Um dos principais traços da era dourada do Renascimento da Disney (que durou de 1989 a 1999) foi a preocupação de não retratar as heroínas das suas novas histórias como frágeis donzelas em apuros como em algumas das suas histórias iniciais. Assim sendo, vimos uma Bela sem medo do Monstro, uma Pocahontas determinada a impedir o conflito entre índios e colonos ou uma Esmeralda que se recusava a ceder mesmo sob cruel perseguição. Mas em 1998, a Disney revelaria uma das suas mais emblemáticas e corajosas heroínas na personagem titular de "Mulan".
Baseado na lenda chinesa de Hua Mulan, uma mulher que terá servido durante doze anos no exército disfarçada de homem durante a Dinastia Han e que se destacou pela sua bravura, o filme contava a história de Fa Mulan, uma jovem cujo temperamento irrequieto choca com os padrões esperados de uma mulher na China daquele tempo, impedindo o desejo da família de que ela encontre um marido e se torne uma boa esposa. Um desastroso com uma casamenteira autoritária ainda complica mais as coisas.
Entretanto a China é assolada pela invasão dos Hunos. Um dos líderes, Shan-Yu, é praticamente cruel e está disposto a destruir tudo e todos em seu caminho. Por ordem do Imperador, um homem de cada família deverá combater na guerra contra os Hunos. Temendo pela saúde e idade avançada do seu pai, Mulan decide ser ela a alistar-se no exército disfarçada de homem e tomando o nome de Ping. Os seus antepassados decidem enviar-lhe um espírito dragão como protecção mas por engano, quem acaba por ir com ela é um pequeno e desastrado dragão chamado Mushu.
No campo de treinos para soldados, Mulan/Ping tem várias dificuldades para se adaptar aos duros treinos comandados pelo garboso mas severo capitão Li Shang e pelo arrogante e misógino conselheiro Chi-Fu, mas eventualmente acaba por se destacar ao mesmo tempo que trava amizade com três outros inicialmente desastrados soldados, Yao, Ling e Chien-Po. Durante uma batalha, Mulan é ferida no peito por Shan Yu e Chi-Fu acaba por descobrir a sua mentira. Em vez de a executar, como manda a lei, Shang decide poupar-lhe a vida mas expulsa-a do exército.
Mas quando os Hunos ameaçam a Cidade Imperial, será a coragem e astúcia de Mulan que salvará a China.
Na versão original, as vozes de "Mulan" incluíam Ming Na Wen (Mulan), BD Wong (Li Shang), Eddie Murphy (Mushu), Miguel Ferrer (Shan Yu) e Pat Morita (Imperador da China). Na versão portuguesa, Mulan foi dobrada por Carla de Sá (Anabela nas canções), Shang por Carlos Macedo (Telmo Miranda nas canções), Mushu por Rui Paulo, Yao por Carlos Vieira D'Almeida e Ling por André Maia. Jackie Chan foi a voz de Shang nas três versões chinesas (Mandarim, Cantonês e Taiwanês).
"Reflection" Christina Aguilera
"True To Your Heart" 98 Degrees & Stevie Wonder
"Mulan" conseguiu superar crítica e comercialmente as duas anteriores longas metragens da Disney, "O Corcunda de Notre-Dame" e "Hércules" e a sua partitura musical de Jerry Goldsmith foi nomeada para o Óscar e o Globo de Ouro. Entre as canções destaque óbvio para "Reflection" interpretado por Christina Aguilera que lhe valeu um contrato discográfico que a lançaria como uma nova estrela pop no ano seguinte. Mas também há que destacar "I'll Make A Man Out Of You" na voz de Donny Osmond e "True To Your Heart" pelos 98 Degrees e Stevie Wonder.
"Mulan" teve um sequela em 2004 directamente editada em vídeo e uma longa-metragem em imagem real está prevista para estrear em 2020, com Yifei Liu no principal papel.
A minha lista mental de "Músicas que já ouvi mas desconheço nome ou artista" dos anos cromos é bem extensa, afinal não tínhamos o Google na ponta dos dedos e nem sempre apanhávamos o videoclip/emissão na rádio de inicio, com essa preciosa informação. Uma recente campanha da EDP foi agitar as nebulosas águas da memória com o tema que escolheram para o anúncio de TV. Reconheci a canção apesar de no video criado pela agência Solid Dogma usarem uma versão produzida pelo DJ Xinobi, com vozes de Gundelach e Ana Miró, e só com uma intensa busca no Google com excertos da canção e vários falsos alarmes depois cheguei a "Lessons In Love" da banda "Level 42" lançado em 1986.
O teledisco oficial:
Capa do single:
Os Level 42 desta época - já com 6 anos de carreira - eram Mark King, Mike Lindup (ambos ainda na formação actual) e os irmãos Philip e Rowland "Boon" Gould.
Esta banda britânica não é um caso de one-hit wonder ao contrário do que pensei antes de pesquisar, mas apesar de vários singles de sucesso, "Lessons in Love" permaneceu o maior êxito dos Level 42. O álbum de onde a canção foi extraída, "Running in the Family", o sétimo álbum de estúdio dos Level 42, deu origem a mais 4 singles, lançados durante 1987: "Running in the Family" cujo refrão também me parece familiar, "To Be With You Again", "It's Over" e "Children Say".
Como curiosidade, a versão da banda polaca Pslednja Igra Leptira, "Taksi" (Taxi):
Houve uma altura em que Portugal foi invadido por feras. E de muitas espécies diferentes! O pais ficou cheio de elefantes, avestruzes, zebras, búfalos e leões! Mas não fugiram do Jardim Zoológico, foram libertadas dos pacotes das batatas-fritas e dos snacks Matutano. E tal como os fantasmas luminosos, esta colecção de pequenos autocolantes fluorescentes, "Feras Luminosas" brilhavam no escuro.
Mas contrário dos fantasmas anónimos, definidos pelas ocupações aparentes, as feras todas tinham nome, como o urso Piurso, a girafa Giraça, etc
Por incrível que pareça, a Enciclopédia ainda não tinha abordado esta mítica série que tanto encantou espectadores nos anos 70 e 80 (e depois) um pouco por todo o mundo. Isto porque tratava-se de uma série que misturava habilmente humor e romance num cenário tão apetecível como era o de um navio de cruzeiro e das paisagens por onde ele passava.
"O Barco do Amor" começou com um telefilme em 1976 inspirado no livro de memórias de Jeraldine Sanders, uma directora de cruzeiro. Mais dois telefilmes seguiram-se nesse ano até que em 1977 a cadeia americana ABC ter decidido converter o formato em série. Série essa que duraria nove temporadas até 1987 mas que ainda gerou mais quatro telefilmes entre 1987 e 1990. Em Portugal, a série passou na RTP em vários horários nos anos 80 (incluindo durante o "Agora Escolha"), na TVI nos anos 90 e na SIC Gold e SIC Comédia já neste século.
Genérico de abertura da 2.ª temporada (1979)
Genérico de abertura da 5.ª temporada (1982) já com a Vicki no elenco fixo:
Em cada episódio "O Barco do Amor" tinha três histórias diferentes, cada uma escrita pela sua equipa de guionistas. Regra geral, uma das histórias passava-se entre os membros do elenco fixo, isto é da tripulação do navio (normalmente a mais cómica); outra entre um membro de tripulação e um dos passageiros; e a terceira (geralmente a mais dramática) entre passageiros da respectiva viagem.
Os membros do elenco fixo eram: o Capitão Pacific Princess Merrill Stubing (Gavin McLeod); o médico do navio Adam Bricker (Bernie Kopell), Doc para os amigos; o camareiro Burl Smith (Fred Grander), mais conhecido como Gopher; o barman Isaac Washington (Ted Lange) e a directora do cruzeiro Julie McCoy (Lauren Tewes). A partir da terceira temporada, a filha do capitão Vicki (Jill Whelan) passou a integrar o elenco fixo, bem como o fotógrafo Ace Evans (Ted McGinley) na sétima temporada. Ainda na sétima temporada, com a saída de Lauren Tewes, Patricia Klous assumiu o papel de Judy McCoy, irmã de Julie, que a substituiu nas suas funções.
Claro que a minha personagem preferida era a Vicki e o meu eu petiz achava-a que era a miúda mais sortuda do mundo por poder andar pelo mundo no navio. Mas também achava imensa graça ao Gopher e ao Doc que apesar de não serem lá muito atraentes, acabavam sempre a namoriscarem as passageiras. Até porque uma piada recorrente da série era a fama de mulherengo de Doc, que apesar do seu aspecto, já tinha sido várias vezes casado e não raras vezes as suas pacientes sucumbiam ao seu charme. (E serei o único achar que o actor era parecido com o Willie do "Alf"?).
Outro mítico ingrediente da série era o tema do genérico interpretado por Jack Jones, que foi editado em single em 1979.
E claro está, a série teve um sem-fim de participações especiais ao longo dos seus 249 episódios. Eis aqui alguns exemplos: Kirstie Alley, Richard Dean Anderson, Kathy Bates, Sonny Bono, Joan Collins, Billy Crystal, Jamie Lee Curtis, Tony Danza, Patrick Duffy, Linda Evans, Michael J. Fox, Eva e Zsa Zsa Gabor, Pam Grier, Tom Hanks, David Hasselhoff, Janet Jackson, Gene Kelly, Janet Leigh, Heather Locklear, Leslie Nielsen, Ginger Rogers, Mickey Rooney, Frank Sinatra Jr., Jaclyn Smith, Lana Turner, Andy Warhol, Betty White, Vanessa Williams, Jane Wyman e muitos, muitos mais. Alguns como o actor Lorenzo Lamas, chegaram a fazer vários episódios em papéis diferentes. A própria Patricia Klous teve uma aparição num episódio da sétima temporada (num papel diferente) antes de entrar para o elenco fixo na temporada seguinte.
Geralmente os episódios decorriam durante cruzeiros na costa ocidental da América do Norte (Puerto Vallarta, no México, era o destino mais recorrente). Mas costumavam haver episódios, geralmente com duas partes, que decorriam noutras partes do mundo. Houve também alguns episódios de outras séries como "Os Anjos de Charlie" e "A llha Da Fantasia" que interligaram as suas narrativas com a de "O Barco do Amor".
A nona e última temporada teve algumas particularidades: o tema de abertura era agora cantado por Dionne Warwick, o navio passou a ter uma trupe residente de bailarinas, "The Love Boat Mermaids", que incluía Teri Hatcher, um dos episódios foi considerado em 1997 pela revista "TV Guide" um dos cem melhores episódios de séries de sempre e a segunda parte de um dos episódios teve cenas filmadas em Lisboa, mais concretamente na praça do Campo Pequeno, onde se encenou uma tourada (e só de escrever isto já consigo ouvir o David Martins a bufar). Isto porque uma das histórias era a de um neto (Lorenzo Lamas) de um famoso toureiro (César Romero) que hesita em seguir as pisadas do seu avô ao mesmo tempo que se interessa por uma escritora (Mary Crosby).
Genérico da 9.ª temporada (1986) com o genérico cantado por Dionne Warwick:
Para além das nove temporadas, a série teve ainda mais quatro episódios especiais entre 1986 e 1990. Um reboot da série "The Love Boat - The Next Wave" foi exibido nos Estados Unidos em duas temporadas entre 1998 e 1999, e incluiu um episódio de reunião do elenco da série anterior.
Reunião do elenco em 2017
Em 2014, foi concluída a demolição do navio Pacific Princess na Turquia, adquirido por uma empresa especializada em demolições navais, após os seus custos de manutenção inviabilizarem a sua utilização como navio de cruzeiros.
Eu sou suspeito por ser licenciado em Estudos Franceses e Ingleses, mas adoro a língua francesa e a sua sonoridade. Até gosto do facto de a pronúncia de grande parte das suas palavras ser diferente daquela que as letras que as compõem sugerem (pelo menos aos olhos portugueses). Apesar de só ter começado a estudá-la no 7.º ano, já tinha algumas noções de língua de Voltaire através de um livro que os meus pais me compraram no Círculo de Leitores que ensinava algumas frases e palavras em francês e inglês. Confesso que o meu domínio do francês não é tão forte como o do inglês mas sempre que tenho oportunidade para falar, ouvir ou ler em francês, tento aproveitá-la ao máximo.
E claro está, aprecio bastante a música francófona desde os tempos de ícones como Edith Piaf e Jacques Brel até à actualidade. E sendo um filho dos anos 80 tenho um carinho especial pelas três canções em língua francesa que se tornaram sucessos internacionais nessa década: a pop de sangue azul em "Ouragon" na voz da Princesa Stéphanie do Mónaco; "Joe Le Taxi" chilreada por uma muitíssimo jovem Vanessa Paradis; e "Voyage Voyage" interpretada pela parisiense Claudie Fritsch-Meintrop sob o nome de Desireless.
Nascida na Cidade-Luz no dia de Natal de 1962, Claudie trabalhou como estilista nos anos 70 até que em 1982, uma viagem à Índia inspirou-a a enveredar pela música. Em 1984, integrou o grupo Air 89 que lançou um álbum e em 1986, lançou-se numa carreira a solo com o nome Desireless, compondo uma personagem andrógina e fria, sempre vestida de negro. Mas o seu aspecto mais marcante era sem dúvida o penteado com o cabelo todo em pé.
Editado no final de 1986, o seu primeiro single "Voyage Voyage", um contagiante tema electro-pop. Na altura, eu ainda não percebia patavina de francês mas lembro-me de gostar de ouvir a música sempre que dava na rádio ou o videoclip na televisão. Ainda que o dito cujo, realizado pela famosa fotógrafa Bettina Reims, me metesse um pouco de medo: num salão de casarão mal iluminado (quiçá um manicómio), Desireless mostra slides com imagens de todo o mundo a um grupo de personagens bizarras incluindo três senhoras entretidas num frenético jogo de cartas, um casalinho de jovens que namora a um canto, um senhor alto que abana incessantemente a cabeça enquanto brinca com uma bola insuflável com o desenho do mapa-mundo com um senhor mais baixo e uma mulher que devora algo que nunca percebi bem o que era (batatas fritas? bolinhos?) que tem numa tigela. Essas estranhas personagens a princípio parecem desinteressadas nos slides até que de repente algo lhes chama a atenção e reúnem-se todas a ver as imagens que surgem no ecrã.
Mais tarde, quando já dominava o idioma e quis saber o significado da letra, descobri que se tratava de um belíssimo poema sobre como viajar não só nos dá a conhecer o mundo mas como também nos conduz numa viagem ao nosso interior. Daí que quando Desireless canta "Voyage...et jamais ne reviens", não está a dizer para nunca mais regressarmos a casa mas sim para não voltarmos a ser quem éramos antes da viagem. Eis a minha tradução da letra:
No cimo do velhos vulcões
Desliza as asas pelos tapetes de vento
Viaja, viaja,
Eternamente.
Das nuvens aos pantanais,
Dos ventos de Espanha às chuvas do Equador,
Viaja, viaja,
Voa nas alturas.
No alto das capitais,
Das ideias fatais
Observa o oceano.
Viaja, viaja,
Mais longe que a noite e que o dia.
Viaja
No espaço inaudito de amor.
Viaja, viaja
Sobre a água sagrada de um rio indiano.
Viaja
E nunca mais regresses.
Sobre o Ganges ou o Amazonas
Entre os negros, entre os sikhs, entre os asiáticos
Viaja, viaja
Por todo o reino.
Sobre as dunas do Sahara
Das ilhas Fiji ao Fujiyama
Viaja, viaja,
Não te detenhas.
Sobre os arames farpados,
Os corações bombardeados,
Observa o oceano.
Viaja, viaja,
Mais longe que a noite e que o dia.
Viaja
No espaço inaudito de amor.
Viaja, viaja
Sobre a água sagrada de um rio indiano.
Viaja
E nunca mais regresses.
Em França, "Voyage Voyage" ficou-se pelo n.º 2 do top nacional, bloqueado no topo por "T'en Va Pas" da estrela adolescente Elsa Lunghini. Mas o tema era tão poderoso que não tardou a quebrar a barreira linguística e fazer sucesso fora dos países francófonos, tendo chegado ao n.º 1 na Alemanha, Áustria, Noruega e Espanha ao longo de 1987. Em 1988, uma edição com remistura dos PWL ajudou "Voyage Voyage" a tornar-se um dos raros temas cantados em francês a chegar ao top 10 no Reino Unido. Por essa altura, Desireless já tinha editado um novo single, "John", uma tema que falava sobre guerra e religião.
Com o prolongado sucesso de "Voyage Voyage" que levou Desireless a percorrer toda a Europa a promover o tema, o seu primeiro álbum, "François" (o nome do seu marido, François Meintrop), só veria a luz do dia em 1989, já quando o interesse na cantora tinha esmorecido.
No entanto, mesmo sem nunca ter sequer aproximado o sucesso de "Voyage Voyage", Desireless nunca mais deixou de fazer música e actuar ao vivo. Desde 2012 que tem feito a sua carreira em dueto com o compositor Antoine Aureche e o seu disco mais recente, "Desirless Chante Apollinaire", é de 2017. Entretanto "Voyage Voyage" continua a ser incluído em várias festas e compilações dos anos 80 por esse mundo fora.
Desireless "L'expérience humaine" (2011)
De entre as versões do tema, destaque para a cover de 2008 da cantora belga Kate Ryan e a versão em espanhol de 1991 da boyband mexicana Magneto com o título "Vuela Vuela".
Volta e meia, sucede surgirem dois filmes semelhantes no mesmo ano. Por exemplo, duas adaptações de "Les Liaison Dangereuses" de Chorderlos de Laclos em 1989 ("Ligações Perigosas" e "Valmont"), duas bio-pics de Cristóvão Colombo em 1992 ("1492 - A Conquista" e "Cristóvão Colombo - A Descoberta"), dois filmes de animação 3D sobre insectos em 1999 ("A Formiga Z" e "Vida De Insecto") ou duas comédias românticas sobre amizades coloridas em 2011 ("Amor Sem Compromisso" e "Amigos Coloridos"). No ano de 1998, Hollywood providenciou dois filmes sobre um asteroide prestes a colidir com a Terra: "Impacto Profundo" e "Armageddon". Ainda não vi o primeiro que muitos dizem ser melhor e cientificamente mais verosímil mas sem dúvida que o segundo é o mais popular.
Hoje em dia, o realizador Michael Bay é tido como sendo o realizador que acha que efeitos especiais, explosões, movimentos frenéticos de câmara e planos sensuais de corpos femininos fazem por si só um filme. Mas na altura, Bay estava a criar status como realizador de blockbusters após o sucesso de "O Rochedo" e "Os Bad Boys", depois de ter-se iniciado com anúncios publicitários e videoclips (sendo o mais famoso deles "I'd Do Anything For Love" de Meat Loaf). Por isso, a expectativa era grande para "Armageddon", não só por causa de "Impacto Profundo" como também porque contava no elenco com nomes como Bruce Willis, Billy Bob Thornton, Steve Buscemi, Michael Clarke Duncan, Owen Wilson, Liv Tyler e um recém-oscarizado (como argumentista) Ben Affleck. Isto para não falar noutro factor de antecipação, quiçá o mais importante.
A NASA descobre que um asteroide do tamanho do estado do Texas está perto de colidir com a Terra o que certamente significará a extinção da raça humana, senão mesmo a destruição total do planeta. A equipa de cientistas da NASA, liderada por Dan Truman (Thornton), elabora um plano que consiste em recrutar uma equipa de experientes estivadores de perfuração petrolífera, liderada por Harry Stamper (Willis), para viajar no espaço até ao asteroide e perfurá-lo para lançar uma bomba que o fará partir-se em duas partes, que continuarão a sua rota longe da Terra. A equipa de Harry é composta por Chick (Will Patton), Oscar (Wilson), Bear (Duncan), Rockhound (Buscemi), Noonan (Clark Brolly), Max (Ken Campbell) e A.J. Frost (Affleck). Este último namora com Grace (Tyler), a bela filha de Harry, que não aprova a relação pois quer um futuro melhor para a filha do que o de esposa de um estivador.
A equipa de Harry passa por um treino intensivo para a missão, na qual serão acompanhados por uma equipa de astronautas e que inclui uma passagem pela estação espacial russa habitada pelo cosmonauta Lev Andropov (Peter Stormare). Quando meteoritos provenientes do asteroide começam a atingir gravemente algumas cidades como Xangai ou Paris, o mundo aguarda ansiosamente pela salvação da Terra. E após uma série de acontecimentos trágicos durante a missão, a salvação final fica nas mãos e (possíveis sacrifícios) de Harry e AJ.
O Paulo de 1998 viu "Armageddon" no cinema e gostou bastante, mas o Paulo de 2018 reviu-o recentemente e achou a parra bem maior que a uva, com os clichés apontados nos filmes de Bay bem presentes. A crítica também não foi nada favorável ao filme. No entanto, "Armageddon" foi o maior sucesso comercial de 1998 (sem contar com "Titanic" estreado ainda no ano anterior) e ganhou lugar cativo entre os maiores blockbusters de aventura e acção dos anos 90.
Porém, está claro é que impossível falar de "Armageddon" sem falar no seu tema principal, "I Don't Want To Miss A Thing", interpretado pelos Aerosmith e escrita pela prolífica compositora Diane Warren. A escolha dos Aerosmith era por demais evidente não só pelo facto do vocalista Steven Tyler ser pai de Liv Tyler como por Michael Bay ter realizado um videoclip para a banda no ano anterior.
Não só a épica powerballad tornou-se um dos hits do ano como deu à veterana banda o seu primeiro e único n.º 1 nos Estados Unidos. Foi ainda nomeada para o Óscar de Melhor Canção (e para o Razzie de Pior Canção).
O videoclip de "I Don't Want To Miss A Thing" foi lançado umas semanas antes do filme, servindo como um trailer musical, que terá porventura sido maior chamariz junto do público para ver o filme, como foi o caso do Paulo de 1998. Em alguns países, incluindo Portugal, a edição em VHS de "Armageddon" incluía o videoclip na cassete, numa espécie de antevisão do que seriam os extras de DVD.
Hoje em dia o conceito de fama é cada vez mais abstracto e aleatório. Parece que a qualquer momento cada um pode ter os seus quinze minutos warholianos sem sequer fazer algo meritório para tal. E claro está, com as novas tecnologias, existem outras plataformas de fama.
Mas eu cresci no tempo em que não só prevalecia a associação da fama ao mérito como o meu eu petiz acreditava que os famosos eram uns quantos escolhidos por alguma providência para se distinguirem do cidadão comum e viviam num universo paralelo que só episodicamente desciam ao mundo da gente comum para concertos ou algo assim. E para um miúdo que cresceu em Torres Novas esse universo paralelo podia muito bem ser Lisboa ou Porto. Qual era o famoso que quereria viver num município tão singelo como Torres Novas?
Bem, havia um famoso no concelho de Torres Novas e como tal, foi o primeiro famoso que eu vi na rua, fora de um contexto artístico: Pedro Barroso (o cantor, não o actor de telenovelas). Apesar de nascido em Lisboa, António Pedro da Silva Chora Barroso cresceu na freguesia dos Riachos e por lá continuou a residir mesmo quando a sua carreira como músico arrancou tendo sido um dos cantautores revelados pelo "Zip-Zip". Os anos 80 foram o seu período de maior sucesso da sua carreira por conta dos seus dois grandes hits: "Cantar Brejeiro" (mais conhecido como "Olha A Perninha Da Menina") em 1982 e "Menina Dos Olhos d'Água" em 1987.
Mas em 1998, vi-me a poucos graus de separação de gente famosa, porque foi nesse ano que se celebrizou uma banda com membros naturais do meu concelho. Isto porque foi nesse ano que os AlémMar editaram o seu primeiro álbum. E não só o vocalista era Nuno Barroso, filho de Pedro Barroso, como três dos membros da banda ou eu conhecia pessoalmente ou conhecia pessoas ligadas a eles. Era o caso de um dos guitarristas, Carlos Lima, cujo pai - que tinha o mesmo nome - era na altura meu professor de IDES (Introdução ao Desenvolvimento Económico-Social) no 12.º ano (e já tinha sido meu professor de Geografia no 10.º ano), e foi um dos professores mais marcantes da minha escolaridade; foi quase para mim o que a personagem de Robin Williams foi para o Clube dos Poetas Mortos. Na altura, além da banda, o Carlos Lima filho trabalhava também como criador dos bonecos do "Contra-Informação". Depois havia a cantora do coro, Ana Rita Damásio, que era da outra turma de Humanidades e por isso já tinha falado esporadicamente com ela - e que mesmo antes já emanava "star power". E havia também o baterista Samuel Henriques que eu conhecia também da escola, pois era amigo de alguns dos meus colegas de turma e de cujo irmão mais novo (também ligado à música) eu próprio viria tornar-me amigo anos mais tarde. Os outros membros da banda eram Ricardo Moreno (guitarra), Pedro Nunes (baixo) e Francisco Velez (teclas).
O projecto tinha começado alguns anos antes sob o nome de Anúbis e como alguns dos membros andavam na mesma escola secundária que eu, eu ouvia aqui e ali relatos da evolução da banda e do interesse das editoras. Depois correu a notícia que em 1997 tinham assinado contrato com a MCA e que estavam a preparar um álbum a ser lançado no ano seguinte. Mas só mesmo quando ouvi "Deixa-Me Olhar" pela primeira vez na rádio da minha escola é que pensei: "É pá, eles podem ir longe."
E de facto, com a edição do single e do álbum homónimo da banda, o sucesso foi imediato e não tardou que a rádio tocasse "Deixa-me Olhar" com insistência e que os AlémMar aparecessem em todos os programas de televisão e actuassem por todo o país. Até no Mundialito do futebol de praia!
Não fosse o fenómeno Silence 4 pouco tempo depois, e teriam sido a banda nacional com a estreia mais auspiciosa do ano de 1998. Claro está, também os vi ao vivo em Torres Novas nesse ano numa noite chuvosa de Outubro.
"Deixa-me Olhar" obteve imediatamente lugar de honra no panteão da baladaria nacional e continua a ser até hoje um favorito nas noites de karaoke por esse país fora.
O segundo álbum "Viver" saiu em Outubro de 1999, mas embora o tema "Sentimento Irreal" tenha tido alguma notoriedade, o disco esteve longe de repetir o sucesso do primeiro álbum.
Após alguns anos de interregno, a banda reuniu-se em 2004 para uma actuação na Festa da Bênção do Gado em Riachos e desde então que os AlémMar actua ocasionalmente com uma formação semi-renovada. Em 2007, editaram o terceiro álbum, "Acreditar" e regravaram "Deixa-me Olhar" para o genérico e banda sonora da telenovela da TVI "Deixa-me Amar".
Nuno Barroso tem tido paralelamente os seus projectos a solo. Ana Rita Damásio foi uma das vocalistas dos Madredeus após a saída de Teresa Salgueiro entre 2008 e 2010. Samuel Henriques foi o baterista na última digressão de José Cid.
A "Sessão da Noite", espaço de cinema da RTP1 para as noites de sexta-feira, é parte essencial das minhas memórias cinéfilas, antes de começar a ir regularmente ao cinema. Foi ao longo dos três anos e meio em que este espaço esteve no ar (Setembro 1990 - Abril 1994), que vi vários filmes dos anos 80 e alguns das décadas anteriores, muitos deles que já falei em outros artigos. Recordo-me bem de ver a primeira TV Guia do mês que tinha uma secção que indicava quais eram os filmes a serem exibidos pela RTP nesse preciso mês para ver quais os filmes que iriam dar na "Sessão de Noite". E claro está, havia aquela maravilhosa sensação de deixar para trás uma semana de aulas e começar o fim-de-semana com um bom filme na noite de sexta-feira.
Desta vez vou falar não sobre um mas sobre dois filmes da mesma saga que, se não me falha a memória, foram exibidos em duas sextas-feiras consecutivas.
"Cocoon" é daqueles filmes do qual ninguém se lembra do título em português ("A Aventura dos Corais Perdidos"). O filme de 1985 foi realizado por Ron Howard e era uma interessante mistura de ficção científica, comédia e drama para além de ter a particularidade de ter um elenco composto por actores veteranos e personagens idosas como protagonistas, em contracorrente com a eterna obsessão de Hollywood pela juventude.
Há milénios atrás, uma raça alienígena do planeta Antarea esteve presente na Terra para pesquisar este planeta, tendo a Atlântida como seu posto principal. Quando a Atlântida afundou, vinte Antareanos sobreviveram dentro de uma espécie de casulos rochosos. Na actualidade, um grupo de Anatreanos vem à Terra para recuperar esses casulos e levá-los de novo para esse planeta. Na sua verdadeira forma, os Antareanos são criaturas etéreas e extremamente luminosas, por isso, usam uma pele humana para não levantarem suspeitas e interagir com os humanos.
Eles estabelecem-se na Flórida onde alugam uma casa com piscina e recrutam a ajuda do barqueiro Jack Bonner (Steve Guttenberg) para recuperar os casulos do fundo do mar. Jack interessa-se por Kitty (Tahnee Welch), a única mulher do grupo, e descobre o segredo deles quando a vê a tirar a pele humana. Mas Walter (Brian Dennehy), o líder do grupo, assegura-lhe que são uma raça pacífica e Jack aceita manter o seu segredo. Eventualmente, Kitty admite gostar de Jack e não podendo fazer amor com ele da maneira humana, os dois têm um momento íntimo na piscina em que ela compartilha a sua energia vital.
Entretanto, três amigos que vivem num aldeamento residencial para idosos ali perto, Art Selwyn (Don Ameche), Ben Luckett (Wilform Brimley) e Joe Finley (Hume Cronyn) decidem ir à socapa até à piscina da casa alugada pelos extraterrestres onde estão os casulos recuperados. A piscina está a ser utilizada pelos Antareanos para armazenar a energia que permitirá àqueles dentro dos casulos suportar a viagem de volta ao planeta e ao banharem-se nela, os três idosos curam-se dos seus problemas de saúde (por exemplo, Joe tinha um princípio de leucemia) e sentem-se as suas energias rejuvenescidas. Quando são apanhados por Walter na piscina, eles prometem manter segredo.
Ben e Joe renovam a paixão pelas respectivas esposas Alma (Jessica Tandy) e Mary (Maureen Stapleton) e Art ganha confiança para conquistar Bess McCarthy (Gwen Verdon). Também elas as três acabam por saber do segredo e desfrutar dos benefícios da energia da piscina. Já um quarto amigo, Bernie Lefkowitz (Jack Gilford) é muito desconfiado dos ocupantes da casa e recusa-se a banhar na piscina e impede a sua mulher Rose (Herta Ware) de o fazer.
Mas quando as atitudes rejuvenescidas dos três casais levantam demasiadas suspeitas no aldeamento, Bernie revela o segredo e os outros idosos precipitam-se para a piscina, estragando um dos casulos. Mas é Bernie que sofre a pior consequência quando leva uma Rose moribunda à piscina e não a consegue salvar pois os idosos consumiram toda a energia armazenada, impossibilitando os casulos de regressarem a Antarea.
Walter propõe então aos idosos do aldeamento que venham com eles para Antarea, onde ninguém envelhece ou morre. A maioria aceita, incluindo Art, Bess, Ben, Mary, Joe e Alma, mas Bernie decide ficar. Ben e Mary têm uma despedida particularmente emotiva com o seu neto David (Barret Oliver) de quem sempre foram muito próximos. A partida é atribulada, sendo perseguidos pela Polícia, mas com a ajuda de Jack e David, extraterrestres e idosos conseguem chegar ao planeta.
"Cocoon" foi um inesperado êxito do Verão de 1985 (estreou em Portugal em Dezembro), sendo o sexto filme mais rentável desse ano e conquistando dois Óscares: o de Melhor Actor Secundário para Don Ameche e o de Melhores Efeitos Visuais. Ron Howard venceu também o Prémio Saturn para Melhor Realizador. Inicialmente era para ser Robert Zemeckis o realizador mas a 20th Century Fox considerava-o na altura um realizador "veneno de bilheteira" e optou por Howard. (Zemeckis seria o último a rir quando "Em Busca da Esmeralda Perdida", o filme que acabou por dirigir nessa altura, tornou-se um êxito, permitindo o arranque de um certo projecto seu até então constantemente rejeitado chamado "Regresso Ao Futuro".)
Três anos mais tarde surgiu a sequela, "Cocoon 2 - O Regresso", realizada por Daniel Petrie, com praticamente todo o elenco do primeiro filme. Cinco anos depois da acção do primeiro filme, os Antareanos regressam à Terra para recuperar os casulos perdidos. Com eles regressam também os idosos que tinham partido com eles, incluindo os três casais protagonistas, para decidirem se querem ficar na Terra e voltarem a envelhecer e serem mortais ou ficar definitivamente em Antarea. O problema é que um dos casulos foi achado por um grupo de cientistas que o mantém num laboratório secreto. Ainda apaixonado por Kitty, Jack tenta recuperar o romance mas a Antareana garante que a relação deles não tem futuro e conta-lhe que teve uma visão de que ele irá se casar com uma terrestre com um sinal em forma de coração no pescoço.
De volta a Terra, os três casais ficam felizes por saber que depois de uma longa depressão pela morte de Rose, Bernie parece ter encontrado novamente o amor com Ruby (Elaine Stritch). Mas para além da missão de recuperar os casulos, eles enfrentam novos dilemas. Bess descobre que está grávida de Art, Joe descobre que a sua leucemia regressou e Ben e Mary ressentem-se de terem passado tanto tempo longe dos seus ente-queridos, sobretudo de David que passa por uma fase complicada da adolescência.
A tragédia acontece quando Alma é atropelada por um carro para salvar uma criança e Joe decide sacrificar a sua energia vital que lhe resta para a salvar. Art, Ben, Jack, Kitty e David entram no laboratório para salvar o casulo detido pelos cientistas e são ajudados por Sara (Courteney Cox), uma cientista que se revolta quando descobre que os seus colegas pretendem entregar o extraterrestre do casulo ao Exército.
Na hora da partida, Art e Bess escolhem voltar para Antarea para viverem o tempo suficiente para ver o seu filho crescer. Por seu turno, Ben e Mary escolhem ficar no Terra junto da família e amigos e deixar a vida seguir o seu curso natural. Alma opta também por ficar na Terra para aceitar a oferta de trabalho num ATL, onde as crianças adoram ouvir as suas histórias sobre o planeta Antarea.
Depois de Art, Bess e os Antareanos terem partido com os casulos deixados para trás na viagem anterior, Jack descobre que Sara tem um sinal em forma de coração no pescoço e que é ela a mulher da visão de Kitty.
"Cocoon 2" foi um flop comercial e crítico, mas eu não achei assim tão inferior ao primeiro filme. Embora toda o elenco tenha regressado, Brian Dennehy só aparece no final como Walter. Dennehy tinha recusado participar na sequela, mas acabou por fazer essa participação especial por carinho e respeito pelos seus colegas de elenco.
Trailer "Cocoon - A Aventura dos Corais Perdidos":