No início dos anos 80, uma série espanhola capturou habilmente toda a essência do Verão. A praia, as brincadeiras, as aventuras, os namoricos, os passeios. Mas também soube capturar os ventos de mudança que sopravam na Península Ibérica nessa altura bem como toda uma liberdade recém-adquirida, alterando mentalidades e questões sociais. Por isso, essa série tornou-se uma autêntica cápsula do tempo e o seu legado ainda hoje habita no imaginário da geração dos jovens protagonistas enquanto ainda consegue encantar novas gerações.
Obviamente que falo de "O Verão Azul" ("El Verano Azul"), provavelmente a mais famosa série ibérica a nível internacional. Os dezanove episódios foram filmados entre Agosto de 1979 e Dezembro de 1980, tendo sido exibida em Espanha pela primeira vez na TVE entre 1981 e 1982, curiosamente durante o Inverno. Mas desde então a série tem sido reposta no país vizinho em vários Verões seguintes, ao ponto de uma dos motivos pelos quais os petizes espanhóis ansiavam pelas férias grandes era voltarem a ver "O Verão Azul". Em Portugal, a série foi transmitida pela primeira vez na RTP no Verão de 1982 e foi reposta algumas vezes, sobretudo no programa "Agora Escolha", sendo que por cá optou-se por exibir cada episódio em duas partes.
Para a história ficou também o genérico com os protagonistas a andarem de bicicleta e a música com assobios, composta por Carmelo Bernaloa, que está gravado no disco rígido de todo o cidadão ibérico que era vivo nos anos 80.
A série girava à volta de um grupo de sete jovens de férias em Nerja (Málaga) e que vão vivendo muitas aventuras, enquanto também vão aprendendo várias lições de crescimento. São eles: Bea (Pilar Torres), a menina bonita do grupo; Desi (Cristina Torres), que tem pais separados e passa férias com a mãe e a tia; Javi (Juan José Artero), rapaz rebelde e orgulhoso que costuma entrar em conflito com o pai; Pancho (José Luis Fernandez), o rapaz local, que é moço de entregas da mercearia dos tios; Manolito, mais conhecido como Piraña (Miguel Angel Valero), assim chamado por ser gordo e estar quase sempre a comer qualquer coisa; Tito (Miguel Joven), irmão de Bea e o mais pequeno do grupo; e Quique (Gerard Garrido) o melhor amigo de Javi e que era uma personagem algo vaga, comparado com todos os outros protagonistas. Ao longo do Verão, entre aventuras e desventuras e até algumas brigas, pois Pancho e Javi disputam Bea, os sete acabam por firmar uma forte amizade, que se estende a dois adultos: Julia (Maria Garralón) e Chanquete (Antonio Ferrandis).
Julia é uma pintora solitária que se torna uma espécie de tia porreira dos miúdos, com a sua mentalidade aberta e compreensão pelos problemas deles. Chanquete é um velho marinheiro, a quem o seu duro exterior esconde um bom coração e torna-se um avô adoptivo do grupo (e até dos espectadores!). Daí que a sua morte no penúltimo episódio seja uma dura lição de perda para os jovens e tenha feito chorar Espanha.
"O Verão Azul" foi também uma série inovadora ao abordar assuntos até então pouco abordados no panorama audiovisual ibérico como o divórcio, o conflito de gerações, o direito ao protesto, o meio ambiente, a especulação imobiliária e a liberdade da nova geração. Existe uma certa delineação metafórica das personagens, com os jovens a representarem a liberdade recém-conquistada e os pais deles a simbolizarem os valores antigos. Por exemplo, Javier (Manuel Gallardo), o pai da Javi, é um homem autoritário, que só pensa nos negócios e que reage mal à rebeldia do filho - pelo que os dois estão sempre em conflito - e acha que Julia não é uma boa influência para os garotos. Os pais de Tito e Bea, Carmen (Elisa Montés) e Agustín (Manuel Tejada) têm visões diferentes da paternidade: Carmen é mais conservadora e até nem gosta muito que Bea seja amiga de Desi só por esta ter os pais separados, Agustín é mais compreensivo com os jovens e costuma afirmar que os tempos são outros, se bem que quando é preciso, também saiba repreender, como quando a filha sai em segredo com um rapaz mais velho. No núcleo dos pais, recordo também os pais do Piraña, Naty (Ofelia Angelica) e Cosme (Manuel Brieva) que, como não podia deixar de ser, também eram tão gorduchos e divertidos como o filho.
Além de Espanha e Portugal, a série foi exibida em vários países, sendo a série ibérica mais importada de sempre. Outro país onde a série teve grande impacto foi na Bulgária. Existem várias histórias de encontros entre búlgaros e espanhóis em que o primeiro assunto a ser falado é "O Verão Azul". Para a geração de 70 e 80 desse país, foi a primeira vez que assuntos como o estilo de vida hippie foram exibidos na televisão. E quem tem o canal búlgaro BNT na televisão por cabo, já deve ter apanhado lá algum episódio da série, dobrada em búlgaro.
Como toda a miudagem da época, eu adorava a série. Lembro-me de brincar ao "Verão Azul" no quintal da minha avó, inventando que eu era mais um membro da pandilha, "Pablo Butragueño". Faço ideia a minha avó a ver-me a correr de um lado para o outro a falar portunhol...
Eu pensava que todos os jovens actores do "Verão Azul" tinham continuado o sucesso em adultos, mas isso só se aplicou a Juan José Artero que esteve vários anos na série "La Comisaria" onde conseguiu que o público espanhol deixasse um pouco de lado o Javi. Os outros, apesar de algumas tentativas, incluído na música (Pancho y Javi e Tito y Piraña), acabaram por seguir outros rumos. Pilar Torres e José Luis Fernandez chegaram a ter problemas com drogas, de que felizmente conseguiram recuperar. Pilar e Cristina Torres, que eram irmãs na vida real, são hoje enfermeiras; Miguel Joven é recepcionista de um hotel em Nerja e criou uma linha de merchandising da série; Miguel Angel Valero é professor na Universiade Politécnica de Madrid, onde é da praxe os seus alunos entrarem na aula a assobiarem o tema da série; Maria Garralón continua activa em televisão (vimo-la na série "Farmácia de Serviço", exibida na TVI nos anos 90) e Antonio Ferrandis faleceu em 2000, mas a sua morte foi muito menos noticiada na imprensa que a do Chanquete.
Reunião do elenco em 2011
Em 2001, por ocasião dos 20 anos da série, o elenco reuniu-se para ser homenageado pela Câmara Municipal de Nerja. O já falecido Antonio Ferrandis e o criador da série, Antonio Mercero tiveram direito a nomes de ruas, tendo também sido inauguradas placas com os nomes das personagens e dos actores, um parque e um restaurante com o nome da série e uma réplica do La Dorada, o barco do Chanquete.
Em 2010, foi anunciado que iria ser rodado um remake da série passado na actualidade e o nome de Juan José Artero chegou a estar indicado para o papel do Javi em adulto. Mas até ao momento, o projecto ainda não saiu do papel.
Cromo sobre o "Verão Azul" na "Caderneta de Cromos"(cromo n.º 213, 5.5.2010):link YouTube
Tal como o Festival da Canção e da Eurovisão, entre os pontos altos da saison televisiva na era croma estavam os concursos de misses. O país parava para ver a eleição da Miss Portugal, concurso organizado pelo jornal Correio da Manhã, e um meses mais tarde assistia à Miss Universo, na esperança que a representante portuguesa fosse chamada ao palco como uma das semifinalistas, o que nunca acontecia pois as candidatas portuguesas estavam longe da primeira divisão, onde países como os Estados Unidos, Venezuela, Porto Rico e, nos anos 90, a Índia eram as maiores potências e raramente falhavam a segunda ronda. Aliás foi só em 2011 que se ouviu "Portugal!" quando anunciaram os países das candidatas que avançavam à segunda ronda, graças a Laura Gonçalves.
Como não podia deixar de ser em plenos anos 80, as cerimónias de eleição da Miss Universo ilustravam magistralmente as modas da época: penteados estratosféricos que exigiam um sem-fim de latas de laca e com isso um substancial aumento do buraco do ozono; maquilhagem supercarregada, e vestidos cheios de enchumaços e laçarotes e de cores espampanantes.
Ao longo da década, o concurso seguia basicamente o mesmo alinhamento. Começava com uma paradas de todas as concorrentes, cada uma vestindo um traje tradicional do seu país. Elegiam-se as dez semifinalistas e sempre que cada uma das anunciadas descia para o centro do palco, a orquestra tocava um dos hits da época. Tomemos como exemplo estes vídeos de 1984:
(Repararam na Miss Turks & Caicos? Eu acho que ela deve ter ganho no seu país essencialmente devido à sua beleza interior...)
De seguida, as dez semifinalistas desfilavam em fato-de-banho e depois em vestido de noite. Havia também um filme onde víamos todas as candidatas num cenário de praia, envergando vários tipos de fatos de banho (de uma peça claro, biquinis só a partir dos anos 90). Seguidamente, elegia-se as cinco finalistas que teriam de responder a uma pergunta final. Por fim, coroavam-se as quatro damas de honor e a grande vencedora.
Na década de 80, estas foram consideradas as mulheres mais belas do planeta:
Em 1980, os Estados Unidos ganharam a sua quinta coroa, graças a Shawn Weatherly. Aos 21 anos, esta loira da Carolina do Sul venceu a concorrência. Mais tarde viria a enveredar por uma carreira de actriz dos quais os seus momentos mais famosos foi ter entrado em "Academia de Polícia 3: De volta aos treinos" e na primeira série de "Marés Vivas", na fase pré-Pamela Anderson.
Vitória para a Venezuela em 1981, com a coroa a ir parar à cabeça de Irene Saez. Após uma curta carreira como modelo, Saez enveredou por uma bem-sucedida carreira na política. Foi eleita Presidente da Câmara de Chacao, um dos municípios de Caracas, notabilizando-se por ter conseguido diminuir substancialmente a criminalidade. Foi governadora do estado de Nueva Esparta e em 1998, foi candidata presidencial, já com Hugo Chavez com um dos adversários. Com a ascensão de Chavez no ano seguinte, Irene Saez mudou-se para os Estados Unidos.
Karen Baldwin foi a primeira canadiana coroada Miss Universo em 1982, no Perú. Além de ter sido uma figura televisiva no seu país, entrou no filme "Who's That Girl" de Madonna como uma das damas de honor raptadas. Foi casada com o actor Jack Scalia e actualmente, é produtora de filmes em Hollywood. Entre os filmes que produziu contam-se "Sahara" com Matthew McCounaughey e Penelope Cruz e "Ray" que deu um Óscar a Jamie Foxx.
Em Nova Orleães, Lorraine Downes conseguiu o único triunfo até à data para a Nova Zelândia em 1983. Após o seu reinado, Downes viveu uma vida discreta dedicada à família e aos negócios em que investiu. Só voltaria à ribalta em 2006, quando ganhou a versão neozelandesa do "Dança Comigo". A 3.ª Dama de Honor, a suíça Lolita Morena, viria a apresentar o Festival da Eurovisão de 1989.
Miami foi o cenário onde foi coroada a sueca Yvonne Ryding em 1984, futebolista amadora e estudante de enfermagem. Depois de uma breve carreira como modelo em Nova Iorque, regressou à Suécia e tem feito aparições esporádicas na televisão, como na versão sueca do "Dança Comigo".
A vitória de Deborah Carthy-Deu, de Porto Rico, em 1985 foi surpreendente, uma vez que a grande favorita era a espanhola Teresa Sanchez, que foi 1.ª Dama de Honor. Deborah protagonizou um telenovela argentina e apresentou vários programa de televisão no seu país. Actualmente tem uma escola e agência de modelos em San Juan e em 2009, foi mãe pela primeira vez aos 43 anos. De referir ainda que a Miss Estados Unidos, Laura Herring, protagonizou com Naomi Watts o filme "Mulholland Drive" de David Lynch.
Depois do segundo lugar em 1985, Espanha teve uma meia-vitória no ano seguinte. Isto porque embora tenha ganho pela Venezuela em 1986, Barbara Palacios nasceu em Madrid e a sua mãe era espanhola. Barbara é uma bem-sucedida mulher de negócios na América Latina e pelo que vi de fotos recentes, está ainda mais deslumbrante. A primeira Dama de Honor foi a americana Christie Fichner, que para ganhar o título do seu país teve que superiorizar-se a uma tal de Halle Berry.
Cecilia Bolocco trouxe a única vitória para o Chile em 1987. Ficou famosa a sua reacção de espanto quando soube que tinha ganho. Cecilia tornou-se desde então uma figura proeminente da televisão na América Latina, como actriz, jornalista e apresentadora, e chegou a apresentar a eleição da Miss Universo 1993. Foi também casada com Carlos Meném, antigo presidente da Argentina.
Na ilha Formosa em 1988, o ano do Dragão, domínio esmagador das belezas asiáticas. Quatro das cinco primeiras classificadas eram do Oriente, com a vitória a ir para a Tailândia. Embora emigrada nos EUA desde tenra idade, Porntip Nakhirukanok trouxe a segunda coroa para a Tailândia. Na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Seul, ela desfilou com os atletas tailandeses. É actualmente casada com o magnata Herbert Simon, dono por exemplo, da equipa NBA dos Indiana Pacers e dirige uma organização de caridade que ajuda crianças carenciadas na Tailândia e que construiu casas para comunidades afectadas pelo tsunami de 2004.
A fechar a década, um triunfo para a Holanda em 1989. Angela Visser é considerada uma das mais bonitas Miss Universo de sempre. Angela fez participações especiais em séries como "Blossom", "Friends" e "Marés Vivas" e foi comentadora oficial da Miss Universo entre 1991 e 1994.
Futuramente, irei falar das Misses Universo dos anos 90.