partindo do princípio que a aceitação do desafio era garantida. Mas ao ver aflição do homem, a produção percebeu que tinha ido longe demais. Não só o Sr. Asdrúbal ganhou um barco novinho em folha como, arrependida da amargura dessas favas contadas, Teresa Guilherme fez questão em mandar restaurar o antigo.

Recordo-me também de um programa feito ao contrário que começou com todos a cantarem a música do final do programa e acabou com uma das entradas de Teresa Guilherme, sendo que pelo meio todos os concorrentes acabaram por ganhar uma viagem além de vários jogos feitos ao contrário do que era habitual. Houve também outro programa tipo "Ponto de Encontro" onde para além de prémios, promoveu-se o reencontro entre concorrentes e seus ente-queridos afastados pela distância, culminando num reencontro entre Sara Tavares, a convidada musical dessa semana, e o seu pai, radicado nos Estados Unidos, que já não via há largos anos.

Mas para mim, o momento mais bizarro de sempre do programa não envolveu ninguém a tirar a roupa mas sim gente que vestiu outra pele. Foi no episódio especial de Natal com um jogo que reunia oito concorrentes com nomes de figuras do presépio: um José, uma Maria, um Jesus, um Gaspar, um Baltasar, um Belchior e duas senhoras de apelido Ovelheira e Vacas. Primeiramente estas pessoas foram convidadas a vestir alguns adereços para formar um presépio vivo e depois reunidas para jogar um jogo em que tinham de apanhar uma enorme bola azul de borracha, a simbolizar o espírito de Natal. Quem ficasse com a bola ao fim de noventa segundos ganharia uma viagem a Belém, no estado do Pará no Brasil. Mas o que aconteceu a seguir foi surreal. Assim conta Teresa Guilherme no livro "Isso Agora Não Interessa Nada" sobre esse episódio:

"Só que não foi só o relógio que arrancou. Do outro lado do estúdio, as figurinhas do presépio também arrancaram na minha direcção, com esgares pouco natalícios. Eu, receando ser trucidada, escapei-me do palco.
A bola, que no ensaio tinha resistido a tudo e a todos, nas mãos da sagrada família não durou um segundo. Rebentou e dividiu-se em vários pedaços de borracha, esses sim, a roçarem o indestrutível. E o quadro que era para encher os nossos corações de amor, encheu o palco de pancada. 
Nossa Senhora batia no Menino Jesus para lhe arrancar um bocado de borracha azul. Belchior e Gaspar, os reis magos, pegaram-se numa real tareia com golpes de judo à mistura, enquanto seguravam com uma força sobre-humana o mesmo pedacinho de borracha. E, horror dos horrores...Baltazar arrastou S. José pelas barbas, de um lado ao outro do palco, porque o pai do Menino Jesus tinha mordido um bocadinho de bola, a que o rei mago queria também ferrar o dente. (...) 
No fim dos noventa segundos, muito a contragosto, lá resolvi a questão. Como castigo, ninguém deveria ter ido viajar, mas como era Natal todos ganharam uma semana em Belém do Pará. Um bicho do presépio, que até não se tinha portado tão mal, deu o toque natalício final a este quadro de horror, arrancando-me o microfone da mão e, quase num grito de guerra, disparou: "É a primeira vez na minha vida que não me importo de me chamar Vacas!" Era o bafo quente que nos faltava para aquecer o Natal do nosso descontentamento..."






Pelos vistos nem mesmo o espírito natalício conseguia refrear o espírito competitivo dos portugueses. 

Como também é sabido, no final de cada programa (excepto aquele já referido que foi feito de trás para a frente), TG, Humberto Bernardo, o convidado musical, os cantores da banda e todos na assistência cantavam a uma só voz o tema do concurso, que era uma adaptação do tema "Angel Eyes" dos ABBA. Eis aqui a letra para recordar: 

São férias para quem quiser.
São férias, aaaah!

Foi bom o programa das viagens
Da loucura, das imagens,
Das partidas, das miragens, 
Das perguntas que nos fazem confusão
Venha cá, com a escova
E o passaporte sempre à mão
Vai saber se o destino é bom ou não...

Com a escova de dentes vai
Malas, passaporte, e sai
Seja Bali ou Beja, Aveiro ou Hawai.
Com a escova de dentes vai
Malas, passaporte, e sai
Ora vou-me embora
Adeus, bye-bye

Foi bom o programa da loucura,
Da alegria e da ternura,
Do fascínio, da lonjura,
Onde o sonho é aventura de amanhã
Escutou boa música e o duelo que animou
Ahaa, convidado e super-fã.

Com a escova de dentes vai
Malas, passaporte, e sai
Seja Bali ou Beja, Aveiro ou Hawai.
Com a escova de dentes vai
Malas, passaporte, e sai
Ora vou-me embora
Adeus, bye-bye

Promos ao programa (1995)







Excertos de programas:









terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Big Brother Portugal 1 (2000)

por Paulo Neto

Uma vez que estamos chegados ao ano 2015 e que a passagem do milénio (já?) foi há quinze anos, este blogue já se poderá permitir a esticar ligeiramente a sua cobertura cronológica e abordar os primeiros dois ou três anos do século XXI. Apesar de todo o seu simbolismo, o ano de 2000 em Portugal decorria sem grande história, com apenas o futebol a gerar as notícias que causaram mais impacto na população: primeiro com o Sporting finalmente a quebrar o enguiço de 18 anos e vencer por fim o Campeonato, depois com a participação de Portugal no Euro 2000, realizado na Bélgica e na Holanda, com a mão na bola de Abel Xavier e consequente penalty de Zidane a terminar abruptamente o que até então tinha sido uma brilhante campanha da Selecção Nacional. Mas tudo mudaria a partir do dia 3 de Setembro.



Quando George Orwell escreveu a sua obra "1984" na qual previa nesse ano que o mundo tomaria a forma de uma sociedade distópica onde o cidadão comum era constantemente vigiado e controlado por uma entidade denominada o "Big Brother", decerto não imaginaria que de certo modo a sua visão só se adiantou em quinze anos. Pois em 1999, estreava na Holanda a edição original do reality show Big Brother, produzido pela produtora Endemol. Inspirado, entre outras influências, por "1984" e o programa da MTV "The Real World", o programa pegava numa dúzia de desconhecidos previamente escolhidos para viver em reclusão dentro de uma casa cheia de câmaras que os vigiavam ao longo das vinte e quatro horas do dia e que lutavam entre si para ficarem na casa, à medida que os concorrentes iam sendo expulso à vez via votação do público. Bart Spring In't Veld foi o primeiro vencedor da primeiríssima edição do Big Brother (e também foi parte envolvida na primeira cena de sexo numa edição do programa, juntamente com outra concorrente). Dado o sucesso do programa nos Países Baixos, a sua importação não se fez esperar, estreando no ano seguinte em países como Espanha, Alemanha, Suécia, Reino Unido, Bélgica e Estados Unidos. Em todos esses países (menos nos EUA, ultrapassado pelo sucesso do primeiro "Survivor"), o sucesso repetiu-se, dada a premissa de despertar o voyeur em cada telespectador, além da capacidade deste se identificar naqueles desconhecidos que de repente se tornavam presenças habituais da televisão.
Como tal, era apenas uma questão de tempo até o programa chegar a Portugal, e até mesmo o seu processo foi bastante badalado. Como a SIC era o cliente mais assíduo dos produtos da Endemol, foi à estação de Carnaxide que a produtora propôs o programa, tendo sido rejeitado por Emídio Rangel. Seria José Eduardo Moniz, então director da TVI, a aproveitar a oportunidade e a comprar o "Big Brother" para Portugal, num gesto que viria a ser considerado o princípio da liderança televisiva da TVI e o fim do até então fulgurante domínio da SIC, que se concretizaria definitivamente em 2003 e que perdura até hoje.

O primeiro Big Brother português estreou a 3 de Setembro de 2000, com apresentação de Teresa Guilherme e Pedro Miguel Ramos. Doze concorrentes foram escolhidos entre milhares de candidaturas para coabitarem numa casa na Venda do Pinheiro durante um período máximo de 120 dias, com o vencedor a ser determinado no último dia do ano. Eram eles: Célia, 18 anos, estudante de Vila Nova de Gaia; Marco, 24 anos, vendedor de produtos químicos e kickboxer, do Carregado; Maria João, 20 anos, estudante, de Ermesinde; Mário, 19 anos, estudante e  modelo, de São Mamede de Infesta; Marta, 23 anos, barmaid, de Loures; Ricardo A., 24 anos, músico e informático, de Oeiras; Ricardo V., 30 anos, escritor e surfista, da Parede; Maria da Conceição a.k.a. Riquita, 29 anos, professora, de Guimarães; Sónia, 24 anos, estudante, de Aveiro; Susana, 26 anos, desempregada, de Paredes; Telmo, 23 anos, serralheiro e ex-paraquedista, de Leiria; e Zé Maria, 27 anos, trolha, de Barrancos.



Além de vários blocos de informação ao longo do dia, o programa consistia de um resumo dos acontecimentos da casa no dia anterior exibido diariamente em horário nobre e as galas às terças-feiras, apresentadas por Teresa Guilherme, que alternavam entre as nomeações e as expulsões dos concorrentes. Todas as semanas, os concorrentes também tinham de cumprir uma tarefa semanal e consoante o êxito ou fracasso desta, eles viam o seu orçamento para as compras semanais aumentar ou diminuir.

Não se poderá dizer que o "Big Brother" tenha sido um sucesso instantâneo, o cepticismo era notório por parte do público e a crítica da especialidade expressou prontamente em coro o seu desagrado pelo programa. Mas gradualmente, o interesse e a audiência foram aumentando e quando deu por si, Portugal inteiro parava todos os dias depois do Jornal das Oito da TVI (que aliás passara a incluir amiúde algumas ocorrências do programa no seu bloco de notícias) para saber dos últimos acontecimentos na casa e todas as acções e declarações dos concorrentes eram analisadas e debatidas à exaustão nos lares, nas escolas, nos cafés e na internet.







O momento mais marcante ocorreu ao 34.º dia, com a agressão de Marco a Sónia na sequência de uma discussão entre os dois durante um ensaio para a tarefa dessa semana, representar uma cena dramatizada de "A Relíquia" de Eça de Queiroz. A expulsão de Marco do programa devido a esse incidente acabaria por ter mais destaque nesse dia no Jornal da TVI e em alguma imprensa escrita do que o anúncio da recandidatura de Jorge Sampaio à Presidência da República.

 
 
 



Sem desprimor para os quatro primeiros concorrentes eliminados - Riquita (expulsa pelo público logo ao terceiro dia, provavelmente por ser a única que era casada e mãe), os dois Ricardos e Maria João - bem para os dois que entraram na casa em substituição de Marco - Paulo, 31 anos, electricista e funcionário no Casino de Monte Gordo e Carla, 29 anos, cabeleireira e ex-stripper - mas a primeira edição portuguesa do "Big Brother" e o sucesso desta, foi feito essencialmente das personalidades e desventuras de um núcleo duro de oito concorrentes.



- Ainda que no primeiro dia tenha protagonizado um momento de súbito acanhamento que a levou a mudar de roupa na casa-de-banho, Sónia revelar-se-ia uma concorrente bem desinibida, afirmando que falar de sexo era como comer um iogurte e revelando sem rodeios que já tivera experiências sexuais com mulheres. Sónia viria a participar no primeiro Big Brother Famosos, mas desde então tem estado longe dos olhares dos media.
- Apesar de ser o rapaz mais passível de agradar ao público feminino, Mário acabou por ser como que o vilão do programa, pela sua tendência em semear intrigas entre os concorrentes. Também foi criticado por ser demasiado preguiçoso e ser raramente visto a fazer as tarefas da lida de casa. Mário voltaria anos mais tarde a ser notícia pelos piores motivos, ao ser detido devido ao seu alegado envolvimento em negócios ilícitos.



- Telmo e Célia acabariam por formar um dos casais da casa. Apesar de não serem concorrentes muito apreciados pelo público, ela pela sua imaturidade, ele pelas, digamos, particularidades do seu discurso e vocabulário, o certo é que protagonizaram momentos divertidos entre discussões e reconciliações e os dois figuravam entre os quatro últimos concorrentes, tendo Célia mesmo resistido até ao último dia e ganho o prémio de terceira classificada. 
Ficou na história o episódio em que após uma sessão marmelada onde aparentemente teria havido sexo, Telmo perguntou: "Gostastes?" ao que ela responde "Gostei", e a reacção de Célia quando confrontada com Teresa Guilherme sobre isso, exclamando a viva voz: "Mãe, não aconteceu nada, o forte está guardado!". Contra as expectativas, Célia e Telmo continuam casados até hoje e têm um filho. Telmo ganhou uma edição do programa "Primeira Companhia" e figurou na lista do PS do distrito de Leiria para as eleições legislativas de 2011.



- Mas o principal casal foi aquele formado por Marco e Marta, que chegaram ao ponto de serem o primeiro casal a assumidamente ter sexo num programa de televisão em Portugal. Marco foi sempre um concorrente controverso, que desde o início se impôs como o líder da casa e que alternava entre momentos de extrema agressividade, que culminaram no momento que lhe valeu a sua expulsão, e diversos momentos cómicos. Marta era vista como a concorrente com mais maturidade e era sempre ela que chamava os outros concorrentes à razão nos momentos mais tensos. Contra todas as expectativas, Marco soube contornar os efeitos de um gesto sempre condenável e que podia ter suscitado o ódio de Portugal inteiro, expiando a sua culpa tanto diante de Manuela Moura Guedes no Jornal das Oito como de Teresa Guilherme na gala seguinte à sua expulsão e multiplicando-se em diversas declarações de amor a Marta, inclusive a gravação de um single. Marco e Marta continuariam a sua relação, com o respectivo noivado e casamento transmitidos em directo e tiveram um filho, mas a união terminou em 2005. Além de algumas esporádicas aparições na televisão, como quando ele se auto-parodiou em programas como "Gato Fedorento" e "O Último A Sair", Marco também foi notícia por treinar soldados chineses em Israel seguindo os duríssimos parâmetros do exército israelita. Marta Cardoso formou-se em jornalismo e desde 2009 que tem colaborado em vários programas da TVI, como reportagens para "A Casa dos Segredos" e a condução dos programas das extracções dos números do Euromilhões.



- A loura Susana, que se definiu certa vez como "o Sol da Casa" e cujos colegas lhe tratavam por "cabeça amarela" foi uma das concorrentes mais populares. Após algumas dificuldades iniciais de se integrar a casa, Susana acabou por se afirmar quer pelas suas variações de humor, quer pelas interacções com aquele que parecia ser o único candidato à vitória. Houve uma certa altura, já na recta final, em que a vitória de Susana chegou a ser provável mas ela acabaria no segundo lugar. Foi ela que ficou com Big, a cadela que se tornou a nova residente da casa a meio do programa. Desiludida com a fama inesperada, há muito que Susana se remeteu de novo anonimato.
- O vencedor da edição foi Zé Maria, que desde cedo foi visto como o grande candidato. O esquálido alentejano que por diversos motivos, como ser o único proveniente de um meio rural e por encarar o desafio com um inocência quase infantil, foi semi-ostracizado ao princípio, parecendo dar-se melhor com as galinhas residentes no quintal da casa do que com os outros concorrentes. Mas gradualmente ele foi-se integrando no grupo e cativando os telespectadores, que viram nele o underdog ideal para a narrativa do programa, pois até mesmo as suas tiradas menos felizes eram divertidas. Zé Maria também foi aquele que conseguiu criar mais empatia com Teresa Guilherme durante as conversas no confessionário às terças-feiras. Eram habituais as suas queixas de falta de audição ("Ai, não estou a ouvir Teresa!"). A consagração de Zé Maria no réveillon 2000/2001 foi apoteótica assim como o seu regresso a Barrancos, mas como foi amplamente documentado, a fama súbita acabou por lhe causar diversos problemas, sobretudo de foro mental, pelo que já há alguns anos que ele vive resguardado das atenções mediáticas.     



Além disso, outra peça fundamental no sucesso do primeiro Big Brother nacional foi sem dúvida Teresa Guilherme. Se hoje a sua condução de "A Casa dos Segredos" parece dominada por diversos tiques, trocadilhos e pavios curtos, na altura TG soube ser o elo perfeito de ligação entre os concorrentes, os familiares destes e os telespectadores, aliando humor, sensatez e sensibilidade. Pelo confessionário, estabelecia relações com os concorrentes, provocando-lhes o riso diante dos seus episódios mais divertidos e puxando-lhe as orelhas por algumas atitudes menos correctas. Pedro Miguel Ramos também foi um co-apresentador irrepreensível, quer nas suas reportagens de exteriores, quer quando acompanhava os concorrentes no caminho ao estúdio após a sua expulsão. 
E já que falámos em familiares dos concorrentes, até estes também tiveram a sua dose de notoriedade, nomeadamente o irmão gémeo de Marco, o namorado de Susana (alcunhado de "Bolinha de Pelo"), a mãe de Célia, o pai e a irmã de Marta e a "Cegonha", a alegada amiga colorida de Zé Maria.



Quando o primeiro Big Brother terminou, parecia que Portugal estava viciado no programa como uma droga. Daí que a segunda edição tenha arrancado somente três semanas depois e entretanto, a TVI tenha fornecido a devida metadona com "Big Estrelas" que seguia os concorrentes nas suas várias actividades após a saída do programa. Enquanto isso, a SIC apercebeu-se que cometera um enorme erro em recusar o programa e contra-atacou, sem grande sucesso, com programas similares como "Acorrentados" e "O Bar da TV". 

Em Portugal, o "Big Brother" teve quatro edições com anónimos e três com famosos, mas sem dúvida que foi a primeira delas todas foi a que mais impacto causou e que mais nostalgia provoca ainda hoje. Primeiro, porque era todo um território inexplorado e depois, em todos as edições e outros reality shows que se seguiram, já se notava um perda de inocência por parte dos concorrentes, mais conscientes das câmaras e das consequências que poderiam obter com a sua participação. Depois, porque se hoje em dia na "Casa dos Segredos" os concorrentes parecem ser escolhidos pelo índice de músculos, tatuagens, silicone, acefalia e/ou apetência para a peixeirada, no "Big Brother" houve uma preocupação de escolher concorrentes semelhantes ao jovem português comum, pessoas que podiam ser nossos parentes, colegas, amigos e gente que encontraríamos casualmente na rua. E foi precisamente essa a revolução do Big Brother no panorama audiovisual português, a forma como quebrou a barreira mística entre o português comum e as pessoas ligadas ao mundo da televisão, que até aí pareciam envoltas numa aura de inacessibilidade. Mais do que nunca, os Zés Marias, as Susanas, os Telmos e as Martas desta vida podiam também ser estrelas no pequeno ecrã. E partir daí, a televisão em Portugal nunca mais foi a mesma.  

Imagens do primeiro bloco diário:


Entrada dos concorrentes na casa:






Tema oficial do Big Brother 1: "Vive" Delfins



A vitória do Zé Maria e os últimos momentos:


ACTUALIZAÇÃO:
Descobrimos este vídeo brasileiro sobre como foi feito o primeiro Big Brother do mundo inteiro, na Holanda em 1999, desde as ideias iniciais e dos testes experimentais até à consagração do primeiro vencedor.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Ai, os Homens (1996-1999)

por Paulo Neto

Continuamos a viagem pela produção nacional televisiva nos anos 90. Na área do entretenimento, um dos programas mais recordados da época é o "Ai, os Homens", que a SIC exibiu em cinco temporadas entre 1996 e 1999. O programa era apresentado por José Figueiras e produzido por Teresa Guilherme, adaptado de um formato australiano que já fazia sucesso em vários países .




Tratava-se de um concurso onde dez candidatos teriam de impressionar uma audiência composta por 150 mulheres, incluindo uma convidada famosa presente em cada sessão, ao longo de uma série de provas. No final de cada prova, elas davam os seus votos e os concorrentes eliminados eram atirados a uma piscina pelas assistentes. 
Era crucial causar uma boa primeira impressão, pois logo à partida três concorrentes eram logo eliminados.






Seguia-se a prova livre onde os concorrentes davam largas à imaginação para impressionar a assistência: cantar, dançar, representar, contar anedotas, exibir as suas capacidades físicas, valia de tudo. Como exemplo, eis o concorrente Vítor Grade que colocou no YouTube a sua prova onde encarnou Lionel Richie e Diana Ross num verdadeiro dueto 2 em 1!



Depois de se eliminarem mais dois candidatos, avançava-se para a prova de dança, onde cada concorrente tinha de dançar com uma das assistentes um determinado estilo de dança. Após mais um concorrente eliminado, era a vez da prova de declaração de amor, onde os concorrentes teriam de gastar o latim para impressionar a convidada VIP. Alguns optavam por palavras românticas, outros por abordagens mais cómicas.
Tomemos como exemplo este vídeo onde os concorrentes galantearam Alexandra Lencastre





O programa teve outras provas que com o avançar das temporadas foram descontinuadas, como a prova de canto, uma prova onde tinham de responder a perguntas das mulheres na assistência e uma prova de role-play onde tinham de interagir com as assistentes numa determinada situação.

Depois de mais um concorrente eliminado, os três finalistas seguiam para a dupla prova mais ansiada pelas cento e cinquenta juradas e pelas telespectadoras: primeiro, os candidatos subiam ao palco com um disfarce para fazerem um strip-tease e depois teriam de comparar o seu belo caparro com o do bodybuilder residente. O mais famoso foi o Ulisses  cujo vocabulário consistia apenas da palavra: "NÃO!" A personagem era desempenhada por Joaquim Guerreiro que desde então tem feito alguns trabalhos como actor, por exemplo nas telenovelas "Terra Mãe" e "Anjo Meu". Mas também houve por exemplo, o Hércules, encarnado por Victor Júnior (Viktor-Viktor), que curiosamente tinha participado previamente como concorrente, e que mais tarde entraria no primeiro Big Brother Famosos e que chegou a tentar a sua sorte como cantor.








Igualmente mítica era a personagem do Johnny Bigode, interpretada pelo saudoso António Feio. Johnny Bigode costumava interromper o programa com as suas pretensões de possível concorrente e ilusório conquistador de corações femininos, deixando para a histórias dois famosos bordões: "Eh, carapau!" e "Ariops!" 
À parte o Tony da "Conversa da Treta", foi a mais popular personagem interpretada por António Feio. Um dos autores destes sketches era um então ainda desconhecido Nuno Markl.

O vencedor de cada sessão ganhava mil contos em dinheiro (como se pode ver neste vídeo onde o concorrente João Véstia documenta o momento da sua vitória) e qualificava-se para a finalíssima da temporada, onde a convidada VIP era Teresa Guilherme. O vencedor absoluto da primeira temporada foi nada mais nada menos que Jorge Kapinha, que também viria a integrar os D'Arrasar. 

Além de Kapinha e de Jimmy, seu colega nos D'Arrasar, outros concorrentes que viriam a tornar-se posteriormente conhecidos do grande público foram Fernando Melão dos Excesso e Sérgio Vicente da segunda edição do Big Brother. 



Regra geral, as juradas tendiam a eleger aqueles que primassem mais por um palminho de cara e de corpo, mas recordo-me da sensacional vitória de Pedro Feio numa sessão da segunda temporada. Com cabelo desgrenhado, óculos de massa, um princípio de barriga e pelos do peito mal semeados, este concorrente fazia jus ao apelido mas acabou por cativar tudo e todas com o seu sentido de humor e talento musical, vencendo a sua sessão e chegando ao top 3 da finalíssima.

Mas o programa também tinha motivos para o público masculino regalar a vista, uma vez que entre as belas assistentes do programa estavam beldades como Marta Pereira, Sónia Antão, Mónica Sofia, Raquel Loureiro, Vera Deus, Adriana Iria e a britânica Joanne Iverson

Para terminar, de referir que uma sessão especial do programa com famosos foi para o ar durante a passagem de ano 1996/97. Entre esses destemidos VIP estavam Guilherme Leite, Camacho Costa, Nuno Graciano, Luís Esparteiro e Carlos Areia. 

No seu livro "Isso Agora Não Interessa Nada" de 2005, que reúne crónicas que ela escreveu para a TV Guia sobre os bastidores dos programas que apresentou e produziu, Teresa Guilherme conta um episódio tragicómico sobre um concorrente do "Ai Os Homens" que quase ia desta para melhor durante o programa devido ao seu orgulho de macho. 
Uma das perguntas que figurava no questionário de inscrição no programa que os candidatos a concorrentes era se eles sabiam nadar. Uma resposta negativa ditava a eliminação automática, porque a piscina do programa não tinha pé. Porém, cientes de que por vezes o ego masculino fala mais alto do que a voz do bom-senso, os elementos da produção voltavam a repetir essa pergunta aos concorrentes, desde os castings até aos momentos antes do provável banho forçado. E de vez em quando, alguns, vendo a profundidade da piscina, acabavam por admitir que as suas habilidades de nadador deixavam muito a desejar e desistiam.  
Porém, ao fim de tantos programas e tantas temporadas, a produção foi relaxando e confiando na palavra dos concorrentes. Até que certo dia… Conta a TG:

"Tinham acabado as provas livres. Estavam todos perfilados à beira da piscina e aguardavam o veredicto supremo das cento e cinquenta juízas. Era sempre um momento de grande tensão. Mas nem nós imaginávamos que para um dos dez a tensão era mais profunda que a piscina do estúdio.
Depois de todas as mulheres dizerem da sua justiça, as lindinhas (…) salvam com um beijo os preferidos da maioria da plateia e atiram para a piscina o que tem menos votos.
Cheio de ritmo, o José Figueiras apresenta desde logo a próxima prova. As meninas aplaudem e todos os olhos se fixam no palco que fica no lado oposto da piscina.
Nos bastidores, sigo atentamente tudo o que se passa dentro do estúdio, até que sinto alguém a puxar-me timidamente a manga. Era a senhora da limpeza: "Dona Teresa, a senhora desculpe, mas aquele rapaz que atiraram mesmo agora para dentro da piscina ainda não saiu!"
Sem parar a gravação, discretamente, fui até à beirinha da piscina preparada para dar um raspanete ao concorrente eliminado e perguntar-lhe se tinha vindo a banhos. Quando olhei para dentro de água, lá estava o rapaz todo vestidinho. Ora vinha à tona, ora ia ao fundo. Não foi difícil perceber que ele não estava armado em parvo, estava era armado em afogado. 
Esqueci-me por um momento que era a responsável máxima por aquela produção e gritei como grita qualquer mulher que vê uma pessoa a afogar-se: «ACUDAM QUE ELE AFOGA-SE!» Ora quando uma mulher grita com altivez, gritam logo duas ou três...ou cento e cinquenta.
Foi um verdadeiro pandemónio."   

Episódio do "Tudo Incluído" (2017):




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