segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Cinemas de Verão nos anos 80


Quem melhor para partilhar as suas memórias das quentes sessões de cinema de Verão nos longínquos anos 80, que Pedro Cinemaxunga - baptizado Pedro de Alarcão Lombarda - o notório blogger de cinema, que desde 2003 fascina a Internet com o seu estilo característico e inimitável de prosar sobre a sétima arte e a vida. E podem ter a certeza que são umas memórias interessantes! Depois do texto lido visitem o santuário xunga - "Cinemaxunga" - e digam que vão da nossa parte.

Menores de idade e pessoas impressionáveis, leiam de olhos fechados:


"1989, Agosto em Monte Gordo. Tinha acabado de recuperar a consciência daquilo que vim mais tarde a saber ser um black-out de 21 horas. Numa festa de Verão milhares de respeitosas donas de casa vibravam libidinosamente ao som de uma banda em palco. Demorei algum tempo a perceber o que se passava, o som enrolado em flanger e um forte sabor a laca Fiero que parecia escorrer em bica pelo esófago não ajudavam a melhorar a percepção. O Trio Odemira tocava o  Anel de Noivado e fui apanhado desprotegido no meio das suas harmonias hipnóticas e na execução perfeita de uma música que já na altura era um velho clássico “Inundada no seu pranto. O seu vestido vai molhando, ao chorar de amor por mim”, cantavam imperturbáveis pelos gritos histéricos, desmaios e apelos ao deboche adúltero. “Faz-me um filho”, gritava uma octogenária semi-nua estranhamente atraente que parecia acariciar-se ao meu lado. Não sei se foi do álcool, das drogas ou de uma cataplana de peixe que não me caiu nada bem, mas senti um capacete de eletricidade estática a massajar-me as têmporas, como tentáculos de ondas alfa e impulsos de telequinese,  e os edifícios pareciam ondular ao ritmo dengoso dos baladeiros alentejanos. Tonico, no entanto,  não parecia impressionado, estava de facto amuado porque o meteram a vender bebidas e petiscos numa noite em que passavam Delta Force 2 no cinema Mariani.

Esta não é tanto a minha história mas a história de Tonico, um jovem de 14 anos que trabalhava numa esquina de Monte Gordo a vender fruta. O seu único objectivo de Verão era ganhar o suficiente para ir ao cinema todos os dias. O Cinema Mariani na praia de Monte Gordo funcionava com dois filmes diários só a partir do pôr do sol porque metade da sala era esplanada. As doubles features eram compostas por um filme novo e um do dia anterior. Tonico via-os sempre duas vezes. Ele preferia Bud Spencer, porrada, ninjas, comédias badalhocas e blockbusters de anos anteriores, mas não recusava um Fellini que por vezes aparecia por engano, emuscuido em lotes Giallo, Spaghetti Western, slashers americanos e eróticos europeus. Não era grande fã de terror, mas era menos fã ainda de ficar em casa. 


Em época de fervilhante animação, as noites animavam aquela zona obscura do vilarejo balnear com cinéfilos de todos os quadrantes. Se os turistas gostavam de comparecer a tempo e apreciar a experiência de imersão em cadeiras de madeira ao som da mastigação de sementes de girassol e gargarejar de Sucol e Frisumo, os locais tinham uma estratégia diferente na hora de comprar bilhete, dirigiam-se à bilheteira e perguntavam “Ouve lá mô, já mataram o mau?”. Em caso de resposta negativa compravam o bilhete e apreciavam o que restava da película ao balcão do bar com uma bela cervejinha. 


Foram largas dezenas de filmes que vi com Tonico, que sendo pouco eloquente, se exprimia entre o “espectacular” e o “bué de fixe” (fichi, no dialeto local). Um jovem pouco exigente mas profundamente apaixonado pela sétima arte. 

Acabado o Verão, Mariani abria aos fins de semana e com chuva, sol, trovoada ou queixas dos vizinhos à PSP o cinema continuava forte. Uma comunidade fiel em sessões animadas, em que se gritava, ria e comentava à boca cheia. No dia em que lá revi o Rocky IV não se ouvia o som vindo das colunas com a multidão aos gritos a apoiar o Italian Stallion. Havia pessoas de pé em frente ao ecrã e no final homens de barba rija, queimados pelo sol do sul, choravam copiosamente com a vitória de Balboa, a sua vitória, a nossa vitória, carago!


Foi difícil para mim ambientar-me ao Algarve, onde vivi 5 preciosos anos entre a adolescência e a juventude. Eu era do Norte, trocava os Vs pelos Bs, dizia “Queijo” em vez de “Quêjo”, tinha boas notas e não percebia uma palavra de espanhol. O cinema foi muito importante para me integrar com os locais que após uns meses de belas sessões de matança em cópias riscadas e bobines trocadas já não me davam surras nem me roubavam a carteira com tanta frequência."



Texto publicado anteriormente na revista Take de Agosto de 2015.



Novamente, agradeço ao Pedro esta colaboração. Visitem o blog dele: "Cinemaxunga".
P.S. - Como algarvio quero apenas declarar que nos anos 80 raramente roubava carteiras a forasteiros.




Podem ler os posts dos nossos "Convidados Especiais".

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sábado, 12 de setembro de 2015

Eric "A Enguia" Moussambani (2000)

por Paulo Neto

Ao longo da sua história, os Jogos Olímpicos sempre foram o palco preferencial para consagrar os maiores atletas do Mundo. No entanto, para a esmagadora maioria dos atletas o simples facto de competirem nuns Jogos Olímpicos já é uma grande conquista. Mas com as atenções dos media focadas no evento ao longo desses dezasseis dias, de vez em quando surgem casos de atletas que se fizeram notar e celebrizar não pelos seus grandes feitos, mas pelo inverso.

Entre os exemplos mais célebres, temos a equipa jamaicana de bobsled que competiu nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1988 e inspirou o filme "Jamaica Abaixo De Zero", o saltador de esqui britânico Eddie Edwards cujo insucesso nos mesmos Jogos valeu-lhe a irónica alcunha de "Eddie The Eagle" e a suíça Gabriela Andersen-Schiess cuja imagem a completar a última volta no extremo limite da exaustão marcou a primeira maratona olímpica feminina em Los Angeles 1984.





Em 2000, a cidade australiana de Sydney esmerou-se para organizar uns Jogos Olímpicos exemplares onde participaram mais de 10 mil atletas de 199 países. Quatro atletas de Timor-Leste participaram sobre a bandeira olímpica. O triatlo, o taekwondo e os trampolins estrearam-se como modalidades olímpicas e pela primeira vez houve provas femininas de halterofilismo, pentatlo moderno, salto à vara e lançamento do martelo. Portugal conquistou duas medalhas de bronze: Nuno Delgado no judo e Fernanda Ribeiro nos 10000m. E quis o destino que tivesse sido na natação, um dos desportos mais populares da Austrália, que surgiu um dos mais célebres cromos olímpicos, na pessoa de Eric Moussambani.

Em prol da universalidade e da possibilidade de todos os países do mundo poderem competir nos Jogos Olímpicos, existe a iniciativa de atribuir wildcards a certos países em modalidades onde essas nações não têm grande expressão. A Guiné Equatorial foi um dos países que recebeu um wildcard para que dois atletas seus, um homem e uma mulher, competissem em Sydney nas provas de natação. Uma prova de selecção foi organizada numa piscina de hotel de 12 metros em Malabo, a maior piscina no país na altura mas os únicos que apareceram foram Paula Barila Balopa, que também era futebolista, e Eric Moussambani, um estudante de engenharia de 22 anos e estes foram portanto os escolhidos para as duas vagas.


Sem treinador nem grandes condições, Moussambani foi treinando como pode: como só podia pagar uma hora por semana para nadar na tal piscina do hotel, também foi treinado a nadar num lago e no mar. Foi já em Sydney que viu pela primeira vez uma piscina olímpica de 50m e foi lá que a equipa da África do Sul lhe emprestou uns calções apropriados, já que até então ele nadara sempre com calções de praia. Tal como a sua compatriota, era suposto Moussambani competir nos 50m livres, mas acabou inscrito nos 100m livres.


No dia 19 de Setembro, o guineense-equatorial apresentou-se para a nadar a primeira de dez eliminatórias dos 100m livres acompanhado por mais dois nadadores, Karim Bare do Níger e Farkhod Oripov do Tajiquistão. No entanto, estes dois seriam desclassificados por falsa partida, o que fez com que Moussambani tivesse de nadar a sua prova sozinho na piscina.
Nas piscinas de aquecimento, ele observara os atletas americanos para lhes imitar a técnica e recebeu algum auxílio do treinador da África do Sul, no entanto viria a descobrir que da teoria à prática havia uma longa distância. Chegou aos 50 metros em pouco mais de 40 segundos mas após a viragem, o cansaço atingiu-o e a certo ponto, até pareceu que iria parar no meio da piscina. Porém, sob forte ovação do público, Eric Moussambani terminaria a prova em 1 minuto, 52 segundos e 72 centésimos, de longe o tempo mais lento de todos (o holandês Pieter van den Hoogenband venceu a prova em 48:30). Aliás o seu tempo era mais lento que o recorde mundial dos 200m livres. 


Porém a aventura de Moussambani tornou-o uma celebridade, com um jornal inglês a atribuir-lhe a alcunha "Eric The Eel" (Eric, a Enguia). E desde então, vários atletas que se notabilizaram pelas suas prestações invulgarmente lentas têm sido comparados a Moussambani. Embora a sua participação tenha sido um paradigma da máxima olímpica do que o importante é participar, também gerou debates sobre a validade de atribuir wildcards a atletas obviamente sem a preparação suficiente para competirem em provas daquele nível.

O tempo encarregaria de provar que Moussambani não era um atleta folclórico e que o seu desempenho em Sydney devia-se sobretudo à sua falta de experiência e de preparação adequada, já que nos anos seguintes viria a nadar em tempos minimamente aceitáveis. Nos campeonatos mundiais de 2001, foi penúltimo nos 50m livres, porém seis segundos mais rápido que o último e só não competiu nos Jogos Olímpicos de 2004, quando já nadava 100m abaixo de 57 segundos, por problemas no seu visto de viagem para a Grécia.




Actualmente, Eric Moussambani trabalha na exploração petrolífera, com a qual a Guiné Equatorial tem-se destacado no mapa económico mundial e é o actual seleccionador nacional de natação. Hoje em dia, a Guiné Equatorial tem uma piscina olímpica e Moussambani treina uma média de trinta atletas. 

Eric Moussambani em 2014 conta a sua experiência olímpica:           


 


terça-feira, 8 de setembro de 2015

Top 5 Canções de Madonna dos anos 80 (Paulo Neto)

Inexplicavelmente, a Enciclopédia de Cromos nunca dedicou um artigo a Madonna. Por isso já se impunha que aqui se abordasse a carreira da rainha da pop, até porque além de ser todo um ícone dos anos cromos, foi uma das primeiras cantoras de que me tornei fã ainda com tenra idade.


A carreira de Madonna Louise Veronica Ciccone já se estende há mais de quatro décadas, e apesar de alguns tiros ao lado, poucos artistas podem reclamar um percurso tão duradouro e consistente. Mesmo não tendo uma grande voz (e ela será a primeira a admitir isso), Madonna venceu sobretudo pela perspicácia com que se fazia de rodear das pessoas mais indicadas para manter o seu repertório na vanguarda da música pop e a sua capacidade de reinventar a sua imagem e causar controvérsia - e usar isso a seu favor - ao longo dos anos. Ainda que hoje por hoje, esteja numa fase de carreira onde o seu novo material editado já não causa (nem precisa de causar) o impacto de outrora, Madonna continua bem activa na sua carreira musical e de celebridade, a dar que falar e a fazer o que lhe dá na gana.



Apesar da impressionante longevidade da sua carreira, não há como considerar os anos 80 como o seu período mais marcante. Ao ponto de ser quase impossível pensar nessa década sem pensarmos em Madonna, no seu repertório de então e nos seus looks de roupas de renda e crucifixos. Por isso mesmo, neste texto vou falar das minhas cinco canções preferidas de Madonna nos anos 80.
Mesmo restringido a este período, e à semelhança de outros top 5, existem várias canções que tive de deixar de fora e por isso mesmo terão de ficar remetidas na secção das menções honrosas: "Lucky Star", "Material Girl" (que viria a tornar-se a sua alcunha), "Into The Groove", "Papa Don't Preach", "Who's That Girl", "La Isla Bonita" e "Dear Jessie"


#5 "Holiday" (1983): Na altura pode não ter tido tanta notoriedade de temas como "Lucky Star" ou "Borderline", mas com o tempo "Holiday" tornou-se o tema mais celebrado do primeiro álbum de Madonna, originalmente intitulado "Madonna - The First Album". Ainda hoje, mantendo-se como uma daquelas canções que sabem bem ouvir no Verão, de preferência na partida para férias, "Holiday" é de tal forma uma fan favourite que foi o tema escolhido para encerrar em beleza os concertos em diversas digressões de Madonna, incluindo a "Blonde Ambition Tour", famosamente documentada no filme "Na Cama Com Madonna".






#4 "Like A Virgin" (1984): Num repertório tão vasto como é o de Madonna, será sempre injusto apontar uma canção como a mais significativa, mas a haver uma canção-assinatura de Madonna será provavelmente "Like A Virgin". Faixa-título do seu segundo álbum, o tema causou burburinho logo a partir do título (por causa da simples menção da palavra "virgin") e que se estendeu ao videoclip filmado em Veneza onde Madonna ora saracoteava numa gôndola como se via num jogo de perseguição com um homem com máscara de leão e um leão a sério. Mas o ponto alto foi a sua actuação nos primeiros MTV Video Music Awards em 1984, com Madonna a começar vestida de noiva no alto de um bolo gigante e a terminar a rebolar pelo chão e mostrar mais do que seria possível diante de uma assistência completamente atónita. Esse momento é tido como aquele em que Madonna passou de estrela em ascensão à supernova  que se conhece.







#3 "Live To Tell" (1987): Incluído tanto no álbum "True Blue" de 1986 como na banda sonora do filme "Homens À Queima Roupa" no qual entrou o seu então marido Sean Penn, "Live To Tell" é considerado um dos temas mais bem conseguidos de Madonna, sobretudo a nível da letra. A minha parte preferida é o momento em que parece que a canção vai para acabar para ressurgir em força com a voz de Madonna a cantar "If I ran away, I'd never have the strength to go very far".





#2 "Crazy For You" (1985): Embora mais conhecida pelos seus temas mais mexidos, Madonna nunca foi moça para desdenhar uma balada romântica. Por entre a facção mais baladeira do seu repertório, o melhor exemplo para mim continua a ser "Crazy For You", da banda sonora do filme "Vision Quest - Vontade de Viver" com Matthew Modine e Linda Fiorentino, onde Madonna tinha uma pequena aparição a cantar num bar. (Além deste, Madonna cantou outro tema do filme, o excelente e frenético "Gambler"). Como se não bastasse toda a sonoridade romântica, a letra era toda uma síntese daquilo que é dançar agarradinho com a pessoa por quem sentimos um fraquinho, na esperança que seja um prenúncio de uma curte. ("Slowly now we begin to move/ with every breath I'm into you./ We're so close but still a world away"). Por isso não foi de estranhar que "Crazy For You" tenha sido um tema obrigatório em várias festas de garagens nos anos 80.






#1 "Like A Prayer" (1989): No entanto, a meu ver, a obra-prima de Madonna é "Like A Prayer", o épico tema que deu nome ao seu álbum de 1989. Do início solene com "Life is a mistery/ Everyone must stand alone/ I hear you call my name/ and if feels like...home" ao final apoteótico com o coro gospel, "Like A Prayer" permanece para mim como uma das canções mais perfeitas de sempre. E depois claro, há o célebre videoclip, todo um cocktail explosivo de religião, crime e relações interraciais que foi banido em certos países como Itália e levou a Pepsi a abandonar o milionário contrato que tinha feito com Madonna. (Para mim, a parte que me fazia mais impressão era a cena da stigmata que surgia nas mãos dela).  Ironicamente, "Like A Prayer" venceu o prémio da escolha telespectadores nos MTV Video Music Awards, um prémio patrocinado pela Pepsi.


ALF - Colecção de Calendários e Autocolantes


Além da obrigatória colecção de cromos ( da Panini), nos anos 80, qualquer filme ou série que se prezasse tinha que existir também na forma de calendários de bolso coleccionáveis. Tal foi o caso desta colecção de "ALF - Uma Coisa do Outro Mundo", a sitcom de sucesso global sobre o peludo extraterrestre ALF que - numa premissa semelhante ao E.T. - naufraga na Terra e encontra abrigo no seio de uma família norte-americana.

Alguns dos exemplares da minha colecção pessoal, clique para ver em tamanho maior:


O elemento invulgar desta colecção de imagens da série e outras ilustrações relacionadas, é o facto de 18 dos calendários serem também autocolantes destacáveis. 


Esta edição da Impala foi adaptada da série 1 do "ALF Topps trading cards" de 1987, que nos pacotes da Topps foi vendida com 1 pastilha elástica. Mas, ao contrário da edição portuguesa, não possuía o calendário no verso dos cards, mas curtos e divertidos factos sobre ALF e o seu planeta:

Tenho que agradecer ao leitor Peter Gunn que ainda preservou e partilhou connosco uma das carteirinhas onde eram vendidos, e cujas fotos reproduzo de seguida.

A frente da carteirinha:


No verso da carteirinha - além de ALF a assustar uma abóbora de Halloween - a seguinte descrição:
"As maiores aventuras do ALF numa sensacional colecção de 69 CALENDÁRIOS e 18 STICKERS.

Colecciona as histórias e equipas de basebol preferidas do velho ALF e ainda as suas frases mais divertidas em autocolantes. ALF é mesmo uma colecção do outro mundo."

A maioria dos calendários consistiam em cenas retiradas dos episódios, com algumas legendas ou balões de fala, ao estilo da banda desenhada.



Ao estilo dos clássicos cards coleccionáveis de basebol norte-americano, uma série de ilustrações dedicados aos maiores jogadores de Bouillabaseball de Melmac, o planeta natal de ALF.

Os "stickers"/autocolantes:

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sábado, 5 de setembro de 2015

Casino Royal (1990)

por Paulo Neto

"Casino Royal" marcou o regresso de Herman José da RTP depois da enorme polémica com seu programa anterior "Humor de Perdição". Desta vez, para não haver problemas, o programa só foi transmitido depois de ter sido todo gravado em finais de 1989, estreando a 22 de Janeiro de 1990.




A acção de "Casino Royal" decorre em Lisboa, em plena Segunda Guerra Mundial. Artur Royal (Herman José) dirige o seu requisitado casino, que se torna palco de várias manobras de espionagem. Royal tenta não envolver-se nessas intrigas, até porque já tem problemas que chegue na vida pessoal: o seu casamento com Celeste (Ana Bola), mulher inquieta viciada em cafezinhos cooooooooom leite e em empregar o vocábulo "a bem-dizer" em cada frase, já viu melhores dias e a filha de ambos, Ivete Carina (Rita Blanco) é uma jovem rebelde e insubordinada. Mas quando descobre que o seu aparentemente ingénuo porteiro Alverca (Nuno Melo) é na verdade um colaborador do III Reich, Royal, incentivado pelo espião inglês Phillip (Filipe Ferrer), aceita colaborar com os Aliados e disfarça-se da espanhola Maricarmen (dona de uns guinchos de fazer inveja à Maximiana) para sacar informações a Alverca.


Arthur Royal (Herman José) e Phillip (Filipe Ferrer)

Celeste (Ana Bola) e Zizi (Lídia Franco)



Maribel (Maria Vieira)

Alverca (Nuno Melo)

Maricarmen (Herman José)


Natacha (São José Lapa) e Cachucho (José Pedro Gomes)



Trafaria (Vítor de Sousa)


Brembilla (Margarida Carpinteiro)
Crispim (Herman José )

Ivete Carina (Rita Blanco)

Além de Phillip, os outros espiões residentes do casino são a italiana Brembilla Testarossa (Margarida Carpinteiro), uma hábil manobradora de bestas, a francesa Zizi Lautrec (Lídia Franco), mulher fria e calculista porém apaixonada por Royal, e a russa Natacha Seminova (São José Lapa), que se apaixona por Cachucho (José Pedro Gomes), um amigo do casal Royal que vive nos esgotos do casino, de cujo amor nascerão dois jaquinzinhos. 
Royal tem também um irmão gémeo, Crispim, porteiro das traseiras do casino, constantemente embriagado e cheio de filosofia barata, mas com quem todos simpatizam. Entre as suas manias, Ivete diverte-se a assediar Antímio Trafaria (Vítor de Sousa), o dedicado encarregado da roleta do casino que volta e meia lá vai exclamando aos apostadores "Renevapliu!" e "Fertêvogê!". Trafaria fica muito incomodado com os assédios da rapariga, até porque tem um casamento feliz com Maribel (Maria Vieira), a vendedora de cigarros do casino.
Além de Royal, Crispim e Maricarmen, Herman José desdobrou-se em mais duas personagens: Gradivia Prépacova, czarista russa exilada no Seixal, que é a mãe biológica de Natacha e Ivete, que afinal foi adoptada pelos Royal quando Celeste a encontrou numa cestinha de vime na Serra da Gardunha e o Führer Adolph Hitler himself, que terá um curto mas tórrido romance com Celeste. 

Entre os diversos plot twists ao longo dos treze episódios descobre-se que Ivete e Phillip tiveram um caso do qual nasceu um filho chamado Ricardo e que Maribel afinal é uma extraterrestre. Mas no final, tudo acaba bem com todas as personagens emparelhadas e casadas menos Maribel que está de regresso ao seu planeta.

Como era habitual nos programas de Herman José, "Casino Royal" teve uma boa dose de humor transgressor e nonsense, com os actores frequentemente a desmancharem as personagens e mandarem bocas sobre o programa e os cenários e lançou bordões como "A língua portuguesa é muito traiçoeira!", "- Não vás mais longe. - Eu não, fico já aqui!" ou "- Por quem és. - Pelo (clube de futebol aleatório)". E apesar da acção da série passar nos anos 40, houve inúmeras referências jocosas à situação do então tempo presente. 

Lara Li esteve entre os convidados musicais do programa

"Casino Royal" teve também várias actuações musicais quer da parte de Herman José (à vez na pele de Artur Royal, Crispim ou Maricarmen) quer do cantor convidado de cada episódio. Convidados esses que foram Simone de Oliveira, Cândida Branca-Flor, Marina Mota, Joel Branco, Alexandra, Helena Vieira,  Carlos Guilherme, Maria Viana, Lena D'Água, Maria de Lurdes Resende, João Braga, Rui Veloso e Lara Li. Desses momentos musicais, recordo o de Rui Veloso a cantar "A Costureirinha da Sé" com todos os figurantes deitados no chão, supostamente mortos por comerem batatas fritas envenenadas, que a dada altura ressuscitam para trautear o tema e impedir que Rui Veloso cante o "Porto Sentido".


Antes da estreia, no programa especial da RTP para a passagem de ano 1989/1990 (onde entre vários blocos foi exibido pela primeira vez na televisão portuguesa o filme "Os Caça-Fantasmas"), houve uma breve apresentação do programa e do elenco (excepto Rita Blanco que não esteve presente) onde se reuniram para cantar o tema principal.


Programação da RTP no dia da estreia do programa (Diário de Lisboa)


Genérico:



2.º episódio:



   

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Colecção de copos Disney (1982)

 Nesta promoção de 1982, bastava juntar as tampas das garrafas de litro de Sprite ou Coca-Cola. Com quatro tampas dessas bebidas era possível conseguir um copo grátis. A colecção completa era composta de 6 copos diferentes (portanto, 24 litros de bebidas gaseificadas) decorados com "o desenho do teu herói Walt Disney preferido", que podem ver na imagem seguinte, em maior detalhe:




Publicidade retirada da revista Pato Donald Nº 26, de 1982. 

Uploader original desconhecido. Imagem Editada e Recuperada por Enciclopédia de Cromos.

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terça-feira, 1 de setembro de 2015

"Um Dia De Domingo" Gal Costa & Tim Maia (1985)

por Paulo Neto

Já falei aqui como o "Dou-te Um Doce" da Lena D'Água foi uma das canções do Verão de 1986. Mas nesse mesmo Verão ouve um ainda maior êxito musical vindo do outro lado do Atlântico, uma daquelas canções que nos anos 80 se eternizavam no 1.º lugar do top nacional. Tratou-se "Um Dia De Domingo", um dueto absolutamente avassalador interpretado pela baiana Maria da Graça Costa Penna Burgos e pelo carioca Sebastião Rodrigues Maia, mais conhecidos como Gal Costa e Tim Maia.





A épica balada de seis minutos, da autoria de Michael Sullivan e Paulo Massadas, até tinha uma estrutura simples: primeiro Gal Costa chilreava a sua parte. E depois Tim Maia atacava com a sua voz portentosa a sua parte, repetindo a letra, e após uma parte instrumental e de ad libs, os dois uniam as vozes para repetirem de forma apoteótica o refrão. O sucesso foi particularmente esmagador em Portugal com as rádios nacionais a tocarem incessantemente o tema, ao ponto que na altura muitos tugas tinham a letra toda na ponta da língua.

Eu preciso te falar
Te encontrar de qualquer jeito
P'ra sentar e conversar
E depois andar de encontro ao vento

Eu preciso respirar
O mesmo ar que te rodeia
E na pele quero ter
O mesmo Sol que te bronzeia
Eu preciso te tocar
E outra vez te ver sorrindo
E voltar num sonho lindo

Já não dá mais p'ra viver
Um sentimento sem sentido
Eu preciso descobrir
A emoção de estar contigo
Ver o Sol amanhecer
E ver a vida acontecer
Como um dia de Domingo

Faz de conta que ainda é cedo
Tudo vai ficar por conta da emoção
Faz de conta que ainda é cedo
E deixar falar a voz do coração

"Um Dia De Domingo" cimentou Gal Costa como uma das cantoras brasileiras mais apreciadas no nosso país e apresentou Tim Maia que, apesar da sua vasta obra e o legado de ser considerado como o pioneiro da música soul no Brasil, era ainda relativamente desconhecido por cá. Pelo menos eu nunca tinha ouvido falar dele antes, e apesar de na altura ter apenas seis anos, já conseguia identificar nomes da MPB como Roberto Carlos, Maria Bethânia, Caetano Veloso ou Ney Matogrosso.



Como a canção não tinha videoclip oficial, em substituição o que passava por cá no Top Disco era uma actuação de Gal Costa e Tim Maya no programa do Chacrinha, o extravagante apresentador no qual Ediberto Lima havia de se inspirar para criar o Big Show SIC. Essa actuação ajudou a contribuir ainda mais para o misticismo cromo do tema: como se não bastasse ver uma Gal Costa, que não estava nada mal para uma recém-quarentona, e um enorme e suado Tim Maia a cantarem bem agarradinhos sob os gritos histéricos de uma assistência, na parte instrumental, Chacrinha desata a gritar "É demais! Todo o mundo aí! É demais, demais!". Esse espasmo vocal do apresentador era tão marcante, que aposto que não serei o único que, ao ouvir a canção na rádio, estaria à espera de ouvir o  "É demais!" do Chacrinha. 



"Um Dia De Domingo" contribuiu para que o respectivo álbum "Bem Bom", editado em 1985, fosse o mais vendido de sempre de Gal Costa em Portugal. Na nossa casa, havia um exemplar do disco que tinha a particularidade de, ao desdobrar a capa, ter uma foto quase de corpo inteiro de Gal Costa. O álbum continha faixas escritas por nomes tão consagrados como Erasmo Carlos, Roberto Carlos, Djavan, Cazuza, Chico Buarque e Milton Nascimento. O outro hit do álbum foi também um dueto, "Sorte", com desta vez Gal Costa a cantar com o seu velho comparsa Caetano Veloso.




Actualmente com setenta anos, Gal Costa continua bem activa e imparável, tendo continuado a dar vários concertos em Portugal. Infelizmente Tim Maia faleceu a 15 de Março de 1998, com 55 anos, num culminar de vários problemas relacionados com a obesidade, álcool e drogas. Mas a sua obra continua a ser muito celebrada no Brasil: além das várias homenagens póstumas, a sua campa é local de romaria e em Junho deste ano, foi inaugurada uma estátua sua no bairro da Tijuca.



"Um Dia De Domingo" fez recentemente parte da banda sonora da telenovela "Alto Astral", actualmente em exibição na SIC.



 
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