domingo, 3 de novembro de 2019

Roque Santeiro (1985-86)

por Paulo Neto

Já falámos aqui no blogue de muitas telenovelas, mas surpreendentemente ainda não falámos desta que é sem dúvida uma das telenovelas mais lendárias de sempre e que foi um estrondoso sucesso tanto no Brasil como em Portugal.




Da autoria de Dias Gomes, o autor de "O Bem Amado", a história de "Roque Santeiro" começou com uma peça sua, "O Berço do Herói", escrita nos anos 60 e que foi proibida pela censura da ditadura militar brasileira. Em 1975, uma primeira versão da telenovela esteve quase a ser transmitida pela Globo, já com alguns capítulos gravados mas foi suspensa. Os censores federais terão escutado uma chamada telefónica do autor em que este admitia que a telenovela era uma nova versão da peça censurada, com algumas alterações. A telenovela só viria a se concretizar em 1985, precisamente no ano de transição da ditadura para a democracia no país-irmão. Em Portugal, "Roque Santeiro" foi exibido pela RTP entre 12 de Outubro de 1987 e 3 de Agosto de 1988.

Nesta nova versão, Dias Gomes contou com a ajuda de Aguinaldo Silva para concretizar o guião. Lima Duarte assumiu o mesmo papel que teria tido na primeira versão enquanto Regina Duarte e José Wilker assumiram os papéis do trio protagonista, que seriam interpretados na versão suspensa por Betty Faria e Francisco Cuoco.


Sinhôzinho Malta (Lima Duarte), Porcina (Regina Duarte)
e Roque Santeiro (José Wilker)

Asa Branca seria mais uma pequena cidade como tantas outras no Brasil profundo, não fosse um acontecimento de há dezassete anos que desencadeou o mito de Roque Santeiro. Luís Roque Duarte (José Wilker) era um simples artesão de arte sacra quando reza a lenda que terá salvado a cidade, sacrificando a sua vida para defendê-la do gangue do terrível bandido Navalhada (Oswaldo Loureiro). A partir daí, surgiram vários relatos de milagres relacionados com Roque Santeiro, como o de pessoas curadas de doença graças à lama do local onde teria sido encontrado o seu corpo. Com o passar dos anos, o suposto mártir ganhou um estatuto de divindade e a cidade passou a viver da exploração da sua imagem e das romarias de peregrinos vindos de todo o Brasil.
Os que mais lucraram com tudo disso foram o Sinhôzinho Francisco Malta (Lima Duarte), que embora deteste ser chamado de coronel, é o todo-poderoso da região, famoso pelo seu bordão "Tô certo ou tô errado?"; Porcina (Regina Duarte), a alegada viúva de Roque Santeiro, com quem afirma ter casado em segredo pouco antes da sua morte, que vive um estilo de vida opulento e exuberante bem como uma ligação amorosa e (pouco) secreta com Malta; Zé das Medalhas (Armando Bogus) o principal comerciante do merchandising relacionado com o santo, um homem pérfido e agressivo que mantém a sua esposa Lulu (Cássia Kiss), uma das pessoas curadas pelos ditos milagres, num regime de quase prisão dentro de casa; o Padre Hipólito (Paulo Gracindo), um pároco conservador que viu a sua paróquia ganhar riqueza e prestígio com as peregrinações; e o prefeito da cidade, Florindo Abelha (Ary Fontoura) que dentro de casa é mandado e desmandado pela sua esposa Pombinha (Eloísa Mafalda), uma beata retrógrada. Os Abelha têm uma filha, Mocinha (Lucinha Lins), que era a verdadeira amada de Roque e que manteve a sua devoção depois da morte dele, fazendo voto de castidade.

Mocinha (Lucinha Lins), Pombinha (Eloísa Mafalda) e Florindo Abelha (Ary Fontoura)

Zé das Medalhas (Armando Bógus)
e Lulu (Cássia Kiss)

Na actualidade e no auge da sua prosperidade, Asa Branca é agitada por vários acontecimentos. Um deles, é a inauguração da boîte Sexus, propriedade de Matilde (Yoná Magalhães), uma carioca protegida de Sinhôzinho Malta, que também explora a pousada local e que traz à cidade um grupo de vistosas bailarinas vindas do Rio de Janeiro, em especial a loura Rosaly (Ísis de Oliveira) e a morena Ninon (Cláudia Raia), para fúria de Pombinha Abelha, do Padre Hipólito e das outras beatas.

Rosaly (Ísis de Oliveira), Matilde (Yoná Magalhães)
e Ninon (Cláudia Raia)

Outro é o activismo de Albano (Cláudio Cavalcanti), o outro padre da cidade a quem chamam de padre comunista, que vive em conflito com o Padre Hipólito, devido às suas ideias progressistas e por acreditar que o mito de Roque Santeiro não passa de uma farsa, preferindo dedicar-se a ajudar os mais pobres. A sua causa ao pouco vai tendo mais adeptos, sobretudo Tânia (Lídia Brondi), a rebelde filha de Sinhôzinho Malta, com quem vive em tensão desde a morte da sua mãe. Albano e Tânia chegam a viver um romance, mas no fim ele decide renunciar ao amor e continuar no sacerdócio.
Padre Albano (Cláudio Cavalcanti) e Tânia Malta (Lídia Brondi)

Por fim, existe a chegada de uma equipa de filmagem para rodar um filme sobre a lenda de Roque Santeiro, que o realizador Gerson do Valle (Ewerton de Castro) espera que lhe dê prestígio, com os actores Roberto Mathias (Fábio Júnior) e Linda Bastos (Patrícia Pillar) nos papéis de Roque e Porcina. Roberto é preguiçoso e indisciplinado como profissional, mas tem um charme eficaz que vai fazer efeito em várias mulheres como Tânia, Lulu e até a própria Porcina.

Roberto Mathias (Fábio Júnior)

É neste cenário que chega a cidade um homem misterioso e sofisticado. Trata-se do verdadeiro Roque que afinal está bem vivo: na verdade, em vez de se sacrificar para salvar a cidade de Navalhada, viu na invasão a oportunidade para concretizar de fugir da cidade e ver o mundo, roubando o ostensório da igreja. Depois de ter enriquecido no estrangeiro, Roque regressou para devolver o valor do artefacto ao Padre Hipólito e para ajustar contas com o passado. À medida que Roque vai permanecendo na cidade e algumas personagens vão descobrindo a sua identidade, Sinhôzinho Malta e os seus aliados ficam cada vez mais alarmados pois se a verdade for descoberta, a cidade irá à falência. Após mandar tentar eliminar Roque, este ameaça Malta dizendo ter um dossier que denuncia toda a verdade e será publicado caso algo lhe aconteça. 
Para maior de desespero do "coronel", Roque e Porcina, que afinal nem sequer se conheciam antes, apaixonam-se um pelo outro. Antes disso, Roque ainda aceita que Mocinha finalmente se entregue a ele, mas isso só contribuirá mais para o desequilíbrio mental dela.

Na recta final da telenovela, Navalhada regressa a Asa Branca para um ajuste final de contas com Roque Santeiro. Embora seja Sinhôzinho Malta quem, escondido, atinge de morte o bandido, Roque Santeiro convence-se que foi ele quem o matou  e decide fugir de helicóptero, pedindo a Porcina que venha com ele. Mas no último momento, Porcina decide antes ficar com Malta. E com a descoberta do corpo de Navalhada, o mito de Roque Santeiro continuará... Quanto a Zé das Medalhas, cada vez mais louco e com Lulu finalmente ganhando coragem para o abandonar, põe uma máquina a funcionar sem parar e morre afogado nas medalhas que a máquina vai fabricando.

Professor Astromar Junqueira (Rui Resende)

É também no último episódio que é revelado outro mistério, o de um lobisomem que dizem que vagueia pela cidade todas as noites de lua cheia, confirmando-se o principal suspeito: o sinistro Professor Astromar Junqueira (Rui Resende). Habitual frequentador da casa dos Abelha, em parte devido à sua paixoneta por Mocinha, o professor tinha como hábito perguntar antes de entrar: "Posso penetrar?"

Jeremias (Arnaud Rodrigues) e Jiló (João Carlos Cardoso)
Mina (Ilva Niño)

Outras personagens inesquecíveis são Jiló (João Carlos Cardoso), um ex-peão que se torna o guia turístico oficial dos peregrinos; João Ligeiro (Maurício Mattar), meio-irmão de Roque e vaqueiro nas propriedades de Sinhôzinho Malta que vive um romance com a criada Dondinha (Cristina Galvão); Luizão (Alexandre Frota), o operador de câmara do filme que se envolve com Matilde; Marilda (Elizângela) a tumultuosa esposa de Roberto Mathias que tem um breve affair com Sinhôzinho Malta; Marcelina (Wanda Kosmo) sogra de Malta e principal apoio da neta Tânia; Tito França (Luiz Armando Queiroz), o ciumento marido e agente de Linda; o Delegado Feijó (Maurício do Valle) cujo pequeno papel que consegue no filme alimenta o seu sonho de ser actor e que se disfarça de lobisomem para seduzir Ninon, sabendo do fascínio desta pela criatura; o cego Jeremias (Arnaud Rodrigues) que vive de cantar na rua para os turistas; e sobretudo Mina (Ilva Niño), a sofredora mas fiel criada de Porcina, a qual chama por ela sempre aos gritos: "MINAAAAAAAA!".

Com um enredo com doses equilibradas de humor, drama e fantasia, e uma mordaz sátira à exploração política e comercial da fé popular (não faltou quem em Portugal comparasse Asa Branca a Fátima), "Roque Santeiro" foi um sucesso em toda a linha e para a maioria do elenco, foi o auge ou pelo menos um pico das suas carreiras. 

Um dos discos da banda sonora com Regina Duarte na capa

Entre os produtos de merchandising da novela, destaque para uma colecção de calendários, uma caderneta de cromos e dois álbuns com canções da banda sonora. Aliás foram muitas as canções da telenovela que fizeram sucesso por cá durante a exibição da telenovela como o tema de abertura "Santa Fé" de Moraes Moreira, "De Volta Para O Aconchego" de Elba Ramalho, "Sem Pecado e Sem Juízo" de Baby Consuelo, "Dona" dos Roupa Nova, "Roque Santeiro" de Sá & Guarabyra, "Chora Coração" de Wando, "Coração Aprendiz" de Fáfá de Belém, "Indecente" de Anne Duá e o arrepiante "Mistérios da Meia-Noite" de Zé Ramalho que ilustrava as cenas do lobisomem.
No Brasil, é das poucas telenovelas a terem sido editadas em DVD, numa edição de 2010 com 16 discos.

Regina Duarte e Lima Duarte de novo como Porcina e Malta
no programa "Com Pés E Cabeça" 

Por alturas do Carnaval de 1988, Lima Duarte e Regina Duarte deslocaram-se a Portugal onde além de participarem nos festejos do Entrudo na Mealhada, estiveram em Lisboa e no Porto. Os dois chegaram a vestir as suas personagens de Porcina e Sinhôzinho Malta para um sketch inédito no programa "Com Pés e Cabeça".
Em 1993, a SIC repôs a telenovela na rubrica "Vale A Pena Ver De Novo".

Genérico de abertura:



Comparação do elenco entre a novela de 1985 e a versão censurada de 1975:


Cena divertida entre Porcina e Malta:


O final alternativo em que Porcina parte com Roque:


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