Se vocês são da minha idade, à primeira impressão 1992 não parece um ano assim tão distante. Mas a verdade é que já passaram trinta anos desde 1992. Sim, pessoas nascidas em 1992 já são trintonas! Em 2022, estamos mais longe de ano de 1992 do que por exemplo, estávamos em 1992 de 1969, o ano da chegada do Homem à Lua.
Em 1992, eu completei uma dúzia de anos de vida e vivia a pré-adolescência em todos os altos e os baixos (sobretudo os baixos, já que foi nessa altura que mais sofri com o bullying na escola). Mas claro que tive momentos bons e, apesar de na altura eu ainda não ter desenvolvido os meus gostos e conhecimentos musicais e cinematográficos, foi um ano com os seus pontos marcantes na cultura pop. Por isso, hoje recuamos trinta anos e vamos recordar algumas coisas do ano de 1992.
Portugal presidiu pela primeira vez à União Europeia Entre 1 de Janeiro e 30 de Junho, Portugal assumiu pela primeira vez a presidência rotativa da União Europeia, na altura ainda denominada Comunidade Económica Europeia. Até agora, Portugal assumiu esse papel semestral mais três vezes, de Janeiro a Junho de 2000 e 2021 e de Julho a Dezembro de 2007. Esta primeira presidência europeia de Portugal teve como sede o Centro Cultural de Belém.
O Centro Cultural de Belém sediou a primeira presidência de Portugal da UE em 1992
Aliás foi esse o ano em que a CEE deu grandes passos a tornar-se cada vez mais uma federação europeia, com uma unidade monetária comum e maior mobilidade de pessoas e mercadorias entre os países-membros com o famigerado Tratado de Maastricht.
Profundas transformações na Europa Mais a Leste, a Europa passava por profundas transformações. A União Soviética colapsara no final de 1991 e doze das suas quinze ex-repúblicas (Estónia, Letónia e Lituânia já tinham obtido a independência anteriormente) tornaram-se estados independentes. Enquanto estes tentavam alicerçar a sua autonomia, foi criada a Comunidade de Estados Independentes para um auxílio mútuo, designação essa que também foi utilizada para fins desportivos, como por exemplo no Europeu de Futebol e nos Jogos Olímpicos de Verão e Inverno, enquanto alguns desses novos países não tinham as suas próprias federações desportivas.
Conflitos sangrentos na ex-Jugoslávia
Também a República Socialista Federal da Jugoslávia se desmembrara nos anos anteriores com Eslovénia, Croácia, Macedónia e Bósnia-Herzegovina a declararem independência, enquanto o território composto por Sérvia e Montenegro manteve a denominação de Jugoslávia até 2003. Mas se a Macedónia conquistou a independência sem sangue derramado e os conflitos na Eslovénia foram breves, na Croácia e sobretudo na Bósnia-Herzegovina travou-se uma guerra violenta que se arrastaria pelos três anos seguintes. Devido às agressões do governo de Belgrado no conflito, a 30 de Maio de 1992 a ONU instaurou um embargo banindo todas as transições económicas, científicas, culturais e desportivas com a República Federal da Jugoslávia que duraria até 1995, com novas sanções instauradas em 1998 durante o conflito no Kosovo.
O assassinato de Daniella Perez chocou o Brasil A 28 de Dezembro de 1992, a actriz brasileira Daniella Perez foi brutalmente apunhalada até à morte. A actriz fazia então parte da telenovela "De Corpo E Alma", que estava a ser exibida na Rede Globo e na SIC. Depois de "Barriga de Aluguer" e "O Dono Do Mundo", Perez, de 22 anos e casada com o actor Raúl Gazzola, entrava agora numa telenovela da autoria da sua mãe, Glória Perez, no papel de Yasmin, irmã da protagonista Paloma (Cristiana Oliveira). Mas ao choque da sua morte sucedeu-se o da descoberta que o autor do crime era o actor Guilherme de Pádua, que fazia para romântico com Perez na telenovela, com a cumplicidade da esposa deste, Paula Thomaz. O assassinato de Daniella Perez chocou de tal forma o país irmão que ofuscou o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello. Uma vez que a telenovela estava a ser exibida e sendo a Rede Globo um dos seu accionistas, a SIC também fez uma cobertura do caso. A Rede Globo nunca mais repôs a telenovela "De Corpo E Alma" mas a SIC reexibiu-a em 1997. Guilherme de Pádua e Paula Thomaz foram condenados a 19 anos de prisão mas só cumpriram seis anos da pena em regime fechado. Pádua é agora pastor evangélico.
Daniella Perez (1970-1992)
Também foi em 1992 que nos despedimos do Capitão Salgueiro Maia, um dos principais rostos da Revolução do 25 de Abril, do autor Isaac Azimov, dos actores Dick York ("Casei Com Uma Feiticeira") e Anthony Perkins ("Psico"), do comediante Benny Hill, da lenda do cinema Marlene Dietrich, da pintora portuguesa Maria Helena Vieira da Silva e de Branca Santos, a famigerada Dona Branca.
Nasceram várias estrelas Mas foi neste ano que nasceram várias estrelas. No futebol, o astro brasileiro Neymar e o dinamarquês Christian Eriksen. Os actores Freddie Highmore (de "Charlie E A Fábrica de Chocolate" e da série "The Good Doctor"), Taylor Lautner (o Jacob da saga "Crepúsculo"), Logan Lerman ("Percy Jackson" e "As Vantagens De Ser Invisível"), Ezra Miller ("Temos de Falar Sobre Kevin" e também de "As Vantagens De Ser Invisível") e dos novos tomos de "A Guerra Das Estrelas", Daisy Ridley e John Boyega. Na música, Sam Smith, Nick Jonas, a rapper Cardi B e as ex-estrelas da Disney Miley Cyrus, Demi Lovato e Selena Gomez. E ainda no desporto, a jamaicana Elaine Thompson, pluricampeã olímpica do atletismo.
Made in 1992: Demi Lovato, Selena Gomez e Miley Cyrus
A tragédia do voo 495 Martinair no Aeroporto de Faro A nível nacional, a maior tragédia de 1992 aconteceu a 21 de Dezembro quando um avião da companhia holandesa Martinair, partindo de Amesterdão, se despenhou na pista 11 do Aeroporto de Faro. Apanhado nas más condições atmosféricas, com uma tempestade e túneis de vento, e com visibilidade quase nula, o avião DC-10 aterrou violentamente na pista. O impacto fez o avião partir em dois e causou uma explosão no tanque de combustível da asa direita.
Das mais de trezentas pessoas a bordo, 56 faleceram (incluindo dois tripulantes) e 106 ficaram gravemente feridas. A rápida intervenção dos serviços de emergência ajudou a minorar o número de vítimas.
A tragédia do voo Martinair 495 foi tema de conversa e notícia para muitos dias, não só em Portugal como nos Países Baixos, de onde era proveniente o avião, e que meses antes fora palco de outro acidente de aviação. E para muitos algarvios, foi a primeira vez que viriam um desastre de tamanhas dimensões ali tão perto, como foi o caso do David Martins, que morava a poucos quilómetros e se lembrava de ver ao longe dos destroços.
O início do futebol moderno 1992 é visto como o primeiro ano do futebol moderno. Entre os vários motivos para tal, destacam-se dois.
Na época 1992/93, a Taça dos Campeões Europeus deu lugar à Liga do Campeões. Contratado pela UEFA, o empresário alemão Klaus Hempel reinventou a competição, concentrando todos os direitos de transmissão de jogos e os patrocinadores sob a sua alçada e fixando os horários das partidas. Como tal, as receitas subiram vertiginosamente: se em 1992, as receitas das transmissões televisivas foram de 85 mil francos suíços, em 2002, já ascendiam a mil milhões! Já na época 1991-92, a Taça dos Campeões Europeus tinha sofrido uma grande mudança, introduzindo uma fase de grupos em que as oito equipas que chegavam aos quartos de final foram divididas em dois grupos de quatro, cujos vencedores se apurariam para a grande final. Como tal, as principais equipas europeias disputavam agora mais jogos. O Benfica foi uma das oito equipas dessa primeira era com dois grupos, ficando em terceiro lugar no grupo que apurou o Barcelona para a final no Estádio de Wembley em que bateu a Sampdoria. Já a final da Taça das Taças foi disputada no Estádio da Luz com o Werder Bremen a vencer o Mónaco enquanto o Ajax conquistou a Taça UEFA.
Desde então a Liga dos Campeões passou por várias transformações, mas o inconfundível tema composto por Tony Britton (inspirado na ária utilizada na coroação dos monarcas britânicos) mantém-se o mesmo.
Pela mesma altura, após mais de uma década marcada por hooliganismo, infraestruturas em ruínas e parcos dividendos, a liga inglesa sofreu uma profunda transformação. Os principais clubes ingleses chegaram a um lucrativo acordo de transmissões televisivas com a Sky Sports, que ao jeito americano, transformou os jogos muito além das partidas disputadas, com debates e análises de jogo. Para a promoção da nova Premiere League, a Sky Sports levou a cargo uma campanha utilizando o hit dos Simple Minds "Alive And Kicking". Nos anos seguintes, o futebol inglês tornou-se uma marca importante, melhorando os estádios e atraindo jogadores de outros países e outros países europeus não tardaram a seguir o exemplo. O Manchester United seria o campeão da época inaugural da Premier League (1992-93).
Em Portugal, o FC Porto ganhou o Campeonato e o Boavista a Taça de Portugal.
O milagre dinamarquês no Euro 1992
1992 foi também ano de Europeu de Futebol, que resultaria numa das maiores surpresas da história do torneio. Além da Suécia, o país anfitrião, apuraram-se a então campeã mundial Alemanha, os Países Baixos detentores do título (e que mediram forças com Portugal na qualificação), a Inglaterra, a Escócia, a França (o único grande torneio de selecções em que Eric Cantona jogou), a recém-dissolvida União Soviética sob o nome de Comunidade Estados Independentes e a Dinamarca, em substituição da Jugoslávia, impedida de disputar a prova devido ao embargo das Nações Unidas.
E não é que foi a Dinamarca a levantar o caneco? Após uma fase de grupos morna, com um empate face à Inglaterra, uma derrota com a Suécia e assegurando as meias-finais após vitória contra a França, os dinamarqueses empataram com holandeses na semifinal, onde uma defesa de Peter Schmeichel ao remate de Marco Van Basten nos penáltis os colocou na final de Gotemburgo, onde bateram a Alemanha por 2-0 para espanto global.
De eliminados a campeões europeus
Rezou a lenda que quando se soube que a Dinamarca iria disputar o Europeu em vez da Jugoslávia, muitos dos jogadores já estavam a gozar as férias, mas consta que afinal não foi bem assim e que a federação dinamarquesa estava preparada para essa eventualidade.
Santos da Península não fizeram milagres nos Jogos Olímpicos 1992 foi ano de Jogos Olímpicos, o último a ter em simultâneo Jogos de Inverno e de Verão.
Os Jogos Olímpicos de Inverno decorreram de 8 a 23 de Fevereiro na localidade francesa de Albertville, com a participação de 1801 atletas de 64 países (Portugal não participou). Pela primeira vez, houve provas de patinagem de velocidade em pista curta, de esqui freestyle (moguls) e biatlo feminino. Também houve provas de demonstração de curling, ballet em esqui e esqui de velocidade, ficando estas infelizmente manchadas pela morte do atleta suíço Nicolas Bochatay ao colidir com um veículo gerador de neve durante um treino. Pela primeira vez, a China, a Coreia do Sul e a Nova Zelândia ganharam medalhas em Jogos Olímpicos de Inverno e a esquiadora Blanca Fernandez Ochoa foi a primeira mulher espanhola a conquistar uma medalha olímpica (Verão ou Inverno).
Barcelona acolheu os primeiros Jogos Olímpicos disputados na Península Ibérica, que tiveram lugar de 25 Julho a 9 e Agosto. Mais de 9300 atletas de 169 países competiram em 25 desportos, incluindo pela primeira vez o basebol, o badmington e o judo feminino. A África do Sul participou pela primeira vez desde 1960, após décadas de exclusão devido ao regime de apartheid, a Alemanha competiu unificada pela primeira vez desde 1964, as antigas repúblicas da União Soviética competiram como uma única equipa sob a bandeira olímpica (excepto Estónia, Letónia e Lituânia que competiram novamente como países independentes). Croácia, Eslovénia e Bósnia-Herzegovina participaram como países independentes enquanto os atletas das restantes repúblicas ex-jugoslavas (Sérvia, Montenegro e Macedónia) competiram como atletas neutros.
Entre os principais feitos, destaque para a Dream Team americana de basquetebol, composta por estrelas da NBA como Michael Jordan e Magic Johnson, que dominaram como quiseram; para o ginasta bielorrusso Vitaly Scherbo que obteve seis medalhas de ouro e para as as vitórias do britânico Linford Christie nos 100m, do americano Kevin Young nos 400m barreiras, da argelina Hassiba Boulmerka nos 1500m e do russo Alexander Popov nos 50 e 100m livres da natação.
Entre os momentos mais dramáticos, houve a determinação do britânico Derek Redmond em querer acabar a sua corrida apesar da lesão, apoiado pelo seu pai que desceu da bancada até à pista, e o infortúnio da nadadora sincronizada canadiana Sylvie Fréchette, prejudicada por um acidental erro de pontuação de uma juíza brasileira.
Galvanizada pelo factor casa, Espanha alcançou 22 medalhas, incluindo 13 de ouro, de longe o melhor medalheiro olímpico de nuestros hermanos.
Já Portugal, apesar de levar a maior delegação de sempre com mais de 100 atletas, saiu de Barcelona sem medalhas. Nem sequer a equipa do hóquei em patins, que era modalidade de demonstração, foi além do quarto lugar. Os melhores resultados portugueses foram o sexto lugar do canoísta José Garcia e o sétimo de Manuela Machado na maratona (lesionada, Rosa Mota não pôde defender o título olímpico e ficou em Portugal).
Ano dourado do rock em Portugal
Em Portugal, dois discos dominam as atenções. "Palavras Ao Vento", lançado mesmo no final de 1991, marcou a estreia dos Resistência, um verdadeiro projecto all-star com nomes como Miguel Ângelo, Tim, Olavo Bilac, Pedro Ayres Magalhães ou Fernando Cunha, e rapidamente foi campeão de vendas graças aos seus dois hits, dando uma nova roupagem a "Nasce Selvagem" dos Delfins e "Não Sou O Único" dos Xutos & Pontapés. Aproveitando o momento, ainda em 1992 sairia o segundo álbum "Mano A Mano", destacando-se a versão de "A Noite" dos Sitiados.
Mas o disco nacional do ano é "Rock In Rio Douro" dos GNR. O Grupo Novo Rock de Rui Reininho e companhia já vinha somando vários hits e álbuns memoráveis, mas foi este álbum elevou-os a um novo nível de sucesso, sendo então um dos raros discos a atingir quatro vezes platina. Temas como "Sangue Oculto", em colaboração com Javier Andreu da banda espanhola La Frontera, "Pronúncia Do Norte" com Reininho em dueto com Isabel Silvestre, "Sub-16" e "Ana Lee" rapidamente andaram na boca de toda a gente e a 10 de Outubro, os GNR tocaram no Estádio de Alvalade para 40 mil pessoas, na altura a maior audiência de sempre num concerto de uma banda portuguesa.
Mas 1992 foi também o ano de outros grandes hits nacionais como "Vida De Marinheiro" dos Sitiados, "Easy Come & Go" dos Joker, "Tudo Ou Nada" dos Zero (um projecto spin-off dos Ban) e "Chuva Dissolvente" dos Xutos & Pontapés.
Mais grande música
1992 viu também surgir álbuns marcantes como aquele que é o meu álbum preferido de sempre: "Automatic For The People" dos R.E.M. Mas também saíram discos seminais como "Fear Of The Dark" dos Iron Maiden, "Keep The Faith" dos Bon Jovi, "Adrenalize" dos Deff Leppard, "Diva" de Annie Lennox, "Seven" dos James, "Hormonally Yours" das Shakespear's Sister, "Funky Divas" das En Vogue, "Kerplunk" de Green Day, "Dirty" dos Sonic Youth, "Bigger! Better! Faster! More!" dos 4 Non Blondes e "Love Deluxe" de Sade.
E nas pistas de dança bombaram forte "It's My Life" de Dr. Alban, "Rhythm Is A Dancer" dos Snap!, "Please Don't Go" dos Double You e "I Love Your Smile" de Shanice, e os grandes êxitos dos ABBA foram reavivados graças ao EP "Abba-Esque" dos Erasure e à compilação "ABBA Gold".
Madonna mais "Erotica" que nunca Quem também tem teve álbum novo em 1992 foi Madonna. A rainha da pop nunca se fez rogada em imprimir boas doses de sensualidade e sexualidade nos seus opus, mas o lançamento simultâneo do álbum "Erotica" e do livro "Sex" demonstravam Madonna no seu mais explícito até então. Até mesmo hoje, alguns dos ensaios de "Sex", como a famosa fotografia de Madonna nua a pedir boleia na estrada, seriam considerados demasiados ousados para uma estrela de topo. (Isto para não falar em várias outras imagens onde ela podia ser vista em cenas sadomasoquistas e em poses sensuais com várias pessoas, incluindo celebridades como Naomi Campbell, Isabella Rossellini e Vanilla Ice.)
Mas apesar das boas vendas de "Erotica" e de "Sex" ter esgotado rapidamente o milhão e meio de exemplares da sua única edição, este período foi marcado por uma enorme animosidade da opinião pública por Madonna, recebendo duras críticas de vários quadrantes desde os habituais grupos ultrahipócritasconservadores a líderes feministas como Camille Paglia.
Será que Madonna tinha mesmo ido longe demais e agora não passava uma estrela desvairada que só queria chocar? O tempo viria mostrar que não era bem assim, e que este marco de Madonna contribuiria não só para que outras artistas de vários ramos explorassem mais livremente a sua sensualidade na sua obra como para abrir mentalidades.
Regressos de Batman, do Alien e de Kevin McAllister ao cinema
No cinema, filmes para todos os gostos. Michael Keaton voltou a ser o Homem-Morcego às voltas com uma Michelle Pfeiffer Catwoman e um Danny DeVito Pinguin em "Batman Regressa"; Macaulay Culkin voltou a enfrentar os Wet Bandits em "Sozinho Em Casa 2: Perdido em Nova Iorque"; as sagas "Alien" e "Arma Mortífera" chegaram ao terceiro tomo; Jack Nicholson achou que não aguentaríamos a verdade em "Uma Questão De Honra"; Francis Ford Coppola ressuscitou "Drácula"; Richard Gere e Kim Basinger cederam aos "Desejos Finais"; Whoopi Goldberg mudou-se "Do Cabaret Para O Convento"; Geena Davis e Madonna jogaram na "Liga De Mulheres", "Beethoven" deu um recital de gargalhadas e amaremos sempre Whitney Houston e Kevin Costner em "O Guarda-Costas". Para não falar que também em 1992 saíram "Aladino", "Imperdoável", "Horizonte Longínquo", "A Morte Fica-vos Tão Bem", "A Mão Que Embala O Berço", "Regresso A Howard's End", "Perfume De Mulher", "Chaplin", "Jovem Procura Companheira", "Querida, Ampliei O Miúdo" e, em Portugal, "Aqui D'El Rei", "O Dia Do Desespero", "Vertigem" e "Retrato de Família".
A viagem do Lusitânia Expresso para alertar o mundo contra a luta do povo timorense As imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz em Dili em Novembro de 1991 chocaram Portugal e gerou uma onda de revolta contra a opressão do governo da Indonésia, que desde 1975 ocupara a ex-colónia portuguesa. Porém, esse acontecimento não teve grande repercussão no resto do mundo.
No início de 1992, a equipa da revista Fórum Estudante teve a ideia de viajar até Timor no ferryboat Lusitânia Expresso para depositar uma coroa de flores no cemitério de Santa Cruz e alertar os media internacionais sobre a luta do povo timorense pela liberdade e contra o jugo da Indonésia.
Com o apoio do governo e donativos de várias empresas e cidadãos anónimos, o projecto ganhou forma e no dia 6 de Março, após várias conferências na Austrália, mais de 120 pessoas de 23 países embarcaram no Lusitânia Expresso a partir de Darwin. Eram na grande maioria estudantes, mas também jornalistas como José Rodrigues dos Santos para a RTP e o ex-Presidente Ramalho Eanes.
Mas ao entrar nas águas territoriais de Timor, o barco foi cercado por quatro navios de guerra indonésios e vários aviões militares, sendo impedido de continuar a viagem. Como tal, a homenagem das vítimas de Santa Cruz foi feita no barco e a coroa de flores foi lançada ao mar.
Pot-pourri de outros acontecimentos de 1992
- Bill Clinton foi eleito presidente dos Estados Unidos impedindo a reeleição de George W.H. Bush.
- A Disneyland Paris é aberta ao público a 29 de Abril.
- A Rainha Isabel II completou 40 anos de reinado mas uma sucessão de acontecimentos embaraçosos para a coroa britânica (o divórcio da Princesa Ana, a separação do Príncipe André e de Sarah Ferguson, fotos desta em topless com outro homem, o lançamento do livro sobre a Princesa Diana que revelava os problemas do seu casamento com o Príncipe Carlos e detalhes do relacionamento deste com Camilla Parker-Bowles, um incêndio no Castelo de Windsor) fez com que a monarca definisse 1992 como um "annus horribilis".
- A Irlanda venceu o Festival da Eurovisão em Malmö na Suécia com tema "Why Me" interpretado por Linda Martin e escrito por Johnny Logan, vencedor do certame em 1980 e 1987. Portugal ficou em 17.º com o "Amor de Água Fresca" de Dina.
- Aos 18 anos, Marisa Cruz é eleita Miss Portugal. A namibiana Michelle McLean é coroada Miss Universo e a russa Yulia Kurotchkina é eleita Miss Mundo.
- A cidade de Los Angeles foi palco de seis dias de motins após a absolvição dos quatro polícias que agrediram Rodney King, causando 63 mortos e mais de mil milhões de dólares em prejuízos. - Apanhado num escândalo de corrupção, o Presidente do Brasil Fernando Collor de Mello abdicou do cargo a 29 de Dezembro. - A Super Nintendo chega finalmente à Europa e são lançados jogos de antologia como "Sonic 2", "Super Mario Kart" e "Ecco The Dolphin". - Estrearam séries como "Picket Fences", "Doido Por Ti", "Melrose Place", "Absolutamente Fabulosas" e "California Dreams". A MTV estreou "The Real World", considerado o percursor do "Big Brother", e na animação, surgiu a "Sailor Moon". É também lançado o Cartoon Network.
RTP preparando ventos de mudança
Muito provavelmente já a pensar em se precaver face ao início das televisões privadas, foi em 1992 que a RTP estreou programas marcantes como "Isto Só Video", "Parabéns", "Marina Marina", "Apanhados", "Olha Que Dois!!" e "Sons De Sol". Estrearam também as telenovelas "Meu Bem, Meu Mal", "Pedra Sobre Pedra", "Barriga De Aluguer" e a portuguesa "Cinzas".
A 14 de Setembro, a RTP2 foi renomeada TV2, apresentando uma programação especialmente focada na cultura e no desporto.
E a 10 de Junho, foi lançada a RTP Internacional via satélite para chegar às comunidades portuguesas em todo o mundo.
"A sua televisão independente SIC, SIC, SIC..." Mas 1992 em Portugal é marcado pelo fim do monopólio televisivo da RTP. Projectos para estações de televisão privada em Portugal remontam ao final dos anos 70, mas só com a alteração em 1989 a uma lei da Constituição que limitava as licenças de televisão ao sector público é que esses projectos podiam ser viabilizados. A 6 de Fevereiro, o Governo de Cavaco Silva atribuiu as duas licenças para emissão de televisão privada à Sociedade Independente de Comunicação (SIC) e à Televisão Independente (TVI). De fora ficou o projecto TV1 liderado por Daniel Proença de Carvalho.
Liderada por Francisco Pinto Balsemão, ex-Primeiro Ministro de Portugal entre 1981 e 1983, a SIC tinha como principais accionistas a TV Globo, Expresso, Lusomundo, Grupo Impala, Costa do Castelo Filmes, Interpress e a seguradora Império e instalou o seu centro de emissões em Carnaxide, onde ficaria até à mudança em 2019 para Paço D'Arcos.
Com as emissões da TVI previstas para se iniciarem em 1993, coube à SIC a honra de quebrar o monopólio televisivo de 35 anos da RTP. No dia 6 de Outubro às 16:30, a SIC arrancou as suas emissões com um bloco informativo conduzido por Alberta Marques Fernandes, que ficaria para a posterioridade como a primeira cara da televisão privada portuguesa.
De entre a programação dos primeiro três meses da SIC, destacam-se programas informativos como "Praça Pública", o magazine desportivo "Portugal Radical", o concurso "Encontros Imediatos", a já referida telenovela "De Corpo E Alma", emissões da MTV, a série nacional "A Viúva Do Enforcado", séries internacionais como "Cuidado Com As Aparências", "Justiça Negra", "Cosby Show" e "Raven" e sobretudo o célebre concurso italiano "Il Colpo Grosso", que teve o título português de "Água Na Boca".
Durante os seus primórdios, a SIC voou baixinho sem levantar muitas ondas para o domínio da RTP. Mas gradualmente, a SIC soube corresponder aos desejos de mudança que o país não sabia que queria e os portugueses foram se deixando conquistar por esse admirável mundo novo audiovisual e em menos de três anos atingiria a liderança. Uma ascensão que seria caso de estudo em toda a Europa. Guardo muitas boas memórias destes primeiros anos da SIC e tenho muito pena na dificuldade de rever na SIC actual o espírito inovador da sua génese.
Que outras memórias e acontecimentos de 1992 que não foram mencionados neste texto é que se recordam? Contem nos comentários!
Depois da telenovela "Palavras Cruzadas", a produtora Atlântida decidiu que estava na altura de dar um passo em frente na ficção nacional e criar uma série de acção, inspirada por sucessos como "Miami Vice"; pelo menos dentro dos meios possíveis no Portugal dos anos 80, onde ainda tudo andava a uma velocidade bem menos vertiginosa. Felizmente, existia em Portugal um lugar que emanava um forte misticismo veraneante: Troia, com os seus aldeamentos turísticos, como os já extintos complexos da Torralta e do J. Pimenta, e o seu ponto de encontro entre o rio Sado e o Oceano Atlântico, era local de romaria de férias para muita gente vinda de todo país e até alguns estrangeiros, e parecia o sítio ideal para aí se inventar uma Miami portuguesa.
E foi assim que surgiu a série "Homens Da Segurança", cujos 13 episódios foram exibidos na RTP1 entre Julho e Outubro de 1988 nas noites de sábado. Além de recuperarem os cargos de respectivamente produtor e realizador, tal como em "Palavras Cruzadas", Tozé Martinho e Nicolau Breyner protagonizavam a série no papel de dois agentes de uma empresa se segurança que formam uma dupla intrépida no combate ao crime em Troia e arredores. Foi também a estreia do autor Manuel Arouca em escrita para televisão.
Carlos Jorge ou "Cajó" (Breyner) é um ex-agente da Polícia Judiciária, sem papas na língua e com pelo na venta. Filipe Sarmento (Martinho) é mais sofisticado e os seus jeitos de sedutor não são indiferentes ao sexo feminino. Os dois trabalham na mesma empresa mas não se conheciam e, claro está, a primeira impressão é uma antipatia mútua com os diferentes feitios, mas rapidamente descobrem que se complementam como dupla e acabam por ficar amigos. Os dois são contratados por Tomás Mendonça (Baptista Fernandes), dono de um hotel e ex-sogro de Filipe, para proteger os clientes de uma crescente onda de criminalidade, uma decisão que não agrada muito a Vítor Mesquita (Henrique Santana), o empertigado sub-director e relações públicas do hotel, que acha a ideia uma "americanice". Entre um e outro affair, Filipe vai-se encantando com Luísa (Manuela Marle), a funcionária do rent-a-car do hotel.
Outros empregados do hotel são Catarina (Cristina Homem De Melo), a recepcionista; Irene (Noémia Costa), telefonista; Quim (Carlos Areia), barman; Cecília (Filipa Cabaço), empregada de quarto; e Toni (Ivan) um rapaz órfão que faz uns trabalhos de paquete no hotel. Geralmente no seu trabalho, Cajó e Filipe cruzam-se com o do inspector da PJ Humberto Fernandes (Morais e Castro) e do seu assistente Pais (Licínio França), com quem costumam ter vários desentendimentos. De referir ainda que Mafalda Bessa, que em 2006 viria a casar-se com Nicolau Breyner, teve um pequeno papel na série como Paula, a outra funcionária do rent-a-car, creditada como Mafalda Amorim. Este foi também o último trabalho em televisão da actriz Filipa Cabaço, célebre pelo seu papel de Ana do Mar em "Chuva Na Areia", que viria depois a deixar a representação.
A série teve algumas particularidades então ainda pouco vistas na ficção nacional como a participação de vários actores estrangeiros e de haver bastante diálogos da série em inglês. A série também teve participações especiais de nomes como o treinador de futebol Luís Norton de Matos e da sua então esposa Xana, que eram um casal socialite da altura, Luís Esparteiro, Cila do Carmo, António Feio, Carlos Quintas, Felipa Garnel, Tareka, Linda Silva, Rogério Paulo, Filomena Gonçalves, Rui Luís, Luís Aleluia, Rita Ribeiro e Ruy de Carvalho. Os filhos de Tozé Martinho, António e Rita Martinho, também entraram na série, inclusivamente com Rita no papel de Marta, filha de Filipe.
Houve dois episódios que quando eu vi na altura se destacaram para mim: um em que Filipe e Cajó acabam a proteger uma inglesa que fugiu com a filha do marido que as maltratava (sobretudo a cena em que ela mostra as costas da miúda cheias de nódoas negras) e outro em que Felipa Garnel é uma bandida portuguesa que se faz passar por americana para seduzir um empresário árabe, interpretado por Carlos Quintas. A página do Facebook do Brinca Brincando (a quem vai um enésimo agradecimento pelas imagens aqui utilizadas) tem um vídeo da cena em que a loura Cristina/Kim tenta matar o árabe após uns momentos de paixão, sendo detida com uma bala certeira de Filipe numa lancha!
Apesar de acusar os sinais que é de um tempo em que os meios eram menos e tudo andava a uma velocidade bem menor, como o genérico de um minuto e meio e vários planos meio supérfluos de personagens a andarem por corredores e algo assim, a verdade é que "Homens De Segurança" ainda vê bem. Nicolau Breyner e Tozé Martinho tinham boa química como o Crockett e o Tubbs portugueses e era divertido vê-los a combater o crime por essa Troia fora, de corrida, de lancha ou conduzindo um bem português jipe UMM!
A série está disponível para visualização na RTP Arquivos e alguns episódios estão no YouTube.
Por entre as telenovelas brasileiras exibidas em Portugal que ainda não tinham entrada na Enciclopédia de Cromos, esta é sem dúvida daquelas que há mais tempo merecia um artigo. "Guerra Dos Sexos" era uma telenovela de autoria de Sílvio de Abreu exibida originalmente no Brasil entre Junho de 1983 e Janeiro de 1984.
Em Portugal, foi a primeira telenovela a ser exibida na RTP 2 a partir de 23 de Abril de 1984 (embora o primeiro capítulo tenha sido exibido em antestreia a 9 de Março na RTP1), numa altura em que a telenovela "O Bem Amado" que, anunciada desde os tempos de "Gabriela", era finalmente exibida no horário nobre da RTP1. Não faltaram protestos do público por causa dessa decisão e a RTP até equacionou abrir as emissões da RTP1 mais cedo (que na altura abria apenas às 17 horas nos dias de semana) para exibir o capítulo do dia anterior, mas devido à crise financeira que o país atravessava na altura que levou, entre outros cortes na despesa pública, a encurtar as emissões da RTP, o governo negou essa hipótese. Em 1996, foi reposta na SIC à hora de almoço.
Tanto no Brasil como em Portugal, "Guerra Dos Sexos" fez grande sucesso ao utilizar elementos inovadores, como um humor bastante mais burlesco e quase nonsense e várias referências cinematográficas, por vezes até utilizando músicas de filmes conhecidos.
Mas vamos à trama: na juventude, os primos Alcântara, Otávio (Paulo Autran) e Charlô (Fernanda Montenegro) foram apaixonados e, mal ou bem, essa paixão permaneceu ao ponto de ambos nunca terem casado, porém anos de discórdias e ressentimentos levaram a que se tornassem inimigos e nas suas picarias, tratam-se pelas alcunhas de Bimbo e Cumbuca. Após a morte do tio Enrico, os dois primos descobrem que são os herdeiros da sua fortuna, que inclui uma faustosa mansão em São Paulo e sobretudo, a cadeia de loja de roupas Charlô's, com sucursais em todas as grandes cidades brasileiras. No entanto o testamento refere que essa herança não deve ser negociada fora da família. Sem dinheiro para comprarem a parte do outro, Otávio e Charlô não têm outro remédio senão serem sócios e viverem juntos na mansão, e as brigas são ordem do dia, para desespero da empregada Olívia (Marilu Bueno).
Analu, Felipe, Juliana, Charlô e Otávio
Além deles, na mansão também moram Felipe (Tarcísio Meira), o filho adoptivo de Charlô, e as suas duas filhas, Juliana (Maitê Proença) e Analu (Ângela Figueiredo). Machista inveterado e mulherengo incorrigível, Felipe toma partido de Otávio enquanto que Juliana se identifica com as ideias progressivas e feministas da avó. Outra aliada de Charlô é Vânia (Maria Zilda Bethlem), uma mulher independente e sensual a quem vários homens elogiam as suas belas pernas, que é o seu braço direito na gestão da Charlô's. O problema é que Vânia tem um caso secreto com Filipe. Também Juliana vive um romance proibido com o fotógrafo Fábio (Herson Capri), que é casado.
Enquanto isso, Otávio comprou a fábrica Ravello Sport para garantir fornecimento exclusivo para as lojas Charlô's, só que o proprietário Vitório Leone (Carlos Zara) morre antes de lhe entregar os recibos que comprovam a aquisição e sem provas, a viúva Roberta (Glória Menezes) assume o comando da Ravello e torna-se mais uma aliada de Charlô.
Para resolverem o impasse, Charlô e Otávio fazem uma aposta: as mulheres tomam conta da empresa por 100 dias e terão de conseguir aumentar os lucros em 10%. Se conseguirem, Charlô ficará com a totalidade da empresa e se falharem, terá de a entregar ao primo. Charlô e suas aliadas deitam mãos à obra, atentas às tentativas de sabotagem de Otávio e Felipe. Porém a sua maior ameaça está em quem menos esperam.
Roberta e Nando
Carolina (Lucélia Santos), a sobrinha de Roberta, parece ser uma jovem doce e inocente mas é um autêntico lobo em pele de cordeiro. Desdenhando a vida modesta com que cresceu no Bairro da Mooca junto dos seus pais, Nieta (Yara Amaral) e Dino (Ary Fontoura), não olha a meio para subir na vida. Para tal pretende aproximar-se Felipe e alia-se a ele para sabotar os planos das mulheres, a começar por expor o caso de Vânia e Felipe. Entretanto, apesar de não recusar os avanços de Carolina e da animosidade por Roberta, Felipe não consegue impedir de se sentir atraído por esta.
Já Roberta dá por si a sentir uma forte atracção pelo Nando (Mário Gomes), o motorista dos Alcântara, um jovem humilde mas com notório atributos físicos, a quem encoraja a tornar-se modelo. Mas para além do obstáculo da diferença de idades, Nando também é disputado por Juliana e Analu.
Carolina
Nando mora no bairro da Mooca em casa de Semíramis (Leina Krespi) que criou os seus três sobrinhos como filhos: Ulisses (José Mayer), Afrodite (Cristina Pereira) e Zenon (Edson Celulari). Este último mora no Rio de Janeiro e foi em tempos a grande paixão de Carolina que, despeitada, passou a namorar com o irmão. Ulisses sonha em tornar-se pugilista e vai viver um romance tempestuoso com Vânia, pois sempre que os dois se encontram, a atracção mútua é incontrolável. Por seu turno e embora pouco deva à beleza, Afrodite, que trabalha na cafetaria da Charlô's, acredita fazer jus ao nome da deusa grega e que vários homens estão de olho nela.
Vânia e Ulisses
Entretanto, além de Carolina, surge outra aliada para Otávio e Felipe: Veruska (Sónia Clara), ex-secretária e amante de Vitório Leone. A aposta fica comprometida para o lado das mulheres quando Felipe, com o auxílio de Carolina e Veruska, consegue sabotar um importante desfile da Ravello promovido por Charlô e Roberta.
É então que surge Dominguinhos, um suposto primo português cara-chapada de Otávio (que entretanto desapareceu), que se declara apaixonado por Charlô. No entanto, esta não lhe dá trela, desconfiada que seja mais um plano de Otávio.
Por fim Roberta, ao descobrir o negócio de Otávio e Vitório que foi feito sem seu conhecimento, consegue recuperar a fábrica e quando a sabotagem é provada, Charlô ganha a aposta. Roberta termina feliz ao lado de Nando, que se tinha casado com Juliana mas os dois acabaram por concluir que apesar de apaixonados não são compatíveis como casal. Carolina, desprezada por todos e remetida a vender bolinhos de coco tal como a sua mãe, é surpreendida pela declaração de Felipe. Analu entende-se com Kico (Diogo Vilela), o filho geek de Roberta, a quem abandonara no altar no início da telenovela. Por seu turno, Vânia, perante a insistência de Ulisses em se casarem, conclui que valoriza mais a sua independência e parte com Juliana num cruzeiro onde rapidamente atraem várias atenções masculinas. Dispensado por Vânia, Ulisses singra no boxe e dá uma oportunidade a Lucilene (Helena Ramos), uma eterna apaixonada sua. Quando, derrotado, Otávio prepara-se para deixar a mansão, Charlô pede que não vá e declara-se apaixonada por ele. Os dois casam-se e quando regressam de lua-de-mel, deparam-se com mais dois herdeiros vindo de Portugal: o já conhecido Dominguinhos e a sua prima e esposa Altamiranda, sendo esta a fotocópia de Charlô.
Esta foi a primeira telenovela que me recordo ver na televisão, e há uma cena em particular que eu me lembro bem: Roberta e Nando vão a um salão de bowling e encontram lá Felipe e Carolina. Provocação puxa provocação, os quatro acabam à pega, culminando com Nando a pegar em Carolina, que dá por si a deslizar até aos pinos.
Tal como no Brasil, "Guerra Dos Sexos" fez grande sucesso em Portugal, e vários actores que viram a Portugal durante a exibição da RTP puderam comprovar isso, como foi o caso de Tarcísio Meira, Glória Menezes, Maitê Proença, Maria Zilda, Leina Krespi e Mário Gomes. A banda sonora da telenovela também fez sucesso, com destaque para o tema do genérico interpretado pelos Fevers e dois temas que ilustravam cenas de Juliana, "Hold Me Till The Morning Comes" de Paul Anka e Peter Cetera e "Straight From The Heart" de Bryan Adams.
Capa do álbum da banda sonora
Quando "Sassaricando", também da autoria de Sílvio de Abreu e com vários actores das duas novelas, estreou no nosso país em 1988, a RTP promoveu a telenovela como sendo "da mesma equipa da "Guerra Dos Sexos".
Em 2012, surgiu um remake de "Guerra Dos Sexos", com muitos nomes conhecidos e o português Paulo Rocha no papel de Fábio. Irene Ravache, a Charlô do remake, tinha tido uma participação especial na versão original como uma das cinco ex-mulheres de Felipe, Edson Celulari, o Zenon da versão original, foi Felipe e Marilu Bueno recuperou o papel de Olívia.
Parece incrível mas foi há precisamente dez anos, no dia 4 de Março de 2012, que a primeira página desta Enciclopédia de Cromos foi escrita. Inspirado pelas saborosas ondas de nostalgia que a "Caderneta de Cromos" da Rádio Comercial desencadeou no país inteiro, o David Martins iniciou este blogue que pretendia expandir essas memórias e outras memórias das três últimas décadas do século XX, que preencheram a vida daqueles que nasceram e cresceram nelas.
Eu próprio também tive a mesma ideia e até rascunhei alguns textos, mas por um motivo ou outro, acabei por nunca criar um blogue. Porém, descobri este e decidi enviar alguns textos por e-mail ao David, que mais tarde deu-me acesso a escrever directamente no blogue. E foi o início de uma parceria e, apesar de nunca nos termos encontrado pessoalmente, de uma grande amizade.
Mais do que um simples compêndio de informação sobre filmes, músicas e outros elementos da cultura pop dos anos 70, 80 e 90 (e depois também dos anos 2000), para nós e para todos aqueles que também colaboraram no blogue, nomeadamente o Paulo Gomes, foi uma maneira de contar as nossas memórias do que foi ter sido criança, adolescente e jovem adulto nesses tempos, ainda para mais tendo ambos crescido em meios mais pequenos, especialmente em comparação à Lisboa do cromos do Nuno Markl.
Ao longo destes dez anos, tem sido uma experiência gratificante ajudar a ampliar esta Enciclopédia e sempre que penso que gastei todos os temas a serem abordados, acaba por surgir outro que ainda não me tinha ocorrido. E ainda mais gratificante é sentir o apoio de todos aqueles que leem o blogue e que nos seguem na página do Facebook, ler os relatos daqueles que nos agradeceram por nos fazerem relembrar boas recordações dos seus tempos mais jovens e os elogios ao trabalho desenvolvido, nomeadamente por parte do Nuno Markl, que durante o breve reboot da "Caderneta de Cromos" por ocasião dos 10 anos da rubrica original, citou várias vezes a "Enciclopédia de Cromos" como uma das suas fontes.
Esperamos poder continuar convosco, leitores e seguidores da Enciclopédia de Cromos, para os anos que se seguem. Muito obrigado por estarem desse lado!
O início dos anos 90 foram férteis em termos de ficção nacional televisiva em vários géneros, com várias série a serem exibidas na RTP e no advento da SIC, embora nem todas com os melhores resultados. Foi o caso desta série que partia de uma premissa bem interessante e embora a execução não tenha sido a melhor, julgo que merecia ter tido mais atenção.
"O Cacilheiro Do Amor" foi uma série da autoria de Júlio César e Mário Lindolfo, sob realização de Nicolau Breyner e produção de Carlos Paço D'Arcos. Dos oito episódios, os cinco primeiros foram exibidos nas tarde de quinta feira entre 16 de Agosto a 13 de Setembro de 1990 na RTP1. Porém, com a entrada da nova grelha, a emissão da série foi descontinuada e, segundo consta no portal de arquivos da RTP onde a série já se encontra disponibilizada, os três restantes episódios só viriam a ser exibidos a 31 de Dezembro de 1991, mais de um ano depois e tem sido reposta algumas vezes na RTP Memória.
Como o próprio título deixa antever, a série era uma paródia à famosa série "O Barco Do Amor" (que, nem de propósito, estava na altura a ter uma temporada exibida na RTP2), com um humor nonsense ainda pouco visto na teledramaturgia nacional.
E se tal como nos luxuosos cruzeiros de "O Barco Do Amor", uma travessia no Tejo a bordo do cacilheiro, entre Cacilhas e o Seixal, proporcionasse a mesma experiência aos portugueses amantes de viagens e aventuras? Como tal, existe "O Cacilheiro Do Amor" sob comando do Comandante Alves Teodósio (Manuel Cavaco), que ostenta orgulhosamente as suas medalhas, e do temperamental imediato Octávio (Luís Aleluia). Josefa Linhares (Margarida Carpinteiro) é a diretora do cruzeiro, mulher acesa, versada em provérbios e que comunica tudo em português do Portugal e do Brasil. O médico do navio é Tito Gaspar (Luís Vicente), que divide as preocupações entre os cuidados com os pacientes e os números do Totoloto, auxiliado pela enfermeira Lisete (Alexandra Diogo). No freeshop, a doce Betinha (Cristina Paço D'Arcos) vende galos de Barcelos e outros souvenirs enquanto suspira pelos cantos pelo Doutor Tito. Albino (Aristides Teixeira) é o barman do cacilheiro, que também dispõe de um salão de barbeiro, onde o dito (Octávio Matos) está sempre a par das fofocas. A segurança do navio é assegurada por Simões (António Rocha), um segurança tão feroz que ruge em vez de falar e tão competente que raramente precisa de sair do seu camarote.
O trio As Estares proporcionam momentos de entretenimento a bordo. Antes de cada partida, os passageiros têm de passar pelas trovas do bilheteiro (Rui Luís), um velho do Restelo dos tempos modernas. E há uma passageira (Adelaide João) sempre acompanhada de uma boia em forma de pato, dividida entre o seu medo de andar de barco e o vício na adrenalina que sente ao fim de cada viagem.
Ao longo dos oito episódios, era possível ver alguns actores sem papel fixo desempenhando papel de passageiros, geralmente comentando entre si sobre os acontecimentos de cada episódio, como por exemplo, José Raposo, Licínio França, Rui Paulo, Mafalda Drummond, Carlos Areia e Marcantónio Del Carlo.
Um gag recorrente do humor nonsense característico da série era o facto do barco ser movido pela força de remadores descamisados, que pareciam saídos de uma galé romana, com um baterista e um guitarrista a marcarem o ritmo.
Na exibição original, eu só vi os três primeiros episódios, e o que mais se destacou foi o segundo episódio onde o Cacilheiro Do Amor recebe um grandioso evento: a eleição da Miss Tejo. Sob o controlo férreo da Frau Grünchen (Noémia Costa), são cinco as candidatas ao título: Sandra Isabel (Miss Douro), Sandra Cristina (Miss Guadiana), Sandra Filomena (Miss Mondego), Sandra Floripes (Miss Nabão) e Sandra Raquel (Miss Ribeira de Loures, interpretada por Maria João Abreu). Mas eis que rebentam dois escândalos: o cronista social Nelson Vanderley descobre que uma candidata é casada e mãe de dois filhos e o ceptro para premiar a vencedora é roubado! Mas claro, no final tudo se resolve.
Como já referi, "O Cacilheiro Do Amor" foi uma série que merecia ter tido mais atenção, embora nem sempre as piadas fossem as mais acertadas. Também sou da opinião que, para fazer mais jus ao título e à fonte de inspiração, talvez tivesse sido melhor explorar uma vertente mais romântica e refrear um pouco o humor nonsense.
Segundo o sempre indispensável "Brinca Brincando", a série acabou por causar uma disputa legal entre dois dos sócios da produtora EV, Nicolau Breyner e Carlos Paço D'Arcos, com este a acusar Breyner, que também era o realizador, de causar prejuízos devido aos seus preciosismos na direção e aos atrasos nas gravações.
O actor Luís Pavão, que disponibilizou no YouTube algumas cenas da sua participação no 4.º episódio, conta por exemplo sobre esta cena: "No estúdio estavam um módicos 53 ou 54 graus, o leitão fedia a quilómetros. A cena foi adiada repetidamente vários dias... Um perfume!"
Entre os aspectos mais positivos da série, está sem dúvida o tema do genérico, da autoria de José Cid.
Geralmente quando faço artigos analisando blocos publicitários gosto de coincidir o mês em que foram exibidos com o mês em que o artigo é escrito. Mas os três blocos publicitários de Julho de 1985 que o canal PT Vault recentemente disponibilizou no YouTube são tão fabulosos que não quis esperar até Julho para fazer um artigo sobre eles. Como em muitos dos vídeos desse canal, estas gravações são do arquivo pessoal de Afonso Gageiro.
Estes três blocos foram exibidos pela RTP1 na manhã do dia 14 de Julho de 1985, durante a exibição dos momentos do lendário concerto Live Aid que não tinham sido transmitidos em directo no dia anterior.
0:00 Momento da actuação dos Simple Minds no Live Aid.
0:03 Vinheta da RTP da transmissão do megaevento que denominou "Solidariedade Com África" com fotos de vários dos artistas que participaram.
0:23 Vinheta RTC
0:31 O mais conhecido anúncio aos bombons Allegro é de longe o do rapaz violinista e da professora, mas como podem ver existiram mais dois anúncios. Neste uma banda rock, em que o baterista perde uma das baquetas, que a vocalista recupera e lhe entrega juntamente com uma embalagem de Allegro, tudo isto ao som de "Nowhere Fast" do filme "Estrada De Fogo".
0:39 E eis o primeiro grande tesourinho garimpado nestes blocos: aquele que certamente foi o primeiro anúncio às figuras dos Masters do Universo e ao muito cobiçado Castelo de Grayskull. Não sei se por esta altura já passava na RTP a respectiva série animada do He-Man (tenho a ideia que foi só no ano seguinte) mas este vistoso anúncio com uma narração épica e dois miúdos manobrando o He-Man, o Skeletor e as outras personagens já enchia o olho à petizada.
1:24 Um daqueles anúncios que gritam "Estamos nos anos 80!" ao calçado desportivo Xami Sport, onde nem sequer falta uma musiquita sucedânea do "Thriller" do Michael Jackson.
1:40 O príncipe está prestes a colocar o sapatinho de vidro no pé da Cinderella, quando de repente o sapatinho cai! Felizmente havia Super Cola Vidro para assegurar um final feliz.
1:49 Vinheta RTC
1:55 De novo a vinheta de Solidariedade Com África, onde se pode ouvir o jingle da transmissão da BBC e da sua congénere Radio 1.
2:10 Imagem de um dos estádios do Live Aid apinhado. (Julgo ser o de Wembley em Londres.)
0:00 Mais uma breves imagens do Live Aid. (Não reconheci quem aparece nelas.)
0:18 Vinheta RTC
0:24 Para o ginasta a consertar uma corda, para a trela do cão que se descolou, para colar um vaso partido por um golfista de trazer por casa e para muitas outras situações, Super Cola 3!
0:42 Apesar da concorrência dos Smarties, dos M&M, dos Lacasitos e das marcas brancas, ainda hoje não falta quem chame às drageias redondas de chocolate com capa de açúcar colorida de Pintarolas. Em 1985, ainda não havia as marcas concorrentes e por isso estas reinavam de forma suprema. Este anúncio inclui aquele que será o seu mais famoso slogan: "Redondinhas, às corzinhas, tão docinhas, Pintarolas!"
0:49 As bolachas da Nacional são há décadas uma referência e em 1985, a marca decidiu alargar a sua gama lançando variedade de bolacha Maria de sabor a morango e banana e da bolacha torrada com sabor a limão. Mas eu não me lembro destas variedades, pelo que estou convencido que estes novos aromas não vingaram face às variedade tradicionais de Maria e Torrada.
1:04 Em 1985, a supremacia da Nutella ainda estava distante, por isso em Portugal outras marcas de creme de chocolate e/ou avelãs para barrar no pão tinham o seu quinhão do mercado. Era o caso do Nucrema com este anúncio de uma partida de futebol infantil, nos tempos em que ainda se podia vender a ilusão de um produto assim como algo saudável. Nucrema, o sabor que vence!
1:24 Os anos 80 foram a década por excelência das bebidas de sumos em pó. Marcas como Tang, Dawa e Clic disputavam a liderança e a Royal não lhes ficava atrás. Sobretudo com anúncios como este à bebida de laranja Royal em que um desenho a preto e branco se enche de cor.
1:45 Nos anos 80, havia muitos anúncios a chocolates, mas poucos tinham a opulência daqueles do Jubileu Classic, com aqueles rios de chocolate.
1:53 Vinheta RTC
2:00 E porque já estávamos em pleno Verão desse ano, havia as habituais campanhas de sensibilização de segurança nas praias, promovidas pelo Instituto de Socorro a Náufragos. Em meados dos anos 80, essa campanha surgia através de anúncios de still image com uma figura ilustrativa correspondente ao conselho divulgado. Neste caso, a importância de evitar a exposição excessiva ao sol (que passados 37 anos é ainda mais prejudicial), advertindo para, após uma exposição solar demorada, entrar na água gradualmente para habituar o corpo à temperatura da dita e beber água à temperatura ambiente. E no fim, o lendário slogan "Há mar e mar, há ir e voltar" criado pelo poeta Alexandre O'Neill, que viria falecer no Verão seguinte.
0:28 Em 1985, o Tulicreme ainda não tinha a sua célebre mascote do ursinho Tuli, mas já era uma marca muito popular, ao ponto de fazer uma promoção onde daria dezenas de bicicletas. E não, não era por sorteio de cartas enviadas por correio até Lisboa Codex, mas sim num concurso de desenho onde os jovens consumidores de Tulicreme teriam de fazer um desenho alusivo e juntar dois recortes das tampas, com um júri a eleger os melhores desenhos, dignos de receber uma bicicleta.
0:50 Apesar de sempre gostar muito de gelados, confesso que nunca achei muita graça àqueles gelados de gelo com sabor a sumo de fruta, que nos placards da Olá e das outras marcas, costumavam ser os mais baratuscos. Mas lembro-me de, apesar de nunca ter conseguido convencer a minha mãe a comprá-los, ter curiosidade de experimentar os Pólos Royal em que podíamos ser nós a fazê-los, juntando água e levando ao congelador. Tudo graças a este divertido anúncio com um jingle orelhudo e uns petizes com os mais diversos disfarces.
1:10 Pelo que pude apurar, a boneca Barbie só chegou a Portugal em 1983, (24 anos depois de ter sido originalmente lançadas na América), pelo que por esta altura ainda era uma novidade por estas bandas e e este terá sido um dos primeiros anúncios da lendária boneca, que não tardaria a reinar suprema por cá tal como já o fazia noutros países.
1:40 E eis o outro anúncio aos bombons Allegro, em que uma jovem bailarina dá um tropeção e cai ao chão, sendo auxiliada pelo seu parceiro de dança que lhe oferece uma embalagem de bombons. E a voz inconfundível de Ana Zanatti a dizer "Allegro, um gesto de amor". Num dos vídeos do YouTube com o anúncio do Allegro com o rapaz violinista, havia um comentário de Mafalda de Barros que dizia ser precisamente a bailarina deste anúncio, anteriormente indisponível online. Se a Mafalda estiver a ler este artigo, eis aqui o que ela há tanto tempo procurava!
1:49 Vinheta RTC
1:56 Outro anúncio da segurança nas praias, desta vez avisando para o respeito pelos sinais das bandeiras: bandeira vermelha - perigo, não tomar banho; bandeira amarela - cuidado, não nadar; bandeira verde - pode tomar banho e nadar. (Eu confesso que já me aventurei a nadar com a bandeira amarela mas creio que nunca fiz mais do que molhar os pés com a bandeira vermelha.)
2:24 Vinheta RTP1
2:33 Live Aid, com imagens de um dos apresentadores da BBC e a locução a referir que tinha acabado de haver uma actuação conjunta de duas lendas musicais: Carlos Santana e Pat Metheny.
BÓNUS
Após esta transmissão em diferido de parte do Live Aid, eis um bloco de continuidade com a locutora Ana Maria Cordeiro em que é anunciada a programação para a tarde e noite daquele domingo. E que dia em cheio: o filme "O Cão Que Salvou Hollywood" na "Sessão Da Tarde", a Gala dos Pequenos Cantores da Figueira da Foz desse ano, "O Mundo Dos Fraggles", o "Top Disco" e à noite "Falando de Schubert" com o maestro José Atalaya, a série "Ventos De Guerra" e o "Domingo Desportivo". Antes do filme "O Cão Que Salvou Hollywood" (filme de 1976 protagonizado por Bruce Dern e Madeline Khan, parodiando o fenómeno do Rim Tin Tin, e que contou com inúmeros cameos de estrelas de outras eras de Hollywood, sendo a última aparição em cinema de Johnny Weissmuller), podíamos ver os desenhos animados de Crazy Claws, dos estúdios Hanna-Barbera. Que saudades de tempos televisivos como estes!
(De fundo, pode-se ouvir uma versão instrumental de um dos hits desse ano, "Easy Lover" de Phil Collins e Phillip Bailey.)
E já agora, eis também Ana Maria Cordeiro no dia anterior a anunciar a transmissão da RTP do Live Aid (que começou à 17 horas do dia 13 de Julho de 1985 após a exibição da série "Separados Pela Espada") com a introdução a cargo de António Sérgio na sua inconfundível voz radiofónica, e começando com Bryan Adams a cantar "Summer Of 69".
Uma vez mais o meu agradecimento a Afonso Gageiro e ao canal PT Vault por disponibilizar este preciosíssimo conteúdo.
No cinema americano dos anos 80, o género do film noir, inicialmente popularizado nos 40 e 50, teve um certo renascimento, aliando as temáticas de mistério, crime e sedução à estética actual da altura. Além de que, sem as restrições do código Hayes, as referências sexuais podiam ser tratadas de forma mais explícita. Entre os títulos mais conhecidos do chamado neo-noir contam-se "Noites Escaldantes" (1981), "Vidas Em Jogo" (1984) e "Perigosa Sedução", no original "Sea Of Love", filme de 1989 realizado por Harold Becker com Al Pacino e Ellen Barkin nos principais papéis.
Frank Keller (Pacino), um detective da polícia de Nova Iorque, desgastado pelo alcoolismo, o recente divórcio e os traumas do trabalho, é destacado para colaborar com Sherman Touhey (John Goodman) numa curiosa investigação. Dois homens foram descobertos sem vida deitados nus na cama, enquanto toca um disco com a canção "Sea Of Love". Em ambos os locais de crime são encontrados um cigarro com batom e impressões digitais num copo, o que indica que o assassino será uma mulher. Frank e Sherman descobrem que as duas vítimas tinham posto anúncios de jornal em rima para encontros amorosos e tentam advertir um homem casado (Michael O'Neill) que pôs um anúncio semelhante de que ele pode ser a próxima vítima. O que vem a acontecer, apesar dele ter jurado pelos filhos não ter respondido a nenhuma carta.
Frank e Sherman decidem colocar também um anúncio em rima e convidar as mulheres que responderem para jantar num restaurante a fim de perceber se alguma tem as impressões digitais que coincidem com as dos locais do crime. Várias mulheres aparecem para jantar com Frank, (uma delas até consegue deduzir que ele é polícia) mas apenas uma, Helen Cruger (Barkin), vai-se embora sem deixar impressões digitais, afirmando que não sentiu atracção imediata por ele.
Contudo, dias mais tarde, Helen e Frank reencontram-se na rua e ela mostra-se mais interessada. Ele fica a saber que Helen se mudou para Nova Iorque com a filha após o divórcio e que ela gere uma sapataria. Os dois não tardam a se envolver apesar dos indícios, que vão apontando cada vez mais para Helen como a possível assassina. Mas após uma discussão em que Frank confronta Helen com o sucedido e ela ir-se embora negando tudo, surge o verdadeiro assassino. Trata-se de Terry (Michael Rooker), o ex-marido de Helen, que se fazia passar por electricista para vigiar os encontros dela e que obrigava as vítimas a deitarem-se na cama e a simularem o sexo que fizeram com a ex-mulher antes de os matar.
Frank consegue dominar Terry, que morre no confronto entre os dois. Semanas mais tarde e em recuperação do alcoolismo, Frank reencontra Helen e os dois retomam a relação.
"Perigosa Sedução" marcou o regresso à forma de Al Pacino que voltava aos filmes após um hiato de quatro anos e uma série de flops e que consolidou Ellen Barkin como actriz de primeira linha. Do elenco, fizeram ainda parte William Hickey, Richard Jenkins e Paul Calderón. As cenas de Lorraine Bracco como a ex-mulher de Frank não foram incluídas na versão cinematográfica mas surgiram em transmissões televisivas e em edições de VHS e DVD.
Trailer:
Aos 0:17, promo da exibição do filme na SIC em 1994
No Natal de 1997, a maior prenda na nossa casa foi a adesão à televisão por cabo. De repente tínhamos uma quantidade de canais disponíveis para ver, e para mim e para o meu irmão, um dos nossos canais de eleição foi o Canal Panda e na altura, houve uma série que víamos e que costumava passar nas horas finais de emissão (na altura o Canal terminava às 23 horas).
Essa série era "A Rapariga dos Oceanos" ("Ocean Girl" no original), uma série juvenil australiana de aventura e ficção científica, que teve 78 episódios distribuídos por quatro temporadas que contavam as aventuras de uma rapariga com invulgares capacidades aquáticas vinda de outro planeta e os seus amigos humanos. Criada por Jonathan M. Shiff, a série foi originalmente exibida na Austrália entre 1994 e 1997 e vendida para mais de trinta países nos cinco continentes. No Reino Unido, passou na BBC sob o título "Ocean Odyssey". Não posso afirmar ao certo, mas a ideia que eu tenho é de que os 78 episódios da série foram exibidos em loop no Canal Panda entre 1998 e 2000.
Num futuro não muito distante, o governo australiano criou no meio do Oceano Pacífico um laboratório de tecnologia avançada dedicado ao estudo da vida marinha e da proteção dos oceanos chamado ORCA, que serve também de escola para os filhos dos cientistas. É lá que vivem os irmãos Jason (David Hofflin) e Brett Bates (Jeffrey Walker), filhos da doutora Dianne Bates (Kerry Armstrong na duas primeiras temporadas e Liz Burch nas restantes), uma cetologista. Um dia, durante uma expedição com a mãe para colocar um sensor numa baleia-jubarte, Jason dá de caras com uma rapariga que o tenta impedir de atingir a baleia. A princípio ninguém acredita nele, mas mais tarde ele e o irmão acabam por descobrir que a rapariga existe mesmo.
Trata-se de Neri (Marzena Godecki), uma rapariga de extrema beleza e com incríveis capacidades nadadoras e de respiração subaquática e que tentava proteger a sua amiga baleia, a que chamou de Charley. Vinda do Planeta dos Oceanos, ela veio com o pai para a Terra mas a nave teve um acidente fatal do qual ela é a única sobrevivente. Neri e os irmãos Bates rapidamente tornam-se grandes amigos e ela decide ajudar a Dra. Bates e o seu colega Dr. Winston Seth (Alex Pinder) no estudo do canto de baleias, em especial o de Charley na ORCA. Para tal, têm a ajuda de um supercomputador, H.E.L.E.N. , que tem uma voz feminina humana (Nina Landis). Mais tarde, Neri descobre que Jane, uma das alunas da ORCA, é afinal a sua irmã Mera (Lauren Hewett), que cresceu como humana e não tinha memórias do seu passado. Neri e Mera têm a oportunidade de regressar ao Planeta dos Oceanos, mas enquanto Mera aceita para descobrir mais sobre as suas origens, Neri decide ficar na Terra quando descobre que a missão do seu pai era a de ajudar a resolver os problemas da poluição dos oceanos na Terra.
O principal antagonista das três primeiras temporadas é o Dr. Hellegren (Nicholas Bell), o líder da UBRI, uma organização rival da ORCA, que pretende obliterar esta para os seus propósitos que incluem construções que podem acabar com a vida marinha da zona. Além disso, Hellegren teve conhecimento do acidente da nave alienígena em que Neri e o seu pai seguiam e pretende deitar as mãos ao sincrónio, um poderoso material com o qual os habitantes do Planeta dos Oceanos pretendiam usar para salvar a Terra. O Dr. Hellegren tenta obter mais informações sobre Neri e o sincrónio através de aliados seus infiltrados na ORCA, mas em vão e até a sua filha Lena (Joelene Crnogorac) acaba por tomar partido de Neri e da ORCA e revolta-se contra o pai.
Na terceira temporada, surge na ilha Kal (Jeremy Angerson), um rapaz do mesmo planeta de Neri. Com ciúmes da proximidade de Neri com os terrestres (e intuindo que Jason e Neri já se começam a ver como mais que amigos), quando cai nas mãos da UBRI, Kal deixa-se manipular pelo Dr. Hellegren para se aliar a ele e roubar o sincrónio e só mesmo nos instantes decisivos é que tudo se resolve.
A quarta e última temporada explorava mais o mundo do planeta de Neri e agora não só ela e os Bates são perseguidos pela PRAXIS, uma organização secreta destinada a neutralizar vida extraterrestre na Terra, como no Planeta dos Oceanos, o terrível Malakat (George Henare) decide tomar o poder ameaçando com um mortífero vírus. Mas quando tudo parece perdido, Neri, Mera, Jason e Brett conseguem aceder ao poder de uma pirâmide subaquática e trazer de novo à vida Shalamorn (Marie-Louise Walker), a mãe das raparigas e a verdadeira Rainha do Planeta dos Oceanos, que consegue travar as ameaças da PRAXIS e de Malakat.
No final, enquanto se enceta um promissor futuro de cooperação entre a Terra e o Planeta dos Oceanos, Neri e Jason assumem por fim estar apaixonados um pelo outro e trocam um beijo, sob o canto de Charley.
A série teve uma spin-off de animação, "The New Adventures Of The Ocean Girl" (2000-01), que chegou a passar na TVI, mas basicamente a única semelhança era o nome da protagonista.
Apesar da série ser australiana, os dois protagonistas eram de origem europeia: Marzena Godecki (Neri), escolhida entre 500 raparigas para ser Neri, nasceu na Polónia e David Hofflin (Jason) na Suécia. "Cunhados" nesta série, Jeffrey Walker (Brett) e Lauren Hewett (Mera) tinham anteriormente sido irmãos na série "A Meio Da Galáxia Virar À Esquerda" que passou na RTP em 1993. A actriz Tharini Mudaliar, conhecida pelo papel de Kamala em "Matrix Revolutions", entrou na quarta temporada como Shersheba, a cúmplice de Malakat, que acaba por se regenerar. Nas cenas em que Neri se aproxima da baleia Charley, tratava-se claro de uma réplica feita com fibra de vidro e alumínio que pesava 700 quilos.
Genéricos de abertura e encerramento das temporadas 1 e 2