segunda-feira, 20 de março de 2017

20 Coisas Que Aconteceram Há 20 anos (1997)

por Paulo Neto

No início deste ano, algures no meu feed do Facebook, deparei-me com um vídeo que compilava várias canções do ano de 1997. Foi com nostalgia e espanto que recordei esse desfile de canções, nostalgia porque eram canções que me traziam memórias bem presentes da altura e de espanto ao perceber-me que canções como "Barbie Girl", "Tubthumping" ou "Hmm Bop" já tinham vinte anos! E mais ainda, já passaram mais anos desde então do que aqueles que eu tinha na altura!
No mês passado, tive a oportunidade de visitar de novo a cidade do Porto a onde eu já não ia precisamente desde o ano de 1997, durante uma excursão de quatro dias ao Norte do país em que participaram algumas turmas do 11.º ano da minha escola, nomeadamente a minha. E esse regresso à Cidade Invicta fez-me uma vez mais reflectir sobre outras memórias do ano de 1997, e fui desenterrando várias memórias, algumas pessoais, outras colectivas e muitas vezes dei por mim estarrecido ao perceber que algumas dessas memórias que eu tinha como relativamente recentes já são longínquas. Graças a esse exercício de arqueologia mental que decidi escrever um texto reunindo vinte coisas de há vinte anos, numa viagem ao antepenúltimo ano da última década do século XX.



1. 1997 foi o 2016 dos anos 90, em termos de mortes de celebridades. 
Entre as várias tribulações do ano passado, uma das mais célebres foi a invulgar quantidade de óbitos de várias celebridades e personalidades notáveis, quer a nível mundial, quer nacional. E se houve ano durante a década de 90 que se pode comparar a 2016 nesse termos, foi sem dúvida 1997 onde várias celebridades deixaram este mundo, algumas de forma trágica.
Basta pensar que o acontecimento desse ano que mais abalou o mundo foi a morte da Princesa Diana de Gales, na madrugada de 31 de Agosto num acidente de automóvel que vitimou o seu então namorado Dodi Fayed. Falecia assim aos 36 anos (já vivi mais tempo que ela!) aquela que foi denominada a Princesa do Povo. Uma multidão como se raramente tinha visto até em Londres acorreu para se despedir de Diana, o mundo inteiro parou para assistir ao seu funeral na televisão e a nova versão de "Candle In The Wind" que Elton John interpretou durante a cerimónia tornou-se o single mais vendido de sempre.



Mas outras celebridades deixaram-nos em 1997: a Madre Teresa de Calcutá, Prémio Nobel da Paz em 1979, faleceu poucos dias depois da Princesa Diana; o estilista Gianni Versace foi assassinado à porta da sua casa em Miami; o rapper Notorious B.I.G. também foi assassinado a tiro; Michael Hutchence, o líder dos INXS, suicidou-se num hotel em Sydney  e o cantor John Denver perdeu a vida num acidente de avião. 
Também falecidos em 1997: as estrelas de Hollywood Robert Mitchum e James Stewart; o extravagante presidente do Zaire (actual República Democrática do Congo) Mobutu Sese Seko e o antigo líder da República Popular da China Deng Xiaoping; o poeta beatnik Allen Ginsberg, o músico Jeff Buckley, o explorador Jacques Cousteau e a francesa Jeanne Calment que aos 122 anos era o ser humano que se sabia ter comprovodamente vivido mais tempo. Em Portugal, destaque para o falecimento do poeta Al Berto.


R.I.P 1997: Madre Teresa de Calcutá, Gianni Versace, Notorious BIG, Michael Hutchence



2. Foi o ano em que nasceram várias celebridades actuais.
Em contrapartida, 1997 foi o ano em que nasceram algumas das mais jovens celebridades actuais que completaram ou completarão duas décadas de vida ao longo deste ano. Da actual diva da ginástica Simone Biles ao novo talento do futebol português Renato Sanches, da cantora sueca Zara Larsson à argentina Martina Stoessel (a eterna Violetta), da jovem estrela de Hollywood Chloe Grace Moretz ao ídolo teenager australiano Cody Simpson, da Infanta Maria Francisca, filha dos Duques de Bragança, à multi-campeã olímpica da natação Katie Ledecky, de Maisie Williams, a Arya de "Game Of Thrones", ao DJ e produtor anglo-norueguês Alan Walker, autor dos hits "Faded" e "Sing Me To Sleep", da estrela de reality shows Kylie Jenner ao rapper Desiigner. Uff...Para terminar em beleza, também nascida em 1997 é a activista paquistanesa Malala Yousafzai, a mais jovem galardoada de sempre com o Prémio Nobel da Paz.  



Geração de 1997: Simone Biles, Renato Sanches, Martina Stoessel, Malala Yosufzai



3. Pedro Santana Lopes foi eleito presidente da Câmara da Figueira da Foz



A política nacional foi marcada em 1997 pelas eleições autárquicas, que se realizaram a 14 de Dezembro. O resultado mais mediático foi sem dúvida a vitória de Pedro Santana Lopes à Câmara da Figueira da Foz pelo PSD, terminando assim vários anos de vigência socialista nessa autarquia. Foi a única grande mudança de poder nestas eleições, que primaram pela continuação de vários autarcas na liderança dos respectivos concelhos, incluindo quatro autarcas que ver-se-iam mediatizados por problemas com a lei em anos vindouros: Valentim Loureiro (Gondomar), Fátima Felgueiras (Felgueiras), Isaltino Morais (Oeiras) e Avelino Ferreira Torres (Marco de Canaveses). João Soares que assumiu a presidência da Câmara de Lisboa após a eleição de Jorge Sampaio como Presidente da República em 1996 foi eleito para um novo mandato, tendo perdido a eleição para um terceiro mandato em 2001 para...Pedro Santana Lopes.  

4. O Massacre do Meia Culpa em Amarante
Foi a 16 de Abril de 1997 que ocorreu um dos crimes mais violentos no nosso país. Três homens armados e encapuzados invadiram a boîte Meia Culpa em Amarante, regando o local com gasolina e abrindo fogo no estabelecimento, mantendo clientes e funcionários encostados à parede sob a ameaça de armas. Treze pessoas morreram no meio do pânico causado pelo incêndio.


A investigação da Polícia Judiciária apuraria que o mandante do crime foi José Queirós, proprietário de um estabelecimento rival, o Diamante Negro. José Queirós e os três autores materiais do crime foram condenados à pena máxima da lei portuguesa de 25 anos.

5. A agressão de Sá Pinto a Artur Jorge
Na manhã de 26 de Março de 1997, a selecção nacional reuniu-se no Jamor para preparar o jogo de qualificação para o Mundial de 1998 contra a Irlanda do Norte, que se realizaria três dias depois em Belfast. Quando se dirigia para o centro de estágio, o seleccionador Artur Jorge foi surpreendido com a chegada de Ricardo Sá Pinto que se dirigiu a ele para lhe agredir com murros, bem como aos que o acompanhavam, alegadamente por não ter sido convocado para esse jogo. Sá Pinto seria punido com uma suspensão de um ano sem jogar, sendo transferido nesse ano do Sporting para a Real Sociedad.
O jogo contra a Irlanda do Norte terminaria empatado a zero.



6. A culpa foi do Batta
Porém o momento mais trágico para Portugal na fase de qualificação para o Mundial de 1998 aconteceu no dia 6 de Setembro de 1997 durante o jogo com a Alemanha no Estádio Olímpico de Berlim. A selecção nacional teve um mau início de campanha, com um embaraçoso empate a zero com a modesta Arménia e um derrota contra a Ucrânia em Kiev, pelo que cedo Portugal teve de correr atrás do prejuízo. As coisas até corriam bem e o apuramento, pelo menos para os play-offs, era bem possível quando a Selecção se apresentou em Berlim para o penúltimo jogo. E em terras alemãs, a Selecção teve uma muito boa exibição que culminou com um golo de Pedro Barbosa ao 70 minutos, levando a acreditar que estaríamos perante um reedição do jogo de 1985 onde Portugal bateu a Alemanha em Munique, garantindo um apuramento para o Mundial de 1986.




Só que ao minuto 74, o incrível aconteceu: o árbitro francês Marc Batta mostrou um segundo cartão amarelo (e consequente cartão vermelho) a Rui Costa, por alegadamente este demorar demasiado tempo a sair do terreno de jogo para ser substituído. O incidente desestabilizou a selecção nacional e a Alemanha aproveitou para empatar. Como tal, Portugal ficou virtualmente afastado do Mundial (não só era preciso ganhar no último jogo frente à Irlanda do Norte - que aconteceu- como haver uma vitória da Arménia sobre a Ucrânia que não se realizou). A Alemanha passou directamente e a Ucrânia apurou-se para os play-offs onde foi derrotada pela Croácia.
Ainda hoje são muitos que acreditam que não se justificava de todo tal punição a Rui Costa, como quem especule mesmo que Batta agiu deliberadamente para prejudicar Portugal e/ou favorecer a Alemanha. E para sempre ficou a imagem de Rui Costa em lágrimas.



7. Mário Jardel foi pela primeira vez melhor marcador nacional





Foi na época 1996/97 que Mário Jardel Almeida Ribeiro chegou ao futebol português, saído do Grémio de Porto Alegre para o FC Porto onde cedo deu largas ao seu talento como ponta de lança. A veia goleadora do brasileiro contribuiu amplamente para um terceiro título consecutivo do FC Porto nesse ano, o primeiro tri dos dragões que nos anos seguintes transformar-se-ia em penta.
Foi a primeira de quatro vezes consecutivas que Jardel foi o melhor marcador do campeonato nacional ao serviço do FC Porto, tendo conseguido uma quinta pelo Sporting, até a sua carreira ir pelo cano abaixo e desde então ter sido notícia por motivos fora do futebol.

8. Uma atleta fez topless involuntário nos Mundiais de Atletismo
Os Campeonatos Mundiais de Atletismo de 1997 disputaram-se em Atenas, de onde Portugal saiu com quatro medalhas: ouro para Carla Sacramento nos 1500m, prata para Manuela Machado na maratona enquanto a campeã olímpica Fernanda Ribeiro arrecadou a prata nos 10000m e o bronze nos 5000m.
Foi precisamente numa das corridas das eliminatórias dos 5000m femininos que um curioso incidente ocorreu: a atleta da Eritreia Nebiat Habtemariam, que terminou essa corrida no antepenúltimo lugar, correu toda a prova com uma T-shirt demasiado larga, emprestada de um colega de equipa, e...sem soutien, o que resultou que um dos seus seios ficasse perfeitamente exposto enquanto ela corria.


As câmaras de televisão presentes no estádio aperceberam-se disso e a certa altura tanto focavam na frente da corrida como no topless involuntário de Nebiat, então com 18 anos. Ao que parece, a atleta, compreensivelmente envergonhada, não mais saiu do seu quarto de hotel em Atenas até partir de novo para o seu país.
Nos anos seguintes, Nebiat Habtemariam tornou-se uma das principais corredoras de fundo e meio-fundo do seu país, tendo competido em três Jogos Olímpicos e cinco Mundiais de Atletismo, o último dos quais em 2015, onde correu a maratona. Em 2012, foi terceira na maratona de Milão.

9. Lisboa organizou um evento olímpico
As Jornadas Olímpicas da Juventude Europeia são uma competição multi-desportiva para jovens atletas europeus entre os 13 e os 18 anos, sendo aliás a primeira competição multi-desportiva pan-europeia. Criada pelo futuro presidente do Comité Olímpico Internacional Jacques Rogge sob a égide da Associação Europeia de Comités Olímpicos, a primeira edição do evento teve lugar em 1991 em Bruxelas, que desde então passou-se a realizar de dois em dois anos (uma competição equivalente de desportos de Inverno foi também instaurada a partir de 1993).

Jornadas Olímpicas da Juventude Europeia 1997 em Lisboa
(Fotos do Arquivo do Comité Olímpico de Portugal)


Lisboa recebeu a quarta edição das JOJE de Verão entre 18 e 24 de Julho de 1997. 2500 jovens atletas (muitos dos quais já marcariam presença nos próximos Jogos Olímpicos em 2000)  de 47 países europeus competiram em dez modalidades: atletismo, natação, ginástica, ciclismo, judo, vela, futebol, basquetebol, andebol e voleibol. O Estádio Universitário, as piscinas do Restelo, o parque de Monsanto, a antiga FIL, o Pavilhão Desportivo da Ajuda e as docas de Belém foram os palcos das diferentes provas. Eu recordo-me de ter visto a cerimónia de abertura transmitida na RTP em directo do Estádio Universitário, onde Rosa Mota transportou uma tocha e Luís Represas foi o convidado musical.  Portugal obteve três medalhas, uma de prata no atletismo (Filipe Pedro nos 3000m) e duas de bronze, no futebol e no andebol (ambos em masculinos).

Infelizmente, apesar de serem o mais parecido com que já tivemos com ter uns Jogos Olímpicos no nosso país, as JOJE 1997 passaram largamente despercebidas e eu encontrei muito pouca informação na internet sobre o evento.
A partir de 2001, o evento passou a chamar-se Festival Olímpico da Juventude Europeia. Alguns dos nossos maiores atletas como os medalhados olímpicos Nelson Évora e Fernando Pimenta e até Cristiano Ronaldo himself passaram pelo FOJE. A edição de 2017 terá lugar em Gyor, na Hungria.

10. Hillary Clinton ganhou um Grammy





Sim, a então primeira dama dos Estados Unidos e mais tarde a primeira mulher candidata à Casa Branca foi uma das vencedoras da cerimónia dos Grammys de 1997. Mas não, Hillary Clinton não se meteu em cantigas, pois ganhou o galardão para Melhor Disco Falado ou Não Musical, devido à sua narração da versão audio do seu livro "It Takes A Village: And Other Lessons That Children Teach Us".

11. A idade somada dos Hanson era de 41 anos



No início deste texto referi "Hmm Bop" como uma das músicas do ano de 1997. Quem não se lembra deste alegre e solarengo tema interpretado pelos três irmãos Hanson, todos eles de longa melena loura? Mas na altura o que mais impressionou foi que quando "Hmm Bop" ascendeu ao primeiro lugar dos tops dos Estados Unidos e do Reino Unido em Maio de 1997, a soma das idades dos três irmãos era tão somente de 41 anos: Isaac tinha 16 anos (faria 17 em Outubro), Taylor 14 anos e  o pequeno às da bateria Zachary virou um ídolo pop antes de chegar ao seu 12.º aniversário. E os três eram apenas os mais velhos de uma numerosa família, com mais um irmão e três irmãs, uma delas nascida em 1997.
No seguimento do sucesso de "Hmm Bop", outros singles do álbum "Middle Of Nowhere" também tiveram algum êxito como "Where's The Love" e "I Will Come To You". Mesmo sem nunca mais repetirem o estrondoso êxito que obtiveram quando muito jovenzinhos, os três manos nunca deixaram de editar discos e dar concertos por todo o mundo, e ainda hoje o fazem, já trintões. E fazendo jus à tradição reprodutiva da família: Isaac tem três filhos, Zack quatro e Taylor cinco.

Os Hanson em 2016


12. Portugal foi corrido a zeros no Festival da Eurovisão
Pela terceira vez em quatro anos, o Festival da Eurovisão teve lugar em Dublin, fruto de (mais) uma vitória da Irlanda no ano anterior. Portugal até vinha tendo bons resultados na década de 90, mas em 1997, obteve um do seus piores. Embora fosse opinião geral de que não se justificava tamanho descalabro, o certo é que a interpretação de "Antes Do Adeus" por parte de Célia Lawson (acompanhada no coro por quatro cantores que mais pareciam Agentes da "Matrix")  não convenceu a Europa e não recebeu um pontinho para a amostra, algo que só tinha acontecido antes na nossa primeira participação em 1964. Esta foi também a última das quatro letras que Rosa Lobato Faria escreveu para participações eurovisivas de Portugal. Se em 1992, escreveu uma apetitosa salada de frutas para Dina, em "Antes Do Adeus", o destaque em "Antes Do Adeus" foram as referências a Pedro Abrunhosa e José Saramago.


Restou o consolo de que não fomos o único país com tal infortúnio já que a Noruega também ficou a zero e que, apesar disso, Portugal manteve um coeficiente suficiente para poder participar no ano seguinte. No pólo oposto ficou o Reino Unido, que obteve uma concludente vitória, a quinta (e até agora última) do país, com "Love Shine A Light" pelos Katrina & The Waves. (Sim, esses do clássico eighties "Walking On Sunshine") 

13. George Clooney foi Batman



Depois de Michael Keaton nos dois fimes de Tim Burton que reavivaram o interesse nas aventuras do mítico Homem Morcego e de Val Kilmer no terceiro filme, para o quarto opus da saga de Batman, foi a vez de George Clooney, recém-chegado ao estrelato devido ao seu papel em "E.R.", quem deu corpo ao herói protector de Gotham City. "Batman & Robin" foi realizado por Joel Schumacher, que assinou o filme anterior e com Chris O'Donnell de novo no papel de Robin. Além disso, pela primeira vez surgiu a Batgirl, interpretada por Alicia Silverstone, enquanto que os papéis de vilões estiveram a cargo de Arnold Schwarzenegger como Mr. Freeze e Uma Thurman como Poison Ivy. Decerto que com tantas estrelas e tão bons antecedentes, que este quarto tomo da saga seria um sucesso garantido, certo?


Só que não. "Batman & Robin" foi arrasado pela crítica e a receita foi bem menor que a dos outros filmes da saga, ao ponto de que só em 2005 é que Hollywood voltou a abordar o universo do Homem Morcego. O único legado positivo do filme foi a sensual interpretação e o figurino de Uma Thurman como Poison Ivy, que desde então tornou-se um muito requisitado disfarce para os Halloweens e Carnavais dos anos seguintes.




14. O Martini Man e Kelly Fisher no Portugal Fashion
Nos primórdios do Portugal Fashion, cuja edição inicial foi em 1995, a principal atracção era o facto de o evento trazer a Portugal, nomeadamente ao Porto, algumas das mais famosas top models mundiais (ou não estivéssemos na era dourada das top models) para desfilarem criações dos designers nacionais. Por exemplo, só na primeira edição marcaram presença rainhas das passerelles como Claudia Schiffer, Elle McPherson e Helena Christiansen. Para a edição de 1997, os nomes internacionais foram a top model holandesa Karen Mulder, o consagrado modelo anglo-iraniano Cameron Alborzian e dois modelos americanos mais conhecidos por motivos fora das passerelles: Charles David Sahagian, um dos homens que encarnaram o Martini Man, protagonista dos célebres anúncios a preto e branco da famosa marca, e Kelly Fisher, que em Agosto desse ano, fizera notícia ao afirmar que estava noiva de Dodi Fayed quando este iniciou uma relação com a princesa Diana.

Kelly Fisher com a sua porta-voz,
usando o alegado anel de noivado de Dodi Fayed
Karen Mulder no Portugal Fashion 1997

Mas na hora da verdade, enquanto Karen Mulder e Cameron Alborzian confirmaram o seu estatuto, Sahagian e Kelly Fisher foram flops: ele, sem os óculos da sua personagem, era um rapaz absolutamente normal (mais parecia o namorado da filha da vizinha do segundo esquerdo) e ela (a quem os jornalistas foram interditos de fazer perguntas sobre os recém-falecidos Dodi e Diana) afinal não passava de uma modelo da terceira divisão distrital.  

15. Diana Pereira e Soraia Chaves, campeãs nacionais da moda

Já falámos aqui do triunfo nacional e internacional de uma muito jovem Diana Pereira na edição portuguesa e mais tarde mundial do Supermodel Of The World 1997. Mas também nesse ano, uma jovem modelo ganhou outro importante concurso de manequins, dando desde logo cartas na moda nacional e mais tarde, na representação. Falo de Soraia Chaves, que com 15 anos, venceu a edição de 1997 do Elite Model Look Portugal.


Curiosamente, um dos convidados musicais desse evento foram os dinamarqueses Aqua que cantaram "Barbie Girl", que pouco tempo depois seria um dos hits mundiais do ano.


16. O "Anticristo" Marilyn Manson no primeiro Festival do Sudoeste
Foi entre 8 e 10 de Agosto de 1997 que a Zambujeira do Mar foi pela primeira vez palco daquele que rapidamente se tornou um dos mais importantes festivais de música nacionais, o Festival do Sudoeste, que na altura tinha a cerveja Sagres como patrocinador principal.




E para abrir logo em beleza, o principal nome do cartaz era Marilyn Manson, que na altura dava que falar tanto pelo álbum "Antichrist Superstar" como pelas suas declarações que chocavam os sectores mais conservadores da sociedade, considerado mesmo por alguns como o Anticristo himself.
Outros nomes sonantes que actuaram no primeiro Festival do Sudoeste foram Blur, Suede, Veruca Salt, dEus e a nível nacional, Xutos & Pontapés, Da Weasel, Entre Aspas, Cool Hipnoise e Rio Grande.



17. Os Anjos ganharam um programa da RTP
Lembram-se do programa "Casa de Artistas", apresentado por Serenella Andrade, exibido pela RTP aos domingos em 1997? Não? Tudo bem.



Mas foi neste programa onde duplas de familiares ou amigos exibiam os seus dotes vocais, que os irmãos Nelson e Sérgio Rosado se deram a conhecer. Graças à sua interpretação de temas dos anos 60 como "Stand By Me", "Here Comes The Night" e "Unchained Melody", Nelson e Sérgio, então com 17 e 21 anos, foram passando as eliminatórias e acabaram por vencer a final. Ainda em 1997, juntaram-se a Pedro Camilo e Telmo Miranda na efémera boyband Sétimo Céu e mais tarde, alcançaram ainda maior sucesso como os Anjos.



18. Bárbara Guimarães passou da TVI para a SIC (e casou-se em Punta Cana)




Foi em 1997 que Bárbara Guimarães, uma das mais notadas caras dos primeiros anos da TVI, trocou Queluz de Baixo por Carnaxide para apresentar na SIC a quarta edição do "Chuva de Estrelas", programa que conduziria por mais três temporadas, rapidamente ascendendo à primeira liga de personalidades televisivas nacionais.




Foi também neste ano que Bárbara Guimarães casou (não muito) secretamente em Punta Cana, na República Dominicana, com o então namorado Pedro Miguel Ramos. Uma cerimónia que se julgavam ter sido meramente simbólica mas afinal tinha validade legal, o que dificultou a oficialização do casamento de Bárbara Guimarães com Manuel Maria Carrilho em 2001. 

19. Outras estreias




Entre várias estreias de 1997, há que destacar em televisão dois dos mais famosos produtos de ficção nacional da RTP da segunda metade dos anos 90: "Riscos", a série adolescente precursora dos "Morangos Com Açúcar" e "Herman Enciclopédia", outro inigualável programa de Herman José que nos deu os inesquecíveis Diácono Remédios, Homens Do Norte, a Supertia e a Melga Shop. (Ambos os programas já tiveram o seu cromo aqui no blogue).


A 5 de Junho de 1997, era editado o primeiro número da revista Ana, acabando assim com o monopólio da revista Maria em termos de revistas tablóides com nome feminino. (Não, não teve logo a sua versão "mais atrevida", essa só surgiu em 2002).


Foi também em 1997 que aconteceu a primeira edição do Festival de Cinema Gay & Lésbico de Lisboa (actual Queer Lisboa), um dos primeiros eventos dedicados às artes e à cultura das comunidades LGBT de todo o mundo, que rapidamente se tornou um dos mais prestigiados festivais de cinema relacionados com essa temática a nível mundial. O certame também desde então sido referido como um grande contributo para uma maior aceitação e conhecimento da comunidade LGBT em Portugal. 

20. Os portugueses caem na tentação de ver "Tentação" 



Já na recta final do ano, a 26 de Dezembro de 1997, estreia o filme "Tentação", realizado por Joaquim Leitão e protagonizado por Joaquim de Almeida. Tal como "Adão E Eva" dois anos antes, o filme foi amplamente divulgado pela SIC e os portugueses acorreram para ver a história de um padre que se apaixona por uma toxicodependente (Cristina Câmara), batendo os recordes de bilheteira para um filme português. (Fica a promessa para um texto sobre este filme aqui no blogue para breve).

Para terminar, fica a pergunta para os leitores. Que memórias têm vocês do ano de 1997? Que acontecimento desse ano ficou esquecido neste texto e gostariam de ver referido?



terça-feira, 14 de março de 2017

"Time To Say Goodbye" Andrea Bocelli & Sarah Brightman (1996)

por Paulo Neto




O pugilista alemão Henry Maske foi uma das maiores figuras desportivas do seu país nos anos 90. Campeão olímpico de pesos médios em 1988 pela RDA, Maske tornou-se profissional após a reunificação da Alemanha em 1990 e nos seis anos seguintes venceu trinta combates consecutivos. 
E agora perguntam vocês: "O que é que um pugilista alemão tem a ver com este famosíssimo dueto de Andrea Bocelli e Sarah Brightman?". A resposta bem que podia ser "tudo", mas já lá vamos.



Andrea Bocelli nasceu a 22 de Setembro de 1958 em Lajatico, na província de Pisa. Nascido com problemas de visão devido a um glaucoma congénito, viria a perder totalmente a visão aos 12 anos durante um jogo de futebol em que estava à baliza e foi atingido com uma bola no olho. Mas esse duro revés só o levou a dedicar-se ainda mais à música, que estudava desde os seis anos. 

Em 1992, Bocelli gravou uma demo para uma canção que seria um dueto entre Zucchero e Luciano Pavarotti. Diz-se que este ficou tão impressionado que até disse a Zucchero para gravar a canção com Bocelli. Pavarotti e Zucchero acabariam por gravar de facto a canção "Miserere", mas Zucchero passou a requisitar Andrea Bocelli para alguns dos seus espectáculos e foi ao cantar na festa de aniversário de Zucchero que ele conseguiu um contrato discográfico.
Em 1994, Andrea Bocelli venceu a secção de novos talentos do Festival de San Remo com "Il Mare Calmo De La Serra", que viria também a ser o título do seu primeiro álbum. Ainda nesse ano, estreou-se numa ópera e cantou para o Papa João Paulo II. 
Em 1995, Bocelli voltou a San Remo, desta vez na competição principal, tendo ficado em quarto lugar com um certo tema chamada "Con Te Partiró", que viria a ser parte do seu segundo álbum. O tema não teve particularmente sucesso em Itália mas acabou por ser um estrondoso sucesso na Bélgica e na França em 1996.



E eis-nos chegado a Henry Maske. Aparentemente entre a sua entourage estava gente ligada à indústria musical, que soube como aproveitar a popularidade de Maske para promover certas músicas. Foi por exemplo devido ao uso de "The Conquest Of Paradise" durante a entrada de Maske em alguns dos seus combates, que o tema de Vangelis originalmente composto para a banda sonora do tema "1492 - Cristóvão Colombo" tornou-se um hit na Alemanha em 1995 (três anos após a sua edição) com o sucesso a espalhar-se a outros países europeus, incluindo Portugal (onde foi famosamente usado para campanhas políticas). A 23 de Novembro de 1996, para o combate final de Henry Maske contra o americano Virgil Hill, responsáveis da editora East West decidiram promover uma nova versão de "Con Te Partiró" com Andrea Bocelli em dueto com Sarah Brightman, reintitulada "Time To Say Goodbye", o único verso em inglês da nova versão. Brightman já tinha actuado anteriormente num dos combates do Maske e sem dúvida que os responsáveis da editora tinham em mente o sucesso popularíssimo dueto da ex-mulher de Andrew Lloyd Webber com José Carreras, "Amigos Para Siempre", o tema dos Jogos Olímpicos de 1992 e acalentavam o desejo de que este novo dueto pudesse repetir ou superar o sucesso daquele.
Bocelli e Brightman actuaram durante a abertura do combate entre Maske e Hill em Munique, que foi visto por 21 milhões de pessoas na televisão e a música foi tocada novamente no fim do combate, enquanto um emocionado Henry Maske (que perdeu o combate por decisão técnica, mas viria a ganhar no combate de desforra contra Hill em 2007) despediu-se de uma multidão que o ovacionava de pé.






E se a versão a solo de Andrea Bocelli já era extremamente poderosa, em dueto com Sarah Brightman, o tema era absolutamente esmagador e o impacto da sua exibição durante o combate não se fez esperar. "Time To Say Goodbye" subiu ao primeiro lugar do top alemão ainda em Dezembro de 1996, onde ficou durante 13 semanas, vendendo mais de 2 milhões e meio de cópias, sendo um dos singles mais vendidos de sempre na Alemanha. No ano seguinte, o sucesso do tema estendeu-se a outros países, tendo sido n.º 1 na Áustria, na Suíça e na Irlanda e n.º 2 no Reino Unido. Na senda do sucesso do tema, Andrea Bocelli editou nesse ano o álbum "Romanza" que além de "Con Te Partiró" e "Time To Say Goodbye", incluía faixas dos seus dois primeiros álbuns de originais. "Romanza" foi n.º 1 em vários países (incluindo Portugal) e vendeu mais de 20 milhões de discos, pelo que é o álbum mais vendido de sempre de um artista italiano. "Time To Say Goodbye" foi também incluído no álbum "Timeless" de Sarah Brightman.





O êxito do dueto catapultou Andrea Bocelli para um inesperado estatuto de popstar e até de sex-symbol (em 1998 foi eleito pela revista People como uma das 50 pessoas mais bonitas do mundo). Desde então já cantou no mundo inteiro, já fez dueto com este mundo e o outro (Céline Dion, Christina Aguilera, Eros Ramazzotti, Jennifer Lopez, Nelly Furtado, Dulce Pontes...), tem uma estrela no Passeio da Fama de Hollywood e já perdeu a conta aos discos de platina vendidos, alternando entre registos pop e incursões na ópera e no bel-canto.



Desde então "Time To Say Goodbye" já foi utilizado em vários filmes, séries e anúncios publicitários e versionado por inúmeros cantores, em várias línguas e de várias formas, como na versão dance-pop de 1999 "I Will Go With You" interpretada por Donna Summer
Recordo-me que quando a SIC transmitiu a edição da "Moda Roma 1997", o tema foi tocado durante a homenagem a Gianni Versace, assassinado nesse ano, enquanto algumas top models desciam as escadarias da Piazza de Spagna com lágrimas nos olhos. "Con Te Partiró" foi também tocado durante as cerimónia fúnebres de Eusébio em 2014 quando a urna contendo o seu corpo circulou no Estádio da Luz.

Para terminar, um divertido apontamento. Há uma parte na canção em que Andrea Bocelli repete várias vezes "con me, con me, con me", e eu na altura efabulava que o pobre do Andrea devia estar cheio de fome quando gravou a canção e por isso repetia que queria "comer, comer, comer".


Videoclip:


“Time to Say Goodbye” by Andrea Bocelli & Sarah Brightman from h2ofish on Vimeo.

Actuação em 2007:



"Con Te Partiró" no Festival de San Remo 1995:




sexta-feira, 10 de março de 2017

Buffy - A Caçadora de Vampiros (1997-2003)


Além do elenco carismático, um dos elementos que sempre vi louvado em reportagens e artigos sobre "Buffy The Vampire Slayer" ("Buffy - A Caçadora de Vampiros" em Portugal, "Buffy, a Caça-Vampiros" no Brasil) foi a escrita de Joss Whedon ("Firefly","Serenity"), o criador, produtor executivo, realizador de alguns episódios e argumentista principal para a série. Aliás, a sua ideia de subverter o cliché da loura indefesa que é atacada e morta nos filmes de terror; de dar poder a uma heroína aparentemente comum foi a sua base para o guião do filme de 1992 "Buffy The Vampire Slayer" [trailer].



Mas, segundo o próprio Whedon, o seu guião de um filme de terror sobre uma mulher poderosa foi transformado numa paródia de vampiros. A crítica também não apreciou muito o resultado final, mas recordo-me bem de ver o filme no final dos anos 90, se não estou enganado na SIC ( algum tempo antes do começo da exibição da série nesse canal).
Whedon teve mais tarde a oportunidade de levar o seu conceito de Buffy para a televisão, pretendendo utilizar a escola como metáfora monstruosa para os problemas e ansiedades do crescimentos de adolescentes para adultos.


Todos os genéricos iniciais de "Buffy - A Caçadora de Vampiros":




A série "Buffy The Vampire Slayer", com a sua cheerleader fútil Buffy Summers (Sarah Michelle Gellar, "Scream 2") transformada na poderosa caçadora de vampiros estreou no dia 10 de Março de 1997 e foi um êxito e ainda hoje continua a ser objecto de culto entre os fãs, e um marco na cultura popular, apesar de ter terminado em 2003, ao fim de 7 temporadas, num total de 144 episódios.


A série teve continuação oficial em quatro "temporadas" de banda desenhada entre 2007 e 2011; e claro, em 1999 deu origem à série derivada "Angel" (5 temporadas entre 1999 e 2004) protagonizada pelo vampiro homónimo (desempenhado por David Boreanaz) que teve uma relação romântica com a caçadora de vampiros, e outros actores de "Buffy" (na altura na quarta temporada) e com um tom geral mais negro que a série "mãe".


Quando "Buffy" passou na SIC a partir de Janeiro de 1999 vi as duas primeiras temporadas, mas depois mudaram o horário até à sua passagem para a SIC Radical, visto que eu não tinha TV Cabo só via alguns episódios muito esporadicamente em casa de familiares.


Curiosamente, o meu "crush" na série não era a loira protagonista mas Charisma Carpenter no papel da fútil e vaidosa antagonista (pelo menos no inicio) de Buffy: a cheerleader Cordelia.

O elenco principal de suporte a Buffy incluia o seu mentor Giles (Anthony Head), a colega estudiosa Willow (que ao longo da série evolui de estudante brilhante sem aptidões sociais e uma mulher mais poderosa, e até literalmente, como uma bruxa. A personagem é ainda hoje um dos ícones lésbicos mais mencionados na cultura pop. Este papel ficou associado à actriz Alyson Hannigan, que também devem reconhecer da saga "American Pie") e o comic relief Xander (Nicholas Brendon). Outro favoritos dos fãs é o vampiro Spike (James Marsters) que começa como vilão mas passa ao estatuto de anti-herói e até amante de Buffy.

A acção da série passa-se em Sunnydale, uma fictícia cidadezinha da California situada em cima da "Boca do Inferno" (não a de Cascais) um portal de onde surgem todo o tipo de ameaças sobrenaturais que Buffy e os seus aliados vão combater, incluindo obviamente vampiros, mas também, demónios, fantasmas, zombies, lobisomens e também vilões humanos "normais".





Vídeo da reunião do elenco em 2017 por ocasião do 20º Aniversário da série:



Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos"Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

terça-feira, 7 de março de 2017

Jackass (2000-2002)

Hello, I'm Paulo Neto. Welcome to Enciclopédia de Cromos!

Tecnicamente, jackass é um termo em inglês para designar um burro macho mas que também pode ser usado para definir um indivíduo que se comporta como um parvalhão. E em 2000 surgiu na MTV um programa com um número de indivíduos basicamente a comportarem-se como parvalhões. Como tal, o programa não podia ter outro nome que não "Jackass" e rapidamente tornou-se um exemplo primordial de um programa tão mau que dá à volta e fica com piada.



A ideia para o programa começou em 1998 através de vídeos produzidos pela revista Big Brother, direccionada a adeptos da subcultura do skateboarding. A revista tinha vários colaboradores que viriam a fazer parte do elenco do programa. Um deles era Johnny Knoxville (nascido Philipp John Clapp Jr. na cidade do estado do Tennessee que adoptou como apelido artístico), então um actor e guionista da segunda divisão distrital, que teve a ideia de um vídeo em que ele serviria de cobaia para testar vários mecanismos de segurança como tasers, gás pimenta ou levar um tiro vestindo um colete anti-balas vestido. Esses stunts foram incluídos num dos filmes produzidos pela Big Brother. O director da revista, Jeff Tremaine, começou então a trabalhar com Knoxville numa ideia para um programa de televisão que misturava desportos radicais, partidas tipo apanhados, acções autoflagelantes e outros actos tresloucados. O realizador Spike Jonze, amigo de Tremaine, aderiu à produção do projecto e no dia 1 de Outubro de 2000, o primeiro episódio de "Jackass" estreava na MTV americana, tendo estreado na MTV Europe (que era a que chegava a Portugal antes de termos a nossa MTV nacional) no ano seguinte.

Wee Man, Ehren McGhehy, Steve-O, David England, Preston Lacy,
Brandon Di Camillo, Ryan Dunn, Bam Margera, Johnny Knoxville, Chris Pontius

Além de Johnny Knoxville, que cedo se afirmou como o líder carismático da pandilha de jackasses, o elenco do programa era constituído por Chris Pontius aka "The Party Boy", para quem qualquer desculpa era boa para tirar as roupas e ficar apenas de tanga; o skater Brandon "Bam" Margera e seus amigos Ryan Dunn (falecido em 2011 num acidente de viação), Brandon DiCamillo, Chris Raab ou "Raab Himself" e Rake Yohn; outros colaboradores da Big Brother como Dave England, Rick Kosick e Ehren McGhehy; Steve Glover ou "Steve-O", o mais disposto a subir a fasquia da loucura; e a dupla de extremos opostos, o pequenino Jason "Wee Man" Acuña e o grande e gordo Preston Lacy. Jeff Tremaine e o operador de câmara de origem bielorrussa Dmitry Elyashkevich também apareciam regularmente.



Eis algumas coisas que eu recordo do programa
- Cada episódio começava com a frase "Hello I'm Johnny Knoxville. Welcome to Jackass." embora nem sempre fosse o próprio a dizê-la.
- A música do genérico é "Corona" da banda punk-rock Minutemen, originalmente editada em 1984.
- Alguns dos segmentos eram tipo programa de apanhados onde os membros do elenco apanhavam pessoas na rua. Recordo-me por exemplo de Steve-O com andas a cair no meio das ruas de Los Angeles, Johnny Knoxville caracterizado como idoso a cair na rua (mas quando as pessoas vinham ao seu auxílio ficavam surpreendidas ao ver aquele velhote tinha afinal a agilidade de alguém mais novo), Ehren McGhehy vestido de fada dos parquímetros a meter moedas nos ditos cujos ou o Wee Man a fugir de um carrinho de bebé a que foi pedido a um transeunte para tomar conta.
- Outro segmento recorrente era aquele em que Bam Margera pregava partidas à sua família: o pai Phil, a mãe April, o tio Don Vito e o irmão Jess, como por exemplo acordar os pais das formas mais barulhentas e passíveis de lhes causar um enfarte. Era bem visível que nas caras do casal Margera se podia ler: "Andámos nós a criar um filho para isto!"  
- Um dos segmentos mais famosos é aquele em que Johnny Knoxville leva com vários ataques às suas partes baixas (ainda que protegidas por uma conquilha) na forma de balas, frutas, martelos e pontapés de crianças.
- Algumas celebridades apareceram no programa como Gene Simmons dos Kiss, o "deus" do skate Tony Hawk e Brad Pitt.
- Além de April Margera, a única presença feminina regular na série foi a da modelo e actriz Stephanie Hodge, geralmente a fazer de cheerleader.
- Mesmo no meio de gente tão maluca, Steve-O era aquele que levava os actos de loucura a outros níveis, sobretudo os mais autoflageladores como agrafar as nádegas.
- No entanto, o acto que mais me ficou na memória foi executado por Dave England que fez uma omelete de vomitado, cozinhada com os ovos e outros ingredientes previamente ingeridos e regurgitados por ele. Mesmo surgindo em rodapé uma nota de que a omelete foi cozinhada a uma temperatura que eliminava os elementos tóxicos do vómito, fez-me impressão ver depois England a comer a sua própria confecção estomacal.  



Apesar de no início de cada episódio surgir uma mensagem que se pedia aos telespectadores que não repetissem as acções executadas nesse programa e afirmando que a produção não veria nem abriria filmes enviados de pessoas a serem jackasses - e de surgir ocasionalmente uma mensagem em rodapé para não reproduzir uma actividade especialmente perigosa - o programa foi acusado e culpabilizado pelas mortes e ferimentos de jovens que tentavam recrear os stunts do programa. Chegou a haver um episódio do CSI em que um grupo de adolescentes era morto durante a filmagem de um vídeo tipo "Jackass". 

Eu lembro-me de ver o programa às sextas-feiras à noite com o meu irmão (numa altura em que raramente gostávamos das mesmas coisas). O nosso pai viu uma vez um episódio e riu-se ainda mais que nós, ao passo que sempre que calhava a nossa mãe estar na sala quando víamos "Jackass", ela ficava com um ar de que não percebia que raio de graça havia naquilo. 

Ao todo houve 25 episódios exibidos em três temporadas. A franchise gerou ainda três filmes: "Jackass: The Movie" (2002), "Jackass: Number Two" (2006) e "Jackass 3D" (2010) e várias spin-offs: "Viva La Bam", "Wildboyz" e "Nitrocircus". Outros países também tiveram a sua versão nacional de "Jackass" como o "Dirty Sanchez" (Reino Unido), "Dudesons" (Finlândia), "Tokyo Shock Boys" (Japão) e "Ogags" (Filipinas). Os vídeos do francês Remi Gaillard também foram influenciados pelo programa. 

O sucesso de "Jackass" acabou por trazer fama ao elenco e deu-lhes várias oportunidades no cinema e na televisão. Hollywood acolheu Johnny Knoxville para papéis em "Men In Black 2" e "Os Três Duques" e foi a voz do Leonardo na infame adaptação de Michael Bay das Tartarugas Ninja. Chris Pontius entrou no filme "Somewhere" de Sofia Coppola e Steve-O apresentou "Killer Karaoke", que por cá teve uma adaptação na SIC sob o título "Canta Se Puderes". 
Vários membros do elenco de "Jackass" têm dado pistas que um quarto filme está para breve, em jeito de homenagem a Ryan Dunn. 





     

quinta-feira, 2 de março de 2017

Sucessos multilingues de Sash! (1997-2002)

por Paulo Neto

Os anos 90 foram a década do euro-dance. Foram incontáveis os hits deste género que fizeram furor nas pistas de dança europeias (e não só), que trepavam pelas tabelas de vendas acima e que eram condensados em colectâneas campeãs de vendas. (Como era o caso das compilações da Vidisco em Portugal). 

Sascha Lappesen


Em 1997, um trio alemão de DJs e produtores marcou a diferença ao produzir três enormes sucessos de euro-dance nesse ano em três línguas diferentes. Depois de terem colaborado juntos no tema "Indian Rave" que editaram sob o nome de Careca, Ralf Kappmeier, Thomas Ludke e Sascha Lappesen formaram em 1995 o projecto Sash!. Não se sabe se foi por ter o nome mais parecido com o do colectivo, mas Sascha Lappesen foi aquele que foi a cara do grupo desde o início nas fotos oficiais, nas capas dos discos e nos videoclips, enquanto os outros dois preferiam ficar no bastidores. O primeiro single do grupo "It's My Life" foi um sucesso moderado em 1996 na Alemanha.





Mas no início de 1997, o lançamento do single "Encore Une Fois" lançaria definitivamente os Sash! para a ribalta internacional já que o tema alcançou o top 5 em vários países (foi n.º 1 na Irlanda) e tornou-se um dos sucessos das pistas de dança desse ano. Além da fortíssima batida, o grande atractivo do tema era sem dúvida a voz de Sabine Ohmes, que dizia num francês irrepreensível "Mes dames, messieurs, le disc-jockey Sash! est de retour" antes de gritar o título no refrão. Apesar da sua pronúncia impecável da língua de Voltaire, Sabine Ohmes é alemã e não de um país francófono. Ainda assim, Sabine lançou em 1998 dois singles a solo em francês sob o nome de Encore na label dos Sash!: "Le Disc-Jockey" e "Le Paradis". Ela ainda actua ocasionalmente ao vivo com os Sash!. 





Para o segundo single, os Sash! optaram pela língua de Cervantes, o castelhano. "Ecuador" contava com a participação do DJ hispano-alemão Adrian Rodriguez ,que numa pronúncia similar à de um político latino-americano no meio de um discurso de campanha declamava: "Vamonos a la viaje para buscarmos los sonidos magicos... DE ECUADOR!". "Ecuador" foi outro sucesso internacional, atingindo n.º 1 do top da Bélgica flamenga e n.º 2 do Reino Unido. Não sei o tema foi um sucesso no país sul-americano do título, mas quero acreditar que. pelo menos num universo paralelo, este é o hino nacional do Equador e é tocado nos jogos da selecção equatoriana. O que é certo é que o videoclip não foi filmado no Equador mas sim nas Ilhas Canárias, em Tenerife e Lanzarote. 





Para o seu terceiro e último hit do ano de 1997, a par da edição do álbum "It's My Life", os Sash! recorreram desta vez ao inglês para o single "Stay", interpretado pela cantora americana radicada na Alemanha Francine McCoy que usava o nome artístico de La Trec. (Nem quero pensar nas piadas, se tivesse optado por responder ao nome de La Trac!). Ao contrário dos outros dois temas, em que as batidas dance tinham destaque principal e as partes vocais eram declamadas e algo acessórias, "Stay" tinha uma estrutura mais usual de uma canção. Ainda assim, a minha parte preferida é o início declamado de LaTrec, sobretudo o verso "Do you remember when we used to have so much fun?". No videoclip, Sascha Lappesen é perseguido por vários agentes misteriosos (um dos perseguidores, a mulher de cabelo vermelho ficou-me particularmente na retina). Tal como os outros dois singles, "Stay" chegou ao n.º 2 do top britânico. Aliás, os Sash! detêm a dúbia honra do grupo com mais singles que atingiram o 2.º lugar do top britânico (num total de cinco) sem nunca terem nenhum que tivesse chegado ao n.º 1. Ao que parece, La Trec vive actualmente na Holanda. 





Em 1998, para o primeiro single do álbum "Life Goes On", os Sash! recorreram a mais outro idioma, o italiano, para "La Primavera" com as partes vocais a cargo de Patrizia Salvatore. O videoclip, filmado no Hawaii, era de encher o olho.

A partir daí, a maioria dos hits de Sash! foram cantados em inglês, à excepção de novamente o castelhano em "Adelante" (2000) e do japonês em "Ganbareh" (2002), destacando-se colaborações com credenciados intérpretes como a britânica Tina Cousins ("Mysterious Times", 1998 e "Just Around The Hill", 2000), a americana Shannon, ("Move Mania", 1998), o célebre Dr. Alban ("Colour The World", 1999) e Boy George ("Run", 2002). 

Mesmo sem o enorme sucesso que alcançaram entre 1997 e 2000, o trio continua no activo, a editar material novo e a actuar ao vivo em todo o mundo. O êxito significativo mais recente dos Sash! foi em 2008 através de um mash-up que misturava "Encore Une Fois" com o tema "Raindrops" dos Stunt. A intérprete de "Raindrops" era a britânica Molly Smitten-Downs que viria a representar o Reino Unido no Festival da Eurovisão de 2014.  



Sascha Lappesen em 2016

Extras:

"Mysterious Times" (feat. Tina Cousins)
(recordo-me que Lappesen e Cousins actuaram com esta música em Portugal na "Roda Dos Milhões")


"Move Mania" (feat. Shannon)


"Colour The World" (feat. Dr. Alban)


"Adelante"


"Ganbareh"







sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Steven Bradbury, o campeão olímpico mais sortudo (2002)

por Paulo Neto



Salt Lake City, capital do estado americano do Utah, acolheu os 19.ºs Jogos Olímpicos de Inverno entre 8 e 24 de Fevereiro de 2002. Apesar do escândalo do processo da candidatura da cidade, quando em 1998 veio a público que alguns membros do Comité Olímpico Internacional receberam subornos por parte de pessoas pertencentes à comissão de candidatura de Salt Lake City, e dos ataques de 11 de Setembro de 2001 apenas uns meses antes, os Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 acabaram mesmo por acontecer. Durante a cerimónia de abertura, foi erguida uma bandeira dos Estados Unidos encontrada nos destroços Ground Zero no 11 de Setembro. No entanto, os Jogos de Salt Lake City decorreram sem problemas de organização e o destaque foi todo para os brilhantes feitos dos atletas. 
Uma ideia que se estreou nestes Jogos que continuou nas outras edições subsequentes foi a introdução de uma praça onde se realizaria as cerimónias de entregas de medalhas diante dos fãs, servindo também para concertos e outras actividades culturais.

Atletas americanos transportam uma bandeira americana do Ground Zero
na cerimónia de abertura

2399 atletas de 78 países (Portugal não participou) competiram em quinze modalidades. O skeleton regressou ao programa olímpico após 54 anos. O norueguês Ole Einar Bjorndalen e a croata Janica Kostelic foram as principais estrelas dos jogos: Bjorndalen ganhou todas as quatro provas da competição masculina de biatlo, afirmando-se como o maior atleta de sempre deste desporto; Kostelic, acabada de completar 20 anos, ganhou três medalhas de ouro e uma de prata no esqui alpino. A americana Vonetta Flowers tornou-se a primeira atleta negra a ganhar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos de Inverno, em parceria com Jill Bakken no boblsed feminino. Ao fim de 50 anos, o Canadá alcançou novamente o ouro no hóquei no gelo, por excelência o desporto nacional canadiano, tanto em masculinos como em femininos. A maior controvérsia surgiu na patinagem artística, sobre alegadas pressões e subornos a alguns juízes, que resultou no afastamento de uma juíza francesa e com a medalha de ouro a ser atribuída na prova de pares em ex-aqueo a um par russo e ao par canadiano que originalmente terminara em segundo e que alegadamente teria sido prejudicado pelos juízes.

Apollo Anton Ohno (EUA)


Um dos desportos mais emocionantes nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 foi a patinagem de velocidade em pista curta, também conhecida como short track. Ao contrário da patinagem velocidade em pista longa em que só competem dois atletas de cada vez e contra o relógio em vez de um contra o outro, em short track um número de quatro a seis atletas dão voltas a uma pista com pouco mais de cem metros de perímetro ao longo de distância que vão dos 500 aos 1500 metros e é tudo ao molho e fé em Deus. Quedas e despistes são bastante frequentes e qualquer obstrução, empurrão ou colisão resulta na desclassificação dos atletas. Coreia do Sul, China, Canadá e Estados Unidos são as principais potências deste desporto e confirmaram o seu domínio em Salt Lake City.

O pódio dos 1000m femininos:
a muito jovem Ko Gi-Hyun e as duas Yang Yang

O pódio dos 1000m femininos teve a particularidade duas chinesas chamadas Yang Yang: a mais velha, designada por Yang Yang (A) ganhou o ouro e a mais nova, referida como Yang Yang (S), ganhou o bronze. Os media vieram a descobrir que os nomes delas eram iguais em letras romanas mas diferentes em caracteres chineses, embora se pronunciassem exactamente da mesma maneira. A (A) chamava-se "bandeira esvoaçante" e a (S) "sol nascente". Yang Yang (A) também venceu os 500m e foi a primeira atleta da China a ganhar uma medalha de ouro em Jogos Olímpicos de Inverno.
A sul-coreana Ko Gi-Hyun tornou-se aos 15 anos uma das mais jovens campeãs olímpicas de sempre ao vencer os 1500m femininos. Foi Ko quem esteve no pódio das duas Yang Yang nos 1000m.

O público americano teve o seu herói local num atleta que tinha o espectacular nome de Apollo Anton Ohno que venceu os 1500m masculinos, num triunfo controverso. O coreano Kim Dong-Sung tinha sido o primeiro a cortar a meta mas quando ele ia a dar a volta de honra com uma bandeira na mão, descobriu que tinha sido desclassificado pelos juízes por ter obstruído uma passagem de Ohno, a quem foi atribuída a vitória. Furiosos, os adeptos coreanos entupiram as caixas de correio de e-mail do COI e do Comité Olímpicos dos Estados Unidos (mais de 16 mil e-mails!) e angariaram dinheiro para criar um réplica de uma medalha de ouro que foi entregue a Kim quando regressou ao seu país.

Mas a mais extraordinária história da patinagem de short track, senão mesmo de todos os Jogos Olímpicos de Inverno de 2002 foi a dos 1000 metros masculinos, uma história semelhante à da lebre e da tartaruga, que recordou mais uma vez que em solo olímpico como em tudo na vida, não há vencedores antecipados. Aos 28 anos, o australiano Steven Bradbury estava nos seus quartos Jogos Olímpicos, ou seja desde que o short track tinha sido introduzido no programa olímpico em 1992, e em 1994 fizera parte da equipa australiana que ganhou a medalha de bronze na prova de estafeta masculina, a primeira medalha da Austrália em Jogos Olímpicos de Inverno. Como atleta individual porém nunca ganhara uma medalha em Jogos Olímpicos e Campeonatos do Mundo. Além disso desde 1994 que a sua carreira tinha sido minada por lesões. Numa prova em Montreal em 1995, durante uma queda, a lâmina do patim de outro atleta fez-lhe um corte na coxa que foi suturada com 111 pontos. Em 2000, durante uma corrida de treino, Bradbury partiu duas vértebras do pescoço durante uma queda e não só ficou fora de toda a época de 2000-01 como teve de usar uma pescoceira aparafusada ao crânio durante seis semanas.



Steven Bradbury encarava os Jogos de Salt Lake City como o ocaso da sua carreira, longe da velocidade de outros tempos. Tinha financiado a sua preparação a vender patins que ele próprio fabricava na garagem dos seus pais. Mas quando se apresentou para a sua prova de 1000m, uma série de acontecimentos desenrolou-se a seu favor. Nos quartos de final, foi terceiro na sua corrida mas seguiu em frente devido à desclassificação do primeiro classificado por obstrução. Nas semifinais, na esperança que os seus adversários mais credenciados sofressem uma queda ou uma desclassificação, manteve-se na retaguarda da corrida, apurando-se para a final quando dois atletas caíram. Na final, competindo contra Apollo Anton Ohno, o canadiano Mathieu Turcotte, o coreano Ahn Hyun-Soo e o chinês Jiajun Li, Bradbury manteve a mesma estratégia seguindo na cauda da corrida e esperando de novo que o infortúnio dos seus adversários mais rápidos fosse a sua sorte.




E assim aconteceu: na entrada para a última volta, Ohno seguia na frente quando Li tentou ultrapassar-lhe por fora, tocando-lhe no braço. Esse gesto fez Ohno desequilibrar-se, arrastando Li (que seria desclassificado), Ahn e Turcotte na queda. Com todos os outros no chão, um incrédulo Steven Bradbury cruzou a meta em primeiro lugar. Ohno e Turcotte só tiveram tempo de se levantar e conseguir a prata e o bronze. Era a primeira medalha de ouro em Jogos Olímpicos de Inverno para um atleta do Hemisfério Sul. Curiosamente na noite anterior à final, Bradbury tinha oferecido um par de patins feitos por ele a Ohno e pedido para que ele mencionasse a sua marca caso ganhasse o ouro.




Após o seu inesperado triunfo olímpico e subsequente fim de carreira desportiva. Steven Bradbury trabalhou como comentador desportivo para a televisão australiana e orador motivacional, envolveu-se no desporto motorizado e em 2005 publicou a sua autobiografia apropriadamente intitulada "Last Man Standing". A designação de uma vitória inesperada e improvável como "fazer um Bradbury" entrou na gíria australiana.



 

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