por Paulo Neto
Existem três grandes marcos na teledramaturgia adolescente nacional: o primeiro passo dado com "Os Melhores Anos", essa instituição que dá pelo nome de "Morangos com Açúcar" e, entre essas duas, "Riscos".
Existem três grandes marcos na teledramaturgia adolescente nacional: o primeiro passo dado com "Os Melhores Anos", essa instituição que dá pelo nome de "Morangos com Açúcar" e, entre essas duas, "Riscos".
Produzida e exibida na RTP entre 1997 e 1998, "Riscos" teve mais de cinquenta episódios, divididos em duas partes que iam para o ar ao sábado e ao domingo ao fim da tarde. Como na altura eu tinha a mesma idade das personagens (17/18 anos), foi uma série que eu e os meus colegas acompanhávamos com curiosidade. Frequentemente nós ríamo-nos do facto da nossa escola não passar nada enquanto na escola da série acontecia tudo e mais alguma coisa. Isto porque a série fez por abordar quase todos os problemas dos adolescentes dos anos 90: sexo, drogas, racismo, anorexia, sexo, skinheads, doenças sexualmente transmissíveis, alcoolismo, sexo, gravidez, pedofilia, suicídio, sexo, prostituição, homossexualidade, cultos religiosos, sexo, vício no jogo, ecologia, conflitos de gerações e sexo. (Sim, havia muito sexo.) O slogan promocional era "A série que fala a tua língua".
A série passava-se num colégio e seguia as aventuras e desventuras de seis jovens protagonistas, todos eles interpretados por estreantes nestas andanças. Mariana (Ana Rocha) é a marrona da turma que se esforça para manter as aparências e por isso faz vista grossa às infidelidades mal disfarçadas do namorado; Diogo (Fernando Martins) é o rapaz mais cobiçado da escola, pouco preocupado com assuntos sérios e em ser fiel à namorada, embora com o avançar da série ele acabe por se tornar mais responsável e se esforçar para manter o namoro com Mariana; Bruno (Edmundo Rosa), é o mais novo do grupo, ainda no 11.º ano mas com uma rodagem igual à dos amigos; Rita (Sara Gonçalves) é a rebelde da escola mas por detrás da sua imagem de motoqueira intrépida e promíscua, está alguém de grande coração, maturidade e lealdade para com os amigos; André (Frederico Ferreira) partilha a faceta conquistadora de Diogo, mas é mais sério e responsável; Maria João (Paula Neves) é tímida (e virgem) mas acaba por desabrochar graças à amizade improvável com Rita e um curto mas significativo namoro com André.
No núcleo dos professores estão Margarida (Ana Zanatti), a directora da escola e professora de Inglês, mulher inteligente, firme mas justa; Abel (José Wallenstein), o marido de Margarida e professor de Matemática, que secretamente tenta seduzir as alunas (sendo particularmente obcecado por Rita) e Lídia (Alexandra Lencastre), professora de Português e mãe de Maria João, que tenta refazer a vida em Lisboa depois de um passado conturbado. A meio da série, junta-se também Pedro (Diogo Infante), o professor de Filosofia, que após muitos contratempos, acaba com Lídia.
Além disso, a série teve várias participações especiais de nomes conhecidos, alguns até sem ser da área da representação. Só para nomear alguns: Julie Sargent, Cristina Carvalhal, Bárbara Elias, Margarida Marinho, João Pedro Pais, Maria Elisa, António Feio, Vítor Norte e o actor brasileiro Luigi Palhares, que os portugueses conheciam da telenovela "A Próxima Vítima". Também alguns jovens actores conhecidos do público tiveram aqui um dos seus primeiros trabalhos televisivos, desempenhando papéis secundários como Hugo Sequeira, Susana Arrais, Alda Gomes, Ivo Canelas, Nuno Lopes, Márcia Leal, Nuno Távora e Paulo Rocha.
Queria destacar também duas personagens secundárias recorrentes. Ulisses, uma das primeiras personagens homossexuais da ficção nacional, interpretada por Pedro Cunha, que recentemente fez-se notar em "Rosa Fogo". A outra é Daniela, uma personagem muito atribulada, pois começa na cama com o professor Abel em troca dos enunciados dos exames, envolve-se num culto religioso neo-hippie e chega a fazer Ulisses a duvidar brevemente da sua orientação sexual. Esta personagem foi encarnada por Marta Furtado (irmã de Catarina) naquele que foi o seu mais notado trabalho em televisão, já que tem feito carreira essencialmente no teatro.
"Riscos" foi criticada pela inverosimilhança das histórias (como já disse, naquela escola acontecia de tudo), pela montagem cheia de mudanças aceleradas de plano, pela realização por vezes desnorteada, pelo alegado amadorismo das interpretações e sobretudo, pelo excesso de sexo. De facto, dava a sensação que quase todas as personagens, adultas ou adolescentes, tinham ido para a cama umas com as outras. Por exemplo, Maria João começou a série virgem mas acabou com um currículo sexual assinalável. E o facto de logo numa das primeiras cenas do primeiro episódio, termos logo Rita a mostrar os seios, adivinhava-se logo que a série iria primar pelo tom badalhoco.
As críticas têm o seu fundamento mas tal não incomodou o público, sobretudo adolescente, que soube acompanhar a série como puro entretenimento e minimizar os excessos. Ou então, como refere Hugo Silva, autor do blogue "Ainda Sou do Tempo", era mais um daqueles casos de "tão mau que dá a volta e fica bom". E tal como acontece com várias séries e filmes filhos do seu tempo, a série acabou por beneficiar do célebre efeito cápsula onde muito do espírito dos anos 90 foi capturado.
Após a série, as protagonistas femininas tiveram carreiras bem mais significativas que os masculinos. Paula Neves foi de longe a mais bem-sucedida tendo desde então entrado em diversas telenovelas e algumas séries e filmes, destacando-se obviamente o mítico papel da Mariana "Trinca-espinhas" em "Anjo Selvagem". Ana Rocha foi também presença assídua em séries e telenovelas mas desde "Jura" que anda afastada da televisão, dedicando-se mais a estar do outro lado da câmara: realizou um documentário sobre Adriano Correia de Oliveira e diversos showcases musicais. Sara Gonçalves tem apostado mais no teatro mas tem feito esporadicamente alguns trabalhos em televisão, sendo o mais notado o papel da falsa cega em "Floribella".
Já dos três rapazes pouco se tem visto ou falado deles. Frederico Ferreira acabou por não enveredar por uma carreira de actor. Só voltei a rever Edmundo Rosa nos "Malucos do Riso" e na telenovela "Baía das Mulheres". E Fernando Martins, cuja pinta de galã in the making fazia-me vaticinar que podia ser o Ricardo Carriço da sua geração, só apareceu de novo no pequeno ecrã como apresentador do "Hugo" (substituindo Pedro Pinto) e na série "Alves do Reis".
Um álbum com a banda sonora da série foi também editado, contendo temas de artistas portugueses como Pedro Abrunhosa, Raul Marques & Os Amigos da Salsa, Primitive Reason, Black Out ou Cool Hipnoise e outros internacionais como James, Texas, The Cardigans e Brand New Heavies. O tema da série era interpretado por duas vozes da cena musical nacional dos anos 90: Kika Santos, na altura nos Black Out e Sam, que cantou no tema "Black Magic Woman" e numa conhecida versão dance de "Estou além" de António Variações. Ambos apareceram a cantar o tema no último episódio.
Genérico da série:
Em memória de Pedro Cunha (1980-2014)
No núcleo dos professores estão Margarida (Ana Zanatti), a directora da escola e professora de Inglês, mulher inteligente, firme mas justa; Abel (José Wallenstein), o marido de Margarida e professor de Matemática, que secretamente tenta seduzir as alunas (sendo particularmente obcecado por Rita) e Lídia (Alexandra Lencastre), professora de Português e mãe de Maria João, que tenta refazer a vida em Lisboa depois de um passado conturbado. A meio da série, junta-se também Pedro (Diogo Infante), o professor de Filosofia, que após muitos contratempos, acaba com Lídia.
Além disso, a série teve várias participações especiais de nomes conhecidos, alguns até sem ser da área da representação. Só para nomear alguns: Julie Sargent, Cristina Carvalhal, Bárbara Elias, Margarida Marinho, João Pedro Pais, Maria Elisa, António Feio, Vítor Norte e o actor brasileiro Luigi Palhares, que os portugueses conheciam da telenovela "A Próxima Vítima". Também alguns jovens actores conhecidos do público tiveram aqui um dos seus primeiros trabalhos televisivos, desempenhando papéis secundários como Hugo Sequeira, Susana Arrais, Alda Gomes, Ivo Canelas, Nuno Lopes, Márcia Leal, Nuno Távora e Paulo Rocha.
Queria destacar também duas personagens secundárias recorrentes. Ulisses, uma das primeiras personagens homossexuais da ficção nacional, interpretada por Pedro Cunha, que recentemente fez-se notar em "Rosa Fogo". A outra é Daniela, uma personagem muito atribulada, pois começa na cama com o professor Abel em troca dos enunciados dos exames, envolve-se num culto religioso neo-hippie e chega a fazer Ulisses a duvidar brevemente da sua orientação sexual. Esta personagem foi encarnada por Marta Furtado (irmã de Catarina) naquele que foi o seu mais notado trabalho em televisão, já que tem feito carreira essencialmente no teatro.
"Riscos" foi criticada pela inverosimilhança das histórias (como já disse, naquela escola acontecia de tudo), pela montagem cheia de mudanças aceleradas de plano, pela realização por vezes desnorteada, pelo alegado amadorismo das interpretações e sobretudo, pelo excesso de sexo. De facto, dava a sensação que quase todas as personagens, adultas ou adolescentes, tinham ido para a cama umas com as outras. Por exemplo, Maria João começou a série virgem mas acabou com um currículo sexual assinalável. E o facto de logo numa das primeiras cenas do primeiro episódio, termos logo Rita a mostrar os seios, adivinhava-se logo que a série iria primar pelo tom badalhoco.
As críticas têm o seu fundamento mas tal não incomodou o público, sobretudo adolescente, que soube acompanhar a série como puro entretenimento e minimizar os excessos. Ou então, como refere Hugo Silva, autor do blogue "Ainda Sou do Tempo", era mais um daqueles casos de "tão mau que dá a volta e fica bom". E tal como acontece com várias séries e filmes filhos do seu tempo, a série acabou por beneficiar do célebre efeito cápsula onde muito do espírito dos anos 90 foi capturado.
Após a série, as protagonistas femininas tiveram carreiras bem mais significativas que os masculinos. Paula Neves foi de longe a mais bem-sucedida tendo desde então entrado em diversas telenovelas e algumas séries e filmes, destacando-se obviamente o mítico papel da Mariana "Trinca-espinhas" em "Anjo Selvagem". Ana Rocha foi também presença assídua em séries e telenovelas mas desde "Jura" que anda afastada da televisão, dedicando-se mais a estar do outro lado da câmara: realizou um documentário sobre Adriano Correia de Oliveira e diversos showcases musicais. Sara Gonçalves tem apostado mais no teatro mas tem feito esporadicamente alguns trabalhos em televisão, sendo o mais notado o papel da falsa cega em "Floribella".
Já dos três rapazes pouco se tem visto ou falado deles. Frederico Ferreira acabou por não enveredar por uma carreira de actor. Só voltei a rever Edmundo Rosa nos "Malucos do Riso" e na telenovela "Baía das Mulheres". E Fernando Martins, cuja pinta de galã in the making fazia-me vaticinar que podia ser o Ricardo Carriço da sua geração, só apareceu de novo no pequeno ecrã como apresentador do "Hugo" (substituindo Pedro Pinto) e na série "Alves do Reis".
Um álbum com a banda sonora da série foi também editado, contendo temas de artistas portugueses como Pedro Abrunhosa, Raul Marques & Os Amigos da Salsa, Primitive Reason, Black Out ou Cool Hipnoise e outros internacionais como James, Texas, The Cardigans e Brand New Heavies. O tema da série era interpretado por duas vozes da cena musical nacional dos anos 90: Kika Santos, na altura nos Black Out e Sam, que cantou no tema "Black Magic Woman" e numa conhecida versão dance de "Estou além" de António Variações. Ambos apareceram a cantar o tema no último episódio.
Genérico da série:
Excertos de episódios:
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