terça-feira, 1 de outubro de 2013

Chuva de Estrelas (1993-2000)

por Paulo Neto

Após um ano no ar, a SIC ainda voava baixinho mas aos poucos um Portugal sedento de mudança passava de estranhar a entranhar uma nova forma de fazer televisão, tão diferente a que estava habituado. Com a TVI nos seus primórdios (quando se designava por a 4) a ser orientada pela Igreja e sem ainda sem dar muita prioridade às audiências, coube à SIC fazer frente à RTP e transformar o panorama televisivo nacional, aproveitando o zeitgeist favorável: uma maior abertura de mentalidades na sociedade, a prosperidade económica proporcionada pela União Europeia e um país que se tornava cada vez mais cosmopolita menos fechado sobre si. Por isso, bastaram mais dois anos para que a estação de Carnaxide fosse líder de audiências durante o resto da década de 90. 


Estreado a 1 de Outubro de 1993, o "Chuva de Estrelas" é tido como um dos programas cruciais para a ascensão da SIC. Ainda hoje, são poucos os que não o referem como um dos programas mais marcantes do canal de Pinto Balsemão. Misturando puro entretenimento, uma excelente produção, diverso talento musical e uma apresentadora por quem Portugal inteiro se apaixonou, o sucesso não se fez esperar.

O programa era uma adaptação de um formato originário da Holanda, "The Sound Mix Show", estreado naquele país em 1985. Em cada sessão, um punhado de concorrentes tinha a oportunidade de se transformar numa estrela da música e cantar como ela. Após as eliminatórias, tinham lugar as semifinais e a grande final onde se coroava o vencedor absoluto. 

Em Portugal, "Chuva de Estrelas" teve sete edições, exibidas entre 1993 e 2000. As duas primeiras foram apresentadas por Catarina Furtado, a terceira por José Nuno Martins e as restantes quatro por Bárbara Guimarães.


1993/1994 Ainda hoje muitos apontam como a primeira como melhor edição do programa embora tivesse o cenário mais pequeno e tivesse sido toda emitida em diferido, incluindo a final. Em cada emissão, o público da assistência escolhia um concorrente apurado para a fase seguinte e o júri de convidados outro. Pelas cadeiras do júri passaram Simone de Oliveira, Paco Bandeira e Lena D'Água na fase das eliminatória e Sérgio Godinho, Rita Guerra e Adelaide Ferreira nas semifinais. A vencedora foi Sara Tavares que imitou Whitney Houston e ainda em 1994 venceria o Festival da Canção com "Chamar a Música". Outros concorrentes notórios foram Paula Morais de Sá (4 Non Blondes), Jacinta Matos (Ella Fitzgerald), Pedro Miguéis (Righteous Brothers) e Ana Ritta (Mariah Carey, que cantaria a versão alternativa do tema dos "Olhos de Água").

Essa primeira edição também foi especial para mim porque nela concorreu um professor da minha escola...que morava no apartamento ao lado do meu. José Lucas Lemos, o "stôr Lucas", era professor de Educação Física mas tinha uma carreira paralela como cantor. Ele imitou Freddy Mercury cantando "We Are The Champions", mas apesar dos elogios não passou à semifinal.
Agora outra revelação: ainda nesse ano houve na minha escola um "Chuva de Estrelas" onde eu concorri! Como a canção que eu queria inicialmente cantar era demasiado complexa para ser adaptada ("I'd Do Anything For Love" dos Meat Loaf), foi o próprio stôr Lucas que sugeriu que eu cantasse a mesma música que ele tinha levado ao "Chuva..." e foi assim que subi ao palco como Freddy Mercury, com T-shirt de alças branca, calças verdes e bigodes e pêlos do peito pintados (pois eu ainda não era prolífico em pilosidades como agora). Apesar dos elogios que recebi, a vitória sorriu à minha colega que tinha encarnado outra estrela defunta, Janis Joplin.

1994/1995 Várias mudanças ocorreram nesta série: um cenário maior (reciclado do "Mini Chuva de Estrelas"), um tema de genérico cantado por Nucha, um corpo de baile e uma final em directo do Coliseu dos Recreios, com o vencedor escolhido pelos telespectadores. Ramón Galarza e Pilar Homem de Mello (depois substituída por Rita Guerra) eram o júri residente ao qual se juntava um convidado em cada sessão. A partir desta edição, o número de concorrentes apurados em cada sessão podia ir de um a três.  
Rapando a sua cabeça para encarnar Sinead O'Connor, Inês Santos foi a vencedora desta edição. Mas esta também foi a edição de João Pedro Pais, que ficou em segundo lugar imitando os Delfins. Outros concorrentes a destacar são André Letra (dos Miguel e André, como Eros Ramazotti), Marta Plantier (Aretha Franklin), Carlos Coincas (Luís Represas) e João Portugal (Roupa Nova). Também recordo um concorrente cujo nome não me lembro que cantou "Forever Young" dos Alphaville, uma canção que até então lembrava-me muito pouco e passou a ser uma das minhas favoritas de sempre. Nesta edição, participou outro concorrente da minha cidade, Luís Filipe Lourenço, a cantar "One" dos U2, tendo chegado a uma semifinal.  



1995/1996 Com Catarina Furtado a colocar um hiato na sua carreira televisiva para estudar representação em Londres, José Nuno Martins apresentou a terceira edição e o programa passou a ser emitido ao Domingo. Rita Ribeiro e Miguel Ângelo eram os júris residentes. Outra novidade era que bandas também podiam concorrer. 
O vencedor foi  Rui Faria como Elton John, que foi o representante português na primeira final europeia dos Chuva de Estrelas onde ficou em segundo lugar. Outra concorrente notória foi Célia Lawson (Oleta Adams) que ganhou o Festival da Canção em 1997. Sofia Lisboa (Céline Dion) não passou da sua eliminatória (ao contrário da sua irmã Sónia que tinha chegado à final na edição transacta como Mireille Mathieu)  mas conheceria grande sucesso como a parcela feminina dos Silence 4. 


1997 Já com Bárbara Guimarães a conduzir a apresentação e Fernando Martins como júri residente, esta foi a edição mais curta com doze eliminatórias onde o apurado seguia directamente para a final. Jessi Leal imitando Kate Bush foi a vencedora, mas a interpretação de Pedro Bragado como Prince também ficou na memória. O actor Manuel Marques também passou  por esta edição cantando um tema de "Miss Saigon".



1997/1998 Encarnando Michael Stipe dos REM, Carlos Bruno foi o indiscutível vencedor da quinta edição e ainda por cima, também venceu a final europeia. Mas quem teve quase tão protagonismo foi a mãe do próprio Carlos, que desatava num choro semi-histérico sempre que o filho cantava, algo que foi amplamente explorado na realização do programa, até na final europeia. Lembro-me que a senhora foi muito criticada por fazer aquela figura.
Em segundo lugar ficou Paula Teixeira (Gloria Estefan) um rosto que ainda hoje reconhecemos por fazer linguagem gestual em vários programas. Sofia Barbosa (Oleta Adams), vencedora da primeira Operação Triunfo e Vanessa Silva (Amanda Marshall) também foram finalistas desta edição.


1998/1999 Ricardo Sousa e Sandra Godinho conheceram-se no casting para o programa e decidiram concorrer em dueto como Meat Loaf e Ellen Foley, e em dueto venceram. Miguel Belo, dos Lulla Bye (The Verve) e Teresa Radamanto (Barbra Streisand) também concorreram nesta edição.


1999/2000 Na última edição, vitória para Nádia Sousa, vocalista dos Spelling Nadja,  num papel químico de Edith Piaf.


Mas sem retirar nenhum mérito a José Nuno Martins e muito menos a Bárbara Guimarães, sem dúvida que eu e a maioria dos portugueses recordam sobretudo as edições do "Chuva de Estrelas" apresentadas por Catarina Furtado. Já a conhecíamos do Top + na RTP e dos blocos da MTV exibidos nos primórdios da SIC mas foi aqui que ela encantou Portugal tão ou mais que os concorrentes que cantavam (lembram-se do slogan: "Cante ou encante com o Chuva de Estrelas!"). Aliando a descontracção e irreverência próprias da sua idade (tinha 21 anos aquando da primeira edição) e uma maturidade profissional, Catarina tornou-se a estrela do programa e a namoradinha de Portugal de então, conquistando miúdos e graúdos, homens e mulheres. Juntando-se uma produção de qualidade e vários talentos descobertos por esse Portugal fora, o programa conquistou Portugal e foi peça importante na incrível ascensão da SIC a líder de audiências. 
Recordo-me de quanto os fins de tarde de sexta-feira nessa altura eram tão deliciosos para mim, com o início do fim-de-semana e um serão televisivo em cheio em perspectiva, primeiro com Catarina Furtado e o "Chuva de Estrelas" e depois Alexandra Lencastre "Na Cama Com..." quem quer fosse. E quem ainda não se recorda do tema de encerramento, adaptado do "Thank You For The Music" dos ABBA?

Vivo para a música
Canções que canto
Com a alegria e o encanto

P'ra viver sem ela
Como é que eu vou fazer
Como vai ser

Sem uma canção, uma ilusão
Por isso vivo para a música
Pelo tanto que me dá.

Genérico do programa:



Final da 1.ª temporada:


Final da 7.ª temporada





segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Marujinho - Chocolate


Uma reportagem do iOnline informa que o Marujinho "nasceu" em 1985 e descreve-o do seguinte modo: "A felicidade tinha um preço: 20 escudos. O Marujinho era um chocolate pequeno, recheado de mentol – tipo After Eight – numa embalagem branca com marujos desenhados."
Um chocolate que descobri tardiamente, mas do qual que fiquei fã, comprando grande quantidade numa mini-mercado perto de casa. Adorava comer as barrinhas de Marujinho com pacotes de batas fritas, para fazer um contraste gastronómico explosivo. Foi daquelas coisas que desapareceram das prateleiras discretamente, mas que depois recordamos com saudade.E por ser barato dava para comprar vários de uma vez! Não me importava nada que voltasse!

Este cromo ficou nos rascunhos durante cerca de oito meses, visto que enviei um e-mail a pedir mais informações à Imperial, e até ao momento não recebi resposta. Entretanto encontrei uma imagem por acaso na Internet: "Distrobidos".

Se conseguirem encomendar uma caixa de Marujinhos, avisem a malta!

Cromo sugerido pelo leitor João Craveiro.

Caro leitor, pode falar connosco nos comentários do artigo, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos"Visite-nos também no "Tumblr - Enciclopédia de Cromos".

sábado, 28 de setembro de 2013

Caixa Alta (1989/1990)

por Paulo Neto

A RTP Memória proporcionou-me a oportunidade de rever uma série, da qual pouco me lembrava mas que por alguma razão nunca me tinha esquecido. Essa série é "Caixa Alta", exibida na RTP entre 18 de Novembro 1989 e 7 de Janeiro de 1990.



A série foi o primeiro papel como actriz de Helena Laureano, que em 1988 foi 1.ª Dama de Honor, Miss Fotogenia e Miss Simpatia no concurso Miss Portugal, tendo sido a nossa representante no concurso Miss Mundo desse ano onde ganhou o prémio de Miss Personalidade. 




Helena Laureano encarnava Francisca, uma bonita e astuta jornalista do jornal "A Cidade" que um dia tem a oportunidade de entrevistar Franz Shteller (Brian Bowyer), um industrial alemão que é um dos homens mais ricos do mundo e que se acaba de mudar para Sintra. Porém, a entrevista é apenas um pretexto para que Francisca investigue o paradeiro dos irmãos de Shteller, que acredita que fugiram da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial e passaram por Portugal. Francisca começa a investigar com a ajuda do fotógrafo Xavier (Jorge Gonçalves) mas depressa se apercebem que não só há quem esteja disposto a tudo para os impedir de descobrir o quer que seja como desvendam importantes ligações entre a extracção de volfrâmio em Portugal e as relações entre Hitler e Salazar durante a Segunda Grande Guerra. 
A investigação leva-os a lugares como São Tomé & Príncipe, Marrocos e Moncorvo, onde Alda (Adelaide João), uma idosa meio senil, vive num asilo será a chave do mistério. Ao longo da trama, nota-se alguma atracção mútua entre Francisca e Xavier mas ambos preferem manter a relação no campo da amizade.



A série teve sete episódios e foi realizada por Tozé Martinho (e aliás reunia a mesma equipa de autoria e produção de "Os Homens da Segurança") e foi filmada em locais como Sintra, Trás-Os-Montes, São Tomé & Príncipe e Marrocos. Do elenco também faziam parte Morais e Castro, Luís Mata, Maria das Graças, Cristina Homem de Mello, Mila Ferreira, Linda Silva e um então pouco conhecido João Baião, no papel de Pisco, o jornalista responsável pela secção de Cultura do jornal onde trabalha Francisca. Pelo que pude rever, a trama até nem era má e tinha momentos interessantes, sobretudo devido à química entre os dois protagonistas. Porém a execução deixou muito a desejar, com performances amadoras e muitas falhas técnicas. Elementos esses que não escaparam ao olhar atento dos Gato Fedorento para a sua rubrica de "Tesourinhos Deprimentes".



Seja como for, "Caixa Alta" fica para a história como o primeiro trabalho na representação de Helena Laureano que viria a tornar-se uma das actrizes mais famosas da nossa praça. Eu não fazia ideia quem era o protagonista masculino, Jorge Gonçalves, mas o IMDB indica que ele tem feito várias participações em telenovelas como "Dei-te Quase Tudo" e "Doce Fugitiva" e séries como "Inspector Max" e "Conta-me Como Foi".      

Genérico:



Obrigado ao site Brinca, Brincando pelas fotografias e informação adicional.

Link: Caixa Alta - Retroescavadora, RTP Memoria - Canais TV - RTP

A série está disponível no portal de arquivos da RTP.

Estamos Nessa (1983-84)

 
Regra geral, evito abordar aqui no blog assuntos em que a informação disponível (na Internet, revistas, etc) é escassa ou pouco diversificada. Mas não pude resistir a falar de "Estamos Nessa", um programa de televisão, do qual não tenho memória, mas encontrei uma singela menção na página de programação de uma revista de 1983. Ao colocar essa página online no Facebook, em busca de algum leitor com melhor memória que eu, fui pesquisando no Google. Assim que, da paupérrima informação disponivel online, reparei que uma das suas apresentadoras definiu o programa como "execrável" (sic). Ora, o meu "alarme" soou, e  fiquei curioso para saber como seria algo que a agora famosa Júlia Pinheiro - apresentadora de pérolas requintadas como "Peso Pesado" ou "Quinta das Celebridades" - chamava de execrável. No entanto, nem um miserável vídeo está online, sobre este programa de estreia de Júlia Pinheiro na televisão, na RTP em 1981 (segundo a própria), onde esteve quatro meses.

Mas então o que era o "Estamos Nessa"?

Citando Júlia Pinheiro:
"...há 30 anos, num programa execrável chamado Estamos Nessa. Foi resultado de um megacasting feito pelo país todo pelo jornal Se7e, que alinhou com a RTP para arranjar novos apresentadores de televisão para um novo programa de divulgação musical, hoje uma espécie de Top+. Era para substituir o ViváMúsica...".
in Público - Life & Style

"Apesar da convicção de que tudo iria correr bem, a verdade é que Estamos Nessa acabou "por ser mau que doía"..."
in SicGold

Ou o site da Infopédia:
"Estamos Nessa" - programa dedicado aos jovens que passava telediscos, notícias relacionadas com música pop e apresentava atuações de grupos ao vivo em estúdio. Contudo, o programa não conheceu grande sucesso e acabou por ser retirado da programação ao fim de algumas semanas de emissão.

Até agora não consegui apurar quem seriam os outros apresentadores, nem uma imagem do programa emitido aos Sábados, ás 15:30. Mas o mais interessante, veio por acaso quando ao pesquisar por vídeos no Youtube, deparei-me com um sketch do "O Tal Canal" chamado "Estamos Nesta" (já mencionado pelo Paulo Neto no cromo do "O Tal Canal". Ler aqui.). O dito sketch era uma paródia a um "magazine musical para novos valores musicais como Tozé, o líder da banda rock Creolina". "O Tal Canal" estreou em 1983 - bastante tempo depois do cancelamento de "Estamos Nessa" - mas parece-me evidente qual foi a inspiração. Ou então a data de 1981 está errada e os dois programas eram contemporâneos...(1)

O vídeo merece ser visto e revisto. "O Tal Canal - Estamos Nesta":

Uma hilariante compilação dos irritantes tiques da malta "moderna". E pensar que passados 30 anos ainda vemos tanto disto por ai...
Vamos lá caros leitores, lembram-se deste programa? Era uma aberração assim tão grande? Contem tudo!


(1) Actualização: Entretanto confirmei as minhas suspeitas, e "Estamos Nessa" foi contemporâneo de "O Tal Canal", aliás estrearam no mesmo dia, 22 de Outubro de 1983, e ainda segundo o "Diário de Lisboa", as emissões prolongaram-se até ao dia 3 de Março de 1984. As opiniões do responsável dos comentários televisivos do jornal sobre programa não são das mais abonatórias:

Recortes do "Diário de Lisboa" entre 21 Outubro de 1983 e 3 de Março de 1984.

"A música jovem num programa que é já considerado uma das apostas goradas do novo mapa-tipo."
"... deste programa que se quer juvenil e está velhíssimo"
Destaco a emissão do dia 4 de Fevereiro em que foi apresentado o histórico videoclip do single "Thriller", de Michael Jackson.

----


Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos". Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Manuela Moura Guedes "Foram Cardos, Foram Prosas / Flor Sonhada" (1981)

por Paulo Neto

Com Manuela Moura Guedes de regresso à televisão, nada como recordar os tempos em que usava a voz para dizer algo mais do que "Boa noite, eu sou a Manuela Moura Guedes!" e não parecia uma sósia da Maga Patalójika. Aliás, por um breve espaço de tempo, MMG foi mesmo a leading lady do pop-rock nacional. Tudo graças a um single campeão de vendas em 1981. 

Nascida no Cadaval a 23 de Dezembro de 1956, estava no último ano do curso de Direito quando em 1978, é uma das seleccionadas para ser locutora de continuidade na RTP, numa fornada que também providenciaria outros rostos lendários da televisão como Ana Maria Cordeiro, Fátima Medina, Helena Ramos, Isabel Bahia e Margarida Andrade (futuramente Mercês de Melo). Sob o nome de Manuela Matos, além da locução, apresentou o Festival da Canção de 1979. Com o virar da década adoptou o nome Manuela Moura Guedes, e por entre os trabalhos na RTP, teve tempo para dar uma perninha como cantora, sendo o seu momento de glória um single de 1981 com duas excelentes faixas: "Foram Cardos, Foram Prosas" e "Flor Sonhada". Ambas tinham letra de Miguel Esteves Cardoso e música de Ricardo Camacho. Era o seu terceiro single, pois Manuela já tinha editado anteriormente "Conversa fiada" (1979) e "Sonho Mau" (1980).



"Foram Cardos, Foram Prosas" é o tema mais conhecido, onde se notam algumas influências de Joy Division (a que não era estranho o facto de Miguel Esteves Cardoso residir então em Inglaterra e de estar a par da cena indie-rock britânica). Desde logo o refrão "Será sempre a subir, ao cimo de ti, só para te sentir" ficou gravado na jukebox mental dos portugueses. 


A outra faixa do single é "Flor Sonhada", que inicialmente até estava prevista ser o lado A. Mas dado o experimentalismo do tema e como "Foram Cardos..." parecia ser mais radio-friendly, optou-se por dar mais destaque a este. Em "Flor Sonhada", a voz de Manuela parece ficar em segundo plano, diante do fabuloso conteúdo instrumental, começando numa longa introdução em sintetizador que dá lugar a uma batida dançável e terminando num solo de guitarra a la Pink Floyd.



Com 35 mil exemplares vendidos, foi o single nacional mais vendido de 1981. Em 1982, surge o seu único álbum, "Alibi", cuja parte musical esteve a cargo dos recém-formados GNR, mas que não alcançou o sucesso do single anterior. O disco foi reeditado em CD em 2007, incluindo "Foram Cardos, Foram Prosas" e "Flor Sonhada", que não faziam parte do alinhamento em vinil.



Deixando a música de lado, Manuela Moura Guedes acaba por se dedicar exclusivamente à televisão, primeiro no entretenimento com, por exemplo, "Berros e Bocas" (1983, com Luís Filipe Barros) e o Festival da Canção de 1984 e depois na informação. 



Em 1991, quando se torna a pivô principal do Telejornal da RTP, deixa para a história o seu lendário bordão "Boa noite, eu sou a Manuela Moura Guedes!". Também em 1991, "Foram Cardos, Foram Prosas" voltou de novo a ser um hit, na versão dos Ritual Tejo. Aliás, foi esta a primeira versão do tema que eu conheci e lembro-me de ficar espantadíssimo quando uns anos mais tardes, ao ver o single por entre os discos de vinil em casa de um amigo, descobri que tinha sido MMG a intérprete do original. Entre outras versões do tema, destaque para a dos Amor Electro de 2011.

Versão dos Ritual Tejo:




Versão dos Amor Electro:


Bónus: MMG a cantar "Summertime" na série "Zé Gato" (1979):




   

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A Caixa de Cartão

Não sou apologista do "no meu tempo é que era" porque tenho consciência que diferentes gerações lidam com o seu ambiente diferente de formas diferentes das gerações anteriores.
No entanto, não deixa de ser interessante ver como gerações com menos recursos brincavam na sua juventude. Decerto muitos ouviram os pais ou avós dizer que "no meu tempo faziamos uma bola com peúgas e jogávamos o dia todo na rua". Desde cedo que não aprecio futebol, mas nasci já com TV em casa, ao contrário dos meus pais. Além do fascinio da TV, sempre li e desenhei muito, hábitos que infelizmente fui perdendo com a idade. Mas quando mais novo, como muitos dos nossos leitores, aposto - também construi os meus próprios brinquedos. E hoje ao navegar pelo Facebook encontrei uma imagem que imediatamente partilhei na página da Enciclopédia de Cromos. Hoje recordo o brinquedo mais barato de todos os tempos: a caixa de cartão!

Coloquei a imagem acima no Facebook com a seguinte legenda:


Assim que pus os olhos em cima da imagem, uma torrente de recordações de infancia jorrou. Tantas brincadeiras que sem mais acessórios além de uma simples caixa de cartão e a imaginação proporcionavam horas de diversão. E de dor também, consta que cai várias vezes do sofá enquanto brincava dentro de um caixa a servir de automóvel ou avião.

Mas não era estranho a outros materiais de construção! Na ilha onde passávamos férias, eu e a minha irmã, com uma caixa de esferovite (daquelas de acondicionamento de motores fora de borda), uma corda e um tijolo a fazer de âncora lancávamos à água o nosso barco, que rapidamente se desfazia e esburacava, até não mais suportar à tona de água o nosso peso. Não se preocupem que na ilha a maré é quase sempre baixa! Em plena febre "Guilherme Tell" construi uma rudimentar besta, com madeira que apareceu a boiar na ilha e alguns elásticos brancos largos. Voltando a "veículos", uma pequena mesa desdobrável com umas toalhas por cima transformava-se num bunker, num tanque ou um submarino. E devo ter perdido várias carrinhos e  figuras de heróis e robots na areia da praia, mas que logo eram substituidos pelos vários personagens e veículos que eu pintava e recortava em cartão ou papel grosso. Ainda tenho comigo alguns desses sobreviventes, entre Tartarugas Ninja e Transformers (que se transformavam!). 

Alguns dos meus bonecos de papel sobreviventes! Reconhecem?
 Lembro-me bem de uma caixa de plástico para a fruta ter sido "reciclada" na Arca (a nave) dos Transformers, com paredes revestidas a papel com todos os computadores, motores e equipamentos desenhados e pintados á mão.
Não sei com o que a malta mais nova se entretém quando não está absorvida pelos tablets, consolas de jogos e outras coisas sofisticadas, mas aposto que num dia sem electricidade ou Internet também serão capazes de usar a imaginação e uma caixa de cartão para criar fantásticas aventuras!


----

Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos". Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Genérico de "Tempo dos Mais Novos" (1983/84)

por Paulo Neto

Graças ao canal do YouTube Lusitania TV, tive a oportunidade de expiar por fim uma imagem televisiva que me ficou na memória e que tanto medo me causara na ternura e incipiência dos meus três anos. 

Durante a primeira metade dos anos 80, o espaço infantil da RTP durante os dias da semana tinha o apropriado nome de "Tempo dos Mais Novos". Aliás na altura, era precisamente com esse programa que abriam as emissões da RTP, pois entre Outubro de 1983 e Maio de 1985, de segunda a sexta, a RTP 1 só começava a sua programação às 17 horas e a RTP 2 ás 19 horas. Sim, não havia nada na televisão nos dias de semana! Isto porque nessa altura vivia-se a maior crise económica pós-25 de Abril e uma das medidas do Governo de então para diminuir a despesa pública foi reduzir a emissão da RTP.

O "Tempo dos Mais Novos" era pois algo que aguardava todos os dias com ansiedade e temor. Se por um lado, significava que vinham dali o arranque da programação da RTP e uma mão-cheia de desenhos animados, por outro lado, tinha que levar com este genérico que abria esse espaço de programação. Segundo o próprio responsável do canal Lusitania TV, este genérico foi gravado pelo seu pai no dia em que ele nasceu (11 Janeiro de 1984). 





Num cenário espacial, vê-se um rapaz de camisola ás riscas sentado num planeta, quando de repente surge uma nave espacial saída de qualquer filme da Guerra das Estrelas, lança um raio de luz sobre o miúdo e transporta-o para o seu interior, fechando depois o seu portal. Depois vê-se a nave a partir mostrando a sua traseira formada por letras coloridas que compunham o título do programa. Se isto já impressionava o meu eu de tenra idade, o toque final era dado com uma voz, que se pressupunha ser a do rapaz, a dizer "TEMPO DOS MAIS NOVOS!" com um tom amplificadamente assombroso, e ainda haver uns segundos a ver a nave ir-se embora, com o mesmo som sinistro que se ouve ao longo de todo o segmento. A duração demorada (cerca de 1 minuto e 15 segundos) e o facto de não se ouvir nada além dos sons da nave e da voz amplificada do rapaz contribuíam ainda mais para o travo tenebroso do genérico. Que ainda por cima tinha de gramar duas vezes por dia, no início e no fim do programa.

                                       

Embora bastasse eu ser um pouco mais velho para perceber que o genérico afinal não era assim tão assombroso, na altura era o que me bastava para deixar alvoroço. Para onde levavam o miúdo? Seriam extraterrestres? Será que o nome do programa seria o rapaz a dizer "Salvem-me, socorro!" em código? Será que andam por aí aliens a teleportar e raptar crianças? Será que serei eu o próximo? Eram questões que assaltavam a minha mente (e nem sequer chegava ao ponto de questionar o facto de como é que o rapaz tinha ido parar àquele planeta no meio do espaço!). Por tudo isso, este genérico pertencia às minhas memórias televisivas mais assustadoras de infância, apenas perdendo para o cagaço que apanhei quando vi pela primeira vez o videoclip "Thriller" do Michael Jackson que, segundo a minha Mãe, deixou-me cheio de lágrimas nos olhos e à beira de fazer xixi nas calças. 

Uns tempos depois do vídeo do genérico ter sido posto no YouTube e de eu o ter colocado na página oficial do Facebook da Caderneta de Cromos (onde descobri que estava longe de ser o único que guardava essa memória assustadora), houve um post na mesma página de nada menos que o próprio realizador do genérico, Carlos Barradas. No post, Barradas demonstrava-se espantado pelo facto de descobrir que o genérico tinha assustado tanta gente e declarou que o rapaz usado como cobaia era o seu filho. O que me levou a pensar que na altura o filho de Carlos Barradas devia ser bastante reconhecido na rua, pois entrava todos os dias nas nossas casas. Será que o rapaz era bombardeado com perguntas como: "Foste mesmo raptado por extraterrestres? Fizeram-te mal? Como é que é ser teleportado?"

Mas por muito tenebrosas que tivessem sido estas memórias, hoje em dia não consigo evitar um certo orgulho por ter vivido num tempo onde um simples genérico com um cenário espacial, um rapaz e uma nave espacial feita com garrafas de álcool (como vem num dos comentários do YouTube) era o que bastava para alvoraçar a nossa imaginação. Mais um motivo para acreditar que nós fomos uma geração valente, onde só havia televisão depois das cinco da tarde e não havia cá genéricos coloridos e fofinhos para o espaço do desenhos animados, tomem lá com um rapaz a ser raptado por extraterrestres sem qualquer explicação!

Carlos Barradas realizou diversos genéricos e programas para a RTP. Na mesma altura em que o seu genérico espacial assustava miúdos medricas como eu, também passava na televisão outro genérico bem mais aprazível (que mais parecia mais videoclip), o do programa da variedades "O Foguete" com Carlos Paião, António Sala e Luís Arriaga.

  

Também da autoria de Carlos Barradas é esta curta-metragem "A Caixinha de Música", que recordo ter passado umas três ou quatro vezes nos espaços infantis da RTP ao fim de semana. (No final há um cameo do filho do realizador, o rapaz raptado pela nave).





    

domingo, 15 de setembro de 2013

TV Color Philips (1987)

Afinal tinha mais anúncio desta revista guardado na "manga"! Vejam se reconhecem o protagonista deste reclame ao concurso para os compradores de qualquer "TV Cor Philips"!

E lembram-se deste mitico anúncio de TV, protagonizado também pelo carismático - adivinharam? - Miguel Guilherme?!


Muito bom!

Publicidade retirada da revista Maria nº 463, de Setembro de 1987.

Como sempre, o leitor pode partilhar experiências, corrigir informações, ou deixar sugestões aqui nos comentários, ou no Facebook da Enciclopédia: "Enciclopédia de Cromos". Visite também o Tumblr: "Enciclopédia de Cromos - Tumblr".
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...